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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XVI
publicado em: 04/10/2017 por: Lou Micaldas

Não se apagará jamais da minha lembrança aquela figura de diabrete, sem freios, que me lança os bracinhos ao pescoço e diz, com infinita ternura:
"Eu adoro minha tiazinha!"

E veio o enjôo.

Ela o suportava com ar resignado, sem palavras. Às vezes, à mesa, comia alguma coisa com apetite e, súbito, corria ao banheiro. Da sala, ouvíamos as ânsias dos vômitos. Voltava extenuada. Havia dias, como da outra vez, que nem deixava a cama. Eu ia levar-lhe um caldo, um refresco, um chá... e tudo ela rejeitava.

O menino corria pela casa com seus brinquedos e, quando fazia muito barulho, ouvia:

- Paulinho, a mamãe está dodói... não faça assim.

- Vá brincar lá fora; não canse a mamãe com perguntas.

E a criança, afastada da mãe, agarrava-se ainda mais comigo. Lúcia, tomada de desânimo, era a própria figura da derrota. Ficava largada na cama ou na poltrona, e tudo a irritava. Era preciso ter paciência. Não suportava nenhum ruído, nenhum cheiro ativo. E eu não sabia mais o que fazer, para defendê-la de ruídos e de odores.

Depois alternava as horas de prostração com as de irritabilidade. Reclamava raivosa dos serviços das empregadas, ralhava a todo instante com o filho e ainda me atacava, dizendo que eu tinha a culpa de ele estar insuportável, pois o deixava fazer tudo o que queria. Passava a enumerar os "crimes" de Paulinho:

- Não viu, outro dia, o meu pó-de-arroz? Quarenta mil réis a caixa, e despejou tudinho no chão... e ainda esfregou com a mão pelo quarto todo!

- Ora, Lúcia, ele não despejou propriamente; decerto, quando pegou a caixa, o pó entornou-se, e ele, inocentemente, esfregou o chão para limpar. Vê você que uma agravante pode bem ser uma atenuante. E, Deus do céu, que sabe Paulinho de preços? Tanto entorna um pó de quarenta como de quatro mil réis...

- Lá vem você com panos quentes. É por isso que ele está terrível. Para tudo é o inocentinho... mas já tem quase cinco anos! Não é um bebê. E tudo que lhe cai às mãos, destrói. É preciso corrigi-lo, mas só quem faz isso sou eu, a madrasta. - Depois voltava para mim a metralhadora e dizia, debochando:

- Marta é uma santa! Só vendo que doçura! O "inocentinho" tem justificativa até para pôr a casa abaixo. Nem sei onde descobriu essa fonte inesgotável de paciência, onde vai se abastecer de vez em quando... gostaria bem de saber onde é essa fonte, pois um caso assim eu nunca vi. Este menino põe qualquer cristão fora de si. Menos você... que vai ser canonizada, nem resta dúvida!

- Espera, Lúcia, mas o que é que o menino faz de tão ruim? Eu não sei...

- Não?! - exclamou sarcástica - Não sabe mesmo?! Santa Marta! Mas eu digo: desarruma tudo a toda hora, suja a casa toda, nada pára em seu lugar, eu só vejo você atrás dele, a consertar tudo que "elezinho" estraga de manhã à noite. E, além disso, é malcriado, teimoso e, quando não grita de birra ou raiva, grita de prazer, que não sabe brincar sem dar gritos de ensurdecer a gente... Quer mais?

- Chega, chega, chega, acalme-se que isto faz mal a você. Deixe estar, agorinha mesmo vou dar uma surra nele, quebrá-lo todo.

- Bem diz Rui que você é irônica.

- É possível... - respondi, enquanto pensava ser a ironia o riso do triste.

Passada a crise do mau gênio, emendava na de ternura. Puxava para si o filho, beijando-o, acariciando-o, brincando horas com ele, armando-lhe os jogos e ajudando-o a formar batalhões de soldadinhos.

Ia melhorando aos poucos, mas eu notava que, à noite, à hora do marido chegar, ela piorava. Tinha minhas dúvidas de que fossem dengues. Ele cobria-a de carinhos e vinha cheio de embrulhinhos de coisas gostosas para ela: camarões de casaca, fiambre, empadinhas, uma variedade de salgadinhos da Colombo. Trazia-lhe também, vez por outra, um presentinho galante, e ia assim pagando o seu tributo de vencedor.

Ia melhorando, mas sentia-se fraca para passear e, quando estava de boa maré, conversávamos durante o dia, fazendo projetos para o enxovalzinho.

Paulinho freqüentava agora um jardim de infância e vivia encantado com os colegas e com os jogos que aprendia.

À tarde, vinha cheio de novidades.

- Mamãe, se tu "visse" como foi bom hoje! Um amigo meu inventou de brincar de "mocinho" e a gente corria por ali tudo, que a gente era bandido, e o mocinho se escondia atrás da árvore, e aí é que foi "bamba" mesmo, os bandidos "viu" ele e, "pum, pum, pum!" deu uma porção de tiro e ele caiu, "pimba", morto.

Dizia tudo isso bem sincronizado, representando a cena, e o final foi um tombo no chão de fio comprido.

- Morto, não, Paulinho - protestei. - O "mocinho" não morre.

- É mesmo, titia - respondeu convicto. - Estava só ferido.

- E aí? - perguntou a mãe.

E ele com a carinha triste:

- Aí... tocou a sineta e a gente foi pra dentro...

Aprendia a fazer desenhos, aos quais precisava dar nome, e dizia, muito sério:

- Isto aqui, titia, é um cavalinho com o menino montado.

- E isto?

- Ah! Isto é um avião grandão... não está vendo a asa dele? - perguntava admirado da minha burrice.

Quando estava assim comportado, era uma distração para ela, com sua tagarelice. Mas um dia, lá vem todo molhado, as meias e os sapatos cobertos de lama. Chovera pela manhã e as poças ali estavam que era uma tentação para se meter os pés. E o nosso garoto "tinha" de patinar na poça. Elza, a copeira, que ia levá-lo e buscá-lo ao colégio, na esquina, não tinha força para dominar aquele guri atrevido, que gritava:

- Ninguém me manda! Papai disse que eu sou homem!

Mas era encantador com aquele facho de cabelo dourado e rebelde a cair-lhe na testa, que, num gesto brusco, arremessava para cima.

Lúcia fazia tricô, estava na moda, e ela aprendera com as amigas lindos pontos para sapatos e paletozinhos. Passava horas sentada, com as compridas agulhas coloridas dançando no ar, enquanto contava baixinho: "Dois meia, dois lisos, dois meia, dois lisos..."

Às vezes, tinha já um pedação feito, mas descobria um erro e desmanchava tudo. Outras vezes, era Paulinho o culpado. No estouvamento de suas brincadeiras, enroscava-se na lã e... adeus malhas perdidas!

- Já disse para você chegar para lá. Como posso fazer as coisas com esse menino em cima de mim? É "pau" contar isso... já tinha um pedaço grande feito, e lá vem ele com esse imundo carrinho e arrebenta tudo.

E o grande acusado passava altaneiro, puxando por um barbante o "imundo" carrinho que, em sua prodigiosa imaginação infantil, seria talvez um trem elétrico, um automóvel último tipo, ou - quem sabe? - o carro fulgurante com a Branca de Neve. Era sozinho, mas valia por cinco, como a mãe dizia com sua mal disfarçada pontinha de orgulho.

Fazia um barulhão quando brincava de avião ou de trem. Pegava qualquer coisa: um carretel, uma tesoura; se na mesa, uma faca, uma colher, uma banana, e aquilo representava o avião, fazendo ele o ruído de motor, "on-on-on-on-on-on-on-on-on".

Quando era o trem, tornava-se um pouco pior, pois além do barulho das rodas: "tem-dem-dem, tem-dem-dem, tem-dem-dem" ainda havia o apito da máquina: "puuuuuuuuuuuuuu! puuuuuuuuuuuuuu!"

Como estão gravados em mim cada um de seus gestos, as mínimas coisas que fez e disse! Basta olhar para trás e eu o vejo, brincando na varanda, tão vivo, tão nítido que me sorri até, com a boquinha onde falham já dois dentes.

Não se apagará jamais da minha lembrança aquela figura de diabrete, sem freios, que me lança os bracinhos ao pescoço e diz, com infinita ternura:

"Eu adoro minha tiazinha!"

Lúcia já saía a passear e, pela manhã, levava o menino à praia. Os dias passavam serenos. A vida caminhando para a frente, no seu passo ritmado e inexorável. Cada qual adaptando seu modus vivendi a esse ritmo. Rui, com a clínica; Paulinho, com suas travessuras; Lúcia, já restabelecida, voltava às suas amigas e à sociedade; eu, com minhas costuras e bordados, e... como Inês de Castro, posta em sossego.

Estava próximo o aniversário de Paulinho, e ele teria, como de costume, o chá para o qual se convidavam seus colegas e amiguinhos. Desde muitos dias que o garoto azucrinava a gente com perguntas.

- Quantos dias faltam para o dia do meu parabéns?

E nós dizíamos: quinze, por exemplo, e ele abria as duas mãos para contar nos dedos, e pedia:

- Titia, me empresta a sua mão, que a minha só não chega... - Agora, sentada ali na varanda, com um trabalhinho na mão, eu o via correr pelo jardim atrás do jardineiro que, de tesoura em punho, aparava o fícus junto à grade.

Eu vigiava o pequeno e ouvia as perguntas que aquele incansável tagarela fazia ao homem trepado na escada. De mãos enfiadas nos bolsos das calcinhas, o rosto voltado para cima e os olhos apertados por causa do sol, era uma figurinha petulante e encantadora. Em sua vozinha clara e estridente, insistia em saber se o jardineiro também tinha um menino; se era assim como ele e se dava uma festa no dia do parabéns.

Depois contava que Papai do Céu ia mandar um irmãozinho para ele, mas que estava demorando muito, era até capaz de não vir mais... bom seria se viesse para a festa, que ia ter muitos doces. O jardineiro ria-se e respondia a tudo, a contento de Paulinho.

Chegou, afinal, o grande dia.

O nosso herói ganhou uma mobília de quarto. Na cama laqueada de azul, com uma bela colcha de moarê, os presentes se apinhavam. Eram jogos, bolas, carros, caminhões; todo um arsenal de canhões, espingardas, revólveres; e, para os nossos ouvidos, havia gaitas, cornetas, tambores. O menino delirava. Cada embrulho fechado, uma promessa, e, aberto, uma surpresa.

A sala enfeitada de bolas de ar de todas as cores; ao centro, a mesa de "marinheiros", com um enorme navio de três chaminés, todo de açúcar e marzipan. A meninada rodeava a mesa, entusiasmada, querendo devorá-la mais que depressa.

Lúcia, risonha e amável, andava pela casa distribuindo-se. O corpo arredondava-se, e, dias antes, havíamos tido uma conversinha. Disse-me ela que ia usar cinta, todas usavam e não havia necessidade de fazer um barrigão.

A criança que engordasse e crescesse cá fora. Aconselhei que nada fizesse sem consultar o marido, podia não fazer bem e ser coisa das cabeças-de-vento das amigas dela.

- Não; não eram cabeças-de-vento, não - respondeu peremptória; não eram, isto sim, atrasadas como a nossa gente.

Mudei o assunto, aquele era áspero. O médico assistente ficou de acordo, e veio a cinta. Via-se que tinha horror à barriga. Assim que desceu, toda preparada, perguntou-me:

- Estou bem? Acho que nem pareço grávida, está bem disfarçado, que é que você acha?

- Está muito bem, parece só mais gorda, mas a barriga disfarçou - respondi enquanto pensava que, se eu fosse ela, como me sentiria orgulhosa daquela barriga.

Depois da festa, à hora de deitar-se, enquanto vestia o pijama, o menino falava excitado:

- Viu, titia, que soprada que eu dei nas velas? Cinco, hem, titia, e eu apaguei tudo de uma vez... não sou "bamba" mesmo?

- É, sim, meu filho, você fez um bonito, mas agora precisa dormir quietinho, que está cansado.

- Você fica um pouquinho comigo, hem, titia? - perguntou medroso, para depois acrescentar, como bom chantagista: - Hoje é dia dos meus anos!...

- Fico sim, mas trata de dormir ligeiro.

Mas o papagaio não se continha.

- Titia...

- Que é, Paulinho?

- Que bonitas as bolas, não é? Mas estoura logo... é uma pena! Aquela verde... eu soprei, soprei, e ela foi ficando tão enorme... e "pof", estourou...

- Dorme, Paulinho, senão vou-me embora.

E fiquei pensando que na vida também quanta coisa a gente sopra, e sopra, e sopra e fica tão lindo! Mas... "pof", estoura.

Todas as festas de Paulinho eram festas para mim. Carnaval, Natal e os aniversários. Era um grande folião.

O seu primeiro carnaval foi com um ano e meio, fantasiado de pirata. E era um encanto de pirata, de grandes olhos ingênuos, metido na roupinha preta. Levava uma faca de pau que, no seu desajeitamento, segurava pelo cabo, inconscientemente agressivo.

Metido nas botas de oleado, com suas perninhas pouco práticas, vez por outra tínhamos de correr para apanhar o pirata estendido na calçada. E aí, vinha seu hino de revolta: berrar que não acabava mais.

Eu tinha agora, em meu quarto, penduradas à parede, quatro figurinhas carnavalescas: um pirata, que era quase um bebê; um espanhol, rico de bordados em medalhas; um holandês de bombachas de cetim; e um vaqueiro, numa atrevida pose, as pernas afastadas, os polegares fincados no cinturão de couro e com ar muito fanfarrão.

Saíamos de automóvel para o corso e íamos também a bailes infantis.Desde que amanhecia, começava o menino a pedir que lhe vestíssemos a fantasia. Cada bonde que vinha, cheio, ruidoso de chocalhos e pandeiros, campainhas e cantorias, o menino ficava louco atrás de quem pudesse levá-lo à esquina para ver.

E era uma graça vê-lo bater o pequeno pandeiro e cantar com os blocos que passavam, dançando no ritmo, até que o bonde se ia e a música morria nos longes.

Incansável, à noite era difícil fazê-lo dormir. A algazarra da rua vinha até ele. As pálpebras desciam pesadas de sono, mas ele se esforçava por manter abertos os olhos e cantarolava ainda:

"Eva querida..."

O casal ia a bailes, iam ao Copacabana, ao Cassino da Urca e outros lugares mais, que nunca vi. Lúcia fantasiava-se, toda faiscante de lantejoulas, e lá iam farrear até o amanhecer. Eu ficava com o menino e, não raro até bem tarde, lutava com a sua fúria carnavalesca.

Depois, deitava-se, e ainda ouvia por horas a zoada que, de longe, vinha num crescendo encher meus ouvidos da cadência de um samba gostoso. Eu pensava: Paulinho sabe esse, canta-o inteirinho, e é um gozo ouvir na voz inocente o samba de Noel.

"O orvalho vem caindo,
vai molhar o meu chapéu
e também vão sumindo
as estrelas lá no céu..."

Noel Rosa, Lamartine Babo, Ari Barroso, João de Barro e outros mais, os nossos gigantes da música popular. Poetas das ruas, celebrizados na voz do povo em suas músicas de todos os tempos.

O batuque ia fugindo até perder-se ao longe, mas vinha outro bonde e outra toada, num crescendo:

"Lourinha, lourinha dos olhos claros de cristal..."

Celebrando as louras, mas logo outro surgia:

"A vitória há de ser tua, tua, tua, moreninha prosa..."

E eu pensava naquela loucura.

Devia ser bom, talvez... meter-se numa fantasia, pôr máscara e fugir um pouco de si mesma. Viver esses três dias, tonta de luzes, ébria de cores... fora de seus hábitos e de suas regras. Sim. Devia ser bom.... Mas... que tolice a minha, estar a pensar estas bobagens! Como se entre mim e a vida não houvesse uma barreira intransponível.

Seria preciso que algo se despedaçasse dentro de mim para que eu pudesse agir como toda gente. E o que seria este "algo"? Sei lá... Quem me prende? Sou como um peru, presa em círculo apenas traçado em volta de mim. Mas será que desejava mesmo ir? Ah! Desejo é dormir, que estou com sono.

É melhor que eu cante com Noel Rosa: "Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?"

Ou, quem sabe, vou me embalar na bela voz de Mário Reis:

"Agora é cinza, tudo acabado
e... nada mais."

Natal, outra festa de Paulinho.

No primeiro e no segundo, era ainda muito pequenino e nada alcançou da cerimônia do sapatinho. Mas, nos anos seguintes, era um gozo vê-lo. Arrumávamos, à noite, os brinquedos ao lado da cama, onde ele havia posto os sapatos com todo o cuidado, perguntando mil coisas: se o Papai Noel não ia se enganar de casa e dar a outro menino o que ele havia encomendado. De vez em quando lembrava-se de algum brinquedo mais e assustava-se:

- Titia, eu nem pedi um cavalinho! Quero um cavalinho também...

- Está bem, Paulinho, o Papai Noel já escutou isso que você disse e vai trazer o cavalo.

Cedo eu acordava para esperar o seu despertar. Lúcia e Rui também vinham para gozar a sua surpresa.

O garotinho abria os olhos, esfregava-os, estremunhado e esquecido de tudo. Súbito, lembrava-se e, soerguendo meio corpo, espiava aflito, e ficava contemplando por alguns segundos, incrédulo, o montão de presentes que Papai Noel lhe dera. Lembro-me então de uma vez em que ele gritou, comovido com a bondade e a generosidade do Velho:

- Tudo isso? Tudo isso só pra mim?

Depois atirava-se a tudo, soprando corneta, batendo tambor, montando o cavalo, fazendo tudo a um tempo, achando-se pouco e querendo ser dez para dar conta.

Porém, até o Ano Bom o nosso destruidor já havia dado cabo da metade. A tudo ele arrancava pedaços e amassava, batendo com um pau, numa fúria destruidora.

Deus do Céu! Dizem que as crianças que muito destróem serão futuros construtores.

Oxalá!

Autor(a): Magdalena Léa

 

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