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ENTREVISTA COM ALTAMIRO CARRILHO
publicado em: 05/01/2016 por: Netty Macedo

 
Entrevista concedida em 2006

Cheio de entusiasmo, vendendo alegria, aos 81 anos, Altamiro Carrilho, o grande flautista brasileiro, conta sua história ligada à música. Ele se considera um otimista e um eterno sonhador.
"...a gente tem que ter uma motivação pra continuar vivendo", ensina.

Ele nos concedeu esta entrevista para o meu programa "Velhos Amigos " que foi ao ar em dezembro de 2006 e janeiro de 2007, no canal 6 da Net - TVCrio.

Lou: Altamiro, desde pequenino você já adorava tocar flauta. Como e quando foi que você começou?
Altamiro: Eu comecei pelo princípio. (risos) Com 5 anos de idade eu já demonstrei tendência musical. Todo mundo pedia ao Papai Noel, patinete, brinquedos de um modo geral, bola; as meninas pediam boneca... Éramos 8 irmãos. Então eu pedi uma flautinha, e Papai Noel ficou admirado... Claro que eu acreditava em Papai Noel! Mas a minha mãe, de qualquer maneira, anotava tudo para os que não acreditavam mais. E Papai Noel me trouxe a flautinha. Ah, eu fiquei tão feliz! E depois eu iria receber várias flautas de presente. Mas aquela primeira foi muito importante para mim. Então, eu comecei a tocar uma musiquinha de carnaval na flautinha e meus pais ficaram admirados com aquele meu senso de improvisação, de tocar uma coisa que só os adultos tocavam. Eu mesmo descobri as posições, os meio-tons e tudo o mais. Meu pai foi me incentivando, minha mãe também. E, com 11 anos de idade, fui a um programa de calouros e recebi o primeiro prêmio do programa. Quer dizer, o primeiro lugar, tocando uma música que eu quero muito bem até hoje, que eu amo, a música do Pixinguinha, o Carinhoso, com um pianista muito bom que me acompanhou, fazendo uma harmonia linda. Antes de me apresentar, tive que obter a permissão do Juiz de Menores, porque eu tinha apenas 11 anos. Ganhei o prêmio e fiquei muito animado, empolgado com a coisa. Meu irmão Carlos Augusto me deu uma flautinha já melhorada, uma flauta transversa, de madeira, toda envernizada, bonitinha, comprada na loja. E ele usou nada menos que o soldo dele. Ele era soldado, estava servindo no exército. Então ele não comprou sequer um alfinete durante o mês todo, pra poder me dar aquela flautinha, que ele havia visto numa vitrine.

Lou: Nos apresenta o seu irmão.
Altamiro: O nome dele é Carlos Augusto. Está muito vivo, ainda, muito vivo!!! É meu amigo particular, e esta casa que estamos aqui é dele. Ele está ali sentado, bonitão. Vamos dar uma pegadinha nele.
Vem cá, Carlos! Esse aqui é um bon vivant, sabe jantar numa boa, gosta de contar piadas. Nunca vi um piadista tão bom. A cada dia ele aparece com duas, três piadas diferentes. Mas na época ele me presenteou com a flautinha e eu fiquei tão feliz, que resolvi arranjar um professor. É que eu só tocava de ouvido, não sabia uma nota musical.

Lou: Com que idade isso aconteceu?
Altamiro: Aconteceu com 12 anos. Com 5 anos usava a de brinquedo. Agora, flauta mesmo, transversa, de verdade, com sapatilhas e tudo, só aos doze anos. E o meu ilustre professor era carteiro. Eu devo tudo o que sei a ele, porque ele me deu o primeiro empurrão, que é muito importante. Olha o detalhe: não era um flautista profissional, ele era um flautista amador. Então ele se dispôs a me dar aulas gratuitas, porque eu não podia pagar, e ainda me emprestou a flauta dele pra que eu estudasse, uma flauta transversa, pois eu só tinha flautinha de bambu. E assim foi. Joaquim José Fernandes era o nome dele. Sinto muita saudade dele quando vejo uma pessoa com o tipo físico assim como o dele, porque foi o meu segundo pai.

Lou: E quando foi que você ingressou no mundo do Choro?
Altamiro: No mundo do Choro, e do Samba, e do Frevo, e de todas as músicas brasileiras, foi com 12 anos de idade. Com 13 anos eu já estava tocando bem, relativamente bem, e aí esse carteiro disse que ele já não tinha mais nada pra me ensinar (Estou cortando um pouquinho porque às vezes me foge a seqüência.). Ele disse: eu já não tenho mais nada pra lhe ensinar, tudo o que eu sei você já sabe.
Carlos: aí nessa ocasião você trabalhava numa farmácia.

Altamiro: Trabalhava numa farmácia, e estudava em Neves, lá em São Gonçalo. De maneira que eu só tinha tempo à noite. Durante o dia, o dia inteiro manipulando fórmulas, aplicando injeção, fazendo curativo, essas coisas. Então sou muito ligado a médico, farmácia, por isso. Tinha um médico lá da farmácia e todas as receitas que ele formulava eu preparava.
Aí, Moreira da Silva foi cantar num parque de diversões em Neves. E eu fui acompanhá-lo. O Moreira da Silva gostou muito da maneira como eu o acompanhei, sem atrapalhar aqueles breques que ele fazia, ele contava uma história. "na subida do morro me contaram...." e tal, e contava aquela história toda musicada. E eu não fiz nenhum contracanto durante aquelas paradas; só fazia depois. Quando ele entrava na melodia eu fazia um floreio... Então, quando acabou de fazer aquele show, eu quero frisar bem que o Moreira da Silva era um dos maiores cartazes do Brasil, naquela época. Vendia disco adoidado. Então foi uma honra poder acompanhá-lo. E honra maior ainda ter sido convidado por ele, depois do show, pra gravar com ele. Eu cheguei a tremer...

Lou: Depois você foi gravar Maxixe, no Rio Antigo né?
Altamiro: Mas isso foi depois. Então, se eu for contar tintim por tintim, a novela é grande. Vamos enxugar. De Moreira da Silva foi mais fácil porque o Moreira me apresentou a vários diretores de gravadora, gente importante, e eu estava ali, naquele momento, substituindo Benedito Lacerda, um dos maiores músicos do mundo, um dos maiores flautistas do Brasil. Então, aquilo pra mim foi um motivo de orgulho, de muita alegria, substituir o Benedito Lacerda. Dali foi fácil, com Moreira da Silva me apresentando a outros cantores, a outros músicos, e eu acabei que, no ano seguinte, já estava me tornando profissional. Com 14 anos já me considerava profissional.

Lou: Conquistou, assim, um grande respeito de todo o público, como flautista...
Altamiro: Como flautista. Os próprios colegas começaram a me tratar bem, a tentar saber alguma coisa de mim. Eu dizia: eu que estou começando, e vocês querem saber alguma coisa de mim? - Não! Você veio com estilo diferente... os arabescos que eu fazia, uns enfeites, ornamentos da música, diferentes... E eu fui procurado até por profissionais, colegas mais velhos, muito mais velhos, que queriam uma explicação: - Como é que você faz isso? Esse formato que você faz tão bem, eu tenho dificuldade... Então eu comecei assim a ser uma espécie de companheiro deles. Eu era muito pequeno ainda. Eu tinha 14, eles já tinham 50, 45, 30, 80, enfim... Todos queriam meu conselho, e isso foi muito bom pra mim, ganhei autoconfiança.

Lou: E o seu trabalho é sempre sucesso total, com casa cheia. Com tudo isso, mesmo conseguindo levar uma multidão pra todo lugar, conforme vejo nos seus shows que a casa está sempre lotada. Mas na TV parece que há uma porta fechada, pra esse tipo de música instrumental.
Altamiro: Eu diria que não há espaço quase que nenhum, o espaço é tão pequeno que poderia ser até dispensado no momento. Agora, acredito que, futuramente, a televisão vá atentar pra esse detalhe e valorizar mais o músico. O músico pra tocar um instrumento tem que estudar oito anos, oito, oito anos... pra tocar bem. Porque ali ele vai tropeçando. Vai. Se não está bom, o fôlego não está bom, a inspiração não está boa, a sonoridade não está boa, a leitura não está dinâmica... enfim, tanta coisa que o músico tem que aprender, sem falar na parte principal, que é a parte inicial: embocadura, dedilhado, enfim. Depois de já tocar, tem mil coisas pra ele aprender ainda. Os cantores não sabem nada disso, não estudaram, a maioria canta de ouvido. Alguns até desafinam, aqui pra nós, você sabe que desafinam, mas eles têm todas as portas abertas, todo o espaço possível eles têm; nós não temos.

Lou: É uma coisa mais comercial, né?
Altamiro: Não sei se isto é por ser comercial. É possível, porque justamente um quadro de Picasso não é comercial. É uma arte.

Lou: Mas é pra um grupo muito seleto, restrito.
Altamiro: O músico também. O músico é pra um grupo muito seleto, um público que tenha grande sensibilidade auditiva, porque senão não vai gostar de música instrumental.

Lou: Mas o músico não fica lá no museu, exposto. Se a pessoa quiser encontrar um músico vai ter que comprar um CD, e, assim mesmo, quando ele consegue gravar. Eu falo o seguinte: se ele não tiver um espaço na televisão, como é que as pessoas vão ter acesso a essa música maravilhosa, se ela não chega em nossa casa? Mas a TV Comunitária do Rio, canal 6, já está tratando de oferecer isso no meu programa "VelhosAmigos". Vou sempre apresentar música de primeira qualidade. E você está iniciando, você é o primeiro. Está dando esse passo inicial no nosso programa de músicas seletíssimas.
Altamiro: E eu fico muito feliz porque eu sou pé quente. Sou pé quente. Vai dar sorte. E você vai descobrir aí gente que ainda está tocando muito bem seu instrumento e está sem saber o que fazer. Acaba jogando o instrumento no lixo porque não tem onde tocar.

Lou: Agora, vem cá, você tem quantos anos de carreira?
Altamiro: Carreira, 64 anos completos, vou fazer 65 agora em dezembro.

Lou: E quantos anos você tem?
Altamiro: 81 completos, vou completar 82. Eu falo assim porque não gosto de antecipar nada. Gosto que tudo venha a seu tempo.
Carlos: Principalmente a idade...
Altamiro: Principalmente a idade. Quem passa dos 80, é um caso sério, dói tudo...

Lou: Mas estou achando que em você nada dói. Seu coração está aí, maravilhoso, cheio de entusiasmo, ainda mais agora que você descobriu e está ajudando um menino com o dom de tocar violino. Você tem sempre um sonho, né? Qual é o recado que você dá pra esse pessoal todo que, às vezes, está chorando com depressão porque se aposentou com 60, e não tem o que fazer, não tem objetivo na vida, enquanto você está aí cheio de entusiasmo, veio andando a pé da igreja até aqui, à pé!... O que você diz pra esse pessoal todo? Você tem sempre um sonho, um objetivo?
Altamiro: A gente tem que ter uma motivação pra continuar vivendo, porque o dia em que a pessoa já se considera satisfeita, não tendo mais nada pra fazer, aí já morreu. Naquele momento ele acaba de falecer. Aí tem que se ter essa esperança em alguma coisa. Nem que seja numa coisa considerada impossível pelos outros. Para você não é. Eu, por exemplo, levei seis anos pra conseguir gravar um DVD. Mas vai sair. Depois de 6 anos. Também, está um luxo, um DVD que tem 150 horas de gravação.
Em março do próximo ano, se Deus quiser, em 2007, estará na praça, não só no Brasil, como em 8 países da Europa, Ásia e tudo o mais.

Lou: E você tem uma visão otimista de tudo, né? E o que você quer dizer, quando compara a música brasileira ao azeite?
Altamiro: Ah, comparo a música brasileira ao azeite pelo seguinte: o azeite, você tenta dissolvê-lo na água, tenta afundar o azeite, e ele não afunda. Não há condição. Estão fazendo tudo... Há mais de 40 anos que estão tentando abafar a música brasileira. Mas a música brasileira é tão forte que é como o azeite, ela vem à tona. Quando a gente menos espera, taí a música brasileira fazendo sucesso. Não adianta bater na gente, a gente apanha, mas fica aí.

Lou: Muito bom. Agora, o teu irmão, vai contar uma piada.
Altamiro: Ah, ele tá aqui quietinho, é um grande irmão. Da turma toda é ele que está mais próximo em idade (não vou dizer tua idade, não, pode deixar)... não fica nervoso, que eu não vou dizer, não.

Lou: Vai sim...
Carlos: Fiz 84 agora em setembro.
Altamiro: Tá vendo? A diferença é quase que nula...
Carlos: Eu já contei pra ele que, depois de uma certa idade, quando você acordar de manhã e não estiver sentindo nada, você está doente.
Altamiro: Ele me ensinou o seguinte: que nunca se deve perguntar a uma pessoa idosa como é que vai o senhor. O certo é perguntar onde é que dói hoje.... porque dói tudo: quarto, sala, área de serviço, cozinha, dói tudo... Porque aí a pessoa diz onde é que está doendo, e é batata.
Um dia encontrei no calçadão, aqui de Copacabana, um senhor, já bem velhinho. E perguntei: como é que vai seu Alfredo? Tudo bem? Bati nas costas dele, e aí ele disse: que nada meu filho, amanheci hoje com uma dor de dente... E ele tem dentadura postiça superior e inferior! Não dá pra (risos) ... não dá! (risos)
Carlos: Tem um outro também que foi ao médico, chegou lá o médico perguntou: onde é que dói. Se eu disser onde é que dói o senhor deixa por menos, doutor?
Altamiro: ele tem piadas incríveis. Precisamos fazer um programa especial com ele - As piadas do Carrilho.
Carlos: Com muito prazer, eu continuo ouvindo a entrevista do Altamiro, e a Lourdes sempre incentivando os idosos, apesar de ela ser jovem ainda, ela viu que essa parte andava esquecida. Não tem rádio, não tem televisão, não tem nada, apresentando os mais antigos, com música mais tradicional e, então, agora ela criou essa oportunidade pra todos aparecerem. Meus parabéns, Lourdes, você vai muito bem com esse programa seu.

Lou: Muito obrigada. E eu fico pensando o seguinte: vocês falando que têm dor em tudo quanto é lugar... Mas estão aí, com essa cara de felicidade, de saúde, corados, cheios de humor, isso pra mim é um exemplo. É por isso mesmo que eu trago vocês pra frente da televisão, que é pras pessoas verem que velhice não é sinônimo de solidão, de tristeza e fim do mundo, porque exatamente vocês estão curtindo a vida. Muitos jovens estão por aí, se queixando da vida, e vocês estão, aí, dando uma lição de entusiasmo e de alegria de viver.
Carlos: Geralmente a gente tem que ser assim mesmo. Bola pra frente, porque não adianta, né? A idade não vai retroceder de maneira alguma, nós é que temos que alcançar mais um pouco à frente com essa alegria, com esse entusiasmo que ainda nos resta.
Altamiro: É. Eu sempre fui tão bem-humorado quando garoto, eu tinha o apelido de "velho Ramon", olha só, era um velho ranzinza que tinha na minha terra. Eu implicava com tudo e com todos. E também tive o apelido de Figarol, que segundo aprendi era quem sofria do fígado - mas nunca sofri do fígado! - mas sempre fui muito exigente...
Carlos: como o Ciro Monteiro...
Altamiro: É, como o Ciro Monteiro, mas apesar disso, as pessoas me consideram alegre, comunicativo, bem-disposto, sempre procurando dar força aos meus semelhantes. Agora, isso não é fácil não. É, porque às vezes você está sentindo qualquer coisa no reloginho (mostra o coração), dá uma cordinha e diz fica quietinho aí, que eu preciso conversar aqui com o pessoal. Então é assim. Às vezes não estamos tão bem quanto aparentamos. É preciso superar, porque os outros não têm nada com isso. Cara feia não paga dívida, nem tristeza, né cumpadre?
Carlos: exatamente (risos)
Altamiro: É por isso que 'nóis está' assim... (risos)

Lou: Então quero agradecer a presença desses dois, maravilhosos amigos... É uma família linda...
A Marina é a filha do Altamiro. Chega aqui, Marina... A Marina é tímida, não vem...
Altamiro: Ela só vem se estiver vestida condignamente.

Lou: Mas tá linda...
Altamiro: Tá linda, mas ela não sabe que está. Então ela fica se recusando sempre, mas a Marina é poetisa, é escritora, cronista, já escreveu um livro bonito, lindo, que se chama "Sentimentos", com poemas da autoria dela, incrível, mas só um.

Lou: E que tem uma apresentação minha nesse livro.
Altamiro: Ah, eu não ia esquecer esse detalhe, não.

Lou: Agora tem uma coisa que eu quero ressaltar que é essa coisa da família reunida, esse aconchego familiar. Isto tudo também faz a pessoa ter mais alegria de viver, porque, na minha opinião, quando a gente tem esse amor pra dar, já não precisa nem ser da família, porque, às vezes, as pessoas são sozinhas... mas sempre se tem um vizinho, em qualquer lugar que você estenda a mão. Vai encontrar alguém que também queira um aconchego, um abraço, uma cara feliz, um sorriso. Se você chegar e disser: bom diiiiia pras pessoas, elas também vão dar um bom dia pra você, cheio de sorrisos. Agora se você entra num elevador e fala um bom-dia, baixinho, pra dentro, ou, nem fala nada, aí realmente você vai se queixar de solidão, de tristeza, porque você não vai receber um retorno daquilo que você não tem pra oferecer, né? Repara só, se você ri pra uma pessoa, a pessoa ri pra você. isto é uma coisa que vem, é contagioso... e essa família é assim, eles dão o exemplo disso. A vida é assim - cada dia é um prêmio que a gente ganha, ainda mais nesse Rio de Janeiro, que quando a gente consegue chegar até aqui andando a pé, sem uma bala perdida, meu Deus, temos de dar graças a Deus com muitos sorrisos, estamos vivos!
Muito obrigada, Altamiro.
Carlos: Eu quero agradecer e apresentar também a minha esposa, Maria.

Lou: Maria, vem cá, Maria...
Altamiro: Aqui é tudo muito tímido, né? Os únicos sem-vergonhas aqui somos nós dois.

Lou: Então somos três. Mas o improviso tem essa graça, a gente faz tudo improvisado.

Autor(a): Lou Micaldas

 

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