Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / FIQUE POR DENTRO

Em enredo que nasceu da contestação a decisão de Crivella, escola abordará polêmicas como a da "cura gay" e o machismo

RIO - Peruca de pano velho, chapéu de funil e escorredor de macarrão, bobes de cabelo feitos com boia de piscina... A transgressão que a Mangueira propõe no carnaval do ano que vem estará não só nos temas de suas fantasias, mas também na concepção e nos materiais dos figurinos. Para o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco!” — que nasceu a partir de uma crítica ao corte dos repasses às escolas de samba ditado pelo prefeito Marcelo Crivella —, o carnavalesco Leandro Vieira afirma que vai despir a verde e rosa de luxo, brilho, penas e resplendores, para vesti-la de remendos, adereços inusitados, tecido barato e encardido. A promessa é de uma ressignificação da própria indumentária comum à Sapucaí para abordar, numa espécie de crônica das polêmicas recentes, assuntos que vão da nudez e do machismo à dita “cura gay”.

— A ideia é deixar de lado os modelos tradicionais de fantasias. E, claro, fazer disso tudo arte. O enredo surgiu de uma decisão do prefeito. Mas não se trata de uma rixa política. É uma possibilidade de discussão também das pautas atuais. Eu me aproximo do carnaval de rua para me apropriar de uma subversão que há tempos anda afastada do sambódromo, mas que cresce nos blocos. Vamos convidar o carnaval de rua a invadir a Sapucaí, com o espírito de liberdade e de deboche, mesmo sem dinheiro — explica o carnavalesco, que apresentará nesta quarta-feira parte das fantasias da verde e rosa.

As boias de piscina que imitam bobes de cabelo, por exemplo, estão na ala que representará os homens travestidos de mulher nos blocos das piranhas. Para compor o visual, a roupa tem uma saia com pedaços de pano colorido, capa de véu rosa transparente e uma proliferação de babados. As cerejas do bolo são os seios de tecido à mostra e, para carregar nas mãos, um cartaz com a mensagem “É gay? Benegay”, uma brincadeira para lembrar os defensores das terapias de “cura gay”.

As placas com recados divertidos, irônicos e tom crítico, por sinal, estarão espalhadas pelo desfile. Uma delas remete à letra do samba da escola: “Pecado é não brincar o carnaval”. Outra recorda a peça de Nelson Rodrigues “Toda nudez será castigada”. E em letras garrafais, também aparecem frases como “Seu machismo é brochante”, “Bela, recatada e do lar”, “Em nome da moral e dos bons costumes” e “Faça o bom porque o mundo vai mal”.

— A inspiração está nas minhas experiências de brincar carnaval como folião de bloco. Sempre me animou a capacidade de se divertir e se fantasiar com pouco dinheiro, de usar o espaço das ruas para reinterpretar a realidade. Fui criado no subúrbio, vendo as fantasias de Pai João e bate-bolas. Mais velho, passei a frequentar os blocos do Centro e de Santa Teresa. Isso fica na memória — diz Leandro.

Uma das fantasias, por exemplo, lembra os bate-bolas que ele se acostumou a ver na infância. Nela, bermudas jeans viram a camisa do pierrô, que se enfeita com trouxinhas de pano de chão e canecas de plástico. Já o malandro tem paletó rasgado e costurado com retalhos, além de uma espinha de peixe como adorno no chapéu.

— Grande parte do material das fantasias estamos comprando nas lojas da Saara, como fazem os foliões do carnaval de rua. A diferença é que, no desfile, temos que dar um tratamento muito mais artístico. É um carnaval mais barato mesmo. Só que meu trabalho é deixar isso bonito — afirma.

As escolas de samba também serão retratadas. Mas, em tempos de poucas verbas, as bandeiras da Mangueira e da Portela estarão penduradas em cabos de vassoura, numa referência à música “Camisa listrada”, interpretada por cantoras como Carmen Miranda.

— São as escolas que perdem a grana, mas não perdem sua nobreza ancestral, que permanece imaculada. É uma corte de plebeus. É o dizer “não, careta, aqui você não determina nada. Você não é a lei, não veta. A matéria que constitui a arte não está sob o domínio da sua sombra — diz Leandro. — A ideia é mostrar que universal somos nós, o que nós representamos. Vamos continuar sendo reis e rainhas. Enfeitados de pluma ou lata, seguiremos sendo a representação da dignidade da cultura popular — ressalta o carnavalesco, usando a palavra "universal", que a escola avalia incluir na letra de seu samba.

Caso a mudança se confirme, uma parte do refrão dirá “Eu sou Mangueira, meu senhor / Sou universal / Pecado é não brincar o carnaval”, numa ironia direcionada a Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA