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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

DELEGADO FONTENELLE
publicado em: 14/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 2/09/2001

Nascimento: 3 de abril de 1931
Falecimento: 15 de julho de 2012

João Kepler Haiden Fontenelle, filho de Raimundo Vilaronga Fontenelle e de Cândida Haiden Fontenelle, destacou-se como exemplo de correção e equilíbrio na difícil carreira policial. Foi investigador, comissário e chegou a delegado da 19ª DP da Tijuca.

Com muita simpatia, ótimo humor e cheio de planos, ele nos concedeu esta entrevista:

FONTENELLI _ Nasci em 03 de abril de 1931, em Recife. Minha mãe não se desgrudava do meu pai, então, nasci em Recife. Ele era capitão e servia lá. Mas antes de eu completar um ano, ele foi transferido para Niterói."

LOU _ E na sua infância, onde você morou,?
FONTENELLE _ Minha vida é toda fragmentada. Onde eu tenho morado mais tempo é exatamente onde eu moro hoje, cerca de vinte anos.

LOU _ Seu pai era militar e você, quando criança, tinha que acompanhá-lo?
FONTENELLE _ Sempre. Para Manaus, Recife, Ponta Grossa, Juiz de Fora, Niterói, Santa Maria da Boca do Monte...quer dizer, meu pai era Infante e talvez, não gozasse de grande prestígio com o Getúlio, então ele era transferido com muita freqüência. Ele era metido também a escrever coisas que não eram bem do agrado da política da época. Mas de qualquer forma ele chegou a Coronel teve seus comandos, teve seus momentos de glória, seus momentos de decepção e reformou-se como General de Divisão; naquele tempo, podia. E assim, a trajetória dos filhos dele foram todas do Colégio Militar. Mas apenas um conseguiu chegar ao topo. Meu irmão, o Cabanis que é Coronel, também de Infantaria, e está em Brasília atualmente. Os demais saíram, abandonaram o projeto militar, cada um seguiu sua vida.

LOU _ Quantos filhos eram?
FONTENELLE _ Doze filhos. Agora, tem que ressaltar que foram duas mulheres.

LOU _ Então eram 10 filhos homens e só duas filhas?
FONTENELLE: Nãaooo! Foram 12 filhos gerados em dois casamentos! (risos) Cinco no primeiro matrimônio, eu sou o último da primeira ninhada e mais sete na segunda ninhada.
Na segunda etapa, quando ele já era Tenente Coronel, e já deveria ter uma idade não muito provecta ainda, mas uma idade de ter talvez só mais unzinho, dois... Mas não, ele teve logo sete. Então, quando ele morreu eu era um garoto ainda, ele deixou um bando de garotos.

LOU _ Esse bando de garotos vem provar que a "idade provecta" não impede uma vida sexual plena...
FONTENELLI _ É. Ele provou que era ali, tudo cara dele e a estrela da família.

LOU _ Você tem boas recordações do Colégio Militar?
FONTENELLE _ Muito boas recordações, embora tenha sido jubilado no quarto ano. Porque a amizade que se faz lá é uma amizade sem competição, sem inveja . Então, foram excelentes amizades que me acompanham até hoje. Com a idade que eu tenho, 70 anos, eu tenho amigos da época de ginásio do Colégio Militar. Época do alojamento, eu fui interno, aliás, a maioria dos alunos era de internos, naquele tempo. É pena que eu não tivesse tido entusiasmo pela corneta, para suportar todos os reveses do Colégio Militar, eu preferi sair e contemplar a Pedra de Babilônia da praia de Gravatás.

LOU _ Depois você foi para a faculdade se formar em direito?
FONTENELLE_ Exatamente. Faculdade Cândido Mendes. Depois de muitos anos, já na polícia, eu percebi que só poderia alcançar o degrau superior, se tivesse o curso de bacharel em direito. Coisa que parece estranho, porque não tem nada a ver com a carreira policial.

LOU _ Então, você ingressou primeiro na carreira policial?
FONTENELLE _ Exato. Policial, detetive etc.

LOU _ Era por concurso, naquela época?
FONTENELLE _ Era por exame na escola de polícia. Um exame não muito difícil. Houve também a recomendação do meu pai, que era General, para o General Syro Rezende, chefe de polícia na época, uma figura também extraordinária, um homem honrado, íntegro. Ele disse: "Olha, seu pai deve tá maluco, querendo enfiar você aqui. Aqui não tem lugar na polícia melhor do que o de investigador . Mas, quando aparecer o primeiro exame, eu chamo você." Realmente chamou. Fui fazer exame para investigador de polícia em 1952. A prova foi dificílima, foi um ditado, uma operação de somar outra de subtrair e a coisa foi assim...(risos).

LOU _ E você se adaptou bem ao regime da polícia?
FONTENELLE _ Entrei, pensando que fosse passar algum tempo e depois, pretendia me preparar para um concurso. Na época, o bom era Banco do Brasil ou Caixa Econômica. E havia realmente uma perspectiva para ir para a Caixa Econômica. O diretor da Caixa Econômica era amigo da família e ficou me esperando, eu fiz a inscrição, aquelas coisas todas. Mas não aconteceu, nem uma coisa nem outra e acabei ficando na polícia. Ao cabo de quatro anos de polícia eu falei: "Tenho que fazer direito porque se não vou ficar marcando passo." E a trajetória foi essa. Aí dizem: "Ah, você teve tendência! Você teve vocação". Não, o que houve foi uma adaptação da minha personalidade para o mecanismo policial que eu servia. Aí, eu procurei dar o melhor que eu tinha, o que eu aprendi, os valores construídos no Colégio Militar, administrados pelo meu pai e pela minha mãe.

LOU _ E como foi sua trajetória?
FONTENELLE _ Foram quarenta e seis anos de briga, de luta, mas de prazeres também; porque eu sou um homem, que agora estou advogando e entro em qualquer dependência policial e vejo, com muito prazer, com muito orgulho, policiais se levantarem para me dar abraço, aqueles que trabalharam comigo, aqueles que me conheceram sem trabalhar e aqueles que não me conheceram e nunca me viram. Mas apenas pelo nome de se ouvir dizer, Eles se levantam e esticam a mão e me recebem com muito carinho. Isso é uma prova insofismável de que ao longo da minha vida policial como subalterno, como autoridade intermediária, que é o comissário - fui comissário por sete anos - e como delegado titular, durante vinte dois, eu fiz uma polícia boa, dando a minha contribuição a esta cidade.

LOU_ Mesmo aposentado, você se empolga quando fala da sua profissão.
FONTENELLE _ Porque é um mecanismo público que trata do maior bem que existe em nós, que é o nosso patrimônio, a nossa vida, nossos interesses urbanos e continua até hoje; o policial é como o aviador, enquanto viver, continua pensando e agindo sempre ligado na sua profissão. Não há como o policial entender ao contrário, ou então ele deixa de ser polícia e passa para o outro lado. Eu sempre comparo com o aviador que se aposenta, se reforma, mas continua pensando, até com otimismo; quando a noite chega, não chega só com a escuridão, chega também com as estrelas.

LOU _ Você inaugurou a Delegacia do Aeroporto?
FONTENELLE _ Eu sempre digo, com humor negro , que aquilo foi meu enterro de luxo. Porque, já sabendo que eu ia me aposentar, por limite de idade, o secretário me deu a honra de inaugurar a delegacia do Aeroporto internacional Tom Jobim. Ainda tem a plaquinha com meu nome lá.

LOU _ Aquela delegacia é considerada um luxo...
FONTENELLE _ É uma delegacia diferente, atípica. Ela tem ar refrigerado até na carceragem, tem uma carceragem para quatro presos, no Aeroporto. Era mais que uma carceragem transitória era uma sala de espera. A INFRAERO deu à secretaria todos os recursos para montar uma delegacia, naquele ambiente de luxo, que é o Aeroporto Internacional, como são em todos os aeroportos do mundo. E ali, foi que eu terminei minha vida artística, como Delegado titular da Delegacia Internacional Antônio Carlos Jobim.

LOU _ E você é a favor da tortura de presos?
FONTENELLE_ Nunca fui.

LOU _Nem pra conseguir uma confissão? Por que lá no livro você conta que um respeitável médico de um hospital do Município do Rio, denunciou que sofreu pressão de um pai desesperado, para ele apertar o colete ortopédico, usado por um dos assassinos da filha, a fim de facilitar o interrogatório.
E você faz o seguinte comentário : Qual o bem a ser protegido? As costelas do assassino, ou o direito que teria a inocente moça de viver?
FONTENELLE_ Isso aí é uma outra etapa. Porque é o meu lado de cronista, eu fiz centenas de crônicas, em cima de acontecimentos do dia a dia. Quer dizer, eu pegava uma notícia e comentava a notícia que fosse manchete no O Dia, ou no Jornal do Comércio ou naquela revista de publicação gratuita, revista de polícia e tal. Eu sempre gostei de escrever, expressar minha opinião, mas a tortura para o infrator, sobre tudo o meu preso, o preso que eu tinha contato com ele, eu sempre procurei outros métodos. E nós temos que guardar o preso, tomar conta do preso, custodiar a discussão da justiça, e impedindo que ele fuja. Agora, diligências, naturalmente, você apurando um crime, seja patrimonial ou crime contra a vida, e, em cima do suspeito, você tem que utilizar todos os recursos que a investigação permite, mentir, simular enfim.
Mas a tortura em si... isso aí nos lembra os termos políticos... A tortura aconteceu, deve ter acontecido, em países comunistas, em países ditatoriais, aqui também, quem sabe? Mas eu sou contra a tortura.

LOU _ Você é a favor de unificar a Polícia Civil e a Polícia Militar, né?
FONTENELLE _ Há muitos anos. Porque quando eu estive no Estados Unidos, pela primeira vez, eu vi que a coisa lá funciona como um todo, uma orquestra cada um toca seu instrumento, então tem um policial fardado, o motociclista no trânsito, o tira que se veste de vagabundo, para apurar um crime. Uma investigação exige determinadas simulações, mas é uma orquestra só.

LOU _ E aqui no Brasil?
FONTENELLE_ Aqui no Brasil, temos um número enorme de policias, uns 30 mil, 35 mil da PM, mais dez ou quinze da Civil, ainda mais a Polícia Municipal, a Polícia Rodoviária, ainda tem a Polícia Portuária e mais as empresas vigilantes. Isso aqui não é orquestra, isso aqui é um circo, onde cada um faz um espetáculo diferente. Então, é um desperdício, porque existem excelentes elementos em todas essas corporações. A própria PM é dotada de uma tecnologia muito boa. As verbas do Governo do Estado sempre foram muito mais generosas para a Polícia Militar. Hoje, você não diz: "chame a polícia!" Você diz "Chame a PM!" Mas essa dicotomia, esse duplo comando causa certa rivalidade, sobretudo salarial. O Delegado durante alguns anos ganhou, muito mais que o Coronel e aí, não se conformavam com isso. Em compensação, o Coronel tinha onde comer o filé dele escolhido e o Delegado tinha que ir pro boteco da esquina.

LOU _ Você já escreveu algumas coisas sobre esse assunto, não é?
FONTENNELE _ tenho muitas matérias falando sobre isso. A idéia é criar uma terceira força. O Governador Carlos Lacerda pensou nisso, há 35 anos atrás, mas não teve tempo político, nem teve habilidade política de criar a Força Policial do Estado da Guanabara, que não seria civil, nem militar, apenas uma polícia judiciária, uniformizada e hierarquizada, formada numa academia de polícia moderna, com os salários condizentes com seu alto conceito e missões.

LOU _ E o que aconteceu com esta Força Policial?
FONTENELLE _ O Lacerda governou com minoria na assembléia. Quando ele saiu, veio o Negrão que resolveu não dar continuidade ao projeto. O Negrão, muito político, muito nem sim, nem não, mais ou menos.... aí a coisa foi devagar, foi diminuindo, acabou diluindo. Veio a Polícia Federal e impediu esses planos da Força Policial, porque achava que ia ser feita nos moldes da polícia de Nova Iorque. A polícia dos Estados Unidos tem farda, tem banda de música, quando um policial morre, ele é sepultado com honras militares, com cavalos brancos. Ela tem uma disciplina quase militar; ela tem tudo aquilo que lembra a Polícia Militar, mas eles são policiais, não são advogados. Aqui nós temos delegados-advogados.

LOU _ Você quer dizer que não basta ser policial...
FONTENELLE: É isso mesmo. No primeiro congresso que eu fui em 72, na Dinamarca, eu não sei por qual razão, disse que era advogado. Sou advogado desde 66. Então eles se espantaram: "Você não é policial? Você tá representando a polícia do Brasil?" Foi uma dificuldade dizer, que era advogado, mas também era comissário de polícia, naquela época, comissário e advogado. Outra coisa que eles estranharam: eu levei uns chaveirinhos, para dar de presente, eram da "Polícia Militar do Estado do Guanabara". Bom, polícia tudo bem, Guanabara, tudo bem também, agora Militar, eles não engoliram, não entenderam.

LOU _ Por quê?
FONTENELLE _ Porque nas associações de classes policiais internacionais, o policial Militar é o policial transitório. Tem Polícia Militar em todas as organizações mundiais. A Polícia Militar é a que trata da repressão, da custódia, das investigações entre militares, somente cometido por militares.

PROTEÇÃO AO TURISTA
LOU _ Você também sugere, aqui no seu livro, que todo assaltante que fosse pego assaltando turistas, deveria ser deportado, né?
FONTENELLE_ É uma dupla punição. Punição geográfica. Houve um secretário aí, que ficou muito entusiasmado, mas também parece que não obteve respaldo do Tribunal de Justiça. Seria um castigo bom, porque, se ele cometesse um assalto a turista aqui, na zona sul do Rio, no dia seguinte, de ônibus, ou montado num jumento, ele ia lá para Porciúncula. Então, ele teria dupla punição. Porque a mãe dele, que mora aqui no morro do Canta Galo, a amante dele, que mora no morro da Mangueira, não iriam lá visitá-lo em Porciúncula. Primeiro, que é muito longe, segundo, dispendioso. Então ele iria responder ao processo pelo roubo, mediante a violência contra o turista, por precatória; ele seria ouvido no juízo de Porciúncula. Falei Porciúncula, por acaso, tem outros Municípios tão distantes quanto Porciúncula, talvez até mais longe. Ele teria as razões de defesas, todas as garantias legais asseguradas. Nosso preso não teme a dor, o sofrimento físico, ele parece imunizado a tudo, a fome, ao frio. O que ele não suporta é a perda da visita semanal, sendo que, ele iria perder as visitinhas de quinta feira, da "mina", que é a amante, a mulher, porque o pai não visita o ladrão.

LOU _ Os pais não visitam os filhos na prisão?
FONTENELLE _ Nos meus 26 anos de delegado, aqui no Rio, raríssimamente você via, nos dias de visita, uma figura masculina. Quando você ia ver não era homem, era um gay, um homossexual.

LOU _ Isso me faz perguntar: esses meninos que se tornam delinqüentes e depois se tornam adultos marginais, eles não são, na sua grande maioria, crianças abandonadas pelo pai?
FONTENELLE_ Olha, as causas da criminalidade é um assunto para compêndios . Você pode atribuir ao nosso desgaste econômico com as classes carentes, aos desassistidos, e também aos casamentos "da mãe desses heróis" que não sabem exatamente quem é o pai, e criam os filhos, vários filhos sem a figura paterna. Eles não têm em quem se inspirar; então eles acabam se inspirando no bicheiro da esquina, no traficante, ou mesmo num policial truculento. Eu sempre disse que faltam 4 Ps. A ausência do primeiro P que é o pai, o segundo P que é o professor, o terceiro P, do patrão, porque se não teve professor, ele não aprendeu nada e ninguém vai empregá-lo, então, ele vai para o quarto P que é o da policia. Aí, quando ele chegar a maior idade, lá na Casa de Custódia, ele entra numa pós-graduação de crimes, ele entra como um ladrãozinho vagabundo e sai como um homem capaz até de cometer um crime maior, com mais audácia, porque lá, você aprende. De modo, que as causas da criminalidade são muito relativas, muito extensas, muito polêmicas.

LOU _ Voltando ao ladrão de turista.
FONTENELLE _ O tratamento que nós temos que dar a ele é um tratamento, onde ele aprenda que nós temos obrigação de tratar o turista como se fosse uma divindade. Porque essa indústria de turismo é a maior indústria que tem no mundo. E o Brasil tem um potencial tão grande, que bota qualquer país, que queira viver do turismo, no chinelo, e traria mais divisas e mais oportunidades de emprego pra todos.

LOU _ Você é a favor de liberar as drogas? Porque eu acho que a proibição, provoca a venda clandestina e faz com que o crime cada vez aumente mais. Se dissesse: "quem quiser que compre droga!". Está ali na esquina, como aconteceu com o fim da "Lei Seca." Às vezes, quando eu falo uma coisa dessas, aterrorizo algumas pessoas. Mas será que assim não iria acabar com o aliciamento de menores, e agora também de idosos carentes, e ainda diminuir a corrupção e os grandes mafiosos? FONTENELLE_ Em países na Europa, como a Holanda, eles liberam a droga para o usuário... mas faz um trabalho paralelo com muito recurso. O holandês procura controlar o usuário, tirando ele dessa dependência química. Nós estamos muito longe de pensar numa solução desse tipo, se liberar a droga, vira muita bagunça, isso tem que ser aos poucos, ou talvez já tenha alguém muito mais talentoso pensando nisso. Mas o que nós temos que fazer é acabar com a organização. O vagabundo sempre existiu, o ladrão, o assassino. Agora, eles nunca foram organizados. A única coisa organizada que tinha no Rio era o bicho, mas, embora olhado com muita reserva, era uma organização pacífica, jogava quem quisesse, e parece que a sobrevivência dessa atividade contravencional foi calcada em cima da honra deles, da honestidade que o bicheiro tinha com o apostador, que não dava nada, houve uma época que não dava nem talão, era só um pedacinho de papel embrulhado com dinheiro dentro. Daí, você jogava, e de noite, estava lá seu prêmio. Quer dizer, sobreviveu graças a esse compromisso com a palavra. O crime não era organizado, agora tem os comandos vermelhos, os azuis , amarelo tal.
Esses comandos se fortaleceram como um sindicato, então ficaram sólidos.
O traficante é preso, você lê isso, no jornal, todo dia, quando não é o traficante é o gerente dele etc. No dia seguinte, já tem outro no lugar, porque a contabilidade, a administração que eles têm é de atender e nunca interromper o show, que tem que continuar, eles têm de continuar a venda. A polícia vai, ocupa, chega lá, eles mudam de lugar, é um negócio realmente para você se questionar e ver que o problema não é pequeno.

LOU _ E como fica a instituição, a polícia de um modo geral?
FONTENELLI _ A própria instituição se sente responsável porque a opinião pública, os jornais não perdoam, e é muito importante que a polícia tenha prestígio, o policial não precisa ter o prestígio isoladamente, mas a organização, tem que ter um prestígio, um conceito, como tem o Exército como tem a Força Aérea, e a Marinha. O próprio Corpo de Bombeiro é uma turma conceituada. Eu tenho feito algumas palestras na Guarda Municipal, que é relativamente nova, e tenho dito: "Olha, vocês têm que aproveitar o conceito da Guarda Municipal, por que não está deturpado, não está ferido, vocês ainda são conceituados. Porque o desvio de conduta de um Guarda Municipal não vai atingir a corporação. É preciso que tenha um "marketeiro" muito bom para colocar a polícia com um conceito capaz de inibir o criminoso.

LOU _ O Mundo mudou, as pessoas mudaram, a polícia de hoje não é a mais aquela do seu tempo, nem os bandidos se comparam com os daquela época.
FONTENELLE _ No meu tempo entravam dois investigadores no bar do Lamas, no Largo do Machado, trinta pessoas jogando sinuca, quinze estudantes, quinze vagabundos e só dois investigadores . Um dava uma ordem, o outro falava mais grosso: "É polícia! Porte de armas! Encostados!" Todos ficavam encostados para serem revistados e o outro ficava na porta. Hoje, para fazer esse tipo de operação de rotina, tem que ter um número bem maior, de preferência com armas longas, de preferência, exibindo bastante força, para que a turma consiga atender essa determinação de ficar parado, para serem submetidos a uma revista de porte de armas. Nessa revista, você encontra maconha, cocaína, uma carteira falsa, enfim. Mas era o conceito que valia, na polícia da década de 50 a 60. E eu vivi essa época, com muito prazer, Dona Lourdes.

LOU _ Você teria um plano, para que eles fossem encaminhados para um lugar onde eles pudessem se recuperar socialmente? FONTENELLE _ Estive na Áustria, no Norte da Áustria, visitamos uma das maiores penitenciárias que tem naquele país. Tem, ali, muito preso, iugoslavo, francês, alemão. Estão ali, por um desvio de conduta. Eles são mandados para lá e julgados pelo governo Austríaco. E os presos, antes de receberem uma missão qualquer, são examinados por psicólogos, psiquiatras, por médicos, para exatamente dar um grau de responsabilidade civil, mental. Então eles já são tratados, no segundo dia que entram na penitenciária. Eles passam esse tempo, cinco anos ,vinte anos, sendo socializados, porque a idéia é serem sempre colocados de volta no mundo dos vivos. Se ele for Austríaco ele volta para Áustria, o alemão, o húngaro vai voltar pro seu país, em condições de conviver com a sociedade, dentro da atividade que ele tinha, antes de ser preso, antes de cometer aquele crime. Esse negócio é primeiro mundo. Nós podíamos também fazer aqui, uma penitenciária, ou algumas delas, dotadas desses recursos, como se fosse um Spá. Você entra e o médico te examina, tem que perder um quilinho aqui, outro ali, engordar um pouco mais . Mas para você sair em forma, sair bonita, mais saudável. É assim que deveria funcionar a penitenciária.

LOU _ Você falou que quando morre uma pessoa do morro por acidente em tiroteio, a imprensa toda vai lá, aparecem ONGs representando, depositando flores naquela vítima. E, no entanto, quando morre um policial não tem nenhum representante do governo.
FONTENELLE _ Aí, são dois aspectos. Um vende jornal, o outro não vende. Daí, você conclui que a organização deles é tão boa, que quando morre alguém, eles fazem um protesto na via pública, eles param os ônibus, incendeiam carro, tudo isso, para dar uma demonstração hostil ao mecanismo de segurança, seja Civil ou Militar. Eles conseguem demonstrar a sua hostilidade, a sua organização, a sua força; o comércio fecha. Um molequinho sai de bicicleta e vai avisando: " Aí, ordem de cima, ordem do movimento, amanhã não abre ninguém." E ninguém abre, e é um simples molequinho de bicicleta, sem nome, sem endereço. De modo que a organização deles é uma coisa muito importante.

PLANO DE PAZ E DE INTERCÂMBIO CULTURAL

LOU _ Falando em organização, o que é a IPA? Sei que você é ligado a ela.
FONTENELLE _ IPA é International Police Association e é filiada à UNESCO. É uma associação com milhões de sócios na Europa, Canadá, Estados Unidos que trata de amizade, de paz, carinho, cultura, troca de informações. Então é paz . Enquanto o mundo está todo conflagrado cheio de guerra, cheio de bombas, cheio de milícias Talibãs e etc. O Ipeano tem uma disposição para servir um ao outro, tanto é que o lema da IPA é "Servir pela amizade" e eu presido essa seção da IPA no Rio, mas com muito poucos sócios, com muito pouco apoio oficial, governamental. A IPA é uma organização policial, como todas as outras organizações policias do mundo, elas sofrem dos mesmos problemas. Eu já fui a oito congressos no exterior, os problemas são os mesmos. Problema com o infrator, com a imprensa, com a chefia, nós só não podemos comparar salários, não se pode falar em salários, porque também é covardia, nós não podemos pagar uma polícia como eles pagam lá, como não podemos pagar um professor um médico, um enfermeiro. Aqui você tem que ter um bico, tem que ter o segundo salário, duas matrículas para sobreviver com dignidade. Mas os problemas são os mesmos. A mesma coisa! Quando alguma coisa acontece de meritória, na França, sai lá, só uma notinha no roda pé do jornal, agora, quando é uma bronca com a polícia, quando é um erro, um acidente, lá também, dá na primeira página.

LOU _ Aqui no Brasil, quase não se ouve falar em IPA. Como funciona?
FONTENELLE _ O Brasil ainda não se sensibilizou com a IPA.
Ela é muito boa lá, na Europa, primeiro mundo. Por que nós não poderíamos ter aqui um encontro? Eu até sugeri à IPA de São Paulo, fazermos um encontro, aqui no Rio, de policiais, todos os policiais pintores, que tivessem algum quadro já exposto, algum escritor que já tivesse um livro, um trabalho literário, alguma poesia, viriam se inscrever, nas secretarias de todos os estados e faríamos uma reunião, uma exposição no Rio, com o patrocínio da IPA. Eu tenho pedido à Embratur, à Riotur, para me ajudar a elaborar a revista de 2002, onde eu levaria notícias do Rio de Janeiro, mostrando as belezas da nossa cidade, mas até agora, ninguém deu apoio não.

LOU _ Você, como ex-aluno do Colégio Militar, deve se lembrar do "grito de guerra", que os meninos faziam, antes de uma competição, ou coisa parecida.
FONTENELLE _ Era uma letra louca e maravilhosa. Não me pergunte o porquê e nem o significado; ninguém soube responder. O Colégio Militar tem 150 anos é secular... Mas esse grito é inesquecível:

_ "Zum zaravalho Zoro pinzoqüe o qüeqüe o qüeqüe zum pinguilim pinguilim pinguilim, zunga, zunga zunga catimanical catimanical uechal uechal uechal. Colééégio!!!"

LOU _ Como todo ex-aluno, você até hoje, se emociona quando lembra do Colégio, e agora, como policial aposentado o que você tem a falar ao seus colegas ainda na ativa?
FONTENELLE _ Sem dúvida, eu fico torcendo para que aconteça alguma coisa que melhore esse mecanismo, seja lá como for idéias novas, brilhantes, ou arcaicas, eu quero é que alguma coisa exiba um resultado. O resultado está naquela opinião dos jornais e da opinião da dona de casa, do estudante que sai para pegar seu ônibus, da dona de casa, que sai para fazer compras e da família, que sai para ir ao teatro. Eu agora, dei assistência, a um policial francês da IPA, que ficou hospedado, aqui na casa de uns franceses, durante uma semana. Eu tive que ser babá dele, tinha de sair com ele todos os dias. Ele me deu umas matérias, com fotos sobre uma equipe de patins, em Paris, que toma conta dos veículos, perto das casas de espetáculo. Agora, você vê, os policias fardadinhos com patins. Eu preciso distribuir essa matéria, já fiz um trabalho, e vou dar para todo mundo, para o bombeiro, para o guarda Municipal, Civil, Militar.

LOU _ Como iria funcionar?
FONTENELLE _ A idéia é essa. Você forma um grupo para ficar perto da Cinelândia, teatro Municipal, Copacabana, nesses teatros que têm aqui, para evitar que o flanelinha... não sou contra o flanelinha não, que está ganhando seu dinheiro, eu sou contra os autores de extorsão porque também existe. Eu sou extremamente violento com eles e mal criado. Não dou mole para eles não. Mas tem grupos. Então, no Teatro Municipal teriam os policias de patins, só limpando a barra, e você vai se sentir segura. Eu acho que seria uma idéia para ser adaptada aqui, tem que bolar tem que abrasileirar um pouco, né?

LOU _ Você aceitaria um convite para pôr em prática tudo isso de brilhante que você tem aí, na sua cabeça, para transformar esse Rio de Janeiro, num ponto turístico de segurança, onde as pessoas, não só as que moram aqui, mas as que vêm de fora saberem que existe um Fontenelli, que botou ordem nessa Cidade maravilhosa, onde o Cristo Redentor está de braços abertos?
FONTENELLE _ Tem muita gente boa.
O Governador do Rio está trabalhando nisso.
O termômetro de qualquer governante desse Brasil é quando ele regula, coloca a população a níveis toleráveis, bota a segurança a níveis suportáveis. Depois vem economia, educação, saúde.... Mas tem muito assessor aí, de "boquinha", além de incompetentes, estão ali para atrapalhar inclusive. O problema é selecionar.

BOAS LEMBRANÇAS

LOU _ Vamos lembrar os bons tempos, em que você furava pneu de automóveis.
FONTENELLE _ Não era eu. Era meu primo Francisco América. Existe muito muito folclore sobre ele. Porque as coisas, que aconteceram no passado e foram notícias, viraram folclore do tempo do Lacerda. Desde o meu primo Francisco, que foi diretor do trânsito, a um delegado, ainda vivo, chamado Geraldo Padilha, que foi um homem realmente famoso, por ser muito, ativo, rigoroso, enfim. Dentro daquela época, ele fazia o que tinha que fazer, da forma mais austera possível. Fizeram até um samba, que o Moreira da Silva cantava sobre o Padilha. Quando o Padilha chegava, todo mundo tremia... E era um só. Ele andava, é evidente, com seus auxiliares, mas era a figura dele, também com a reputação moral muito sólida, um homem rigorosamente honesto.

LOU _ Você pode contar um desses "folclores" do Padilha?
FONTENELLE _ Eu tive a honra de trabalhar com ele, muito de meus "defeitos" eu aprendi com ele. Naquela época, a calça moderna era apertada, costeletas também eram muito usadas, era uma grife, mais do marginal do que do homem careta, do homem tradicional. Um gerente de banco não andava com uma calça com a boca pequenina, apertadinha... O Padilha, então, botava uma laranja, por cima, pela cintura, se passasse na boca da calça, estava tudo bem, se não passasse, ia preso....mas isso é folclore. (risos)

LOU _ Vamos falar de seus livros?
FONTENELLE _ Eu escrevi "A violência nos anos dourados", e pretendo que um dia possa ser uma mini-série, um curta, porque, na época, quando foi publicado, teve muita repercussão, todos os livrinhos que eu publiquei foram de casos verídicos, provados com matéria jornalística da época. Eu dou uma romanceada, uma mexidinha, mas o fato, a essência é tudo verídico. Depois veio "Trinta anos sem caviar".

LOU _ Isto é uma gozação com o Ibrahim Sued?
FONTENELLE _ Eu me encontrei com o Ibrahim, naquele restaurante "Un-Deux-Trois", na véspera da inauguração; me sentei ao lado dele e disse: "olha eu estou publicando um livro e vou dar pra você, e roubei um pouquinho o título do seu (porque ele fez "Vinte anos de caviar" e esse é " Trinta anos, sem caviar", porque eu estava fazendo 30 anos de polícia). Mas é um livro fácil, você vai gostar de ler, é um livro bem digestivo..." E ele: " Eu vou ler sim, eu gosto muito de coisas digestivas". Esta foi uma das famosas piadas do Ibraim. Depois eu fiz esse "Não morra por favor", que foi uma despedida da polícia. Foram 46 anos e três livros; já está de bom tamanho.

LOU _ Onde podem ser encontrados?
FONTENELLI_ Esses livros podem ser encontrados, principalmente este último, cujo personagem é um sargento da PM, nas bancas de jornais, próximas aos batalhões da PM e das delegacias de polícia, ao preço de 15 pratas, porque o jornaleiro fica com 5 e me dá 10.

LOU _ Do que se trata seu último livro "Não morra, por favor"?
FONTENELLE_ Um sargento da PM morreu, quando eu era o delegado, na Delegacia de Botafogo. Ele foi baleado por um menor. Isso foi fato. Ele foi enterrado com honras militares essa coisa toda. Eu o conhecia bem, era um homem muito dedicado, sargentão grossão, mas ele transpirava honestidade, transpirava seriedade. Eu fiz uma história da vidinha dele.

LOU _ Você continua escrevendo?
FONTENELLE _ Eu faço contribuições eventuais, escrevo artigos, quando acho que possam ser de interesse público.

LOU _ Você tem alguma coisa hilária para contar?
FONTENELLE _ Havia o comissário Madalena, ex-goleiro de futebol, nos idos de 66, 67, que era uma espécie de Juiz de Paz, em briga de marido e mulher, da classe média também, não só com os favelados em Jacarepaguá.
Ele resolvia as brigas de forma muito prática: botava os dois no xadrez e mandava molhar, com mangueira d'água, um dos cônjuges,
até que o outro ou outra defendesse, e os casais, quando saiam, iam juntos, dar queixa dele, todos dois, com ódio do Madalena. Aí, ficavam unidos.
E ele dizia: "A minha filosofia é a seguinte, os dois vão ficar contra a mim, e vão ficar juntos." Tenho mil histórias ngraçadas.

LOU_ Por exemplo...
FONTENELLE _ Uma mulher telefonava para a polícia especial e perguntava pelo o "Jacaré".
_ O "Jacaré" já saiu de serviço.
_ Então tá. Escuta, o Casca de Jaca" já    apareceu aí?
_ Não, não sei do "Casca de Jaca"!
_ Escuta, quando o Cegonha entra? Era o    Euclides Nascimento. Ai, o cara deu uma    espinafração: deve ser uma vadia do Largo da    Carioca, do morro Santo Antônio.
_ Aí, minha filha, tá pensando que isso aqui é o    quê, chamando todo mundo pelo apelido?
_ Tá bom, você tá zangado, é?!
   Qual é o seu nome?
_ Diz aos teus machos, que aqui é o Alma    Grande que tá falando...
Se ele dissesse que era o Oswaldo, ninguém ia saber quem era, porque todo mundo tinha apelido.

E tem outra: Numa sexta-feira, o auxiliar na elaboração do registro perguntou ao colega:
_ Escuta, Braguinha, sexta é com "x" ou com    "s"?
_ "Escreve sábado, porra, já é quase meia-noite e assim a gente não erra...

LOU _ Muitas pessoas, quando começam a envelhecer, ficam desanimadas, deprimidas. Eu vejo você, cheio de gás, entusiasmado, cheio de planos. Eu gostaria que você mandasse um recado pra elas.
FONTENELLE _ Eu sempre digo aos meus colegas, aos delegados mais moços: "olha aqui, vocês têm que olhar pra mim com muita admiração". Eles falam: " Não, doutor, nós o admiramos muito." E eu: "vocês têm que admirar pelo seguinte, ou vocês chegam na minha idade, com esse tesão todo que eu tenho, ou então, vocês morrem antes, não tem terceira alternativa, tomara que vocês morram numa morte mais gostosa, essa coisa de tiro no chifre é muito chata pra um policial.

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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