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Chico Brown e a avó, Marieta Severo
Foto: Cristina Granato

'Grande sertão: veredas' foi o grande vencedor, com quatro troféus

O espetáculo “Grande sertão: veredas” foi o recordista de troféus do Prêmio APTR de Teatro, que aconteceu na noite desta terça-feira (28), no Teatro Prudential, na Glória. A peça ganhou em quatro das 13 categorias: melhor direção (Bia Lessa), melhor ator (Caio Blat), melhor espetáculo e melhor cenografia (Camila Toledo e Paulo Mendes da Rocha). "Romeu e Julieta" veio em seguida, com três láureas: figurino (João Pimenta), também cenografia (Daniela Thomas) e atriz coadjuvante (Stella Maria Rodrigues).

A 13ª edição do prêmio homenageou a atriz Marieta Severo, que foi surpreendida pela entrada de Elba Ramalho no palco, cantando “O meu amor”, canção de Chico Buarque, com quem Marieta foi casada por mais de três décadas. O diretor Aderbal Freire-Filho, atual companheiro da atriz, e Andréa Beltrão, amiga e grande parceira profissional de Marieta, também subiram ao palco para celebrá-la.

- Quando as pessoas morrem e dizem coisas lindas a respeito delas, eu sempre fico pensando “ai, que pena que elas não estão aqui para ouvir”. Eu nem precisei morrer... - brincou Marieta, em seu discurso. - Tenho que agradecer ao acaso, que me fez atriz, esse ofício em que o outro é sempre o foco, em que se tem que mergulhar na complexidade humana e fazer dela o seu material de trabalho. Tudo que aprendi foi através e por causa dos personagens que fiz e das histórias que contei. Tenho que agradecer por fazer parte de uma geração que sonhou com uma cultura vibrante, com a imaginação e a arte no poder, com uma sociedade mais igualitária e diversa, que lutou contra uma ditadura cruel. Uma geração que sonhava, como disse o compositor, que "o dia vai raiar só porque uma cantiga anunciou". Tenho que agradecer à geração anterior à minha, dos grupos como Opinião, Arena, Oficina - acrescentou ela, que citou parceiros de trabalho como Naum Alves de Souza, Marco Manini, Andréa Beltrão e Aderbal Freire-Filho, além de sua família.


Silvia Buarque beija a mãe, Marieta Severo
Foto: Cristina Granato

Com as filhas Silvia e Helena, e os netos Chico Brown e Clara, na fila do gargarejo, Marieta arrancou gargalhadas do público ao contar histórias de família.

- Quando Chiquinho, meu primeiro neto, tinha uns 8 anos, me disse: "Ô, véia, por que você não se aposenta?". Pois é Chiquinho, a 'vova' não vai se aposentar. Ela quer ficar velhinha contando história nos palcos e nas telas - disse. - Finalmente, quero agradecer às minhas três filhas, que apesar das inúmeras noites em que não pude colocá-las para dormir, porque  o teatro era de terça a quinta, disfarçam para mim as sequelas que eu deixei - acrescentou Marieta, antes de dar um selinho em Silvia.


Helena Buarque com os filhos, Chico Brown e Clara
Foto: Cristina Granato

A cerimônia também homenageou Nicette Bruno, na categoria especial, por sua trajetória, e lembrou profissionais da arte que nos deixaram recentemente, como os diretores Antunes Filho e Domingos Oliveira, os atores Lúcio Mauro Filho, Bibi Ferreira, Caio Junqueira e Beatriz Segall, o cenógrafo Hélio Eichbauer, entre outros nomes. Frases de Domingos ("a arte é um retrato de um país, infeliz o país que não faz sua arte"), aliás, deram molho ao texto dos apresentadores Drica Moraes e Marco Nanini.


Nicette Bruno
Foto: Cristina Granato

A produção também anunciou uma nova categoria na premiação, a de direção de movimento e coreografia, entregue, naquela noite, a uma personalidade eleita pelos jurados como hors concours : a bailarina Angel Vianna.

O momento saia-justa da noite aconteceu quando Stella Miranda foi anunciada a vencedora na categoria atriz coadjuvante (por "O frenético Dancin Days"), mas a escolhida mesmo era... sua xará, Stella Maria Rodrigues (por Romeu e Julieta"). A produção, então, decidiu dividir o prêmio entre as duas, mas ficou no ar um certo constragimento. Depois de ouvir seu nome sendo gritado em coro pela plateia, Miranda deu um show de savoir-faire e aceitou subir no palco.

- Que situação bizarra - disse ela, rindo. - Mas vivemos tempos de intolerância e bossalidade, em dizem que somos inimigos do povo... Olha aqui, somos duas Stellas!


Stella Maria Rodrigues e Stella Miranda
Foto: Cristina Granato

Discursos políticos e pela diversidade marcaram todo o prêmio, que avaliou 350 espetáculos encenados no Rio em 2018 e, pela primera vez, não ofereceu uma quantia em dinheiro aos vencedores, apenas o troféu. Presidente da APTR (Associação de Produtores de Teatro), Eduardo Barata ressaltou a importância do teatro como fomentador de cidadania e liberdade de expressão.

- O teatro como manifestação artística surgiu na Grécia, bem antes do conceito de direita, centro e esquerda. Portanto, o teatro insiste, resiste, existe e se renova, independentemente do tempo e da boa vontade de homens públicos - afirmou. - Não somos uma lei, um ato administrativo, não somos uma Instrução Normativa e não somos um edital. Somos arte. Somos cultura. Fazemos teatro, um ofício de insanos, loucos, empreendedores, criadores, apaixonados e sonhadores.

Quitéria Kelly, diretora de "A invenção do Nordeste", vencedor nas categorias ator coadjuvante (Mateus Cardoso e Robson Medeiros) e autor (Pablo Capistrano e Henrique Fontes), destacou a importância da diversidade regional.

- Estou aqui falando do Nordeste, tentando reconstruir a narrativa que sempre foi a do homem branco, dono dos cafezais, dizendo o que é ser nordestino - observou. - Como disse Chico Science, é preciso modernizar o passado. É uma evolução cultural. Nosso espetáculo é baseado num livro de um historiador, e a História hoje, no Brasil, está ameaçada.

Larissa Luz, atriz do elenco de "Elza" (ganhador nas categorias música e produção), destacou a minoria de negros na plateia e no palco naquela noite.

- Outro dia, ouvi alguém dizer que diversidade era uma palavra gasta. Enquanto a ausência de negros nos restaurantes, palcos e plateias for um incômodo, precisamos falar de representatividade.

Em um áudio de celular enviado para agradecer pelo prêmio de melhor ator protagonista, que dividiu com Bruce Gomlevsky (por "Memórias do esquecimento"), Caio Blat afirmou que "o grande sertão é aqui e agora, com grupos de milicianos tomando o poder". Bruce, por sua vez, disse que sua peça, baseada no depoimento do jornalista Flávio Tavares, preso e torturado pela ditadura militar, é "para que a história do Brasil não seja apagada por gente que defende torturador".

Lista de premiados

Música: Pedro Luis, Larissa Luz e Antônia Adnet por “Elza”

Iluminação: Felicio Mafra por “Memórias do esquecimento”

Figurino: João Pimenta por “Dogville” e “Romeu e Julieta”

Cenografia: Daniela Thomas por “Romeu e Julieta” / e Camila Toledo e Paulo Mendes da Rocha por “Grande sertão: veredas”

Atriz coadjuvante: Stella Maria Rodrigues por “Romeu e Julieta” / Stella Miranda por “O frenético Dancin Days”

Ator coadjuvante: Mateus Cardoso e Robson Medeiros por “A invenção do Nordeste”

Direção: Bia Lessa por “Grande sertão: veredas”

Autor: Pablo Capistrano e Henrique Fontes por “A invenção do Nordeste”

Atriz protagonista: Amanda Costa por “Bibi, uma vida em musical”

Ator protagonista: Bruce Gomlevsky por “Memórias do esquecimento” e Caio Blat por “Grande sertão: veredas”

Categoria especial: Nicette Bruno por sua participação em “Pippim” e trajetória artística no teatro

Espetáculo: “Grande Sertão: veredas”

Produção: Sarau Agência de Cultura Brasileira por “Elza”

Direção de Movimento e Coreografia: Angel Vianna

Parceiro do Teatro: Globo

Autor(a): Maria Fortuna
Fonte: oglobo.globo.com/cultura/marieta-severo-comemora-homenagem-no-premio-aptr-de-teatro-nem-precisei-morrer-23701571
Colaborador(a): Beatriz Duarte Resende

 

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