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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XVII
publicado em: 04/10/2017 por: Lou Micaldas

"- A gente também cansa de chorar. Quem sabe o que ela chorou? Afinal, só vemos os outros por fora, nunca podemos saber se estão ou não sofrendo. Há um soneto que diz que se a gente pudesse "ver através da máscara da face..."

Lúcia conheceu Marcelle, francesinha de olhos de gata, na praia, à hora do banho.

- Marta, ela é simplesmente formidável! Você nem faz idéia. É a moça mais interessante que eu conheço: inteligente, bonita, muito moderna, com uma conversa agradável... quero só que você a veja.

E cada dia me vinham detalhes da vida de Marcelle.

Marcelle tinha também um menino, pouco menor que o nosso Paulinho, e, por coincidência, com o mesmo nome; só que ela o dizia em francês - Paul.

Foi numa bela manhã de sol que Lúcia conversou, pela primeira vez, com a mulher que lhe traria sombra à felicidade.

A camaradagem começou entre os garotos e, aos poucos, foi aproximando as mães. Lúcia já a apreciava à distância. Admirava-lhe o corpo fino e ondulante, que vestia uma variedade de maiôs. E dizia:

- Marta, eu já contei os maiôs dela. Você nem sabe, já tinha contado oito e hoje ela foi com outro. E que lindo! Amarelo-canário, colado que você nem calcula, parecia mais um corpo pintado que vestido.

E, depois que conversaram, Marcelle confessou que tinha um fraco por maiôs. Não podia ver na vitrina um que lhe agradasse que não o comprasse logo. Já tinha uma boa coleção deles, e se Lúcia soubesse quantos já havia dado de presente... também se enjoava facilmente.

Lúcia, curiosa, perguntou-lhe quantos tinha, e ela, recorrendo aos dedos, verificou que tinha mais de dez. Que exagero! Pensava eu, preciso conhecer essa moça. Mas cada dia eu tinha uma coisa que me prendia em casa e, quando mais não fosse, havia a natural preguiça, e eu ia adiando o momento de conhecê-la. Lúcia só tinha um assunto: Marcelle. Até com Rui ela ficava falando sobre a moça, contando-lhe seus ditos.

Uma vez, diante do espelho, ela apanhou o cabelo no alto com um grampo e me perguntou:

- Estou bem assim? Veja se me assenta.

E, antes que eu respondesse, acrescentou:

- Marcelle faz assim quando vai cair n'água; fica linda, Marta. Acho que tudo assenta bem nela... só ainda não a vi vestida...

- Ora, Lúcia - falei com certa irritação - parece que está apaixonada! É Marcelle, Marcelle e mais Marcelle! Que tolice... aposto que nem vou achar graça na sua beldade.

- Ah! Isso eu duvido, a menos que você esteja de prevenção, de má vontade. Ela é um amor! Estou doida que acabe esta gravidez, me sinto envergonhada perto dela com este barrigão...

- Ela não disse nada? - perguntei desconfiada.

- Não; quer dizer, disse só, ou por outra, perguntou se eu não vou parar depois desse.

- E foi só?

- Só, sim. Eu respondi que vou parar, nem que isto me custe a vida.

Fiquei calada.

No dia seguinte, lá fui eu à praia, ver de perto a sereia.

Assim que chegamos, já o guarda-sol azul estava espetado na areia e, à sua sombra, o corpo nu de Marcelle, "pintado" de vermelho, esse dia. Aquele vermelho de doer na vista.

Quando chegamos, levantou-se pressurosa e veio-me abraçar, dizendo que já me conhecia muito de nome, que Lúcia falava com muito carinho na irmã.

Respondi que eu também já a conhecia através de Lúcia. Sentamo-nos à sombra das duas barracas unidas.

Meu Deus, que olhos! Pensava eu, enquanto elas conversavam sobre modas e coisas assim. Podia observá-la sem que o notasse, absorvida na palestra. Eu fingia prestar atenção e analisava-lhe os traços com certa severidade.

Era incontestavelmente bonita, principalmente os olhos. Olhos verdes enviesados, com pestanas longas e viradas, e aquela expressão fixa e quase dura dos gatos. O rosto largo, de maçãs um pouco salientes, e a boca rasgada, talvez demais, cujo sorriso se abria sobre dentes brancos e grandes. A voz era o que tinha de mais impressionante. Gutural, cheia, quente. Nunca vi mulher nenhuma com uma voz assim. Pensei que, ao telefone, haviam de tomá-la por um homem, mas era uma bela voz.

Lembro-me de que Lúcia havia falado sobre isso:

- Que voz engraçada que ela tem! - dissera.

De fato era assim - engraçada. Impressionante!

Numa palavra digo: não gostei dela, isto é, não simpatizei com a fulana, apesar de toda a amabilidade do primeiro encontro. Suas atitudes de mulher livre e independente, fumando desbragadamente, não me agradaram. Nós éramos moças de outros tempos e de outro meio, que Lúcia tachava de atrasados. Ver essa, de tipo assim livre, me constrangia.

Divorciada, sozinha, andando pelos cassinos e boates, seminua na praia, a desfilar maiôs numa exibição ostensiva de futilidade e impudor... Preferia que Lúcia não atasse tanto a amizade com ela; mas como impedir, se Lúcia estava deslumbrada com a amiga nova?

De volta para casa, ela veio me perguntando que tal a achara, se não era exato como ela dissera, se eu vira os dentes, a pele, os olhos, o corpo, a cor do cabelo... E perguntou:

- Não achou lindo, hem Marta? Parece prata polida, nunca vi cabelo daquela cor... chamam Platinum-blonde. Só as artistas de cinema é que usam essa cor... mas eu acho maravilhosa!

Ela ia falando, eu ia ficando de acordo com tudo e, de vez em quando, fazia uma críticazinha:

- E como fuma!

Mas ela acudia logo:

- É, Marta, você nem sabe, ela diz que fuma assim de tédio, antes só fumava às vezes, mas viciou-se depois que o marido se foi...

- E por que se foi? - perguntei sem poder disfarçar a ironia.

- Por quê? Ora, ela não me disse, nem eu pergunto. Acho até maldade estar forçando alguém a contar o que precisa esquecer.

- Está bem... está bem... não se agaste.

Ela apelou para a lamúria:

- Aposto que você não gostou da minha amiga. Também, você não gosta de nenhuma delas... Duvido que você dê o nome de uma que seja da sua simpatia. Você as acha, a todas, desmioladas, vazias e nem sei mais o quê... e eu também entro nessa dança, mas não faz mal. Agora escute uma coisa; se eu, por acaso, por desgraça, ficasse sozinha, e Rui fosse andando com outra, por exemplo, você pensa que eu ia me enterrar em casa e chorar a minha vida toda?

- Penso, Lúcia, que, quando uma mulher ama o marido, e ele a abandona por outra, deve ser uma dor tão horrorosa que ela se enterrará mesmo em casa, sem pensar se deve ou não fazê-lo. Afinal, minha filha, um desgosto é um desgosto, e Marcelle tem cara de tudo, menos de desgostosa.

- A gente também cansa de chorar. Quem sabe o que ela chorou? Afinal, só vemos os outros por fora, nunca podemos saber se estão ou não sofrendo. Há um soneto que diz que se a gente pudesse "ver através da máscara da face..."

E nossas discussões não tinham fim. Lúcia a defender a amiga, e eu a espetá-la de alfinetes.

À hora do jantar, ainda o assunto foi Marcelle.

E Rui perguntou por onde andava o marido dela. Lúcia respondeu que nada sabia do marido, que ela só lhe havia falado na separação e nem lhe dissera porque, e que ela, Lúcia, não perguntava nada por delicadeza. Sabia que ela fora casada com um brasileiro. E acrescentou:

- Se aqui no Brasil houvesse divórcio, era outra coisa, mas isso é para os países adiantados.

Rui declarou peremptório que era contra o divórcio.

- Contra por quê? - perguntou Lúcia, com uma pontinha de insolência.

Ele respondeu calmo e pausado:

- Porque, minha querida, sou contra tudo o que possa causar desordem. E o divórcio causaria.

- Como causaria? Justamente por não haver divórcio é que há tal desordem. Casais desajustados, brigando feito cão e gato, ou então separados, sem poderem construir nova vida. E para a mulher é uma verdadeira calamidade. Mulher divorciada é mal vista por todos. Veja, Marcelle é bem um exemplo disso. Ela parece tão boa moça, mas, como está separada, vem logo a pergunta num tom de crítica malévola: cadê o marido dela? O que ninguém pergunta é se ele foi bom ou mau, como se toda a culpa do desajuste entre os dois fosse coisa da exclusiva responsabilidade dela.

Rui ponderou:

- Talvez que, em alguns casos, fosse necessário o divórcio, não sei se esse seria o caso da sua amiguinha, mas, para remediar o mal de alguns, não se pode pôr os outros a perder.

- Perder por quê?

- Meu bem, se houver facilidade de casar e descasar, ninguém mais atura um ao outro. Acaba-se a tolerância, a paciência para com as fraquezas do próximo, a compreensão, coisas que todos temos de ter para completar bodas de prata e de ouro, já que ninguém é perfeito.

Com uma dosezinha de bondade, aprendemos que não devemos exigir dos outros mais do que eles poderão dar. E o ajuste entre casais vem de compreensão, adaptação, renúncia mesmo.

Ora, com o divórcio e a facilidade de desatar o laço, ninguém mais vai se esforçar nesse sentido. Cada um vai para seu lado e amanhã se arruma com outro, para depois fazer a mesma coisa.

- Mas é preciso haver uma solução para os infelizes, também eles não devem ser sacrificados. Não se pode dizer aos infelizes: agüentem aí, e pronto. Não é justo que alguém, porque errou, ou se enganou na escolha, vá carregar essa pesada cruz até o fim da vida. E qual é o remédio?

- Justamente por isso é que não temos muitos casos de separação. Se não há remédio, os casais procuram se ajustar, perdoando-se mutuamente, pois sabem que casar é uma vez só. O divórcio traria, eu repito, a bagunça geral. Nós, brasileiros, não nos adaptamos a isso. Existe apenas um número reduzido, graças a Deus, de modernistas que o querem. Mas é só uma meia dúzia de cabeças sem miolo e cheias de cinema, que querem o divórcio. Temos ainda muitas famílias brasileiríssimas que festejam suas bodas de prata e ouro, e até de diamante. Sessenta anos de casados! E que beleza, querida! Você está convidada a galgar de braços dados comigo estes sessenta degraus, não faço por menos.

Ele levantou-se e veio rodear os ombros da mulher com seus braços fortes, e continuou:

- Há um meio, meu bem, de diminuir as infelicidades do casamento: é casar por amor. Devíamos ser educados neste princípio de forma rigorosa. Infelizmente, não é assim, e as pessoas se casam por outras razões quaisquer. A mulher, que não tem direito à escolha, ou por outra, que tenha esta escolha limitada, em geral se casa para não ficar para titia e com o primeiro que aparece.

Não é só isso, há muitas razões porque homens e mulheres se casam, e seria exaustivo enumerá-las. Só digo que a maioria dos casamentos é por interesse. Casam-se por dinheiro, posição, displicência; casam-se porque estão cansados de estarem solteiros, casam-se porque são apanhados e não sabem escapulir. Enfim, casam-se por todos os motivos por que não se deveriam casar. Quando se lhes fala em amor, declaram: isto não existe! E nem esperam para ver se existe ou não.

- Eu não sei - disse Lúcia pensativa - só sei é que há alguma coisa errada na indissolubilidade do casamento. As pessoas devem ser livres para viverem. Não posso admitir que uma pessoa tenha que sofrer maus tratos pela vida toda, sem poder dar uma solução, a não ser a de sofrer mais ainda, tendo de agüentar maus tratos do mundo.

- Meu bem, repare que você só fala na mulher, pobres mulheres fracas e indefesas, mas saiba que existem homens também infelizes, coitados, coitadíssimos, casados com megeras, ruins como cobras, que nem sequer são bonitinhas, em muitos casos, para adoçar a pílula.

- Ora, meu filho, homem é diferente. Você já viu alguém olhar de viés um homem porque ele é separado? Se ele atura a megera é porque quer; o mundo está sempre a favor do homem, e nós é que pagamos o "pato".

- Vamos deixar homens e mulheres para lá, que não nos é dado resolver os problemas sociais, e escute aqui: acima de tudo, queridinha, está o Amor, Amor mesmo, com maiúscula, a coisa mais bela que existe e pela qual vale a pena viver.

- Mas e se o amor acabar?

- Se acabar é que não era o Amor, era pseudo-amor, uns pruridozinhos à flor da pele. Quando dois se amam de verdade, este amor não acaba. Com o correr dos anos, vai-se transformando num afeto mais e mais profundo, o que era arroubo é então um carinho calmo, ternura... Ele vai-se lapidando na convivência de mútuo entendimento e perdão, até tornar-se magnífica gema preciosa, em todo o seu brilho, em todo o seu fulgor.

Tenho visto casais de cabeça branquinha e de mãos dadas como dois namoradinhos. Nós iremos assim, de mãos dadas, visitar nossos netos, não?

Lúcia estava pensativa, e Rui pôs-se a rir:

- Então, minha cara divorcista, se eu deixasse você, só porque pudesse casar outra vez, estaria consolada?

- Bem, é conforme... o outro, não é? - respondeu brincalhona; depois, virou-se para mim:

- Está tão calada!

- Não tenho nada para dizer...

- Então me diga se você é contra ou a favor do divórcio.

Rui tinha deixado a sala e ido para a varanda fumar; ficamos as duas, e ela veio sentar-se no braço da minha poltrona. Eu havia acompanhado aquele duelo Eva versus Adão, sem dar palpites. Em todas as discussões, cada um tem sua razão - ninguém tem toda. Quem era eu para entrar no mérito de questão tão complexa? Respondi:

- Sei lá, Lúcia, nem sou casada, e vou pensar em divórcio?

- Mas você pensa em tudo... está sempre analisando as coisas, como diz Rui...

- Mas ainda não pensei em divórcio. É questão difícil, complicada. Merece um estudo cuidadoso. Vejo que não é para as minhas poucas luzes. Há os filhos, em linha de conta, há a família... Só o que posso dizer é que, quando uma idéia é discutida, não é de todo boa.

- Nem de todo má. - respondeu.

Ela foi embora, e eu estava mesmo louca para ficar sozinha com aquela frase de Rui:

"Amor com maiúscula, que é a coisa mais bela que existe e pela qual vale a pena viver."

Mas desta coisa, que é a mais bela da vida, eu só conhecia os tormentos.

Uma tarde, Marcelle veio visitar Lúcia. Já havia dias que, presa por um resfriado, não ia à praia, e então a amiga veio vê-la. Quando tocou a campainha, fui abrir a porta, e lá estava a moça francesa, toda sorrisos. Os cabelos de prata atados por uma fita, parecia uma menina, de vestido branco, as iniciais bordadas no peito, com linha vermelha.

Levei-a até Lúcia, que ficou radiante. Tagarelaram a tarde toda. Pareciam ter os mesmos gostos, as mesmas opiniões sobre tudo na vida. Iam de um pólo a outro, na conversa, e era só uma falar e outra dizer amém.

A certa altura, eu me cheguei um pouco, para ver se me reconciliava com Marcelle. Minha primeira impressão foi de um desagrado tal que eu queria tirar a limpo se tinha sido ou não má vontade de minha parte, ou se era, ao contrário, o meu "bom olho" que estava em função.

E me pus a dialogar com meus botões: "Ela é tão amiguinha de Lúcia... parecem se entender tão bem... também é tão nova... deve ter, no máximo, vinte e cinco anos, aposto." Mas... - e aí respondiam os botões, saindo de suas casas: "Não gosto do seu modo de rir." E eu: "Talvez seja porque tem aquela boca rasgada..." E os botões: "Feitio de boca não tem nada que ver com modo de rir que parece falso; é um riso forçado... é um riso estudado... E esse modo de olhar de viés - continuavam os botões - olhos de cobra não são de gente boa..." E eu: "Mas ela é bem bonita... esta diaba de francesa..." E os botões: "Mas Lúcia também é." E eu: "Vai ver, ela está tão encantada com Lúcia, quanto Lúcia com ela..." "Isso é... mas" - disseram-me os botões, implicando - "estará você com ciúme?" "Calem a boca, idiotas. Assunto encerrado!" - disse-lhes eu, furiosa.

Foi quando Lúcia começou a rir, perguntando:

- Está falando sozinha? Endoidou?

Devo ter corado até à raiz dos cabelos, assim apanhada com a boca na botija, mas fui saindo para trazer-lhes o lanche.

A tagarelice durou ainda horas, eu sempre a observando e nunca chegando a uma conclusão. De vez em quando, Lúcia procurava me introduzir na conversa com um: "Não é, Marta?"

- É. - era tudo o que eu respondia.

Nas despedidas, Marcelle prometeu voltar e acrescentou com uma vozinha triste:

- Vivo tão sozinha...

Lúcia quis saber se eu não tinha ficado com pena, se eu não tinha gostado mais dela dessa vez, e se ela não tinha sido gentil em vir visitá-la.

Respondi a tudo direitinho e fui dali mastigar minhas dúvidas. Via-a diante de mim, com aqueles olhos enviesados espiando pelos cantos e por baixo das pestanas viradas. "Falsa!" - minha mente gritou, antes que eu me desse conta.

Parecia-me ainda ouvir-lhe a voz esquisita, voz de prima-dona. Não tinha nenhum sotaque francês, só o tipo de estrangeira: olhos claros, pele que seria de leite se não fosse tostada de sol, cabelos louríssimos e aquele jeito de meter na conversa coisinhas francesas: Merci, ma chérie, au revoir, chamando Paul ao filho e mon petit ao de Lúcia.

Num domingo, fomos todos à praia. Lúcia já não punha o maiô, mas um vestido. Sentava-se à sombra da barraca e Marcelle vinha conversar com ela. Eu divertia os meninos com morros de areia e túneis enormes, cavando com as unhas, eu de um lado e eles do outro, até que nossas mãos se encontrassem, e era, então, uma algazarra de gritos e gargalhadas dos guris. Paul era sardento, com um narizinho arrebitado e a cabeça raspada, muito vivo e engraçado.

Ao lado e em pleno sol, Rui, estirado, dourava o corpo até a hora do mergulho.

Marcelle levantou-se e foi correndo para a água; corri também, tentando alcançá-la, mas ela, de um só pulo, mergulhou nas espumas. Fiquei parada, a vê-la. Bem adiante seu corpo emergiu para mergulhar de novo numa onda quase quebrando. Surgiu ainda, nadou algumas braçadas e outra onda enorme começou a crescer diante dela, escura, com uma fímbria de espumas a borbulhar na crista.

Eu contemplava-a, naquele duelo da sereia contra o mar, quando surgiu a seu lado o corpo de um homem, e vi quando mergulharam juntos, atravessando a massa d'água que se quebrou num estrondo. As espumas furiosas vieram até mim, envolvendo-me e arrastando-me em "jacaré" para a areia. Atordoada, ergui-me e senti, de repente, que aquele homem era Rui. O coração parou. Procurei-os ansiosa, e lá estavam, juntos, ora mergulhando, ora subindo no cume das ondas, e eu os via rir um para o outro de puro gozo.

Lembrei-me dos olhos dela, da voz dela, e pensei em Lúcia. Seria possível que ela não se importasse? Uma pequena assim tão sedutora a subir nas ondas com o marido dela?

Durante a semana, Lúcia sentiu-se mal, queixando-se freqüentemente do calor, num nervosismo e numa irritação crescente. Falava com raiva daquele barrigão horrível.

Rui chegava tarde para jantar, e eu via-lhe a impaciência, olhando o relógio, irritada comigo, com o menino, com as empregadas e com todo o mundo. Mas, à hora em que ele chegava, todo se desculpando, curvado para beijá-la, ela se fazia alegre e risonha, a tratá-lo de "meu querido", "meu amorzinho".

Depois saíam para visita ou cinema, e eu via muitas vezes que ele preferia ficar em casa, mas ela insistia que precisava distrair-se, que andava nervosa, e ele, então, fazia-lhe a vontade.

Notei que ela já não ia mais à praia e quase não falava em Marcelle. Uma outra vez, perguntou-me qual tinha sido minha impressão verdadeira sobre a moça. Insistia para que eu não fizesse cerimônia e dissesse tudo, que ela não ficaria zangada.

Eu fugia do aperto dizendo-lhe, num ar trocista, que minha opinião não valia nada, pois eu havia de implicar, forçosamente, com as moças bonitas, na minha condição de solteirona. Ela ria-se, e o assunto ficava por aí.

Eis que, num domingo, depois que Rui saiu para a praia com o menino, Lúcia veio para junto de mim. Eu estava no meu quarto, pondo ordem numas gavetas, quando a vejo surgir à porta. Vi que tinha chorado e fui a seu encontro.

- Que é que você tem?

Desalentada, sentou-se em minha cama.

- Marta, eu fico doida! - disse, apertando a cabeça entre as mãos.

Atônita, enlacei-a nos meus braços:

- Mas o que foi que aconteceu? Diga, eu estou aflita. Está sentindo alguma coisa?

- Ela fez com a cabeça que não e continuou na mesma posição.

- Quer que eu vá chamar Rui?

Levantou-se como impelida por mola, olhou-me de olhos secos, cheios de ódio, e respondeu numa voz que não era a sua:

- Rui que vá para o diabo que o carregue. - E acrescentou com um ricto mau: - Ele... e aquela maldita francesinha.

Diante de mim, que arregalava os olhos, ouvindo e não querendo entender nada, estava Lúcia transtornada pelo ódio. E toda ela era uma interrogação, toda ela estava debruçada nos olhos, que me perguntavam: "Que fazer agora?"

E eu, pobre de mim, que poderia fazer por ela? Nada sabia dos homens, vivia tão longe deles... Nervosa, eu torcia minhas mãos, enquanto ela andava ao comprido do quarto, para lá e para cá, falando como para si mesma, num desabafo que parecia uma torneira a jorrar:

- Não suporto mais. É um desaforo, tenho vontade de cuspir na cara dela. Aquela suja, aquela maldita! Olhe minhas unhas. Tinha coragem de rasgar a cara dela com estas unhas. Quando a vejo envolver meu marido em olhares e sorrisos, tenho ganas de matá-la. Pensa que eu não era capaz?

- Que é isso Lúcia? Acalme-se, está falando sem pensar. Talvez esteja só nervosa, vendo coisas que nem existam...

Ela me interrompeu colérica:

- Não existem? Vá, vá agora lá na praia ver com seus próprios olhos. A menos que você seja cega ou idiota, há de ver a pouca vergonha dos dois. Por que é que eu não vou mais à praia? Pensa que é por causa da barriga? Não. Não é. Não está tão grande assim. Não vou para não ver aquela tipa atrás de meu marido, e ele, o imbecil, todo se derretendo.

- Mas Lúcia, acalme-se, você não vê afinal nada de grave...

- Ora, que tola... você não havia de querer que fizessem coisa pior na praia, não é? - respondeu sarcástica.

Depois, prosseguiu num tom de desalento:

- Eu sou uma idiota, Marta. Desde o começo, podia ter pedido a Rui que não fosse à praia, e ele não iria, mas o diabo desse orgulho... não quero que ele veja que eu estou com ciúme. Um ciúme horrível, Marta! Eu não agüento mais...

A voz morreu-lhe num soluço, e ela atirou-se em minha cama chorando um choro de raiva e de impotência.

Sem uma palavra, eu a acariciava, deixando-a desabafar-se no pranto. Pensava em tudo que ela havia dito e não encontrava nada de real, objetivo. Tudo me parecia conjecturas de mulher ciumenta. Eu tinha esta esperança e me agarrava a ela. Aos poucos foi serenando, e ergueu-se:

- Olha, Marta, vou contar tudo a você. Preciso contar, senão eu morro. - Fez uma pausa, ficou olhando pela janela aberta e, depois, voltou-se para mim:

- Pareço uma boba, chorando em casa, e ela lá metida num maiô de luxo... - e num tom de deboche - Qual será? O roxo? Quem sabe, o amarelo? Pode ser o azul, ou o verde, ou o branco, que é também transparente e a gente só não vê o que não quiser. O sujeito não tem o trabalho de adivinhar nada; está tudo ali bem nu. E lançando mão de todas as macaquices para pegar meu marido. E que faço eu, Marta? Choro. Engraçado, não é? - interrompeu-se e deu uma gargalhada nervosa.

Tento acalmá-la, mas ela prossegue. - Não; espere, não acabei, tenho que completar meu papel de imbecil. Pois bem, choro e não faço nada. Na-da! Sabe por que? Por orgulho. Bonita qualidade, e bem cômoda para os outros, os sem-vergonha. Impede a gente de sair por aí, quebrando-lhes a cara, não acha? E para finalizar esta tragicomédia, digo que fico em casa com meu orgulho, minha raiva e... minha barriga.

Pôs as mãos nas cadeiras e perguntou:

- Perfeito, não?

Arrisquei:

- Por que é que você não solta os cachorros em cima dele?

- Eu? - ela fez num grito - Deus me livre, você não conhece os homens, se ele souber que estou com ciúme, aí mesmo é que vai se derreter, lisonjeado...

- Rui não é assim, Lúcia, ele adora você...

- Me adora? Você acha? E me deixa aqui para ir atrás daquela sirigaita?

- Mas ele foi levar o menino.

Passou a mão pela testa:

- Parece até que tenho febre. É a raiva, Marta, eu tenho tido raiva de morder!

- Isso faz mal...

- É, faz. Mas não adianta... sabe quando começou? Lembra-se aquele dia em que ela veio me visitar? No dia seguinte, eu fui à praia, à tarde, para o footing; estávamos eu, Paulinho e ela sentados em um banco, quando vi que Rui parava o carro bem diante de nós. Quando nos aproximamos dele, eu vi casualmente que os olhos dela lançavam chispas, e ela ficou a olhá-lo assim até que eu, sem jeito, os apresentei. E ainda disse, burra que sou, "minha amiga Marcelle, que você tanto conhece de nome".

- E ele? - perguntei ansiosa.

- Ah! Ele parecia distraído com o menino. Você sabe como Paulinho é, exigindo atenção, não dá uma folga. "Papai, olhe aquele carro, que bonito!" "Papai, olhe aquele menino na bicicleta!" Papai pra aqui, papai pra ali, e nós nos despedimos. Mas olha, Marta, se eu não fosse uma tola, só por aquele olhar eu me afastava dela naquela hora mesma.

- Ela tem, de fato, um jeito de olhar esquisito...

- Você também achou? Mas ainda não a viu olhando para os homens. É olho no olho, num olhar que envolve e que prende, que parece visgo. Peste! - parou cerrando os lábios tão fortemente que pareciam apenas uma risca.

- E... aí? - indaguei ansiosa.

- Aí, o senhor meu marido, a quem os clientes não dão uma folga, começou a achar tempo para tomar banhos de mar e voltar para casa mais cedo, à tarde, de modo a poder ainda encontrar a gente na praia. E todo maneiras, todo gentilezas. No banho, vão lá para as ondas, e eu fico cá sozinha, morrendo de ódio. Não vou mais à praia, mas ele vai, como um bom papaizinho, levar o filho. À noite não fico em casa, você não vê? É que a minha querida amiga todos os dias ameaça vir nos visitar. Diz que vem me ver. Mas eu não agüento mais. E imagine que ela agora vai ao consultório dele...

- Como é que você sabe disso?

- Ele mesmo contou, como a coisa mais natural do mundo, com uma candura de fazer inveja aos anjos! - Fez uma pausa e, em seguida, pôs-se a remedá-lo: "Sabe, Lúcia? Sua amiga Marcelle foi se consultar comigo..." Imagine, minha amiga... "E para quê?" perguntei me contendo. "Terá ela alguma coisa de pulmão?" "Não!", respondeu ele. "Estava só nervosa, não tem nada... Porque anda com dores nas costas ficou assustada..."

- Veja, Marta, quase explodi ali mesmo. Nem sei como agüentei. Você sabe o gênio que eu tenho; pois não sei onde fui buscar tanta calma naquela hora. Mas é de doer: nervosinha, com dorezinhas nas costinhas só para poder ir ao consultório de um especialista de pulmão. Sem vergonha! - murmurou entre dentes.

Quis dizer alguma coisa, mas ela me fez calar com um gesto:

- Não. Quero acabar: será que a verdade é exatamente como ele contou? E se ela voltou outras vezes? E se agora eles... Não! Meu Deus do céu, eu morro... não desejo a um inimigo isto que estou sofrendo. Quando ele custa para chegar, se você soubesse o que eu sinto!... Vejo os piores quadros... é uma tortura que você não calcula... - Pôs-se novamente a soluçar, jogada na cama, como derrotada, aquela combatente que eu tão bem conhecia. Senti uma pena infinita. Procurei dominar-me para poder falar com calma:

- Ouça, Lúcia, vamos conversar direito. Sente-se aqui e vamos acertar as coisas.

Estava tão deprimida que precisei ajudá-la a erguer-se, e me doía a carne vê-la entregue, ao que parecia, à sua derrota. Todo o meu sangue ferveu, e me senti capaz de trazer Rui de volta, por mais transviado que estivesse. Falei, pois, com toda a energia:

- Ouça. Em primeiro lugar, este seu orgulho está errado.

Minha querida, se você se coloca muito alto, lá em cima há de ficar sozinha. Além disso, está dando corda, dando corda para que eles ganhem distância; e depois? Enquanto você se afasta, não vê que eles se aproximam? Agora, por exemplo, você está aqui como um inimigo fora de combate e eles lá num tête-à-tête perigoso.

Ela me ouvia calada, olhando para mim com um olho de cachorro surrado. Estava exausta e disposta a fazer qualquer coisa para livrar-se daquele sofrimento. Continuei então, cada vez mais enérgica, a ponto de gritar:

- Vamos tomar uma atitude positiva. Chorar não resolve o caso. Enquanto você chora, de nariz vermelho e cara inchada, ela se emboneca toda e é toda sorrisos, aquela gata dos infernos! Vamos agir! Vamos combater! Ainda há muito o que fazer, e é prematuro entregar as armas... estar assim vencida!

Eu nem me dava conta de que falava em "nós" e que, dentro do meu peito, uma revolta crescia, e o velho leão adormecido já começava a rugir. Num fio de voz desalentada, ela me perguntou:

- Que é que você quer que eu faça?

- Quero que você desça do alto da sua importância e seja apenas uma mulher a lutar pelo seu homem. Está se pondo em desnível com ela. Parece uma estátua, e estátuas não comovem. Vamos descer um pouquinho e dizer a ele, claro como a água, que não quer esta amizade, estas intimidades.

Diga-lhe que tem ciúme. E por que não? Não é mulher dele? Então tem o direito de ter ciúme. E ele também não tem? Por que faz você disso um bicho-de-sete-cabeças? Briga, grita, esbraveja e... vença.

- Oh! Marta... eu nem sei por onde começar...

- Comece pelo princípio: diga-lhe que não quer mais nada com a francesa, que rompeu com ela e... trate de romper mesmo. Por que é que ainda não o fez? Chega de brincar de orgulhosinha. Você fica com o orgulho que ela fica com seu marido.

- Mas eu me sinto sem forças, Marta...

- Você? Sem forças? Cadê aquela garota que eu conhecia muito dona de si e tão difícil de manobrar? Que sabia tão bem levar qualquer um pelo queixo? Escute, minha irmã, você diz que eu não conheço os homens, pois bem, posso não conhecê-los, mas conheço Rui. Ele gosta de você.

Adora você, e essa gata nada vale para ele. Estou bem certa disso. Tão certa como hei de morrer um dia. Acredito que esteja só lisonjeado, por ser assim atacado por uma linda fera. Ela é bonita mesmo, e os homens são vaidosos. Além disso, a mulher dele parece não se importar... Não é isso o que você faz? Não, minha filha, você está errada deixando o barco correr e sofrendo em silêncio. Silêncio é para outras horas... Jogue um jogo franco com ele e trate de afastar essa mulher.

Ela ficou me ouvindo mais animada, e eu cada vez mais me empolgava, até que a voz de Paulinho, do portão, anunciou que eles estavam chegando.

Lúcia foi para o seu quarto, eu fiquei ali, debruçada à janela, olhando a nesga de mar, ao longe, que brilhava ao sol nesta manhã tão linda. Meditava em tudo o que havia dito à Lúcia, passando a limpo cada coisa, e as dúvidas me assaltavam: devia mesmo ter falado assim? Ter aconselhado a brigar? Devia ter-me metido? Ou devia ter deixado que ela agisse como quisesse, como bem entendesse? Mas se Lúcia estava me pedindo socorro!...

Ah! Meu Deus, que sei eu de maridos traidores?

Será que Lúcia vai seguir o meu conselho, e sair daí uma briga danada?

Autor(a): Magdalena Léa

 

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