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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

CRISTINA ROFFER
publicado em: 11/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 15/06/2007

Filha de Celina Moreira Ferreira e Francisco Chagas Ferreira, Cris Rofer nasceu em 17 de outubro de 1945, em Realengo, um subúrbio do Rio de Janeiro, onde viveu grande parte de sua infância.
E ao falar de sua infância pobre, mas feliz em que seus pais promoviam reuniões com amigos, com os filhos ainda pequenos, pra ouvir música e tocar instrumentos musicais, ela me fez lembrar a imagem, descrita por Chico Buarque na música, "Gente Humilde": “...são casas simples, com cadeiras na calçada... e na fachada escrito em cima que é um lar...”.
Cris: Meu pai era militar, mas ele tinha um ouvido absoluto e tocava muitos instrumentos de ouvido. O sonho dele era aprender violão, mas ele não conseguiu realizá-lo porque faleceu antes que eu o ensinasse. A minha mãe era artista plástica, era artesã, teve uma escola de artes e fazia de tudo um pouco. Os dois adoravam arte, música, teatro, cinema. Então, nós fomos criados com um incentivo muito grande para as artes.

Lou: E quantos irmãos eram?
Cris: Nós somos sete. Éramos oito, mas um morreu bebezinho. Estamos todos vivos.

Lou: E só você se envolveu com a arte?
Cris: Tenho uma irmã mais nova, a Rosângela (Rô), que cria um artesanato com material reciclado e o faz muito bem. Ela tem uma voz muito linda, mas nunca quis ser cantora; a minha sobrinha, Naira, é pintora e cenógrafa, e o meu irmão, Ronald faz poesias, é poeta. Estas são as pessoas que herdaram os dons artísticos de meus pais.

Lou: Como foi a sua infância?
Cris: Eu nasci em Realengo, no subúrbio, e era muito quieta. Participei de um concurso na Coca-Cola quando eu tinha 10 anos. Foi um concurso de redação e ganhei um livro daquela empresa. Sempre gostei de ler e desenhar e tivemos uma infância pobre, mas muito feliz. Éramos muito unidos, nossos pais muito bons. Nossa avó morava conosco. Então, estudando, fui galgando. Depois de muitas mudanças, fomos, em 81, pra Zona Sul, pra Copacabana, onde o calçadão era melhor para o meu pai fazer caminhadas. E estou lá até hoje.

Lou: Como foi que você entrou no mundo das artes?
Cris: Assim: com sete anos de idade roubaram a Nossa Senhora da Igreja de Realengo e, como eu e minha irmã desfilávamos em desfiles de moda infantil, então, eu fui ser a Nossa Senhora no lugar da santa que roubaram. Fui com um medo danado, porque tem aquela coroa com aquele pino e a imagem tem um buraquinho no alto da cabeça pra encaixar (risos). E comecei a cantar em coral infantil na igreja de Realengo, lá também estudei dança.

Lou: Pra cantar no coral tinha que ter aula de canto?
Cris: Não. Eu já gostava de cantar e tinha ouvido absoluto, mas só fui estudar música e canto depois de adulta. Fiz 15 anos de aula de canto com o maestro Mario de Bruno e com Sidney Carvalho do Teatro Municipal. Aí, eu fiz várias óperas. Mas comecei a minha carreira com sete anos. Precisei interromper, em 1979, as aulas de dança por causa da doença do meu pai e retomei mais tarde em 87, quando mergulhei de cabeça.

Lou: E onde você cantava?
Cris: Eu era solista do coral dos professores do Rio de Janeiro, cujo regente era o falecido maestro Vitório Stefanini. Ele, às vezes, reunia os cantores do Teatro Municipal e do coral dos professores pra fazer show em Petrópolis, Teresópolis. E cantei com ele em vários outros corais: Coral da Casa de Itália, Coral de Ópera de Mario de Bruno, Coral Prelúdio, nas igrejas, cantei no coral da Rua das Marrecas, Associação de Canto e Coral, com a maravilhosa maestrina Dona Cleofer, falecida. E continuei estudando canto e música...

Lou: Você é a mulher das mil e uma atividades... é professora de teatro...e o que mais?
Cris: De impostação, dicção, sou bióloga, artesã...

Lou: Me fale sobre o seu trabalho de bióloga na escola pra crianças.
Cris: Eu lecionei muitos anos no Município e colégios particulares. Dei aula na República da Colômbia e na Sérgio Buarque de Holanda..E, na escola municipal, fui inovando. Ao invés de ficar só em sala de aula, eu levava minha turma pra passear nos arredores do Riviera Del Fiori. A aula de ciência era ao ar livre. Eu fazia musiquinhas, colocando letras em músicas populares pra ensinar fotossíntese e outros temas que se tornavam interessantes e divertidos.

Lou: Como eram as aulas?
Cris: Cada aluno recebia uma sacolinha plástica e ia recolhendo todo o material que achasse interessante: pau, pedra, papel e depois a gente sentava ao ar livre, na graminha do Riviera, e a gente ia analisando todos os objetos que eles encontravam. Finalmente fazíamos uma peça com o material achado, misturando ciência e artes pra concluir as matérias relativas a cada pesquisa.

Lou: E a criança aprendia ciência de uma maneira interessante, bem diferente de pegar um livro pra decorar e, depois das provas, esquecer o essencial.
Cris: Inclusive nessa escola, eu posso citar o nome da diretora professora, Vânia Morgado, minha amiga até hoje, que dava um apoio muito grande. Nós montamos uma sala enorme de artes cênicas. Nós fizemos o pichódromo dentro da minha sala de aula. Os alunos tinham um local só pra pichar e eles decoraram a sala, montaram tudo. Fizemos todo um trabalho de socialização do aluno. E eles pararam de ficar pichando por aí. A Arte Cênica era integrada com Português, História. Por exemplo: se o professor de História estivesse dando descobrimento do Brasil, o professor trabalhava um texto sobre o assunto e nas exibições de artes cênicas eles ensinavam aos outros alunos o descobrimento do Brasil.

Lou: Então, os outros professores interagiam com você.
Cris: Todos interagiam suas matérias com as artes cênicas. Era um projeto maravilhoso. Inclusive a escola participou do projeto "Ecoando", que era um projeto que aconteceu em todas as escolas da Barra e Recreio sobre a proteção ao meio ambiente. Nós fomos para o Teatro João Caetano, onde ganhei o prêmio de melhor coreógrafa com o texto que a professora de Português Ângela Mazza deu em sala de aula pros alunos e eu encenei no Teatro João Caetano. Esse trabalho foi feito na Escola Sérgio Buarque de Holanda.

Lou: Essa escola é pública?
Cris: É. E funciona no Condomínio Parque das Rosas. Fui professora no Riviera Dei Fiori e aí foi todo mundo transferido da República da Colômbia para a Sérgio Buarque de Holanda. Os professores e os alunos eram os mesmos. Eu também montei um coral de alunos lá na Sérgio Buarque de Holanda e participamos na Sala Cecília Meirelles do encontro de corais e ganhamos um prêmio. Foi o único coral que cantou o choro nº 10 de Villa-Lobos.

Lou: Que maravilha!
Cris: Era uma mistura de alunos da Barra com alunos da Cidade de Deus, porque a maioria vinha da Cidade de Deus. Conseguimos fazer uma união de classes sociais diferentes e foi um sucesso.

Lou: Bonita a sua carreira no magistério! Você também é escritora?
Cris: Sou autora de textos teatrais e escritora de crônicas e poesias. Tornei-me membro da Academia de Letras do Rio de Janeiro. Ocupo a cadeira nº 10 de Maria Sabina. Aigara Villa-Lobos, que infelizmente já faleceu, foi a minha madrinha. Ela era neta de Villa-Lobos. Participo das reuniões mensais presididas por Hugo Roma. A Lygia Lessa Bastos, sua "Velha Amiga", também é acadêmica daquela Academia.

Lou: Você está exercendo que atividade atualmente?
Cris: Todas as peças, ou quase todas, são de minha autoria, e ainda dou aulas de artes cênicas, ensino dicção e impostação, dirijo peças. Atualmente deixei de atuar como atriz para escrever e dirigir as peças. O importante em cada peça que eu faço, mesmo adulta ou infantil, é ressaltar os valores sociais que estão muito esquecidos, como a etiqueta, os sentimentos de família, a ecologia. Tudo isso pode ser trabalhado com as crianças de uma maneira atraente.

Lou: Cite uma peça sua que apresente esse conteúdo ecológico.
Cris: "O Pássaro Encantado" foi o carro chefe! Desde 81, a gente ensaiava no Bosque da Barra, que não era esse de agora, todo moderno. Era um lugar cheio de mato, galho seco; tinha um barracão e nós ensaiávamos pobremente, precariamente lá.

Lou: Num bosque mais selvagem.
Cris: Exatamente. Em 84, o "Globo Barra" passou lá, descobriu a gente e fez uma reportagem conosco. Nós estreamos com "O Pássaro Encantado", no Riviera Del Fiori. E ganhamos o "Mambembe". Essa peça ficou até 2002 em cartaz.

Lou: O que aconteceu num concurso sobre ecologia que você promoveu no Clube Militar?
Cris: Num dos espetáculos que apresentamos no Clube Militar da Lagoa, nós fizemos um concurso pra criança desenhar o personagem de que mais gostava. Distribuímos uma folha e elas, depois, mandavam pelo correio pra gente. E fomos surpreendidos com uma carta de um rapaz de 28 anos, querendo participar do concurso. Ele pedia pra soltarem os pássaros e denunciava, já naquela época, a venda de pássaros que, como acontece até hoje, chegam a tal ponto de maus-tratos que muitos morrem. E a denúncia dele provocou um problema: os alunos chegaram em casa e queriam soltar os passarinhos, mas passarinhos que não poderiam ser soltos, porque já tinham sido criados em cativeiro.

Lou: Sua vida é uma riqueza mesmo. E qual é o seu próximo projeto?
Cris: Estou trabalhando num projeto comunitário para os idosos, no Rotary Club de Botafogo. Nós temos que resgatar o idoso! Nos países orientais o idoso é um exemplo de vida. Lá a sabedoria dos idosos é respeitada... Então a gente não pode virar as costas pro idoso, desprezando a riqueza de experiências que ele traz pra sociedade. Estou só começando, engatinhando ainda...

Lou: Como foi que você entrou no Rotary?
Cris: Foi assim: eu cantava na Igreja Nossa Senhora do Rosário, no Leme, na missa das 10, e a minha madrinha de Rotary Club, Maria Otávia Pereira de Castro Cunha, costumava me assistir. Um dia, quando terminou a missa, ela disse: - Pôxa vida! Que bom! Gostei de ouvir você cantar... nos tornamos amigas e ela me convidou pra ser rotariana. Então, entrei no Rotary Club e fiquei classificada em eventos. Gostei muito. O objetivo do Rotary é todo comunitário; é ajudar as pessoas. Nós, agora em abril, fizemos a feira de saúde, lá no Leme, com vários rotarianos de São Conrado, Urca, Leme, Glória, Tijuca e com a AMALEME. E foi um sucesso. Simone Santana Diniz, a futura presidente de 2007/2008, faz um projeto comunitário maravilhoso.
E você está convidada pra posse dela, no dia 26 de junho, no Edifício da Associação do Comércio. E você vai conhecer o pessoal da Banda Meteoro, que vai tocar lá.

A Simone e o Dr. José Mauro Braz de Lima estão num projeto chamado "Síndrome Alcoólica Fetal" - SAF. Ele é neurologista, e fazem um trabalho muito importante para o pessoal carente no Instituto Deolindo Couto, na Av. Pasteur. A Simone, o Dr. José Mauro e mais os médicos de lá promovem muitas atividades com as mães que transmitem o alcoolismo para o feto. E as crianças nascem com muitos problemas físicos e mentais. E há um apoio do atual presidente, Nélio Lino Barbosa, do Rotary de Botafogo, que abraçou essa campanha. E a Simone me convidou pra trabalhar no projeto dela. Se Deus quiser, espero honrar esse convite.

Lou: Você está com quantos anos?
Cris: 61 anos.

Lou: Sua vida é agitada, cheia de atividades que você faz com prazer...
Cris: Graças a Deus. E, principalmente, se eu puder ajudar as pessoas é importante. Passar o que a gente sabe... E aprender! Porque a gente aprende com uma criança que tá engatinhando e com um adulto. A gente aprende o tempo todo... como aconteceu aqui na Barra, quando eu fui atravessar a rua e vi uma formiga, carregando uma folha. Então eu tive o cuidado de não pisar nela, porque o trabalho dela era muito importante. Era uma formiga operária.

Lou: Qual o seu recado pros "velhosamigos"?
Cris: Eu quero dizer que a pessoa tenha consciência de que ela é capaz de tudo e que ninguém faz nada sozinho. Ninguém prospera psicologicamente, materialmente, sozinho. Tem que se unir às pessoas e principalmente procurar compartilhar que, aliás, é o lema desse ano do Rotary: compartilhar o que você tem com outras pessoas e receber delas o que ela tem. Que saia de casa. Vai cantar num coral, vai participar de uma aula de dança, de hidroginástica, vai fazer um trabalho comunitário, onde você se integra ao grupo e faz novos amigos... Eles vão te levar pra outro lugar - é assim a minha vida. Aí fui cantando, fazendo ópera, estudando dança, canto, fazendo eventos.

Lou: As portas foram se abrindo.
Cris: Foram. E a melhor coisa do mundo é você ter amigos, por isso eu gosto do grupo "velhosamigos". Eu conheci você pela televisão e eu simpatizei tanto, reencontrei amigos de 40 anos atrás e fiz novos amigos. Inclusive você! Se você tá numa cadeira pra terceira idade, esperando ser atendido pelo caixa do banco,converse com a pessoa que está a seu lado... sem querer, você se ajudou e pode ter ajudado alguém que precisava de uma palavra amiga.

Lou: Que, às vezes, sofre de solidão.
Cris: É verdade. E eu falo à beça e ainda converso com os meus gatos em casa. Adoro animais. Só não tenho cachorro, porque não tenho tempo de passear com eles.

A minha mãe morreu aos 90 anos, muito jovem. Ela dizia: não gosto de roupa preta, de velha, eu quero calça estampada, eu quero ver o teatro de revista, eu quero ir ao show da Rogéria, que é uma pessoa maravilhosa, inteligente. Minha mãe lia muito e passou pra gente o hábito da leitura. Hoje em dia um bom presente são livros que você pode dar pra uma criança. Só porque eu tenho 70 anos vou colocar um pijama de bolinhas e ver só televisão?

Lou: Você dança pra chuchu.
Cris: Porque meu pai quando eu era criancinha, fundou um clube dentro da nossa casa, chamado Associação Atlética Estrela Azul. Ligava a vitrola, eu ficava sentadinha ao lado, brincando com as formigas e escutando músicas: - E fulano oferece pra sicrano a música tal. Era um baile na minha casa e nós crescemos dançando. Todo ano eu reúno a família no meu aniversário, pra manter esse laço. E foi assim que eu aprendi a dançar e a sambar. Sempre sambei, sempre saí na Escola de Samba "Mocidade Independente de Padre Miguel". (foto)

Lou: Você foi à festa de aniversário do nosso Site, porque viu o programa "VelhosAmigos" na TV Comunitária?
Cris: Assisto sempre. Aí eu vi um amigo meu, o Nicolino Cupello, vi algumas amigas, e aí eu liguei de última hora e disse: quero ir ao evento e revi meus amigos e conheci você, que eu já admirava pela TV. O programa tem bastante audiência. E eu tenho conversado com as pessoas e o programa é muito bom. E revi a Mirene Alves, amiga de infância. A gente brincava de cantar. E, se Deus quiser, vou aproveitar o site "velhosamigos" e lançar meu livro e meu CD.

Lou: Qual é o seu livro?
Cris: Quero lançar primeiro o meu livro infantil "Pássaro Encantado"; depois, o livro de poesias e crônicas, que deverá ter um pouco de minha história e o que aprendi com a terceira idade.

Lou: Tive um imenso prazer em receber você aqui.
Cris: O prazer foi todo meu e essa chance de divulgar meu trabalho.

Cris dá aulas de Dicção e Impostação da Voz.
Telefone: 2541-4282
Celular: 9945-7414

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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