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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

ELZA CANSANÇÃO
publicado em: 13/01/2016 por: Netty Macedo

 

"Não estou brincando, coronel. Na minha família não tem mais homens que possam lutar, meu pai já está idoso e meu irmão já morreu. Cabe a mim assumir. Estou pronta pra ajudar a acabar com a guerra"

Nascimento: 21/10/1921
Falecimento: 08/12/2009

A Major Enfermeira Elza Cansanção Medeiros, uma carioca de Copacabana, filha de alagoanos, foi a primeira voluntária a se apresentar para a II Guerra Mundial. É a mulher mais condecorada do Brasil: ganhou 35 medalhas. "Velhos Amigos" foi ao Palácio Duque de Caxias, no Comando Militar Leste, onde ela trabalha oito horas por dia, para conhecer e conversar com essa guerreira. Elza é uma mulher sem papas na língua, alegre, que conta a sua vida desde menina até os dias atuais, com simplicidade, misturando lances emocionantes com fatos engraçados.

LOU - Qual a data do seu nascimento?
ELZA - 21 de outubro de 1921.

LOU - Como era o nome de sua mãe?
ELZA - Aristhéa Cansanção.

LOU - E o de seu pai?
ELZA - Thadeu de Araújo Medeiros

Meu pai era médico, foi secretário de Oswaldo Cruz, e eu, desde menina, discutia com ele sobre os assuntos ligados à medicina.

LOU - Onde você passou a sua infância?
ELZA - Quando eu era menina, eu sempre fui muito moleca e muito levada. Meu pai nos criou dizendo assim: tudo o que a gente quiser fazer, faça! Tem juízo? Tenho. Então faça! Meu irmão quis viajar pro Chile aos nove anos: tem juízo? Tenho. Então vai. E sozinho. Isso naqueles idos de 1922/23, por aí assim. O menino saiu daqui sozinho pro Chile. E comigo era assim também. Mas eu tinha a minha tropinha de moleques lá na rua. Os moleques depois eram o Almirante Carlos Altino de Andrade, esse pessoal todo, filho do almirante fulano, do general beltrano, do coronel, de advogados, porque Copacabana era uma família, todo mundo se conhecia, todo mundo era amigo naquele tempo. E nós todos tínhamos espingarda de ar comprimido.

LOU - Você era uma criança travessa?
ELZA - Eu era muito levada, tudo o que você pensar, eu aprontava. No colégio até que não. Eu aprontava era na rua. Amarrava lata em rabo de gato, o gato saía pulando e as latas fazendo barulho... Andava de velocípede com lata fazendo barulho atrás.

A PRIMEIRA GUERRA

Na revolução foi gozadíssimo, porque tinha a casa dos Scarpas numa esquina e o palacete dos Pessoa de Queiroz, do outro lado, era um castelinho, muito bonito. E a casa dos Scarpas tinha seteira. As duas casas ficavam na esquina de Santa Clara com Av.Atlântica.

Quando houve a revolução e os lenços vermelhos começaram a invadir tudo, nós pulamos pra dentro do terreno, a tropa toda, e tinha um pivetinho pequenininho que ficava dizendo: lá vem um de lenço vermelho, e a gente apontava. A ordem era atirar na cara, porque não adiantava você atirar com pedra e caroço de milho na roupa. Pra sentir tinha que ser na cara. Então a ordem era atirar na cara.
E a molecada toda armada de ar comprimido atirando nos soldados.

Quando eles tentaram entrar na casa dos Pessoa de Queiroz nós pulamos o muro e nos entrincheiramos e dissemos: se entrar aqui nós matamos.

Ora, pivetinhos iam matar quem? Mas o comandante da tropa ficou meio escabreado porque ele não podia avançar em cima das crianças, e acabaram indo embora, ele mandou retirar a tropa, e não invadiram a casa dos Pessoa de Queiroz que estava sendo defendida pela tropa de pivetes.

LOU - Essa foi a sua primeira guerra...
ELZA - A primeira guerra começou aí, na Revolução de 30.

LOU - E onde você estudou?
ELZA - Eu estudei no Sion, no Anglo-Americano, onde fui colega de Bibi Ferreira. Quando eu entrei pro Sion a Bibi tentou entrar, mas não deixaram ela entrar. Estive um ano no Sion. Tentei ficar mas não gostei, e pedi a papai para sair porque o colégio era pernóstico demais.

O meu cabelo era muito liso, a fita não segurava. Um dia me amarraram o cabelo com barbante, eu fiquei com raiva e disse: não volto mais pro colégio. Eu era muito cheia de vontades, papai fazia tudo o que eu queria.

LOU - Você brincava na rua, pulava muro?
ELZA - Ah, isso de pular muro, subir em árvores, isso era comum. O meu forte era a natação. Desde pequenininha, o meu berço era a areia da praia. Tinha a barraca muito grande, a governanta ficava sentada na cadeira de palha, tinha umas cadeiras de palha boas, fazendo os crochês, tricôs, e o lençolzinho forrado e eu dormindo na beira da praia ou no assento do carro. Nós tínhamos um carro enorme e o meu berço era ali. Durante o dia, do lado da Domingos Ferreira, que era pertinho, fresquinho, ficava dormindo, o chofer mandava a mamadeira. Então carro e água sempre foram as duas coisas ligadas à minha vida.

LOU - Boneca, nem pensar.
ELZA - Brincava muito, minha avó mandou do nordeste um pastoril. Sabe aquelas danças nordestinas que tem um cordão vermelho, cordão azul, tem o pastor, a rainha, o rei?...
Eu tinha um tabuleiro enorme, um pastoril inteiro armado de bruxinha de pano, muito bem feito. Meu irmão operou todas elas, elas morreram todas. Meu irmão era gênio, ele tinha QI fora do normal. Ele era um compositor fora de série.
Morreu, em Paris, com 1 mês e 5 dias pra completar 18 anos.

LOU - E na época da guerra você estava fazendo o quê?
ELZA - Eu não estava fazendo nada. Eu fui muito mal educada, como eu disse a você. Eu fui criada com todas as vontades. Se eu não gostava da cara do professor, não voltava pro colégio e ficava por isso mesmo, não voltava e não voltava. Eu não fiz ginásio, hoje sou doutora, de anel no dedo, formada em jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia, e não tenho ginásio. Eu fiz auxiliar de comércio, mas uns poucos meses antes do término do ano foi cassado o registro da escola e eu não tive o diploma. Então larguei pra lá, não estudava nada, só vivia viajando e passeando. Tinha governantas em casa. Fui criada com as governantas alemãs, que ensinavam
música e línguas. Eu falo cinco línguas e pego o instrumento que passar na minha frente. Português, inglês, francês, italiano e um pouco de alemão... Português de Portugal, não brasileiro; eu cá falo português de Portugal
(falou acentuando e sotaque). Tanto que o meu livro é escrito em três línguas: português, inglês e italiano.

LOU - Você era muito avançada pra aquela época? Devia ser o assunto das "comadres"...
ELZA - Você já imaginou em 1943 uma mulher de short, em Maceió, lavando jipe na rua? E fumando de piteira? As minhas piteiras tinham 20cm, e então era aquele escândalo, porque eu fumava de piteira, lavando jipe, com cigarro no canto da boca, o povo passava na rua, nos bondes. Isso numa cidade pequenininha como era Maceió, era o maior escândalo da paróquia. Juntava gente pra olhar.

LOU - O que levou você a ir à guerra?
Essa mulher Elza, bonita, que possuía de tudo,
a deixar todo o conforto da sua casa, do charme da alta sociedade, para enfrentar as dificuldades, riscos e privações numa guerra?
ELZA - O que me levou à guerra foi justamente ver a minha gente sendo atacada. Nós tivemos os nossos navios torpedeados. Famílias inteiras morrendo sem saber por quê.

EU SOU UM ANIMAL

Em toda a costa brasileira. E não só na costa brasileira, mas também navios que foram torpedeados na costa dos Estados Unidos, mas principalmente aqui dentro do Brasil. Nós temos navios aqui na entrada da Barra, nós temos submarino posto a pique aqui na entrada da Baía de Guanabara. Nós temos o U128, que foi encontrado por um amigo meu, no ano passado, lá em frente a Maceió, em Lagoa Azeda. Eu não podia permitir jamais que quem quer que seja viesse aqui, na minha pátria, atacar minha gente. De jeito nenhum, eu não posso permitir que, quem quer que seja, de direita, esquerda, frente, costa, seja que diabo for, tente por a pata aqui no meu país. Eu sou "um animal" contra quem tentar entrar aqui no Brasil.

AS SAMARITANAS

A única forma de ingressar na guerra seria como enfermeira. Mas eu era menor e meu pai não autorizou, alegando que não queria pra sua filha menor uma vida de sacrifícios, como a que ele teve. Recorri a minha mãe que prontamente me concedeu a autorização. Fui aceita pela direção da Escola de Enfermaria da Cruz Vermelha, e ingressei na turma das Samaritanas de 1942.
As moças que faziam parte da turma de Samaritanas eram a nata da sociedade daquela época, dela faziam parte as mais representativas famílias brasileiras. Terminamos o curso em 18 de abril de 1943. Terminado esse curso, eu segui pro nordeste. Mas antes de eu sair daqui pro nordeste, em 18 de abril de 43, quando eu vi que a coisa estava feia, eu vim ao Ministério do Exército pedir pra ir pra guerra. Disseram que eu estava louca, que o mínimo que eu tinha era febre cerebral, que ninguém ia pra guerra e eu queria brigar sozinha. Falei ao Coronel Emanuel Marques Porto:
- Não estou brincando, coronel. Na minha família não tem mais homens que possam lutar, meu pai já está idoso e meu irmão já morreu. Cabe a mim assumir. Estou pronta pra ajudar a acabar com a guerra. Vendo que eu estava decidida, ele me levou ao General Souza Ferreira, Diretor de Saúde do Exército.
E o general assumiu o compromisso comigo de que, no caso de movimento de tropas, eu seria mandada, estivesse onde estivesse. Ele me deu uma carta nesse sentido, e foi quando eu fui pro Nordeste. No dia de sétimo dia de minha avó, foi torpedeado o navio Itapagé. Eu organizei todo o socorro aos náufragos. Depois segui pro Recife, onde me apresentei com minha carta ao General Newton Cavalcanti, Comandante da 7a. Região Militar, que me deu permissão para estagiar no Hospital Militar do Recife. Fui a primeira mulher a trabalhar como enfermeira no Hospital Militar de Recife. Lá em Recife eu fui convidada a reorganizar a Cruz Vermelha. Começamos uma nova batalha, que foi ver com quem nós podíamos contar.

Aí eu espalhei um convite, para aquelas que haviam feito um curso na Faculdade de Medicina de voluntárias socorristas. Eu então mandei um convite pra todas essas moças solicitando comparecimento no dia tal, a tantas horas a fim de tratar de interesse mútuo, e não dizia mais nada. Foi um pandemônio em Pernambuco.
Foi gente pedindo pelo amor de Deus pra não mandar a filhinha pra guerra, que a menina tinha feito aquilo por entusiasmo e não sei mais o quê. Foi uma dificuldade pra nós contermos o pessoal e ao mesmo tempo selecionar quem realmente tinha interesse.

A CHAMADA

LOU - Enquanto isso você esperava ser chamada pra guerra...
ELZA - Quando eu estava trabalhando no hospital em Recife, chegou um telegrama: "aberto voluntariado enfermeiras. Caso continue de pé seu oferecimento retorne imediatamente". No dia seguinte, às 4 horas da tarde, eu já estava aqui, no Rio de Janeiro.

LOU - E quem era o general?
ELZA - Souza Ferreira. Era o Diretor de Saúde do Exército, aquele a quem eu tinha me apresentado, antes de ir para o nordeste. Aí, ele me disse:
- "Agora tem um curso, vai depender de você, da sua classificação. Se você se classificar, tudo bem"
- "Pode deixar comigo", respondi.

VIDA DE SOLDADO

LOU - E como foi esse curso?
ELZA - Nós fizemos um curso muito difícil, porque foi um curso de curta duração, mas excessivamente puxado, porque eles diziam: vocês não querem ser soldados? Então vão aprender! E judiavam da gente. Tínhamos que executar todos os exercícios que eram ministrados aos soldados. Exceto o treinamento de cavalaria. Nós tínhamos de manhã, de 7 às 11, lá no HCE, a parte prática. Pegávamos o bonde de Alegria, que levava uma hora até a Central do Brasil. Aí, ao meio-dia, mais ou menos, estávamos chegando aqui na Central do Brasil. À 1 hora já tínhamos aula, não tínhamos tempo para comer. Então um grego, amigo do marido de uma amiga minha, tinha um café na Central do Brasil. Nós acertamos com ele dele botar um copo de café com leite, um pão com manteiga em cima. E a gente vinha com 400 réis na mão, largava em cima do balcão, pegava o copo, bebia o café com leite e vinha comendo o pão.
Isso foi uma camaradagem que ele fez conosco, já arrumava as filas dos copos de café com pão e manteiga. Era com esse alimento que a gente contava, e olha que tínhamos tomado o café às cinco horas da manhã, pra poder chegar em Benfica às 7, no estágio. Depois que tomava esse leite, vinha pra aula, e saía correndo pra Fortaleza de São João. Isso tudo não tinha transporte não, era por nossos próprios meios.

SUFOCO MESMO

Tinha um ônibus que passava, que dava a maior volta; se a gente perdesse aquele, perdia a aula lá. Saía correndo pra lá, pra Fortaleza de São João. Assim que chegava, punha o calção de ginástica e íamos fazer educação física. Em outros dias era natação na Tijuca. Isso tudo sem alimentação, sem assistência, sem nada. Foi muito difícil, foram 6 semanas que nós passamos aqui de sufoco, sufoco mesmo.

Na foto, enfermeiras fazendo treinamento de transporte braço a braço. Várias enfermeiras sofreram acidentes, como luxações, costelas e clavículas quebradas... Terminado o curso, aquelas que foram aprovadas, depois foram convocadas. Uma vez convocadas nós passamos a ser Enfermeiras de Terceira Classe da Reserva do Exército. Com o tal tracinho no braço e sem posto. A primeira turma de voluntárias teve 50 alunas, porém somente 37 foram incorporadas e seguiram para a Itália. Quando o curso terminou, tive o desprazer de ver que me tiraram injustamente 5 décimos na nota, justamente numa coisa que eu não podia pedir revisão de provas - educação física.
Só que naquela época eu era campeã de natação, arremessadora de peso, aluna do Helio Grace de defesa pessoal, não podia perder e me tiraram os 5 décimos, mas consegui sair empatada com mais duas colegas.

LOU - Foi essa a primeira turma de enfermeiras da FEB?
ELZA - É, foi assim que foi organizado o Destacamento Precursor de Saúde.

EU FUI NA FRENTE

Na hora de ir pra guerra o general manteve o compromisso dele. Eu fui na frente. Das três só eu fui na frente.
As outras foram bem depois.
Aí, seguimos daqui pra Itália e saímos as cinco primeiras. Na foto, à esquerda em cima Antonieta Ferreira, abaixo, Ignácia de Melo Braga, à direita, acima, Carmem
Bebiano,abaixo, Virginia Porto Carreiro, que era minha colega de turma na Cruz Vermelha. No centro, Elza Cansanção. Éramos nós cinco.

Nós saímos daqui, as cinco primeiras. Fomos de avião.
Fizemos uma viagem horrorosa pela África do Norte toda, porque nós não tínhamos posto. Tínhamos um tracinho no braço: era Círculo de Oficiais, mas Enfermeiras de Terceira Classe. Na família foi um escândalo quando me apresentei pra guerra, né? Porque família abrasonada, cheia de riquifinfins, barões e viscondes pra todo lado, e eu me meter no meio de 25.000 homens, você já pensou? Isso foi uma loucura total. Meu pai cortou relações comigo. Mas americano não entende isso, ou é ou não é. Resultado é que nós não podíamos ir pro restaurante de praças porque não éramos praças, não podíamos ir pro de oficiais... e tivemos que ficar sem comer mesmo. Nos valemos de biscoito, petit-fours, essas coisas, que eu tinha levado, que o presidente da Cruz Vermelha de Pernambuco era o dono da fábrica de biscoito Pilar e tinha me dado duas caixas de 5kg de biscoitos e uma pilha de petit-fours, e foi com isso que nos valemos, até chegarmos a Alger. Chegando em Alger encontramos o Embaixador Vasco Leitão da Cunha, amigo de meu pai e que me conhecia desde pequenininha, e que fez uma festa enorme:
- "O que você está fazendo aqui minha filha, como é que seu pai deixou?"
- Não, papai não deixou.

TRADIÇÃO GUERREIRA

Mas tem uma coisa, eu sou a quarta guerreira da família.
Eu descendo de uma tradição de guerreiras.
De quatro em quatro gerações, nós temos uma guerreira na família. A primeira foi a índia Muirá Ubí, Maria da Conceição Arcoverde, que conquistou o Jerônimo de Albuquerque, lutou por ele com a seta envenenada encostada ao peito dizendo se não me der esse homem eu me mato, aí ganhou de presente o homem dela. Muirá Ubí - Ubí é sobrenome, quer dizer arco verde, é a família Arcoverde, do Cardeal Arcoverde. A segunda guerreira, em quarta geração dela, foi a D. Jerônima de Almeida, cuja vida foi trocada por 10 pães de bom açúcar, condenada à morte por Maurício de Nassau por fazer o serviço de estafeta e tráfego contra os holandeses, na guerra holandesa, acabou sendo presa e condenada à morte e teve a vida trocada por dez pães de bom açúcar.

LOU - Como foi? Não entendi.
ELZA - Naquele tempo o açúcar valia mais do que o ouro. Então, havia uma forma de madeira cônica, que é o feitio do pão de açúcar, virada ao contrário, e naquele topo (onde é o topo do bondinho do Pão de Açúcar, hoje), havia um furinho, e você botava o melaço pra decantar. Espremia cana, fazia o melaço e botava naquela forma pra decantar. Por aquele furinho ia saindo o melzinho até que cristalizava o açúcar. Quando cristalizava, ele virava e ficava do feitio do morro.

LOU - Ah, então a origem do nome do Pão de Açúcar é essa?
ELZA - É. O nome do Pão de Açúcar vem daí, porque era igual ao feitio do pão de açúcar. Então ela, a D. Jerônima de Almeida, teve a vida trocada por 10 pães de bom açúcar. Maurício de Nassau nunca foi aceito pela sociedade pernambucana. A alta sociedade pernambucana nunca recebeu Nassau. Então ela foi condenada à morte, e as damas pernambucanas pediram audiência.

Ele viu que era a oportunidade dele, mandou preparar um banquete e tal, mas elas não cruzaram os umbrais das portas. Elas chegaram frente à casa dele, se ajoelharam no terreiro, na rua, e pediram clemência por ela. Aí, ele se viu numa situação que, se não desse era pior, se desse ia ficar desmoralizado... enfim, resolveu trocar a vida dela por 10 pães de açúcar.
A terceira guerreira é Dona Ana Maria José Lins de Vasconcelos, a mãe do Visconde de Sinimbu, que foi uma mulher de força extraordinária, inclusive foi precursora da libertação dos escravos, porque ela alforriou em 1714 a 16, ela alforriou os escravos desde que eles jurassem bandeira, ou seja, ingressassem nas forças armadas. Época da Revolução Nacionalista de 14 e 24. A quarta guerreira, então no caso, sou eu. De 4 em 4 gerações tem uma guerreira na família. Eu espero que não hajam mais.

SEM FÉ NA FEB

Ninguém acreditava que a FEB fosse sair. Fizeram até paródia:
"A FEB não ia/Era só o que se falava/Houve muita gente que a porta até fazia/Mas o general "man" chegou/E a macacada empoleirou./Ainda era um vidão/Ainda era um vidão..."
E por aí vai a paródia contando a nossa história.

LOU - Você ocupava cargo de chefia?
ELZA - Eu fui a Enfermeira Chefe do 7th Station Hospital.
Nós não tínhamos Chefia Geral. A mais antiga era eu, mas não era a Chefia Geral. A chefia era Setorial. Cada hospital tinha a sua chefia, e eu chefiei o 7th Station Hospital, que era um hospital de 1.200 leitos, na cidade de Livorno. Nesse hospital eu tinha uma equipe de 24 enfermeiras, das brasileiras.

LOU - Seu pai era seu ídolo?
ELZA - Papai era uma personalidade espetacular, não era por ser meu pai, não. Era um homem que falava vários idiomas, foi amigo pessoal do Kaiser, se correspondiam. Até o Kaiser morrer tinha correspondência com ele. Era muito amigo de Oswaldo Cruz, nossa casa era sempre cheia de personalidades. Bidu Saião ia ensaiar com ele, porque ele tocava muito bem piano e violino, então iam ensaiar. Uma vez por semana tínhamos uma hora de música em casa, e outra vez era uma rodinha de pôquer, porque ele gostava do pôquerzinho lá com os Almirantes, e os advogados de perto, Dr. Ludolf, etc. E eu sempre fui a sombra dele. Eu vivia como uma sombra pra ele. Quando meus pais se separaram eu fiquei morando com papai e passei de moleque de rua à dona de casa. Virou a medalha: do moleque de rua brincalhão, em cima da bicicleta... para dona de casa...

VIVENDO SOBRE RODAS

Desde que eu me entendo de gente estou sobre rodas. Comecei gerada num carro de linha...

LOU - Carro de linha, o que é isso?
ELZA - Meu pai, que era assessor de Oswaldo Cruz, estava fundando os trabalhos de pesquisa da febre amarela pelo Brasil afora. Casou com minha mãe em Maceió e foram pra lua-de-mel, em Recife. Eles foram naqueles carrinhos, uns vagõezinhos que andam na linha do trem, isso é o carro de linha. Fui gerada nessa viagem, neste "carrinho". Depois, veio o carrinho de bebê, o patinete, o velocípede, a bicicleta, que eu ia pro colégio de bicicleta, depois o carro, a moto, o ultraleve, que não deixa de ter roda, e hoje eu estou só no carro porque não me deixam mais andar no resto.

LOU - Você ainda faz natação?
ELZA - Nado. Eu tenho nadado pouco atualmente. Porque a minha vida era assim: quando eu comecei, morava na Santa Clara, a gente ia até o Posto 4, 5, até o posto 6. Todo dia de manhã era assim: papai e eu saíamos da cama correndo, já levantávamos da cama de maiô, antes de escovar dente e tudo. Saíamos correndo, caíamos na água em frente à Santa Clara, íamos até o Posto 6, voltávamos correndo, aí íamos tomar banho, fazer toalete, tomar café, fazer tudo o que tinha de fazer. Depois, tinha dias de eu fazer 4 vezes o percurso, ia e voltava, desafiava o pessoal da Escola Naval pra atravessar. Um dia passei mal, porque estava todo mundo em pé, olhando na praia, na minha direção e quando eu olhei pra baixo, vi um negócio preto passando por baixo de mim. Ah, não quis saber o que era não. Dei uma guinada de lado e meti o braço o mais depressa que pude. Eram botos, mas eu não ia pedir a carteira de identidade do peixe. Quando vi aquele negócio preto embaixo de mim tratei de correr pra praia. Cheguei na praia quase desmaiada.

LOU - Você é um exemplo de vida da pessoa que foi chegando ao amadurecimento, sempre em atividade e até agora, às vésperas de fazer 80 anos, pratica natação e ainda trabalha, mesmo sendo reformada do exército.
ELZA - Você não pode deixar os neurônios. Esse pessoal que vive fazendo crochê... eu adoro fazer um crochê, um tricô, mas eu só faço isso na hora vaga. É o horário de meia-noite às duas da manhã, que é pra fazer essas coisas, porque no resto do dia a cabeça está funcionando. Você tem que botar a cabeça pra funcionar a mil e não parar. A minha atividade permanente é essa, porque eu não paro, estou sempre fazendo alguma coisa. Ontem mesmo saímos de lancha, fui lá pra Jurubaíba, escorreguei, o pessoal diz que fiquei atolada entre as duas cadeiras da lancha. O pessoal diz que estou muito gorda, muita pesada. A pessoa, se parar, os neurônios endurecem, embrutecem. Você perde a agilidade mental, física, você perde tudo. E não pode perder.

LOU - Você também é escultora premiada, quando você descobriu mais este dom ?
ELZA - Por que que eu faço escultura? Porque levei uma queda na guerra, rachei a coluna e fui perdendo a mobilidade das mãos. Eu tenho uma paralisia progressiva, espondiloartrose anquilosante. Mas eu não paro. Não fiquei paralítica porque o médico disse: brinca com bolinha de borracha ou vai amassar barro. Bom, se o negócio é esse, e sou um pouquinho grande pra brincar com bolinha de borracha, então deixa ir amassar barro. Aí fui pra Sociedade Brasileira de Belas Artes e comecei
a amassar barro. Resultado: hoje eu tenho 15 medalhas de ouro de escultura, porque os bustos que se encontram em praça pública, de Eduardo Gomes, Xavier de Brito, Mascarenhas De Morais, Karl Riechbiter, o marinheiro do Corpo de Fuzileiros Navais, enfim... Tenho quarenta e tantas cópias do Mascarenhas espalhados pelo Brasil inteiro, todos eles são de minha autoria. Foi o amassado de barro que eu fui fazer.

LOU - Você é uma guerreira na luta contra qualquer...
ELZA - Claro, se pra você poder se aguentar, todo dia tem que chutar uma bola, eu boto a bola pra chutar. Eu vou correr atrás. Não pode ser a idade cronológica, o papel diz que você tem 80, vai se comportar como uma velha coroca? Não! Vamos em frente, vamos trabalhar, vamos botar o espírito pra fora. Você tem que viver de acordo com o seu espírito, não com a idade cronológica. Não pode envelhecer, e quando começa a ficar muito feia, a gente tem um chazinho de bisturi pra dar uma refrescada de vez em quando.

FREGUESA DO BISTURI

LOU - Você chegou a fazer plástica?
ELZA -Já fiz quatro plásticas. Eu acho que tenho obrigação, como tenho vida pública, eu acho que tenho de manter uma cara mais ou menos apresentável. Então meu sobrinho está aí mesmo, pra jogar a velhice fora.

LOU - Você também usa botox?
ELZA - Não, não... Não uso remédio nenhum. Não, de maneira nenhuma. Não confio nem boto troço dentro da pele. Estico, tira o que tá sobrando. Essa última vez, fiz a cirurgia plástica com anestesia local.

LOU - Posso publicar isso no site? Porque o site aborda tudo sem tabu, sem preconceito...
ELZA - Pode, pode botar. Eu comecei fazendo busto e barriga, de uma vez só. Primeiro eu fiz busto e barriga, com um mês de operada, eu fiz o rosto.

LOU - Em geral as pessoas escondem, né?
ELZA - Mas eu não, eu sempre fiz questão de dar o exemplo. Não tenho esses fricotezinhos, não, acho besteira. Quando uma plástica é bem feita, você vê que você não ficou modificada, você está apenas refrescada, ficou com a cara fresca, cara leve e tudo isso, é muito mais interessante dizer: pô, joguei a velhice pro lixo!

LOU - E qual foi seu médico?
ELZA - Álvaro Cansanção. É meu primo, e foi criado comigo desde pequenininha, e é ele quem faz todas as minhas cirurgias.

LOU - E não modificou a sua expressão em nada.
ELZA - Mas ele sabe o que está fazendo. Ele não estica a pele, ele tira o cansaço. Porque uma coisa: eu faço escultura, eu trabalho com ele muitas vezes na cirurgia, nós temos cada pega na sala de cirurgia, eu começo a puxar, e ele: - isso aqui não é teu barro, não! Fica brigando comigo.

LOU - Quando cheguei,fiquei impressionada com sua beleza, sua juventude, nem podia suspeitar que tinha feito plástica.
ELZA - Pois é, ele não modifica a fisionomia da gente. A única coisa que ele tira é o cansaço da pele. Eu fiz de manhã e de tarde vim embora pra casa.

LOU - E como foi seu pós-operatório?
ELZA - Com quatro dias de operada a face, eu fui pra uma recepção na Embaixada Inglesa.
Ele tirou os pontos dos olhos e daqui da frente (mostrou as laterais da face). Eu botei uma peruca puxada, botei um óculos grande por cima do óculos normal, um de aro bem grande e lá fui eu pra Embaixada. Tava uma tábua. Tinha um mês de operada de plástica de barriga e de busto, tinha emagrecido muito. E com aquela cara de japonesa que eu tava, toda inchadinha, tava redonda, ninguém me conheceu. Cheguei pro Embaixador, na Embaixada, eles eram muito meus amigos, o Sr. Hunter, e, aí, quando cheguei, ele me beijou a mão e coisa e tal, e eu fui falar com a Ira: - eu não posso rir... não me faz rir, por favor, que eu estou com quatro dias de operada. Ela me empurrou assim, pra trás: Elza?!
O sucesso da festa, dessa recepção, foi a minha cara de 4 dias de operada. Tinha uma senhora da alta sociedade, mulher de um presidente que tinha acabado de fazer plástica também, e a dela tava daquele jeito, repuxada pra todos os lados...

LOU - Onde é o consultório dele?
ELZA - Ele tem consultório às terças-feiras no Edifício da Casa de Saúde Santa Lúcia, no décimo andar. Ele é professor em Vassouras e em Nova Iguaçu, porque quando ele começou a fazer as minhas plásticas, eu levei ele pra lá, e hoje em dia ele tem o sucesso que tem.

LOU - Você usa a internet?
ELZA - Eu trabalho aqui com a Internet, sim. Eu tenho o meu computadorzinho, meu laptop, que é deste tamaninho assim.

LOU - O que você acha desse meio de comunicação pela Internet?
ELZA - É muito interessante porque você tem essa facilidade. Eu por exemplo, me comunico com a Itália a toda hora aqui. Porque esse meu livro, eu estava lá, ele foi escrito por influência dos italianos, a pedido dos italianos. Ele foi lançado primeiro na Itália, antes de ser lançado aqui no Brasil, e com um sucesso enorme. São 907 fotos com 48 páginas de texto.

LOU - Você escreveu "E foi assim que a cobra fumou", esse é o primeiro?
ELZA - O primeiro foi "Nas Barbas do Tedesco".

LOU - Então você não tem só dois livros?
ELZA - Não, eu tenho 4 livros: o primeiro é "Nas Barbas do Tedesco", o segundo é "E Foi Assim Que a Cobra Fumou", o terceiro foi "O Dicionário de Alagoanês", e o quarto é esse aí "Eu Estava Lá". Fora os artigos, tenho muitos artigos publicados em revistas. Fundei e dirigi duas revistas.

A INTERNET E A SOLIDARIEDADE

LOU - Fiquei impressionada com suas colegas e seus colegas Pracinhas, porque, eu precisava saber... eu vi o final de um programa na TV sobre você, depois não deram mais nada.
Fiquei muito interessada em achar você. O que eu fiz então? Entrei na Internet e pesquisei alguns sites da FEB.
E pedi por e-mail a alguns responsáveis pelas matérias que me dessem uma dica de como a encontrar. No site "velhos amigos" tem o link "Fale Comigo" que é o caminho pra se comunicarem comigo. Recebi um monte de e-mails que acabaram me trazendo até você. Considero a Internet uma rede de solidariedade humana.
ELZA - É. Existe mesmo este espírito de colaboração.

LOU - E cinema , você também está fazendo cinema?
ELZA - O Mauro Mendonça foi namorado da minha sobrinha-neta. A minha sobrinha-neta é essa menina que está aqui, que você provavelmente conhece muito. Maria Luiza Mendonça (mostra uma foto). E o meu sobrinho bisneto também está na televisão, fazendo "Os Filhos da Mãe". Em "Os Filhos da Mãe"
o garotinho que aparece e entra na sala, já é meu sobrinho tataraneto.

LOU - E sobre o filme....
ELZA - Bom, eles fizeram entrevista comigo aqui, e foram filmar na Itália, com meus amigos, lá na Itália. Eu tenho um grupo de amigos... É engraçado como são as coisas. Aqui no Brasil não dão valor à FEB. Agora é que estão começando esse movimentozinho, e tal.

Mas na Itália, vocês não podem fazer uma idéia do que representa a FEB pros italianos, principalmente nos Apeninos, a região onde nós mais sofremos, o que representa a FEB lá.

A FEB GLORIFICADA NA ITÁLIA

Eu vou lhe dar uma idéia. Um rapaz de 34 anos, não era nascido na época da guerra, pois eles são tão apaixonados pela FEB, que esse rapaz tatuou a cobra fumando no braço.
Eles sabem mais da FEB do que todos nós. Eles pegam um companheiro nosso de guerra, um soldado que lutou naquela frente, levam pro campo de batalha pro cara identificar, e ele não consegue. E eles mostram tudo: esse lugar era aqui, vocês combateram foi ali, o fulaninho tal, de tal regimento não era desse lado, era ali... é uma coisa impressionante.
Eu cheguei lá na Itália, era convite pra todo lado, era almoço, era jantar, nós não soubemos durante os vinte e poucos dias que eu passei lá, nessa região, o que fosse pagar uma refeição, porque eles não deixavam. Era tudo convidado, convidado pra cá, convidado pra ali, pra acolá, uma maravilha.

LOU - Descontou a fome que você passou...
ELZA - Exatamente, a fome que passamos pra chegada na Itália.

LOU - Mas voltando então ao período da guerra...
ELZA - O nosso trabalho durante a guerra era um trabalho muito difícil por todos os aspectos. Primeiro porque nós íamos trabalhar com técnicas completamente diferentes. Segundo, o idioma era diferente. Terceiro, o clima era diferente. Tudo era diferente, até a roupa. Então nós tivemos que nos adaptar a tudo isso, foi um trabalho de adaptação muito difícil. Só que o brasileiro tem essa possibilidade que não existe em nenhuma raça no mundo. É o poder de adaptação. Nós temos uma facilidade de adaptação tão grande que é impressionante.

LOU - E como era a rotina?
ELZA - A rotina da enfermagem nossa era de 7 às 7, durante 15 dias, de 7 às 7, durante 15 noites; não era um dia sim, outro não. Era diariamente. Dormia uma noite, no dia seguinte pegava de manhã.
Tudo funcionava cronometricamente. Enfermeira não é enfeite de enfermaria.
A enfermeira trabalha com o doente, não tem auxiliar. Ela dá o banho, ela tira temperatura, ela faz tudo pro doente, toda assistência ao doente é feita pela enfermeira.
O médico ia dizendo o que tinha de ser feito e tudo ia sendo anotado na papeleta do doente.
O prontuário todo feito ali. - Naquele tempo a penicilina estava começando - a penicilina era aplicada de 2 em 2 horas, quinze minutos antes, se fazia o exame de urina, pra ver se havia tido eliminação suficiente de penicilina. Se não tivesse tido, não se podia aplicar a segunda dose.

LOU - Com tanta responsabilidade, cercada de oficiais, como ficou seu espírito moleque ?
ELZA - Deu-se uma coisa interessante lá.
Nós tínhamos vários doentes americanos e ingleses. E o americano e inglês se detestam cordialmente. Então, eu tinha os meus doentinhos e costumava passar a ronda e puxava o pé de um, tirava o cobertor de outro, ia brincando, cada um que eu ia passando eu ia fazendo uma brincadeira.
Um estava jogando xadrez, eu ia lá atrapalhava as pedras, essas brincadeiras assim, e eles adoravam isso. O que eu fazia com os meus doentes brasileiros, fazia também com os doentes ingleses, americanos e tudo...

DIA DE FESTA

Quando eles tiveram alta, um dia eu recebi a visita de um deles, dizendo que o comandante queria nos oferecer um jantar e pedia a relação das pessoas que iriam comparecer. Eu já vi que havia alguma coisa por ali. Perguntei às meninas quem é queria ir, e avisei: olha o negócio deve ser com etiqueta, cuidado! Eles me deram a relação, e quando chegou na noite marcada, veio um oficial, com um carro, para acompanhar cada uma das enfermeiras. Chegamos lá, era um lorde inglês, o maître parecia mais um marechal cheio de medalhas e alamares e o diabo a quatro. Foi uma coisa assim, em agradecimento às brasileiras, pela maneira como tínhamos tratado os ingleses.

LOU - E a alegria e o carinho também ajudam na cura. Você já fazia tudo isso por intuição?
ELZA - Sempre. Isso é normal a gente fazer, e aqui mesmo eu não admito chegar... Porque a ordem era a seguinte: não pode ficar de cara amarrada, tinha que estar sempre penteada, com a cara pintadinha, não exagerada, mas toda pintada, bonitinha, se apresentar nessas condições, tanto que a primeira coisa que eles faziam era botar salão de cabeleireiro.

Quando mudava de uma cidade pra outra o salão de cabeleireiro funcionava logo, pra gente estar sempre arrumada. Cara de doente, já basta o doente.

LOU - E tem uma passagem assim: você botava um lenço ou um espelho pra ver se a pessoa estava respirando?
ELZA - Não é lenço, não. Quem trabalhava na enfermaria de choque, que era o pronto-socorro, trabalhava com espelho no bolso. Você encostou o espelho, o espelho embaçou, portanto tem vida, tem respiração tem vida. Por fraca que fosse, embaçou o espelho, tem respiração, tem vida. Aí a gente montava em cima, como eu dizia, monta em cima. Montar em cima era enfiar uma sonda em tudo quanto era buraco e em cada veia enfiar uma agulha. E vamos trabalhar em cima, e vamos salvar o doente. Foi a primeira vez que eu vi se abrir um coração. Nunca se tinha aberto um coração. Foi aberto no 7th Station Hospital para se tirar uma bala entre o pericárdio e o miocárdio. Ele se salvou.

LOU - Era uma constante luta contra a morte... Essa foi a fase mais árdua de sua vida?
ELZA - É, o trabalho nosso era um trabalho árduo, um trabalho difícil, mas a gente levava sempre na brincadeira. Acabou o expediente, você era proibido de entrar na enfermaria. Tivemos casos gravíssimos como o Mario Marcio Cunha, que além de poli-fraturado teve hepatite em alto grau. E a minha colega Ignácia, que era a enfermeira sub-chefe, acabou se contaminando de tanto ficar em cima dele, tratando.

LOU - E quem era ele?
ELZA - Ele morreu há pouco tempo. Mario Marcio Cunha foi o pentacampeão brasileiro de atletismo. Era famoso, até o estádio do Clube Militar chama-se Mario Marcio Cunha.
Ele morreu nos Estados Unidos. Ele foi embora pros Estados Unidos, fez várias operações, e acabou morrendo lá.

LOU - E vocês tinham alguma horinha de lazer, alguma distração?
ELZA - Tinha, tinha clube, tinha tudo. Passou de 7 da noite, você era proibida de voltar pra enfermaria. A não ser no meu caso, como enfermeira chefe, que eu levantava durante a noite e ia dar ronda. Quando nós tínhamos casos muito graves, eu tinha o hábito de levantar e dar uma ronda. Botava a capa por cima do pijama e dava uma ronda pelo hospital pra ver se tava tudo em ordem.

LOU - Você teve muitas paixões?
ELZA - Ah, não. Paixão não, porque eu não tive tempo.

LOU - Você deve ter tido muitos apaixonados...
ELZA - Namorados, eu tive vários. Eu fui noiva de um americano, morreu no dia em que a guerra acabou, dia 02 de maio.
Explodiu uma granada... Todo mundo tinha namorado lá, menos eu. Eu me dava com todo mundo, brincava com todo mundo, mas pra não sofrer assédio eu espalhei que eu era "paraíba". Então a turma chegava, eu dizia: que que há velhinho, tá me estranhando, e coisa e tal... eu levava assim na brincadeira pra evitar assédio, e a turma foi se acostumando com isso e passou e me considerar como um companheiro.
Aí um dia o padre americano disse:
- Mas só você que não tem namorado?
Eu disse: - Arranja um pra mim, e pronto! E ele tomou aquilo a fé.
E saiu no dia seguinte, de férias, e eu ia chegar um ou dois depois naquele lugar em que ele estava, num hotel em Florença. Quando eu cheguei, ele estava parado na porta do hotel, com um americano de dois metros de altura, louro, da pestana branca, e aí quando eu saltei ele disse:
- Olha, tá aqui seu noivo.
E eu: - Ah, muito prazer! Aí, começou o Bob a andar comigo e essa coisa toda, e começou o namoro mesmo.
E ele queria casar lá. Aí eu disse: aqui, não. Casar, só no Brasil. Aqui, não caso de jeito nenhum. Então ficou acertado que ele viria para o Brasil.

O comandante dele me adorava, saíamos juntos com o general. O general da divisão dele era o dono desse Frigorífico Wilson. Era o General Wilson, ele me adorava, pintava e bordava... porque eu nunca tive medo de estrela. Se eu tivesse medo de estrela não saía na rua de noite. Então eu brincava com eles todos e levava...

E O CORONEL DANÇOU RUMBA

O coronel comandante do batalhão dele era muito fechado, quando recebeu a Silver Star, olhou pro pessoal e... hum...o agradecimento dele foi um rosnado...

Pois eu botei esse cara pra dançar uma rumba no meio do salão comigo... você imagina o que eu não fazia com os americanos. Eu era a mais moça de todas da turma, sempre tive o gênio alegre, brincalhão e tudo, botava todo mundo pra jambrar. Eles me adoravam.

Toda vez que iam de repouso pra retaguarda, a primeira coisa que faziam era: manda buscar a tenente, vá buscar a tenente, Bob. O Bob que era encabulado como ele só, o oposto meu, eu era extrovertida, ele enrustido. O Bob ficava morrendo de vergonha.

DESAFIO AO GENERAL

Um dia eu desafiei o general Wilson. Eu disse que nós não tínhamos ganhado a guerra ainda, porque não era dirigida por mulher. Se fosse dirigida por mulher, já teríamos ganho a guerra. Ele disse:
- Ah, mulher não entende nada de estratégia.
- Não? Você quer ver? Vamos armar um campo de batalha aqui. O perdedor tem que fazer tudo o que o ganhador quiser.
O velho ficou num assanhamento daqueles.
-Tudo?
- Tudo!
Armamos a mesa e então... Aí, o velho coçou a cabeça.
- Pô, eu perdi... o que que eu tenho de fazer?
- Nada não, você vai jantar comigo amanhã no hospital esquecendo que é general. Você é meu convidado.
- Mas é só esse castigo? (você não imagina o que estava por trás). Aí organizei tudo lá com as meninas. Fui à cozinha, mandei melhorar a bóia, conversei com o pessoal lá pra melhorar o rancho porque íamos ter uma visita e tal.
O ajudante de ordens dele me trouxe uma flor, o outro mandou outra flor, e eu tive de botar uma flor de cada lado, uma rosa de cada lado. Lá fomos nós. Quando ele chegou, foi aquela festa toda, o pessoal espantadíssimo. Lá entrei eu de braço com o general no salão de refeições, o coronel comandante ficou apavorado, veio correndo, pediu mil desculpas, que não tinha...
- Não, hoje eu não sou general. Eu sou convidado aqui, da tenente.

LOU - Mas eu quero que fale do seu namorado.
ELZA - Era assim, o Bob acompanhando o tempo todo. Quando eles foram pra frente, e quando chegou perto de terminar a guerra, eu fui de férias pra Florença e telefonei pra ele. Ele estava na fronteira da Hungria.
Eu falei com ele, e ele me disse que estava vindo com o motorista, iam se revezar e procurar chegar mais ou menos por volta de 4 horas em Florença e ia encontrar comigo no hotel.
Às quatro horas não chegou, não chegou o resto do dia, no outro dia, não chegou, eu havia terminado minhas férias e voltei ao meu posto. Então comecei a receber umas visitas do pessoal do batalhão, gente que não tinha assim tanta intimidade nem nada, indo lá me visitar. O primeiro, o segundo, no terceiro, eu disse, aí tem coisa. Bob não dava notícia. Aí, no terceiro que veio, eu disse: - Poxa, a guerra é uma tristeza mesmo. Coitado do Bob. Ele...
- Ai, até que enfim lhe contaram. Quem foi que lhe contou?
- Eu, ninguém, você é que vai me contar agora o que que houve.
Aí fiquei sabendo que quando Bob acabou de falar no telefone comigo, voltou pro alojamento - porque a guerra terminou dia 2, mas no dia 8 é que foi assinado o armistício; então entre 2 e 8 houve muita escaramuça, muita coisa que caiu, muita granada, essa coisa toda, de formaque, quando ele e o chofer estavam arrumando o jipe, a granada caiu em cima e matou os dois. Juntaram os pedaços, botaram cada um num saco, ninguém sabe nem quem era o pedaço de quem.
E foi assim que acabou.

LOU - Esta história merece outro livro, você vai escrever o quinto livro?
ELZA - Não, não, isso não. O quinto livro já está em andamento: "Um, dois, esquerda, direita, mantenha a cadência". Esse livro conta toda a história das mulheres nas forças armadas, com as biografias das enfermeiras da FEB. Só das enfermeiras da FEB. Eu estou com um outro em andamento também "Uma família Conta a História do Brasil". Mas esse é pra posteriori. E tenho o livro "Mulher Alicerce de Uma Pátria Forte". Esses dois já estão cozinhados em água fria há bastante tempo. Porque eu não tenho tempo, foi começando a surgir a prioridade pra passar à frente.

LOU - E o filme?
ELZA - É, o filme eu não sei como é que eles vão fazer. Eles dizem que vão fazer, estavam dependendo só de verba pra conseguir, eles pegaram o meu depoimento...

LOU - Mas sua história merece um filme.
ELZA - Eu tenho um argumento. Eu escrevi um argumento que é uma junção de duas histórias verdadeiras, que se passaram com personagens de idades diferentes, mas que dá pra montar uma história.

LOU - Você também fez teatro?
ELZA - Eu fiz parte do teatro universitário de Gerusa Camões, que foi muito interessante. Foi uma experiência muito interessante que me valeu muito para as minhas palestras. Porque eu faço palestras nas escolas sobre a atuação do Brasil na 2ª Guerra Mundial. Já fiz nos Estados Unidos, no Chile, na Argentina, na Itália, várias vezes, e aqui no Brasil. E me valeu muito eu ter feito teatro, porque eu lido com a criança, e manter uma criança 1 hora e 40 sentadinha, é difícil conseguir.

LOU - Você tem filhos?
ELZA - Não tive tempo...

LOU - É costume dizer que a mulher necessita gerar, pelo menos um filho, porque tem a força da natureza, o instinto maternal, você sentiu carência neste aspecto?
ELZA - Nossa, o que eu tenho cuidado de menino não tá... Só sobrinhos netos eu tenho 27, já estou com tataranetos vindo por aí pelo caminho, todo mundo é tia Elza pra lá, tia Elza pra cá. Tia Elza já passou a ser nome, já não é mais nem um título. Até o pessoal meu amigo lá de Paquetá me chama de tia Elza. Os empregados lá me chamam tia Elza, porque a tia já ficou como nome.

LOU - E a maternidade não faz falta nenhuma, se a pessoa tem outra vocação...
ELZA - De jeito nenhum. Você quer criar uma criança, pega uma criança e toma conta. Eu sustento, eu tenho o menino da minha empregada que é meu filho adotivo. A minha sobrinha-neta, irmã da Maria Luiza Mendonça, a Beatriz, eu tenho pátrio poder dela. Isso não quer dizer que ela viva debaixo da minha asa, não. Eu velo de longe. Você pode tratar da criança de longe.

O filho da minha empregada eu mantenho na melhor escola da Vila Militar, e tudo isso, e pouco vejo ele, mas estou controlando. Boletim de colégio e tudo vem pra minha mão. Quando a coisa não está direita, chamo ele cá e passo-lhe um sabonete. A gente vai orientando.

LOU - Você quer dar algum recado ao "Velhos Amigos"?
ELZA - Eu recomendo às pessoas de mais idade, quero dizer as pessoas de idade cronológica avançada, que se esqueçam da idade, que se esqueçam dessa história de idade cronológica. Botem a cabeça pra funcionar, brinquem, se divirtam, façam aquilo que tenham vontade.
Tá com vontade de andar de avião, pegue um avião e vá embora... Tá com vontade de andar de bicicleta, anda, tá pouco se lixando se os outros falam porque ela é velha tá usando calça comprida, tá usando não sei que, faça o que lhe der vontade. A sua vontade é que prevalece.
Os outros que vão passear, pra não dizer mais... Mas acaba com essa história de porque é idosa não bota vestido vermelho, porque é idosa não bota saia curta... que conversa fiada... Mas façam isso, esqueçam a idade cronológica, sejam vocês mesmas, Façam aquilo pra se sentir bem!

LOU - Meus parabéns, adorei! Você é um exemplo de vida!

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'Morre a major Elza, uma heroína brasileira’

Autor: Israel Blajberg

Deixou-nos um ícone, quase um mito, uma vida inteira de dedicação, entusiasmo, ideais elevados a pautar uma carreira consagrada a memória da Força Expedicionária Brasileira, ao Exército, ao Brasil, que perde o brilho da sua inteligência, o calor da sua dedicação, o encanto da sua presença. A cada sete de Setembro, a multidão diante do Pantheon de Caxias se surpreendia ao ver passar o Grupamento dos Ex- Combatentes. Uma figura marcante de mulher, fardada, logo despertava a atenção do público, desfilando embarcada numa das primeiras viaturas.

O tempo passava, mas não afetava seu brilho, nem fazia com que deixasse de manter, altaneira, a postura ereta com que saudava as autoridades no palanque, sempre uma das mais aplaudidas. Num dia de 1944, partiu para o desconhecido em defesa da democracia e da liberdade, retornando com a FEB coberta de glórias. As lembranças da guerra nos remetem àquela época difícil, quando a então tenente enfermeira Elza Cansanção Medeiros, com suas colegas do Corpo de Saúde da FEB, em meio às vicissitudes dos combates, não media esforços nem sacrifícios para que a dor dos soldados que sofriam pudesse ser minorada. Herdara dos pais a coragem e o desprendimento dos bravos das Alagoas, terra de gente forte e decidida, que deu ao Brasil nossos dois primeiros presidentes: marechal Deodoro da Fonseca e marechal Floriano Peixoto.

Portanto, não foi surpresa ter sido aquela jovem enfermeira a primeira voluntária brasileira a se apresentar, alistando-se para a Segunda Guerra Mundial. Era o dia 18 de abril de 1943, quando o Corpo de Enfermeiras da Reserva do Exército recebeu a primeira das suas 67 integrantes, a que se somaram mais 6 da Aeronáutica. Logo veio o treinamento na Fortaleza de São João, no HCE e na Policlínica, e o embarque por via aérea para o teatro de operações da Itália, onde as enfermeiras da FEB se destacaram pelo carinho e profissionalismo com que souberam se desempenhar de suas funções, granjeando o respeito e admiração da tropa.

Foram dignas de uma Ana Néri, que partiu em 1865 para a Guerra do Paraguai com autorização especial do Imperador. Setenta e cinco anos depois, estas outras mulheres guerreiras reviveram em todo o esplendor e beleza aquela figura sublime, inspiradas ainda em Joana Angélica, Maria Quitéria, Rosa da Fonseca, Anita Garibaldi, Bárbara Heliodora, Sóror Angélica, e tantas outras heroínas brasileiras. Seu trabalho multidisciplinar foi riquíssimo, distribuindo-se por diversas vertentes, da iconografia à escultura, da museologia à produção literária, incansável atuação reconhecida pelas inúmeras condecorações que lhe foram outorgadas, alem de filiação a importantes institutos, tendo criado o mais completo acervo iconográfico da FEB, preservando a memória histórica através de 5 mil fotografias.

Nos últimos meses não deixou de trabalhar, lançando uma edição especial da Revista do Exercito Brasileiro sobre a FEB, um livro sobre o papel da mulher brasileira, e sendo agraciada com a Medalha Pedro Ernesto no Palácio Tiradentes. Possuía mais de 40 medalhas nacionais e estrangeiras, tendo sido a primeira mulher a ingressar no IGHMB, na categoria de socia-titular, no ano do cinquentario daquela instituição. Ocupava desde 2007 a Cadeira Especial de Historiadora Militar Terrestre Brasileira, como primeira mulher a ocupar cadeira na AHIMTB (Academia de Historia Militar Terrestre do Brasil). Em Maceió, criou o Museu Militar da Segunda Guerra Mundial, com peças históricas de elevado valor, como aquelas recuperadas do Itapagé, torpedeado na costa de Maceió. Os verdes mares alagoanos foram o túmulo daqueles brasileiros, bravos tripulantes e passageiros inocentes, vitimas da sanha nazista.

Outra faceta não menos destacada era seu trabalho como escultora de bustos de militares famosos. Do Marechal Mascarenhas de Moraes, o grande comandante da FEB, foram 40 esculturas. A estatueta representando uma enfermeira em continência é o prêmio oferecido às primeiras colocadas da Escola de Administração do Exército em Salvador, que vem a ser o seu auto-retrato. Custa a crer que tenha nos deixado, mas o fez com a sensação de missão cumprida, como atestam as muitas medalhas merecidamente conquistadas que repousam sobre o seu peito.

A mulher de fibra se foi, mas o exemplo frutificará, do trabalho ingente, da dedicação aos ideais, da preservação e divulgação da memória da FEB. A melhor homenagem que lhe poderemos prestar será manter desfraldada a bandeira a qual dedicou toda a sua rica existência. Que a sua alma se incorpore à corrente da vida eterna.

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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