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RIO- “1, 2, 3, 4... 5, 6, 7, 8!” A sequência numérica está tatuada nos braços de Almir de Souza Junior, ou Jhonny Surdinho, como prefere ser chamado. Embora seja professor, suas aulas não são de matemática, o que de nenhuma forma reduz a importância da contagem que decidiu marcar na pele. Surdo dos dois ouvidos, Jhonny, que tem 37 anos, desafia sua condição diariamente enquanto ensina passos de dança em quatro academias do Rio. Instrutor de “fitdance”— uma modalidade que caiu nas graças do público a partir de vídeos de coreografias de pop, funk e sertanejo, publicados no YouTube—, além da técnica do “um oito”, Jhonny consegue entender as batidas das música por meio das vibrações produzidas pelo som.

— Quando comecei a dar aulas, coloquei músicas cuja sonoridade eu dominava e cujas bases conhecia, e também colocava a mão na caixa de som para sentir a vibração inicial. Depois, ia com tudo — explica. — Minha surdez é bilateral, severa e profunda. Isso significa que sem aparelho eu não escuto nada. Com o aparelho tenho uma audição robótica, artificial. Como se todas as pessoas tivessem o mesmo tom de voz. Mesmo nas músicas, não consigo diferenciar tons.

A memória sonora de Jhonny existe porque sua deficiência só foi adquirida aos 10 anos de idade como consequência de uma caxumba. Uma das últimas músicas que escutou antes de perder a audição foi “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, na versão dos Engenheiros do Hawaii. Mas, olhando para o passado, Jhonny diz que, se pudesse escolher uma canção para ouvir novamente, optaria por “Nuvem de lágrimas” nas vozes de Chitãozinho & Xororó. No presente, não consegue eleger algo para escutar com perfeição, mas aponta um dos hits que não é capaz de decifrar e levar para as aulas:

— Se tem uma música que eu, definitivamente, não consigo captar os sons inicias e, por isso, não consigo dançar, é “Paraíso” de Pabllo Vittar e Lucas Lucco. Meus alunos me pedem essa coreografia e eu falo a verdade. Não escondo minhas dificuldades.

Quando chegou na aula de fitdance da academia Fórmula, no Shopping Nova América, Edlane Gusmão se surpreendeu com o fato de o professor de dança ser surdo. Mas o choque foi desfeito no momento em que Jhonny apertou o play para ensinar a primeira coreografia.

— Logo que ele conhece o aluno, já avisa que é surdo, porque a gente pode tentar se comunicar durante a dança e ele não entender — diz a aluna.—É incrível como ele consegue fazer os passos no tempo certo. Outro dia, ele estava sem aparelho e avisou que poderia atrasar o passo, mas não errou nenhuma vez.

Nem sempre Jhonny foi tão seguro de suas habilidades. Há 15 anos, quando ainda era aluno de dança e foi convidado para substituir um professor ausente, devolveu com a seguinte pergunta: “Como vou dar aula se sou surdo?”. Mas foi questionado de volta: “Como você dança se é surdo?”. A partir daí, foi o início de uma relação duradoura com a música, ainda que não consiga ouvi-la em seu estado natural.

— Minha surdez vem servindo de estímulo para outras pessoas, principalmente alunos que acham que dançar é muito difícil, impossível. Minha deficiência acaba servindo como uma ferramenta motivacional para eles. Também sou bem respeitado entre os instrutores— relata. — Ser ouvinte e adquirir a surdez é viver com a sensação de “perdi, e preciso entender que nunca mais vou encontrar.” Confesso que isso às vezes me deixa meio chateado. Mas lembro que tem gente em situação pior e ainda assim mais feliz, então tiro de letra.

Autor(a): Paula Ferreira
Fonte: blogs.oglobo.globo.com/to-dentro/post/surdo-dos-dois-ouvidos-professor-de-danca-agita-academias-cariocas.html
Colaborador(a): Juliana Nascimento de Freitas

 

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