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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XIII
publicado em: 25/09/2017 por: Lou Micaldas

"Não causava danos senão a mim mesma, que eles de nada sabiam, nem suspeitavam,
ou porque eu era ótima atriz, ou porque, ai de mim, ninguém se detinha na minha pessoa."

Num chuvoso dia de agosto, pela madrugada, Lúcia começou com as dores.

Na véspera, logo após o jantar, ela deitou-se e dormiu um sono profundo.

Era a natureza que se preparava para o trabalho do parto. Eu andava, estes últimos dias, sempre atenta e preocupada demais para poder dormir um bom sono. Assim, logo que ouvi movimento na casa, saltei de um pulo da cama e fui espiar na porta. Vi Rui que passava para a sala.

- Está na hora - disse ele risonho.

Vesti um roupão e fui vê-la; fiz uma cara alegre:

- Então?

Pálida, comprimindo o ventre com ambas as mãos, respondeu:

- Dói muito, Marta, há bastante tempo começou e agora está apertando. Mas Rui diz que ainda vai demorar... ui... ui... - fez ela mordendo o lábio inferior, com uma carinha triste.

Quis que se deitasse, mas disse-me que não, que devia andar, era o que fazia bem. Em camisa, andava a passos lentos e cadenciados pela casa, e a cada instante parava, agarrava-se a um portal, gemendo, até serenar o espasmo.

Procurava animá-la, conversando ora com Rui, ora com Paula, para distraí-la. Ria e caçoava, enquanto arrumava na maleta a roupa que levariam para a casa de saúde.

Mas estava muito preocupada, e era horrível vê-la assim sofrer, sem poder fazer mais que esperar. Trouxeram a refeição da manhã e ela tomou apenas uns goles de leite.

Rui marcava, no relógio de pulso, o espaço entre uma e outra dor. Estava aparentemente calmo, mas eu tinha visto sua mão tremer ao pegar a xícara que eu havia posto à sua frente.

Iria, por certo, enquanto esperasse, fumar desbragadamente, acendendo um cigarro noutro e cumprindo o programa dos papás aflitos, que é tudo que lhes cabe.

Lá se foram eles, e eu ali fiquei feito boba, encostada ao portal, pensando só em coisas ruins. Quantas horas sofreria ainda? Bem se dizia que Deus é homem! Que tortura! Por que não se fazia algo para acabar com o sofrimento? "Era a vontade de Deus..." diziam os carolas.

Absurdo! Então não tratassem nenhuma moléstia. Nada no mundo acontece sem a vontade de Deus! E se ela morresse? Horrível! Como podia pensar isso? Não; por que morreria? Tudo estava tão bem... o marido era médico, haveria outros tantos por lá, e ela era tão bem conformada... Todas sofriam assim... Deus havia dito: "Tu em dor parirás teus filhos..." E agora era cumprir por todos os séculos, amém.

Súbito, lembrei-me da criança, e uma grande alegria inundou-me por pensar que chegaria a qualquer momento, e eu iria vê-la. Como seria a carinha dela? Ela, ou ele?

- Se assuste não, dona Marta, é coisinha à toa.

Era a voz de Paula que me vinha arrancar de meus pensamentos.

- Eu tive cinco - dizia ela, mostrando-me a mão de dedos nodosos, e continuou. - Dona Lúcia é larguinha de cadeiras, num instantezinho há de nascer a criança dela... eu tive menino até sozinha, eu e Deus. Quando a dô vinha vindo, eu fazia uma força danada, e chamava: Virgem Maria, me acuda! Até que na horinha, o moleque pulava fora. Eu nem pia de falá estas coisas pra senhora, que é sortera - completou cheia de escrúpulos.

- Não faz mal... eu não sou solteira, Paula, sou solteirona... é outra coisa.

- Que o quê, dona; a senhora tá moça aí! Eu, que tenho visto tanta véia casá... Quarqué dia a senhora também desembucha. Vai vê só. Espera, que vou dá uma olhada no meu fogão...

Lá se foi, bamboleando os enormes quadris, e da cozinha me gritou:

- Vem, moça, tomá seu café, que ainda não tomou nenhum tiquinho!

As horas passavam e nada. Nem notícias. Tínhamos combinado que Rui me telefonaria assim que nascesse. Não queria crer que ela estivesse ainda sofrendo, preferia pensar que, talvez em meio da sua felicidade, ele me houvesse esquecido.

Olhava, com raiva, para o telefone mudo, com vontade de ordenar-lhe que tocasse a maldita campainha. Que dia comprido, Maria Santíssima! De vez em quando, Paula dizia qualquer coisa, a que eu não respondia, que nem sequer escutava.

Pensava: devia ter ido, seria preferível assistir a tudo, por pior que fosse, a essa angustiosa espera. Mas eles decidiram que eu não ia, nem sei mesmo porquê... Talvez porque eu fosse "sortera", como disse Paula. Ora bolas! Era solteira, mas não era burra. Seria ridículo estarem a me tratar como uma donzelinha.

Não queria pensar em coisas ruins, mas elas são como as moscas: a gente enxota, elas dão uma voltinha e cá estão de novo azucrinando. Quando começou a cair a tarde, resolvi ir para lá, não agüentava mais, já via tudo morto: Lúcia e o filho. Impossível continuar assim. Todos os casos de mau parto me vinham à idéia: eram as "moscas". Corri ao quarto para me arrumar e passava o pente nos cabelos quando o telefone gritou. Não, não foi ele que gritou, fui eu; e, de um salto, alcancei-o, estancando-lhe o tilintar.

- Alô...

A voz de Rui:

- Marta, nasceu... tudo muito bem, muito feliz!

- Menina ou?

- Homem! Chama-se Paulo. Lúcia pede que você venha.

Desliguei. Um longo suspiro me desoprimiu.

- Paula, Paula - gritei para a cozinha - já nasceu, é menino e se chama Paulo, creio que foi em homenagem a você - completei rindo.

Ah! Dona Marta, foi não... Graças a Deus! - e levantou as mãos para o céu - Graças a Deus! Eu num disse?

O que foi para mim esta criança!

O meu Paulinho!

Sentada ao lado da cama, com o bebê em meus braços, eu o contemplava enternecida, nem acreditando. Que carinha linda! E dizer que são feios os recém-nascidos...

Parecia um bonequinho. O rosto rosado, os olhos vivos e a boca pequenina! Fazia umas caretinhas encantadoras e chupava com tanta força a chupeta, como se estivesse treinando nesse ofício.

Os dias em que Lúcia ficou na casa de saúde, eu só raras vezes ia em casa. Passava as noites com ela e, durante o dia, na hora de mamar, era eu que o levava ao seio da mãe. No começo, era uma luta, não sabia pegar o seio e chorava ranzinza, como se nós tivéssemos a culpa. Mas, depois de duas ou três vezes, em que foi preciso chamar a enfermeira para ajudá-lo no "bufê", aprendeu e dava um avanço, que muito nos fazia rir.

Lúcia, bem disposta, preparava-se toda bonita, com suas liseuses de seda e rendas, passando uma fita nos cabelos, à espera das visitas. Ganhou muitos presentes e, diariamente, enchia-se o quarto de visitas. Choviam elogios à beleza de Paulinho, que, não raro, protestava, modesto:

Ué! Ué! Ué!" Discretamente eu fazia uma figa atrás das costas, para espantar mau olhado.

Rui vinha uma ou duas vezes ao dia. Demorava-se pouco; os clientes não lhe davam muito tempo para gozar as delícias de ser pai. Tinha mais jeito do que nós para pegar o nenê, e agora, que não era "toalha amarrada", ficava sem palavras, olhando o filho.

De volta para casa, a vida se normalizou, com mais aquela pessoinha querida de todos nós. Lúcia gostava de brincar de mãe, dava banho no menino, cobria-o de talco e levava tempo na escolha da roupinha. Era um gozo vê-lo afogado em rendas e fitas, arminhos e filós, rosas, azuis, brancos.
Engordava rápido, a perninha já enchia o sapato de tricô, no fim de um mês. Pensaram em tomar uma ama. Protestei. Não estava ali? Que ficaria fazendo? Bastava que a Elza lavasse a roupinha, eu tomaria conta do menino.

Passávamos o dia às voltas com a criança. Vê-lo sorrir, chupar o dedinho e até chorar, de carinha feia e enrugada, era um espetáculo. A cada "gracinha", era coberto de beijos estalados, apesar dos babadouros que eu mesma bordei com os dizeres: "Não me beije". Depois que fez um mês, Lúcia começou a sair. Visitas para pagar, chás de aniversário e outras coisas mais atraíam-na pela semana toda. Então eu ficava com o bebê só para mim.

Batizou-se num domingo, à hora da missa. Eu representei a madrinha, e um colega de Rui, o padrinho. Os verdadeiros foram os tios de Rui, que o criaram e o ajudaram a formar-se. Velhos e adoentados, não puderam vir. Escreveram, abençoando o menino e agradecendo a homenagem. Pediam que o levassem, mais tarde, à Bahia, para vê-lo. Remeteram um cheque de cinco contos para o presente. Uma fortuna.

No almoço que se seguiu ao batizado, só se falou na viagem. Esperariam que crescesse um pouco, e lá iríamos todos à Bahia. Visitaríamos também tia Clara, que morava mesmo em Salvador, e Luís dizia que valia a pena o passeio. Era muito interessante a Bahia, e a mãe dele ficaria encantada com a visita. Rui perguntou-lhe se queria também ingressar na caravana. Luís respondeu que era possível, dependia só da época em que fôssemos, pois que, dentro de seis meses, estaria apresentando o livro.

- E cadê o capítulo que você me prometeu? - perguntei - Você levou um sumiço e nem me trouxe uma linha sequer... Já está pronto?

- Pronto, não, que esperança! Tenho só umas poucas coisas escritas, mas não trago... é melhor você ler todo inteiro.

- Por quê?

- Porque assim não vale a pena... o que escrevi é pouco e nem mesmo sei se há de ficar, ou se vou transformar em bolotas. Se vocês vissem o montão de bolotas que eu faço quando escrevo! Escrevo, amarroto, escrevo, amarroto, até encher a cesta.
Rui perguntou:

- E como é que você diz que vai publicar o livro dentro de seis meses?

- Ah! Meu velho, isto é um compromisso comigo mesmo. Quero provar o meu talento, e, se não o fizer dentro de seis meses, desisto. Convenço-me de que sou burro e, pronto, vou viver sossegado.

Rui sugeriu:

- Vá viajar, ver gente nova, caras novas, novos lugares, e as ideias hão de se clarear... Você deixava de ser fazedor de bolotas e realizava sua obra.

- Mas eu vou - respondeu Luís. - Vou na próxima semana para São Paulo, meto-me num hotel e toca a escrever. Tenho amigos e parentes lá, mas não quero ir para casa de ninguém, não gosto. Só de vez em quando visito uns e outros para colher idéias frescas. Aqui, eu ando de um lado para outro e, não sei porque, não faço nada. Num instante o dia acaba. Essa vagabundagem deixa um vazio na cabeça!

- Está sem ideia?

- Não. Ideias tenho. A história está inteirinha na massa cinzenta, mas não consigo concatená-la para pô-la no papel. Olho para dentro do meu "coco" e vejo tudo preto.
- Sua massa cinzenta ficou preta? - galhofou Lúcia.

- Ora, Luís, pare de palhaçada e conte o seu romance para nós. Você pode fazer um apanhado, um resumo, só para a gente ver como é.

- Vocês vão se cacetear...

- Larga a modéstia, rapaz, ande logo e solte o verbo - acrescentou Rui.

E ele começou, meio gago, a contar uma história, entrecortada de apartes. O assunto era triste; Pedro, o sujeito, sofria muito. Um Pedro infeliz, um Pedro sozinho na vida. Um Pedro que chorava como uma criança.

Empolgado, Luís falava recitando, declamando, com entonações dramáticas, certas passagens da desgraçada vida de Pedro. Eu ficava querendo apinhar o que haveria daquele Pedro infeliz sob a máscara jovial de meu primo. Aquela necessidade de escrever traduzia, talvez, uma necessidade de desabafo. E, quem sabe, o Pedro seria a sua válvula de escape?

Ele terminava com a narração do suicídio de Pedro, que se tinha enforcado na bandeira da porta. E descrevia o cadáver balançando, as feições descompostas.

Lúcia gritou:

- Pára, diabo! Estou ficando nervosa!

E ele, pondo-se de pé:

- Pois é isso mesmo que eu quero! Quero que as senhoras nervosas tenham chiliques ao lerem meu livro - e dava risada. Eu o observava e via-o alegre, galhofeiro, com jeito de não levar nada muito a sério. Qual seria o verdadeiro Luís?

Rui perguntava, interessado:

- Até onde você já escreveu? Não vá esquecer tudo...

- Não tem perigo - ele atalhou - a memória é forte, só que ando meio doido e não consigo arrumar as ideias.

- Você está é ficando obcecado, precisa distrair-se... Por que não arranja uma namorada?

- Namorada? - fez ele escandalizado - Se arranjar uma namorada, já não escrevo direito a solidão do homem. É preciso que se sinta, não compreende? A gente tem de sentir o que escreve, para que a narrativa tenha força, impressione. O autor é como o ator, ambos têm de viver o papel: um, o que inventa; outro, o que representa.

- É por isso que você anda assim nervoso! Vivendo essa desgraceira toda, pudera! Não vá também se enforcar como o Pedro, não convém exagerar - disse Rui.

Depois da sobremesa fomos para a varanda, onde tomamos o cafezinho. Os homens soltavam grandes baforadas de fumaça, espalhando no ar o cheiro bom de tabaco. Voltou-se a falar na viagem à Bahia. Rui dizia que só esperaríamos que Paulinho estivesse andando. Havíamos de passear bastante e conhecer bem o Estado que, ele, apesar de criado lá, não conhecia.

Lúcia falava nas lindas coisas que compraria; bem informada por tia Clara, sabia o quanto havia de maravilhoso por lá. Mas Paulinho não estava interessado no assunto. Aborrecido na camisola comprida, gritava afogado em rendas e fitas. Mudei-lhe a roupa, apesar do protesto da mãe vaidosa, que queria conservá-lo abonecado. Sossegou um pouco, mas era incrível como ele, tão pequenino, já conhecia o colo. Estava ficando muito mal acostumado.

À noite, muitas vezes eu tinha de acudir Lúcia, que não conseguia acalmá-lo. Dávamos aguinha com açúcar, chá de laranja às colherinhas e só a muito custo adormecia. E o pai ficava amolado. Tinha de acordar cedo, deitava-se sempre tarde, e não dormia à noite, com o berreiro. Ofereci que pusessem o menino no meu quarto. Protestaram, que não era justo, que pelo dia todo eu já tomava conta dele, mas insisti, afirmando-lhes que não dormia do mesmo jeito, bastava ouvir-lhe o chorinho e já estava acordada, e isso tanto fazia aqui como lá. No dia seguinte, Paulinho mudou-se com cargas e bagagens para meu quarto.

Passaram-se alguns anos em que a minha vida se resumia na vida daquela criança. Gostava de senti-lo meu. Tudo o mais desaparecia em volta de mim, e eu me via sozinha no mundo, com ele nos braços.

Mas um dia fugi.

Foi bem uma fuga de mim mesma, o que realizei naqueles dias em Petrópolis.

Rui e Lúcia quiseram voltar lá, onde haviam passado a lua-de-mel. Diziam que queriam mostrar a Paulinho o lugar que tinha sido o "céu" para eles.

Pensei em não ir. Mas vi que não podia furtar-me. Que haveria de dizer para ficar? E o menino? Precisava de mim, e eu não podia abandoná-lo por covardia.

O trem corria serra acima. A cabeça encostada à janela, eu me deixava atordoar pelo ruído monótono das rodas. Um vento fresco esvoaçava-me os cabelos. De olhos semicerrados, eu espiava a paisagem. Via a máquina, fumegando, lançando chispas e rolos de fumaça escura, que saía grossa e se adelgaçava e diluía ao vento. Parecia um monstro esbravejando colérico, serpenteando veloz pela mata verde e cheirosa.

Ocupávamos um dos últimos carros, e eu podia vê-lo quase inteiro ao virar nas curvas.

Aspirava em longos sorvos aquele cheiro gostoso de terra e mata.

O cérebro vazio se negava a pensar; o pensamento flutuava no espaço, longe de mim.

Meu corpo abandonado trepidava aos solavancos, eu tinha apenas os sentidos vivos e curiosos de sentir, ouvir, ver, cheirar. Tudo me encantava. A manhã clara e fresca. O céu de um azul intenso. No horizonte, onde as montanhas se recortavam azuladas, as nuvens pareciam flocos de algodão. Impregnada da paisagem, fechei os olhos para guardá-la dentro de mim, para sempre.

E o trem corria, corria...

Ah! Se eu pudesse, bem que ele não parava mais... Correria assim, sempre assim, sem destino, sem pouso, para a frente, para a frente, como a vida mesma...

- Está dormindo? - perguntou Lúcia, a meu lado.

Subitamente meu eu integrou-se, e tomei posse de mim mesma:

- Eu? Não... Ah! Sim... um pouco... cochilei...

Riram-se do meu embaraço, e eu os odiei por me arrancarem daquela sensação estranha e doce de flutuar, sem corpo, só alma, num encantamento.

- Você sabe onde está a chupeta do Paulinho?

- Não está na sacola?

- Não, na sacola não está. Santo Deus, se ele acordar, vai ser uma viagem muito pertida!...

Olhei o menino. Embalado pelo sacolejar, dormia; as faces coradas, a boquinha entreaberta, um rosto angélico e sereno. Mas... e a chupeta? Isto era mais que suficiente para transformar aquele "anjo" no pior diabinho. Rui, imóvel, fazia do colo um berço confortável, acompanhando o balanço e protegendo da luz, com a mão em pala, o rosto da criança. Eu e Lúcia catávamos a chupeta em sacolas e maletas, mesmo com a certeza de não encontrá-la, mas na ingênua esperança de um milagre.

Tchéééééé! Fez o trem numa parada súbita. O carro deu uns solavancos, bufando como um animal cansado. Paulinho abriu imediatamente os grandes olhos cheios de luz e pôs-se, muito espantado e curioso, a observar em volta.

- Doce de leite! Requeijão fresquinho! - Gritava a voz esganiçada de um garoto, com a sua caixinha de pau pendurada ao pescoço, mostrando uns dentes grandes e amarelos na cara sardenta..

- Neném tééé! Neném tééé! - Pediu Paulinho, a mão estendida.

- Não, meu filho, isso não pode, mamãe dá um "coto" - respondeu Lúcia estendendo-lhe um biscoito.

- Nan-nan-nan-nan-nan! - teimava o menino, acostumado, como estava, a ser obedecido.

O trem pôs-se em movimento, e Paulinho veio para o meu colo. Em vão procurávamos acalmá-lo, mas ele esperneava e gritava que queria o doce, e nós nos resignamos a viajar todo o tempo ouvindo a "música" de Paulinho.

Lúcia dizia:

- Incrível como ninguém se lembrou! Somos três, e a coisa mais importante do mundo a gente esquece.

Ele se aquietara um pouco, e Lúcia comentou:

- Vai ver que a gente está tão preocupada com a coisa e ele nem está ligando...

Como se fosse transmissão de pensamento, Paulinho empertigou-se e declarou:

- Neném té pepeta.

Houve um pequeno silêncio em que os três pensamos ao mesmo tempo: "Pronto; é agora que vai começar."

E começou, de fato.

Em pouco tempo, todo o carro tomou conhecimento da nossa tragédia, e, solidários conosco, ofereciam ora uma fruta, ora um biscoito, e faziam festas e gatimonhas para distrair a nossa ferazinha.

E Paulinho mostrava toda a sua força de querer nos seus dezoito meses.
- Neném téééé! - gritava ele agudamente, lavado em lágrimas. E assim entramos em Petrópolis.

Com a chegada à estação, o bulício de saltar e às voltas com a bagagem distrairam-no. Pude então falar-lhe docemente:

- Neném feioso... "fazeu" manha... a titia não gosta, hem?

Os olhos faiscantes de curiosidade luziam na carinha banhada de lágrimas, mas já estava esquecido da chupeta, com o interesse voltado para o movimento da estação e atordoado pelo zunzum.

O hotel. Nunca havia estado num. Meu mais longo, mais distante passeio, até aquela data, tinha sido a Niterói. É bem possível que eu tivesse a mesma expressão de encantamento de Paulinho. A mesma surpresa nos olhos, ávidos de tudo ver, paisagens, pessoas e coisas. "Cidade das Hortênsias"! E eu as via por toda parte, em enormes tufos, adoravelmente azuis.

O hotel era o mesmo onde haviam passado Lúcia e Rui sua lua-de-mel. Majestoso prédio em centro de jardim. Eles, por feliz acaso, tinham obtido o mesmo quarto nupcial. Eu e Paulinho ficamos ao lado. Não eu, a tia Marta, mas um outro "eu", que veio para a serra com uma alma azul como as suas hortênsias. Alma de sonho. E foi sonhando que passei lá aqueles dias.

Clareava a manhã e já estava de pé, e ia, com o menino pela mão, correr pelas alamedas de margens floridas. Eles reviviam a lua-de-mel, quase esquecidos de que tinham um filho. Eu os deixava sós. Que gozassem.

Corríamos, Paulinho e eu, por entre os canteiros banhados de sol. Brincava de "pegar" com o menino e, quando o alcançava, cobria-o de beijos. Sentia-me leve e tão docemente feliz! Nunca, em minha vida, tive esta sensação de flutuar, sentindo a vida que me corria nas veias, latejando. Expandia-me em gritos de prazer e, queimando aquela vitalidade efervescente, corria pelos jardins, sentindo crescer dentro de mim uma onda de estranha ternura, que me afogava.

Um como zumbido de abelhas em meus ouvidos punha-me longe das coisas reais e palpáveis. Apertava, na mão, a pequenina mão da criança, sem mesmo olhar para ela, como se ela não existisse. Só eu existia dentro do meu sonho. Eu e aquele ruído de água borbulhante, que vinha do repuxo do jardim, despertando, por estranha associação, uma sede de gozar tudo na vida. Marulhava docemente a água, e eu como que a sentia deliciosamente fresca em meu corpo.

Queria ser sozinha no mundo, para poder mergulhar nua ali, ouvindo, bem junto a mim, o doce murmurejar da água cariciosa. Eu me desconhecia. Sou eu esta Marta? A velha Marta quieta e pensativa? Até o menino, o meu Paulinho, era como se estivesse longe. Sentia que ele era apenas um pretexto para minhas loucas expansões. Que, sem ele, não se justificaria correr como uma tonta, e rir, e gritar estes gritinhos, estridentes como campainhas e alegres como guizos.

E, Deus meu, em volta de toda esta exuberância, ou no fundo, talvez, havia algo meigo e triste como uma saudade, bailando qual mariposa em torno da luz. E a luz brilhava, e a mariposa voejava, batendo as asas frágeis.

Saudade de quê? Saudade do que eu quisera ter sido, e que não fui...

Subitamente sonhei, como na minha meninice: "Vamos brincar de faz-de-conta!" Faz de conta que eu sou bem jovem ainda... e que sou linda! Sinto os cabelos soltos, agitados pelos ventos; cabelos que imagino em ondas sedosas a tocar-me as espáduas, longos e leves e de um tom de louro quente, em que o sol põe cintilações de ouro velho. Sinto as faces coradas e, na leve brisa da tarde, aspiro deliciada o perfume das coisas. Tenho grandes olhos, talvez que azuis como o céu, talvez que misteriosos e verdes como o mar. Sinto leve o corpo, como o corpo de um pássaro, e sorrio um lindo sorriso para a vida, para mim mesma.

Mordo, cheia de volúpia, o cabo de uma flor, e sinto-lhe um gosto agridoce, de beijos, talvez... de beijos que não conheço. Tomo entre as mãos a cabeça encaracolada de Paulinho, murmurando: "Meu filho! Tu és meu filho!" E o aperto ao seio palpitante, dizendo-lhe, sem que ele possa entender: "Eu te tive, eu te tive de um grande amor... e meu amor daqui a pouco virá e me tomará nos braços e me beijará a boca, assim... assim..." E eu comprimia os lábios ardentes na cabeça inocente do menino. Que loucura! Que loucura! - dizia uma consciência à parte. Mas eu reagia.

Deixe-me que não estou roubando nada de ninguém. Que mal faz sonhar? Sei lá o que pensam e sonham as outras criaturas! Graças a Deus, o crânio é uma caixa fechada. Os olhos - dizem - são as janelas, mas sempre nos resta o recurso de correr as persianas.
Nas noites de luar, deixava-me ficar na sacada, banhada em cheio pelo clarão azulado da lua. E fazia versos. Versos que ficavam no ar bailando, irrequietos e fosforescentes como vaga-lumes. De vez em quando a realidade me picava como um mosquito na noite, acordando os que sonham. Mas eu a afastava dizendo: "Não... ainda não; não quero acordar."

Um dia Paulinho amanheceu com febre. Angina. Resolveram descer. A umidade do ar, a temperatura diferente, alguma coisa teria feito mal ao menino.

Voltamos.

O trem devia ser o mesmo, a paisagem a mesma e a mesma música das rodas... mas eu, só eu não era a mesma. Era a volta. Lá ficara a Marta de um sonho, cá viera a outra Marta, a solteirona amarga e feia.

Irritava-me a trepidação, irritava-me o vento frio que me desmanchava o cabelo. Olhava as paisagens, são todas iguais. Aqui, como em toda parte, há céu azul ou cinzento, há nuvens... Que importa que sejam claras, ou escuras, ou róseas? Montanhas cobertas de mata. Mata verde e igual em toda parte. O trem corria, e eu ia olhando, fria e hostil, os mesmos quadros de serras e de matas.

Sentia-me, agora, bem eu mesma, com o menino aconchegado ao peito. Olhava-o e dizia para os meus botões: "Sou apenas a tia... apenas." Voltava à realidade com ar de cachorro, me deleitando em dizer para mim mesma: "Ridícula! ridícula!" E parecia-me ouvir as rodas a repetir comigo:

"Ri-dí-cu-la, ri-dí-cu-la, ri-dí-cu-la, ri-dí-cu-la..."

Autor(a): Magdalena Léa

 

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