Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

FERNANDA MONTENEGRO
publicado em: 14/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 14/12/2001

"A Dama dos Palcos Brasileiros"
"A Dama da Sociedade"

"O que me orgulha é saber que cheguei até aqui, até o fim do século 20, e posso dizer que sou uma sobrevivente. Sou fruto da garra, da força e do amor dos meus antepassados portugueses e italianos. Não fui feita agora, e se agora tenho todos os holofotes sobre mim, é porque tenho a herança de luta dessa gente.
O mérito não é meu".

 

Ela nasceu em 16 de outubro de 1929, na cidade de Campinhos, no estado do Rio de Janeiro. Descendente de portugueses e italianos, seu pai era operário da Light e a mãe dona de casa, recebeu o nome de Arlette Pinheiro Esteves da Silva.

Depois de casar com o grande ator Fernando Torres, em 1953, passou a se chamar Arlette Pinheiro Monteiro Torres. Mas foi com o nome de Fernanda Montenegro, que ficou famosa em todo o Brasil.

Ela mudou de Arlete para Fernanda, influenciada pelos romances de Balzac e Proust e o sobrenome surgiu influenciada pelo Dr. Montenegro, amigo da família e que era considerado um homem capaz de fazer "milagres."

Ao saber que integra uma edição sobre as mulheres mais importantes do século, Fernanda surpreendeu-se: "Tudo o que tenho a dizer é que tenho uma vocação e exerço o meu ofício com todo o amor e dedicação possíveis".

LOU: Como foi sua infância?
FERNANDA: Morei e estudei em Jacarepaguá. Sempre fui voltada para as atividades literárias, gostava de ler Gonçalves Dias, ia muito a cinema com minhas duas irmãs, ouvia óperas, éramos muito ligadas na música.

DE ARLETE A FERNANDA

LOU: Quando e onde surgiu pela primeira vez o nome Fernanda Montenegro?
FERNANDA : Numa rádio onde eu fazia traduções e adaptações de peças literárias para o formato de radionovelas.

LOU: Quantos anos você tinha nessa época?
FERNANDA: Menos de 20 anos. Eu ainda estudava inglês e francês no curso Berlitz e lá mesmo, dava aulas de português para estrangeiros, para melhorar o orçamento.

LOU: Com que peça você estreou no teatro?
FERNANDA: Em 1950, estreei com a peça "Alegres Canções nas Montanhas de Julian Luchaíre" e direção de Éster Leão, ao lado de Fernando Torres.

LOU: Com quais atores você iniciou sua carreira teatral?
FERNANDA: Trabalhei com Cacilda Becker, Nathalia Timberg, Cláudio Correa e Castro, Ítalo Rossi, Sérgio Brito, e Fernando Torres, com quem me casei, em em 1953, e estamos unidos até hoje.

LOU: No meio teatral, os casamentos costumam durar pouco, e vocês fazem parte de uma minoria, já que fizeram bodas de ouro. Qual foi o segredo?
FERNANDA: Não existe segredo, nem receita, cada dia é um dia, é necessário entender as diferenças, perceber que vale a pena tentar mais um dia. Mas isso vai depender do temperamento. Eu não imaginava que viveria tantos anos com ele.

LOU: Depois de 10 anos de casados, vocês tiveram dois filhos, ambos ligados à arte cênica, Fernanda Torres, também atriz, e o cenógrafo, programador visual e agora, diretor de cinema Cláudio Torres . Foi influência, ou eles herdaram o dom?
FERNANDA: Não incentivamos nem nos opusemos. Eles estiveram conosco o tempo todo, nos camarins, nas coxias, entre um ato e outro das peças. Amamentei a Nanda e o Cláudio até seis meses, conciliando o dois papéis, o de mãe e o de atriz. Viajávamos com babás, sacolas, berços, era uma verdadeira mudança, até eles crescerem e entrarem na escola. Eles vieram pela própria respiração da casa. A Nanda começou pelo cinema. Foi tudo muito tranqüilo. As coisas foram acontecendo e dando certo... e ambos fazendo sucesso. Somos um núcleo familiar de artistas.











Fernanda, o filho Claudio, e a
recém-nascida Fernandinha

LOU: Foi muito difícil, sacrificado, aliar estes dois papéis, o de mãe e o de atriz?
FERNANDA: Cada minuto que eu podia era para eles, que sempre vieram em primeiro lugar.

LOU: Muitas mães abandonam a carreira para se dedicar aos filhos, e só depois que eles se emancipam é que elas vão correr atrás de seus ideais. O que você pensa disso?
FERNANDA: Não acho que as mães devam fazer isso, abrir mão de seu talento, deixar o seu trabalho. Os filhos não merecem esse tipo de cobrança futura. Conciliar tudo não é fácil, muitas mulheres são obrigadas a sofrer essa dupla ou tripla jornada de trabalho. Não fui a única.

LOU: E como foi seu ingresso na TV?
FERNANDA: Em 1960, mudei pra São Paulo e fiz mais de 100 peças no programa "Grande Teatro Tupi" mas só mais tarde, em 1963 é que comecei a trabalhar em telenovelas.

LOU: Você ficou mais conhecida quando veio pra Tv Globo e foi protagonista de dezenas de novelas como Baila comigo, uma das primeiras; Guerra dos sexos, dono do Mundo, só pra citar algumas, e a divertida Zazá que, se não me engano seria a última, pois você pretendia não voltar mais a fazer televisão... E agora está aí, brilhando na figura de Lulu de Luxemburgo na também divertida "As Filhas da mãe", de Sílvio de Abreu. Você voltou pra TV porque sentiu saudade da telinha?
FERNANDA: Participei de muitas minisséries, casos especiais e fiz novelas marcantes. A televisão faz parte da nossa vida, o Sílvio de Abreu também já disse que ia parar e não parou.
Todo mundo acaba voltando. Não há nada no mundo que seja igual a TV no Brasil. É muito prazeroso conviver numa longa jornada com atores de todas as idades, com relacionamentos maravilhosos... Todas as novelas têm elencos imensos, que vão desde criancinhas até o vovô mais gagá. Então é uma confraternização muito feliz.

LOU: No teatro você não só conquistou o público, mas importantes prêmios. São inúmeros os prêmios recebidos ao longo de sua carreira teatral .Vou citar apenas alguns: pra começar, em 1955 já levou o de Melhor atriz pela Associação de Críticos Teatrais, com "Nossa Vida com Papai", e foi colecionando troféus em quase todos os anos: o Molière especial e o de melhor atriz do Mambembe, por sua atuação em "As Lágrimas Amargas de Petra von Kant". Seguiram-se outros prêmios nos anos subseqüentes.
Toda a fama e o prestígio da Fernanda Montenegro não afetaram a Arlete da silva. Fiquei surpresa quando liguei para sua casa e foi você quem me atendeu ao telefone de forma tão simples, sem intermediários, sem estrelismos.
FERNANDA: Pertenço a uma geração sem vedetismos. Também odeio intérprete que só trabalha quando ele é o dono do centro do palco. Gosto de trabalhar com atores potentes, que participam do ritual, livres da competição destruidora.

POLÍTICA

LOU: Em 1985, você foi convidada pelo então Presidente da República, José Sarney, para ser ministra da cultura. Por que você recusou?
FERNANDA: Em primeiro lugar não é essa a minha vocação, e eu não tenho condições políticas para encarar um ministério. O convite foi uma gentileza do presidente Sarney, num momento em que ele se lembrou de uma mulher e de uma atriz.

LOU: Os tempos mudam, né? Na época da ditadura vocês sofreram atentados de grupos paramilitares...
FERNANDA: Tivemos de cancelar apresentações trabalhamos com as luzes do teatro acesas, e, durante algum tempo, precisamos da presença constante de seguranças. A censura sobre nós era total. Ou a gente lutava, ou morria.

LOU: A peça Alta Sociedade, de Mauro Rasi, estreou em Brasília. É uma comédia que faz uma crítica engraçada mas intensa à política e aos costumes. A Intenção era começar no suposto centro da corrupção?
FERNANDA: Não tenho engajamento político. Como é que está o país? Como é que está o ensino no país, a saúde, as administrações? Estamos vivendo todos o mesmo clima. Não dá para dizer que está péssimo ou que está extraordinário. Estamos vivendo emergencialmente como se vive há muitos anos no Brasil. Nosso Congresso, na sua quase totalidade, é canhestro no que diz respeito ao atendimento das necessidades do homem brasileiro.
É tudo muito demorado, escamoteado .

Reverter esse processo, só através do empenho do cidadão, que deve falar sempre das coisas que não funcionam.
É a cidadania por inteiro, com o direito que o cidadão tem de ter seu hospital, sua escola, seu saneamento, sua estrada para caminhar, sua casa para morar . As minhas opiniões são as de uma cidadã apenas, que está aí, desligando o que pode dentro de casa. Essa situação não é agradável, é ameaçadora, é constrangedora e amedrontadora .Tudo o que falo sobre o governo vem dessa vivência do dia-a dia.
Na Peça, quando você fala na Padeira, que é a emergente da Barra, no Nicolau, no Estevão, no Jader, no ACM, todo mundo sabe. Quando se fala da Narcisa, todo mundo sabe quem é. Ri tanto no Rio, como em qualquer parte. E por incrível que pareça, todo mundo também sabe o que é o edifício Chopin.

LOU: Na peça você é a Silvia e o seu parceiro é o Leopoldo. Em menos de um ano, desde sua estréia no Rio de Janeiro, você contracenou com três Leopoldos. Além de Sérgio Mamberti, atuaram Ítalo Rossi e André Valli. Foi difícil contornar esta situação?
FERNANDA: A troca de atores trouxe ótimas contribuições à montagem. O interessante é que cada um viu um lado do Leopoldo e cada um solicitou da minha personagem uma freqüência. O Sérgio é mais novo do que eu uns bons anos. Conheci a casa dele, nos idos dos anos 60. E a gente vem vindo pela vida, sobrevivendo a crises políticas e econômicas.

NO CINEMA

Walter Salles Jr. com o filme Central do Brasil levou Fernanda Montenegro a ser a primeira latino-americana indicada ao Oscar de melhor atriz, em 1999, e lhe deu um Urso de Prata no Festival de Berlim.

Lou: E sua estréia no cinema?
FERNANDA: Foi em 1964, com "A Falecida", obra de Nelson Rodrigues, uma adaptação do diretor Leon Hirszman. Depois atuei em "Eles Não Usam Black Tie" também de Leon Hirszman, com Gianfrancesco Guarnieri e a produção ganhou o Leão de Ouro, como melhor filme, no Festival de Cinema de Veneza.

LOU: Depois de ser tão aplaudida na TV e no teatro você agora é também reconhecida no cenário internacional pelo seu trabalho no filme "Central do Brasil". Como você se sentiu ao ser indicada ao Oscar de melhor atriz?
FERNANDA: Foi surpreendente! Isso geralmente acontece no máximo aos 40 anos e me aconteceu aos 70, de um convite do Walter Salles Jr.
Filmar esta bela história foi um ato gostoso e doloroso, obstinado, orgânico e absolutamente surpreendente na sua coragem e despudor de falar ao coração e só ao coração.

LOU: E como foram os preparativos pra festa, você estava no maior pique, tem que ter muita resistência física...
FERNANDA: Foi extremamente trabalhoso. Você de imediato se transforma numa executiva e é obrigada a cumprir uma agenda diária exaustiva.

LOU: O Brasil inteiro parou como na copa do mundo pra torcer pelo filme pra ver você ganhar o prêmio. Você ficou decepcionada? Como você se sentiu?
FERNANDA: Em paz com a vida pela chance de ter participado de uma produção artisticamente tão inspirada, arrebatadora, honesta, incorporada ao que de melhor o cinema brasileiro pode oferecer à cinematografia contemporânea. Ter sido indicada já foi o prêmio.

LOU: A novela "As filhas da mãe está pra terminar, você já tem algum trabalho em vista?
FERNANDA: A novela vai acabar no dia 18 de janeiro, vou tirar férias e retornar em março. Vamos criar um projeto em São Paulo, no CCBB ( Centro Cultural Banco do Brasil), que consiste num trabalho que mistura o teatro e o encontro com o público, numa interatividade.

LOU: E quais são os seus planos de vida, o que você tem a dizer aos"Velhos Amigos"?
FERNANDA: No momento estou me preparando pra ir a Roma receber uma homenagem, mas o meu plano de vida é acordar todos os dias por muitos e muitos dias e ter fôlego para continuar trabalhando. Aos velhos amigos eu mando aquele abraço!

Atualmente Fernanda Montenegro está em Roma, a convite do Prefeito Walter Veltroni para a solenidade da entrega do Prêmio "Brasília Roma Cidade da Paz". Esta festa vem sendo realizada desde 1984 e foi inspirada na coincidência de datas, ambas foram fundadas em 21 de abril. Ela vai receber a Loba de Bronze - o símbolo de Roma.

Fernanda Montenegro foi escolhida pelo seu destaque em prol da cultura no Brasil, pela sua obra como cidadã. A festa será no Capitólio - Palácio do Município de Roma, no dia 17 de dezembro.

CURIOSIDADES

*Vinícius de Oliveira fez o seu primeiro trabalho como ator no filme Central do Brasil. Walter Salles JR. convidou o menino para fazer um teste, quando o viu trabalhando como engraxate. Vinícius superou mais de 1500 concorrentes ao papel.

*Quando Fernanda Montenegro se sentou em frente da mesinha, na cena em que ela escrevia cartas, para as filmagens, na Central do Brasil, algumas pessoas de fato se aproximaram dela pedindo que escrevesse cartas.

Algumas dessas cenas foram posteriormente
incorporadas ao filme.

* A cantora Simone é uma ardorosa fã de Fernanda Montegro e gravou em 1984 a música "Mulher da Vida" composta por Milton Nascimento e Fernando Brandt em homenagem a atriz. A gravação está no Cd "Delírios e Delícias" do mesmo ano.

Prêmios de Cinema:
- Melhor Atriz - Urso de Prata - Festival de Berlim - 1998
- Melhor Atriz - Festival de Cinema de Taormina (Itália)
- "Tudo Bem" - 1977
- Melhor Filme e Melhor Atriz - Festival Cinema de Moscou - "Em Família" - 1970

- Prêmios de Teatro
- Moliére/Prêmio Air France - "Dona Doida" de Adélia Prado - 1983
- Prêmio Moliére e Melhor Atriz da Associação Brasileira de Críticos - "As Lágrimas de Petra von Kant " de Rainer Werner Fassbinder - 1982
Moliére/Prêmio Air France - Melhor Atriz - "A Mais Sólida Mansão" de Eugene O'Neill - 1976
Associação dos Críticos de Teatro de São Paulo - "Seria cômico se não fosse sério" de Friedrich Durenmatt - 1976
- Moliére/Prêmio Air France - Melhor Atriz - "A Mulher de Todos Nós" de Henri Becque - 1967
- Moliére/Prêmio Air France - Melhor Atriz - "O Homem do Princípio ao Fim" de Millôr Fernandes - 1967

- Filmes
"Central do Brasil", de Walter Salles - 1998
"Traição", de Arthur Fontes, José Henrique Fonseca e Claudio Torres- 1998
"O que é Isso Companheiro", de Bruno Barreto - 1997
"Trancado por Dentro", de Arthur Fontes - 1989
"A Hora da Estrela", de Carlos Diegues - 1994
"Eles não Usam Black-tie", de Leon Hirszman - 1980
"Tudo Bem", de Arnaldo Jabor - 1980
"Em Família", de Paulo Porto - 1970
"A Falecida", de Leon Hirszman - 1964
Fernanda Montenegro recebeu a distinção de "Chevalier des Arts et des Lettres" do governo francês em 1983.

Fontes: Site oficial Universo Online-
www.paulogoncalo.com
www.colmagno.com.br/teatromagno/
Sites sobre cinema

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA