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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

CUNHA MALHEIROS
publicado em: 11/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 22/02/2003
"Eu não sou decepcionado com as pessoas. Eu sou agnóstico e sou um materialista. Um filósofo com a filosofia materialista que formou os meus sentimentos. Eu argumento com fatos, não com hipóteses."

Com 92 anos, o poeta Cunha Malheiros está fazendo a revisão do seu livro de poesias "Meus Cantares", que sonha publicar e já tem pronto um outro, "As Melhores Criaturas do Mundo", falando sobre os cães, que na opinião dele é melhor que o ser humano.

Ele me convidou pra almoçar em Copacabana, bairro do Rio de Janeiro onde mora, e me conduziu a pé, com passos firmes, até um restaurante. Cheio de entusiasmo, me falou dos seus projetos e sonhos. Após o almoço, voltamos a pé até seu apartamento, onde ele nos concedeu esta entrevista.

LOU: Como é o seu nome todo e onde você nasceu?
CUNHA MALHEIROS: Meu nome de guerra, como jornalista e como professor, é Cunha Malheiros. Meu nome social é Ariosto Cunha Malheiros. Nasci no Forte Coimbra, no Pantanal Mato-grossense. Fui registrado em Corumbá. Meu pai, Antônio Leandro Mendes Malheiros, era militar e comandava o forte quando eu nasci.

LOU: E o da sua mãe?
CUNHA MALHEIROS: Elvira Cunha Malheiros. Meu pai é mato-grossense e minha mãe é gaúcha.

LOU: Qual a data do seu nascimento?
CUNHA MALHEIROS: Nasci em 23 de setembro de 1912. Tenho 93 anos, porque como os romanos eu conto a vida desde o primeiro dia em que o óvulo da minha mãe foi fecundado pelo espermatozóide de meu pai. Então, eu tenho 92 anos de nascido e 9 meses a mais de vida.

LOU: E você, ficou quanto tempo morando lá em Mato Grosso?
CUNHA MALHEIROS: Até os 4 anos de idade, porque meu pai foi transferido depois para o Paraná. Do Paraná, ele foi transferido para Melo, no Rio Grande do Sul. Do Rio Grande do Sul, ele teve o último comando em Florianópolis, Santa Catarina, quando ele se reformou.

LOU: E como foi a sua infância?
CUNHA MALHEIROS: A minha infância foi muito boa. Eu fui muito amado, muito paparicado por meus irmãos, meus pais...

LOU: Por ser o caçula?
CUNHA MALHEIROS: Eu era o caçula, mas, não obstante tudo isso, ter sido muito paparicado, eu não me tornei um tirano. Eu juntei o amor que eles me dedicaram, com o amor que eu lhes dediquei.

LOU: Que beleza! E como é que foi a sua juventude?
CUNHA MALHEIROS: Na minha infância eu fui muito levado, mas fui muito brigão também, em defesa dos bichos e dos colegas mais fracos. Eu nunca admiti um tripúdio de um forte contra o mais fraco. Esta foi a herança que meu pai me deixou.

LOU: Você falou que seu pai cuidou de vocês e educou-os com muita liberalidade.
CUNHA MALHEIROS: Sim, meu pai era um libertário e fez os filhos iguais a ele. Todos nós admiramos muito o nosso pai e nós o amamos muito. Nós tivemos um grande pai.

LOU: E você se tornou um rapaz bem independente, bem destemido, né?
CUNHA MALHEIROS: Sempre.

LOU: Você me disse que chegou a enfrentar o seu pai...
CUNHA MALHEIROS: Quando eu tinha 15 anos. Havia um artista muito popular chamado Chocolate. Era, nos tempos modernos, o Grande Otelo. Ele era um cômico de rua, um malabarista, um dançarino e tinha o codinome de Chocolate.

Um dia, um francês o viu exibindo-se na Cinelândia. E ele era um empresário teatral. Levou-o para a França, Paris, com o codinome de Le Chocolat. E fez dele um artista de Veau de Ville francês. Tornou-se célebre em Paris. Mas a saudade que os brasileiros sentem da sua Pátria, fê-lo retornar ao Brasil e aqui organizou uma trupe de uma revista dançante que se exibia em teatros.

Meu pai, que era um grande fumante, fumava uns cigarros especiais, manufaturados por um italiano. Viciado no fumo, ele me fez, aos 15 anos, pegar cigarros pra ele no fabricante dos seus cigarros.

Eu me demorei na rua, com os meus colegas e com os cigarros de meu pai. Quando retornei à casa, meu pai estava furioso, porque sentiu a falta do cigarro e brigou muito comigo e minha mãe ai interveio. Minha mãe saiu-se com esta expressão: "Mas quem o pariu fui eu." Ela estava defendendo o filho.

Meu pai ficou ressentido comigo. O Chocolate ia estrear com a Companhia de revista no teatro de Florianópolis e eu desejava ir a sua estréia. Pedi dinheiro a meu pai para ir ao teatro e ele disse que não daria porque ele estava zangado comigo. E não me deu.

Minha irmã casada, que nos visitava em Santa Catarina, me deu o dinheiro para eu ir ao teatro. Chegado ao teatro, eu peguei o telefone e telefonei pra casa. E eu disse a meu pai: "Eu estou no teatro", e desliguei o telefone. Eu o desobedecera atrevidamente. Logo após, eu me senti muito perturbado, temeroso do castigo no qual meu pai me poria.

Ao chegar em casa, tarde da noite, meu pai abriu a porta e me disse que meu ato não ficaria impune. Fui dormir. Não consegui dormir. Minha mãe ao me acordar, eu fingi que dormia e ela disse: "Seu pai está esperando você na nossa biblioteca particular." Lá chegando, eu fui tomado de medo, mas, ao penetrar na nossa sala de leitura, resolvi enfrentar meu pai. E olhando, olhos nos olhos, disse-lhe: "Você quer falar comigo?". Ele disse: "Eu disse que você não fosse ao teatro" e eu retruquei: "Fui ao teatro e assumo a responsabilidade do meu ato."

LOU: Você tinha quantos anos?
CUNHA MALHEIROS: 15 pra 16. Meu pai disse: "Mas eu sou teu pai.". Nisso eu o abracei, chorando e disse: "Me desculpe meu pai. Eu nunca mais farei isso contigo." E ele me abraçou e disse: "Eu sei, meu filho, que você nunca mais fará isso comigo". E abraçados permanecemos. Eu chorando, ele remoído...

LOU: Como até hoje tá chorando emocionado...
CUNHA MALHEIROS: É... Até hoje a lembrança do meu pai me comove. Eu o amava muito. Eu o respeitava e o admirava muito. Era um grande pai.

LOU: Mas ele também te admirava. O que foi que ele falou?
CUNHA MALHEIROS: É... Depois, ele dissera a minha mãe: "O Babi (meu apelido de casa) já é um homem. Elvira, ele me disse que assumia a responsabilidade do ato dele em me desobedecer." Isso em parte me redimiu, mas eu não pude provar a meu pai o quanto eu o amava e o quanto eu o admirava.

LOU: Você provou naquele abraço e com a sua promessa.
CUNHA MALHEIROS: É... Mas...

LOU: Não sinta remorso, porque você provou a seu pai naquele momento, quando você o abraçou, que você não ia fazer mais...
CUNHA MALHEIROS: Mas eu queria poder provar através de atos que eu o amava...

LOU: Isso foi um ato de amor.
CUNHA MALHEIROS: Foi um ato de arrependimento...

LOU: E de amor.
CUNHA MALHEIROS: É... Foi.

LOU: Então vamos falar de suas poesias. Você é um poeta, né?
CUNHA MALHEIROS: Não sou um poeta, mas eu versejo em devaneio emocional. Meu canto é simples, qual um tênuo gorjeio. Falta-lhe o tom magistral.

LOU: Como é o nome dessa poesia?
CUNHA MALHEIROS: Não é poema. É a introdução ao futuro livro de versos "Meus Cantares", de Ariosto Cunha Malheiros, se eu puder publicá-lo.

LOU: E seu livro está adiantado?
CUNHA MALHEIROS: Não. Porque a impressão do livro hoje é cara. Se eu puder, se tiver tempo e saúde, quero publicar o livro "As melhores criaturas do mundo", tenho certeza de que ele será um best-seller, porque as melhores criaturas do mundo são os cães e este livro é um paralelo entre o cão e o animal hominídeo.

O cão detém, in natura, todas as decantadas virtudes do mundo que os religiosos dizem nas teologias e os não religiosos, pretensamente, dizem nas virtudes humanas. Mas não são nem humanas, nem celestiais.

Elas são qualidades caninas. São da natureza do cão. Ninguém ensina ao cão ser grato com aquele que o alimenta. Ninguém ensina ao cão ser o companheiro inseparável do homem. Não. O homem, erradamente é o dono do cão. O cão elege o homem como seu companheiro porque o homem tem qualidades semelhantes a ele, o cão. Ele festeja na família todos os que gostam dele. Abana o rabo, festejando-os. Mas há um na família a quem ele se dedica inteiramente. Não se afasta um segundo dessa pessoa. Acompanha-a por toda parte. E quando essa pessoa, por uma contingência qualquer, se afasta dele definitavente ou morre, ele não come mais, não bebe mais água, vai deitar no local em que seu companheiro convivia e ali morre de inanição. Se de saudade, não sei, ou aguardando a volta dele, não sei.

LOU: Muito interessante...
CUNHA MALHEIROS: E o homem é um mamífero ingrato. É um mamífero desajustado na própria natureza. É um animal isolado. É um animal que quer dominar a própria natureza. É um animal que quer modificar a natureza. Um animal que entra na mata para matar os outros animais, para maltratá-los. Eu, como estudioso de Antropologia, acho que o homem é um animal dementado, é um animal cruel e odiento, porque quando ele odeia, ele destrói aquele que ele odeia. Aquele seu semelhante odiado lhe implora que não o mate porque ele tem família, tem filhos para criar, e ele descarrega toda sua arma, ou o fura a facadas até a morte.

LOU: Mas você está citando um lado do homem, porque você percebe também o homem sensível dotado de amor, você mesmo fez e faz poemas de amor.
CUNHA MALHEIROS: O homem quando é bandido, ele é odiado. Porque ele é maléfico. Não sei qual é a religião que diz que os anjos se revoltaram contra Deus. A mim me parece que foi o anjo rebelde que venceu Deus porque o mundo que nós vivemos é tão injusto, é tão falso, é tão peçonhento, é tão maléfico, que só o diabo pode ser o senhor do mundo. Só o diabo se diverte com a nossa desgraça, com a desgraça humana.

LOU: Mas você me parece tão alegre, não me parece assim tão decepcionado com a humanidade. Você é cheio de amigos...
CUNHA MALHEIROS: Eu não sou decepcionado com as pessoas. Eu sou agnóstico e sou um materialista. Um filósofo com a filosofia materialista que formou os meus sentimentos. Eu argumento com fatos, não com hipóteses. A vida é assim.

LOU: Mas você não perdeu a alegria nem a esperança...
CUNHA MALHEIROS: Não porque eu sou estóico. O estoicismo faz com que nós vençamos a dor.

LOU: Ainda bem... Vamos falar das suas poesias. Como é aquela poesia que você fez intitulada "Distâncias"?
CUNHA MALHEIROS: Distâncias

Vir e ir - nascer, morrer -
e entre estes eventos
alguns passos breves - a vida -
correndo qual um rio.
E a vida é quase festa
às vezes, prolongada,
mas que termina sempre
em tempo limitado
por distâncias percorridas,
com tropeços,
por outros e por nós,
entre vindas e idas.

LOU: É linda! Agora me fale dos seus amores.
CUNHA MALHEIROS: Me parece... eu não sei se amei... na vida. Tive grandes paixões, inúmeras paixões. Como uma garrafa de álcool que nós ateamos fogo. Uma chama que sobe e depois se extingue, lentamente, até ficar uma tênue nódoa onde ela caiu. Eu tenho uma ode, que não sei toda de cor, mas que inicia assim:

Mulheres de minha vida,
Todas vós, por onde andais?
Poucas lembranças deixastes
mas, eu vos amei demais.
Eu as amei durante a minha paixão.

Um jovem romântico, fazendo pose no chafariz da praça XV.

Um dia eu perguntei a uma poetisa com quem mantive um romance: "Qual foi em nossa vida, o momento que você gravou mais?". "Foi aquele (ela me respondeu) em que você me susteve nos braços na Avenida Atlântica e me beijou."

LOU: Ah! Que máximo!
CUNHA MALHEIROS: O povo aplaudiu.

LOU: Foi mesmo?
CUNHA MALHEIROS: Foi. Eu a peguei nos braços e a beijei...

LOU: Em plena Avenida Atlântica?
CUNHA MALHEIROS: Em plena Avenida Atlântica!

LOU: Em que ano foi isso?
CUNHA MALHEIROS: 1940 e poucos. Eu tenho algumas poesias...

LOU: Você era avançado, hein? Avançadão! Naquela época beijar, assim, em público...
CUNHA MALHEIROS: É. Ela era minha paixão.

LOU: Como era o nome dela?
CUNHA MALHEIROS: Maria... Ela é casada.

LOU: Ela era casada na época?
CUNHA MALHEIROS: Era. Não sei se ainda é. Não sei se ela é viva. Mas ela é uma poetisa.

LOU: E o seu amor pela Ínis?
CUNHA MALHEIROS: A Ínis foi a primeira paixão da minha vida. Talvez, quem sabe, foi a mulher que eu amei na vida. Era uma prostituta. Uma prostitutazinha. Pequenina, mimosa. Casaram-na no interior de Santa Catarina com o sargento instrutor de um tiro de guerra. Casaram-na. Ela não amava o marido, mas compelida pela família casou. O marido, no dia do casamento, muito açodado queria possuí-la e ela vestida de noiva, linda, disse que ia mudar o vestido, escapou e fugiu, ganhando a estrada.

Na estrada, um caminhoneiro a encontra e diz: "pra onde tu vais?". Ela disse: "Não sei. Para qualquer lugar.". E ele disse: "Eu vou para Florianópolis. Você que ir?". Ela disse: "Quero". E ele a levou. E ele a deflorou na estrada. Chegado a Santa Catarina, ele a leva para um bordel. Era o melhor bordel da cidade. Ela muito bonitinha, muito jovem, passou a ser a vedete daquele bordel.

LOU: Como vocês se conheceram?
CUNHA MALHEIROS: Eu, ao completar 14 anos, vestido de calças compridas como homem, penetrei no bordel, sem que o Leão de Chácara me impedisse, porque ele me viu de calças compridas pensando que eu fosse um rapaz já.
A primeira porta que encontrei num corredor longo, eu abri. Lá estava a Ínis, sentada na cama, lendo uma revista. Os antigos devem se lembrar da Betty Boop que foi a precursora dos desenhos animados. Eu a vendo ali, perguntei: "Quanto é?". Eu tinha 50 mil réis no bolso, que meu pai me dera como presente de aniversário.

E eu perguntei: "Quanto é que você cobra para ficar comigo?". Ela disse: "30 mil réis". Eu achei caro. Era mais da metade da minha fortuna. Eu disse: "Você não deixa mais barato não?". Ela me disse: "Não, eu estou esperando o Poly, que era um dos donos de um restaurante na praia. E eu, em vista do rival, disse: "Tá bem! Eu pago para você."

Então, envergonhado, tímido, procurei me virar, pra me despir. Tirar a roupa. Quando ela me viu disse: "Você é uma criança! Não tem cabelos nas pernas! De quem você é filho?". Quando declinei o nome do meu pai, ela disse: "Ah! Você então é irmão...", e disse o nome dos meus irmãos mais velhos. Disse ainda: "Você deve ser o Babi, né?". Eu disse: "É!" Ela estava a par da família.

Depois, ao me despedir, eu quis pagar para sair. Ela me disse: "Olha Babi, Não! Não precisa me pagar não! Quando você quiser me ver, vem aqui. Você estuda no ginásio, né?" Eu disse: "É." "Então a que horas termina?". Eu disse: "Às 4 horas.". "Então passa aqui nessa hora porque mais tarde eu tenho que fazer sala. Não posso encontrar você." Eu me tornei diuturnamente freguês do bordel.

Um dia, eu a surpreendi no quarto com um cliente no ato amoroso.
Voltei, depois que o cliente saiu, e a levei à praia. Eu estava com instinto de vingança, tomado de um ciúme desesperado.

Pedi ao chofer o cinturão de soldado que tinha uma placa de metal. Arranquei-lhe o vestido e lhe dei uma surra com o cinturão de soldado. Nisso, o chofer me agarrou e disse: "Seu Babi, o senhor mata essa mulher. Pára ou o senhor mata essa mulher." E eu peguei aquelas roupas e levei e a deixei nua na praia e desci pra cidade.

Chegado na cidade, eu estava arrependido e peguei um chofer e voltei à praia com as roupas dela. Na estrada estreita, vi o carro do batalhão que voltava com ela, vestida com o casaco dele, do soldado, eu joguei o vestido lá dentro e voltei.

Dias depois, eu muito arrependido, voltei ao lupanar e uma rival dela, que se chamava paulistinha, falou:"A Ínis foi embora." E eu perguntei "Foi embora?". Aí a Mariquinha, a dona disse: "É, ela foi embora, foi para Santos, com um indivíduo que gostava dela. Você a maltratou. Bateu nela. Ela o seguiu.

Olha, Babi. Nunca ame uma mulher da vida. Você está estudando. O homem que se apaixona por uma dessas, nunca será nada. Acaba como um cáften. Você não quer ser como o seu pai, como seus irmãos? Você tem uma família, tem um nome. Foi até bom para você.

LOU: E como você ficou?
CUNHA MALHEIROS: Eu fui à praia, retornei ao mesmo lugar e gritava: "Íris, Íris.", como se ela me ouvisse. Minha mãe não sabia onde eu estava e chorava, pensava que eu tivesse me jogado da ponte. Eu me alimentava de pão, um pedaço de queijo... durante uma semana.

Retrato de família: Cunha Malheiros é o que está ao lado direito da mãe.

O carro do batalhão vinha de volta da base naval e o subcomandante do batalhão disse: "Babi, entra aqui. A sua mãe tá desesperada, o seu pai está desesperado. Venha comigo." E eu disse: "Eu só vou numa condição. Que ninguém me pergunte nada." "Ninguém vai lhe perguntar nada. Você tem a minha palavra. Eu vou falar com o comandante. Nunca ninguém vai lhe perguntar nada". E assim foi. Nunca ninguém me perguntou nada.

LOU: Parece até novela. Agora me conta uma coisa. O seu livro já está todo batido?
CUNHA MALHEIROS: Não. Eu estou fazendo revisão. Tenho que ajustar várias poesias. Tem uma poesia que vou dizer a você. É uma das primeiras poesias, é de um lirismo...

"Tu és, eu juro"

És lusco-fusco.
És alvorada.
És a manhã ensolarada.
És a penumbra do crepúsculo.
És a estrela mais brilhante
em noite calma, enluarada
Que guia o amor febricitante
a sua alma enamorada.
És a gotinha de sereno
adormecida em leito ameno
de cravo, lírio ou mal-me-quer
Que despertou no agasalho.
se adelgaçou em orvalho
E se transformou em mulher.

LOU: Fala a poesia da Chave.
CUNHA MALHEIROS: "A Chave"

Joguei a chave no mar.
Minha arca está vazia.
Meus tesouros, já gastei.
Todas riquezas que eu tinha
consumiram as mulheres que amei.
Cada uma que me vinha,
desgastava meus princípios,
de sentido possessório,
que eram todos os haveres
encerrados no meu cofre.
Agora, entrado em estio,
desmotivado, vazio,
sem nada mais ter,
para guardar,
eu joguei minha chave
nas águas crespas do mar.

LOU: Sobre o livro que você quer publicar, só está dependendo de uma revisão e de uma editora?
CUNHA MALHEIROS: É, mas as editoras não editam um livro de um poeta não consagrado. Só editam poesias de poetas consagrados porque senão eles não vendem. Raramente um indivíduo compra um livro de poesias de um poeta desconhecido.

Então o indivíduo tem que editar o livro por conta própria e como a página impressa é cara, a tiragem se torna cara, eu penso em editar um caderno, seria uma seleção de algumas das poesias do livro, a ser editado, "Meu cantares", de Ariosto Cunha Malheiros. Esse caderno seria uma amostra; teria 25 poemas para eu dar de presente só para pessoas como você que gostam das minhas poesias. Queria deixar um pedaço de mim, com este poemeto como introdução:

"Autocrítica"

Não sou um poeta,
mas eu versejo
em devaneio emocional.
Meu canto é simples,
qual tênue gorjeio,
falta-lhe o toque magistral.

E termino com:

"Conceito"

Nada ao tempo
e à razão resiste.
Tudo é mera noção.
A sabedoria do viver
consiste em beber,
até não mais poder
nas fontes da emoção.

LOU: Viu? Seu neto gostou, ele falou: muito bom! Quantos anos ele tem?
CUNHA MALHEIROS: 19 anos.

LOU: Ele é seu fã.
CUNHA MALHEIROS: Se eu puder terminar, se tiver tempo e saúde essencial pra terminar de fazer " As Melhores Criaturas do Mundo", eu tenho certeza que seria um Best-Seller, pois quem gosta de cão compraria o livro. Eu desejo fazer uma versão em português, uma em espanhol, em francês e em inglês. Eu tenho uma sobrinha que é uma boa ilustradora, eu queria ver se ela ilustrava o meu livro.

LOU: Você vai conseguir fazer seu livro. Conte comigo! Temos que continuar sonhando. Como é a sua poesia do sonho?
CUNHA MALHEIROS: Eu digo: - o encanto da vida é o bem imprevisto. Por isso:

"Só a incerteza é certa"

Até quando sonhamos
e queremos este sonho realizado,
quando ele se realiza
é um encantamento.
Como a incerteza é certa,
o sonho poderia não se realizar.

LOU: O "Velhos Amigos" agradecem muito a sua entrevista e nós vamos fazer uma força para realizar seu sonho de publicar os seus livros.
CUNHA MALHEIROS: Eu que agradeço o interesse demonstrado pelo Velhos Amigos.
E ofereço este poema:

"Velhos Amigos"

Velhos Amigos,
sêres preciosos
quais jóias raras,
que resistem
ao nosso uso
durante o tempo.
E que guardamos
nos cofres d'alma,
por toda vida,
até que a morte
conosco os leve
para o Além...
esse desconhecido
de quem ignoro tudo,
infelizmente tudo!
a seu respeito.

Revisão: Anna Eliza Führich

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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