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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

DARCY DANIEL DE DEUS
publicado em: 11/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 16/11/2004

"Quando eu terminei o curso de odontologia, senti qualquer problema, fui ao médico, e estava tuberculoso.
E era por causa da alimentação, pelas necessidades que eu passava. Aí eu pensei até em me suicidar. Fiquei pensando em Pão-de-Açúcar ou Corcovado?

Darcy Daniel de Deus é filho de Oscar Daniel de Deus e de Elzira César Daniel de Deus, nasceu na Tijuca no dia 3 de janeiro de 1923, é torcedor do América, trabalhou por 50 anos no IBGE, tornou-se um líder de classes, comeu o pão que o diabo amassou e, hoje, aos 81 anos, mantém a mesma fibra pra lutar pelo terreno no bairro de Botafogo que inclui o Canecão. "É briga feia. Cheia de maracutaia," ele diz e comprova.

LOU: Conta pra nós um pouco da sua vida, tão cheia de luta e vitórias.
DARCY: Bom. Eu nasci Darcy Daniel de Deus, filho de Oscar Daniel de Deus, que foi professor e redator durante o início do Jornal O Globo, e minha mãe se chama Elzira César Daniel de Deus. Nasci na Tijuca, na Rua Mariz e Barros, em frente à Igreja de Santa Terezinha, a minha santa devota, onde me seguro em todos os meus problemas, e por nascer na Rua Mariz e Barros, e por ser um americano doente, um dos poucos desse time que hoje faz cem anos. Sou professor da UFF há 38 anos.

Nasci no dia 3 de janeiro de 1923 e estudei primeiro na Escola Pública Bezerra de Menezes, na Tijuca; depois estudei no Colégio Pedro II; e, mais tarde, eu fiz concurso para o IBGE, no censo de 1940, tendo passado, comecei a minha vida como servidor público. E daí eu fiquei no IBGE até 1990

LOU: Você também se formou em odontologia?
DARCY: Aqui no Rio. Eram apenas duas faculdades, uma em Niterói e outra aqui no Rio, a Nacional e eu resolvi fazer Odontologia.
Acontece que eu fui chamado pra ir pra Goiás e fiquei muito contrariado. Mas mal eu sabia que papai do céu tava me chamando pra maior facilidade da minha vida. Porque ao chegar em Goiás, disseram: vai ser fundada a primeira faculdade de odontologia de Goiás. E o carioca aqui foi o primeiro aluno a se inscrever no concurso. E naturalmente passei porque tinha muito menos aluno do que vaga. Fui premiado e comecei o meu primeiro ano de odontologia em Goiás. Eu estou em falta com Goiás e com minha faculdade, pois eu gostaria de voltar pra ver em que situação está a faculdade que eu ajudei no berço e que agora cresceu.

LOU: Você morou em Goiás, antes da construção de Brasília?
DARCY: No IBGE eu fiz carreira, fui ser chefe da estatística do estado de Goiás. Morei em Goiânia em 1946, antes de Brasília ser fundada. Conheci a região onde está a capital antes de ser a capital. Era uma região linda, muito bonita, cheia de muitos animais. Era uma beleza aquela região. Depois de Goiás eu fui convidado e mandado para Porto Alegre. Fui ser o chefe da estatística da capital em Porto Alegre. Não conhecia o que era frio. Passei maus momentos. Morava bem perto ao palácio, na Rua Duque de Caxias. Mais tarde, e fui convidado pelo IBGE, designado e mandado para Manaus... onde até hoje tenho grandes lembranças e amizades. Essa semana mesmo recebi o desembargador Erasmo Lins de Jesus Alfaia, de Manaus, e hoje almoçamos juntos. Além de desembargador, é presidente da justiça de Manaus e, ao mesmo tempo, o funcionário nº 1, mais importante da Philips de Manaus. E relembramos aquele tempo, porque na época o Erasmo foi salvo por mim. Ele estava respondendo a inquérito administrativo - injusto - e foi, desculpe a minha ousadia, a minha coragem que fez ver que tudo aquilo que estavam jogando em cima dele era mentira. Assumi e enfrentei as ameaças lá em Manaus. Daí é que nasceu essa nossa amizade.. Mais tarde eu resolvi estudar Odontologia. Eu estava em Goiás. e fui pra Porto Alegre, para onde transferi meu curso de odontologia. E aí o IBGE já me mandou pra outro lugar e tive que transferir de novo o meu curso de odontologia de Porto Alegre pra Niterói, onde me formei. E fiz boas amizades. Fui convidado e fiquei pra ser professor na UFF, por 38 anos. E tudo que eu hoje tenho e sou, devo muito à Odontologia.

LOU: Você juntava o trabalho do IBGE com a odontologia. E no IBGE, qual era o seu trabalho?
DARCY: Era mais estatística e pesquisa. Depois é que me formei em Odontologia, em 1950. E aí será gravada uma história interessante que no livro não consta: naquela época como não tinha dinheiro pra comer, na hora de fazer o prato do almoço, eu pegava o pão que vinha, olhava prum lado, olhava pro outro, via que ninguém tava olhando, pegava o pedaço da carne no pão, enrolava, botava no bolso e ia ser o meu jantar na faculdade, à noite. Eu só ia jantar lá pras onze e meia, meia noite e dali estudava até três da manhã.

LOU: Por que? O serviço público não pagava bem?
DARCY: Eu ganhava muito pouco, não dava pra eu almoçar e jantar Quando eu terminei o curso de odontologia, senti qualquer problema, fui ao médico, e estava tuberculoso. E era por causa da alimentação, pelas necessidades que eu passava. Aí eu pensei até em me suicidar. Fiquei pensando em Pão-de-Açúcar ou Corcovado? Corcovado ou Pão-de-Açúcar? No final, eu estava um dia na cidade preocupado com esse problema, descrente da vida (até me deu vontade de chorar, agora me emocionei), aí encontrei um amigo meu, que era médico na Santa Casa, me apanhou e disse: - Vamos na Santa Casa. Eu fui e devo ao Dr. Augusto Ulhoa por eu estar aqui, dando esta entrevista.

LOU: Você participou de alguma greve dos funcionários do IBGE?
DARCY: Naquele tempo não se chamava greve; chamava-se revolução.
Houve uma insubordinação de todos os chefes do IBGE Todos pediram demissão no mesmo dia pra botar pra fora o presidente do IBGE, que, naquela ocasião, pela primeira vez, era um militar, o General Poly Coelho (tô bom de memória!). E quando eu cheguei tava tudo fechado, polícia na porta... E eu já era metido a líder e fui direto ao gabinete do General, dizer a ele que nós, funcionários, não estávamos contra ele. Se ele abrisse as portas do gabinete, eu iria mostrar que ele tinha nosso apoio. O que havia era um movimento dos chefes. Ainda mais depois que ele disse, numa entrevista no Correio da Manhã, que as estatísticas do IBGE eram iguais a um relógio com ponteiros atrasados. Naquele tempo as estatísticas, quando eram publicadas, vinham com 5, 6 anos de atraso.
Ele foi ser muito sincero e se deu mal, porque todos os chefes se sentiram humilhados. Ele me disse que eu estava autorizado a fazer o meu movimento. Eu corri os andares, peguei os funcionários que pude e a sala dele ficou cheia. E então, em nome do meu pessoal, pedi a ele que desse uma oportunidade para o pessoal voltar e ocupar a chefia porque a maioria precisava daquele cargo pra continuar sustentando a sua família. Ele aceitou e passou uma circular dando 48 horas para que os chefes voltassem a trabalhar. Quarenta e Oito horas depois, como ninguém conseguiu convencer os chefes a voltar a trabalhar, eles foram demitidos dos cargos e eu entreguei ao presidente uma relação, na qual cada seção havia escolhido seu próprio chefe, sem sofrer qualquer interferência.

LOU: Você aí já estava se revelando um líder.
DARCY: Então, o Dr. Darcy Daniel de Deus passou a ser o líder do movimento e salvei o presidente. Moral da história é que na hora H, eu sobrei e eu não me indiquei pra cargo algum. Então, houve aquela gritaria: - Mas por quê? Eu disse não, não fica bem eu estar na frente do movimento e levar vantagem nesse negócio. Depois eu sugeri: - se o problema é de querer me ajudar em alguma coisa eu prefiro que ajude a coletividade. Nós precisamos de um gabinete dentário. Eu sou dentista, me formei agora.
E o plano odontológico do IBGE foi implantado a partir desse movimento em 1950.

LOU: E quantos anos você tinha nessa época?
DARCY: Estava com 27 anos. E dali nasceu também a Escola Nacional de Ciências Estatísticas, que até hoje é um sucesso e que é responsável pelo progresso da estatística no Brasil. Hoje, se a estatística tem nome, tem cérebro, tem gente inteligente acompanhando toda a evolução em todo o recanto, em todos os pontos da indústria e do comércio deve-se à formação da Escola Nacional de Ciências Estatísticas - a ENCE, no bairro do Riachuelo, no Centro. Foi um trabalho nosso, em que eu iniciei, porque no IBGE tinha muito chefe de serviço que não tinha nem o curso ginasial completo. Foi feito um levantamento no IBGE, nos cadastros, a meu pedido (eu era danadinho, não era?) e aí, resultado: constatou-se que muita gente não tinha nem o primário e era chefe. Aí foi feito realmente um cadastro do pessoal novo, que estava entrando pra chefia, que veio com outro gabarito. E daí surgiu a ENCE que hoje ainda está aí. Meu nome, eu acho, nem consta lá como um dos cabeças do negócio, e sempre aparece depois dos autores, que não são nem capazes de contar a história como eu estou contando, como e porque surgiu. E devemos ao professor Lourival Ubaldo Câmara, que era de Santa Catarina. Ele era um cidadão magrinho e até um pouco doente, mas era uma capacidade intelectual, muito inteligente e ele chefiou todo esse movimento técnico e fez o IBGE ter uma outra importância. O IBGE hoje tem um trabalho estatístico muito respeitado, muito bonito porque a ENCE forneceu uma porção de pessoas formadas, evoluídas, e com isso o IBGE hoje tem um corpo de técnico muito bom, que é aproveitado pra vários estudos importantes pro País.

LOU: E , você continuou exercendo a sua profissão de dentista?
DARCY: Além de dentista, fiquei na faculdade como professor. Como eu trabalhava no IBGE em horário integral, passei a lecionar no turno da noite. Mais tarde, achei por bem passar o plano odontológico do IBGE aos nossos colegas nos stands e eu levei o plano odontológico do IBGE para São Paulo e também para a Bahia. Nesse intervalo eu mudei de atividade e o assunto não teve progressão. Fui chamado pra servir no gabinete do Ministro da Fazenda, esqueci o nome, que era uma inteligência, uma sumidade, um que foi da Fundação Getúlio Vargas. Então, mais tarde, acabei sendo presidente do Clube dos Ibegeanos"" e como presidente deste clube, graças a Deus, tive uma passagem muita boa.

LOU: Você desenvolveu atividades de assistência, além de programar festas sociais.
DARCY: Fiquei lá 12 anos, como presidente e fazíamos umas festas maravilhosas de Natal para os filhos dos funcionários aos quais oferecíamos presentes maravilhosos. muito bons, Era realmente um sucesso e eu consegui fazer com a administração e a ajuda do presidente do IBGE, Jurandir Pires Ferreira, um serviço de atendimento às mães que tinham filhos e que tinham que trabalhar e não tinham onde deixar os filhos. Jurandir Pires Ferreira, era pessoa maravilhosa, era uma personalidade inteligentíssima, um homem dedicado, foi o autor da Enciclopédia dos Municípios, uma obra maravilhosa do IBGE, da qual todos os municípios participaram.

A MARACUTAIA

O dr. Jurandir ficou muito meu amigo e então eu pedi a ele que desse uma colônia de férias pros funcionários do IBGE. Ele me autorizou a escolher um local e eu fui pra Miguel Pereira, Rezende, Petrópolis, pra vários lugares, arranjar um local para construir colônia de férias.

LOU: Conta como é que naquele tempo já havia tanta "maracutaia"...
DARCY: Minha filha de Deus, é bom que eu lhe diga isso, porque pelo menos em algum lugar fica registrado. O Dr. Jurandir confiou em mim. Eu podia escolher o local que quisesse. Brasil é Brasil! Eu fui levado até os gabinetes da Câmara de Deputados, que ainda era aqui no Rio de Janeiro, na Rua 1º de Março com São José. E eu fui pra lá pra ser induzido a comprar uma colônia de férias de um sem-vergonha de um secretário da Câmara dos Deputados (não sei como eles souberam do negócio). Eu sei que me chamaram, me colocaram contra a parede e eu fui pro Jurandir e pedi pra me tirar do negócio porque a coisa tava sendo deturpada. Eu estou procurando escolher o local e estou sendo pressionado. Estou chegando da Câmara dos Deputados e fui levado lá por gente do seu gabinete que deu o serviço.
"- Quem foi?"
- Não vou dizer, o senhor vai saber que foi gente do seu gabinete, que está do seu lado pedindo pro senhor escolher essa ou aquela, eu vou lhe dar as que eu já tenho e o senhor resolve o que quer. Aí um dia eu fui surpreendido com o Jurandir, que mandou me chamar. Ele disse que já sabia de tudo e que queria me dizer o seguinte: "Como o senhor é um idealista, eu vou deixar o dinheiro com o senhor e o senhor compra o que o senhor quiser." Eu disse: - Presidente, se o fogo na sua mão tá ardendo, na minha vai pegar fogo com muito mais facilidade; o assunto pra mim tá encerrado. Não entro mais nesse negócio. Eu tava pra me casar naquela ocasião e o dono do restaurante tinha uma casa velha lá em Miguel Pereira e cismou que tinha que ser lá o local da colônia de férias. Ele disse: - Você não vai casar? Naquele tempo a televisão estava aparecendo e era um troço! Aí ele ofereceu uma televisão pro meu casamento. Eu disse que não queria saber do negócio. Eu sempre fui muito besta, muito honesto, mas minha mãe e meu pai me ensinaram assim... meus avós... É uma questão de família. Eu aqui nessa associação podia estar rico, milionário se eu fosse um pouquinho, um pouquinho só safado. Pelas coisas que eu já fiz, pelas coisas que já comprei, o patrimônio que fiz... Só de construção de habitação no Brasil pra servidor público no tempo do BNH, o que eu consegui no BNH, na época da revolução... ninguém se metia na minha frente que todo mundo me respeitava.

LOU: Então, eu vou lhe dizer: - Você é um prêmio pro nosso site, nosso site VelhosAmigos é um oásis nesse mundo cão que você tá descrevendo aí. Quando surge uma pessoa como você, não deve dizer que era um besta, um bobo. Você é um exemplo. Todos vão ficar muito felizes em conhecer o Darcy de Deus.
DARCY: O problema é que eu construí mais de seis mil casas. Hoje não ouço ninguém dizer. Eu construí na Paraíba, na Bahia, tem fotografia nesse livro que eu estou lhe dando, com Antônio Carlos Magalhães, como governador da Bahia.

LOU: Construiu casa pra pobre?
DARCY: É pra servidor público pobre.

LOU: E a colônia de férias?
DARCY: Eu acabei desistindo. Eu disse: - Presidente, acaba com esse negócio porque não vai dar certo nem pra mim, nem pro senhor. Compre o que comprar, vão falar mal ou de mim ou do senhor. E tem mais: o movimento sai do seu gabinete. Eu não vou dizer quem é, porque o senhor sabe melhor do que eu quem está em volta, pedindo por esse ou por aquele.

E o Jurandir faleceu. Era tido como homem venal. Mentira, infelizmente da nossa imprensa. Tem uma imprensa que é muito séria, mas tem uma que se não gosta de você, eles falam de você coisas inverídicas e jogam como se fosse verdade. Dr. Jurandir era uma capacidade intelectual e um engenheiro fora de série, mas era político e com isso, coitado, ele ficava sendo muito visado. Se você pegar uma pessoa idosa que conheceu na época do Dr. Jurandir, vai dizer que aquilo era um safado! Mas não era não. Foi o mesmo risco que eu sempre corri, de dizerem que eu era um safado.
E eu sou um duro. Nunca levei um pouquinho de vantagem. O que eu fiz no governo do Médici, filha de Deus: o que eu consegui no governo revolucionário!...

LOU: E naquela época você tinha algum cargo?
DARCY: Eu era o presidente da Associação dos Servidores Civis do Brasil (ASCB). Entrei em 70.
É bom que tenha isso aí gravado: eu fui contra a revolução, não gostei da revolução, não gostava de militar, mas hoje eu tenho saudade do regime militar. Porque naquela época, Darcy Daniel de Deus ia à Brasília e era recebido com todo o respeito no Palácio. E lá, eu nunca saí de mão abanando, sempre fui ouvido e sempre me atenderam. Hoje eu não peço pra ir ao Lula de jeito nenhum, porque sei que lá não vou conseguir nada a não ser que eu tenha que entrar nessa safadeza que anda por aí, que todo mundo vê e tá todo mundo sentindo. O grande fato é que naquela época, você ia ao palácio e era respeitado, resolvia e era atendido e saía feliz da vida.

LOU: E como você foi presidente da Associação?
DARCY: Foi porque os comunas queriam tomar a Associação dos Servidores Civis do Brasil. Eu não suportava a ASCB, mas era sócio e eu era presidente do clube dos Ibegeanos. E eu tinha muito prestígio com todos os outros ministérios porque eu fazia movimento político em torno da minha classe e com isso eu consegui que meu nome tivesse uma penetração muito grande na imprensa. Eu tava sempre na primeira página do jornal, em rádio, televisão. Eu tenho uma colega que foi morar nos Estados Unidos e mandou pra mim um jornal, onde meu nome apareceu nos Estados Unidos. A matéria vinha elogiando um maluco que tinha no Brasil, que defendia a classe e enfrentava os militares.
Por isso nunca me incomodaram. Porque eles verificavam que eu não tinha partido, eu tinha idealismo e quando eu falava, eu falava com base, não era por falar. O grande fato é que eu consegui com o presidente Médici, um ótimo prestígio pra nossa classe e você vai ver no livro que eu estou lhe oferecendo, que nós conseguimos o PASEP pra classe. O PASEP foi um trabalho nosso; a aposentadoria da mulher aos 30 anos; os qüinqüênios; o anuênio; a contagem recíproca, ou seja, o seu tempo de comércio, de indústria não contavam, se você fosse pro serviço público e vice-versa. Não contava pra aposentadoria e nós conseguimos fazer com que esse tempo fosse contado. Tudo isso foi trabalho nosso, do Dr. Darcy Daniel de Deus.

MARACUTAIA NA POLÍTICA

LOU: Você nunca foi deputado nem se candidatou?
DARCY: Nunca fui deputado. Não fale em deputado que eu choro. Fui convidado pra ser deputado. Aí eu entrei. Só que naquela época eram dois partidos: ARENA e MDB. Se eu entro pelo MDB era um banho. Mas eu, por agradecimento ao governo, pelo apoio que me dava, eu entrei pela ARENA. E qual foi a minha surpresa? Porque em todos os jornais eu tava eleito, pelas prévias eu tava eleito. Aí houve a eleição.... Eu era candidato pelo Estado do Rio. Vieram as eleições e eu fui pra colônia de férias em Petrópolis, pra descansar. O resultado veio e eu tava na frente. Quando saiu o resultado oficial, cadê o Darcy? O Darcy não entrou. E eu fiquei muito revoltado com a minha classe. Eu sou muito desbocado. Vou respeitar você que é mulher e eu estou conhecendo hoje. Não vou te dizer, fiquei furioso, disse palavrão pras paredes, disse que classe miserável! Eu faço tudo e na hora...

EURICO: Quantos associados tinham?
DARCY: Não eram só associados, era a classe toda. Na hora H eu não fui eleito e fiquei revoltado. Bom, passam-se dois anos e eu estou trabalhando e recebo um convite pra ir a um banquete no Hotel Glória, em homenagem ao Figueiredo. Aí, eu chego lá e quem encontro na entrada? Léo Simões, deputado federal, e o Gil Macieira, presidente da Câmara (eu dou o nome e sobrenome!).

- Ô Darcy, que bom te encontrar! Quando acabar o banquete vem conosco. Eu dispensei meu motorista e saí com eles quando acabou o banquete. Viemos pro gabinete dele aqui na Caixa Econômica, na Avenida Rio Branco. Fomos lá pra cima, fechamos as portas e conversa vai, conversa vem. O negócio é o seguinte:
- A razão do convite é que estávamos procurando você pra te chamar. Nós temos eleição daqui a dois anos e você é o nosso candidato, porque nós temos que te dar a forra. Eu disse: - Que forra? Nós tiramos os teus votos (falou isso na minha cara, filha!). Nós roubamos os teus votos porque você não gastou tostão nenhum e foi eleito. E nós tínhamos que eleger dois amigos nossos que tinham gasto um dinheirão (tudo isso dito na minha cara! Grava aí). Gil Macieira já morreu e eu lamento - e o Léo Simões. Eu fiquei estupefato e realmente sentido. E agora vai ter eleição daqui a dois anos e você vai ter a forra e nós vamos te dar tudo que demos pros outros e dessa vez você vai ser eleito. Você se candidatou? Nem eu (risos).

LOU: Você não quis mais saber de política?
DARCY: Nunca mais quis saber de política. Eu, com político, só me dei mal. Tinha uma outra safadeza aí... eu tinha muito prestígio naquela ocasião. Com esse negócio deste livro, você vai ver um negócio aí - a caderneta de poupança Delfim - que era forte no Humaitá. Um dia eu estou trabalhando e chega lá um grupo bacana, três caras alinhados, que vieram falar comigo. Dr. Darcy, estamos aqui a mando do ministro Golbery pra falar com o senhor e fazer um convite pra uma reunião às 6 horas da manhã no edifício da Delfim, no Humaitá. Seis horas da manhã? Isso é reunião de leiteiro! Filha de Deus, eu fui às 6 da manhã numa reunião no Humaitá, a convite do Golbery do Couto e Silva, e quando eu chego lá, só tinha gente importante. O único perna-de-pau era eu; o resto era tudo importante. Filha de Deus, a Delfim tava com um problema que não tinha tamanho pra resolver. Eu não sei porque me chamaram. Pois bem, pra simplificar: a Delfim tinha e tem lá em Jacarepaguá um conglomerado de mais de mil apartamentos. Eu tô te contando e está na ata da associação de diretoria do conselho e diretoria da Associação.
Me convenceram que eu deveria ficar com aqueles apartamentos todos pra Associação e depois do assunto resolvido, eu devolveria tudo pra Delfim. Aí eu perguntei: - o que a Associação vai levar com isso aí? Não estou entendendo.
- O senhor não tá interessado no processo do Canecão?...

LOU: ( Risos) Chega a ser engraçado se não fosse trágico...
Lou, meu amor, eu, Darcy Daniel de Deus, já passei por tantas posições difíceis, com pessoas do mais alto gabarito, que fico às vezes decepcionado e triste quando vejo meus três netos e penso: - caramba, coitado deles, o que será o Brasil pra essas três crianças que vêm por aí?

LOU: O Golbery envolvido nessa?....
DARCY: Ele já morreu, mas era um safado que não tinha mais tamanho. Me mandou um documento e tenho carta dele. "- Eu mandei?" Mandou sim senhor, tá aqui a cópia. Mano a mano, porque eu também sou malcriado. Aqui, o senhor quer ler essa carta? A assinatura é sua, foi o senhor quem mandou essa carta. Como diz que desconhece o assunto? É o assunto do Canecão também. O que ele segurou o processo do Canecão... Tem muita gente interessada nesse processo.. O único bobo sou eu, Darcy Daniel de Deus. Filha de Deus, nunca despreze um humilde cidadão, porque às vezes é ali que está a solução. Eu, graças a Deus, sempre me dei bem com essas pessoas humildes. Uma pessoa, um crioulo para o qual arranjei uma vaga pra ganhar dinheiro, arranjando um espaço pra guardar carro, ali perto do aeroporto, um dia soube que eu estava passando por esses problemas, me procura pra dizer: - Presidente, posso lhe ajudar? Eu digo em que? Não, é que eu tô sabendo que o senhor tá passando uns problemas aí e tenho uma pessoa que é muito minha amiga, e é muitíssimo amiga do ministro Golbery. Eu vou dar o nome dela: Alice Tamborindeguy. Eu não a conhecia, mas ela também gostava muito desse mesmo crioulo e ele me levou lá ao lado do Copacabana Palace, no Edifício Chopin, e ela me recebeu com muita simplicidade, muita cortesia. Então eu entrei no assunto e contei a ela. Ela simplesmente me disse: - Dr. Darcy, o senhor me dá 15 dias pra resolver esse assunto? Eu disse: - D. Alice, 15 dias? Eu tô há anos de um lado pro outro e a senhora vai me pedir 15 dias? Pode deixar, com 10 dias o senhor pode olhar que o processo tá solto. E com 15 dias, o Sr. Golbery soltava o processo que tava na mão dele, que foi pro Tribunal Federal de Recurso. O ministro, que estava pra relatar, estava segurando a mando do Golbery. No final, eu já estava no tribunal como se fosse funcionário do tribunal. Todo mundo me conhecia. Lanchava com os ministros, mas soltar o processo, não soltavam. Até que foi julgado, depois que o Golbery deu o sinal verde. Foi julgado e nós ganhamos por 3 x 0. A reitoria mudou seus advogados e botou na equipe nova, Aldir Passarinho Júnior, olha que tô gravando isso no dia de hoje, dia 05 de outubro de 2004, o Aldir Passarinho Júnior nada mais é do que filho do Aldir Passarinho, ministro presidente do Supremo Tribunal Federal. Olha só, no Brasil tem milhares de advogados e a reitoria foi escolher exatamente o filho do presidente do Supremo Tribunal Federal. Gente, pomba, quer prova de safadeza maior que essa? Pois bem, entraram bem. No segundo julgamento, nós ganhamos por 3 x 0. Foram pro 3º, de novo: 3 x 0 e aí foi pro supremo. No supremo perdemos por 3X2. Entendeu? O julgamento foi de um cinismo, de uma cara-de-pau tão grande, que nós ficamos realmente surpresos porque nós não tínhamos sequer a noção do que poderia acontecer. Quando o relator acabou de ler o processo, o presidente pediu a palavra e entrou num pau contra o relator. Mas foi uma briga, uma discussão, como se ele fosse advogado da associação. Ele ficou revoltado com o cinismo, com a cara-de-pau do relator, como ele matou o pau da primeira frase até a última contra a associação. Chegou ao ponto, na ânsia de defender tanto o Canecão e a reitoria, tá no livrinho, a ponto de dizer uma coisa no nome de uma autoridade jurídica internacional, que é o Marcelo Caetano, jurista português de renome internacional. Ele chegou a dar um pensamento em que ele dá uma expressão técnica como sendo do Marcelo Caetano, quando o Marcelo Caetano disse exatamente ao contrário. Aí foi um pau danado e o presidente brigando lá com ele, chegou ao ponto de dizer: - Vou pôr em votação, mas antes quero saber se alguém vai pedir vista. Se ninguém for pedir vista, eu mesmo pedirei. O meu diretor tesoureiro, que era irmão do deputado dr. Décio Coimbra, era um médico cirurgião, ficou tão revoltado que vomitou nos tapetes do supremo, foi uma vergonha, uma sujeira. Aí o ministro Galloti pediu vista, 30 dias depois o Galloti deu um parecer exatamente acompanhando o raciocínio do julgamento do Rio e dos três julgamentos do Tribunal Federal de Recursos, só não acompanhou o raciocínio do relator do Supremo. Aí o outro ministro Sidney Sanches pediu vista, levou e quando trouxe, votou com o relator. Eu não posso falar, não tenho provas, tenho que calar a boca e o Oscar Dias Corrêa, por sua vez, estava como presidente do Tribunal Federal Eleitoral, exatamente com o pai do outro advogado da reitoria, tudo entrelaçado....

LOU: Que horror...
DARCY: Aí, minha filha, ele votou também contra nós. Perdemos por 1 voto. Foi - 3 x 2 -, em 1987 ou 88. Estamos em 2004. Eu esperei que esses moços se aposentassem,. Tive paciência de esperar que o Oscar Dias Corrêa se aposentasse; tive paciência de esperar o Sidney Sanches se aposentar; e tive a proteção divina de não morrer e esperar que a força, agora aposentada em abril desse ano, o último, se aposentasse: o Sidney Sanches. Digo: - bom, então tá na hora de eu mexer agora com o processo, . pra entrar em julgamento neste ano, em abril, e está agora com 5 meses. O processo agora começou a tomar as perninhas e andar novamente. Mas tá tudo armado contra mim e contra a associação. A coisa está feia e eu estou muito preocupado, porque os ministros que entraram pelos primeiros julgamentos que eles participaram, não estão me inspirando grande sol pela frente. Porque o julgamento dos aposentados foi uma decepção. Outro julgamento que estamos tendo por aí, houve até ministro que pediu pra julgar outra vez e mudou até o voto. Então, estamos verificando que a coisa é realmente difícil e eu estou sabendo nesse momento que eu estou gravando pra vocês, que eu recebi telefonema de Brasília, que os advogados do processo do Canecão estão andando com o processo pra lá e pra cá, na mão, levando para o Procurador Geral da República, na mão, na mão, na mão e o processo tá na mão dos moços e já está correndo pra entrar em pauta. Eu estou cumprindo a minha obrigação de presidente...

LOU: E no procurador você confia, né?
DARCY: Confio tanto que o processo entrou num dia e saiu no outro. Disse alguma coisa de errado? Quando tem processos lá há anos e anos. O processo entrou na mão do advogado e saiu na mesma hora. Não levou 8 dias. Eu já vi que vem pimenta malagueta aí pra cima de nós. Mas o que eu posso dizer é o seguinte: - enquanto eu tiver forças, eu vou lutar contra essa cambada de safados que ainda estão no poder.

LOU: Mas o que você quer com o Canecão? Quer fazer o quê?
DARCY: O problema todo é porque o presidente Getúlio Vargas e o Eurico Dutra deram pra Associação dos Servidores Civis do Brasil, em 1950, um terreno que é esse terreno onde está o Canecão, em Botafogo, e a lei e todas as leis e todos os decretos leis e tudo que se refere a este assunto no Tribunal de Contas da União, tudo isso está rigorosamente cumprido. Nunca houve nenhuma legislação que deixasse de ser cumprida pela associação. Não sou eu quem digo; é o livro que está dizendo que quem me disse é o próprio reitor, que o reitor não gostava da associação e ele lembrou que o irmãozinho dele foi colega de turma no Colégio Militar do Castelo Branco, que era o Presidente da República. Tá no meu livrinho aqui, foi ele quem me contou que então ele lembrou que o irmão tinha sido colega também em Agulhas Negras do Castelo Branco e que o presidente da República era o Castelo Branco. O que ele fez? Pegou o irmãozinho, quem me contou foi ele, pegou o irmãozinho e escreveu e pediu o irmão pra levar pro Castelo Branco e o Castelo Branco evidentemente foi enganado, e é bem capaz do irmão ter sido enganado pelo reitor Muniz Aragão. O grande fato é que o Castelo Branco assinou um papel errado. É esse erro que nós estamos mostrando que existe e que eu quero que seja corrigido, mas que não estão corrigindo porque em todas as leis desse assunto, a associação cumpriu todas. O ministro Clóvis Ramalhete, que foi procurador Geral da República, foi Ministro do STF, ligou e pediu pra conhecer o processo. E eu pensei que fosse piada e acabei sendo grosso com ele e desliguei. Ele ligou novamente e eu acabei indo levar no gabinete dele tudo que eu tinha do processo e ele me pediu 30 dias pra estudar e fez um parecer que está aqui. O parecer dele me mostra citando inúmeros juristas nacionais e internacionais provando por a + b que está tudo errado. E o meu medo é que este processo seja aprovado lá em Brasília por esses dias, ignorando esse erro. Porque ninguém vai ver. A não ser o palhaço Darcy Daniel de Deus, que está falando pra você agora e eu então fico revoltado. Estou sentindo que a coisa tá mais pra ser aprovada indecentemente do que eu podia pensar.

LOU: Eu sei, mas você tá lutando pelo terreno do Canecão?
DARCY: Não. Eu citei o terreno do Canecão pra localizar. É a área de Botafogo.
LOU: O que você vai fazer ali?
DARCY: É o futuro que diz.

LOU: É o futuro que diz. Mas é a posse do direito.
DARCY: O que eu quero é a posse. Nós tínhamos um colégio lá maravilhoso, conceituadíssimo. O colégio foi fechado. Causou um mal tremendo àquela garotada da região. E o Canecão, que eu saiba, não foi um contrato errado da Associação. Que eu saiba, o Canecão até hoje tá prestando um grande serviço à cidade do Rio de Janeiro e ao País. Que é uma casa que até hoje não teve nenhum escândalo, nada errado com o Canecão. O Canecão foi um assunto que surgiu entre a ASCB e a Igreja, que ninguém fala. O processo começou entre a ASCB e a Igreja N. Sra. da Paz, em Ipanema. A igreja depois é que viu que não dava pra ela fazer o que ela queria e apareceu um grupo de São Paulo interessado. Aí eles procuraram os padres e os padres negociaram com ele. E com isso eles vieram a nós e concordamos dos padres passarem o contrato pra eles. Tudo direitinho, registrado, bonito, dentro da lei e não tem uma lei que eles apontem que nós não tenhamos cumprido.

EURICO: Frei Leovegildo
DARCY: Frei Leovegildo.
LOU: Era cassino?
DARCY: Era negócio de dança.

LOU: Me conta uma coisa. Sua vida agora tá toda voltada pra essa guerra do Canecão. Mas e a sua vida pessoal.
DARCY: Eu, pobre de marré deci. O que pobre faz? Filho de pobre joga bola, bola de gude, rouba fruta no pomar dos outros. Fui moleque de roubar goiaba, fruta, jogar bola na rua, fui atleta do Vasco, porque eu queria ver futebol e não podia pagar. Então o jeito era ser atleta de algum lugar, pra entrar sem pagar. Aí eu ia a pé por Vila Isabel, pelo beco da Quinta, até chegar a São Januário e voltava a pé. Olha a quilometragem que eu andava. Trabalhei em quitanda porque não tinha dinheiro. Fui carregador de feira, tudo isso eu fiz. Não tenho vergonha não e vou ser franco com você: a gente roubava tangerina, carambola do vizinho. O grande fato é que eu acabei gostando de dançar. Eu tinha um amigo que tinha dinheiro. O pai dele tinha armazém, botequim. O José Gonçalves e me levava pra ir ao Dancing e eu passei a freqüentar o Dancing Brasil, na Pça Tiradentes, onde tinha o Jamelão cantando. Também tinha o Dancing Eldorado, onde o Onésimo cantava. E tinha uma bailarina que vocês todas conhecem, uma bailarina com quem eu dançava. A Elizeth Cardoso era a minha bailarina.

LOU: E ela já cantava?
DARCY: Não. O Onésimo, que era o crooner da orquestra, quando diminuía a freqüência do salão, colocava-a pra cantar no lugar dele e ela foi, foi, foi, e veio um concurso na Rádio Clube do Brasil, aqui na Rio Branco, onde era o Cine Astor Trianon, a Rádio Clube do Brasil. Ali foi feito um concurso da Cera Tabu, procurando um crooner e uma lady crooner. Então, o Onésimo era o dono da noite e entrou como favorito. E a Elizeth se candidatou também. O Onésimo ganhou. A turma da madrugada ia toda pra lá. Quando a Elizeth ia cantar era um silêncio tremendo. Quando vinha a concorrente, ficavam batendo papo, rindo pra atrapalhar o negócio. A Elizeth ganhou o 1º lugar e a surpresa de fazer a primeira gravação. Ela nasceu também pra lua e a primeira gravação dela foi "Saudade, torrente de paixão e emoção diferente..." E a Elizeth botou pra lua e subiu, subiu e o Onésimo não teve a felicidade que ela teve. Ele ficou na Rádio Mayrink Veiga, acabou sendo diretor da rádio. Então, a minha vida foi isso. Sempre gostei de dançar. Lembro com carinho da Elizeth Cardoso, que foi a minha bailarina. Nunca fui de bebida, tenho horror a jogo e a fumo e gosto de trabalhar.

LOU: Você namorou, casou, teve filhos?
DARCY: Não. Eu até então nunca me interessei em casar com ninguém. A minha preocupação passou a ser querer me firmar em alguma coisa. Até que eu gostei de uma criatura e essa criatura não me foi fiel. Eu fui trabalhar no Rio Grande do Sul, e quando eu voltei estava pensando até em casar. Fui até Caxias, comprei lá um aparelho de garfo e faca, aqueles negócios, pra você ver como eu estava interessado. Mas só que quando eu cheguei aqui, senti que havia algo de errado no caminho. E eu sei me defender. Eu não deixei ela ver que eu tava vendo. E eu fui cínico demais, frio demais, porque eu marquei o noivado pra ver até onde ia o cinismo dela. Morava em Copacabana, na Serzedelo Corrêa. Fui na casa dela, teve o jantar, os parentes todos e eu também tava presente. Comi. Depois, na hora dos pedidos, fiz ver à mãe e a ela que eu só queria ver até onde ia o cinismo dela. Passe bem, muito obrigada e fui embora.

LOU: (risos).
DARCY: E nunca mais. Me procuraram. E eu: - não adianta que não dá mais. E ela casou mas não foi feliz. Vivia atrás de mim. Depois seu marido vai vir atrás de mim e eu não vou responder pelo que não fiz. Mas felizmente acabou. Mas a mulher que eu gostei foi essa moça, não vou dizer o contrário. Ela me fez sofrer, mas foi muito bom e foi daí que eu tomei mais vergonha e levei mais a sério pra voltar a estudar porque eu estava na boêmia e voltei a estudar. Aí me formei, me fiz. Hoje sou o Darcy de Deus.

LOU: Não casou?
DARCY: Não dei sorte. Casei com uma colega do IBGE e tudo muito bem. E, como professor, fui fazer um Congresso no Paraná e lá estava demonstrando minhas aptidões como dentista e resolvi voltar pra casa um dia antes. Foi a minha desgraça ou a minha felicidade (risos). Quando eu cheguei em Copacabana, na Rua Bolívar, eu subi. - Ué, não tem ninguém em casa? Aí fiquei na janela esperando chegar e o carro chegou. Beijinho pra lá e beijinho pra cá. Eu nem quis saber o que era. Pra mim já era muito mais que beijinho. Quando elas chegaram em casa e deram de cara comigo, sentado na mesa, eu disse: - Pode dar meia volta, volver e rua.

LOU: Você falou quando elas chegaram... Ela estava com quem mais?
DARCY: Ela estava com a irmã e mais uma. Procure seu caminho e acabei. Daí pra cá, fiquei de namoro até que apareceu uma moça que era minha cliente e que tinha perdido o marido, ficou viúva e nós fomos morar juntos. Ela morreu tem 1 ano. Estava em casa, tomamos café, a cumprimentei e vim trabalhar. Quando toca o telefone e era a empregada: - Dr. Darcy, volta que acho que a dona Alice faleceu do coração.

LOU: Quer dizer que você não chegou a casar com ninguém, ficou morando com essa senhora.
DARCY: Essa pessoa eu nunca casei, apesar de ter me dado muito bem com ela. Muito dedicada, companheira, amiga. E se eu tenho alguma coisa hoje, devo a ela que foi muito organizada, muito amiga...

LOU: E vocês tiveram quantos filhos?
DARCY: Não tenho filho nenhum.

LOU: Como é que você tem neto?
DARCY: Que eu saiba, eu não tenho filho nenhum, nunca ninguém me procurou. Eu tenho netos dos filhos da mulher com quem eu vivi. São meus netos de coração. Tanto é que, tudo que eu tenho, que você pode saber e eles também, será distribuído. Mas eles só podem ter depois que eu morrer. Enquanto eu tiver vivo, negativo. Senão daqui a pouco tô debaixo da ponte.

LOU: Sua vida ao longo dos seu 80 anos tem sido de muita luta. Eu queria que você desse um recado pros VelhosAmigos. O meu site se chama VelhosAmigos e cada um que entra, se cadastra, e é chamado de "VelhoAmigo".
DARCY: Eu tenho por norma, antes de dormir, deixar minha cabeça funcionando e deixar ver o filme da minha vida, desde a minha infância. Toda noite eu faço isso, por incrível que pareça, lembro do meu tempo de garoto, quem eram meus amigos, que me ajudaram quando eu tava naquela situação, sapato furado, meia furada. Eu lembro daquele pessoal todo até chegar o dia de hoje, meus parentes, meus irmãos que já foram, da minha mulher, que também já se foi, e até chegar o dia de hoje. E faço isso toda noite. E agradeço a Papai do Céu, agradeço essas pessoas que me ajudaram e perdôo os que me traíram e peço sempre aos meus santos como Santa Terezinha, Santa Marta e a N Sra que me ajudem a resolver os problemas que tenho pra resolver no dia seguinte, porque os problemas sempre surgem. Às vezes eu fico quase que derrotado, vontade de jogar tudo pro alto e abandonar tudo e sair da Associação....
Estou como presidente desde 1970, são 34 anos, agora como diretor eu entrei em 1964, então são 40 anos.
Eu não suportava essa Associação e agora tô preso a ela por causa desse processo do Canecão. Porque eu sou a única pedra no caminho. Infelizmente eu sinto que a justiça mais uma vez vai ser usada para se praticar a injustiça.

LOU: Você é magro, elegante, tem postura. Você pratica esporte? Caminha?
DARCY: Não, não faço nada. Acho que é trabalho e preocupação.

LOU: Você trabalha sentado?
DARCY: Trabalho sentado e ando muito pouco. Eu controlo a alimentação e procuro tomar umas vitaminas. Faço um pouco de ginástica, mas não sou fanático. Mas também nunca fui gordo.

LOU: Você faz ginástica em casa?
DARCY: Não, no banheiro. Na hora do banho faço umas flexões. Eu tô com meus 63 e 64kg e tenho minha balança no banheiro e controlo.

LOU: Nós agradecemos muito sua entrevista. Foi uma honra conhecer o bravo homem Darcy de Deus!
DARCY: Eu é que fico honrado.

Revisão: Anna Eliza Fürich

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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