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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

DERCY GONÇALVES
publicado em: 12/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 2001.

1907/2008

Dercy nasceu em Santa Maria Madalena, Estado do Rio. O pai, Manuel Gonçalves Costa, era alfaiate e a mãe, Margarida, era lavadeira.

Ela me recebeu no seu apartamento, em Copacabana, esbanjando entusiasmo e simpatia. Na sala em frente ao sofá, mostrou-me as fantasias e as roupas usadas em shows penduradas em um cabide-arara. Disse que faziam parte de seu acervo. E, no seu jeito prático de ser, me deu seu livro "Dercy de Cabo a Rabo" e umas cópias de textos publicados em revistas e jornais para que eu pudesse escrever esta matéria, uma das primeiras que fiz para seção "Gente em Foco":

Em 23 de junho completou 93 anos. Exemplo de garra e de amor à vida, ela nos conta, com seu jeito irônico, como superou todo tipo de preconceito e como venceu a tuberculose e mais tarde um câncer.
Muito sucesso, mas também muitos desacertos marcaram sua rica jornada. E o primeiro desacerto aconteceu, logo de saída, com a certidão de nascimento:

"Eu nasci, segundo a minha certidão, em 23 de junho de 1907, mas acho que está errada, porque apenas 6 meses me separam da irmã que nasceu imediatamente antes de mim... Quem é Dercy Gonçalves, quem sou? Sei lá. Não sei quem sou. Fui tanta coisa. Eu fui tudo. Fui Dolores, nasci Dolores Gonçalves Costa. Na minha infância, na minha mocidade, eu tinha diversos apelidos: Pimenta Malagueta, Theda Bara, Pola Negri, puta, tudo eu fui. Depois, mais tarde, muito mais tarde, me chamaram de outras coisas: irreverente, desbocada, debochada, malcriada, boca-suja, vasto mundo. Até de vasto mundo me chamaram. E também disseram de mim: "Essa mulher é uma santa", "Essa mulher é uma ordinária", "Essa mulher é uma escrota", "Essa mulher é correta", "Essa mulher é...". Tanta coisa que até esqueci. Menos o último refrão: "Essa mulher é um exemplo de vida".

Quem diria? Se, em 1950, alguém dissesse que Dercy Gonçalves seria um exemplo de vida, quem iria acreditar? Mas não é porque virei "exemplo de vida" que deixei de falar palavrão. Eu sou o que sou e vou morrer assim. E o que para os outros é palavrão, pra mim nunca foi – é pontuação. Palavrão não é o que você diz, é o que você faz: se você rouba, é ladrão; se você mata, é assassino; se você trai, é um sacana; se você é eleito pelo povo e só defende os seus interesses, é um filho da puta. ...Fiz 93 anos, mas não sou velha. Velho é quem está caduco, velha são as pessoas que não têm mais o que fazer, que ficam encostadas, incomodando. Mas uma mulher como eu, que ainda trabalha, briga e raciocina...

Estou uma beleza, eu sou uma beleza. Eu me acho linda da cabeça aos pés. Eu me acho linda porque faço tudo pra ser bela. Sou vaidosa, a vida toda fui uma mulher vaidosa. No meu banheiro, as paredes e o teto são revestidos de espelhos.

Continuo gostando muito de me olhar, continuo gostando de mim. Gosto de perfume, de andar bem-vestida e ter a casa sempre bonita. Eu já era assim mesmo quando só tinha dois vestidos de chita. Na época que não tinha pó de arroz, usava alvaiade; se não tinha batom, usava papel de seda. Tenho 1,57m de altura, calço 34, usei muito salto 7,8 e sempre me vesti de acordo com a moda. Quando não tinha dinheiro para comprar em loja, comprava em brechó. Pomada na cara, pomada pra não envelhecer, pomada pra esticar, nunca usei. Já pintei meus cabelos de roxo, verde, todas as tonalidades de loiro, achava lindo ser exótica, ser diferente. Muita gente olhava pra mim e ria. Eu continuava minha vida, sem problema nenhum.

Ginástica, nunca fiz. O único exercício que costumo fazer é sair da cama pra ir trabalhar no palco. O Brício de Abreu, do jornal Dom Casmurro, uma vez escreveu que eu tinha um corpo perfeito e as pernas de Mistinguet.

No esporte, também sempre fui uma negação: fui montar no cavalo, mas ele disparou e quem conseguia parar o desgraçado? O bicho no galope, e eu lá em cima sem saber o que fazer. No desespero, saí pela bunda do cavalo e me joguei no chão.

Parei de fumar há mais de vinte anos, nunca usei drogas e não bebo, nunca bebi. Me refaço com o sono, mas não sou de dormir muito: quatro, cinco horas já está bom. Não minto, não me violento, não me reprimo. E todos os dias dou Graças a Deus pela minha boa saúde. É verdade que tem um pessoal aí até melhor que eu. O dr. Roberto Marinho, por exemplo. Um dia desses resolvi lhe fazer uma visita. - "Dona Dercy, a senhora está ótima", ele falou. - "É por causa do pó. Uma colher de sopa, duas vezes ao dia. O senhor já experimentou?" - "Não, senhora. Eu só tomo o que o meu médico receita", ele respondeu meio travado. - "Se o senhor quiser, eu mando vir do Ceará. É só falar!" - "Não, muito obrigado!" - disse o dr. Roberto, encerrando a questão. Depois que saí da sala tive o estalo... Não tive o cuidado de explicar que o pó que vem do Ceará é o pó de babaçu. O outro pó nunca me interessou.

As duas coisas mais importantes para uma pessoa viver bem são a plástica e a psicanálise. Uma rejuvenesce, a outra ajuda a gente a ter consciência de si mesma.

Operei tudo, menos os seios. Os meus seios são muito bonitos. Esses nunca foram cortados. Sempre pensei: vou fazer plástica até a cara encontrar o rabo. Se encontrar que se cumprimentem: "Bom dia, meu senhor!"; "Bom dia, minha senhora!"

Não gosto de gente que fala palavrão, de mau jeito, perto de mim. Não falo palavrão para ofender nem magoar ninguém; falo para divertir, para alegrar e se uma pessoa não tiver a mesma intenção, melhor não falar perto de mim. Sou uma pessoa séria, uma mulher que gosta das coisas certas. Sou uma mulher brava e um pouco sem educação. Sei que sou, mas às vezes uso isso pra me defender. Acredito em poucas coisas, duvido de muitas. Nem no sucesso eu acredito.

Quando o pano abaixa, quando o palco escurece, volto a ser aquilo que sou. ...porque o sucesso é mentira, é efêmero, e pra mim quem faz sucesso até hoje é Jesus Cristo. Ele não tinha mídia, não tinha nada e mais da metade do mundo O respeita. Estudei até o terceiro ano do grupo, mas tenho inteligência pra ver longe. Sou como águia: eu voo alto, mas estou de olho lá embaixo."

Trechos do livro "Dercy de Cabo a Rabo",
de Maria Adelaide Amaral

Dercy Gonçalves bota a boca no trombone na entrevista concedida aos jornalistas Bianca Blasfera e Marcos Costa Rodrigues do Jornal Praia do Rio

Sempre fui uma revolucionária

- "A minha vida eu já vivi, fiz o que tinha que fazer, passei de longe pelo precipício. O que passei é da estrada e ela tem pedra, tem espinho, tem merda, tem lama; caí no buraco, saí do buraco, fiquei doente, tive tuberculose, câncer, tudo nesta estrada.

Segui o meu caminho. A minha moda foi boa para mim, não sei se incomodei alguém. Eu fui uma revolucionária, sempre gostei de ser livre...

Hoje estão tentando fazer o que eu fazia, mas acabam fazendo tudo errado. Porque tive liberdade e limite. Seria incapaz de roubar, fazer trambique, de tirar o marido de outras mulheres...

Não tenho partido, sou brasileira. Acho que no Brasil está faltando um pouco mais de amor, de amor à pátria, que quase ninguém tem.

Todo mundo que veio aqui foi para roubar. Então, o mau-caratismo contaminou e todos têm um pouco de ladrão.

A política no mundo inteiro está distorcida. Veja o caso dos Estados Unidos, onde quase jogaram um presidente no chão porque trepou com uma puta.

Ninguém veio ao mundo para enfrentar a guerra, para passar fome. Se você for procurar sua vida, você vai encontrar. Só que todos querem ser funcionários públicos, fiscais de renda, militares.

Eu sou feliz, me contentei em ser uma artista de interior mambembeira, pobre.

A Rede Globo é padrão de qualidade, mas também de muita sacanagem.

O maior horror que já vi até hoje foi a apresentação de uma boneca inflável no programa do Jô Soares. A entrevistada mostrava como se fazia sexo, banalizando tudo.

Isso é orientação errada, por isso o Brasil está essa esculhambação. Só dão valor à bunda e a "pau grande".

A ignorância é que dita, e acaba o país ficando ignorante, analfabeto, sem cultura e sem conhecimento de nada.

Qualquer um faz dos pobres coitados o que quer. É uma prova de que o país não andou. Isso é perigoso, estão fomentando uma guerra civil.

Acredito que o Brasil não precisa passar por uma revolução civil para atingir a maturidade política.

Em todos os países tem vendaval, terremoto, e nós não temos. Todos os países brigam pela religião, nós não brigamos. Então, por que vamos imitar o ruim?

Você não cria um filho dando porrada nele, cria com amor e compreensão. Você ama sua mãe porque ela lhe deu carinho, o amamentou; senão você a odiava.

Assim deve ser com a pátria. Precisamos chamar a atenção para a cultura, para a educação. O povo deve ser tratado com carinho, amor e respeito."

Obrigada, Dercy!
Lou Micaldas

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Imagine a chegada de Dercy ao céu…

- Porra tá frio aqui em cima;
- O céu não tem temperatura - pondera um porteiro celestial de plantão.
- Não tem é o cassete. Tá frio sim senhor - insiste Dercy.
- Prefere o inferno? Lá é mais quentinho.
- Manda tua mãe pra lá. - Cadê o Pedro?
- Pedro só atende aos purificados.
- E eu to suja por acaso? To cagad…
- Você primeiro tem que passar pelo purgatório, ajustar umas continhas…
- Não devo nada a puto nenhum.
- Você foi muito sapeca lá por baixo.
- Como é que você sabe? Andava escondido debaixo das minhas saias?
- Dercy, daqui de cima a gente vê tudo.
- Vê porra nenhuma. Vê a pobreza, a violência, meninas de 4 anos sendo estupradas pelos pais, político metendo a mão no dinheiro dos pobres, cara cheirando até cocô pra ficar doidão? O que vocês vêem? Só viam…
- Você fala muito palavrão.
- Eu sempre disse que o palavrão estava na cabeça de quem escutava. Palavrão é a fome, a falta de moral destes caras que pensam que o mundo é deles. Esses goelas grandes e seus assessores laranjas, tangerinas e o cassete…
- Está vendo? Outro palavrão...
- Cassete é palavrão seu porteiro de meia tigela? Palavrão é PQP… (silêncio de alguns segundos)
- Seja bem vinda Dercy. Sou Pedro. Pode entrar.
- Porra, não é que eu morri mesmo! E o purgatório?
- Você já passou 101 anos por ele, lá embaixo. Venha descansar.
- É to precisando mesmo. Mas tira essa mão boba de cima de mim!

Autor: não mencionado
Enviado por John Dale

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Viva, Dercy! Viva, Viva, Viva!

"Não tenho medo de morrer. Eu não vou morrer, eu vou desaparecer. Só vou morrer quando eu quiser".

Pois um dia Dercy Gonçalves pediu, e Deus, o Grande Humorista do Universo, contratou mais uma comediante para brilhar na eternidade. A inigualável Dercy Gonçalves só não deve ir para o Céu porque lá é um lugar muito pequeno para sua irreverência, escracho e ousadia.

São Pedro que se prepare para ouvir um retumbante: “Puta que pariu, me mandaram para o lugar errado...”. A alma de Dolores Gonçalves Costa se foi do mundo material para a eternidade, no dia 19 de julho, às 16h 45min. Mas o espírito comediante de Dercy Gonçalves ficará para sempre animando nossos corações.

A Confraria do Garoto ganha uma madrinha eterna para o nosso bloco carnavalesco Galinha do Meio Dia. Viva Dercy! Viva, viva, viva!

Dercy Gonçalves nasceu em 23 de junho de 1907, em Santa Maria Madalena, na região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Seu corpo será sepultado segunda-feira em sua cidade natal, onde já existe um monumento, um museu mausoléu em forma de pirâmide, em uma praça pública para lhe servir de morada eterna.

O governo do estado do Rio decretou luto oficial de três dias. O velório será neste domingo, na Assembléia Legislativa do Rio (Alerj). O povo que te ama estará lá em peso, Dercy.

Autor: Jorge Serrão
Enviado por: Luiz Carvalho

 

Autor(a): Lou Micaldas

 

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