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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

DIRCEU BELLIZZI
publicado em: 12/01/2016 por: Netty Macedo

 
Matéria publicada em 18/10/2005
São 61 anos de clínica, desde os vinte anos, quando se formou em Medicina. Depois de tanto tempo na estrada da vida, nosso entrevistado, o pediatra Dirceu Bellizzi, 81 anos, tem boas estórias para nos contar.

MARÍLIA: Onde e quando você nasceu?
DIRCEU: Nasci em 1924, em Magé, uma cidade até hoje muito pobre, no Estado do Rio. Meu pai, Domingos Bellizzi, era de família italiana, também médico. Minha mãe, Eulália, era uma mulher com pouca instrução, mas sábia em relação à vida. (Foto: Domingos e Eulália)

MARÍLIA: Conte um pouco sobre sua infância em Magé.
DIRCEU: Éramos cinco irmãos - quatro homens e uma mulher - Alexandre, Marília, eu, Domingos e Ataliba.
Todos com as características da verdadeira família italiana - falantes, agitados, festeiros e muito levados. Mas muito unidos, diga-se de passagem. Sabe como é, em família italiana, as brigas são normais. Mas não havia rancor entre nós.
Tínhamos aquelas briguinhas de irmãos, mas ai de quem falasse mal de um de nós! Na hora da raiva, o sangue fervia. Mas, logo depois, como se diz hoje em dia, tudo acabava em pizza!

MARÍLIA: Nessa confusão saudável, como se comportavam seus pais?
DIRCEU: Minha mãe era braba. Brigava, chamava a atenção, colocava de castigo e dava boas palmadas, quando necessário.
Já meu pai, apesar de cobrar tarefas, era bastante flexível.
E não tinha muito tempo. Sabe como é, para sustentar cinco bocas, sua única opção era trabalhar muito. Em lombo de burro, como se fazia na época. Quando o paciente morava longe, o atendimento durava quase um dia inteiro!
Modéstia à parte, meu pai era um médico muito dedicado. Não cobrava nada dos clientes mais humildes e, em todo o seu sufoco, ainda ajudava nas obras da Igreja. Magé também soube reconhecer a sua dedicação: há um busto do meu pai em plena praça principal da cidade e todos os seus filhos são muito orgulhosos disso! Tanto é que, por modelo e admiração, os filhos homens seguiram a carreira médica. Só minha irmã é que se formou em Direito.

MARÍLIA: E as boas lembranças da infância?
DIRCEU: Ah, são muitas. Nem dá para contar todas... As melhores são os casos engraçados do meu irmão mais velho, Alexandre, que era gordinho e muito engraçado. Ele vivia caindo - no chão, no pátio do colégio, e até mesmo no lago da cidade. A gente chegava em casa e só ele encharcado. Aí, levava muita bronca da minha mãe e nós ríamos bem escondidos.
As desavenças com colegas também eram constantes, em bailes e carnavais, por ciúmes de nossa irmã, Marília, que sempre foi muito bonita e despertava a atenção dos meninos.

MARÍLIA: A única filha e irmã é sempre o xodó da família...
DIRCEU: É verdade. "Marília" e "Dirceu" são nomes de personagens da nossa História: participaram ativamente do movimento da Inconfidência Mineira, em Ouro Preto e formaram um casal muito apaixonado. Acho que, pela escolha dos nomes, nossos pais selaram o nosso destino. Eu e minha irmã fomos muito unidos durante a vida toda, até o seu falecimento que, infelizmente, ocorreu há pouco tempo, agora em outubro.
Perdi há mais tempo meu irmão Domingos, de maneira que, atualmente, somos apenas três.
Os sobrinhos que perderam seus pais ainda mantêm contato constante conosco. Por isso, apesar das perdas, nós nos consideramos ainda uma família unida.

MARÍLIA: E a sua adolescência também foi assim, bastante agitada?
DIRCEU: Em Magé, nossa casa era muito movimentada. Nós e nossos pais tínhamos muitos amigos e adorávamos festas. Os bailes de carnaval eram memoráveis. Em cidade pequena, a farra é maior e mais saudável. Mas, com o tempo, meus pais sentiram necessidade de vir para o Rio. Eles queriam dar uma educação mais aprimorada aos filhos. E Magé não tinha bons colégios. Foi, então, que viemos para o Rio, em 1929, quando eu tinha apenas 5 anos.

MARÍLIA: A adaptação da sua família à cidade grande foi muito difícil?
DIRCEU: Nem tanto. O problema é que nos mudamos para uma rua atrás do Ministério da Guerra. Um ano depois, estourou a Revolução de 30. Nós dormíamos todos juntos, debaixo da cama, assustados com os estampidos e os gritos dos revoltosos nas ruas.
Depois de um tempo, a família se mudou para Santa Teresa. Lá sim, um lugar ótimo e tranqüilo, onde fizemos amigos do peito, praticamente um núcleo familiar que nos acompanha até hoje.

MARÍLIA: Agora, me conte sobre os seus amores da juventude.
DIRCEU: Olha, eu ia muito a festas. Gosto muito de música - ouço, à noite, músicas francesas, italianas, Chopin, Schubert, Chico Buarque e Dorival Caymmi. E gosto de gente também. Mas nunca soube dançar. E na minha época, quem não dançava não arranjava tanta namorada assim.
Tive, sim, alguns flertes e pequenos amores - namorei, inclusive a atriz Wilza Carla que, na época, era bem magrinha e bonita. Mas nenhum desses amores deixou grandes marcas.
A grande paixão da minha vida, a quem dediquei muitos poemas, foi minha mulher Dorothy, que conheci lá mesmo, em Santa Teresa.

MARÍLIA: Aí, então, começou a sua história de amor. Sendo viúvo, você se incomoda em falar sobre a sua mulher?
DIRCEU: De jeito nenhum. É uma alegria. Fui muito feliz. Tive quatro filhos: Jorge, Wander, Marília e Dirceu. Hoje, todos formados e saudáveis.
Meus netos Diana, Luiza, Beliza e Igor me dão muitas alegrias.
Apesar das saudades, as boas lembranças me revigoram e a presença dos meus netos na minha vida me deixa feliz.

MARÍLIA: Como foi o namoro de vocês?
DIRCEU: Meu sogro era muito brabo. Minha sogra, não. Era uma pessoa maravilhosa, muito humana, e sempre torceu por nosso amor. Na época, Dorothy já era uma mulher feita e independente. Trabalhava e ganhava o próprio dinheiro, como secretária da Fundação Getúlio Vargas. Mesmo assim, meu sogro implicava com o nosso namoro. Coisa de pai antigo. Ainda mais inglês...
Aos poucos, fomos dobrando a sua intransigência. Ficamos noivos e nos casamos, em 1948. Em 1998, comemoramos Bodas de Ouro, com um jantar animado lá na sua casa, lembra?

MARÍLIA: É claro! Bem, antes de escolher a Medicina, você cultivava um hobby ou um gosto especial por alguma atividade?
DIRCEU: Sempre gostei muito de ler. Ainda menino, os livros eram meus grandes companheiros. Brincávamos muito ao ar livre, mas eu era o que mais lia.
Em família italiana, daquelas que conservam as tradições, um filho era sempre o escolhido para ser padre. Minha mãe me escolheu porque eu era coroinha na Igreja. Ela me achava calmo, estudioso e amante da leitura. Não tenho nada contra padres. Aliás, tive muitos amigos padres.
Um filho meu, inclusive, tem o nome de um - Wander - que era grande amigo da família. De qualquer forma, com a escolha de minha profissão, acabei exercendo algumas funções de padre. Sabe como é médico de família do tempo antigo. A gente faz um pouco de tudo: ouve confidências, aconselha, consola, enfim, ajuda a curar os males do corpo, da alma e do coração. Por isso, acho que acabei atendendo às expectativas de minha mãe. Mas, graças a Deus, me casei e constituí família.

MARÍLIA: Qual o tipo de leitura de que você mais gostava?
DIRCEU: Indiscutivelmente, a poesia.
Os poemas de Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira e Cecília Meirelles me marcaram profundamente e foram uma inspiração: na juventude, escrevi muitas delas, a maioria endereçada à Dorothy. Cecília Meirelles, inclusive, me homenageou com uma poesia, em uma dedicatória para mim. Eu revisei o seu livro "Vaga Música" e ela, com aquele jeito carinhoso, me deu aquele presentão.

MARÍLIA: Então, você também trabalhou como revisor?
DIRCEU: Trabalhei na Imprensa Nacional, como revisor, para pagar minha faculdade. E de madrugada, imagina o sacrifício! Mas não tinha outro jeito. Como disse, meus pais eram trabalhadores, mas não tinham condições de arcar com os estudos dos filhos. Nós todos fomos nos virando, de alguma forma, para tirar o diploma.

MARÍLIA: Então, a leitura não foi só útil para sua vida pessoal, não é?
DIRCEU: A leitura me abriu as portas, na vida pessoal e profissional. O hábito me ajudou, além de tudo, a desenvolver a capacidade de falar em público.
Sempre tive essa facilidade, mas, além de enriquecer meu vocabulário, adquiri maior confiança e segurança em minhas aulas, palestras e discursos. A gente fica com um bom repertório de boas estórias, pensamentos e reflexões. Quando ditos na hora certa, o público gosta bastante. Na prosa, minha grande inspiração foi Érico Veríssimo, cuja obra eu li inteirinha.

MARÍLIA: E onde aconteciam as palestras?
DIRCEU: Em todos os cantos - da cidade, do estado, do país e até do mundo. Em minhas palestras, eu informava e aconselhava as mães sobre a melhor maneira de cuidar de seus filhos. Mas sempre através de pequenas estórias, parábolas de fácil entendimento;
de vez em quando, para quebrar um pouco o clima formal, eu contava pequenas piadas inocentes ou recitava uma poesia bonita. Desse modo, fui parar até na Europa - inaugurei congressos em Portugal e na Espanha.

MARÍLIA: Você tem alguma aptidão musical?
DIRCEU: Quando era pequeno, aprendi violino. Era um instrumento muito ligado às tradições italianas. Eu tocava bem, mas não levei a atividade muito a sério e acabei abandonando.

MARÍLIA: E quanto aos esportes, você praticou algum?
DIRCEU: Quando jovem, gostava de jogar xadrez e pratiquei remo. Gostava de caminhadas. Mas confesso que sou um homem do intelecto. Dou valor à saúde física, mas eu a preservei através de meus hábitos saudáveis: não fumo, não bebo, nunca fui de noitadas e descansava um hora por dia, depois do almoço, antes de seguir para meu consultório. Assim, não precisei fazer muitos exercícios físicos para me manter em forma e saudável.

MARÍLIA: Vamos voltar ao seu casamento. Onde você foi morar quando se casou?
DIRCEU: Fomos para um pequeno apartamento, na Tijuca, porque a vida era apertada. Quando melhoramos um pouco, Dorothy engravidou do primeiro filho - Jorge.
Daí por diante, foi um batalhão. No total, quatro - vieram mais Wander, Marília e Dirceu. Na época, a Tijuca era um bairro tranqüilo, com muitos colégios, clubes, praças e área verde. O lugar ideal para se criar nossos filhos. Só faltava a praia. Mas a distância não era problema. Eu e minha mulher sempre tivemos muita disposição para fazer programas com uma turma imensa de crianças. Eram filhos, primos e amigos.
E nós levávamos todos! A autêntica família italiana, com direito a cestas de piquenique, rádio e material esportivo para todos. Gostávamos tanto de crianças que acabamos criando dois filhos de uma funcionária,Raquel, que trabalhava para nós como doméstica, ela própria tendo ido para nossa casa ainda menina. Simone e Rodrigo foram criados como filhos. E hoje a Simone ainda mora comigo, na Tijuca.

MARÍLIA: Com tanta animação, imagino que fosse uma família festeira...
DIRCEU: Ah, demais. Meu sangue italiano que o diga. Mas eu trabalhava muito. Acabava ficando na retaguarda, dando força à minha mulher, que se incumbia dos preparativos.
E ela adorava. Porque festa era com ela mesma. Ela era aquela mãezona - atraía a atenção e o carinho dos filhos, sobrinhos, dos milhões de afilhados e de todas as crianças vizinhas, que viviam lá em casa. Além disso, adorava novidades. Assim, todos os novos cantores, passos de dança, as novas tendências da moda, enfim, tudo o que era novidade era lançado em festas, na rua Sabóia Lima.
Fazíamos festas com sorteios, apresentação de mágica - onde eu era o mágico! - mímicas, imitações, discursos e muita dança. Até hoje, eu e meus filhos encontramos amigos da época, que nos revelam guardar na memória os bons momentos que passamos juntos, em festas e comemorações lá em casa. Eu digo casa, mas, na verdade, era um apartamento grande, com área externa e quintal.

MARÍLIA: Com tantas festividades, vocês ainda conseguiam morar em apartamento?
DIRCEU: Pois é, o lugar foi ficando pequeno para a família, os amigos e as festas.
Em 1970, quando os garotos já eram jovens, nós nos mudamos para uma casa grande, onde eu ainda moro. Na casa da rua Homem de Melo, com mais espaço, as festas foram muito freqüentes e bastante animadas.

MARÍLIA: E nas férias, vocês viajavam muito?
DIRCEU: Quando minha
filha Marília nasceu, nós
inauguramos nossa casa de praia em Mangaratiba. Na época, era uma "roça" com vista para o mar. Da nossa janela, nós pescávamos, imagine que privilégio! Por ser uma cidade pequena, não havia perigo algum: nossos filhos, sobrinhos e convidados passavam as férias todas por lá. Ficavam soltos o dia todo, sem problemas, na praia ou em passeios. Às vezes, só apareciam na hora das refeições. Minha família ficava direto e eu só ia nos finais de semana.
Foram cerca de trinta anos de alegria e felicidade. Talvez os melhores momentos de nossas vidas, como casal e pais de família.

MARÍLIA: Com tanta criança, festas, férias e compromissos sociais, onde ficava a Medicina?
DIRCEU: Ah, quando a gente ama a vida e ama o que faz, a gente arranja tempo para tudo!
A Medicina sempre foi a minha paixão profissional. No caso, a Pediatria.
Acho que minha escolha tem a ver com o meu jeito calmo: é preciso serenidade para lidar com a aflição das mães, ou de famílias inteiras, por causa da doença de um filho. Eu me dediquei de corpo e alma à minha profissão. Gosto do que faço e acho que a gente tem que agir com humildade e responsabilidade ao lidar com vidas.

MARÍLIA: Com 81 anos e em plena atividade, imagino que a clientela seja imensa...
DIRCEU: É verdade. Eu me formei muito cedo e tenho 61 anos de clínica. O que significa que tratei de crianças que hoje já são avós! Não é incrível? Além de incrível, é gratificante. Fui um médico de família, dos tempos antigos.
Eu tinha um histórico de todos os meus clientes. Trabalhei em hospitais - fui um dos fundadores do Hospital Municipal Sales Neto e Chefe de Pediatria do Hospital Estadual Carlos Chagas - além de ter minha própria clínica.
No Sales Neto, meus atuais colegas e antigos residentes inauguraram um novo CTI com o meu nome. Cuidei de ricos e pobres, mas procurei dar a todos um tratamento médico individual.

MARÍLIA: É uma visão mais humana da Medicina, não é?
DIRCEU: Com certeza. Desde cedo em minha profissão, me interessei pela obra de Freud e de Melanie Klein. A partir daí, compreendi que as doenças apresentam causas e sintomas extremamente vinculados às condições de vida, não só físicas, mas também psíquicas e sociais. Assim, iniciei meus estudos sobre Pediatria Social.

MARÍLIA: Poderia explicar melhor o que é Pediatria Social?
DIRCEU: A Pediatria Social procura inserir a criança num contexto de sua sociedade, para a explicação e tratamento de suas doenças. Quando eu era novo, muitas vezes fui mal interpretado. Algumas famílias não entendiam minha maneira de ver a doença e ficavam decepcionadas. Quando deixavam minha sala sem a receita daquele remedinho, ah, era um Deus nos acuda. Queriam, porque queriam, que eu receitasse, pelo menos um xarope, imagina! A família em peso acreditava que aquilo ia curar a criança.
E eu, com toda a habilidade, tinha que convencer a mãe, e principalmente a vovó, de que um tratamento caseiro era bem mais eficaz.
Entenda bem. Quando o problema era sério, eu não brincava em serviço. Eu era prático e procurava fazer as intervenções necessárias,
o mais rápido possível.
Fui vitorioso na maioria dos casos graves, mas confesso que tive a tristeza de ser vencido, algumas vezes, por doenças fatais, sem a mínima esperança de cura. Mas diarréia, tosse, resfriado, esses males mais simples que acometem qualquer criança normal, eram tratados por mim na base do chá, banana, maçã e, eventualmente, um biscoitinho salgado.
Às vezes, eu chegava na casa da família e a criança, o "paciente em potencial", estava todo coberto, tristinho na cama, com roupas quentíssimas, as janelas do quarto fechadas, sozinho e encolhido. Eu pedia, com jeito, para a mãe tirar tudo, levantar a criança, providenciar um banho morno e... tomar sorvete! As avós quase me matavam...
Mas as clientes foram vendo, com o tempo, que o astral e a esperança de ficar curado contam muito na recuperação de um mal-estar. E um mal-estar não pode ser considerado exatamente como uma doença.

MARÍLIA: Quer dizer que você era um médico moderno para a época?
DIRCEU: Bom, não sei se era. Mas assim era considerado. Por volta dos anos 60, a água do Rio não era tão bem tratada como atualmente. Então, quando a criança tinha diarréia, eu receitava Coca Cola. Isso mesmo, Coca.
No início, as mães arrancavam os cabelos.
Aos poucos, foram vendo que as receitas caseiras funcionavam muito bem. Inclusive, viam o meu exemplo: meus filhos todos foram criados sem xaropes, conta-gotas e injeções desnecessárias. E são todos fortes e saudáveis.
As mães começaram a perceber que, com menos remédios, seus filhos se tornavam mais resistentes e passavam a adoecer com menos freqüência. Gradativamente, a maioria entendeu que o melhor era abolir os remedinhos, de efeito apenas psicológico. Realmente, a Pediatria Social ampliou meus horizontes. Eu passei a ver a doença sob um outro aspecto, de uma forma mais holística. Hoje em dia, com tantas vertentes naturais e alternativas da Medicina, essa idéia de que a saúde pode ser alcançada com menos remédios já é bastante difundida pelos especialistas e bem aceita pela sociedade em geral.

MARÍLIA: E os pediatras da época, aceitavam bem essas novas idéias?
DIRCEU: Não éramos um grupo enorme, mas éramos muitos. Eu e meu colega, o pediatra Athayde Fonseca, fundamos o Comitê de Pediatria Social da Sociedade Brasileira de Medicina. A partir de então, fomos convidados como palestrantes pelo Brasil e pelo mundo afora.
Participamos de muitos congressos, nacionais e internacionais, e a troca de informações, entre nossos pares e com o público em geral, só nos fez acreditar que um novo olhar e uma nova dimensão seriam o futuro da Pediatria. Com tantas viagens, tivemos a oportunidade de conhecer pessoas ilustres, como Indira Gandhi, Cora Coralina e Albert Sabin.

MARÍLIA: Pelo visto, acredito que você tenha dado muitos conselhos "zen" para suas clientes, no trato com seus bebês.
DIRCEU: Ih, foi outro ponto de incompreensão no começo, mas de resultados fantásticos, a longo prazo. A única coisa que eu receitava - e ainda receito - para minhas clientes, quando se tornam mães, é PEITO E COLO. Nada melhor do que isso, para o equilíbrio físico, mental e afetivo de um bebê.
É certo que os tempos mudaram e as mamães trabalhadoras de hoje já não dispõem de todo o tempo do mundo para cuidar de seus filhos. Mas as leis trabalhistas protegem as mulheres e, por isso, ainda é possível seguir este caminho, a meu ver infalível: a mãe que dá peito e colo ao seu filho está lhe dando o essencial, que é o carinho e o amor incondicional. Com isso, o bebê reflete seu estado emocional, isto é, reflete tranqüilidade. Tirando os detalhes, a regra é essa: mãe nervosa, bebê nervoso e agitado; mãe calma e atenciosa, bebê sem agitação ou choro desenfreado.
É claro que falo em termos, como já falei anteriormente. Há crianças que nascem com problemas, uns sérios e outros nem tanto. Mas, nos casos normais, sem grandes atropelos, o conselho continua prevalecendo: PEITO E COLO. Como todos os mamíferos! Você pode ver que Deus é um bom conselheiro...
E se esse modo de tratar o filho se perpetuar ao longo da vida, a mãe não vai se arrepender. Veja ao seu redor e me diga se o problema das drogas, da violência, dos abusos, da falta de respeito e de ética, do desânimo e da depressão, em jovens e adultos, não poderia ser bem menos grave se, um dia, bem lá atrás no passado, essas crianças não tivessem recebido o carinho de suas famílias. Essa atenção, esse amor incondicional que nos tornam confiantes em nós mesmos e amantes do próximo.

MARÍLIA: Você tem toda a razão. O cultivo da semente é que a transforma em uma linda árvore. É uma ótima mensagem para as futuras gerações e para os nossos "VelhosAmigos".
DIRCEU: Falando em árvore, eu, que não entendo quase nada de computador, fui apresentado por você, minha filha, ao site "VelhosAmigos". Achei espetacular a idéia e a iniciativa de colocar essa nossa gente, de idade mais avançada, para papear, dançar, se conhecer e se divertir. Árvores como essas se tornam frondosas e dão muitos e bons frutos. Vocês estão de parabéns!

MARÍLIA: Você também está de parabéns. Pela família que constituiu, pela bela profissão que abraçou e pela vitória que conquistou, salvando tantas vidas. Obrigada pela entrevista.
DIRCEU: Eu é que agradeço. Até breve! Dessa vez, no site "Velhos Amigos". Prometo que vou me esforçar para ficar embaixo dessa sombra afetiva e entrar bem rápido para essa família.

Autor(a): Marília Bellizzi Jaccoud (filha de Dirceu Bellizzi)

 

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