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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

BOB NELSON
publicado em: 07/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 26/07/2003

Nascimento: 12/10/1919
Falecimento: 28/08/2009

Na certidão de nascimento ele é Nelson Perez, filho do espanhol, José Perez, e de Floresmina Perez, nascido em 12 de outubro de 1918, natural de Campinas, Estado de São Paulo.

Mas para o Brasil todo ele é Bob Nelson, "O cowboy" que, até hoje, se apresenta em shows, aos 84 anos.
Com excelente humor, ele nos concedeu esta entrevista, na sua casa em Copacabana.

BOB NELSON - Vou fazer 85 anos!
LOU - Com essa voz maravilhosa, forte e este corpo de atleta.
BOB NELSON - Graças a Deus.

LOU - Me conta como foi a sua infância.
BOB NELSON - Fui muito levado. Apanhava todo dia do meu pai. Um dia cheguei a ele e disse:
- Meu pai, eu hoje ainda não apanhei. Então, apanhei porque falei que não tinha apanhado.

LOU - Quando foi que você veio pro Rio?
BOB NELSON - Em 1943 ou 1944, já com 36 anos.

LOU - Onde você começou sua vida artística?
BOB NELSON - Em São Paulo. Aliás, comecei a minha vida artística como amador, com sucesso. Lá em Campinas, nós tínhamos um conjunto vocal chamado "Grupo Cacique", que era composto por estudantes do Ginásio do Estado. Eu era o crooner do conjunto, assim do tipo dos "Anjos do Inferno", "Bando da Lua". Então nós cantávamos todo o repertório do "Bando da Lua", dos "Anjos do Inferno", inclusive o nosso, porque a gente também fazia música.

Numa ocasião, fomos a São Paulo e nos apresentamos na Rádio Record, saindo uma nota no jornal, que o pessoal do "Bando da Lua" e dos "Anjos do Inferno" tomassem cuidado que "aqui na Terra" tinha um conjunto vocal pra fazer frente a eles, que era o "Grupo Cacique". Faziam parte do "Grupo" o pessoal do Ginásio do Estado e um menino que tocava violão. Ele era tenor. Era um meninozinho mesmo, que pra alcançar o microfone tinha que subir num banquinho. Hoje, esse menino é um nome nacional, grande compositor, que fez músicas de sucesso e você deve conhecê-lo pelo nome: Paulinho Nogueira.

LOU - Ora, claro!
BOB NELSON - Ele era do conjunto. Era o violão tenor do conjunto. Então, nesse conjunto tinha Celso Mendes Pupo Nogueira, que era irmão do Paulinho, que é dentista; tinha Armando Valindo do Couto, que era primo deles, médico; Aymoré dos Santos Lott, que era da FAB e era formado também; e Enéas, professor, e eu que era do Ginásio do Estado.

LOU - Com tanto sucesso, a sua vida mudou?
BOB NELSON - Não, pois não tínhamos um nome. Mas foi muito bom! Depois disso, voltamos a Campinas e entrei pra Escola de Comércio São Luís e ali me formei em Ciências Contábeis, indo trabalhar na Cia. Mogiana de Estrada de Ferro, assim que me formei. Porque o sonho do meu pai era que os filhos dele fossem ferroviários, porque ele foi ferroviário da Mogiana. Prestei exame, fui aprovado e fui ser escriturário da Mogiana. Naquela época, o salário era muito ruim e tínhamos que trabalhar engravatados... Você sabe como era o apelido do pessoal que trabalhava lá? "Os mendigos engravatados". Quando saí da Mogiana, meu pai ficou muito triste.

Fui trabalhar na Armour, Frigorífico Armour Of Brazil Corporation - que tinha sede em São Paulo. Meu pai tinha um hotel, o Hotel Dalva, nome da minha irmã, que até hoje existe em Campinas, na Avenida Andrade Neves, só que com outros donos. E ali se hospedavam muitos viajantes, e eu sempre ouvia falar que viajante ganhava muito dinheiro e tal e eu falei:- Vou ser viajante. E fui ser viajante.

LOU - Que coragem!
BOB NELSON - Trabalhando lá na Armour, em São Paulo, consegui uma representação de umas meias que nem existem mais, Meias Ethel, que fazia uma propaganda: "Meias Ethel, as tais que não têm costura e não machucam os pés."

E eu fui trabalhar na pior zona que pode existir pra um vendedor, que é o Vale do Paraíba, em Taubaté, Pindamonhangaba. Ali, pra vender, era horrível; aquelas cidades, do Vale do Paraíba ficavam todas abandonadas, pelo próprio pessoal de lá. Mas comecei a andar por lá, tentando vender as meias, que eram as mais caras que existiam. O pessoal, que tinha poder econômico, comprava em São Paulo ou no Rio. Mas, naquele miolo, ninguém comprava nada e eu não vendia nada.

LOU - E a sua música ficou de lado?
BOB NELSON - _ Em Taubaté, brincando com outros viajantes, fomos ao Cabaré. E eu me aventurei e fui cantar lá no palco. Puxa, que sucesso! Aí me levaram num serviço de alto-falante, que transmitia pra pracinha. O pessoal fazendo footing na pracinha, eu cantando lá em cima e o pessoal aplaudindo lá embaixo.

A ESCALADA DO SUCESSO

LOU -Você já fazia o "Oleirich"?
BOB NELSON - Já tinha feito a versão de "Oh! Suzana, pra cantar com o conjunto. Aí falaram pra mim: - "Puxa, rapaz, vai pra São Paulo, vai se inscrever num programa de calouros lá. E tinha um rapazinho em Taubaté, que tinha a voz muito bonita e que imitava o Orlando Silva, coqueluche daquela época. Fui com ele pra São Paulo e nos inscrevemos na Rádio Cultura, no programa da Peneira Rodini, que peneirava os calouros. Aí, pra surpresa minha, um grande amigo meu de ginásio, de grupo escolar, era o diretor do programa. Quando eu cheguei ele me perguntou:
- Você vai cantar?
- Vou.
- Vai mesmo?
- Vou.
- O que você vai cantar?
- "Oh! Suzana."

Você também conhece de nome esse personagem, Roberto Corte Real, que acabou sendo diretor da Sony Music, que antes era a Colúmbia.
LOU - Conheço.
BOB NELSON - Pra eu não chegar na minha casa desempregado e pra meu pai não brigar comigo, por ter deixado a Mogiana e as Meias Ethel, fui pra São Paulo, procurar minha irmã, a Dalva, casada com o Plínio, e disse pra eles que havia deixado a Mogiana e que tinha vindo pra São Paulo, pra tentar a vida por aqui mesmo. Então eu disse: "vim pedir pra vocês me acolherem porque não tenho pra onde ir." Aí meu cunhado respondeu - "Você pode ficar aqui, não há problema, mas dinheiro não tem. Vai comer, vai dormir, mas não tem dinheiro." Eu disse: - "Não tem problema, vou me virar."

A Peneira Rodini selecionava os calouros, nas quatro semanas do mês e no final da última semana fazia a peneira de ouro Rodini. Quando cheguei lá no programa, estavam os cantores e o Paulo. Quando ele cantou "Lábios Que Eu Beijei", que era a coqueluche da época, o auditório veio abaixo.

A gente tinha combinado de dividir o prêmio, que era 100 réis. Aí, eu disse: - "Meu Deus do céu, acho que tô com 50 réis no bolso, porque achei que ele ia ganhar. Aí..."Agora vocês vão receber um calouro que vai cantar uma novidade pra vocês. Ele fez uma adaptação, de uma música muito conhecida e vai cantar "Oh! Suzana", de Stephan Forter."Larguei o "Oh! Suzana" e o auditório veio abaixo, mas veio abaixo mesmo: - "Canta outra! Canta outra!", gritavam.

Telefonemas pedindo pra eu cantar outra, e eu não tinha outra, só tinha "Oh!Suzana". Então eu cantei "Halisco":
(Clique na setinha e aguarde)

"Ai, Halisco, halisco, halisco, tu tienes um nombre que és Guadalajara, olerichhhhh!"
Ai, meu Deus! Ô que sucesso! Aí ganhei o prêmio de 100 réis. O Paulo ganhou 50, dividimos, deu 75 pra cada um.

LOU - Que festa!
BOB NELSON - Maravilha. E, naquela época, era dinheiro pra caramba. E então comprei um pacote do cigarro Elmo, que eu fumava e custava 25 réis; pra não andar a pé, comprei 50 réis de passe de bonde, daqueles bondes que nem existem mais em São Paulo, o Camarão, era uma beleza. Era uma condução maravilhosa. E eu descia sempre na cidade e me inscrevia em tudo que era programa de calouros. Era o rei dos calouros, porque eu ganhei em todos os programas que fui. No Blota Júnior, 1º lugar, no programa do Motta Neto, 1º lugar.

Bom, cantei 4 a 5 anos de calouro. E um dia, fui cantar no calouro do Chá Ribeira, na Rádio Tupi de São Paulo e quando acabei de cantar, o pessoal bateu o pé no chão e gritou mais um. Mais um! Queria mais. Era época da guerra e os linotipistas dos jornais "Diário da Noite" e "Diário de São Paulo", do Assis Chateaubriand, saíram correndo lá das oficinas pra dentro da Rádio Tupi pra ver o que era, pensando que estavam quebrando a Rádio. Aí chega o diretor geral da Rádio Tupi, que era o Dermeval Costa Lima, baiano bom pra caramba, pessoa maravilhosa, e perguntou:
- Que foi isso?
- É esse menino aí.
- O que você cantou?
- Cantei "Oh! Suzana".
- É mesmo rapaz? Pôxa vida!
Cantei pra ele e ele perguntou se eu tinha muita música daquele gênero. Eu falei que tinha umas 20, mas não tinha nada, só tinha "Oh! Suzana".
- Então, você vai cantar num programa que nós vamos armar aí. Ele me pegou de calouro e me juntou com "Caco Velho", que era um grande sambista do Rio Grande do Sul, compositor também formidável, a Neuza Maria, Humberto Simões, que era um ventríloco, Brinquinho e Brioso, que era irmão do Ratinho, do Jararaca e Ratinho.

LOU - E você já era um rapazinho, um garoto.
BOB NELSON - Um garotão. Tinha 31 ou 32 anos. Aí, ele me contratou e cantei num programa chamado "Onda Alegre", que era daquela turma que fez uma onda danada.

Aí, o Assis Chateaubriand ouviu e chegou pro Demerval Costa Lima e perguntou:
- Quem foi que cantou essa música "Oh! Suzana"?
- Foi um calouro.
- Como ele se chama?
- Ele cantou com o nome de Nelson Perez.
- Então, depois, eu quero conhecer ele.
Foi quando ele me disse que eu ia cantar numa homenagem que eles iam fazer pro General Douglas MacArthur, que era o Comandante chefe das tropas do Atlântico Sul.
Então, Assis Chateaubriand pediu que eu cantasse pra ele, que ele era do Texas, me deu um cartão e disse: - Vá lá na Sloper, de São Paulo, e manda fazer uma roupinha de cowboy pra você cantar pro General MacArthur.

O General era um homem de uns dois metros de altura. Quando eu acabei de cantar, ele foi me abraçar no palco e eu abracei o joelho dele. (risos)

LOU - Foi assim que você se tornou um cowboy...
BOB NELSON - Aí, em todo programa lá tava eu, cantando "Oh! Suzana". Então, me disseram:
- Rapaz, canta outra.
- Eu vou cantar outra, pode deixar.

Pra fazer outra música, eu fui ao cinema em São Paulo que só passava filme de cowboy. Ali, embaixo do viaduto do Chá, tinha um filme com Jimmy Altry e eu passei de meio-dia à meia-noite, ouvindo aquelas músicas. E fui dormir com a melodia na cabeça e acordei com a letra pronta.

LOU - Você, então, é compositor também. Porque Suzana foi uma adaptação, composição sua.
BOB NELSON - É verdade. Como ela era de domínio público, tornou-se minha. Aí eu fiz a segunda música:
"Sou vaqueiro lá do Oeste ai, ai, ai.
Sou vaqueiro lá do Oeste, sim senhor.
Quando acabo o meu trabalho,
eu arreio o meu cavalo
e vou à cidade para ver o meu amor...

E, assim, fui indo, fazendo outras, outras e outras e foi aparecendo compositor me dando música pra cantar.

Entre esses compositores apareceu um grande amigo, até hoje é meu amigo, Vítor Simon. O Vítor Simon é um grande compositor e nós fizemos algumas músicas juntos e, entre essas, "Minha Linda Salomé". Mas, como quem me tinha dado a idéia de como fazer a música foi um outro grande compositor, campineiro como eu, Denis Brean, que é o autor da "Bahia com H", música também muito conhecida no Brasil inteiro:"Dá licença, dá licença meu Ioió, a Bahia agora eu vou cantar eu vou..." do Denis Brean. Como foi ele quem me deu a idéia de fazer, eu saí fora da parceria com o Vítor e botei o Denis Brean como autor. Ele não fez nada, mas eu dei a ele! E foi um sucesso danado.

(Clique na setinha e aguarde)
"Quando eu vou pro meu rancho na montanha,
Vou montado nesse meu cavalo amigo.
Ainda existe alguém mais que me acompanha
E por ela com todo mundo eu brigo.
Eu, por ela, desacato o mais temido bandoleiro.
E por ela também mato até meu melhor rancheiro.
Ela tem os olhos tristes como um lago,
Já venceu um concurso lá em Chicago.
Meus senhores, vou dizer quem ela é é é.
Ah!, ai, ai.
É a minha linda vaca Salomé."

Porque em Chicago é onde existe o maior abatedouro de carne, dos Estados Unidos. A música foi um sucessão danado. Depois consegui um sucesso atrás do outro.

SURGIU BOB NELSON

LOU - Você saiu de São Paulo pra outros lugares?
BOB NELSON - Quando assinei contrato com a Rádio Tupi, o Costa Lemos chegou pra mim e disse:
- Ô rapaz, você vai cantar música de cowboy com o nome de Nelson Perez , não dá certo, se fosse bolero vá lá, mas música de cowboy, Nelson Perez? Aí, quando fui assinar o contrato na sala da direção geral, estavam reunidos uns diretores e estava lá o diretor de rádio e teatro
da Rádio Tupi de São Paulo, Mário Gomes, que estava lendo a revista "A Cena Muda". E disse, "pôxa esse tal de Bob Taylor tá com um cartaz danado; a maior correspondência de Hollywood é dele."
Vira um e fala, "o quê você disse aí?
- O Bob Taylor... Bob Taylor...
E o outro :
- Bob Nelson! E assim nasceu meu nome.

LOU - Saiu de Nelson Perez para Bob Nelson e ficou famoso! É famoso até hoje!
BOB NELSON - Se fiquei famoso, não sei, mas tentei. Continuei cantando na Tupi. Aí, eu ganhava trezentos réis por mês...

LOU - E seu pai ficou sabendo desse seu sucesso?
BOB NELSON - Meu pai era assinante do Diário de São Paulo e saiu uma reportagem comigo no Diário de São Paulo, com fotografia e tudo. Na mesma hora, telefonou pra São Paulo pra falar comigo:
- Meu filho, eu estou muito doente, tô com angina pectoris.
Você não vem me ver meu filho?
- Vou
- Então, eu quero que você me traga uma fotografia dessas que você está dando pros outros e traz pra mim.
Eu tinha minha primeira fotografia de cowboy e levei pro meu pai. Essa fotografia que tenho até hoje, comigo e vou lhe mostrar daqui a pouco.

Na mesma hora larguei tudo, peguei um trem e fui direto a Campinas, fui ver meu pai. Cheguei lá, ele me abraçou e foi uma festa danada. E a minha mãe virou-se pra mim e disse:
- Nelson, você tá ganhando dinheiro?
Eu disse:
- Não minha mãe, eu tô dando duro; agora assinei um bom contrato.
- Então, meu filho, você não pode me dar um rádio? Porque quero ouvir você cantar e não deixam, porque seu pai é corintiano, seu irmão é corintiano, outro é são paulino, outro não sei que lá e só querem ouvir futebol e eu não consigo ouvir você.
- Deixa comigo, minha mãe.
Comprei um rádio importado, Philips holandês, e dei pra ela me ouvir. Esse rádio voltou pra minha mão, quando ela morreu. Depois e eu dei pra minha sogra, que também já morreu e, em seguida, foi pra minha mulher. Esse rádio já não tem mais.

LOU - Mas vale como uma relíquia.
BOB NELSON - É. Continuei cantando e tal.Veio uma pessoa me contratar pra eu cantar no Cassino Aú, de Curitiba. Ganhava 300 mil réis por mês, na Rádio Tupi. Fui ganhando 300 mil réis por noite em Curitiba.

LOU - Cassino paga bem.
BOB NELSON - Nenê Serrata era o dono do Cassino. Quando eu entrava pra cantar, era aquele sucesso bárbaro. Como eu estava fazendo sucesso, eles quiseram renovar meu contrato.

Mas, aí, toca o Dermeval Costa Lima pra Curitiba, para que eu voltasse, imediatamente, pra São Paulo, porque o Assis Chateaubriand queria que eu viesse para fazer parte da caravana da Rádio Tupi, de São Paulo, pra cantar no "Show da Vitória", que foi o nome que o Assis botou no espetáculo, pra ser apresentado em tudo quanto fosse quartel, para incentivar aqueles soldados que embarcavam pra Itália. Então, eu cantei, inclusive, na Ilha de Fernando de Noronha. Onde tinha quartel eu cantava. Pra quanta gente eu cantei, que foi lá pra Itália, quantos não voltaram, né?

Finalmente, descemos no Rio de Janeiro, pra cantar na Rádio Tupi pelo término da excursão do "Show da Vitória". Todo mundo daquela época queria conhecer o Cassino da Urca. Então, combinamos de nos encontrar no Café Nice, que era em frente ao Cine Astor Trianon. E marcamos às 10 horas da noite pra ir todo mundo junto pro Cassino da Urca. Pra fazer hora, porque no Cine Trianon tem um relógio grande, assistia o filme e ficava de olho na hora. Aí, quando foi se aproximando das 10 horas, caí fora pra encontrar o pessoal. Saí na porta do Cine Trianon. Eu não conhecia nada no Rio de Janeiro e peguei um táxi. O chofer me pegou na porta do Cine e eu disse:
- Quer me levar no Café Nice?
- Pois não. O homem andou, andou, andou comigo e voltou no Café Nice, só depois eu fui ver que o Café Nice era bem em frente ao Cine Trianon. E o camarada andou comigo pra caramba.

LOU - Naquele tempo, já havia dessas malandragens.
BOB NELSON - Mas eu paguei a corrida e tal e lá fomos nós pro Cassino da Urca. Estavam lá o Roney e o Ranchinho, e o Pedro Vargas. Era um show maravilhoso. A Urca era uma coisa sensacional. Fiquei na casa do meu irmão, que morava aqui no Rio de Janeiro. No dia seguinte, fizemos um show na Tupi e regressamos pra São Paulo. Em São Paulo, na Rádio Tupi, eu era a maior novidade, porque lancei uma coisa nova, que ninguém conhecia.

Eu tinha colegas muito bons, o ambiente era muito bom. Foi lá que conheci alguns colegas meus: Osni Silva, que foi o maior cartaz de São Paulo, naquela época. Ele cantava "Alza Monolita.", um sucesso bárbaro; conheci a Hebe Camargo, que tinha um conjunto vocal; era um trio, chamado as Irmãs Camargo; o pai dela era o Phebo Camargo, que tocava violino na orquestra, e todos eram de Taubaté.

Eu fiquei muito amigo de todo mundo lá e, quando estava cantando na Rádio Tupi, me aparece um cidadão e:
- Você não quer cantar no Rio de Janeiro?
- Eu quero!
- Vai cantar no Cassino Atlântico.
- O quê?
- Cassino Atlântico.
- Ah, eu quero sim.
- Quanto quer ganhar pra cantar lá isso que está cantando aí?
- Eu não sei.
Ele fez a proposta: 500 mil réis, por noite pra cantar, no Cassino Atlântico, aqui no Rio de Janeiro. Eu cheguei pro Dermeval Costa Lima e disse: olha, Sr. Costa Lima, querem me contratar assim, assim. Ele disse: - Você pode ir! Mas tem que cantar na Tupi, do Rio de Janeiro, pra completar o seu contrato porque você está contratado aqui na Tupi.

LOU - Quem foi que lhe convidou pro Cassino Atlântico?
BOB NELSON - Essa pessoa era o diretor geral do Cassino Atlântico, muito conhecido no Rio de Janeiro; hoje é até nome de um teatro, o Ziembinski.
Ali, no Cassino Atlântico, eu tive como minha colega, uma grande artista, Libertad Lamarque e tomavam parte desse show do Cassino Atlântico, eu, a Libertad Lamarque e o Gregório Barros, que cantava música espanhola e, ainda, nem cantava bolero, e "Os Namorados da Lua", com Lúcio Alves.

Arrumei um conjunto pra me acompanhar e tinha um cenário muito bonito com um cavalo, uma vaca e o sanfoneiro; era o Mário Zan, que ainda é famoso. Foi o homem que fez São Paulo, quatrocentão. O Mário Zan, caipirão, me acompanhando lá e o conjunto regional da Rádio Nacional, com meus queridos e saudosos amigos; já morreram todos.

LOU - Conta, aí, uns causos dos bastidores do Cassino.
BOB NELSON - O dono do Cassino Atlântico era um fã incondicional da Libertad Lamarque, o Bianchi; ele sempre mandava pra ela um cestinho com uma orquídea e ela colocava sempre a orquídea na roupa, presa com um alfinete todo de brilhantes, uma coisa rica mesmo. Uma noite acontece o maior bafafá no Cassino Atlântico: Cadê a orquídea? Sumiu a orquídea...

LOU - Com alfinete e tudo?
BOB NELSON - Não. Pegaram só a orquídea. Tava lá na portinhola, que ela abria a janela e pegava no camarim. E procura daqui, procura dali, procura de lá, aí, o Mário Zan peguntou:
- Bob Nelson, o que está acontecendo, que a Libertad Lamarque está tão zangada?
- O que aconteceu? Pegaram a orquídea dela e ela não quer entrar no palco sem a orquídea, porque o Bianchi está assistindo o show e ela não quer aparecer sem a orquídea.
- Orquídea? O que é isso?
- Uma flor.
- Uma flor? Rapaz!... será que foi aquela que eu peguei?
O Mário Zan pegou a orquídea e enfiou no bolso, uma flor delicada daquela. Ele ia levar pra mulher dele conhecer, porque ela nunca tinha visto aquela flor.
Então, eu fui ao camarim da Libertad Lamarque e falei pra ela que o rapaz pegou, que ele não conhecia a flor e estragou tudo.
- Não há importância, non voy questionar. Falou.
Eu agradeci e aproveitei pra pedir um favor:
- Onde a senhora comprou esse alfinete tão bonito? Porque tenho uma irmã que vai se formar e eu gostaria de lhe dar um alfinete igual, de presente.
- Oh, que Bueno! Ustede és un bueno hermano. Esta jóia és un regalo del presidente de Francia!

Menina, pensei que os brilhantes eram macarsita! Quase caí pra trás. É claro que nem dei pra minha irmã.

O LEILÃO E O BAFAFÁ

LOU - Você era ingênuo.
BOB NELSON - A Rádio Tupi, como tudo que era do Assis Chateaubriand, naquela época, atrasava sempre e eu já estava com três meses de salário atrasado na Rádio Tupi. Um dia, cheguei lá, passei a mão naqueles vales todos que eu tinha de salário, e saí pelos corredores da Rádio Tupi fazendo leilão: "Quem quer comprar três vales assim, assim, assim?"
Menina, foi um bafafá dentro da Rádio Tupi e quem ia comprar os três vales da minha mão era o Manézinho Araújo, mas, na hora "h", chegou o diretor geral da Rádio Tupi, Ovídio Grotera, e:
- Você está fazendo leilão de vales aqui?
- Você não me paga, eu to fazendo leilão; quero receber os três meses atrasados. Porque eu chego lá na boca do cofre pra receber, vejo a Linda Batista descontar um vale por conta do que ela ganhava! Pode dar vale pra ela e não pode me pagar? Ele disse:
- Me dá aqui esses vales, meteu a mão no bolso, pegou o dinheiro, me deu na minha mão e disse: - Você está expulso da Rádio Tupi. Me expulsou da Rádio Tupi. Eu falei:
- Ai, meu Deus! E saí expulso da Rádio Tupi. Peguei minhas roupas todas que estavam lá, botei na malinha, peguei o elevador e desci pra ir embora.

Quando cheguei embaixo, no saguão da Rádio Tupi, que é aquele prédio que hoje é a LBV, que parece um ferro de engomar, na esquina com Av. Venezuela, quem é que estava na portaria? Assis Chateaubriand. Então, ele me chamava dessa maneira:
- Ô cowboy, sem cavalo, como é que vai?
Eu respondi:
- Ô doutor, não tá muito bom não.
- Não tá bom, por quê?
- Fui expulso da Rádio Tupi.
- Expulso?
- Fui sim, senhor.
- Por quê?
- Porque eu fiz leilão dos vales que estavam atrasados comigo há 3 meses, e o Dr. Ovídio Grotera me pôs pra fora da Rádio Tupi.
- O que, o senhor expulso? Três meses atrasados? Fez muito bem. Não pagou, faz leilão dessa porcaria.
E ele era o dono.

LOU - Ele era um gênio, mas uma figura excêntrica...
BOB NELSON - Era uma pessoa maravilhosa.

LOU - E Assis Chateaubriand deixou você ser expulso?
BOB NELSON - Deixou, o que ele ia fazer? Desautorizar o diretor-geral?

LOU - Você ainda morava com sua irmã, ou morava sozinho?
BOB NELSON - Morava sozinho, numa república de estudantes. Não conhecia ninguém aqui e, nessa república de estudantes, eu era o único que não era estudante e fui acolhido por eles. Quando cantava, no Cassino Atlântico, levava-os comigo e todo mundo entrava pra assistir o show.

A RÁDIO NACIONAL ERA O LIMITE

Um belo dia, cantando no Cassino Atlântico, chega pra mim um cidadão, que depois ficou famosíssimo, Haroldo Barbosa, grande compositor, grande jornalista, discotecário na Rádio Nacional, e falou:
- Rapaz, você não quer cantar na Rádio Nacional?
- Eu quero. (Quem não queria cantar na Rádio Nacional?)
Ele me apresentou ao Vítor Costa, que não conhecia nada do meu gênero de música, e me botou pra cantar numa hora de calouros, na "Hora do Pato", onde o Jorge Cury era o animador. Mas quem me apresentou ao público foi Reynaldo Costa, que foi o maior locutor comercial que o Brasil já teve. Aí ele anunciou:
- A Rádio Nacional tem a honra de apresentar para vocês, dentro do programa da "Hora do Pato", um cantor que está fazendo um grande sucesso no Cassino Atlântico, Bob Nelson!

Entrei, todo vestido de cowboy, no auditório da Rádio Nacional, cantei e foi um bafafá lá dentro. Quando acabei de cantar, fui chamado pra falar com o Vítor Costa.
- O senhor queria falar comigo?
- Quanto você quer ganhar por mês?
- O senhor faz uma proposta, se eu aceitar, venho cantar aqui.
Então, ele me ofereceu 2.500 cruzeiros por mês.

LOU - Uma nova porta se abriu pra você.
BOB NELSON - E assim eu fiquei 29 anos, na Rádio Nacional.

ABRINDO A PORTA PRA UM SANFONEIRO

E tive a honra, a glória e a graça de Deus de um dia levar pra ser contratado pela Rádio Nacional, um grande sanfoneiro. Porque o Vítor Costa perguntou o que eu queria pra me acompanhar. Eu falei que queria uma sanfona, violino...
- Sanfona, aqui não tem, se você tiver um bom sanfoneiro, traga aqui pra contratar.
- Sim senhor.
No Cabaré Novo México, na Lapa, no intervalo de descanso da orquestra, entrava um sanfoneiro com zabumba, triângulo, com tudo e, quando acabava de tocar, pedia gorjeta de mesa em mesa, com a bacia de alumínio. Quando ele chegou na minha mesa, segurei a bacia. Ele arregalou os olhos.
- Rapaz, não vou tirar o dinheiro de você não.
Aí, botei um dinheiro na bacia e disse-lhe: - você quer trabalhar comigo na Rádio Nacional? Naquele tempo, quando falava Rádio Nacional, a pessoa tremia porque era maior que a Tv. Globo de hoje. Aí, marquei com ele às duas horas da tarde do dia seguinte e pedi que levasse a sanfona. No dia seguinte, o homem lá estava com a sanfona me esperando.

LOU - E como era o nome dele?
BOB NELSON - Aí, quando cheguei lá, pedi pra falar com o Vítor Costa.
- O que há cowboy?
- É o seguinte, o senhor me deu autorização para que eu trouxesse um bom sanfoneiro aqui, pro senhor contratar e eu consegui.
- Então, traga ele aqui pra eu falar com ele.
- Ele já está aí! Abri a porta e disse:
- Entra e toca pro Sr. Vítor Costa ouvir.
Aí ele tocou.
- É, o homem é bom. Ele disse.
- Ele não é bom, é ótimo, toca qualquer gênero de música, porque ele toca num Cabaré e tem que saber tocar de tudo.
- Quanto é que você quer ganhar?
- Seu Vítor, (interrompi) o senhor vai me desculpar, mas eu vou tratar com o senhor, porque ele não entende nada. Ele toca a troco de gorjeta.
- Quanto é que vou pagar pra ele?
Pedi ao sanfoneiro que saísse da sala, por um instante e depois respondi.
- Mil cruzeiros por mês. (Eu ganhava 2.500)
- O quê? Mil cruzeiros? Você é maluco, eu sempre falei que esse Bob Nelson é maluco. Mil cruzeiros! Nenhum músico da Rádio Nacional ganha mil cruzeiros.
- Ué, o senhor faz uma coisa: chama todos os músicos, se algum tocar a sanfona, não precisa contratar ele. Peraí, seu Vítor, ele vai ser muito aproveitado, porque ele toca qualquer coisa. Ele vai me acompanhar e a qualquer artista junto com o Santoro; vai tocar na "Alma do Sertão", com Renato Múcio, "Nada Além de Dois Minutos", com Paulo Roberto; vai ser muito aproveitado.
- Vou fazer uma proposta: 700 mil réis por mês, durante três meses.
- Tá feito! E vou lhe garantir que ele não ficará só três meses, aqui na Rádio Nacional.
Abri a porta e falei:
- Luiz, você vai assinar um contrato com a Rádio Nacional.
- Vou?
- Vai. (Ele estava em pé, com a sanfona no peito) Você vai ganhar 700 mil réis por mês... Ele desabou com sanfona e tudo sentado no sofá. Aí chorou, chorou,...
- Rapaz, não precisa chorar! É só assinar o contrato....
- Ai meu pai, minha mãe, meus irmãos, como vou poder ajudar eles! Ele era muito bom filho. O homem era Luiz Gonzaga. Fui eu quem levou o Luiz Gonzaga pra Rádio Nacional!

LOU - Estou emocionada! Você abriu as portas do sucesso pro grande Luiz Gonzaga!
BOB NELSON - Pra tocar na Rádio Nacional! E aqueles três meses viraram vinte e tantos anos.

Ficamos muito amigos, porque sempre aceitei o ensinamento do meu pai: "meu filho, quando você for fazer um novo amigo, procure certificar-se primeiro se esse seu futuro amigo é bom filho, porque se ele for bom filho, será, por certo, um bom amigo. Será bom em tudo."

O Luiz Gonzaga só falava no pai, na mãe, nos irmãos, e eu me apeguei muito ao Luiz e ele a mim. Onde eu ia, lá ia o Luiz Gonzaga comigo.

LOU - Vocês formaram uma dupla?
BOB NELSON - Vieram me chamar, na Rádio Nacional, pra fazer show no interior pelo Brasil: - Sr. Bob Nelson, você quer ir cantar em Rio Bonito?
- Quero.
- Lá, vai ter uma exposição de gado e pediram pra levar você. Quanto é que você quer pra cantar em Rio Bonito.
- Eu quero 2.000 cruzeiros.
- O quê? Você tá louco? A Emilinha Borba cobra mil, fulano cobra mil, você quer cobrar 2.000?
- É, mas eu tenho que pagar meu sanfoneiro.
- Que sanfoneiro rapaz? Lá tem gente que toca sanfona.
- Não! Eu quero meu sanfoneiro.
E, assim, lá fui eu e o Luiz Gonzaga, de trem, pra Rio Bonito. Aí, quando estávamos sentados, quietinhos, assim, o trem parou, antes de chegar em Rio Bonito e entrou uma porção de homens vestidos de cowboy, de tropeiro.
- Onde está o Bob Nelson, cadê o Bob Nelson?
Eu pensei, "ai, meu Deus, o que esses caras querem comigo? Eu lá encolhido. O Luiz Gonzaga disse:
- O Bob Nelson é esse aqui.
- O senhor é o Bob Nelson?
- Sou sim senhor.
- Cadê sua roupa?
- Tá aqui na mala.
- Veste a roupa pra você chegar em Rio Bonito vestido de cowboy.
Eu entrei no banheiro do trem pra trocar de roupa, aqueles banheiros, apertadinhos, mal cheirosos, e me vesti de cowboy. O Luiz Gonzaga botou aquele chapéu de coco de nordestino e chegamos, ele de cangaceiro e eu de cowboy.

Quando descemos do trem, em Rio Bonito, lá na praça, em frente à estação de Rio Bonito, tinha uma bruta de uma faixa enorme: "Viva Bob Nelson, o rei dos cowboys!"Meu Deus! Então, estou fazendo sucesso mesmo. O povo gritando "viva Bob Nelson" e a banda de música tocando pra me receber. Eu era importante e não sabia.

Chegam os cavaleiros com dois cavalos: um alazão grande e bonito e um pangaré pequeno:
- Monta, Bob Nelson. Eu virei pro Luiz e disse:
- Monta no grandão, que eu vou montar no pequenininho.
- Não rapaz, você que é o rei dos cowboys.
- Mas você foi soldado de cavalaria. Eu vou montar no pequenininho, que eu não vou me arriscar de montar no grandão.

Tinham trazido aquele cavalo pequeno pra fazer graça porque o cavalo era fogo, pulava feito um danado. O Luiz foi no pequenininho e eu no grandão. Aí o cavalinho jogou o Luiz Gonzaga no chão e todo mundo correu pra levantá-lo.
- Tá vendo o que você fez comigo?
- Eu não, nem estava sabendo que esse cavalo era desse jeito.
E assim, quando cheguei no palco, correu a notícia de que eu tinha caído do cavalo. Aí, me anunciaram na festa, na exposição de gado assim: "E agora, com vocês, Bob Nelson, o cowboy que caiu do cavalo!

LOU - Mas não foi você quem caiu, foi o Luiz Gonzaga.
BOB NELSON - Mas eu caí também. Eu tinha uns coquinhos que imitava cavalo, ploc, ploc, ploc, eu mostrei pro povo e disse: "daquele cavalo eu caí, mas desse aqui eu não caio. Aí: toc, toc, toc, eu cantei e foi um sucesso danado, muito grande mesmo!

E assim, fiquei com o Luiz Gonzaga todos esses anos me acompanhando, até que um dia, apareceu um grande compositor pra me mostrar uma música pra eu gravar e a música era muito boa, mas eu achei que não devia gravar porque não era o gênero que eu tinha criado. Mas como o Luiz Gonzaga, quando me acompanhava, cantava atrás de mim, eu decidi dar pro Luiz cantar:
- Luiz, você vai cantar essa música e eu vou falar pro Vitório Lattari, da RCA, pra você gravar e vai ser um sucesso. Eu só não gravo porque não é o meu gênero.
- Mas não sou cantor, rapaz. Mas você vai cantar.
E foi a primeira música que o Luiz Gonzaga gravou cantando. Foi um sucesso de Norte a Sul do país, ele gravou de um lado cantando e do outro tocando sanfona de oito baixos.
A música era "Pão-duro":
(clique na setinha e aguarde)
"Sou pão-duro, vivo bem, não dou esmola,
não faço favor, não ajudo a ninguém.
Sou pão-duro, vivo bem
E quem quiser que faça assim como eu também."
Aquele cara era um pão duro desgraçado...

E foi um sucesso; todo mundo queria comprar um disco do Luiz Gonzaga cantando e ele só tinha gravado essa. Aí, chegou o presidente da RCA, Vítor, e exigiu que eu arranjasse música pro Luiz Gonzaga gravar.

Saí eu, por aí, pelos pontos dos compositores, Café Nice, Praça Tiradentes, Praça Mauá e escolhi algumas músicas. Entre essas músicas que eu dei pro Luiz gravar, quando ele ainda não era famoso, estão: "Eu lhe dei 20 mil réis, pra pagar três e trezentos, você tem que me voltar, dezessete e setecentos"; "Sou alfaiate do primeiro ano, pego na tesoura e vou cortando o pano; "Chofer de Praça" etc.

LOU - Adoro esta: "Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João..."
BOB NELSON - Essa veio depois, muito depois. Luiz Gonzaga era de Pernambuco, de Exu, e baião não é de Pernambuco. Baião é do Ceará. Pernambuco é calango, frevo, xote.

LOU- Então, só muito mais tarde foi que ele cantou baião?
BOB NELSON - Porque o conjunto famoso, no Brasil inteiro, que cantava baião, na Rádio Tupi, aqui, era "Os Quatro Ases e Um Curinga". Foi quem primeiro lançou o baião: "Eu vou mostrar pra vocês, como se dança o baião, quem quiser aprender é favor prestar atenção."

O criador do verdadeiro baião, criador do ritmo baião, foi o cearense Lauro Mayer. Até hoje tem lá a Praça Lauro Mayer. Quando ele morreu, deixou um baú cheio de baião. Aí, pegaram essas músicas e deram pro Luiz Gonzaga que gravou muita coisa. Pode-se dizer que assim nasceu o baião.

E O COWBOY SE "AMARROU"

LOU - Você então chegou ao auge do sucesso nessa época. E a sua vida sentimental?
BOB NELSON - Muito sucesso! Eu era o primeiro em correspondência da Rádio Nacional, em segundo Emilinha Borba, em terceiro Francisco Alves.

Bem, eu fui muito namorador. Mas um dia, fazendo uma temporada em Pernambuco, na Rádio Jornal do Commercio, hospedado no mesmo hotel que eu, tinha um casal de amigos que se tornaram até meus padrinhos de casamento. O cabeça-do-casal, Olavo de Virgilis, era meu amigo de infância de Campinas.
- Ô Perez, o que você está fazendo aqui?
- Eu tô cantando na Rádio Jornal do Commercio.
- Cantando?
- É. Eu sou o Bob Nelson.
- Bob Nelson? Eu sou seu fã, rapaz.
Aí, me convidou pra eu ir jantar com eles, porque tinha uma moça, hospedada com eles, que era colega do SESI e que estava fazendo aniversário. E, assim, sentei à mesa com eles. Comprei um corte de linho azul pra dar de presente de aniversário. E essa moça se chama D. Antonieta Leal Perez, que se tornou minha esposa; que é casada comigo, há 53 anos; que me deu dois filhos maravilhosos, Nelson Roberto e Eduardo José, e deles dois, vieram dois netos: Luciana Antonela e Victor Eduardo.

LOU - Você disse que esse quadro ganhou uma música?
BOB NELSON - Esse quadro é de autoria de Xerém e a música, chamada "O Burro Teimoso" foi sucesso no carnaval.
Autoria de Antônio Almeida. (clique na setinha e aguarde)
"A paca não emburra, mas o burro empaca. Esse burro é mais burro que uma vaca.
Eu bem que falo, bem que grito,
bem que empurro,
O tal do burro não há meio de andar.
Já dei água, dei comida, e ele não sai do lugar. Anda, Mimoso.
Que burro teimoso! Que burro teimoso!
Anda, Mimoso.
Que burro teimoso! Que burro teimoso!"

LOU - Ah, legal mesmo!

NOTÍCIA EM PRIMEIRA MÃO

BOB NELSON - Vou contar pra você, em primeira mão: tenho aqui duas letras que vou enviar pro Toquinho colocar as músicas. Vê se você gosta do título da primeira: " Mundo menino": (Clique na setinha e aguarde)

"Aquele garotinho, que brincava na calçada,
Me fez voltar ao tempo em que eu jogava uma pelada
E empinava pipas coloridas de papel,
Com mensagens de crianças para o seu Papai Noel.
Bons tempos de menino, quando tudo era ilusão,
De lindas figurinhas eu fazia coleção.
Patins, bola de gude, bicicleta e o pião
Que parecia o mundo a rodar na minha mão.
Berlinda, amarelinha, patinete, cabra-cega,
Balão, barra-manteiga, cirandinha, pega-pega.
Assim eram meus dias. E às noites, a sorrir,
Vovó contava histórias para me fazer dormir.
Aquele garotinho que brincava na calçada,
Me trouxe até lembranças da primeira namorada.
Se não é pedir muito, eu pediria, quase nada.
Queria ser de novo o garotinho da calçada."

LOU - Adorei! Que lindo poema! Fiquei toda arrepiada. Quando foi que você compôs essa letra? Estava no seu baú?
BOB NELSON - Já faz tempo, estava guardadinha pra ele. Porque eu só queria o Toquinho. Foi feita só pra ele. Ele sempre vem ao Rio, mas só faz show, lá longe, no ATL Hall. Quando ele veio fazer a temporada, aqui, no Canecão, eu fui lá, mostrei as letras, ele me deu um grande abraço e me disse pra mandar pra casa dele, em São Paulo. Hoje, mais tarde, vou colocar no correio.

LOU - Então fala " O meu ranchinho", essa outra letra que você vai mandar pra ele colocar a música.
BOB NELSON - Meu Ranchinho: (Clique na setinha e aguarde)
"O meu ranchinho fica à beira do caminho,
aberto sempre a quem vem.
Tem uma cocheira ao lado,
Um jardinzinho cuidado,
Um roçado mais além.
A inveja não me invade
Dos palácios da cidade,
No meu rancho, sou feliz.
Dos homens, nada espero.
Meu cavalo é o mais sincero
Amigo que já me quis.
De manhã, o sol me bate e de noite o candeeiro, dele não preciso não!
Que o rancho todo ilumina essa lâmpada divina,
Que é a lua do sertão."

LOU - Você é um poeta! Fala agora a poesia que você fez pra sua neta.
BOB NELSON -"De que nuvem você veio?"
Poema para Luciana, minha neta, Luciana Antonella.
(clique na setinha e aguarde)

Meu anjo, de que nuvem você veio?
Para enfeitar o dia meu,
Com a moldura de um sorriso seu.
Meu anjo, foi de Vênus, foi de Marte,
Ou de outra qualquer parte,
Mas de onde você veio?
Receio que você seja miragem,
Que encontrei pela viagem,
No universo dos meus sonhos.
Meu anjo, responda meu anseio,
Luciana, que me faz sonhar,
De que nuvem você veio?

LOU: Na hora que ela nasceu, você teve essa inspiração e...
BOB - Saiu.

BOB NELSON - A Luciana, hoje, está na Faculdade Bennet, fazendo fisioterapia; está no segundo ano e vai se formar em fisioterapia pra cuidar do velhinho aqui. E o meu neto está no colégio e ambos fazem curso de inglês. Então, eu sou um homem feliz da vida, realizado em tudo e por tudo.

LOU - Você é uma pessoa positiva, cheia de alegria, que chega a essa idade com essa atividade toda e, ainda, fazendo shows e muito sucesso por aí.
BOB NELSON - Eu tento, né?
LOU - Tem feito sim! Tenho prova disso, porque você foi ovacionado na nossa festa de aniversário do nosso Site. E, depois disso, tem sido convidado pra se apresentar em muitos lugares e tem feito muito sucesso. E me diz uma coisa, um recado pros "VelhosAmigos", uma palavra de incentivo, às pessoas que estão envelhecendo, e pensam que não podem produzir mais nada.
BOB NELSON - Podem produzir muita coisa.

LOU - Então dá um recado pra eles.
BOB NELSON - Aos "VelhosAmigos" eu só posso dizer isso: "Sou um homem muito abençoado por Deus, creio em Deus e creio no Espírito Santo. Que o Espírito Santo e a presença de Deus estejam sempre com vocês! Não se entreguem! A velhice é isso! É se entregar! Não se entreguem não! A vida é sempre nova pra nós. Eu estou só com 85 anos e sei que vou até 120 e que vou morrer de uma facada, dada por um marido ciumento.
Até loooooogoooooo!
(clique na setinha e aguarde)


Revisão: Anna Eliza Fürich

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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