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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XV
publicado em: 03/10/2017 por: Lou Micaldas

"Viver é lutar..." dizem. A frase é velha e a luta sempre nova. O inimigo... mas quem é o inimigo? O destino? O diabo? O quê? Lá o que seja, sempre de armas e emboscadas contra a fragilidade do homem. Luta desigual. E havia que lutar ainda, e ainda até quando, meu Deus?"

E foram felizes por todos esses anos.

Rui prosperava em sua carreira. Eu sempre pensava que ele havia de atrair muitos clientes com aquele seu modo calmo e atencioso de tratar as pessoas.

Lúcia, faceira e amada, com um bonito filho, que nem sequer lhe atropelava os passeios.

Paulinho, crescendo e desenvolvendo-se em inteligência, força e beleza.

E eu? Ah! Eu bem poderia dizer que estava como a Inês - posta em sossego. Todas aquelas criaturas eram minhas, e eu exultava com o sucesso de cada uma. Fugia das sensações e emoções que pudessem acordar em mim o leão que me dormia no peito.

A vida era "um manso lago azul..." como disse o poeta. Mas, de repente, o lago encrespou-se e ficou parecido com o mar de Copacabana em dia de ressaca.

Paulinho ia fazer cinco anos e Papai do Céu achou que ele precisava de um irmãozinho. Mas, se bem que o bom Deus assim achou, quem não achou foi a bonita mamãe, que estrilou deveras.

Como eu me lembro dessas brigas! Pensei até que se separassem. Um horror! Eu deixava o campo livre aos contendores e fugia para meu quarto, obedecendo, à risca, ao ditado: "Em briga de marido e mulher, ninguém meta a colher."

Rui costumava brincar com o filho, perguntando:

- Paulinho, tu queres uma irmãzinha?

- Quero sim, papai - dizia ele entusiasmado. - Cadê ela? Onde está?

- Está lá no céu, meu filho, pede a Papai do Céu que ele manda... - Lúcia, fuzilando um olhar hostil, cortava-lhe a frase:

- Não, meu filhinho, não peça nada. Uma irmãzinha vem estragar seus brinquedos e brigar com você... não vale a pena.

E dizia para Rui:

- Nem brinque disso. Deus me livre... só de pensar, me arrepio toda.

E o assunto morria.

Mas agora o caso era concreto. Não sei se o menino pediu ou não aos céus. Dizem que Jesus atende logo aos pedidos das crianças, que sempre foi amigo delas, e isto provou naquela bela frase: "Deixai vir a mim as criancinhas!" Mas desta vez tratava-se de mandar uma criancinha lá para casa.

O fato é que ela estava grávida. Primeiro não quis acreditar. Dizia que não podia, não havia de ser... Rui ria-se. Depois começou a dizer que, se fosse, não ficava. Todas as suas amigas já tinham feito, e ela faria também: tiraria a criança.

Rui, que estivera calmamente recostado na poltrona, fumando, enquanto ela, agitada, andava de um lado para outro, ergueu-se e, pegando-a pelo braço, falou com firmeza:

- Ouça, meu bem, você não fará isso. Eu sou médico e sei o perigo que correm essas desmioladas. Além disso, eu não consentirei que minha mulher faça uma coisa que eu condeno.

- E por quê? Faça o favor de dizer.

- Por quê? Ora, você não é inocente, sabe que é contra a religião, a moral, para não falar em sentimentos afetivos. E é crime. São presos médicos e parteiras que provocam o aborto. Suas amigas, que enchem sua cabeça de "caraminholas", não lhe dizem isso?

- Elas fazem... e muitas já fizeram mais de uma vez, e estão aí, bem gordas, bem fortes. O que acaba a gente é filho. Eu sei que não suporto outra gravidez.

- E por quê? Só se for por vaidade, por preguiça; por falta de força não será... de que sofre você?

- Sofri horrores quando Paulinho nasceu e jurei que não havia de sofrer outra vez.

- Fez mal em jurar uma coisa que não sabia se poderia cumprir. Você não sabe que não poderá resolver nada sem o consentimento de seu marido?

- Mas você há de consentir - gritou exaltada - porque eu não quero ter mais filhos. Você sabe muito bem que eu não nasci para mãe de família... você mesmo diz que eu não cuido do meu filho! Que se não fosse a Marta, não sabe o que seria dele... então como quer que eu tenha outro?

- Mas não sou eu quem quer que você tenha outro. Você engravidou, e eu não consinto que tire fora, entende? Marta está aí mesmo, e ela, que criou um, cria dois, não é, Marta?

Eu não era peixe nem carne e respondi que não fosse essa a dúvida, e até se fosse uma meninazinha...

Lúcia cortou sarcástica:

- Pois então diga a ela que tenha a meninazinha, porque eu não vou ter nada.

- Pois eu garanto que a Marta não se importaria de ter muitos filhos, hem, Marta? - perguntou Rui sorrindo.

Lúcia replicou:

- É difícil saber isso, se ela nunca teve nenhum. Queria que ela visse como me torci e gemi de dor todas aquelas horas. Nunca mais que nascia, e parecia que tinha um bonde me passando na barriga!

- Toda mulher sofre para ter criança, e, no entanto, o mundo está cheio de gente.

- Mas eu não nasci para povoar o mundo, a mim valeu-me a experiência.

Depois mudou de atitude e, em vez de lógica, usou de lágrimas.

Com voz chorosa, começou:

- A você, pouco se lhe dá que eu sofra... uma gravidez horrorosa de enjôo que não acaba mais; uma barriga enorme, assim... e os meses rolando numa lentidão de lesmas... depois, a dor que é um inferno! Por cima de tudo, caroço no seio, criança chorando... Quero dormir, não posso; quero comer, não posso; quero sair, é hora de mamar... Ora, agora que já estou de tudo esquecida, vou começar de novo?

Falava gesticulando e andando pela casa, agitada, e acabou perto de Rui, que a puxou para o colo. Eu tinha um bordado na mão e me enfiei nele. Vi que se acalmavam e se acariciavam, mas senti que a discussão estava apenas adiada.

Vez por outra, enquanto acomodava o menino, ouvia as brigas no quarto deles. Lúcia não se conformava em ter a criança, e Rui não consentia no aborto.

Até Paulinho andava assustado.

- Tia, por que a mamãe grita?

- Não é nada, Paulinho, estão só conversando, e menino bonito não pergunta coisa alguma.

Pensava eu: deveria intervir? Dar conselhos? A ela ou a ele? Se ela não queria ter filhos, que não os tivesse. Repugnava-me a idéia do aborto, entretanto valeria a pena esta criança vir ao mundo em meio à discórdia dos pais e da má vontade da mãe? Qual dos dois cederia? Lúcia, eu conhecia bem, era igualzinha ao filho: "Tem de me dá." E Rui? Eu o ouvia sempre calmo, dobrando-se à vontade da mulher e do filho. Não gostava de sociedade, mas a mulher gostava, e iam. Eu estava agora surpresa com essa vontade firme. Lúcia, não menos surpresa, como fiquei sabendo após forte discussão entre os dois.

- Ora essa, Marta, Rui nunca foi assim... deu agora em ficar teimoso. Vem com essas histórias de moral, de consciência e sentimentos, nem sei mais quê; e está nessa mania de que devo ter a criança. Não tenho, já disse; nem que eu tenha que ir ao médico sozinha!

Assustei-me com isso e tive de "meter a colher" um pouquinho.

- Lúcia, veja o que é um aborto, para você perder sua felicidade. Pese as coisas, minha filha. É verdade que é duro, mas você tem sido tão feliz com seu marido, bom e carinhoso.

Ela cortou:

- Bom? Quando tudo está um mar de rosas? Mas não é assim que se conhece o "bom".

- Mas, se é uma questão de princípios... ele não pode consentir que você faça uma coisa que condena em toda a gente!

- Por que condena? O aborto é em mim, não nele. Que fique com seus princípios. Eu não posso, Marta. Juro que não posso. Se tiver outro filho, morro.

E chorava.

Tive pena. Nunca pude assistir às lágrimas de Lúcia sem me comover. Passei os braços em volta do corpo dela.

- Escute, querida, deve atender a seu marido. Tenha essa criança! O segundo há de ser mais fácil, e eu estarei aqui para ajudá-la sempre. Paulinho já não dá trabalho, não é mesmo? Você só terá que suportar sozinha a gravidez e o parto. Sei que não é pouco, mas podem não ser como na primeira vez. Faça o que eu lhe aconselho. Estou de fora e posso ver bem os dois lados. A mulher deve sempre ceder.

Deus, que nos deu os encargos pesados da gravidez e do parto, é que sabia do que éramos capazes. E esta capacidade em nós se caracteriza pela paciência e tolerância. - Ela me ouvia calada, o rosto molhado de lágrimas e o olhar parado, olhando em frente sem ver.

Eu prosseguia:

- Além disso... não é mesmo direito provocar o aborto. Você cometeria um pecado mortal. Lembre-se de que você mataria uma criancinha...

Ela pareceu despertar:

- Não, agora não há criancinha ainda, é uma coisinha à toa, assinzinho - e mostrou-me a ponta da unha.

- Mas tem vida! Que em breve será uma criança, seu filho.

- Ah! Com essa teoria, então, você já estará vendo até os bigodes dele e vai dizer que eu quero matar um homem.

- E é isso mesmo. Basta que você pense que, se não o matar, ele será uma pessoa como eu ou você. No momento, é um embrião a que você não quer dar importância, mas amanhã será uma criatura humana. A mim me repugna a idéia de cortar esta vida. Pode imaginar se você tivesse feito assim com o nosso Paulinho encantador? Não, querida, não faça isso. Você se livrará do filho e perderá seu marido; vale a pena? Vale a troca?

Não respondeu, atirou-se nos meus braços chorando. Eu pensava que este desabafo lhe seria salutar, e apertava ternamente seu corpo, sacudido de soluços. Depois que se acalmou um pouco, falou:

- Marta, ele disse que não falará comigo enquanto eu tiver essa idéia na cabeça. Então nunca mais fala, por que eu não mudo, não posso...

- Então esta briga foi mais séria?

- Se foi! - ela parou de chorar, enxugou as lágrimas e começou a contar:

- Ele pensou que eu já estivesse conformada, porque havia dois dias que não se falava nisso. Mas hoje, quando nos deitamos, ele veio me abraçar; eu aproveitei e disse: "Rui, amanhã vamos ao médico, ouviu? Olga me ensinou o dela, e não há nenhum perigo, ela me disse que tem feito muitos e nunca sentiu nada... é uma coisa à toa e..." - Logo que comecei a falar ele foi se afastando de mim e ficou sério, mas deixou que eu fosse até o fim. Eu não tinha mais nada para dizer, e fiquei embaraçada, aí ele perguntou:

- Já acabou? Pois fique sabendo que eu vou falar pela última vez: não consinto! Falo como médico e como marido. São duas autoridades que me atribuo. Bem sabe que eu adoro você e que tenho feito todas as suas vontades, até a de deixá-la andar com essas desmioladas que são suas amigas. Acho que fiz mal; devia ter visto que você era leviana e fácil de virar o miolo. Devia, portanto, ter tido mão em você. A culpa foi minha, mas daqui para frente você há de ter outro jeito. Se você possuísse a força moral de sua irmã, bem podia andar por onde quisesse, ou com quem lhe desse na telha, mas não tem, infelizmente...

- Você está me maltratando - respondi - por causa de uma coisa à toa... - Para que fui dizer isso, Marta! Ele enfureceu-se.

- Uma coisa à toa? Isso? Não digo que você é uma boneca vazia? Uma mulher de sentimentos não diria uma coisa dessas.

- Por que quis casar comigo se eu não tinha sentimentos?

- Sabia lá? Quando a gente está noivo é feio falar em filhos, vai melindrar o pudor da mocinha e por isso há tantas desgraças nos casamentos. As convenções ordenam que os noivos só devem conversar sobre lua, estrelas, poesias e estas bobagens. Mas o que se devia era acabar com o tabu e deixar que a meninazinha soubesse que, ao se casar, iria ter relações com o marido e, dessas relações, nasceriam filhos, é da natureza. E aquelas que não os quisessem que ficassem para tias e não fossem ligar-se a um homem para botá-lo maluco.

- Não sabia que você era tão infeliz no casamento; até agora tem fingido bem... - Aí, Marta, ele veio para me abraçar, mas eu fugi, e então ele ficou calmo, que parecia câmara lenta, e falou assim:

- Lúcia, a nossa vida tem sido bem bonita, eu peço a você que tenha esse filho só, e juro que havemos de dobrar de cuidados e não teremos outro. Paulinho já está crescido, e mais uma criança não é demais. Tire essas idéias mesquinhas de sua cabeça, querida, e não estrague a nossa vida...

- Sabe o que eu fiz, Marta? Gritei que chegava de polêmica, não pensasse que eu amolecia com cantigas, que eu havia de provocar o aborto de qualquer jeito, nem que tivesse que ir sozinha.

Ela parou como que sufocada, tomou um longo sorvo de ar e disse:

- Pensei que ele tivesse só cuidado em mim, medo que me acontecesse alguma coisa, mas não; eram lá os seus princípios. Compreende?

- E então? - perguntei.

- Então ele fechou a cara e segurou o meu braço com tanta força que até... cruzes! Pensei que ia me bater, e gritou com quanta força tinha:

- Basta, idiota! Eu não falarei com você enquanto alimentar essas idéias, está ouvindo? E quanto ao aborto, faça-o e verá. Botou a roupa outra vez e saiu, nem sei aonde foi...

Lúcia dobrou de chorar, e creio que, naquele momento, passando a discussão a limpo, estava se sentindo vacilar e só de orgulho não cedia.

- Não chore, Lúcia, ele não há de ter ido longe; com certeza foi refrescar a cabeça e daqui a pouco volta. Fique comigo, para pensar e resolver direitinho. Você mesma vê que a situação é grave e, portanto, não vai decidir levianamente uma coisa que custa o preço da sua felicidade.

- Não, Marta, não adianta pensar. Custe o que custar...

Os dias passavam, e eles zangados.

Era a primeira briga séria. Sempre faziam as pazes logo, entre beijos, e aquilo estava durando. Rui entrava e saía sem sequer olhar para ela, e, à noite, depois do jantar, ia para a varanda ninar o menino. Da sala ouvíamos a sua voz abafada e carinhosa, contando histórias e respondendo às perguntas curiosas do filho.

Lúcia ficava calada e séria, mas a fisionomia abatida e infeliz. Diante dele, tinha a boca contraída num traço de teimosia que eu muito conhecia. Eu, assistindo a tudo sem saber o que poderia ou deveria fazer, esperava. Às vezes ela saía durante o dia sem dizer para onde, e eu tremia num susto: será que vai hoje fazer o que disse? Mas à tarde ela voltava, com a mesma expressão de desalento e amargura. Não; graças a Deus, ainda não..

Paula, a alagoana, sabia de tudo, e me dizia:

- Deixe, dona Marta, não ligue, não. Mulher é teimosa, mas eles acabam sempre vencendo. Aposto que, se deixasse mesmo, ela não fazia...

Como eu fizesse um gesto de pouca fé, ela continuou:

- Fazia o quê! Olhe eu tive cinco, no meio da miséria e da fome. Home, a senhora sabe, é só enchê a barriga da gente e dá o fora. Toda vez que eu apanhava minino, dizia: esse num vô tê, não. Se a senhora visse, era um "buraco" a minha vida! Ninguém qué empregá mulhé de barriga ou com minino novo... só quando estão grandinho é que a gente arranja emprego, mas até aí, como é que se vai achá bóia pra enchê as boca dos bichinho?

- Que horror - dizia eu.

- Pois é. Uma vez me ensinaram que levá um tombo era bão pra abortá. Então eu tomei um bonde e me sentei na beiradinha, mas quando foi prá pulá me deu um nó e não tive jeito. O muleque tá aí.

- Onde estão seus filhos, Paula?

- Por aí... - fez um gesto vago, e continuou - quando vim pro Rio de Janeiro, o menorzinho tava assinzinho. Dois tinha morrido no sarampo recolhido, não sabe como é? A maiorzinha é uma negrinha esperta que só vendo, empreguei ela. O mais velho tava com dez anos, e seu Antônio da venda ficou com ele pra caixeiro. O pequeno, a madrinha acabô de criá.. hoje a senhora vê, tô forgada, mas penei nesse mundo de meu Deus.

Olhava para ela, procurando vestígios de tanta desgraça, mas apenas via uma dentadura branca brilhando na cara gorda, de chocolate, num riso inconscientemente feliz.

Pensava em Lúcia, a fazer toda uma guerra por causa de um filho que não queria por covardia e vaidade.

E a briga continuava.

Pela força das circunstâncias, Rui se aproximava mais de mim. Dirigia-se a mim para pedir algo, para falar sobre o menino, para pedir minha opinião sobre isto ou aquilo. Lúcia, perto, parecia ausente, nem sequer olhava para nosso lado. Confesso que me sentia mal e temia que esta aproximação acordasse meus nervos adormecidos e viesse bulir em casa de marimbondos.

Evitava-o, fugindo para o meu quarto.

Mas não fugia de mim. E lá, sozinha, eu abanava a cabeça para não pensar nele, no seu riso, no tom quente de sua voz, me falando em sussurro, e no seu olhar sombrio envolvendo-me, atento, doce, hipnótico.

Uma tarde, Lúcia não estava em casa, bateram à porta do meu quarto e fui abri-la.

Era Rui.

- Marta, não repare, mas tentei pregar este botão aqui, e não houve jeito, faça-me o favor... - e entregou-me o botão. Cosi-o nervosamente, sentada diante dele, e o paletó em seu corpo.

- É isso, zanga com a mulher... tem de aprender a pregar botão... - disse eu rindo.

- Você sabe que a culpa não é minha, não é?

Como eu ficasse calada, insistiu:

- Responda. Eu tenho culpa do que está acontecendo?

- Lúcia é muito orgulhosa, Rui. Está, além de tudo, muito ofendida com o que você disse. Sei que ela morre, mas não se entrega, também sei que ela está sofrendo muito... se você fizer um gesto apenas, ela se dobra, eu a conheço bem.

- Não acredito nisso...- e abanou a cabeça várias vezes - e se não se dobrar? Eu me aborreço mais ainda!

- Olha, pelo menos ela não fez o que ameaçou fazer, não é verdade? Isto já é um ponto vencido por você. Que estaria ela esperando? Não dá o que pensar? Se estivesse decidida mesmo, já o teria feito. Por isso é que eu penso que você deve estender a mão. Experimente.

- Você me pede isso?

- Ah! Sim... peço-lhe - disse eu num desabafo. - Não suporto mais vê-los assim... queriam-se tanto!

- Você pensa então que não gosto mais dela? Gosto. Gosto imenso, mas não posso permitir o que ela quer, compreende? Lúcia é uma criança, e eu sei que está influenciada por estas... estas... Desculpe, quase digo um nome feio. Ela é muito vaidosa, e mais ainda, se possível, medrosa e... é horrível isso! Eu também estou sofrendo!

- Bem vejo. Mas vai ser preciso que um dos dois estenda a mão primeiro, e eu acho que... que você pode fazer isso.

- Somos três, então, que sofremos. Você também. E tudo porque "Deus abençoou o meu lar com um filho", como se dizia antigamente. Como vai longe esse tempo!

Falava pensativo, olhando o menino que dormia em minha cama. Inclinou-se e beijou-o na fronte. Em seguida, pegou minha mão e disse:

- Prometo, Marta, que vou jogar a última cartada. E será decisiva: ou ganho, ou perco de uma vez.

Já fazia tempo que ele havia saído. E eu estava ainda ali, sentada à beira da cama, na mesma posição, e sentindo na mão o calor de suas mãos morenas. Olhava pela janela aberta e nada via. Mergulhava então o olhar dentro de mim: eu, a boa Marta, por que sentia, agora que eles fariam as pazes, sem dúvida alguma, este gosto amargo de derrota?

Era então com secreto prazer que os via assim afastados? Tanto mais secreto que nem a mim mesma ousava confessar? E aquelas minhas palavras repassadas de bom senso e ternura disfarçavam o verme imundo da inveja?

Cretina! Ah! Se eles soubessem! Se alguém pudesse ver os negros sentimentos que se debatem no fundo de cada alma!

Havia já bastante tempo que eu, ocupada com o menino, envolvida por seus bracinhos roliços, não me detinha a ouvir o ruído dos beijos deles. Eu também tinha uma boquinha mimosa que me beijava as faces e me purificava. Minha alma seria então como um charco? Flores na superfície e tanto lodo no fundo?

"Viver é lutar..." dizem. A frase é velha e a luta sempre nova. O inimigo... mas quem é o inimigo? O destino? O diabo? O quê? Lá o que seja, sempre de armas e emboscadas contra a fragilidade do homem. Luta desigual. E havia que lutar ainda, e ainda até quando, meu Deus?

Quando seriam as pazes? Hoje? Amanhã?

Nas pequenas brigas, as pazes eram tão gostosas! Eu via como ficavam, olhos nos olhos, durante horas. A alegria deles era como o sol depois de uma chuvarada: mais brilho, mais luz! E, dessa vez, o que seria?

Não esperei muito.

À hora do jantar, enquanto eu partia o doce para servir, vi que Rui, nervosamente, batia o cigarro na cigarreira; era um gesto habitual para esconder suas emoções. Súbito, falou sorrindo:

- Marta, você que vai ser a madrinha, que nome escolhe para o neném?

Que dei de surpresa. Aquilo era plantar verde para colher maduro, eu o sabia; olhei para minha irmã e vi seu rosto se tornar carmezim. Santo Deus! Pensei, que irá acontecer? Afundei embaixo da mesa, fingindo que apanhava algo, e, quando emergi, Lúcia chorava. O rosto escondido nas mãos, as lágrimas corriam-lhe por entre os dedos apertados. Aquele choro era um desabafo e uma capitulação. Sofrera todos aqueles dias a frieza do marido sem uma lágrima, ou queixa, só de orgulho, mas agora depunha as armas, vencida. Era mulher...

Ele riu comovido e, num minuto, estava ajoelhado ao seu lado, enlaçando-a. Eu tive de levar uns pratos lá para dentro, mas, da copa, ouvia uma ou outra palavra, no tom abafado da emoção que as torna tão doces: "Querida", "minha adorada".

É preciso confessar que, neste momento, não sofri. Tive o alívio que são os fatos consumados quando inexoráveis.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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