Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

CARLOS ALBERTO TORRES
publicado em: 08/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 18/05/2006 - Copa 2006

 

O "Capita" Tricampeão chamado Sucesso

*17 de julho de 1944
+25 de outubri de 2016

Quando se é jornalista, o certo é separar as estações: amigos, amigos, negócios - e trabalho - à parte. Tarefa difícil em casos especiais. Afinal, não é tão fácil assim encarar com naturalidade um ídolo do futebol brasileiro. Por isso, foi impossível entrevistar o craque Carlos Alberto Torres e deixar de lado a tietagem.

A imagem emocionante do melhor lateral-direito do mundo, orgulhoso com a braçadeira de Capitão da Seleção Brasileira, erguendo a taça do tricampeonato mundial, no pódio da glória, na Copa de 70, ficou gravada em nossa memória e em nossos corações. A taça Jules Rimet foi definitivamente conquistada pelo Brasil. E isso já é motivo de muita tietagem...

Marília: Onde e quando você nasceu?
Carlos Alberto: Nasci aqui mesmo no Rio, no dia 17 de julho de 1944. Sou canceriano, nasci em São Cristóvão e fui criado em Vila da Penha, aliás, na minha querida Vila da Penha.

Marília: O futebol foi uma escolha desde menino ou o interesse foi vindo aos poucos?
Carlos Alberto: Não, o futebol é minha paixão desde menino. Sempre quis ser jogador de futebol. Hoje em dia, ser jogador é legal, porque o esporte se desenvolveu muito, dá dinheiro e ganhou status. Mas, na minha época, era uma profissão que não tinha prestígio nenhum. Por isso, minha família era contra. Mas eu insisti, consegui dobrar meu pai e pude concretizar o meu sonho.

Marília: Qual foi o primeiro time onde jogou?
Carlos Alberto: Foi o Fluminense. Comecei no juvenil em 1960. Fiquei lá por quatro anos. Até 1964, quando tive a emoção de participar da primeira partida oficial entre os profissionais do Tricolor Carioca. No time, conquistei o meu primeiro título de Campeão Estadual.

Marília: Você começou bem! Qual foi o pulo do gato seguinte?
Carlos Alberto: Não foi um pulo do gato. Foi um pulo pras feras. As maiores feras do futebol brasileiro da época. É que, em 1965, fui convidado para jogar no Santos, considerado, naquele tempo, o melhor time do mundo. Tive a felicidade de ter como amigos e colegas de campo feras como Pelé, Coutinho, Gilmar e Zito, entre outros. O Santos era um timão! Em Vila Belmiro, tive muitas alegrias: fui convidado para ser o capitão do time e conquistei muitos títulos e campeonatos - para ser mais preciso, fomos pentacampeões brasileiros.

Marília: Então, você já era um líder nato. Um jovem lateral-direito como capitão do melhor time do mundo da época?
Carlos Alberto: É, sempre tive personalidade forte e isso ajuda na hora de comandar e ter controle sobre um grupo.

Marília: Depois do Santos, vieram outras conquistas. Conte pra gente.
Carlos Alberto: Bom, eu estava realmente no auge. Em 70, fui convocado para a Copa do Mundo. Aqueles momentos foram maravilhosos, foi uma felicidade muito grande pra todos jogar pela seleção brasileira e conquistar o título de tricampeões mundiais. Não só erguer a taça Jules Rimet, fruto da nossa garra pela vitória, como também voltar ao país e ser recebido de forma tão calorosa pelo povo brasileiro. Nossa! Não tenho nem como descrever aquela emoção...

Marília: Na volta, com o prestígio e a presença do time na mídia, muitas portas se abriram?
Carlos Alberto: Não foi só na época, não, as portas continuam abertas até hoje: sou convidado para reuniões, palestras, jogos, comerciais e eventos relacionados ao futebol.

Marília: Quando você voltou ao Brasil, como o talentoso "Capita" (capitão em italiano),
ficou muito deslumbrado com o sucesso?
Carlos Alberto: Nem um pouco. Sou uma pessoa humilde. Perseverante, de personalidade forte, mas humilde. Voltei para o meu time, o Santos, após rápidas passadas pelo Botafogo e o Flamengo. Fiquei no Santos durante onze anos, até 1976.

Marília: É um longo período, se comparado à permanência nos clubes dos jogadores atuais.
Carlos Alberto: Como eu disse, o futebol de hoje está muito mudado. O esporte cresceu bastante e há mercado e oportunidades no mundo todo. Assim, os jogadores mudam de time, conforme seus interesses profissionais e financeiros. Eu sou do tempo em que a gente vestia a camisa do time, no sentido literal e no sentido mesmo de fidelidade - ao time e ao nosso grupo de jogadores.

Marília: Em 1976, você foi convidado para jogar em que time?
Carlos Alberto: Voltei para o Fluminense. Na época, o melhor time, chamado de "A Máquina" Tricolor. Joguei lá um ano, saí por 4 meses para jogar no Flamengo, e depois voltei para o Flu. Engraçado, é uma coincidência: o Fluminense foi meu primeiro e último time pelo qual joguei no Brasil.

Marília: Se foi o último, no Brasil, isso quer dizer que você botou o pé - e as talentosas pernas - no mundo.
Carlos Alberto: É. Fui convidado para jogar no Cosmos, de Nova York.

Marília: O Cosmos de Pelé, estou certa?
Carlos Alberto: É isso mesmo. Na época, o Cosmos era o time mais famoso do mundo. Como o Real Madri é hoje. Lá, como no Santos, tive a sorte de fazer parte de um time de craques, como Pelé, Beckenbauer, Chinaglia, entre outros. Ganhamos três títulos de campeões nacionais.

Marília: Uma conquista rara, num país que só tem perna-de-pau...
Carlos Alberto: Realmente, pros torcedores americanos, foi a glória. Eu me sinto muito realizado por ter ficado no time por seis anos e ter impulsionado o futebol americano. Eles passaram a se interessar pelo futebol, a partir daquela época, por causa do sucesso do Cosmos.

Marília: Vocês, então, tiveram a Terra do Tio Sam aos seus pés...
Carlos Alberto: Éramos muito famosos mesmo, porque vestíamos a camisa de um time super badalado, que pertencia à poderosa e prestigiada Warner Communication. Depois dos jogos, costumávamos receber no vestiário astros como Mick Jagger e Robert Redford.

Marília: Puxa, que sorte! Com tanta atividade esportiva, ainda dava tempo para as badalações?
Carlos Alberto: É claro! Pegamos a melhor fase de Nova York. Foi o boom das discotecas, uma época muito legal. Juntou tudo: o prazer de jogar no Cosmos, morar numa cidade maravilhosa como Nova York e freqüentar os melhores restaurantes e boates, sempre como convidados vips. Foram seis anos muito bacanas na minha vida.

Marília: Depois dessa agitação toda, você deu um tempo e descansou?
Carlos Alberto: Isso mesmo. A agitação durou até setembro de 1982, quando saí do Cosmos e encerrei minha carreira de jogador de futebol.

Marília: Fechou, então, com chave de ouro, defendendo o time mais famoso do mundo na época. Bom, mas você não é de ficar parado. Quais as portas que se abriram para você depois de pendurar as chuteiras?
Carlos Alberto: Aproveitando o prestígio de jogador, montei uma escolinha de futebol em New Jersey. Eu já era bastante requisitado para trabalhar com crianças interessadas em aprender o esporte. Foi uma evolução natural da minha carreira de jogador.

Marília: Deve ser um trabalho gratificante. A escolinha deu certo?
Carlos Alberto: Certo deu, mas em março de 1983, o presidente do Flamengo - Antônio Augusto Dunschee de Abranches - foi me visitar nos Estados Unidos e me fez um convite irrecusável: assumir o Flamengo como técnico. Aí, eu larguei tudo pra ficar à frente do melhor time do Brasil na época. O Flamengo era muito bom, mas não estava bem no Campeonato Brasileiro.

Marília: E, você, acostumado a colecionar sucessos e vitórias, levantou o time, não foi? Eu sei, porque sou Flamengo e lembro bem dessa grande virada...
Carlos Alberto: É isso aí. Assumi o time, tomei as rédeas da situação e, três meses depois, o Flamengo foi o Campeão Brasileiro de 1983.

Marília: Que destino, hein? De famoso jogador passou a famoso técnico de futebol...
Carlos Alberto: Pra mim, é o destino, sim, mas muito misturado ao suor, ao esforço, ao fruto do meu trabalho. No Flamengo deu certo e, a partir daí, outros convites surgiram. Eu acabei passando por outros times, como Fluminense, Botafogo, Corínthians e Atlético Mineiro. Mais recentemente, trabalhei também com times e seleções no exterior: Nigéria, Omã e Azerbaijão.

Marília: Você gostou de trabalhar no exterior?
Carlos Alberto: Gostei muito. O pessoal do Azerbaijão queria, inclusive, que eu renovasse o contrato, mas eu não aceitei. Achei que já era hora de voltar pro Brasil. Voltei em agosto de 2005.

Marília: O que você tem feito de lá pra cá?
Carlos Alberto: Como eu te falei, na época de Copa do Mundo, somos muito requisitados. Por isso, do ano passado pra cá, não quis assumir nada definitivamente. Viajo o Brasil inteiro, tanto para as grandes capitais como para o interior, participando de eventos relacionados à Copa e ao futebol brasileiro. A seleção tricampeã ainda é reconhecida pelo povo e pelos profissionais do esporte como um grande time, um representante de peso do bom futebol brasileiro. Por isso, somos chamados para participar de atividades ligadas ao assunto. Hoje mesmo, acordei cedinho pra ser o entrevistado do programa Bom Dia Brasil, da TV Globo. No próximo dia 10 (de junho), vou pra Londres para falar sobre o que eu entendo: futebol.

Marília: Então, você vai ter o privilégio de assistir à Copa de 2006?
Carlos Alberto: Sou convidado da FIFA e do Franz Beckenbauer, o craque alemão que jogou comigo no Cosmos. Ele é o Presidente do Comitê Organizador da Copa da Alemanha e meu amigo pessoal. Além disso, vou como comentarista contratado pela Rádio Jovem Pan, de São Paulo.

Marília: Desculpe-me por te perguntar sobre assuntos pessoais só a essa altura da entrevista. Mas é que vida pessoal todo mundo tem. E vida profissional tão rica e tão dinâmica quanto a sua não é pra qualquer mortal. Então, vamos começar a falar sobre o Carlos Alberto.
Carlos Alberto: Eu me casei pela primeira vez com a Sueli. Ficamos casados durante seis anos e tivemos dois filhos: a Andréa e o Carlos Alexandre. Hoje somos grandes amigos e a Sueli também se dá muito bem com a minha companheira atual, a Graça.

Marília: Mas antes da Graça, você foi casado com a badalada Terezinha Sodré, não foi?
Carlos Alberto: É. A Terezinha foi uma ótima companheira. Ela é muito festeira. Ficamos juntos durante 16 anos e não tivemos filhos. Foi no auge da minha carreira, de maneira que pudemos realmente badalar bastante, no Brasil e no exterior.

Marília: Depois da Terezinha, veio a Graça?
Carlos Alberto: Agora, estou casado com a Graça que, aliás, é uma graça de pessoa! Ela é uma companheirona e se dá bem com toda a minha família - filhos, netos e com a Sueli, minha primeira mulher. É uma união boa e tranqüila, um casamento da maturidade.

Marília: Você tem algum hobby?
Carlos Alberto: Adoro ver televisão. Ainda mais agora, com milhões de canais. É claro que gosto de ver programas de esporte mas curto um bom filme, de preferência com muita ação.

Marília: E o que mais você faz para se divertir?
Carlos Alberto: Adoro música, principalmente a MPB. Gosto muito de samba. E quem faz samba bom no momento é a banda "Razão Brasileira". Sou padrinho e fã de carteirinha desse grupo musical. Teatro, só de vez em quando. Gosto de comédias, um programa que me relaxa e me diverte.

Marília: Você gosta de dançar?
Carlos Alberto: Não, não sou muito chegado.

Marília: Pra quem dançou tão bem em campo, com o seu "futebol-arte", encantando torcidas do mundo inteiro, a gente até perdoa sua falta de jeito com a dança... Falando em campo, alguém da família seguiu os seus passos?
Carlos Alberto: Meu filho, Carlos Alexandre, é jogador de futebol. Quando ele começou, eu estava jogando no Cosmos. Ele teve uma carreira vitoriosa, jogou durante cinco anos no Japão e, hoje, assim como eu, já pendurou as chuteiras. Só joga com os amigos.

Marília: Você o apoiou quando ele se decidiu pela carreira de jogador de futebol?
Carlos Alberto: O apoio que eu não recebi da minha família eu dei em dobro ao Carlos Alexandre. Essa força da família é muito importante para quem tem um objetivo na vida. Tudo se torna mais fácil. Um dos meus enteados, filho da Graça, o André, de 19 anos, também adora futebol e me acompanha pra tudo - inclusive no exterior. O outro, Daniel, de 20 anos, adora esportes, mas escolheu o surfe.

Marília: Ao longo da vida, você fez escolhas. Você poderia nos dizer quais foram os seus ganhos pelas escolhas que fez?
Carlos Alberto: Bom, a minha profissão me deu muitas alegrias, na vida pessoal e profissional - títulos, campeonatos, reconhecimento, oportunidades, uma ótima qualidade de vida e, sobretudo, muitos amigos. Isso já é muito na vida de uma pessoa.

Marília: É bastante, se compararmos a sua vida à de qualquer mortal! Além disso, em 2000, a FIFA elegeu a seleção do Brasil de 70 como a "Seleção do Século XX". E você foi reconhecido como o melhor lateral-direito do futebol. Os jogadores Nilton Santos, Garrincha e Pelé também foram agraciados com o mesmo título. É muita glória para uma existência só! Bom, mas nem tudo são flores na vida das pessoas. Você poderia falar um pouco sobre as suas perdas?
Carlos Alberto: Olha, pra quem teve tanto, as perdas não contaram muito e nem tenho como citar nada que tenha me marcado muito - negativa e profundamente. Os ganhos compensaram as perdas.

Marília: Gostaria que você - como um jogador genial, motivo de alegria e orgulho para os brasileiros - deixasse uma mensagem para os nossos VelhosAmigos, internautas do site.
Carlos Alberto: Meu lema é sempre humildade e perseverança. São as chaves do sucesso. E, claro, minha última mensagem é que todos os brasileiros torçam muito pela nossa seleção. Vamos vibrar bastante! É bola na rede do adversário rumo ao hexa!

Carlos Alberto tem razão. Os homens de visão sabem que, pra fazer História, é preciso construir pequenas estórias, ao longo do tempo. Passo a passo, é possível fazer da vida uma sucessão de belos gols, uma jogada de mestre - como as de Torres - rumo ao sucesso pessoal e à realização profissional.

Revisão: Anna Eliza Fürich
aefuhrich@gmail.com

Autor(a): Marília Bellizzi Jaccoud

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA