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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XIX
publicado em: 05/10/2017 por: Lou Micaldas

"E, numa tortura sem nome, vinham-me à lembrança as vezes em que poderia tê-la beijado, abraçado, e não o fiz. As vezes em que poderia ter elogiado sua beleza, que lhe daria tanto prazer, ela que era tão vaidosa..."

Não sei se de fato o diabo a carregou. Só sei que sumiu. Talvez fosse viajar. Ela dissera à Lúcia que não gostava de estar parada e sempre que podia saía em alguma excursão.

Também suspeitei de que Rui tivesse falado com a fulana para sumir, defendendo sua paz conjugal, mas isso era um pouco exagerado, pensar que ela fosse assim tão obediente. Em todo caso, o melhor mesmo era esquecer a tal francesa e pôr a vida no ritmo.

Foi o que eles fizeram. Redobraram-se os carinhos e os afagos, a ponto de eu pensar que tinha sido, até certo limite, benéfica a aparição daquela moça, pois Lúcia pôde ter mais uma prova da sua superioridade sobre as outras, inclusive aquela a quem ela tanto admirou.

E estava ali, altiva, com seu riso feliz e o marido a seus pés.
Nunca mais se falou no assunto. Só Paulinho algumas vezes lembrava o Paul, mas o caso morria. E voltamos todos nós as atenções para o bebê que vinha.

Lúcia entrava no sétimo mês. Fazia-se manhosa e explorava a paciência do marido. Todos os dias pedia-lhe, com um mimo infantil, que lhe trouxesse uma coisa. E era uma gaiatice, à noite, quando ele chegava, e brincavam de "chicote queimado": ela enfiando a mão em seus bolsos e ele a dizer "está frio", "está amornando", "está quente", à medida que ela se ia aproximando do objeto, e por fim: "Pegou fogo!" quando ela o encontrava.

Era um colar de lindas pedras, ou um perfume, e, quando Lúcia abria o pacote, corria a beijá-lo, agradecida. Um dia ele disse que ela fosse escolhendo uma placa de brilhantes para quando o neném nascesse. Seria o seu presente, mas tratasse de lhe dar uma meninazinha bem bonita para merecê-lo.

Lúcia ficou radiante. Só falava nisso de manhã à noite. Quando saía, vinha depois me contar:

- Marta, hoje vi uma linda! Parecia uma renda de platina, toda cravejada de brilhantes. Cintilava de longe, lançando chispas.

E falava preocupada:

- Mas cara à beça! Também, jóia é um bem, não é? Não será dinheiro posto fora...

Perguntei:

- Ele disse que você escolhesse a jóia ou o preço?

- Ah! Mas há de ter um limite...

- Pois então pergunte-lhe qual é. É mais fácil que quebrar a cabeça na charada.

- Sabe o que eu acho melhor? É que ele, que me vai dar o presente, escolha... assim verá logo se está dentro do seu orçamento e me poupa a dúvida. Na joalheria, Marta, eu fico louca, fico tonta diante de todas tão lindas. Rui tem bom gosto, você não acha?

- Claro! Claríssimo! Ele não soube escolher a jóia que é a mulher dele? A outra até que será fácil.

Ela me deu um beijo.

E o tempo corria, levando-nos para o desconhecido. Lúcia estava volumosa, muito mais que da outra vez, nessa mesma época, e custava-lhe suportar o calor dos dias de janeiro. Queixava-se constantemente, abanando-se com a ventarola, recostada na cadeira de vime da varanda.

As pernas inchadas, e uma moleza... ia ao médico com o marido e voltava cheia de recomendações: repousar, comer sem sal, sem gorduras. Ficava revoltada:

- Ah! É horrível isso, essa comida! Chuchu já não tem graça nenhuma, e ainda sem manteiga e sem sal? De Paulinho, não fiquei assim...

E lembrava a outra gravidez, que agora, em relação a essa, lhe parecia tão boa.

Às vezes, escapava:

- Marta, você acha que só um tiquinho desse bife há de matar? Eu estou com a boca cheia d'água!

E provava o bife. Eu evitava que a cozinheira fizesse os pratos de que ela gostava, para que não sofresse ao se privar deles, e quase que nós também entrávamos em dieta.

Paula também ficava triste de não poder mostrar suas habilidades culinárias, tendo de fazer só "aquilo sem graça", como dizia. Quando vinha uma visita, e se tinha de apresentar um quitute, Lúcia ficava com uns olhos grandes de criança gulosa.

Consolava-se, então, falando:

- Assim que tudo acabar, já falta pouco, vou-me vingar, vocês vão ver. Hei de comer tanta coisa gostosa! Vou ficar tão gorda quanto a Paula e juro que não me importo, mas hei de me encher de camarões, maioneses, bifes sangrentos, vou botar tanto sal na minha comida...

- Que vai estragá-la - eu completava.

Paulinho andava preocupado. "Que teria a mamãe?" indagavam seus olhos curiosos, que iam para o ventre dela, insistentes e ingênuos. Às vezes, na sua impetuosidade carinhosa, atirava-se sobre a mãe, e, numa dessas, Rui disse:

- Não faça assim, meu filho - e, mostrando-lhe a barriga da mãe - ali tem um nenêzinho guardado, e assim você o machuca. É o seu irmãozinho que está para vir.

O menino olhou-o assombrado e foi montar a cavalo na perna do pai, para colher informações.

- Meu irmãozinho? Como que não estou vendo?

- Não pode ver, ele está guardado.

- De que tamanho ele é? Assim grande como eu?

- Não... ria-se o pai - pequenininho assim.

- Quero ver. - decidiu Paulinho.

- Não, não pode, ainda não nasceu... e para distraí-lo - Que é que você prefere, menino ou menina?

- Menina é "pau"! - concluiu ele sem a menor consideração pelo chamado belo sexo, e continuou: - Quero um menino para brincar comigo. Ele sabe brincar? - perguntou olhando desconfiado para o barrigão da mãe.

Lúcia protestou:

- Você não devia falar assim com ele, é tão pequeno! Porque não conta a história da cegonha ou da cestinha? É muito mais interessante.

Rui riu-se.

- Não vê que estou defendendo sua "cestinha", querida?

O enxovalzinho já estava quase pronto.
Era tudo cor de rosa para "gourar" a menina que todos queríamos. Nos meados do mês, Paulinho apareceu com uma tosse rebelde, e, como havia casos de coqueluche na vizinhança, ficamos alarmados. Ele dormia agora sozinho em seu quarto.

Foi primeiro uma luta, tinha medo, e, se de noite acordava, enchia a casa com seus gritos: "Titiiiiiii-á! Titiiiiiii-á!" O pai dizia-lhe que isto era feio, que devia dormir sozinho, como um homem...

- E você? Não dorme com a mamãe? - foi o que o guri replicou. A gargalhada do pai se ouviu lá da esquina, e Paula veio da cozinha dar seu palpite:

- Oxente! Bichinho vivo! Ninguém nunca vai podê com ele, não!

De noite, ouvia-lhe a tosse, engasgada, renitente, batendo como um martelo. Mais uns dias e os guinchos vieram confirmar o diagnóstico. Trouxemos então, para meu quarto, o menino com caminha e tudo. Quando vinham os acessos, eu pulava da cama e ia sacudi-lo, ajudando-o a pôr a gosma para fora.

Quando eram muito fortes, vomitava tudo na cama, e era preciso mudar, limpar, uma trabalheira medonha. Foi ficando magrinho, pálido, não tinha quase apetite, e, quando tinha e comia algo, vomitava em seguida, num acesso de tosse.

Ao vê-lo abatido, tristezinho, pelos cantos, eu me revoltava contra a medicina:

- Será possível que esteja tão atrasada que não se saiba ainda curar uma tosse besta dessas? Desde que existem crianças que há de existir coqueluche e, no entanto, não há remédio que dê cabo dela? E a gente fica a ver uma criança se arrebentar de tanto tossir! Que miséria!

Mas a "miséria" ainda era pouca, e Paula me veio avisar que não ia continuar no serviço. O homem dela escrevera de Maceió, chamando-a, e:

- Num tem jeito, não, dona Marta... o jeito é í.

"Que hora má para esse homem voltar!" pensei eu no meu egoísmo. Lúcia assim pesada, o menino doente... mas o seu riso era tão feliz ao dar-me a auspiciosa notícia! Toda ela era dentes, diante de mim, torcendo a ponta do avental, envergonhada.

Ah! Os homens!

Paula bateu asas, levando também a copeira, que era sua sobrinha. Não era grande coisa, mas nós procuramos ver se ao menos ela ficava, mas, mulatinha espevitada, respondeu com cara de idiota:

- Fico, não. Sem minha tia, não fico não siora!

"Pois vá para o inferno" - murmurou Lúcia entre dentes.

E para o inferno fui eu. Com tudo para fazer, passando as noites mal com a criança, Nossa Senhora! Só de me lembrar fico cansada agora! Não podia deixar que Lúcia fizesse nada. Andava remando pela casa e sentindo tonteiras.

- Fico envergonhada - dizia - de ver você tão sobrecarregada e eu sem mover uma palha... cadê aquela empregada que a cozinheira da vizinha ficou de arranjar?

- Falhou. Todas falham, elas são modernas, não querem mais trabalhar. Eu prefiro ficar com tudo para fazer a agüentar essas negras de beiço pintado e pixaim alisado a ferro e fogo. Sabe aquela que veio da agência para tratar? Quando perguntei a ela porque havia saído do último emprego, sabe o que me respondeu?

- Porque não me dei bem, ora... e a senhora também, por que foi a sua embora?

Eu fiz só um gesto:

- Rua!

- É... - disse Lúcia - mas tudo era preferível a você estar que não se agüenta.

- Agüento. Quem disse que não? E não há de ser por covardia ou preguiça que havemos de aturar uma estúpida dessas aqui. Não arranjamos a Paula, que era tão boa? Deixe estar que, mais dia, menos dia, a gente acerta.

Ai, que Paula se me afigura um anjo caído do céu. Que boa negra! Um anjo um tanto gordo e pesado! Em todo caso, um bom anjo de chocolate. Deve existir outro exemplar semelhante.

Eu lavava a louça e Lúcia descascava os legumes, sentada perto de mim. Via suas mãos, sempre tão bem tratadas, de unhas rosadas de esmalte e longas, lidando com os legumes, que deixam tão feia nódoa.

Daí a dias veio pelo anúncio do Jornal do Brasil, que pusemos no domingo, uma mulatinha petulante. O tipo acabado da criadinha moderna. Passou um olhar atrevido por toda a casa e as pessoas, a ver se estariam a seu gosto, e depois se pôs a perguntar se a saída era todos os domingos e mais as noites; se a janta era cedo, se seu "dotô" não costuma "atrasá", pois, explicou, estava numa aula de corte e costura e "tinha" de entrar às oito.

E mais: se podia falar no telefone com as "colega"; se podia ir ao dentista durante o dia, e acrescentou que na sexta-feira tinha de ir ao cabeleireiro. Concordamos com tudo, em desespero de causa, e ela ficou. Mas esquecemos de perguntar se sabia fazer o serviço.

Não; não sabia. O primeiro almoço que fez provou isso, e eu fui para a cozinha ensinar a fazer até água fervendo.

Foi então que tudo se precipitou. Era uma tarde quente. Um sol escaldante e impiedoso batia nas telhas da varanda tornando-a um forno. Os dias nasciam lindos, de um azul intenso e o horizonte em chamas, prometendo um sol abrasador. Nem uma nuvem toldava aquele céu; um sol inclemente derretia o asfalto e tornava as pedras da calçada num braseiro que fritava os pés descalços dos banhistas.

Lúcia tomava refresco, punha o ventilador em frente, mas sentia-se mal, sem ar, sem posição. Se deitava, a cama era um forno, e ela ficava ensopada de suor. Rezava, então, pedindo a Deus que chovesse.

Esse dia, à hora do lanche, quando eu despejava o leite em seu copo, vi-a tontear, olhar para mim sem me ver, e ir tombando para um lado, desfalecida. Teria caído se eu não a tivesse tomado nos braços:

- Lúcia, Lúcia, Lúcia! - gritei.

Chamei a criada, não me lembro o nome. Ela veio e ficou pateta, olhando.

- Vá ao telefone, chame seu doutor, depressa, ande...

E ela:

- Não sei o número, não, senhora.

- Eu digo. Espere. Meu Deus do céu o que devo fazer? Lúcia, Lúcia, pelo amor de Deus, acorda!

De joelhos, a seu lado, agüentava-lhe o corpo. Chamei a criada, pedi que me substituísse e corri ao telefone, atropeladamente, com o Paulinho agarrado às saias, chorando e gritando: mamãe!

- Cale a boca, meu filho, ela vai ficar boa... reza, pede a Papai do Céu...

Peguei o fone, chamei o médico e chamei Rui. Do outro lado da linha, pude sentir a angústia dele. Levei, com a ajuda da criada, Lúcia para a cama e fiquei com ela, ali, instantes que me pareceram anos, à espera. Ah! Se ela voltasse a si, e, quando eles chegassem, eu pudesse dizer que tudo fora um susto apenas!

Mas não; ela nem se mexia e tinha um olhar vidrado, escapando por entre os cílios, os olhos semicerrados. Veio o médico... veio o marido... A cara preocupada de um e a cara angustiada do outro não deixavam dúvidas.

Fui para fora, com o menino no colo, chorando. Chorei com ele. Lá dentro, uma confusão de injeções. Sobre a mesinha, potes, vidros, material médico. E havia em toda a casa aquele cheiro de doença que tem o éter. Depois veio a ambulância e levou-a.

Ia ser operada. Havia esta esperança, que era como a chama de uma vela ao vento, bruxuleando, bruxuleando... Já era noite, então... Devia haver outro relógio para medir horas de angústia.

Fui deitar o menino, que, cansado de chorar e de tossir, adormecera em meus braços. Fiquei a vê-lo, com o rostinho vermelho e molhado de lágrimas, as pálpebras inchadas e o estremecer ainda dos soluços dentro do sono. Pensei: "Ele rezou... haverá mesmo um Deus? Se houver, Ele decerto há de atender à prece desse inocentinho."

Eu sabia, só um milagre poderia salvá-la. Um milagre? Em meio às minhas dúvidas, esta cresceu, enchendo-me a alma. Se houver um Deus, Ele poderá salvá-la. Só Ele!

Tão jovem, tão bonita, tem um marido que a adora e um filho que é um encanto. Não merece a morte.

Afinal de contas, não pecou. Lutou, é verdade, mas ficou com a criança; não merece castigo. Não o merece, pelo menos, tão duro e irremessível como a morte. E uma idéia flutuou por instantes em minha mente: "Se ela se salvar, eu hei de crer!"

Não era uma promessa; era uma afirmação. Que eu andava pela casa afugentando os pensamentos negros, que eram como morcegos a voejar em torno de mim.

O menino dormia. Fora, a noite semeada de estrelas, quente e abafada, com o calor que subia do asfalto e do cimento, castigados pelo sol do dia inteiro. Automóveis passando na disparada, roncando os motores e buzinando impacientes.
E o marulhar das ondas, longe e melancólico.

Numa alucinação, eu via seu rosto branco, a boca cerrada, a sua linda boca, que sabia sorrir com tanta galanteria. Via o marido em prantos, a repetir todas as palavras de amor e carinho que havia dito em todos esses tão curtos anos em que se amaram. Sacudia a cabeça: "Não, não, não! Não pode acontecer uma tão estúpida coisa. Ela está cercada de médicos, e eles hão de salvá-la.

" Mas os morcegos voltavam, com suas asas negras e pesadas, lembrando-me as pessoas que morriam, apesar de tudo. Lembrando-me aquela colega de Lúcia que morrera, ao provocar um aborto, tendo só vinte e dois anos e oito médicos à cabeceira.

Enterrava a cabeça nas mãos. Ah! Se tudo fosse um sonho! Tão bom a gente acordar de um pesadelo! Eu podia ouvir as marteladas em minhas têmporas. Não, já não eram as marteladas que eu ouvia agora, era o menino que tossia. Corri para ele, estava em pé na cama, tossindo, tossindo. Tinha febre. "Deve ser do susto que levou", pensei, e tive tanta pena!

As lágrimas me explodiram dos olhos e começaram a correr abundantes. Passava a mão em sua cabecinha e, procurando num esforço imenso firmar a voz, disse-lhe:

- Dorme, querido, dorme...

E ele:

- Canta, titia, aquilo que a mamãe canta e tem peixe frito.
Ele disse "peixe frito" e eu me lembrei de que tinha o estômago inteiramente vazio. Era como um buraco, e a boca amargava.

Cantei:

"Vamos por detrás da serra, Calunga?
Ver a mulatinha, Calunga?
Da cara queimada, Calunga..."

Veio-me um nó, e eu precisei fazer uma parada, mas Paulinho, implacável, dizia:

- Anda, titia... canta!

"Quem foi que queimou, Calunga?
Foi a senhora dela, Calunga!
Pra mode quê, Calunga!?
Pra mode de peixe frito, Calunga,
que o gato comeu, Calunga!"

Batia no seu corpinho, com tapinhas leves, no ritmo da cantiga. Já tonto de sono, com a voz velada, ele ainda insistia:

- Canta mais, titia... anda...

"Cadê o gato, Calunga?
Fugiu pro mato, Calunga!"

Paulinho dormiu, e eu fiquei ali, recostada nos pés de sua cama, até quando Rui chegou, amanhecendo o dia. Acordou-me, tocando de leve no meu ombro. Estremeci, assustada, e vi sua expressão de desânimo, os olhos pisados e fundos.

Desejei tomá-lo nos braços e consolá-lo, como fazia ao menino, com toda a ternura de que era capaz. Nesse instante, eu juro que o amei maternalmente. Não era corpo; era só alma.

- Então? - perguntei.

- Mal - respondeu aniquilado.

Sentou-se ao lado do filho, que dormia, e passou lentamente a mão pelos cabelos dele. Fui fazer o café e fiquei lá dentro, adivinhando todas as lágrimas que lhe correram pelo rosto.
Tinham-na operado. A criança morta. Uma menina... e a mãe?

- Só Deus é que sabe... disse ele.

 

Queria ir para lá, mas... e o menino?
A criada não viera. Soube, pela vizinha, que ela havia dito que a moça estava mal, podia morrer, e ela tinha medo de defunto.

Fui para a cozinha e fiz a comida do menino, banhei-o, troquei-lhe a roupa, dei-lhe o xarope nas horas certas, a cabeça oca, incapaz de raciocinar. Como um autômato, andava pela casa dando conta de tudo, enquanto o menino brincava distraído, esquecido da sua desgraça.

E eu esperava... E esperei o dia inteiro, a noite toda, vazia, vazia... vazia de pensamentos, de sentimentos... vazia de esperanças. O sol já ia alto quando o telefone tilintou, e eu caminhei para ele como para a minha execução. Pus o fone no ouvido e nem pude dizer alô.

Era a voz de Rui:

- Morreu, Marta... o enterro é às cinco horas, previna a quem puder. Alô... alô... vê se deixa o menino com alguém e... venha; eu... eu preciso de você.

Através do fio, pude ouvir-lhe os soluços entrecortando as frases. Pobre querido! Atirei me numa cadeira. Então? Estava morta. Morta, morta, morta. Repeti para mim tantas vezes esta palavra que ela perdeu a significação.

Eu me perguntava: "que é morta?" Morreu, morreu... o que é morreu? Quem morreu? Lúcia? Não pode ser... não acredito. Ainda não tem dois dias e ela estava ali sentada, naquela cadeira, fazendo tricô.

Conversando, falando, rindo, brincando com o filho... e agora está morta? Não é possível! É uma brutalidade. Não posso crer. E o menino? E o filho? E Rui, que a adorava? Não! Não! - gritava - que é que eu posso fazer, meu Deus? Deus?!

Mas se ele não existe... não pode existir! Por que a matou? Tão nova! Tão linda! Tão querida! Injusto isso. Com tantas velhas no mundo, caindo aos pedaços, inúteis e tantas vezes indesejáveis. Não vê aquela vizinha defronte? Velha de doer. E não morre. Tem gripe, tem diarréia, vai para a cama, mandam chamar Rui, mas a velha firme.

Sabemos que é ranzinza, implica com as crianças, com as criadas, com todo o mundo, seria até um alívio a morte dela...
Suspirei. Minha mãe! Lúcia está morta e eu aqui a pensar no raio da velha.

"Lúcia! Lúcia!" - gritei desesperada, e o seu nome me doeu, arrancando de meus olhos as lágrimas, até aí contidas pela febre da revolta. Podia bem empacotar cem velhas e mandar no lugar dela...

Deixa as velhas - pensei. - Que adianta isso? Não há nada no mundo que possa remediar... E me vi, de súbito, diante dessa sentença cruel: nunca mais! Fiquei a dizer baixinho: nunca mais hei de vê-la, nunca mais hei de ouvir-lhe a voz, nunca mais poderei abraçá-la...

E, numa tortura sem nome, vinham-me à lembrança as vezes em que poderia tê-la beijado, abraçado, e não o fiz. As vezes em que poderia ter elogiado sua beleza, que lhe daria tanto prazer, ela que era tão vaidosa... Lembrei-me de como não queria ter esse filho.

Ah! Se a gente adivinha! Quem sabe? Se tivesse feito o aborto talvez não estivesse morta. E Rui? Ele foi quem a obrigou a ficar com a criança. Que não estará sofrendo?! Lembrava-me dela dizendo: "Marta, se tiver outro filho, morro." Adivinhava, pois.

Os soluços me sufocavam. Ah! Se eu pudesse rezar! Se pudesse pedir a Deus um alívio! A Deus? Mas se foi ele quem a matou... E por quê? E por quê? Por que ela e não eu? Eu, meu Deus, que não sou ninguém, não represento nada para ninguém.

Ela morreu e nada mudou. Tudo está igual. Que significa na face da Terra esta coisa monstruosa que nos aconteceu? Que somos nós? Formiguinhas insignificantes diante do Cosmo. E uma formiguinha a mais ou a menos não conta.

Súbito, vi, numa alucinação, seu corpo apodrecendo. Aquele corpo jovem, estuante de seiva, de uma carnadura sólida, de uma coloração quente. E o rosto lindo, onde o riso cavava duas covinhas. E os olhos, translúcidos, rasgados, amorosos às vezes, e outras lançando chispas, encolerizados.

Tudo podre. Tudo caindo aos pedaços. Tudo para os bichos comerem...

- Titiiiiiiiiii-á! Titiiiiiiiiii-á!

Soou pela casa o grito estridente de Paulinho. O mal que me fizeram estes gritos! Ele vinha correndo, e eu recebi-o nos braços. Apertei-o ao peito a ponto de quase sufocá-lo. Olhou-me espantado e perguntou:

- Cadê a mamãe?

A voz estrangulada, falei:

- Paulinho, escute, meu bem... a mamãe... não vem mais. Ela foi para o céu... o Papai do Céu levou-a...

Seus olhos ingênuos cresceram desmesuradamente, no esforço de entender aquela desgraça que desabava sobre sua cabecinha, inocente de todo o mal da vida, e as lágrimas brilharam em seus olhos, prestes a explodir. Balbuciou:

- Foi pro céu? E eu, titia?

- Você não... querido, você não! - e apertei-o nos braços.

- Que é que tem no céu? - perguntou olhando pela janela o azul misterioso, seus olhos inquisitivos.

- Ah! Meu filho, o céu é lindo... tem anjinhos, tem música e... tem Papai do Céu...

- Então eu quero ir, titia... quero a minha mamãe! - gritou soluçando, e repetindo com teimosia:

- Quero a minha mamãe! Quero a minha mamãe!

Mas essa era uma vontade que eu não podia fazer.

Enquanto trocava maquinalmente a roupa, pensava no horrível quadro que ia ver: Lúcia morta.
Aquela criatura que parecia nascida para ser feliz... Lembrei-me então dela pequenina. Quando nasceu, foi uma festa para a minha infância solitária.

- Você vai ganhar um irmãozinho - disseram.

Arrumavam, numa grande cesta, as roupinhas prontas, e eu, cheia de curiosidade, perguntava à vovó:

- Onde está o meu neném? Por que é que está demorando tanto?

- Está no céu - respondia ela. - Está com o Papai do Céu, e quando Ele puder, manda.

E eu ia para um canto pensar no problema. O céu se me afigurava tão longe! Lá é que estaria o neném? E corria para a janela, a mergulhar os olhos ingênuos no azul insondável.
Mas um dia, muito cedo, vovó acordou-me.

- Venha, Marta, a irmãzinha chegou...

E eu, tonta de sono, a tropeçar na barra da comprida camisola, voei pelo corredor. Debruçada sobre o berço, a respiração suspensa, vi aquela coisinha miúda e feia a se remexer como um gatinho, lá onde a minha imaginação havia posto uma bonita criança cacheada e sorridente.

Olhei desapontada para vovó, que derramava ternura dos olhos, e perguntei:

- É isso... a irmãzinha?

Depois, repentinamente, eu me apaixonei por ela, aquela criaturinha que punha em rebuliço o quieto casarão. Adorava vê-la no banho, o corpinho rosado e nu mergulhado na água. E como berrava essa coisinha minúscula! Algumas vezes não resistia à tentação e estendia a mão vacilante, para pegar o neném. Mas a ama, uma portuguesa troncuda, acudia:

- M'nina, não toque na criança que eu cham'rei a senhora sua abó.

Mas lembro-me de que a senhora minha "abó", algumas vezes, colocava o neném no meu colo, dizendo:

- Está aí, Marta, a sua irmãzinha.

E eu ficava sem bulir um dedo, quase sem respirar, tão enleada como se tivesse nos braços o menino Jesus. E Lúcia crescia num encanto de criança. Com que orgulho eu empurrava o seu carrinho pela calçada, às tardes!

Nesse tempo, eu freqüentava um colégio particular na esquina. Com que pena eu deixava o meu bebê aquelas horas todas! Acabada a aula, corria para a casa, e era o tempo de largar a bolsa e o chapéu, já estava eu debruçada sobre o berço para vê-la.

- Está rindo para mim, vovó, venha ver.

E saía batendo palmas:

- Ela já me conhece! Ela já me conhece!

Fui eu quem ajudou os seus primeiros passos vacilantes; fui eu quem ouviu os seus primeiros balbucios. E era a minha voz infantil que lhe embalava o sono com doces cantigas.
Assim que começou a falar, chamava-me "Tatá", que dizia com uma carinha brejeira, como o apelido mesmo.

Lembrava-me do colégio, onde todo o mundo gostava dela, as colegas e até as freiras. Tinha um quê de atração irresistível.
Em toda parte era a primeira, a preferida!
Até a morte a escolheu.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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