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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

AÉCIO PEREIRA DE SOUZA
publicado em: 21/09/2015 por: William Gambini

"Porque chega o momento em que a gente se sente quase fracassando, mas na escuridão da minha cegueira, de repente, eu vi uma luz. Era Jesus que vinha pra mim e dizia: - Rapaz, você tem que se erguer, você tem que caminhar!"

Aécio Pereira de Souza é um nordestino que saiu de Natal, no Rio Grande do Norte, com quinze anos, no porão de um navio, junto com outros imigrantes, pra enfrentar os desafios da luta pela sua sobrevivência, aqui no Rio de Janeiro. Ele está com 80 anos e nos concedeu uma entrevista comovente que parece um romance de amor e de bravura, onde se revela a alma sensível de um herói.

LOU: Quem foram seus pais?
AÉCIO: Sou filho de Bruno Pereira e Luiza de Souza Nogueira Pereira.

LOU: Onde você nasceu?
AÉCIO: Nasci no Rio Grande do Norte, em 16 de janeiro de 1924, Macaíba, na Fazenda Ferreiro Torto. Fui trazido à vida pelas mãos gordas da parteira Dona Marica Botelho e quando fui apresentado ao clã da parentada, houve uma exclamação: que menino feio, danadão! Eu era tão magro que todos vaticinaram que eu não vingaria...
Mas, não acreditando em prognósticos pessimistas, fui em frente, e estou aqui bem vivo até hoje... (risos)

LOU: No seu livro "Giramundo", você escreveu memórias engraçadas, comovedoras sobre a Fazenda.
AÉCIO: A minha infância foi lá.

LOU: E como foi a sua infância?
AÉCIO: Foi ótima. Naquela época, meu pai era muito rico e eu tive uma vida de garoto rico.
A fazenda era uma beleza, nós andávamos pela fazenda, nos divertíamos muito, subíamos nas árvores frutíferas, comíamos manga, caju, fazíamos tudo, tudo, menos caçar passarinho, essas coisas, nunca fizemos. Pelo contrário, nós conseguimos um passarinhozinho, que foi apanhado pela cobra, e colocamos uma patinha nele. E ele viveu com aquela patinha.

LOU: E eu li que vocês viram um homem montado num cavalo e vocês ficaram muito aborrecidos... e perguntaram pro homem: você gostaria que alguém montasse no seu lombo?
AÉCIO: Foi, ele ficou brabo. Sentiu-se ofendido e disse: - Ô menino, você parece que é maluco. Eu vou fazer queixa pro seu pai. Imagine você achando que alguém pode montar na minha corcunda e me esporear como um cavalo. Eu sou um coronel!

LOU: Seu pai vendeu a fazenda...
AÉCIO: Meu pai vendeu todos os seus bens. Aí, eu reuni minha turma pra dar a notícia que eu ia embora e fui logo avisando: homem não chora! Todos concordaram e repetiram, homem não chora! Mas ninguém se agüentou, abraçados, choramos juntos...Quando sou tomado pelas recordações, sinto que na minha vida tudo que me pudesse parecer bom, nasceu naquela casa, naquele lugar.

LOU: Você voltou lá na Fazenda de Ferreiro Torto?
AÉCIO: Voltei. Depois de sessenta anos. Felizmente o prédio foi tombado. Mas foi transformado em uma horrenda repartição municipal; ficou mutilado. Por exemplo, já não tinha o pátio de lajeado em frente ao casarão. Também a Mata Atlântica e o pomar de árvores frutíferas tinham sido dizimados pelos matadores clássicos. Subi a escada silenciosamente pra não despertar as almas dos meus antepassados e cheguei ao quarto em que nasci. Aí não contive a emoção e com muito custo fui-me embora. Nessa hora me lembrei dos versos que meu pai recitava: "Meu filho, nunca verás um país como este, ama com fé e orgulho a terra em que nasceste".

LOU: Como foi que seu pai perdeu tudo?
AÉCIO: Ele fez uma sociedade com um italiano e fizeram um banco. E o banco faliu. Meu pai perdeu tudo.

LOU: E como era o nome do banco?
AÉCIO: Banco Italiano - Brasileiro.

LOU: E aí o que aconteceu com vocês?
AÉCIO: Quando o meu pai ficou muito pobre, tinha oito filhos e eu vi que em Natal e no Rio Grande do Norte não tinha uma escola superior, somente em Pernambuco. Eu vi o sofrimento do meu pai e vi que eu não podia pesar.

LOU: Você era o mais velho?
AÉCIO: Não, eu era o do meio. Então, eu falei pro meu pai que tinha que seguir uma profissão militar, porque só o militar tinha o curso superior gratuito. Eu já gostava muito da Marinha. Quando tinha 6 anos, eu ia pro mar com pescador, pescar no alto mar. Quando eu entrei pra Escola Naval eu era o único que sabia manejar com a embarcação; os outros eram todos daqui do Rio de Janeiro. Mas eu já era marinheiro. Nasci marinheiro e continuei marinheiro. Mesmo na Marinha eu fui iatista e fiz 4 regatas de Buenos Aires - Rio; ganhei uma.

LOU: Quando? Você lembra?
AÉCIO: Em 1958, aqui no Rio, porque o final da regata era no Rio de Janeiro. Eu fui sempre uma pessoa interessada no iatismo. Então, mais tarde, quando fui pro gabinete do Juscelino, inventei uma porção de coisas pra ajudar o iatismo brasileiro; criei uma função chamada representante da Marinha de Guerra no Iatismo e consegui me nomear pra isso.
Então, todas as coisas que a Marinha podia fazer pelo iatismo, eu conseguia. Eu gostava muito do Comodoro do Iate Clube do Rio de Janeiro, Carlos Pires de Mello, que era um cara formidável mas já morreu.

LOU: Mas voltando. Seu pai ficou pobre...
AÉCIO: Quando eu vi o desespero dele, é que eu senti a necessidade. Pela primeira vez eu vi meu pai chorar, mas chorar desesperadamente. Eu tinha 12 anos e em pouco tempo eu fiquei adulto. Foi aí que comecei a estudar já com a intenção de entrar pra Marinha. Estudava no Ateneu, que era o único estabelecimento oficial de ensino médio secundário de Natal.

LOU: E os mais velhos não trabalhavam?
AÉCIO: Os mais velhos ainda estavam estudando. Eu disse a ele pra não ficar preocupado que eu ia ser militar. E aí comecei a estudar o programa da Escola Naval que era muito, muito duro.

VIAGEM PRO RIO DE JANEIRO

LOU: Como foi sua vinda pro Rio?
AÉCIO: Eu vim pro Rio com 15 anos, na terceira classe de um navio inglês, porque meu pai não tinha dinheiro. Eu vim no porão junto com os imigrantes. Olhando pro cais, quando o navio desatracava, vi meu pai, que me acenava com um lenço branco. Aquele momento de partida para um destino ignorado, me deu um aperto no coração. Dei adeus a meu pai. Quando chegou na Praça Mauá e fui desembarcar, o funcionário da emigração pediu meus documentos e, por eu ter 15 anos, disse que faltava a autorização do meu pai pra eu ter viajado. Era um navio inglês. Eu vasculhei minha malota e falei que os documentos estavam todos lá, mas ele disse que eu não tinha. Aí ele me deu a sentença terrível:
Você não desembarca, vai ficar no navio e de maneira cruel, virou as costa e foi-se embora. Eram umas 10 horas da manhã e o navio ia sair às 8 da noite. Por duas vezes tentei escapar pela prancha de desembarque, mas fui impedido por um guarda . Eu chorava... até que eu falei pra um espanhol que era imigrante e ficou meu companheiro a bordo:
- quando o navio desatracar, eu pulo na água, porque eu nado bem. Vou pular na água com a minha maleta e você dá o alarme pra que o navio não me imprense contra o cais, mas eu me safo.
Ficou tudo combinado. A hora passando. Antigamente tinha uma companhia de telégrafo chamada "Western Telegraph", que era uma beleza. Você passava um telegrama e meia hora depois vinha a resposta. Eu tinha pouco dinheiro e isso era caro. Aí eu peguei um dinheirinho, pedi a um cara pra passar um telegrama pro meu pai e ele passou. No final da tarde, poucos minutos antes da partida do navio, chegou um cidadão meu parente pra me pegar, como meu responsável. Eu comecei a chorar.

A CASA DO ESTUDANTE POBRE

LOU: Onde você foi morar?
AÉCIO: O homem me levou pra uma pensão na Correia Dutra, no bairro do Flamengo que pertencia a uma senhora de fino trato mas que estava falida e precisava alugar os quartos pra sobreviver. Fiquei alojado numa vaga pra estudantes, num quarto com mais oito rapazes. Tive a felicidade de conhecer nesta casa, o grande romancista Graciliano Ramos, que ocupava um quarto com sua mulher e duas filhas. Foi a melhor coisa que me aconteceu, pois tive a oportunidade de ouvir dele próprio a história da sua prisão e todos o acontecimentos narrados no livro " Memórias do Cárcere".

Contando o meu dinheiro, vi que não dava pra ficar muito tempo lá e eu tinha que estudar. Aí eu vi que só tinha um colégio, o Colégio Universitário da Praia Vermelha, que fazia o pré-engenheiro, que me daria as condições pra eu enfrentar os difíceis concursos pra Escola Naval. Aí eu, um garoto mal vestido, tênis ruins, fui lá falar com o diretor. Era um gauchão de São Borja. A moça me atendeu:
- O que você quer guri?
- Eu quero me matricular aqui.
- Não tem mais. As matrículas estão fechadas e você não tem dinheiro pra pagar.
Eu insisti que queria falar com o diretor.
- "Ô guri, você pensa que o diretor fala com qualquer um?", respondeu irritada.
- É, mas eu vou ficar aqui até falar com ele. Depois de muito esperar, a porta da diretoria se abriu e apareceu aquele gauchão de bombacha, lenço vermelho no pescoço, fumando um charuto. Olhou pra mim com desprezo e disse:
- O que esse guri quer?
Ela disse:
- Olha diretor, esse guri quer se matricular nessa altura do trabalho e o pior é que ele não tem dinheiro. Aí ele olhou pra mim, deu uma baforada no charuto e falou:
- Olha guri, tu não sabes que este colégio é de primeira linha? Você chegou atrasado!
Aí eu resolvi falar:
- Seu diretor, o senhor não conhece o flagelo do nordeste, a miséria. Cheguei até aqui, viajando no porão de um navio, não tenho dinheiro, mas o senhor podia me dar uma chance de estudar no turno da noite, pois durante o dia terei de trabalhar... Ele ficou calado algum tempo e depois disse com uma voz menos áspera:
- Tu deves procurar uma delegacia mais próxima de tua casa e pedir um atestado de pobreza, que eu penso no teu caso. Saí feito uma bala, fui na delegacia que ficava na Bento Lisboa, esquina com Catete e falei com o delegado:
- Queria que o senhor me desse um atestado de pobreza; eu tô esperando ali na pensão. Mas eu queria isso pra amanhã.
- Amanhã você passa aqui que eu vou ver. No outro dia eu passei e ele disse:
- Garoto, tu tá lascado, tu não tem é nada. Eu olhei na tua mala e tu não tem nada. Tá aqui o teu atestado de pobreza.
Ele me deu e eu voltei pra falar com o diretor. E a moça disse:
- Você já tá de volta?
- Tô e quero falar com o diretor.
Ele me atendeu:
- Tá aqui doutor o meu atestado de pobreza e eu vou fazer com o senhor uma aposta: se o senhor me matricular no pré-engenheiro de noite, eu vou ser o primeiro aluno da turma daqui a seis meses. Ele olhou e disse:
- Tá bem garoto, eu vou fazer essa aposta; mas, se você não for o primeiro, dou-lhe um pé na bunda e o coloco no olho da rua. Aí eu disse:
- Tá feito! E saí dali dando pulos de contente. Seis meses depois, em janeiro de 1939, eu tava lá. E fui o primeiro da turma até o final do curso.

LOU: Que coisa! Você confiava no seu "taco"...
AÉCIO: No final eu fiz exame de admissão pra Escola Naval, Escola Militar e Engenharia, passei nos três. Eu disse pra ele: - Olha, eu passei nestes três e quero agradecer e dedicar essa proeza ao senhor. Aí ele me abraçou e disse:
- Guri, você é homem, você é homem mesmo!

LOU: Estou comovida!
AÉCIO: Nessa época eu comia na "Casa do Estudante Pobre". A dona Ana Amélia Queiroz de Mendonça, uma senhora fina da sociedade era a presidente. Mas ela nunca passou por necessidade e ela não conhecia essa coisa. Nós íamos lá pedir comida pra ela. Ela dava um tíquete por semana e, depois, tinha que pedir de novo. Toda semana, tínhamos que formar uma nova fila e ela humilhava a gente:
- Vocês não têm jeito, não têm capacidade pra arrumar um emprego!

LOU: Por um lado, ela fazia caridade, por outro ela...
AÉCIO: Ela não fazia caridade. Ela tava ali fazendo uma representação social. Quem fornecia a comida era o governo. E só dava até 6ª feira. Nos sábados e domingos, nós passávamos fome. Freqüentavam lá Abelardo Barbosa, o Chacrinha que sempre estava fazendo algazarra, um rapaz que só tinha uma perna, outro que veio a pé desde Minas Gerais, era assim. O impressionante era a solidariedade daqueles garotinhos, todos pobres. Quando um arrumava emprego, vinha lá e dizia: - eu posso pagar pra dois, a gente ia lá e comia. Quando eu passei naqueles três concursos, todo mundo comemorou: é esse, esse, é o maior! Aí eu soube que a dona Ana Amélia queria falar comigo.
E eu fui falar com ela. Ela disse: - Nunca houve um caso desse, um garoto daqui, da casa do estudante, ter conseguido passar na escola militar, porque o concurso é muito difícil. E você vai pra onde?
- Eu vou pra Marinha, pra Escola Naval.
- Bom, eu vou pedir um favor: - faz uma espécie de uma união desses estudantes pra que a gente fique conhecido.
Você pode fazer isso?
Eu disse:
- Não.
- O quê?
- Olha, dona Amélia, eu não vou fazer, porque faz um ano que eu venho aqui toda semana pra arrumar uma refeição e toda vez a senhora me humilha e humilha os outros. Eu não vou trazer pra cá estudantes militares e expor a eles essa vergonha que passamos aqui. Enquanto a senhora for presidente, eu nunca vou trazer ninguém aqui e fui embora.

A VIDA NA ESCOLA NAVAL

LOU: E você foi pra Marinha.
AÉCIO: Fui pra Escola Naval, com 16 anos, no dia 20 de janeiro de 1940. Todo fim de semana, eu sabia que o pessoal não tinha onde comer; eu vinha apanhar um ou dois pra ir comer comigo lá na Escola Naval.

LOU: Interessante... Você podia levar convidados à Escola Naval pra comer! Era uma festa pra eles...
AÉCIO: Podia, podia passar o domingo comigo. Tinha piscina e tudo e a gente se divertia e ainda comia muito bem.

LOU: E nenhum deles seguiu seu exemplo.
AÉCIO: Mas eu estudava feito um danado e já vinha estudando há muito tempo. Desde os 12 anos! Passei no exame intelectual. Eu lembro que eu era muito magro e no exame de saúde pra entrar na Escola Naval, o médico disse que eu era magro demais:
- Talvez você não agüente. Lá o rojão é duro.
- Eu garanto pro senhor que eu agüento.
- Mas eu vou botar na sua ficha uma observação: "Miséria orgânica". Porque eu era muito magro. Aí, eu fiquei "chutado" com aquilo e, no primeiro exercício de remo, o remo pesava mais que eu. E o treinador mandava: - Remos ao alto! E, naquele dia, quando eu acabei o primeiro exercício eu tava exausto.

LOU: Você conseguiu acabar o exercício?
AÉCIO: Acabei tudo, não chiei nem nada. Depois os músculos ficaram tesos como corda de violão e eu chorava de tanto sofrimento, mas não deixei de fazer o exercício. Aí eu fiquei conhecido como o cara que tinha garra. Até ganhei o apelido de Sabiá, um cangaceiro de Lampião, que era danado. (risos)

LOU: Você engordou na Marinha?
AÉCIO: Engordei. Olha, num ano eu fiquei forte pra chuchu. Na Marinha a comida era muito boa. Eu ficava bobo com aqueles caras que reclamavam da comida. E eu dizia: - Pôxa vida, eles não sabem o que é passar fome.

LOU: A Marinha era mais rica que o Exército e a Aeronáutica.
AÉCIO: A gente tinha um tratamento muito bom. A gente pegou um Almirante que era um homem vibrador. Ele fazia tanta presença, tanta questão que a gente fosse social que, às quartas-feiras, ele fazia uma festinha, convidava as moças e a gente dançava. Na primeira logo, ele notou que tinha muita moça e muito aspirante sem dançar.
Eu só via o oficial tomando nota. No outro dia, tava todo mundo preso. Eu não; eu tava dançando.

LOU: Ainda bem.
AÉCIO: Aí a reclamação. Ele disse: - Por que vocês não querem dançar? A famosa desculpa: porque eu danço mal, não sei dançar. Aí ele disse: - Pode deixar. No outro dia, tinha duas professoras de dança lá. E nós aprendemos a dançar tudo.

LOU: Quem era esse santo comandante?
AÉCIO: Almirante Alberto Lemos Bastos. Ele era um cara formidável. Ele dizia que todo mundo tinha que dançar e as primeiras a dançar deveriam ser as mais feias. E ensinava: Se você vai dançar com aquela moça lá, você deve falar assim: "quer me dar o prazer dessa dança?" Tinha que afastar a cadeira pra moça levantar e depois levar de volta à mesa, colocar sentada e agradecer. Era uma coisa bonita.

LOU: Ele dava lição de etiqueta também.
AÉCIO: Dava sim. E a gente comia muito bem. Ele mandou os taifeiros fazerem o curso no Copacabana Palace. Então, era ótima a comida. E o pessoal da Escola Militar tinha inveja e achou que a gente era efeminado. Um dia, os da cavalaria convidaram a gente pra almoçar lá; e eu era calouro e fui obrigado a ir. Olha, foi uma coisa horrível! Eles botaram os caras pra servir a mesa numa tábua, com os bifes em cima, pra afrontar a gente. E o cara dizia: - Carteia os bifes e os caras jogavam os bifes.

LOU: Eu não entendi, cartear os bifes?
AÉCIO: Ao invés de servir eles jogavam os bifes.
E foi tão acintoso que depois o comandante da Escola Militar chamou a atenção deles.

O Almirante chamou o maestro Eliazar de Carvalho pra nos ensinar a cantar os hinos pátrios. Então, o que a gente cantou, você não pensava que aquilo era o Hino Nacional, porque era totalmente diferente, foi uma beleza. No final, cantamos o Cisne Branco. E a gente ficou, assim conhecido, como sendo social, educado, era uma beleza. Aquilo foi uma coisa tão boa, tão boa.

UMA GUERRA FUNESTA

LOU: Você foi pra guerra?
AÉCIO: Quando acabou o curso em 43, eu saí como guarda- marinha e eu podia ficar aqui. Mas eu quis ir pra guerra. Fui direto pra guerra, eu tinha 19 anos e ganhei duas medalhas.
Eu fui o mais jovem oficial de Marinha de todas as forças aliadas na batalha anti-submarina do Atlântico Sul. O caça submarino era um navio de 20 metros, cheio de bombas. E o americano, ao invés de chegar e dar um equipamento bom pra gente trabalhar, deu um equipamento que nos torturava muito; nós sofríamos demais. Tinha dias que a gente não podia cozinhar nada, ficava só comendo coisas cruas como frutas.

LOU: Onde o navio ficava ancorado?
AÉCIO: O navio ficava entre o Brasil Trinidad Tobago. Eu saía de Recife e fazia 15 dias de mar e chegava em Trinidad e Tobago, que era a maior base naval do mundo, porque ali reuniam navios de todas as nações que eram as nações aliadas. E a gente chegava lá, 15 dias depois, muito cansado. Passava lá 5 dias e voltava com outro comboio. Era um esforço de guerra. A nação brasileira deve alguma coisa, pelo menos um gesto de gratidão à Marinha do Brasil. O Brasil, em relação a sua marinha, podia dizer: "Nunca tantas pessoas deveram tanto a tão poucos: ao pessoal da Marinha".

LOU: Mas o povo nem sabe que deve. O povo, até hoje, não tem noção do que faz a Marinha aqui no Brasil.
AÉCIO: Eu ainda era guarda-marinha, quando ela fez o 1º comboio em 1941. Então, a Marinha entrou na guerra em 41, porque num dia só, foram torpedeados cinco navios na costa da Bahia, navios mercantes brasileiros, e nós tivemos que entrar na guerra. O povo chegava na Praça Mauá e tinha um velho encouraçado lá, que não tinha mais serventia e o povo falava: - vai pro mar, o que tá fazendo isso aí? Vai pro mar! Aí nós juntamos o que a gente tinha: sete navios velhos e resolvemos enfrentar o mar, desse o que desse. Muitos não voltaram mais. E no dia em que esta primeira escolta de comboio passou em frente à Escola Naval, toda a estudantada, os apirantes, estavam reunidos, formados e gritaram: Hip, Hip, Hip, Hurra! Aquilo fez a gente ficar emocionado e uns até choraram. Sabiam que aqueles caras iam pro sacrifício e talvez não voltassem mais.

LOU: E você tá emocionado de novo.
AÉCIO: Tô emocionado, sempre fico quando relembro. Hoje somos, aproximadamente, uns 200 ex-combatentes, na faixa de 80 anos, carregando os traumas que nos tornaram mutilados de corpo e alma. Não é uma tarefa agradável lembrar o desprezo das autoridades, atualmente, em relação a todos aqueles que no passado foram defender o Brasil na guerra. Somente Deus é testemunha do sofrimento dos brasileiros, na luta desigual contra os grandes países com grandiosos armamentos, e nós, sem material bélico.

LOU: E você viu navios afundando?
AÉCIO: Vi. Olha, uma vez, nós estávamos num comboio e nós protegíamos os navios mercantes. Eles tinham que ser protegidos porque senão morreríamos de fome. Não existia nenhuma fábrica no Brasil; a gente era um país essencialmente agrícola. Nós não tínhamos nenhuma refinaria pra produzir combustível, tudo vinha de fora, de navio. Ou a gente protegia os navios mercantes, ou a gente se acabava. Por isso, a Marinha foi tão necessária.

LOU: A função de vocês era defender a Marinha Mercante?
AÉCIO: Chamava-se escolta, a gente ficava de lado. E com Sonar ligado. Sonar é um aparelho que procura submarino. De repente o sonar apitava: "tem, tem, tem" e o marinheiro gritava: - Atenção embarcação tal, tal, contato submarino. Aí todo mundo corria pra começar a jogar as bombas em cima.

LOU: E vocês conseguiram afundar pelo menos um alemãozinho?
AÉCIO: Muitas vezes.

NOVA VIDA, NOVAS LUTAS

LOU: Mas, passando a fase da guerra, como foi sua vida?
AÉCIO: Quando acabou a guerra eu tinha 21 anos e já namorava a Domitila. O navio ia fazer revisão de motores em Natal e ficava lá cinco, seis dias. Aí, eu conheci a Domitila, por intermédio de uma pessoa que era meu amigo e disse: - Olha, rapaz, vou te apresentar uma moça muito bonita, a mais bonita que tem em Natal. E era mesmo a mais bonita. Começamos a namorar e casamos.

LOU: Você tem 80 anos, ela tem 78 anos. E vocês permanecem casados, neste mundo em que todo mundo se separa, vocês mantiveram esse amor.
AÉCIO: Mantivemos. 58 anos de casados. Nunca foram somente flores; houve também problemas e nós soubemos ultrapassar.

LOU: Quando acabou a guerra mundial, você entrou numa outra guerra, aqui no Brasil, na fronteira da Amazônia...
AÉCIO: Quando voltei da guerra, eu fiquei no Rio, num navio, ajudando a Marinha Mercante, fazendo a linha D, de Buenos Aires até Manaus. Mas nós já tínhamos uma filha e morávamos em Caxias e a Domitila tinha 21 anos. Aí um dia, eu fui à Diretoria de Pessoal da Marinha e disse: - Vem cá, eu não agüento mais, porque eu saio de madrugada de casa e volto à noite. De segunda à sexta. Me dá uma colher de chá. Me manda servir num lugar fora de série, mas que eu possa ficar sossegado, ter uma casa pra morar, com minha família.
- Olha, o pior lugar é Belém do Pará, mas só vai pra lá gente de castigo e você não tá de castigo, não pode ir pra lá.
Aí eu fiquei pensando. Não pode ser isso. E falei pro meu Comandante do navio.
- Eu quero ir porque não agüento mais. Ele tinha prestígio. E eu fui pra Amazônia.

AMAZONIA UM COLOSSO ABANDONADO

LOU: Você foi com a Domitila?
AÉCIO: Fui com ela e a nossa filhinha que tinha um ano, a Dilka. E o segundo filho nasceu lá, o Ricardo. Fiquei na Amazônia e fui comandante de navio.

LOU: A sua história na Amazônia é aquela descrita no seu livro. "Fronteiras da Amazônia, Uma Guerra Silenciosa"... E você ficou lá durante quanto tempo?

AÉCIO:
Cinco anos. Então eu fiquei entusiasmado porque a gente fez lá um serviço de assistência médica e medicamentosa e que até hoje está lá. Hoje a Marinha tem quatro navios hospitais. atendendo os nossos irmão brasileiros, abandonados.

LOU: O seu trabalho lá era de patrulhamento?
AÉCIO: Era de patrulhamento das fronteiras. Eventualmente, nós víamos aquele pessoal tão pobre, aqueles leprosos, vivendo na selva a mais cruel de todas as provações. Foi quando eu falei pro meu pessoal, "eu nunca vi um negócio destes. Vocês topariam que nós comêssemos menos, dividíssemos o pão de cada dia pra comprar remédio? Todo mundo topou. E fizemos isso. Mas isso é contravenção grave.

LOU: Contravenção grave? Deixar de comer pra dar comida pros leprosos?!
AÉCIO: É, porque você não pode tirar dinheiro do rancho pra nada. Então, eu fui lá e disse pro Almirante.
- Almirante eu fiz isso, é contravenção grave, tô aqui pro senhor me punir. Aí ele pensou e disse que era contravenção grave, mas que não iria me punir. Ele ainda aconselhou os comandantes de outros navios que fizessem o mesmo que eu fiz e é assim até hoje.

LOU: E até hoje continua aquela pobreza lá?
AÉCIO: Até hoje! São quatro navios hospitais e nenhum tostão é investido nisso. É só o dinheiro do rancho pra comprar remédio. E a Marinha recebeu estes navios de presente. Por exemplo, o pessoal de Manaus se cotizou e deu o navio pra Marinha, o pessoal do Amapá, se cotizou e comprou o navio, são quatro navios.

(Foto: Cais flutuante de Manaus)

LOU: Foram empresários que deram?
AÉCIO: Foram. E a Marinha não tem nada. Não tem INSS lá, o INSS é a Marinha, não tem posto de saúde, o posto de saúde é a Marinha.

LOU: Que horror! Que tristeza!
AÉCIO: Então, pelo amor de Deus! O trabalho que a Marinha faz na Amazônia não dá pra desconhecer! Aqui pra nós, a dona Marina Silva não sabe nada da Amazônia, nada!

LOU: Marina Silva, a ministra do meio ambiente!?
AÉCIO: É. Não sabe nada, nada!

LOU: Mas ela disse que aprendeu muito com o Chico Mendes e ele não sabia nada?
AÉCIO: Nada, nada. É considerado herói só pra conversa. Só pra arenga de sindicato. Olha, quando eu fui pra lá, já não tinha mais nenhum seringueiro. O ciclo da seringa tinha se acabado. Os ingleses já tinham tomado tudo. Você podia usar, por exemplo, uma plantação de outra coisa qualquer, de castanha-do-pará... Eu fui pra lá em 49/50 e só tinha uma pobreza tremenda. Como é que de repente existe um sindicato de seringueiro se não existia mais seringueiro? Então tudo isso é conversa de sindicato.

LOU: O que te levou a escrever? O seu livro é uma denúncia?
AÉCIO: O que me levou a escrever foi revolta. Meu livro é sim uma denúncia.

LOU: E você escreveu os nomes codificados...
AÉCIO: Não posso citar os nomes.

LOU: E eu posso publicar isso que você está falando?
AÉCIO: Pode tudo. Porque hoje, eu escrevi um artigo que estou mandando pro jornal. Apoiado naquele direito de resposta. Porque os jornais publicam que as forças armadas são deficientes, negligentes na fiscalização das fronteiras, na entrada de drogas. E que as forças armadas são responsáveis e que as drogas entram pelas fronteiras. Então, eu provo que é impossível. Porque nós temos vinte mil quilômetros lineares de fronteira. Não existe ninguém que possa patrulhar. Se você botar todos os exércitos do mundo, não vão dar conta; está faltando pras forças armadas até o dinheiro do rancho.

LOU: Eu sei. Tão mandando os soldados pra comer em casa. Quer dizer, quando você era pobre, tinha a felicidade de poder comer na Marinha. Agora, os soldados pobres têm que passar fome porque em casa também falta comida.
AÉCIO: Eu fico impressionado com o que a Marinha faz com o orçamento que ela tem. Maria de Lourdes, um dia eu gostaria de convidá-la pra ir a uma fragata dessa. Nós temos 22 fragatas. Eu vou pedir a você pra ir à fragata Hadermark. que tem o nome do Almirante Hadermark. O neto dele é oficial de Marinha e é um cara entusiasmado, ele tem trinta e poucos anos, leu o meu livro e comprou 30 e anda espalhando pela Amazônia. O garoto foi servir na Amazônia por minha causa . Já é o terceiro que vai.

CICLONE NO MAR

LOU: Você escreveu outros livros de crônicas.
AÉCIO: Esse livro "Memórias de Um Marinheiro", que estou lhe entregando o "Borrão", tem todas as passagens que eu achei que mereciam ser narradas. Agora mesmo você ouviu falar de um ciclone que passou aí né? Pois bem. Há apenas a notícia de dois ciclones e um deles eu peguei no mar, num caça-submarino. O mar levou o mastro do navio, afundou as chapas do navio e a gente teve bastante avaria.
A gente viu, pertinho de nós, um navio pedindo socorro. Era o Oswaldo Aranha, o navio soçobrou e matou todo mundo. Uma hora, vimos que não tinha mais jeito. Quando vimos que não havia mais nada a fazer, fechamos todo o nosso navio, hermeticamente fechado, nos amarramos e o mar embolou, embolou o navio e até ficarmos em pé. E isso durou umas 5 horas até voltar ao normal.

LOU: E não quebrou nada?
AÉCIO: Nada. Depois, desamarramos tudo, com calma, viramos os motores e fomos embora. E eu nunca parei. Certa vez fui negociar sal da minha empresa na Bolívia. Olha, a Bolívia é riquíssima. Eu fui no avião da Lloyd Aéreo Boliviano, que era sucata da Lloyd Aéreo Brasileiro. Quando o avião subiu, largou a porta.

LOU: (risos) A gente ri das tragédias, meu Deus!
AÉCIO: Largou a porta... (risos) Eu olhei aquilo e disse: - Tô roubado! Ainda bem que eu tava amarrado. E o comandante era um índio Quíchua. - Olha señor, o vuelo tá mal. Quem tava mal era eu.

DE VOLTA AO RIO DE JANEIRO

LOU: Você voltou da Amazônia, pro Rio de Janeiro com a Domitila.
AÉCIO: Voltei e fiquei, sempre servindo a bordo, embarcado até que um dia eu fui vendo que eu estava ficando cego.

LOU: Ficando cego, por quê?
AÉCIO: Porque eu tava com uma doença chamada retinose pigmentar. Porque desde que acabou a guerra, quando eu tinha 21 anos, já estava fadado a ficar cego, porque eu tinha o sistema nervoso abalado. Então, eu tinha que sair da Marinha. Eu fui pedir pra ir embora. Mas eu fiz isso muito magoado. Aí eu fundei uma empresa; eu e meu irmão. Era o tempo do Juscelino e não existia uma empresa de montagem de indústria.

LOU: E seu irmão é quem tinha o capital.
AÉCIO: Não. Nem eu, nem ele. Não tínhamos nenhum tostão no bolso. A gente só tinha 20 mil réis e gastamos fazendo a empresa.
Quando nós chegamos na Nova Cap, dissemos ao Israel Pinheiro que não tínhamos nenhum tostão. E ele perguntou:
- Vocês fazem montagem de estruturas metálicas? -
Fazemos. (Nunca tínhamos feito) Então, assina o contrato aqui. E recebemos 10% do contrato.
Fizemos tudo em estrutura metálica. Naquele tempo não faltava emprego.

LOU: Você ja tinha se desligado da Marinha?
AÉCIO: Eu já tinha saído da Marinha. Mas um dia eu estava trabalhando e chegou lá pra ver a obra, Juscelino Kubstchek, que era o presidente, com o chefe do gabinete civil, Oswaldo Maia Penido, e este era meu fã porque eu disse um dia que ia ganhar a regata, como iatista e ganhei e ele achava que eu era um bicho danado. Quando ele chegou lá perguntou: - O que você está fazendo aqui, rapaz? Agora eu saí da Marinha e tô trabalhando aqui.
- O quê? Você não pode sair da Marinha, você é o cara que eu achava que era o paladino da Marinha, você não pode sair da Marinha.
- Olha, Dr. Penido eu já saí da Marinha.
Ele não concordou.
- Você vai voltar, você vai ver. Mas naquela hora, eu ainda não havia me desligado da Marinha. Dois dias depois, chegou um telegrama pra que eu me apresentasse na Marinha. Eu fiquei chateado, deixei o serviço lá com meu irmão e voltei na Marinha.
Bom, na ocasião em que eu comuniquei que ia embora da Marinha, aconteceu que eu tive um desentendimento com o diretor de pessoal:o diretor disse que eu antes de sair, eu teria de seguir pra Belém. Eu disse que não, que eu ia embora.
- Você vai antes pra Belém!
Eu disse:
- Não vou.
- Você vai preso!
- Nem preso, eu disse. Então, houve essa briga. Aí, quando eu voltei, o cara disse: - Vem cá, ô Aécio, me dá um abraço aqui. Eu pensei: tem alguma coisa errada nesse troço, o cara disse que eu ia preso. E agora me dá um abraço?...
- Sr. Almirante, eu sou aquele que discuti com o senhor...
- Eu sei, rapaz, mas é que o Ministro da Marinha tá te esperando lá embaixo, .
-Alguma coisa tá errada, eu nunca vi o Ministro!
- Vá lá depressa!
Eu desci, quando cheguei lá a mesma coisa:
- Aí o cara chegou pra mim e disse: - Vem cá, me dá um abraço. Como é que você é amigo do Presidente da República e não fala nada com a gente da Marinha. Você podia proteger a gente.
- Ô Sr. Ministro, tem alguma coisa errada! Eu só vi o Presidente uma vez e essa vez foi quando ele foi visitar a obra que eu estava fazendo. Eu não tenho amizade com ele.
-Mas você tem sim, então como é que você justifica isso? Aí mostrou uma ordem do Presidente da República: "Deveis apresentar o Capitão de Fragata Aécio Pereira de Souza, urgentemente".

LOU: E você voltou pra Marinha?
AÉCIO: Tive que voltar pra Marinha.

LOU: E a indústria?
AÉCIO: Deixei lá com meu irmão. E aí foi ruim, porque a firma foi quase a pique. E eu fiquei três anos no gabinete do presidente. Quando eu voltei pra minha empresa, aqui no Rio, ela estava falida. Aí foi uma luta danada.

LOU: Pra você o nosso melhor presidente foi o Juscelino?
AÉCIO: Foi.

LOU: Por que ele não fez nada pela Amazônia?
AÉCIO: Porque, repara bem: desde mil novecentos e pouco, a Constituição Federal do Brasil dizia que devia ser construída a capital federal no Planalto Central e o Juscelino resolveu cumprir isso. E não é só isso. Havia uma miséria em todo o Brasil, havia seca e miséria. Ele fez um dos maiores açudes. Não havia indústria, somente a parte agrícola. Então, ele fez a indústria automobilística, a indústria da construção naval...

LOU: Fez a Belém-Brasília.
AÉCIO: Hoje está toda asfaltada. Olha, ele foi um cara tão danado que ele fez o negócio de Bananal, que hoje é Tocantins e aí, um dia, ele tava num avião pequeno e nada do avião pegar. O piloto pediu pra empurrar. Ele empurrou e foi embora.

LOU: Mas que negócio é esse de Bananal e Tocantins que eu não sei.
AÉCIO: Tocantins foi descoberto por Juscelino. Ali era a Ilha de Bananal e ele fez tudo aquilo, ele levou o Brasil pro interior, porque era tudo só na periferia. Ele foi um cara muito bom. Foi uma experiência boa que eu tive. Passei aqueles três anos lá. Depois, voltei pra minha empresa, paguei tudo que estavam devendo e toquei a empresa pra diante. Depois eu dei pro meu filho.

ACONTECEU UM MILAGRE

LOU: Conta a história da corveta que encalhou.
AÉCIO: Eu fui comandar um navio de socorro chamado Corveta Angostura e eu tinha um entusiasmo imenso pelo socorro, porque com essa corveta eu dei socorro a dois navios. Havia duas corvetas do primeiro time naval que compreendia Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. A minha estava sempre pronta pra trabalhar; era a mais equipada. E numa madrugada, estava uma tempestade tremenda e eu fui entusiasmado pra socorrer um navio que estava aqui em Itaipu. Ele já estava em cima da praia encalhado, quando eu cheguei lá. O mar era tão forte que batia e passava por cima dele.
Eu manobrei, mandei um foguete com um cabo de reboque pra passar, amarramos o navio e começamos a puxar; veio uma onda que subiu, subiu, subiu, levou meu navio lá em cima e arrebentou a amarra. Amarra é onde tem o ferro. O navio foi pra cima da praia e também ficou encalhado.

LOU: E não tinha ninguém dentro?
AÉCIO: Eu e toda a minha guarnição. E a gente passou nessa situação 30 dias.

Eu fazia a reportagem de toda a situação através da estação do Iate Clube, porque naquela época, a Marinha não tinha esse serviço de comunicação e depois telefonava pra Marinha. Eu pedi licença pra fazer o socorro e o oficial superior me concedeu a licença e eu me estrepei.

Aí o ministro mandou que eu abandonasse o navio. Ele dava o navio como perdido. Eu falei que não abandonava o navio. Ou morria com o navio, ou tirava o navio dali.

LOU: Você era o comandante, todo mundo saiu, só você ficou?
AÉCIO: Todos ficaram. A revista chamada "O Cruzeiro" deu que eu queria me suicidar, porque eu não queria sair do navio, o navio tava perdido. Aí a Domitila chegou na praia com as crianças:
- Ah, não, você vai se suicidar, não sei quê, chorando.
- Olha, eu não vou me suicidar!
Mas era impossível tirar o navio dali. Aí eu rezei, orei. Eu estava desesperado. Como eu era iatista e todo mundo gostava de mim, todas as embarcações do Iate Clube foram pra lá me socorrer. Um dia, aconteceu um milagre: não sei quem foi, me disse: - Ô Aécio, olha aqui vou jogar pra você uma revista! E tinha um artigo de um Almirante americano que era especialista de tirar navios da situação que o meu estava. Olha, aquilo foi Deus quem me mandou! Li a revista, fiz aquela operação ali descrita com precisão e tirei o navio.

LOU: Ah, que maravilha!
AÉCIO: Eu recebi saudações e elogios do mundo inteiro, da China, do Japão.

LOU: E ainda respondeu inquérito, mesmo salvando o navio?
AÉCIO: Isso é de praxe. Fiquei respondendo inquérito ao Conselho de Guerra. Quando eles me argüiram, eu disse: "mil vezes que eu tenha que fazer a manobra, eu faço a mesma coisa".
O cara me perguntava, eu respondia debaixo de uma tensão nervosa danada. Aí eles concluíram o seguinte: "esse oficial fez todas as manobras certas, mas ele foi muito afoito, porque a situação de tempo e mar era muito perigosa. Então, ele deve ser punido com 10 dias de prisão, mas ele não cometeu um crime."
Aí mandaram pro departamento jurídico da Marinha e eu fiquei esperando a decisão do júri. Mas um dia eu não agüentei mais. Entrei na diretoria de pessoal, onde tem o departamento jurídico, meti a mão na porta e entrei. O diretor, um advogado, perguntou:
- É você que é o Aécio?
- Sou, quero saber o que vocês vão fazer comigo. Se vão me enforcar.
Olha, na Marinha tinha um almirante que era um cara que não tinha tempo no mar, não tinha experiência no mar, não tinha nenhum prestígio, mas foi incumbido de me dar a resposta do inquérito. Eu pensei: Ele vai me lascar, vai dizer que eu fui afoito, vai me botar na rua.
O consultor me deu o processo.
No final dizia assim: "Feitas todas essas perguntas, chegou-se à conclusão de que o comandante da corveta Angostura, nenhuma vez, fez a manobra errada, mas foi aconselhado puni-lo porque ele foi afoito, mas manobra de socorro é manobra perigosa, só fazem aqueles que têm coragem!" PT.

LOU: Que emocionante!
AÉCIO: O Almirante mandou concluso o processo pra justiça. Ele podia não ter tempo de mar, mas tinha bom senso.
Foi 100% homologado pela Justiça. Aí o cara, o consultor jurídico, me deu um abraço e disse: rapaz, eu torci por você, você ganhou a parada, não tem problema mais! Vai em frente e seja feliz!

Dois dias depois, eu fui chamado lá outra vez. Tinha um Almirante lá que era o chefe de Estado-Maior da Marinha, desse tipo também que nunca ia pro mar, chamado Jorge Leite. Ele era o comandante e o chefe da Marinha. Aí um dia, ele me chamou lá e disse: Olha, não pensa que você está livre não, porque você vai ser punido, eu vou mandar você pra fora da Marinha. Nós vamos fazer outro inquérito. O que eu sofri, não está no Gibi... Ele fez outro inquérito e ele me humilhava de tudo que era jeito. No fim ele concluiu que eu deveria ser punido.

O consultor jurídico me chamou lá outra vez: Ô Aécio, esse Almirante não entende nada de justiça. Você foi duas vezes submetido ao conselho de disciplina e foi absolvido. Ninguém mais pode fazer nada. Não existe isso. Pode ir tranqüilo.

Aquilo tudo me fez resolver ir embora da Marinha. Saí com a patente de Contra-Almirante.

Um dia, apareceu um cinegrafista com a Regina Casé, do "O Globo", pra fazer entrevista comigo, daquilo que aconteceu há 50 anos. E eu contei, com todo o meu entusiasmo, toda a história. E ela falou assim: - sabe, eu nunca vi um negócio desse, nunca. Eu fiquei tão entusiasmada com o senhor que eu vou lhe fazer uma porção de homenagens. E essa história saiu pelo Brasil inteiro no programa da Regina Casé. Foi muito legal.

LOU: Aécio, eu vejo você assim batendo um bolão, como se diz... Eu queria que você desse um recado pro "VelhosAmigos".
AÉCIO: É o seguinte, Maria de Lourdes. Primeiro eu fiquei muito impressionado com você, me preocupa muito como você consegue fazer as coisas que você faz. Eu vi aquela festa que você fez lá na Estudantina. De duas uma: ou você tem uma capacidade imensa de se comunicar ou você é muito rica. Como você não é muito rica, então você tem uma capacidade imensa de se comunicar.

LOU: Eu conto também com essa moça, a Netty, que trabalha sempre comigo, a Lika e o William e ainda tenho a Anna Eliza que faz revisão dos textos. Hoje por exemplo, eu tô meio estressada e eles estão lá tocando as coisas.
AÉCIO: Eu fico impressionado com você. Seu site tem mais de um milhão de pessoas que fazem comunicação com você. Puxa vida!
A gente não é fácil de ser derrubado. Isso é um valor imenso que a gente tem e pode transmitir pros mais moços e eles vão ter que aprender muito com a gente.

Porque a vida foi vivida, a minha, e eu sei que a sua também, minuto por minuto. Você toda vida foi trabalhadora. E outra coisa: você consegue ver onde outras pessoas não conseguem ver. Então, Maria de Lourdes, eu tenho por você uma admiração muito grande.

LOU: Eu tenho por você também.
AÉCIO: E outra coisa: tenham um pouquinho de fé. Porque chega o momento em que a gente se sente quase fracassando, mas na escuridão da minha cegueira, de repente, eu vi uma luz. Era Jesus que vinha pra mim e dizia: - Rapaz, você tem que se erguer, você tem que caminhar! E foi aí eu decidi operar a vista e consegui ver o que eu nunca conseguia ver. Fazia 40 anos que eu estava na escuridão. Eu agora estou te enxergando, antes eu só via um vulto. Então, isso tudo foi muito bom! Como também foi muito bom te conhecer.

LOU: Muito obrigada, eu agradeço muito ter conhecido vocês dois. Vocês são maravilhosos. Eu estou muito comovida e honrada de ter diante de mim um herói.
AÉCIO: Você desculpe por estar tão emocionado.

Maria de Lourdes Micaldas
Revisão: Anna Elisa Fürich

 

HOMENAGEM AO CENTENÁRIO A. NAPOLEÃO BEZERRA

AÍ VEM A MARINHA!

Devem chegar hoje a Manaus o "Garcia d`Ávila - o nosso petroleiro amigo - e a Cananéia - a simpática e destemida "Neneia", veterana do patrulhamento do Atlântico Sul, a quando da guerra contra o nazismo e fascismo.

Velhos amigos da Amazônia, penso que sem prático e sem timoneiro aqui aportariam, desde que se lhes suspendessem as amarras e que lhes segredasse à volta do leme: o rumo é o Rio Negro...

Aí vem o Aécio, o Jaime, a turma toda amiga e eficiente nas grandes fainas sociais e ribeirinhas. Vão subir novamente o Solimões, o Içá - onde içarão o nosso pavilhão. No Ipiranga darão um IP à nossa soberania. Irão a Tabatinga, a Benjamim Constant e talvez cheguem até Letícia numa visita de camaraderia, de buena vesindad y otras cositas mas.

Levarão médicos, dentistas, enfermeiros e medicamentos. Reverão os “clientes” das ribanceiras, ‘conferirão' operações de outra feita e atualizarão o fichário dessa miséria... Novo serviço, 'nova luta', nova oportunidade para muitos patrícios largados. Abandonados, necessitados, maltratados e outros ados, como roubados, espoliados e etcerados.

Salve a Marinha!
“Manaus /O Jornal/ 1950 ou 51”.

Autor: A. Napoleão Bezerra

Infelizmente o panorama hoje não está muito diferente. Lastimo também que meu pai não esteja vivo para festejar o nosso encontro com o Aécio. Não me surpreendeu que no livro "Fronteiras da Amazônia " eu encontrasse o mesmo discurso nacionalista de meu pai nas palavras de Aécio Pereira de Souza.

Dia 17/01/2011 – Centenário do Sr. A. Napoleão Bezerra

Marlene Bezerra

Autor(a): Lou Micaldas

 

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