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ALMIR SAINT-CLAIR
publicado em: 05/01/2016 por: Netty Macedo

Carioca da gema, criado no Méier, um subúrbio do Rio, nascido no dia 18 de novembro de 1935, filho de Adolfo Siqueira Lopes e Joana de Oliveira Lopes, Almir Saint Clair soltou seu vozeirão pra contar sua vida e cantar pro VelhosAmigos. Aos 67 anos ele se apresenta, cheio de vigor e de planos para o lançamento do seu CD.

LOU - Como você entrou na vida artística?
ALMIR - Desde garoto, eu comecei a enfrentar o palco. Não a enfrentar, a ser feliz no palco.

LOU - Quantos anos você tinha?
ALMIR -7 anos, cantei "Coração Materno" de Vicente Celestino, gravada por ele mesmo.
Ali, eu tinha 7 anos. Foi a primeira música que eu cantei em público no auditório cheíssimo de uma igreja...

LOU - Como é? Você se lembra?
ALMIR - "Disse um campônio à sua amada, minha idolatrada, diga-me o que quer, por ti vou matar e vou roubar, embora tristezas me causes mulher. Provar..." É isso aí - "Coração Materno".

LOU -Com 7 anos cantando esse tipo de música tão passional...
ALMIR - Exatamente. E daí todo mundo gostou e passaram a me chamar daqui, pra acolá. Depois, na escola pública, no ginásio, sempre eu era um dos que comandava os shows ou que cantava nos shows dos colégios, naquelas datas históricas de 7 de setembro, de 15 de novembro e tal, tal, ou cantando ou declamando alguma poesia relativa à data.

LOU - Como seus pais viam você como músico?
ALMIR - Meu pai e minha mãe, os dois, me deram o maior incentivo pra carreira artística. Meu pai adorava me ouvir cantar. Em casa, foi a partir de 4 anos de idade. Quando eu assisti ao filme da Carmem Miranda "Banana da Terra", que foi o grande sucesso da Carmem Miranda com Dorival Caymi, com Dircinha Batista... eu aprendi aquelas músicas todas do filme e cantava para quem nos visitasse.

Meu pai era chefe de máquinas do Lloyd Brasileiro e houve uma explosão na caldeira, ficando cego. Eu estava com 9 anos, 10 anos e o acompanhava pra tudo quanto era lugar, porque ele não gostava de ficar em casa. Como eu cantava, cantava, e ele gostava tanto, ele então passou a me levar pras rádios, pra eu cantar nas rádios.

Cantei na Mayrink Veiga, por causa dele. Quando eu chegava no "Trem da Alegria", do Herbert Boscoli, eu cantava. Enfim, ele foi meu grande incentivador. Todo mundo da minha família gostava muito, mas era ele quem fazia isso.

LOU - Era programa de calouro?
ALMIR - Fazia calouro, porque naquela época, era a única oportunidade. E aí a coisa foi seguindo.
E, quando tinha qualquer festa (porque nós tínhamos uma família grande e tinha aqueles almoços com aquela mesa grande e tal), eu tinha que cantar. No Dia das Mães, eu tinha que declamar: "Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração. Ser mãe é ter no alheio o lábio que suga o pedestal"..., do célebre Coelho Neto.

LOU - Você também declamava!!
ALMIR - Eu já declamava; aprendi a declamar na Escola Pública. Porque na escola pública não tinha negócio de microfone, som, essas coisas. Era uma escola muito boa, aliás, que eu fiquei muito feliz de ter cursado - Escola 7-9 Manoel Bonfim. Ali, eu tive grandes professoras, pessoas fantásticas que me ajudaram a formar o meu caráter de uma maneira maravilhosa. Tinha a Maria Charteres, minha primeira professora...

LOU - Antigamente a Escola Pública oferecia o melhor ensino.
ALMIR - Exatamente, e isso foi muito importante pra mim. Aí, fui seguindo, cantando. Depois, no ginásio, aos 15 anos eu comecei a fazer os shows pra arranjar dinheiro para as formaturas. Até que me formei com 15 anos. No Méier, havia a Sociedade de Auxílio e Beneficiência Estrela, cuja musicista era a dona Durvalina, esposa do diretor. Tinha uma orquestra e um auditório, onde ela ensaiava toda a quarta-feira. Nós utilizávamos o auditório para fazer shows. Aí ela me convidou ir cantar com eles. E foi uma coisa muito importante, porque manteve a minha atividade como cantor naquela sociedade por 4 anos.

LOU - E ela tocava o quê?
ALMIR - Violino. Mas tinha uma orquestra que tinha vários instrumentos...

LOU - D. Durvalina de quê?
ALMIR - Durvalina Menezes. A gente escolhia as músicas; o maestro Leôncio fazia os arranjos. Nas festas, a gente cantava aquelas músicas e ensaiava todas as quartas-feiras. Isso me acostumou... a manter e a aprender a cantar afinado com uma orquestra; o maestro ajudava, dizia "- vamos consertar aqui", ela também. Quer dizer, isso foi um aprendizado para o profissionalismo. Fiquei lá, de 14 até uns 17, 18 anos.

Depois, houve um concurso no Teatro do Estudante do Paschoal Carlos Magno, ali, em Santa Tereza, pra escolha de alunos pra entrar pro curso do Teatro dos Estudantes. Eu tinha 15 anos. Estudei uma poesia, bem dramática..."o ar me falta, não sei quê... nem me lembro. Declamei a poesia, fui aprovado e entrei pra Escola de Teatro do Teatro do Estudante do Paschoal Carlos Magno. Ali, fiz as minhas primeiras peças "O Lampião", da Raquel de Queiroz, fiz "A Revolta dos Brinquedos", do Pernambuco de Oliveira e Pedro Veiga e "Os Tropeiros", de Ivan Pedro Martins.

O Jean Louiz Barrau, grande ator francês que veio ao Brasil com a Cia dele, que era famosíssima, e foi visitar o Teatro do Estudante. Nós fizemos um show e foi a primeira vez que eu cantei naquele Teatro.

LOU - Qual a música que você escolheu?
ALMIR - Cantei um daqueles sambas exaltação, que havia naquela época, e a Silvinha Teles, que era minha colega, cantou uma música do gênero dela. Depois da apresentação pro Jean Louis Barrau, fui convidado pra fazer uma peça num teatro semi-profissional com o Carlos Murtinho, irmão da Rosamaria Murtinho, o Studio 53, e dali eu fui chamado para o Teatro dos Sete com Sérgio Brito, Ítalo Rossi, pra participar da peça "O Mambembe", que foi a primeira peça profissional que eu fiz no Teatro Copacabana. Eu devia ter uns 21 anos, mais ou menos.

LOU - E você serviu ao exército?
ALMIR - Bom, isso tudo a gente fazia junto. E teve uma coisa muito interessante. Na época que eu estava servindo o exército, e também ensaiando um espetáculo muito bonito, "A Descoberta do Novo Mundo", do Morvan Le Besc, dirigido pelo Luís de Lima, que ainda continua como ator e diretor.

Com a mãe, recebendo a espada no CPOR.

Eu fazia dois papéis bons nessa peça, que fez sucesso e até prorrogou a temporada. Foi na época daquele Congresso Eucarístico e foi patrocinado pela Mitra ou qualquer coisa assim, porque era uma coisa meio católica, citando os Reis Fernando de Aragão, Isabel de Castela e tal. Nós fizemos vários espetáculos no auditório do Teatro Santo Inácio, mas depois, devido ao sucesso, o elenco foi convidado pro Teatro Santa Margarida Maria, que tinha ali na Lagoa, Teatro da Fonte! Aconteceu que eu não pude estrear lá porque eu tinha acampamento do exército e botaram no meu lugar um artista que fazia muito sucesso, o Claudiano Filho, um cantor.

LOU - Nessas alturas você já era um profissional?
ALMIR - Profissionalizei-me no Teatro dos Sete. Fiz duas peças: "O Cristo Proclamado" e "O Mambembe"; depois fui pra Cia. da Tônia Carreiro e fiz "Lisbela e o Prisioneiro", dirigida pelo Adolfo Celli, que está agora em cartaz no cinema. Eu fazia o cabo corneteiro, que ia pro cinema, e contava as histórias pro Sadi Cabral (foto). O filme era em série e, então, o Sadi Cabral, que era o carcereiro, queria saber como estava se desenrolando a história. Hoje aconteceu isso, isso, isso... dentro da história, que era muito engraçada.

LOU - E como era o seu papel?
ALMIR - Eu fazia o cabo corneteiro e a peça começava contando o último capítulo da fita em série e terminava a peça dizendo: - Tá vendo? Aconteceu tudo igual ao cinema! A peça começava e terminava comigo. E agora, no filme, adptado para o cinema, começa com a Lisbela e termina com a Lisbela.

LOU - E aí, depois você fez mais o quê?
ALMIR - "Arsênico e Alfazema", também na Cia. Tônia-Celli-Autran. Aí, eu fui pro Teatro Nacional de Comédia e fiz "O Círculo de Giz Caucasiano" e eu era um ator cantor. Não era bem um musical, mas tinha música, porque o Berthold Brecht gostava muito de introduzir a música. Essa peça foi um sucesso danado e a gente teve que esticar a temporada. A peça saiu de cartaz com a casa lotada, todo mundo sentado no chão e etc. Dali, então, eu fiz o "Alô Dolly" como ator e cantor com a Bibi Ferreira, o Hilton Prado, o Augusto César Vanucci, do Teatro Vanucci, Paulo Forte, Marli Tavares. Foi um musical maravilhoso que fez um enorme sucesso e ficamos um ano em cartaz.

LOU - E quem era a atriz principal?
ALMIR - Bibi Ferreira. Dali, fui convidado para gravar. Todo esse tempo, eu usava o nome artístico de Almir Siqueira. E fui convidado para gravar por dois padres: o Padre José Alves e Carlos Alberto Navarro (ambos na foto). Dom Carlos Alberto - bispo - morreu há pouco tempo. Eles fizeram uma música, que fez muito sucesso na Igreja: "Belo pra mim é criança a brincar, é ouvir mil canções numa concha do mar. É chuva caindo, é campo em flor e acima de tudo é o Amor". Em todo o Brasil cantavam nas missas, em corais e em tudo quanto era lugar.

LOU - Foi seu primeiro disco?
ALMIR - Foi. Daí, eu comecei a gravar para a cúria, os primeiros discos da Campanha da Fraternidade. Os quatro primeiros discos quem gravou fui eu. Uma música que é sucesso até hoje e todo mundo canta: "Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão. Prova de amor maior não há.... Eis que eu lhe dou o meu novo... "Essa música cantam, até hoje, nas missas. Teve outras que eu gravei, mas essa marcou. Ah! Eu fui pra Rádio Nacional, pro programa do Renato Murci.

DINA LOPES, ASSESSORA ATENTA

LOU - Sua assessora está sempre atenta, lembrando das coisas... Qual o nome dela?
ALMIR - Dina Lopes. Ela é minha irmã. Ela é quem cuida de toda a infraestrutura.

LOU - Quantos anos a Dina tem?
ALMIR - 78 anos.

LOU - 78 e é sua assessora, toma conta de tudo.
ALMIR - A infraestrutura é toda com ela mesma. Então, eu fui lá, comecei a cantar. O Renato Murce tinha um programa famosíssimo que era o "Papel Carbono". Todo mundo que era cantor, que tava começando, cantava lá. Então, ele fez o concurso pra escolha dos dois primeiros: cantor e cantora que seriam contratados pela Rádio Nacional. Mas não fui o vencedor. Não me lembro do nome do vencedor, não é presunção, nem qualquer coisa contra. Lembro que ele era italiano e cantou música italiana. Ele cantou "Cuore Ingrato" e eu, samba. No final, o "Cuore Ingrato" ganhou e o samba ficou em segundo lugar.

LOU - Ingratidão com nosso samba ...
ALMIR - Com certeza. E a menina que ganhou foi a Ivete Siqueira e os dois foram contratados pela Rádio Nacional com um contrato de 6 meses ou uma coisa assim. O Renato Murce me manteve no elenco dos seus shows em clubes. Eu cantava e dançava rock e outras músicas de sucesso. Quem também fazia parte do elenco era Eliana, que era esposa dele, a Adelaide Quioso, o Carlos Mattos, o marido dela, Silvinha Teles, o Candinho, marido da Silvinha Teles. Sabem quem é que me acompanhava nesses shows? O Baden Powell, violonista que também saiu do "Papel Carbono", me acompanhava nos shows. Todas essas coisas eu fazia paralelamente com o teatro. Fiz os programas de auditório da Rádio Nacional. Eu fazia o programa César de Alencar, fazia o programa Manoel Barcelos, fazia o programa Paulo Gracindo.

LOU - Quando foi que você passou a ser Almir Saint Clair?
ALMIR - Quando levei o disco "Belo Pra Mim", produção independente dos padres, para a gravadora RCA Vítor, mostrei pro diretor Geraldo Santos pra ele conhecer meu trabalho, minha voz. Ele disse: "- Sua voz é muito bonita; vou levá-la pra São Paulo. Vamos ver se eles aprovam que você grave com a gente". Fui aprovado e gravei meu primeiro disco comercial na RCA Vítor.

Então, o Geraldo Santos, disse: "- Tá tudo bom! Só que eu não tô gostando desse nome Almir Siqueira, isso até parece marca de vinho". Aí o Adelino Moreira, que era o assessor da direção artística e na época tinha muito prestígio, porque ele era o compositor das músicas do Nelson Gonçalves, disse que eu deveria ter um nome internacional, assim como Saint Clair. Fui batizado pelo Adelino Moreira como Almir Saint Clair.

LOU - Foi esse disco "Ciao Amore Ciao"?
ALMIR - Foi sim. Gravei o "Ciao, Amore, Ciao". Ele escolheu essas músicas pra eu gravar porque foi sucesso no Festival de San Remo. Eu gravei essa e outra: "Não, não pense em mim, siga o caminho da existência, sem jamais pensar em mim. Siga o coração, ele deseja..."
ALMIR - "Vejo a minha estrada, branca como o sol, repartindo os verdes dos campos ao sol. É uma bela estrada; nela, a vida corre, sem saber que hoje à tarde se vive ou se morre como um bom dia me convida a ir por aí. Ciao, amore, ciao, amore, ciao amore, ciao. Ciao, amore, ciao, amore, ciao amore, ciao".
Esta música fez muito sucesso.

LOU - Muito bonita a tua voz, mesmo sem acompanhamento, sem nada é raro alguém conseguir cantar tão bem, assim.
ALMIR - Obrigado, obrigado. Ganhei vários prêmios como melhor revelação de cantor do ano. Ganhei do Haroldo de Andrade, na TV Excelsior, do Daniel Taylor, dos Diários Associados, da Última Hora, enfim eu ganhei uns 4 ou 5 prêmios como melhor revelação de cantor.

Depois, gravei "Não Pense em Mim", "Non Pensare a Me" e mais outras duas músicas: "Como Ninguém te Amou", que também é muito bonita, do Getúlio Macedo. Eu fiz mais quatro gravações na RCA. Depois da RCA, fui pra Odeon, Polygram, cada hora aparecia alguma coisa que eu fazia e gravava. Depois disso, fui convidado pra cantar na Europa, em 70/72. Fiquei dois anos cantando num show lindíssimo, chamado "Festa Brasileira". Um elenco de 35 pessoas e eu era o cantor do show, com a Watusi e a Júlia Miranda, com vozes lindíssimas. Inclusive, você conhece o Abelardo Santos? Ele fazia parte desse elenco.

LOU - O Abelardo Santos da Rádio Nacional?
ALMIR - É, o produtor. Ele fazia parte do elenco e nós éramos colegas. A gente ficava sempre juntos no camarim, porque ele era um cara muito bacana e tinha um ótimo gênio.

LOU - Você também tem um gênio ótimo.
ALMIR - Então, ficávamos sempre juntos no camarim. Quando chegava no teatro já sabiam: Abelardo e Almir, sempre juntos. Nesses dois anos ele foi meu companheiro, porque ele também cantava e dançava, ele também é bailarino. E eu só cantava. Ficamos dois anos e corremos Alemanha, Suíça, Suécia, Dinamarca, Holanda, Finlândia, Bélgica, Áustria, uns 14 países.

LOU - Quantos anos você tinha mais ou menos nessa época?
ALMIR -Já tinha uns 35 anos
(Num momento de lazer na Europa)

LOU - E os seus amores?
ALMIR - Ah, os amores ficavam aqui e trocávamos cartas.

LOU - E na Europa, outros amores.
ALMIR - Ah, sim. Ia fazer o quê? Mas não vou contar nada de amor, não.

LOU - Vai sim! (risos) Conta, bem baixinho...
ALMIR - Na Europa, eu tive a grande oportunidade de conviver com a cantora Júlia Miranda, que era uma pessoa boníssima, uma pessoa fantástica. Então, ficamos juntos toda a Europa. Ela era cantora da turnê. Eram as duas, a Watusi e ela, não tinha preocupação. A Júlia Miranda foi uma figura incrível, muito amiga da família e ficava preocupada com os filhos, com os netos, porque ela era um pouco mais velha que eu. Era bonitona. A gente morava junto e foi legal. Fiquei tranqüilo na Europa.

LOU - E quando acabou a turnê?
ALMIR - Voltei e montei um super-espetáculo brasileiro. Antes de ir pra Europa, comecei a ter experiência de espetáculo brasileiro, no grupo da Mercedes Batista e no conjunto folclórico "Os Palmares", com a coreografia da Geny Dias. Comecei a cantar música folclórica nesses conjuntos e fui embora pra Alemanha. Tão logo voltei, respondendo a sua pergunta, montei o meu grupo de espetáculos, com um show e uma das músicas que eu gravei. Tá naquele LP, o "Pagodão", o "Bahia Saravá":

"Saravá meu terreiro, oi, saravá meu gongá, saravá minha Bahia, com sua magia, vamos saravá. Saravá meu terreiro, oi, saravá meu gongá, saravá minha Bahia, com sua magia, vamos saravá."

LOU - De quem é essa música?
ALMIR - Do Luís Luz. Então, eu aproveitei o gancho dela e montei um show folclórico chamado "Bahia Saravá". Eu vendia esse show na maioria desses clubes: Clube Municipal, ABB da Lagoa, ABB da Tijuca, Clube Militar, Clube da Aeronáutica, Monte Líbano, Iate Clube. Eu fazia esse show direto. E o mais interessante é que não tinha problema de fazer em outro clube, porque todo mundo conhecia a qualidade e quando eu chegava pra oferecer, eles diziam: - aquele que você fez no clube tal.

ALMIR SAINT-CLAIR PRODUÇÕES

LOU - Quer dizer que a fama do show correu...
ALMIR - Montei uma empresa de produções artísticas "Almir Saint Clair-Produções Artísticas". Criei um repertório que tinha uns 6 shows. Montei "Encontro com Noel Rosa", Show de Forró, o "Forró Baile Show". No clube da AABB da Lagoa, eu fiz uns 5 shows seguidos, com o diretor artístico Luís Carlos, que, por coincidência, era o gerente do Banco do Brasil, onde a Dina Lopes tinha conta.

LOU - Você, além de samba, já fazia show de forró?
ALMIR - A gente fazia de tudo: seresta, chorinho, show de forró e, até recentemente, eu fazia toda a festa junina da ABB da Lagoa. Apresentei o "Bahia Saravá", "Brasil, do Candomblé ao Carnaval".
Em todos os shows que eu fazia, eu ia com um conjunto de forró. Por quê? Porque aquilo tudo fica sendo paralelo. Eu ensaiava os meus shows no "Forró Forrado do Catete". Primeiro, fui lá pedir a sala pra ensaiar e dali partiu uma idéia dele de fazer o show do "Forró Forrado".

No tempo do Forró Forrado com Clementina de Jesus.

Isso foi em 75, 76, mais ou menos. Então, durante 8 anos apresentei o show do Forró Forrado do Catete e tive a honra de apresentar os maiores nomes da MPB; na época, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Moreira da Silva, Elza Soares e Mercedes Sosa. Apresentei inúmeros cantores durante 8 anos. Começamos às terças-feiras. Mas foi tanto o sucesso, que a gente passou a fazer 3ªs e 5ªs e, depois, 3ªs, 4ªs e 5ªs, enchendo todos os 3 dias.

DINA LOPES - A Lygia Lessa Bastos já freqüentava também o forró.

ALMIR - A Lygia Lessa Bastos já freqüentava e nem era muito por minha causa. Todo universitário ia pro show do Forró Forrado; tinha dois médicos psiquiatras que iam sempre lá e diziam: "É aqui que eu venho recarregar as baterias." Ficavam na platéia assistindo: juízes, executivos, bancários, etc.

ALMIR - Depois disso, eu fui convidado a puxar o samba-enredo das Escolas de Samba. O primeiro que eu puxei foi o da "Em Cima da Hora". Depois, fui chamado pra puxar o da "Império da Tijuca", que nessa época, era do 1º Grupo, o Especial. Então, puxei durante 5 anos, o samba da Império da Tijuca. Tinha um que fez muito sucesso no Brasil inteiro: "Paranaê, ê Paraná, é o Império da Tijuca na avenida a lhe exaltar. Paranaê, ê Paraná, é o Império da Tijuca na avenida a lhe exaltar. No sol..." Eu fui fazer show na Bahia, no Paraná, em muitos lugares por causa desse samba.

Depois teve um outro, que era pra reabertura dos cassinos, devido à lei 9.215, que fechou os cassinos do Brasil:

"Em nome da moral e bons costumes esta lei surgiu, nove mil duzentos e quinze, fechando os cassinos do Brasil. É proibido jogar, jogar, jogos de azar ....." Não me lembro mais; é tanta coisa...

LOU - Você tem uma cabeça fora de série. Você tá conseguindo pôr tudo na ordem.
ALMIR - A gente gravou essas músicas e muitas outras. Tem uma que é lindíssima, da Bahia. "Bahia, de todos os santos e magia peço licença meu pai Oxalá, para meus costumes exaltar de seus pecados lembrar tem Candomblé e rituais..." Chamava-se "Bahia de Todos os Deuses". Então eu mudei o nome do show "Bahia Saravá" para "Bahia de Todos os Deuses" e eu colocava essa música.

LOU - Você também fez muitos shows pra agências de turismo, não é?
ALMIR - Por coincidência, tinha uma pessoa que trabalhava na Agência Meliá, que morava no mesmo prédio que eu e sabia que eu cantava. Um dia ele perguntou: - Escuta, Almir, você não tem um show brasileiro? Vai chegar um grupo de turistas pela nossa agência e eles querem um show com mulatas, com destaques, não sei quê. Concordei em fazer. Foi no Meridien e o cara adorou. Eu fiquei fazendo para a Meliá uma porção de shows de carnaval. Uma hora, eles queriam com macumba; noutra, queriam com não sei quê. Daí começaram a surgir as outras empresas. Porque, naquela época, só o Haroldo Costa fazia os shows pra turistas, mas acontece que ele não podia fazer todos. Talvez, não sei bem, meu preço era melhor que o do Haroldo Costa. Ainda havia muito respeito com o profissional, muita ética profissional. Nas agências que eu trabalhava, o Haroldo Costa não se envolvia; eu também não me envolvia com as que ele trabalhava.

LOU - Porque tem campo pra todos.
ALMIR - Tem pra todo mundo. Então, eu trabalhei com a Meliá, a Ecotour a GB. Tinha meses que eu fazia 5, 6 shows pra turistas, e fazia em hotéis, Macumba na praia, recepção no aeroporto, fazia "Wellcome Drink" no hotel "Ilhas Tropicais". Também Show de gala de despedida nos hotéis, no restaurante "Rios", fazia no "Sol e Mar"...

LOU - Esse era ou ainda é do fatídico "Bateau Mouche".
ALMIR - É isso! Levei 28 anos fazendo shows pra essas empresas todas. Então, isso foi muito bom. Aí eu já tinha um escritório montado....

DINA LOPES - Fazia ótimas apresentações, o show era muito bom... não tinha drogas...

ALMIR - Escolhia as melhores pessoas, os melhores bailarinos, as mais bonitas mulatas. Era saúde, alegria e música.

LOU - Não tinha álcool também?
ALMIR - Álcool, quem quisesse podia tomar, mas não na hora do espetáculo, depois do espetáculo podia fazer o que quiser. Até os gringos que queriam muito namorar as mulatas. Eu dizia: "não quero saber de nada, depois que termina o show, se ela quiser ir pra casa dele, o problema é dela. Durante o espetáculo, nem me peça pra indicar alguém, que eu não faço isso. Sabe por quê? Eu não tenho cabeça pra ficar tomando conta do espetáculo, 40 pessoas em cena e ainda saber se o gringo tá querendo ou não fazer programa com as mulatas do elenco.

LOU - Empresariar essa parte já seria outro negócio...
ALMIR - Eu tinha um escritório, com várias pessoas. Um que cuidava do som, outro da luz; a Dina cuidava da infraestrutura geral, principalmente do guarda-roupa. Era só chegar e falar, show dia tal, o roteiro do show é esse e ela sabia tudo, onde é que estava a roupa. Os meus shows tinham, às vezes, 20 quadros, e, para cada quadro, tinha um guarda-roupa especial. Então, ela separava tudo: a dança do côco, o candomblé, o samba de roda, a feira da Bahia...
Era show montado: bailarino, guarda-roupa, como é o do Plataforma, do Scala. Meu show era mais ou menos desse nível. (Na foto, Almir com Piná, sua afilhada artística)

LOU - Quer dizer que além de assessora, era figurinista?
ALMIR - Até podemos dizer que era figurinista também, porque ela ajudava muito nesse negócio. Ela era responsável pelo guarda-roupa, ajudava a consertar as roupas que escangalhavam. Às vezes a gente desfazia alguma fantasia e ela trocava, enfeitava... Depois de 28 anos trabalhando nisso, nós paramos, quando houve aquela confusão do Collor e que o dinheiro desvalorizou. Em 92, deu uma confusão danada. Depois, veio aquela outra de igualar o dólar com o cruzeiro, e aí ficou muito difícil de trabalhar. O elenco todo estava acostumado a ganhar, por exemplo, 50 cruzeiros e, aí, quando ficou tudo igual, eles queriam ganhar 50 reais. Aí ficou muito difícil.

LOU - Mas o real já era do tempo do Fernando Henrique. No tempo do Collor, o saldo bancário era 50, nem sei o que...pra todo mundo.
ALMIR - Aí ficou uma coisa difícil; por exemplo, o gringo que pagava dois mil reais por um show, eles queriam continuar pagando, porque lá não houve diferença. Aí não dava pra pagar orquestra, eram 50 pessoas e então foi caindo, caindo, e parei.

LOU - Você tirou umas férias forçadas.
ALMIR - Não foi nem forçada. Eu já vinha trabalhando bastante, precisava curtir. Aí comecei a viajar. A Dina gosta muito de viajar também. Aí viajamos pelo mundo a fora, onde eu já tinha ido trabalhando... Fui conhecer a Ásia, o Havaí, tudo quanto é lugar. Mas a gente não pôde parar de vez, porque começaram a chamar: "você não quer fazer isso, você não quer fazer aquilo?"

LOU - E tá no seu sangue, não é Almir?
ALMIR - É o que eu gosto de fazer. Então, eu comecei a fazer as produções menores. Eu com conjunto, eu com tecladista, jantares e chás e algumas apresentações. Os shows de carnaval e a rainha do carnaval e tantas coisas que você me prestigiou, que eu fico muito grato e feliz de você ter ido. E o site VelhosAmigos também me prestigiou muito, divulgando e eu fiquei fazendo esses trabalhos menores. E agora montei o Show "Revivendo Noel Rosa" e daí, fizemos uma temporada muito feliz no Teatro Gláucio Gil. Ficamos uma semana em cartaz, casa cheia, depois fizemos uma temporada de um mês lá no Sabor de Ipanema, e aí eu resolvi gravar um CD com as músicas do "Revivendo Noel Rosa" e estamos começando a fazer um circuito universitário. Já fizemos na Faculdade Bennet, em clubes... Daí, nós estamos aceitando convites pra fazer a vida de Noel Rosa.

LOU - Como é esse show?
ALMIR - Eu conto e canto a vida de Noel Rosa, como surgiu a música, quais foram as musas inspiradoras, os lugares que ele freqüentava, o que inspiraram... conto as pessoas que ele conheceu, porque ele escreveu o último desejo, enfim, é muito interessante.

LOU - Quer dizer que você vai fazer o lançamento do seu CD com esse show "Revivendo Noel Rosa"?
ALMIR - O Show já existe; eu vou continuar. Eu lancei, na verdade, quando fez 66 anos de morte de Noel Rosa; foi em abril/maio, no Teatro "Gláucio Gil" e fez muito sucesso. Então eu falei: - a gente vai continuar. Do "Gláucio Gil" eu passei pro "Sabor de Ipanema", de lá pro "Ibam", do "Ibam" pra Faculdade Bennet, enfim, tô fazendo em condomínios também.

Se vocês quiserem assistir ao show "Revivendo Noel Rosa" e ouvir: "Quem acha, vive se perdendo, por isso agora eu vou me defendendo..." Então, podem se comunicar com o site VelhosAmigos, com a minha amiga Maria de Lourdes Micaldas, que ela certamente vai passar pra mim e também pelo meu telefone 2549-8876. A gente faz em qualquer lugar, em colégio, clube, faculdade, associações, grupos da terceira idade.

LOU - E você canta todas essas músicas do CD nesse show?
ALMIR- Eu canto 16 músicas.
Já fiz umas duas vezes pra grupos de terceira idade, porque é a música que eles gostam de ouvir, porque foi a música da juventude deles, de todos nós, então a gente tá aberto.

LOU - É a música de todos os tempos, porque os jovens estão aplaudindo e pedindo bis. Eu tô com vontade de dar outra festa dos VelhosAmigos e vou convidar vocês pra fazerem um lançamento desse CD na nossa festa.
ALMIR - Com todo o prazer.

LOU - Agora manda um recado pros VelhosAmigos.
ALMIR - Olha, o VelhosAmigos é a coisa mais importante da vida da gente, porque se a gente tem velhos amigos, a gente tem a certeza de que não passou em vão, porque um novo amigo não sabe se continuará. Mas, se a gente tem velhos amigos, a gente sabe que fez alguma coisa de útil, de bom que conservou a amizade. Meus VelhosAmigos, muito obrigado por tudo.
LOU - Que beleza de recado. Muito obrigada!

 

Maria de Lourdes Micaldas
Revisão: Anna Eliza Fürich

AGORA CANTE COM ALMIR ALGUMAS MÚSICAS DO SEU CD "REVIVENDO NOEL ROSA"

 

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