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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XX
publicado em: 05/10/2017 por: Lou Micaldas

"Não posso ir a ele e dizer: eu o amo. Eu o amei sempre, desde o primeiro instante e não lhe peço nada, quero apenas dar. Poderia dizer ainda que, neste meu corpo sem beleza, havia uma mulher..."

O enterro.
Muita gente.
Muita lágrima.
Muita dor.

Gente que chora sentida.
Gente que chora porque os outros estão chorando.
Gente que chora lembrando outros enterros.
Gente que chora com pena de si própria.
Gente que chora com medo da morte.

E os curiosos. E os que gozam o espetáculo da dor alheia. E as flores? Inúteis. Nem a flor enfeita a morte. E o corpo que vai para baixo da terra, apodrecer.

Na volta para casa, o carro corria pelas ruas, e pelas ruas iam as pessoas que não tinham morrido. A vida continuava. Ali, ao meu lado, aquele homem sofria. Acabrunhado. Olhando para nada.

Via, decerto, o horrível quadro da morte. Aquele rosto de pétalas de rosa, duro, cinzento, frio. Sobre o peito, as mãos cruzadas, as unhas longas estavam ali ironicamente pintadas, enganando o roxo que devia colori-las. Eu tinha olhado bem para ela e não me convencia de que aquela morta fosse Lúcia.

Era uma criatura estranha. Lúcia, não! E o que é que eu fazia ali, naquele enterro de uma mulher que nem conhecia? Não podia ser dela aquela cara de morta, com aquele nariz afilado e as carnes da face escorridas pelos lados, sulcando-a, e os lábios roxos e secos.

Eu via os parentes que iam e vinham de um lado para outro, arrumando, ajeitando as flores que a cobriam quase toda, só lhe deixando o oval do rosto à mostra. Eu sentia uma espécie de pudor, porque toda aquela gente a olhava e a via assim, a ela que era tão vaidosa, tão cuidadosa da sua pessoa, ali exposta...

Não, não era ela. Não podia ser ela. Daqui a pouco eu iria para casa, e ela lá estaria, corada, risonha, cheia de vida.
Voltei-me para Rui, lembrando-me do seu abatimento. Tanto tempo ele levou debruçado sobre a morta, sem um gesto, uma palavra, a testa encostada ao rosto dela.

Só na hora de fechar o caixão é que o tiraram dali, quase arrastado, trôpego e cabisbaixo. Via agora suas mãos tremendo, e tremendo a boca. E foi aí, ao vê-lo assim, o coração sangrando, que me veio aquela ideia brutal: ele estava agora sozinho...

Abanava a cabeça, não queria pensar naquilo. Meu Deus!
É bem certo que não comandamos nossos impulsos. Apenas podemos refreá-los, canalizá-los em outras direções. Mas como impedir que nasçam? E a ideia ia se avolumando, se ajeitando, se acomodando em razões e justificativas: eu... eu seria boa, trataria dele, do menino... e não pedia senão o direito de amá-lo.

O carro parou à porta de casa. Entrei na frente e gritei da janela para Paulinho, que havia ficado em casa da vizinha. Veio corado e cansado de brincar com os amiguinhos. Abraçou as pernas do pai, que, penso, nem deu por isso. Arranjei alguma coisa para se comer, arrumei a mesa e fui bater à porta de seu quarto.

- Não quero nada - respondeu.

Insisti:

- Rui, por favor, nem ao menos para me fazer companhia?

Desta vez a porta abriu-se, e ele veio para a sala comigo. Mal tocou nos pratos. Absorto e calado. Chamei Paulinho e pedi a Rui que o fizesse dormir, que eu estava cansada e ainda ocupada. Ele ia dizer não; mas olhou o menino e, em meio à dor, pôde vê-lo, pequenino e inocente, seu filho, seu e dela.

Tomou-o no colo e apertou-o apaixonadamente. Vi-lhe as lágrimas brilhando, prestes a correrem, trazendo alívio a seu coração. Discretamente apaguei a luz e voltei à cozinha. Lavei a louça, arrumei no armário e, quando voltei à sala, a criança dormia e o pai chorava ainda. Aconselhei a Rui que se fosse deitar.

- Você é tão corajosa, Marta, e eu... eu sou um derrotado... Que me resta agora?

- O seu filho! - respondi tremendo - e continuei: - Precisa de você mais ainda agora. Já não tem mãe, não é justo que perca também o pai...

- O pai? Ora, o pai não vale nada... se não fosse o pai dele, ela talvez não tivesse morrido... você diga o que quiser, Marta, mas eu me sinto culpado.

- Culpado de quê? Não diga isso... não é verdade.

- Mas é. Se eu não a tivesse obrigado a levar essa gravidez a termo, isto não teria acontecido... um aborto é menos grave do que uma eclâmpsia... fazem aí todos os dias...

- Mas não foi do aborto que aquela moça morreu? Lembra-se, a colega de Lúcia? Você não pode estar arrependido por ter cumprido com seu dever dentro das leis da natureza, da moral e da religião. Não; pelo amor de Deus, não se recrimine.

O que aconteceu foi um acidente. É como se ela tivesse sido atropelada por um carro. Quem poderia impedir? Se tudo tivesse corrido certo, você não acharia errado fazer o que fez. Está se torturando inutilmente. Chore a sua mulher, que bem o merece, mas não se torture com culpas que não tem.

Todas as pessoas, quando perdem alguém muito querido, sentem-se responsáveis, que deviam ter feito isso ou aquilo. É comum. Também senti-me assim quando perdi vovó. Parecia-me que podia ter feito algo mais... - ele estava calado, o rosto nas mãos, escutando-me, e eu prossegui:

- Fume um pouco, na varanda, olhando a noite, e depois vá deitar-se. Repousando bem, amanhã você verá que ela não deixou você sozinho. Deixou uma criança que é um pedaço dela para consolar você.

- Não; não posso fumar ainda... a boca amarga como fel, eu não suporto o cigarro...

Tomou minhas mãos nas suas e, pela primeira vez, beijou-as, dizendo:

- Obrigado, Marta, muito obrigado, minha boa irmã... Você não sabe o bem que suas palavras me fizeram... eu tenho estado tão confuso... nem sei mais o que é direito nem o que é torto. É bem difícil compreender... os desígnios de Deus. Eu só me pergunto: por quê? E não encontro resposta.

Por que tinha de ser ela, assim tão nova, tão sadia... prestes a dar uma vida? Mas temos que nos resignar e aceitar a vontade de Deus. Ou pelo menos, a aceitar a vida. A vida continua e continuará, talvez, por muitos séculos ainda, sem que possamos entender sua razão e sua finalidade.

- É.

Ele foi para o seu quarto e eu para o meu. Deitei-me e não pude, apesar de cansada, conciliar o sono. Perguntava a mim mesma:
"O que vai ser de mim?" Não posso ficar aqui, em casa dele... mas para onde irei? Devo esperar que ele resolva?

Quase todo o meu capital estava na casa que compramos de meia. Só me restava um pouco, que me ia rendendo juros, e assim mesmo devia estar bem desfalcado, pois, de vez em quando, eu sacava para dar presentes.

Fui eu quem deu o carrinho de berço, quando Paulinho nasceu, e o velocípede quando fez três anos, e, quando fez cinco, a mobília laqueada e também os terninhos, os sapatos, brinquedos, que dava pelo ano todo... Dava presentes também à Lúcia e a Rui em seus aniversários.

Eles retribuíam. Era presente deles o relógio-pulseira, que eu nunca tirava, e outros objetos mais de toucador, e livros. Rui gostava de me dar livros. Dizia que só me via interessada mesmo em ler. Mas Lúcia sentia, às vezes, um impulso de enfeitar a irmã, e lá me vinha com um colar, ou um par de brincos, coisas que eu usava na hora em que as recebia e depois ficavam esquecidas, por ela e por mim, no fundo de uma gaveta.

Pensando assim em presentes, súbito senti um aperto, ao lembrar da placa de brilhantes que Rui prometera a ela para quando o neném nascesse. Ela falava tão contente... E ele dissera que tratasse de arranjar uma meninazinha linda... E era mesmo uma menina... Ai, não agüento pensar nisso! Fico louca. Oh! Maria Santíssima, será que Rui também está se lembrando disso?

Imaginei como ele estaria nesse momento. Mergulhado na escuridão do quarto e de seus pensamentos. Sofrendo. Remoendo. Toda gente, creio, tem este traço de masoquismo, calcar as feridas e vê-las sangrar.
Que faria ele? E eu?

A criança tossiu, e fui vê-la. A tosse, já em declínio, não mais provocava guinchos nem vômitos. Acomodei-o bem, beijei-o na fronte e fui debruçar-me à janela. O céu pontilhado de estrelas... o mesmo céu que cobria, indiferente e distante, felizes e desgraçados.

Atirei-me à cama. Precisava dormir. O dia não tardava a apontar e teria tanto que fazer. Cuidar da comida, da casa, do menino... De novo, o pensamento me veio, angustiante: até quando? Como Rui resolveria a questão? E o menino? Ficaria comigo? Pensei em Lúcia.

Parecia dormir, entre flores, serena, indiferente, impassível. Não tinha mais dores, nem se importava com as dos outros. Devia ser bom aquilo...

A agência nos mandara duas criadas. Estava tão esgotada, que mal me tinha de pé. Distribuí o serviço entre as duas e deixei-as fazer como queriam. Andava eu de lá para cá, cuidando do menino e vendo os dias correr, levando-nos para Deus sabe onde.

O menino andava pela casa, com suas brincadeiras turbulentas e seu riso ingênuo e despreocupado. Algumas vezes, perguntava:

- Cadê a mamãe? Não vem mesmo mais? Estou com saudade dela... - O pai acariciava a cabeça da criança, balbuciando qualquer coisa. E ele se ia, já distraído, ou entretido em alguma nova brincadeira.

Rui não ia mais ao consultório. Saía de manhã para o hospital e vinha almoçar ao meio-dia. À tarde, trancava-se no escritório ou ficava brincando com o filho. Estavam tão unidos! Eu aguardava uma solução.

Tinha medo de perguntar, precipitando os acontecimentos. E... por que não confessar? Eu tinha uma esperançazinha. Já agora não me recriminava. Havia tantos casos assim! A mulher morre e o marido casa com a cunhada. Por que seria crime pensar e desejar isso? Eu não o amei sempre? Mesmo antes dela? E Deus sabe o esforço que fiz para arrancar de mim essa obsessão.

Por que não amá-lo agora? Agora principalmente, que o via tão só, mergulhado numa dor profunda? Dor que era também minha e que seria um ponto de contato, um elo, entre nós dois. E havia outro ainda: o menino. Ambos o amávamos, e isto poderia ser um laço mais forte que outro qualquer.

Só de vê-lo sofrer, eu esquecia minhas aflições e mágoas. Procurava distraí-lo conversando, provocando o menino em sua tagarelice para que dissesse algo que o fizesse rir.

E, quando o via sorrir, afinal, um sorriso triste como uma lágrima, eu sentia, numa onda de carinho, a vontade de apertar ao seio o seu pobre rosto macerado. E esperava...

Nos domingos, eu ia ao cemitério levar flores para ela. E lá, debruçada sobre a sepultura, ficava pensando em tanta coisa! Se Lúcia existia em algum lugar, na qualidade de alma ou espírito, estaria então a par dos meus sentimentos e desejos. E que pensaria ela de tudo? Se eu pudesse saber! Compreenderia? Ou me condenaria?

O raciocínio me vinha, às vezes, claro, lógico, sobre a sua aprovação. Ele não há de ficar viúvo a vida inteira e, nesse caso, ela não havia de preferir que a outra fosse eu? Eu, que há tanto o amava e amava seu filho... Se o espírito se desliga do corpo, como supor que ainda tenha impulsos e apegos só próprios da carne?

E eu ficava ali, me torturando com perguntas que não tinham respostas, a pensar no corpo que se decompunha, numa obsessão.
Vinha-me o desejo de rezar, mas me era impossível.
Noutros tempos, quando eu ia ao cemitério com vovó, ficava pensando que papai e mamãe não estavam ali.

O que deles ali restava era uma ossada igual à de toda gente. E o que eles tinham sido, as almas, estariam em algum lugar acima de nós - o céu. Por isso não gostava do cemitério. Não encontrava expressão num buraco com uma ossada igual à de toda gente. Depois, quando vovó morreu e eu já havia perdido a fé, comecei a sentir que, dos meus mortos, só me restava mesmo era aquele punhado de ossos, e ia então, de vez em quando, enfeitar com algumas flores a pedra que os guardava.

De volta para casa, quando o ônibus entrava na praia de Copacabana, eu sentia uma dor em ver o sol brilhar sobre as ondas e os corpos jovens, seminus, que, estirados nas areias, se deixavam tostar, naquela manhã quente e bela. Parecia-me que roubavam aquilo a que Lúcia tinha direito.

Era uma injustiça ela estar apodrecendo enquanto essa gente gozava a vida, as boas coisas, tudo... E eu as odiava.
Nunca mais pisei o pé na praia, o banho de mar não mais me interessava, dava-me tristeza lembrar-me de como ela gostava de deitar-se ali e queimar-se de sol até ficar morena.

Era como se eu estivesse vendo o seu corpo seminu, harmoniosamente modelado, estendido na areia durante horas, para depois atirar-se às espumas, furando as ondas, e voltar gotejante, respirando forte, alteando, num movimento ritmado, os seios redondos e firmes.

Via-lhe o riso, os cabelos molhados, pingando, que ela sacudia para trás num gesto gracioso, e ouvia-lhe a voz, que me dizia:

- Formidável, Marta! A água está uma delícia!

E eu alongava a vista por aquele mar de corpos, naquela manhã de domingo, e pensava: "Quantas moças! E nenhuma pode ser ela, porque ela está morta."

Recebíamos ainda cartões e telegramas de pêsames, que eu me apressava a responder sem que Rui os visse, para não lhe acordar mágoas. Entre todos, estava o de Luís, a quem não pudemos avisar, por não sabermos por onde andava na ocasião. Era um telegrama grande, sentido, e eu chorei, com o papel na mão, como se fosse ele que me houvesse trazido a triste notícia.

Tenho-me esquecido de falar em Luís. Mas digo agora que seu livro nunca saiu, mas resolveu bem o próprio romance: casou-se com uma prima de São Paulo. Era, de fato, inclinado às primas.

A dor de Rui perdia aos poucos aquele aspecto de desespero dos primeiros dias. Tornava-se mansa e doce na sua aceitação. Vi-o pegar o tricô que ela deixara em meio, um capotinho,
e, depois de contemplá-lo, comovido, levá-lo para seu quarto. Também já gostava de falar sobre ela.

Vinha para mim, lembrar seus ditos, seus gostos. Eu aumentava o número de recordações, contando-lhe episódios de quando ela era criança, que ele ouvia com prazer. Havia mais de um mês que ela morrera e, um dia, à mesa do jantar, ele falou:

- Marta, temos que resolver a situação, não é? Já pensou no que você vai fazer?

O coração pulou-me no peito e senti tremerem-me as pernas.

- Não, Rui, eu... eu estava esperando que você decidisse...

- ele não me olhava, ocupado em cortar o bife, e não viu, decerto, a minha perturbação. Falava calmo, como quem tivesse pensado maduramente sobre o assunto, estabelecendo a solução definitiva, para a qual não haveria réplica.

- Pois vamos ver, então: a casa é nossa, vendo e a metade do dinheiro é seu. Já tenho comprador para móveis e tudo. Não vou ficar no Rio. Já passei o consultório. Quero andar um pouco... vou à Bahia, levo meu filho para conhecer os padrinhos, fico lá um mês ou dois e depois volto. Sempre quis ir, mas uma coisa e outra... agora vou mesmo. Passou a mão pela testa, como se quisesse limpá-la dos maus pensamentos.

Tive ímpetos de gritar: "E eu?! Não existo?! Não sou nada?!"

Mas nada disse; fiquei riscando na toalha com o palito e recebendo cada palavra sua como uma pedrada.

- Levo o menino. Minha tia tomará conta dele. Está fraquinho, magro e lá ganhará forças. Eu também ganharei as minhas.

E, olhando-me pela primeira vez depois que começara a falar, perguntou:

- E você, para onde vai?

- Ah! Eu? Eu... vou por aí... - respondi, levantando-me da mesa. - Não se incomode... vá, leve o menino e sejam felizes. Eu me arrumo...

No meu quarto, desabafei. Como é egoísta, meu Deus! Como é possível uma pessoa assim?!

Não chorei; não tinha lágrimas. Sem o querer, achei-me diante do espelho: - Que diabo tem aquela criatura ali, que não pode ser feliz, amada? Feia? Sim, feia e também já não era jovem, mas via tanta gente que, embora assim, era querida, admirada por outras qualidades, que não é só a beleza que conta.

A vizinha ao lado não era uma moça feia? Um nariz comprido, a cara sardenta e uma miopia que a fazia usar uns óculos de grossas lentes, que tornavam os olhos miudinhos?

Mas tinha boas qualidades, era caprichosa, a casa andava um brinco, as crianças bem tratadinhas, e eu vi, quantas vezes, o marido, ao chegar, beijá-la com carinho, ali mesmo, no portão. Amava-a, decerto. E eu? Não tinha nada de bom? Quem foi que gostou de mim? Ninguém.

No colégio, não tinha amigas, nunca tive um namorado, vovó gostava de mim, mas preferia Lúcia... De papai, não fui querida... De mamãe, não sei, não me lembro... Nunca houve ninguém que me quisesse muito, que me preferisse. Antes tivesse casado com Luís. Afinal de contas, foi ele o único que me quis. Não era amor, bem sei, mas, pelo menos, escolheu-me para sua companheira de toda a vida.

E eu rejeitei-o. Por quê? Por que colocava muito alto o meu sonho. E, depois de se desejar uma estrela, é difícil contentar-se com a luz de uma vela! Lembrei-me da insistência deles para que morássemos juntos, das fisionomias desapontadas quando rejeitei o convite.

Lúcia precisava de mim, naquela hora, e hoje, que não sirvo mais para nada, empurrava-me pela porta afora. Se fosse ele que me amasse, seria tão fácil! Era só dizer, declarar-se, com luar ou sem luar, e a conquista estaria feita... Mas sou mulher e só tenho o direito de esperar que me queiram, que me escolham.

Não posso ir a ele e dizer: eu o amo. Eu o amei sempre, desde o primeiro instante e não lhe peço nada, quero apenas dar. Poderia dizer ainda que, neste meu corpo sem beleza, havia uma mulher. Uma mulher que o amava como nenhuma outra o amaria. Com todo o coração. Com toda a alma. Mas não.

Tinha de calar-me e vê-lo quase ao alcance da minha mão, sem poder fazer um gesto. Por quê? E para onde iria, meu Deus? Tia Dulce me tinha convidado, no enterro de Lúcia, e repetira o convite, na missa de sétimo dia, dando-me a entender a inconveniência de eu ficar na casa com Rui. Mas eu não queria ir para a casa de ninguém.

Ficaria sozinha. Viveria esmagada entre a saudade de um passado e o horror de um futuro vazio. No dia seguinte, saí; fui ver um quarto que se anunciava em casa de família. Estaria e não estaria de todo só. Era na Rua Senador Vergueiro, no Flamengo. Uma casa alta, modelo antigo, com sacadas que lembravam o casarão. Fiquei com ele.

Nada disse em casa, e esperei ansiosa o momento de ver tudo consumado. Arrumei a roupinha do menino na mala, para que nada lhe faltasse. Via os homens entrar, carregando móveis, tapetes e objetos de arte, vendidos. Rui pediu-me que ficasse com o menino até o dia do embarque. Iriam de avião.

Era uma clara manhã de sol, deixei a casa, que também foi minha, onde sofri e lutei, vencendo, justiça se faça, o que há de mal dentro de nós. Segurei a mão de Paulinho e saí depressa, batendo a porta. As tristezas e as saudades vinham em bando atrás de mim.

Dias depois, embarcaram. Não fui levá-los a bordo, fui à janela, vê-los tomar o carro. O menino, com a mãozinha no ar, gritava:

- Adeus, titia! Adeus!

Fiquei olhando até o carro desaparecer na curva.

- Paulinho! - gritei, e o meu grito era um soluço.

Lembro-me da carinha alegre dele a contar-me que ia no "avião grande" e que, quando voasse, daria adeus para mim, e o avião fazia: ron-on-on-on. Como são felizes as crianças!

Passaram-se os meses, e de vez em quando, lá vinham notícias:

"Paulinho forte..."
"Paulinho no colégio..."
"Os tios encantados com o afilhado..."
"Paulinho com saudades da titia..."
E não falava em voltar.

Eram passados quase dois anos quando recebi uma carta:

"Guardarei eternamente na lembrança aquela que amei, que foi minha esposa tantos anos, mas..."

Casou-se. Tempos depois vieram para o Rio. Vi-os. O menino crescido, mudado, quase um rapazinho. Já não tinha a mecha rebelde de cabelos a cair-lhe na testa. Frequentara um colégio de padres na Bahia, estava sério e circunspecto. Abracei-o enternecida, mas senti, num aperto, que já não era o mesmo.

Já não era o meu menino. Rui, mais gordo, parecia feliz. A moça, se bem que não fosse linda como Lúcia, era bonita. Decididamente ele tinha bom gosto.

E a história acabou como nos contos de fadas. Compraram um palacete esplêndido em Ipanema. Ela era bonita e rica. Muito rica. Tiveram muitos filhos e viveram felizes para sempre. Paulinho entrou para um colégio interno. Saía aos sábados. De longe em longe, eu os ia ver.

Sentava-me no salão, ricamente decorado. Descia o menino a escada do hall e vinha polidamente beijar a minha mão. Depois, era o rapaz que descia. Por fim, o homem.

O vento bate com força a minha janela. Espio lá fora... Na noite escura, as estrelas brilham mais... As mesmas estrelas.

FIM

Autor(a): Magdalena Léa

 

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