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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XIV
publicado em: 03/10/2017 por: Lou Micaldas

"Como é triste uma criança doente! Eu dividia a minha pena entre a mãe e o filho, e ainda sobrava um pouco para mim mesma. Via a mãe rezar, fazer promessas, com uma veemência da qual não a julgava capaz."

Paulinho logo melhorou e tudo entrou nos eixos. Falavam sempre no passeio e prometiam repeti-lo. Mas eu fugia ao assunto e prometia a mim mesma nunca mais acompanhá-los. Bastara-me aquela experiência. Noutra não cairia. Agora conhecia bem o preço de um sonho... Eu que sempre havia temido o mal que faz sonhar, conhecia agora, com a dura queda na realidade, o preço demasiado alto de um sonho.

Muitas vezes pensava: porque serei assim? Que tenho eu? Ficava tempo esperando, de dentro de mim, a resposta que não vinha. Nada vinha. Era o abismo da alma, insondável. De novo mergulhei no amor do menino. Afogava-o em carícias, afogando em seus pequeninos braços o meu eu frustrado e sequioso de afeto.

Ele crescia em beleza e graça. Fora sempre um garoto precoce. Cedo andou, cedo falou. Correu-me um arrepio na espinha a primeira vez que ouvi dizer: ti-ti-ti-ti - com a boquinha risonha e apenas dois dentinhos na frente. Era alegre e traquinas como ele só. Quando fazia birras, havia o jogo de empurra. Lúcia achava que a culpa era minha e de Rui; que ela, por ela, educava.

Rui achava que a culpa era dela mesma, que não era mãe e que estava mais tempo com o menino. Não havia de ser ele, as poucas horas que passava em casa, quem devesse disciplinar o garoto, como um carrasco. Eu dizia que era tia, e tia não era para essas coisas; o papel das tias não havia de ser surrar as crianças. Cada dia ele ia ficando mais levado e não respeitava ninguém.

As suas gorduchas mãozinhas tinham o secreto prazer de destruir o que alcançassem; eram o terror da penteadeira da mamãe, móvel baixo e repleto de cristais, perfumes franceses e potes de porcelana. Lá uma vez, Lúcia aplicava-lhe umas palmadas, e ele corria para mim, jogava os bracinhos em volta do meu pescoço, escondendo no meu ombro o rosto banhado em lágrimas.

- Pobrezinho, mamãe bateu... como foi, filhinho, "duieu"?

- Du-ieu - respondia entre soluços, alisando com a mão o lugar da palmada.

- Coitadinha da bundinha cor-de-rosa do querido. Mas que foi que o neném "fazeu"?

- Na-da...

- Nada não; neném "fazeu" coisa feia, e Papai do Céu castiga menino que diz burra pra mãe dele. Não diz mais? Vai ser bonzinho?

- Vai - respondia ainda chorando.

Mas, daí a pouco, se o contrariavam, dizia besta, burra, estes nomes feios de-andar-em-casa. Eu não podia deixar de rir, mas Lúcia ficava furiosa.

- Não sei como é que ele aprende estas coisas!

- Conosco, ora essa! A gente sempre diz. Ainda ontem você mesma disse assim: "Que besta de tintureiro, que não compreende as coisas..." a propósito do seu vestido branco, não se lembra? Em geral se falam estas coisas, e ele não é surdo...

- Não é surdo, mas acontece que ele está dizendo isso para mim, que sou mãe dele.

- Ora... o coitadinho não alcança ainda a profundeza da palavra mãe!

E o "coitadinho" mandava e desmandava em casa. Lúcia passeava muito e algumas vezes levava-o, para exibi-lo, todo engraçadinho, de calcinhas curtas e as coxas muito grossas.

Era um menino alourado, com a pele dourada de sol e grandes olhos cor-de-mel, como os da mãe. Parecia-se com Lúcia nos traços, mas tinha todo o jeito do pai. Era aquele mesmo modo de andar, a cabeça ereta, o pisar largo e forte, jogando as pernas. Um garoto tagarela e cheio de perguntas.

- Titia, que é que tem no céu? - falava espetando os olhos curiosos no azul.

- Papai do Céu - respondia eu.

- Que é que Ele faz lá?

- Está olhando você, neste momento, para não cair da beira da escada.

- Então posso ficar bem na beirinha da escada... que não caio, né?

Certa vez, Lúcia e Rui tinham ido ao cinema. Eu procurava fazê-lo dormir, na meia obscuridade da varanda, com o ruído monótono do vime que rangia ao balançar a cadeira. Enfiava os dedos entre os aneizinhos da sua cabeleira loura e fazia uma coceirinha para chamar o sono. Mas o sono estava custoso, e eu via os grandes olhos do meu garoto brilhando na sombra como os olhos de um gato. Passava então de leve, numa carícia, a ponta dos meus dedos sobre as pálpebras rebeldes, obrigando-as a fecharem-se. Murmurava uma canção qualquer, bem doce, bem lenta... Súbito, ele ergueu-se:

- Titia, você não tem marido?

- Eu? Meu filho, não; por quê?

- A mamãe tem... e você não tem?

Ri-me.

- Se eu tivesse um marido, Paulinho, não estaria aqui com você. Estaria em outra casa, na minha casa, e teria também um meninozinho...

- E eu, titia? Eu queria ir com você...

- Não, queridinho, você teria que ficar com seu papai, com sua mamãe... - respondi, malgrado meu, com tristeza.

- Ah! Titia... então não quero que você tenha marido, não... respondeu amuado.

E aí, teve uma idéia luminosa:

- Titia, você pode ficar com o marido da mamãe, não é?

- Dorme, Paulinho, dorme; é tarde já, e você está aí com esse olhão grande!

Ficávamos assim, quase sempre, sozinhos, e esta intimidade era tão doce para mim! Quanto de ternura havia em meu coração derramava-se em ondas sobre ele. Apertava nos braços aquele corpinho querido e dizia-lhe tudo que o coração inventava, a transbordar carinho, num vocabulário exótico, porém tão doce:

- Meu "cotozinho", meu "tostãozinho"... - E uma infinidade de nomes de bichinhos, que muito o divertiam:

- Sou o seu boizinho, então faço: moooooom... mooooooom!

- Sou o seu cabritinho, então faço: bééééééé... bééééééé!

Lúcia às vezes ficava enciumada; negava, porém, e dizia que era muito natural que o menino fosse agarrado comigo, uma vez que era eu quem mais lidava com ele.

Depois de mim, era ao pai que ele preferia. Montava a cavalo em sua perna e, se Rui chegava e ele ainda estava acordado, era um custo levá-lo para a cama. Adorava brinquedo de soldado: cornetas, tambores, espadas, canhões viviam espalhados pela casa toda; e a gente tinha de andar com cuidado para não pisar os batalhões formados de soldadinhos de chumbo. Travessuras sem conta o guri fazia.

Um dia pincelou de goma-arábica todas as cadeiras da sala. Graças a Deus que a goma era pouca. Lúcia deu-lhe umas palmadas no traseiro e sentou-o numa cadeira, de castigo, proibindo-me expressamente de acudi-lo.

- Eu fico sendo o carrasco e vocês os bondosos! Fazem todas as vontades e eu é que tenho de dar palmadas e castigos? Ele há de pensar que não sou mãe, sou madrasta...

Aí, a Paula entrou com seu sotaque nordestino:

- Deixe, dona Marta, deixe o minino... pé de galinha num mata pinto, não; e tapa num é santo, mas obra milagre!

Afora as traquinagens de Paulinho, a vida era mansa. O casal em perfeita harmonia. O tempo corria e eles pareciam amar-se cada vez mais. De vez em quando, uma rixazinha para o prazer de fazerem as pazes.

Rui mostrava-se ciumento da sua bela mulher e dava para implicar com um e outro chapéu, que dizia escandaloso. Implicava com os vestidos colantes e decotados, e, algumas vezes, eu ouvia que chegavam dos passeios discutindo. Mas no dia seguinte, à mesa do café, já estavam cheios de "querida" e "meu bem".

Lúcia, agora, em pleno verão, passava as manhãs deitada na areia. Tinha uma bonita cor dourada e era em tudo uma mulher ultramoderna. Rui só não consentia que ela fumasse. Dizia que era uma artificialidade irritante e, além disso, emprestava à mulher um traço de masculinidade.

Lúcia defendia a tese da elegância e da moda, mas ele não se deixava vencer por nenhum argumento. Repetia que não tolerava mulher com um cigarro entre os dedos. "E - dizia com asco - mulher cheirando a homem, Deus me livre!" Mas parecia bem orgulhoso da mulher, malgrado seu ciúme, e contemplava-a embevecido.

Cada vez mais chique, ela vivia das costureiras para os cabeleireiros, e destes para as casas de modas, e mais uma infinidade de coisas, que tomavam horas e dias no cuidado da sua pessoa. E depois lá ia a pessoa assim aprimorada fazer a vida social. E choviam convites.

Comigo a coisa era outra. Por toda a maquilagem, um pouco de pó-de-arroz; às vezes, um toque de carmim. Um corte de cabelo de vez em quando, e eu nem compreendia alguém passar horas e horas sofrendo uma permanente. O mais era uma boa tesoura para as unhas, um sabonete para o banho e esta "beleza" que Deus achou por bem me dotar.

Apesar de gostar de um mergulho, nem sempre ia à praia. Andava preguiçosa, preferia ficar em casa, lendo, escrevendo, costurando. Lúcia levava o filho, ele "pintava" por lá, voltavam quase sempre brigando, e prometia não levá-lo no dia seguinte, de castigo. No mínimo, o nosso "anjinho" havia sentado a pá na cabeça do amiguinho mais próximo.

Era Paulinho muito crescido e forte para a idade, levando vantagem sobre os outros. Ademais, era amigo de dar murros e bater com o que tivesse nas mãos. Acostumado sozinho e dono de tudo, não podia compreender as leis da propriedade e resolvia as questões pela força. Egoísta e inconsciente como todo filho único. Ouvia muito sério o sermão e mais as ameaças da mãe, mas no dia seguinte, cedo, ele vinha:

- Titia, me dá meu calção para a mamãe me levar na praia.

- Mas ela não disse que você não ia?

- Ora, titia... - dizia arrumando no balde de folha as pás, o ancinho e outras quinquilharias de praia, calmamente; e acrescentava, franzindo as sobrancelhas finas:

- Eu tenho de ir, titia.

Quando dizia "tenho de ir" ou "tenho de ter", ou ainda, "tem de me dar", era irresistível. Empertigava-se em todo o seu "tamaninho" e era a própria energia e vontade. E nós, pobres de nós, adultos, um tanto covardes, nos sentíamos subjugados por esta pessoinha destemida em desafio à nossa pseudo autoridade. Para a criança o mundo exterior não existe. Seu lar é o seu mundo, onde papai e mamãe representam para ela a máxima força que dirige sua vida nos "pode" e "não pode", nos "deve" e "não deve". E era contra essa força que o nosso garoto erguia o queixo.

Lúcia viu-o pronto, olhou-o severa e disse:

- Hoje vai ser perdoado, mas para outra vez, não vai mesmo. Ouviu? - Decerto que ele ouviu, e se estivesse lá na esquina teria ouvido também, pois ela o disse gritando, o que era uma válvula de escape para sua capitulação. E acrescentou:

- Está perdoado, mas faça-me o favor de escutar quando eu falo. Você é surdo?

Calado ele ia indo, ao lado da mãe, que discursava sacudindo o coitado. Um coitado vencedor, diga-se de passagem, e bem consciente disso.

Ficava a vê-los irem-se, enquanto pensava que o garotinho tinha muito da mãe, aquela menina voluntariosa, que hoje se deixava dominar por dois homens: marido e filho.

Lúcia adorava o filho, como adorava o marido e a si mesma. Havia tempo para gostar de todos sem sacrificar coisa nenhuma. Ela dividia-se, ou multiplicava-se, dando uma cota de si a cada um de seus amores, ainda restando o que dedicava à vida social movimentada que levava.

Causavam-me surpresa certas reações suas. Dir-se-ia que era de todo superficial aquela moça vaidosa, que tanto cuidava de si. Mas não. E constatei isso quando Paulinho adoeceu seriamente. Febre alta, respiração difícil, prostração, e o médico pensando em broncopneumonia.

Rui a telefonar a cada instante do consultório, e eu, como uma sonâmbula, andava pela casa a preparar sinapismos, a espirrar, a lagrimejar com a mostarda. Lúcia, sentada à cabeceira do doentinho, corriam-lhe as lágrimas como rios. Não se afastava dali nem para comer e à noite ficava a velar-lhe o sono. E era de ver a dor que a pungia à hora de colocar os envoltórios e dar as injeções. Paulinho gritava tanto, pobre querido! O seu corpinho queimado de cataplasmas e as nádegas encalombadas das injeções.

Como é triste uma criança doente! Eu dividia a minha pena entre a mãe e o filho, e ainda sobrava um pouco para mim mesma. Via a mãe rezar, fazer promessas, com uma veemência da qual não a julgava capaz.

Não devemos julgar os outros... pensava. Ninguém conhece ninguém.

Também, esta foi a única vez em que o menino nos assustou. Em poucos dias estava bom e se recuperara, para ser o garoto forte e sadio que fora sempre, acostumado como estava, seminu, em seu calção de praia.

 

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