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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XVIII
publicado em: 04/10/2017 por: Lou Micaldas

"- A gente também cansa de chorar. Quem sabe o que ela chorou? Afinal, só vemos os outros por fora, nunca podemos saber se estão ou não sofrendo. Há um soneto que diz que se a gente pudesse "ver através da máscara da face..."

E saiu uma briga danada. A minha dúvida não durou muito. Vi quando Rui passou do banheiro assobiando, displicentemente, No tabuleiro da baiana, e ouvi quando, entrando em seu quarto, bateu a porta atrás de si. Em seguida, a explosão. Vinham até mim fragmentos da discussão entre os dois:

- Você está doida? Pare com isso!

Ouvia Rui gritar, encolerizado, mas quase não percebia o que dizia Lúcia. Ela falava numa voz abafada, concentrada de raiva, despejando sobre ele uma bem premeditada descompostura. Mas ele, assim apanhado de surpresa, indignava-se:

- Você está louca? Você sabe o que está dizendo?

Eu estava assustada, atribuindo-me a culpa, mas justificava-me dizendo a mim mesma: "Era preciso! Era preciso! Tinha que haver uma reação enérgica, senão poderia agravar-se a situação."

Eu via os olhos dela. Havia de impressionar os homens aquele olhar bem manobrado, e Rui não era de ferro. O coração me batia doido. Temia, sim, que Lúcia fosse derrotada. A diaba era uma novidade... e que novidade!

E se ele estivesse apaixonado? Esses tipos de mulheres sabem enlouquecer um homem... Havia dias que ele vinha chegando sempre tarde... e se ela estivesse freqüentando mesmo seu consultório? Deus meu, não!

Mas que tenho eu com isso? Terei também ciúme? Por que não ver logo claro? Sim, é isso mesmo, estou com ciúme. Um ciúme que é como um verme a roer-me as entranhas. Por Lúcia ou por mim? Ele, sendo de Lúcia, era como se fosse um pouco meu; traindo-a, era como se me traísse. Se o raio da francesa o levasse, eu o perderia duas vezes! Era demais!

Por isso fui tão eloqüente no meu discurso. Tão veemente no conselho que dei à minha irmã para afastar a intrusa, custasse o que custasse. Desde o primeiro momento em que vi a criatura, embirrei com ela. Era medo. Temia que ela, mais dia menos dia, viesse a conhecê-lo e, com sua tentadora beleza, o roubasse de nós.

De nós? - esquisito isso! Entretanto, real: eu o perderia pela segunda vez. Sempre houve momentos em que eu me identificava com a minha irmã. Por exemplo: no meu desgosto de ser feia, eu me consolava em pensar que Lúcia era linda!

Era mais bonita que as outras moças, e eu sentia um pueril prazer de vingança, porque ela era "minha irmã"! E "minha", aí, tinha o sentido verdadeiro da posse. Era algo meu, de mim. Era infantilidade? Mas quem não tem dentro de si uma criança que não cresce nunca?

Eles estavam calados, ou falariam tão baixinho que eu não pudesse nada ouvir? Vieram bater-me à porta. Era a copeira, que o almoço estava na mesa. Sentei-me com Paulinho e comecei a servi-lo maquinalmente. Nenhum dos dois aparecia, mas estavam calados. Quem sabe já estariam nos braços um do outro?

- Cadê a mamãe e o papai? Não vêm almoçar? Ela está zangada, titia...

- Não, meu filhinho, ninguém está zangado, come direitinho, sim?

- Ele ficou de garfo no ar, olhando distraído em frente, depois falou:

- Olha, titia, primeiro ele me bateu; depois foi que eu dei aquele pontapé nele... mas nem doeu... Pontapé de pé descalço dói? Não dói... mas ele é um chorão...

- Ele quem, Paulinho? Em quem você deu pontapé?

- No Paul, titia, você não sabe? No Paul!

- No filho de Marcelle? Conta direitinho, meu filho, para sua tia, você ainda não me contou nada!

- Eu fui na praia com papai, não fui? Lá estava o Paul, e eu fiz um bolo enorme, de areia molhada, que você me ensinou... aí, ele veio e meteu o pé. Eu disse: não faz de novo isso, que eu bato em você! Ele riu, titia, e quando eu fiz outro bolo, ele veio e meteu o pé.

Fiquei tão enfezado... corri atrás dele, era só para fazer medo nele, mas ele me deu com a pá aqui no braço... tá vendo esta risca vermelha, titia? Aí eu dei um pontapé nele, e o papai brigou comigo... e me sacudiu lá na praia...

Encheu uma garfada e levou-a à boca, com as lágrimas a tremerem-lhe nos olhos magoados. A criança se sentia humilhada com o tratamento que não merecia. Que se passava com Rui, meu Deus do céu? Sentia uma revolta em todo o meu ser. Vira a mãe chorar, e agora o filho. Tudo por causa daquela mulher.

Fingi não ver as lágrimas do menino, deixando que ele lutasse contra elas, até conseguir secá-las. Estava aprendendo a dominar-se como um adulto. Isso me dava uma pena! Mas era preciso. Quanto mais cedo, melhor.

Já estávamos na sobremesa quando Rui apareceu, pediu café, engoliu de um só trago uma xicrinha e saiu depressa. Tinha a fisionomia alterada. Fui encontrar Lúcia na cama, olhando parada para o teto. Sentei-me a seu lado e perguntei se queria comer alguma coisa.

- Não.

Fiquei calada, esperando.

Ela perguntou:

- Ele saiu?

- Sim.

- Era melhor que não voltasse mais - respondeu com uma calma gelada que me apavorou. - Estou com tanto ódio dele. Imagine, bater em Paulinho por causa do filho daquela... vaca!

- Foi por isso a briga?

- Foi. Mas eu aproveitei e disse tudo que pensava, tudo que venho sentindo esses dias e me calando, de burra que era.

- Eu fiquei só imaginando o que ela teria dito, sem coragem de perguntar.

- Sabe o que o pôs mais danado? Foi eu dizer que ele batia no próprio filho por causa do filho de uma mulher à toa.

Começou a defendê-la. Qual... não tem mais jeito. Ainda se eu estivesse sem essa barriga, poderia lutar... Faria ciúme a ele com o primeiro que aparecesse. Mas assim, disforme, inchada e sem movimento, não posso tomar banho de mar, não posso subir escadas, e o pior: como vou estar elegante, bonita, com toda essa pança?

Sinto-me amarrada, sufocada, atada de mãos e pés... Como posso agir? Só posso berrar, xingar e ser tão infeliz que preferia a morte. Enquanto isso, ela está lá, toda olhos e sorrisos, toda linda e elegante, a contar a ele o seu romance triste, com aquela voz macia, pungente, e ele a cair como um pato, como eu também caí.

Marta, eu nunca pensei que uma pessoa pudesse ser tão ruim! Dizendo-se minha amiga, cheia de atenções e carinhos... mas a culpa foi bem minha, eu elogiava tanto o meu marido que ela o cobiçou. E olhe, Marta, sei que ela percebeu o meu ciúme, por mais que eu fizesse por esconder. Notei nela um jeito de me observar e rir...

- Não se torture! Procure dominar-se um pouco... com toda essa raiva e esse choro você está fazendo mal ao bebê...

- Mas o bebê também está me fazendo mal!

- Não diga assim... daqui a pouco tudo há de passar... e aonde foi Rui? Você não sabe?

- Não.

À noitinha, Rui voltou.
Eu estava na sala, armando jogos com Paulinho, e Lúcia ainda na cama, onde estivera o dia todo. Ele veio direto a mim, antes de ir ver a mulher.

- Marta, quero conversar com você.

Deixamos o menino entretido em seus jogos e fomos para outra sala. Sentamo-nos diante um do outro. Lentamente ele acendia um cigarro, atento e calmo, como se todo o seu problema fosse aquela operação. Mas eu vi tremerem-lhe os dedos na chama do fósforo. Antes de tocar a ponta do cigarro, a pequenina chama dançou no ar.

- Escute, Marta, você acha que eu sou um canalha? Diga com sinceridade. Você me conhece, estou certo. Não me refiro ao tempo que vivemos juntos, mas à sua inteligência e observação, à sua sensibilidade. Sua irmã me ofendeu muito, e eu queria a sua opinião.

- Rui, você me deixa abafada, que hei de dizer? Meu Deus, não tenho nada com isso...

- Mas você tem. Você é a única pessoa que tem que ver conosco. E eu confio de forma absoluta em você, no seu critério. Por favor, responda: acha que sou culpado?

- Ora, Rui... não sei dessas coisas...

Eu estava atordoada. Ele olhava de olhos fixos nos meus, a querer ver dentro de mim, e assim, apanhada de surpresa...

Ele continuava:

- Não me importo se você quiser dizer mal de mim, mas fale alguma coisa, se quiser censurar, censure...

- Rui - comecei - penso que você não tem propriamente a culpa... Lúcia me contou tudo, e eu sinceramente acho que você não teve más intenções, mas... ela tem.

- Como sabe? Pelo que Lúcia disse?

- Não só por isso, mas por minhas próprias observações... não gostei dessa fulana desde a primeira vez que a vi. Há algo de falso em seu riso, no seu modo de ser... sei lá.

- Olhe, Marta, ela é moça moderna. Só isso. Assim como ela é, eu conheço muitas... não a vi fazer nada de mal, é ciúme de Lúcia. Ciúme tolo e sem razão de ser. Ela é que vivia encantada com essa moça, não eu. Ela não é meu tipo - acrescentou rindo-se.

Ri com ele, de pura alegria, e respondi:

- Nem meu tampouco!

Depois perguntei, já mais animada:

- Se é ciúme de Lúcia, por que é que você está zangado?

- Mas não é por isso que eu estou zangado. Se ela viesse a mim e me dissesse direito o que lhe desagradava, eu juro que nem ia mais à praia, nem falaria mais com essa moça, mas ela vem me ofendendo... Eu nem digo a você o que ela me disse.

- Nome feio?

- Nomes feios, sim. Parece incrível, nunca vi Lúcia assim...

- Mas nunca houve antes uma francesa!

Ele riu, eu continuei:

- Ela está tão magoada, sofrendo tanto! Chorou a tarde inteira... Não lhe vá contar nada, mas, desde que você conheceu essa... bem, essa jovem, Lúcia vem sofrendo horrores, mas é muito orgulhosa e só por isso nada dizia...

- Era melhor que tivesse dito.
- Também acho. Mas... e essa história da briga das crianças?

- Ah! Lúcia juntou tudo. Mas foi assim: os meninos estavam brincando e, daí a pouco, eu vejo o nosso guri que enchia o outro de pontapés e sopapos, e o outro berrava. Agarrei o Paulinho e o sacudi, aborrecido. Aliás, ele, você sabe, está sempre a sapecar seus amiguinhos, não é novidade isso.

Mas foi então que eu soube que o outro tinha batido nele primeiro. Aliás, foi a mãe mesma que me disse, defendendo meu filho. Que mais eu poderia fazer? Dar no outro, ou o quê? Ficou tudo enrolado, e eu nem posso explicar à minha mulher, porque ela me mandou para o inferno.

Aquela noite fui para o meu quarto e fiquei de ouvido atento. Mas nada ouvi. A casa mergulhava no silêncio, e só de fora me vinham o marulhar das ondas ao longe, as buzinas dos carros, o tem-dem-dem dos bondes, tudo misturado às vozes dos transeuntes tardios. Fiquei pensando: quando acabará essa história?

Havia tanta coisa que eu podia ter dito a Rui, mas não disse. Era sempre assim. As coisas maravilhosas que eu podia fazer ou dizer só me ocorriam depois. Dava-me um frio na barriga pensar que havia jogado fora uma oportunidade.

Que foi mesmo que eu disse? Ah! Que ele não tinha culpa, mas ela sim. Ela, a francesa de olho de gata. Sabia lá se ele tinha, ou não? Que bobagem! Era melhor que tivesse falado logo bem claro e dito que não era direito, nem decente, ele deixar a esposa na areia e ir-se meter nas ondas com alguma francesa desgarrada.

Ele me disse ainda que estava distraído e, quando olhou para o menino, é que viu os tais pontapés... Para onde é que estava olhando, então?

Isso ele não disse. E ela defendeu o filho dele, isso naturalmente buliu com seu coração de pai, ora... era um bom golpe, boa tática, nem há dúvida. E quer dizer que ela estava, por certo, bem pertinho... talvez em colóquio, os dois, debaixo da barraca, e, quando viu os garotos brigando, quis bancar o correto, o bom, justiçando o próprio filho. Arre!

Voltava-me na cama, mas não tinha posição nem sono, via-os lá, num quadro que doía, flertando um com o outro, e o meu peito arfava, e a raiva me possuía. Mas disse ele que era inocente. Inocentinho!

Mas Lúcia me contou que ouviu muito bem a francesa chamá-lo de mon chéri, e foi aí que ela disse o nome feio. É direito, hem, seu Rui? Que negócio é esse de chamar o marido das outras de mon chéri?

Ficasse sabendo que ela era mesmo à-toa e não viesse defendê-la. Mas eu não disse nada disso. Fiquei gaga, fiquei inibida, e a oportunidade passou. Lembrava-me do gesto dele, nervoso, esmigalhando o cigarro no cinzeiro quando me contava a história.

Uma coisa eu sei, e sei com segurança, é que ele adora Lúcia. Marcelle não tem importância. Há de ser somente uma mulher bonita que lhe atira o anzol e o lisonjeia, sem que ele morda a isca. Mas que engraçado, ele vir conversar comigo! Talvez queira que eu conte tudo à Lúcia. Estarão dormindo? Que horas serão?

Lá no casarão eu podia ouvir o carrilhão na sala, que badalava sonoro e musical. Mas aqui, tudo moderninho, reloginhos minúsculos e calados. Tinha de acender a luz para ver as horas. E por falar em moderno... foi isso que ele disse: ela era só moderna. Só, mais nada. Será?

Também disse uma coisa que me deu uma gostosura: ela não era o seu tipo. Ai, fiquei tão contente que era capaz de lhe dar um beijo. Santa Maria! Pra que quer ele meu beijo? Mas vamos pensar a sério: será ele sincero?

Há homens que escondem seus casos pela vida toda e a mulher nunca sabe. Mas, Jesus, que tenho eu com isso? Vai ver que a mulher dele já está dormindo, e eu aqui ainda pensando.
Ó meu Deus, eu quero dormir...

Amanhã vou à praia e, se pegar aquela gata, afogo. Mergulhei num sono pesado, agitado de pesadelos. Via Marcelle, ora com um maiô, ora com outro, passando diante de mim, numa provocação, a rir, a rir, a rir. Um riso de vitória que me punha um frio na boca do estômago.

A praia fervilhava de gente, uma gente em massa informe, onde só Marcelle se desenhava, grande e destacada. Eu corria, fugindo-lhe, a tropeçar nos corpos estirados na areia, sentindo-lhes a resistência mole nos pés. E Marcelle ria. Jogando a cabeleira prateada para trás. Senti uma revolta, o sangue me ferveu, e voltei-me para atacá-la.

Meu Deus! Ela estava nua! Seu corpo lindo e branco estava nu diante de mim e de toda a gente. Comecei a gritar: não tem vergonha? Não tem vergonha? E ela ria. Agarrei-a pelos braços e, a sacudi-la violentamente, gritava: de que está rindo? Pensa que é mais bonita do que Lúcia? Fique sabendo que minha irmã é mais bonita do que você e todo o mundo. O marido adora ela, ouviu? E o seu? Cadê seu marido? Foi embora com outra, não é?

E ela ria. Via-lhe os dentes pontiagudos como os de uma pantera. Lembrei-me que a achávamos parecida com uma gata. E era uma gata que eu via, enorme, os olhos fuzilando... tive medo.

Via-a agora em toda a forma, era uma fera, uma onça arreganhando os dentes, e seu riso se transformou em urros que me ensurdeciam. Quis fugir, mas agora estávamos dentro d'água, e vinha uma onda negra e enorme, crescendo diante de mim... Agarradas, mergulhamos juntas... e mais outra onda... e outra mais... eu me debatia, sentindo a pressão de suas garras em meu pescoço.

Súbito, pensei: por que não afogá-la? Era um instante... um instante... Fiz um esforço e agarrei-a pelos cabelos, puxei seu corpo para o fundo. E eu a vi revirando os olhos, abrindo a boca, que se enchia de água, se debatendo e estendendo a mão a me pedir apoio, socorro, e eu a via morrendo... seu lindo rosto nas contrações da morte...

Súbito, era Lúcia quem eu afogava. Fiquei horrorizada: estou matando minha irmã? E comecei a gritar num desespero: Lúcia! Lúcia! Lúcia! Creio que ainda gritava quando acordei.

Credo! Sonhar uma coisa assim? Eu matando alguém? Se me sinto mal até em matar uma barata!

O corpo me doía, e eu cheguei à conclusão de que andara lutando com o travesseiro. Virei para o outro lado e comecei a lembrar o sonho. Tinha ainda, diante dos olhos, a imagem de Marcelle nua. E lembrava-me dela transformada em pantera, com aqueles olhos e aquelas unhas, a me fazer medo.

Falei quase alto: "Que absurdo! Marcelle está se tornando muito importante! Acredito que Rui nem está ligando para ela, e nós é que estamos criando o caso. Nós? Lúcia, vá lá, mas eu... Quero dormir! Estou tão cansada..." e lutava com meus pensamentos sem conseguir dominá-los.

"E se fosse eu a mulher dele?" pensei num susto. Imaginei-me casada com ele e aparecendo Marcelle. Que horror! Lúcia tem sua beleza, seu encanto, e eu? Que tenho? O que sofreria na certeza de que ele a admirava, a achava linda e havia, forçosamente, de compará-la comigo! Não. Não quero pensar nisso, quero sossego, meu Deus!

Comprimia, com ambas as mãos, o peito, querendo conter o coração que ameaçava sair pela boca. Levantei-me e fui para a janela, que abri de par em par. O céu em fogo era uma promessa para um belo dia quente. Mas, apenas despontando a aurora, havia no ar uma frescura deliciosa e envolvente.

Pus-me a contemplar o quadro incomparável do amanhecer e senti um grande bem. O amanhecer é como o nascer, cheio de promessas. Àquela hora eu nunca me sentia triste. O cair da tarde, sim, é que era melancólico, fazia pensar em morte. A morte da luz.

O dia recém-nascido era um bebê rosado a despontar para a vida. Longe eu via a nesga de mar, e vinha até mim sua bárbara canção, no arrebentar das ondas, no marulhar das espumas. Fiquei ali longas horas, até que uma vozinha meiga me viesse dizer:

- Titia, me leva à praia...

Fomos à praia, mas não a vi.
Levava o menino pela mão e corri todo o posto à cata da francesa, e a francesa sumida. Nem sei bem o que eu pretendia, se a visse. Talvez lhe desse umas indiretas, umas tacadas... talvez que nada dissesse... talvez quisesse somente vê-la... nem sei para quê.

Paulinho estava impaciente por um mergulho, e eu a andar de cá para lá, carregada de quinquilharias: baldes, pás, o diabo. Toda a busca foi vã. Voltei para casa decepcionada.

Pesquisei os escaninhos secretos da minha alma e vi que havia lá um desejo de vê-la e sofrer. Vê-la displicentemente estendida na praia com seu lindo corpo, indiferente à dor que pudesse causar àquela a quem ela havia chamado de amiga.

E eu me lembrava do sonho, imaginando-a igualzinha à imagem onírica que eu criara. E via-a rir, ainda, um riso cascateado e cínico.

Não a vi na praia, mas a vi no ônibus. Depois do almoço, saí para ir ao dentista, na Cinelândia. Tomei o ônibus na esquina e meti-me lá no fundo. Na parada seguinte, ela subiu. Tive um susto. Toda ela era um quadro. Vestido, bolsa, sapatos, luvas, tudo branco. Um enorme chapéu de palha, abanando as abas leves como asas de um pássaro. Em toda essa brancura, destacava-se apenas o dourado da pele e a boca rasgada, voluptuosamente rubra.

Voltei o rosto para o mar. Ouvia, com o quebrar das ondas, o tique-taque do meu coração. Nada contei a Lúcia sobre este encontro.
Não havia de aumentar a aflição ao aflito.
À noite, Rui teve um chamado, e ela veio ao meu quarto.

Eu via seu abatimento e tive tanta pena! Falava agora sem raiva, numa doída queixa. Meu Deus! Pensava eu, como devia doer isso nela, acostumada como estava a ser sempre a primeira, a mais bela, a brilhar em toda parte e... agora alguém surge a lhe fazer sombra. Como devia sofrer em seu amor-próprio!

Talvez mais ainda que em seu amor pelo marido, que afinal era seu e estava a seu lado. Eu sabia bem compreender este, embora momentâneo, complexo de inferioridade em relação à outra, esbelta, fina, elástica, enquanto ela se sentia disforme, abatida e pesada em seu estado de gravidez.

Ela estava diante de mim, e eu via-lhe as olheiras fundas e todo o cansaço de noites mal dormidas em seus olhos tristes. Procurei distraí-la, contando-lhe casos e gracinhas do filho. Ela ria, fingia-se atenta, mas eu via que seu pensamento fugia para longe.

E, então, falou:

- Marta, você sabe? Rui veio falar comigo. E eu quero que você... que você me diga uma coisa só... mas com toda a franqueza, por favor... Você acha que Rui... foi culpado? Quero dizer: que ele tenha alguma coisa com essa mulher?

Tive vontade de rir, apesar do trágico da pergunta. Esta era uma pergunta que ele, Rui, me havia feito, e eu também fizera a mim mesma, e agora, Lúcia. Deus de misericórdia!

- Ora, Lúcia - respondi então - pergunta a seu coração o que é que ele sente. Você acha que Rui gosta de você ou não? Não tem dado provas disso? Eu disse uma vez e repito agora. Rui adora você, e Marcelle não representa, para ele, mais do que uma lisonja para seu amor-próprio de homem. E como foi que ele falou com você?

- Ah! Marta, - respondeu ela, corando timidamente como uma menina - ele foi tão bom! Tão amoroso! Me disse tanta coisa boa... me disse tantas vezes que me adora, que... eu quase acreditei... - terminou, numa risadinha.

Depois continuou:

- Ele jurou, Marta, jurou pela felicidade do filho que não tem nada com ela...

- E você não acredita?

- Eu... eu estou tão doída! Pareceu-me sincero... mas... fico me lembrando de certas coisas...

- Que coisas?

- Certos olhares...

- Ora, olhares! Não seja boba! Parece um neném. Que tolice! Seu marido é seu e está dizendo isso, e tantas coisas bonitas, e jura, um juramento sagrado desses, e você me vem com olhares? Ora bolas!

Ela ria-se de manso.

- Pensei que ainda não se falavam - disse eu - que ainda estivessem de mal.

- Estávamos, ainda esta manhã... mas, às três horas, ele veio em casa a pretexto de buscar um papel importante, mas o que ele queria era falar comigo, eu logo vi... Marta, ele disse que nem tem trabalhado direito, pois que eu declarei que era capaz de deixá-lo.

- Você disse isso?

- Disse e faço - respondeu categórica, naquele jeito muito seu, e que tive muito prazer de encontrar de novo. Já a voluntariosa e dominadora Lúcia ressurgia, reabilitada pela certeza do amor de seu marido.

Ela continuou:

- Disse isso e mais tanta coisa que o magoou! Estava com o orgulho ferido, Marta, e você sabe como eu sou.

- Mas, se fizeram as pazes, por que é que você está assim tristezinha?

- É... também não podia passar tão depressa tudo o que eu sofri. Estou ainda abalada... sem saber direito o que penso e o que faço. - E acrescentou, num sorriso triste:

- Marta, bem faz você que não se casa.

Depois, olhou o relógio na minha cabeceira:

- Que tarde, já - exclamou - e eu aqui sem deixar você dormir!

- Tolice. Não tenho sono, e você não vai ficar sozinha pensando bobagens. Vamos conversar. Onde foi Rui?

- Foi ver um rapaz, lá na Muda da Tijuca, mas não deve tardar.
Tornou a sentar-se e começou como se falasse para si mesma:

- Meu medo é que ela vá ao consultório... que será que ele faz?
- Ora, não pode correr com a moça de lá, não é mesmo?

Ela começou a rir.

- Pois olhe, foi isso que ele me prometeu que fará.

- Como?

- Marta, eu disse a ele: se você falar mais uma vez só com aquela cachorra, será a nossa separação! E nem adiantava vir-me dizer que estavam rezando. Eu jurei por tudo que é santo que não perdôo mais nada. Não sou Deus. E que estava disposta a acreditar na inocência dele, mas não na dela.

Tinha absoluta certeza de que aquela mulher era uma cretina. Ela pode enganar um homem, mas não engana a outra mulher. E, Marta, ele prometeu.

Meu Deus! - pensei - Rui fará mesmo isso? Com toda a delicadeza e gentileza que o caracteriza? Minha mãe do céu, tomara que ela nunca vá lá... Que vá para a França ou para onde o diabo a carregue!

Autor(a): Magdalena Léa

 

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