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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

 

Às vésperas dos 90 anos, atriz troca ‘festança’ de aniversário por lançamento de livro de memórias, em que descortina um panorama do Brasil em rádio, teatro, TV e cinema

Fernanda Montenegro chega acelerada ao prédio de sua editora, na Cinelândia: "Trouxe um monte de roupa", diz, referindo-se à mala abarrotada de opções para sair bem nas fotos. Está prestes a encarar uma série de entrevistas em torno do lançamento de seu livro de memórias, "Prólogo, ato e epílogo", que chega hoje às livrarias pela Companhia das Letras. A maratona de compromissos - a que se dedica "sem reclamar", ressalta - mal tem deixado tempo para planejar a comemoração de seus 90 anos, a serem completados no próximo dia 16. Uma coisa é certa: ela não deseja grandes badalações.

— Festança de 90? Não. Quero ficar quietinha. Um almoço com a família e está bom. No dia seguinte, já passou.

Na discreta comemoração, estará cercada apenas por poucos e grande amigos, pelos filhos Fernanda e Claudio e pelos netos Joaquim, Davi e Antônio, trio a quem ela dedica seu livro. Quer que eles saibam os detalhes de sua origem. Tudo contado na forma de um relato de sentimentos e sem pretensões literárias, como explica. 

— É um relato de sentimentos, não há pretensões literárias. Já tenho quatro biografias de primeiríssima - diz ela, entre goles do café já frio depois de meia hora de conversa ("melhor frio do que não ter café", brinca).

A obra é o resultado de 18 entrevistas com a escritora e jornalista Marta Góes, sobre as quais Fernanda se debruçou acrescentando, desenvolvendo e ordenando a sequência da narrativa. O processo tomou dois anos da vida da atriz, que, junto com sua história particular, descortina para o leitor um panorama da arte brasileira — rádio, teatro e cinema — que começa nos anos 1930. Um contexto em que as atrizes, assim como as prostitutas, para poderem circular à noite, eram obrigadas a portar uma carteirinha expedida pela polícia. 

Fernanda acha que a profissão nunca foi prestigiada como merece, mas segue exercendo seu ofício. Acaba de fazer participação na novela “A dona do pedaço”, de Walcyr Carrasco ("amo a coragem folhetinesca dele, melodramática descarada") e rodou três filmes inéditos: “Piedade”, de Cláudio Assis; “A vida invisível”, de Karim Aïnouz, premiado no Festival de Cannes e eleito para representar o Brasil no Oscar; e “Juízo”, do genro Andrucha Waddington, com roteiro da filha, Fernanda, e o neto Joaquim no elenco. 

Como se deu o processo do livro?

Marta foi fundamental. Foram 18 entrevistas muito próprias. Contei a ela um pouco mais do que há 70, 75 anos venho narrando quando me entrevistam. Busquei ao máximo o  que eu podia lembrar, mas dentro de um esquema. Me protegendo. Foi complicado, difícil, muita coisa ficou de fora. Não é tanto o fato de ficção ou de literatura, é uma memória vivida. Foram 21 meses exaustivos e comoventes, porque a maioria das pessoas já foi embora. Quando você faz um trabalho sobre a memória, tem uma melancolia dentro. No fundo, não deixa de ser como uma posição de adeus.

O livro dá a sensação de que você quis homenagear companheiros de profissão e contribuir para manter vivos na memória nomes fundamentais para a arte brasileira. Você se queixa de que Dulcina de Moraes está praticamente esquecida... 

Dulcina é a maior figura do teatro brasileiro do século que passou e ninguém sabe dela. É impressionante, não se cultua isso. Também não se cultua a grande qualidade artística dos brasileiros. Não se tem culto à memória. O que eu, como libriana, eu acho bom e ruim. Bom porque é a partir dali que você tem que lutar e se impor, como se a vida começasse ali, no zero, do peito para frente. Por outro lado, é preciso pensar que você veio de alguém. De alguma maneira, teve que juntar óvulo com sêmen ( risos ).

Além de contar sua história, o livro é um registro histórico da arte feita no Brasil dos anos 1930 até hoje. Tinha essa intenção?

Não parti de uma pré-visão. Vi que lá pelas tantas, quando cheguei nos meus 80 anos, ainda funcionando, que tinha ali uma documentação não só minha mas por onde nós andamos, Fernando e eu, nessa vida, compreendendo tudo que está em volta. Nessa nossa profissão não se vive sem o outro.

Você fala da condição de imigrante da sua família, dos avós sardos e portugueses. Como é o seu sentimento de pertencimento?

Na medida em que eles largaram sua terra e foram acolhidos aqui, aceitaram adotar o sistema de alimentação, vestuário, ritual religioso e de convívio social. Eu já venho dentro dessa sociedade. Embora, na retaguarda, a comida e a maneira das festas lembrassem outra terra, sempre senti em casa a voltagem de ser deste país. Quando nasci, minha mãe já tinha 20 anos de brasilidade, a mesma coisa, o meu pai. Nunca me passou  pela cabeça que nós não fôssemos absolutamente brasileiros. Apesar de que isso é uma posição generosa brasileira, não existe lá fora. Você passa a ser alemão, mas será sempre mais árabe do que alemão.

Descreve a sensação de sua primeira vez no palco: "Levitar envolvida numa luz cor de rosa, me sentindo fora de mim". Ainda sente assim?

A mesma coisa. Você vê o ator no palco, ele tem uma dimensão, um tamanho, uma largura. Quando ele chega perto de você, é mais baixo, mais magro, em última análise, não esta transfigurado. Quando a gente se põe dentro de um espetáculo, a propósito de um personagem, se dimensiona de outra maneira para poder avançar além da distância do próximo, sem o qual você não vai existir. Estou falando de teatro, porque a técnica da representação da TV e no cinema é outra, você não está lá de carne e osso, é uma imagem, uma eletricidade transferida em forma de dramaturgia.

Diz também que, por mais longa que seja a vida de um ator, ele nunca está pronto. Por quê?

Nunca. Também falo isso do ponto de vista do atuar físico. Todo dia você tem que se repropor. Com é que vai dizer que tá pronto? A plateia age sobre você. Ha um tempo único dentro do espaço, isso acontece também na rua, quando você vai fazer espetáculo na praça. A soma do seu trabalho e a presença de quem está ali querendo que você satisfaça o fato de ele ter chegado até ali para prestar atenção. É um jogo.

No livro, você diz que gosta de interpretar vilãs e cafetinas nas novelas...

Porque o grande papel de novela é a malvada. Quem nem em histórias infantis, as bruxas, as madrastas. O jogo das cafetinas ou das pestes das novelas do ponto de vista dramatúrgico é muito rico. A maldade é que joga a ação, porque a bondade já está estabelecida e não é "doente"'. Precisa a maldade trazer as camadas para a bondade sair de seu sossego.

Você viveu de perto a censura de peças de teatro. Como enxerga a atitude do prefeito, que mandou recolher um livro com um beijo entre homens na Bienal?

A censura era uma coisa brutal, foi um tormento a era militar. Nunca pensei em voltar a isso, mas acredito que que hoje é do ponto de vista místico-religioso, cada vez maior em nosso país. Mas não sei se essa é uma posição mesmo de alta crença, tudo na política a gente põe na balança. Eu, por exemplo, acho que a salvação do país seria se voltar à Constituição de 1988 e terminar com a reeleição. Esse processo levou o Brasil à estatização da corrupção. Todo mundo se compra, todo mundo se vende. Então porque denominar centro, direita esquerda? Diante da corrupção as ideologias são levadas apara Júpiter!

Esperava a reação negativa por parte de uma parcela conservadora do público, de seu beijo em Nathalia Timberg em "Babilônia"?

Teve um barulho enorme para um beijinho carinhoso de duas mulheres casadas há 40, anos, lutando para ter um documento oficial e aceitação social. Dentro da dramaturgia, fazia sentido, porque se beijam há 40 anos. Não era chupão de trepada. Era uma benção da união de duas mulheres. Não esperava aquela reação. Os homens foram os primeiros a ter o direito de se relacionar com outro homem, com beijos em final de novela. As meninas também, sempre muito bonitas e jovens, sedutoras. Todo mundo aceitou, veio vindo devagar, ótimo. Mas eu e Nathalia tínhamos mais de 80 anos, aí... No entanto, acredito que abrimos um caminho. Se duas atrizes de idade se beijassem hoje, acho que seria mais aceito.

Fernanda Montenegro Foto: Leo Aversa / Agência O Globo

Embora diga que havia o entendimento mútuo de que você e Fernando só permaneceriam juntos enquanto quisessem, ele foi o único homem de sua vida.

Não apareceu ninguém melhor do que ele e, pra ele, acho que talvez não tenha aparecido ninguém melhor que eu ( risos ). Se tivesse acontecido, por que não? Convivi com muitos homens maravilhosos e sedutores, mas não eram melhores do que ele no campo do embate humano diário, no socorro, na particularidade. Era ombro a ombro.

Como descreveria a vida sem ele?

Não sei te falar, porque sem demagogia, ou pieguice, ele continua comigo. Em casa, são os mesmos móveis. Foi uma despedida na paz e, quanto mais na paz, mais dolorosa é, porque parte da sua paz vai embora.

Vocês trocavam muito ele opinava muito no seu trabalho e vice-versa... Não sente falta disso?

Nós tínhamos uma doença vocacionada para o teatro. Isso nos dava uma independência econômica, modesta, e trabalhosa, mas éramos donos de nossas vidas, lamento isso hoje não existir mais. Agradeço a meus filhos de entenderem isso. Porque há uma falência, mas você tem consciência dessa bifurcação de vida e isso tem uma dor.

Como é lidar com a partida de tantos amigos? Seria o principal fardo de envelhecer?

Ah, minha filha ( a voz embarga )... Sim. Viver custa ver a vida dos teus amigos arrancada do seu convívio e memória. Hoje eu entendo porque velho repete sempre as mesmas coisas. É o tormento conversar com um ser humano que não viveu aquilo que tanto repito. Porque basta dizer "Dulcina" e ele sabe quem é. Não preciso ficar contando, enchendo o saco da pessoa mais nova. Essa falha, a falta da viagem junto à memória não se transfere. Eu estava fazendo o livro e me morre Antunes ( filho, diretor ), que era da minha idade. Passamos a ser amigos em 1954!

Você foi convidada para ser Ministra da Cultura, um cargo que nem existe mais...

A cultura virou palavrão, ofensa moral. Hoje tem cultura para tudo, cultura do feijão, da saúde... Eu sou pela cultura das artes. O Brasil só vai tomar jeito mesmo quando entender o que é a cultura das artes. Inclusive, nada é mais criador de empregos do que a cultura. Das artes.

No livro, você diz que desde que se entende por gente, ouve que há outras prioridades antes da cultura...

Ouço isso há pelo menos 70 anos. Não é prioridade do ponto de vista material, mas como também não resolvem essa parte... Estou cansada. Enquanto os políticos estão no poder, ficam provando que estão salvando, curando, educando, blá, blá... Mas quando um governo acaba e há 13 milhões de desempregados... Não estou falando especificamente de governo nenhum, mas do ponto de vista de alguém que tem 90 anos.

Acaba um governo e a gente não tem saúde real, educação, saneamento. Metade do Brasil faz suas fezes ainda no mato ou numa lata. Um diz que o outro não fez e vai fazer também não fazendo. Grandes projetos, verbas imensas e quem leva é quem dá mais em troca. A releição é outra jogada de compra e venda, que desfibra quem é de direta, de esquerda ou de centro, pois todos se juntam na hora de levar mais um pouco. Já está se falando da reeleição do atual presidente. Tenho certeza de que se fosse outro também já estaria pensando nisso antes de um ano de governo.

Fez um discurso sobre a importância do ofício no Teatro Oficina, em 2017, e recentemente, na peça de Gregorio Duvivier. O que te motiva a se colocar?

A gente tem que começar a gritar. Porque um espetáculo ótimo, um ator maravilhoso, uma casa superlotada todos concordando. Há uns anos, eu e Fernando fomos a uma missa em Budapeste.  Me surpreendi com a emoção política que havia na igreja. Vi um pouco disso no espetáculo do Duvivier, assim como na “Antígona” de Andréa Beltrão. Não é apenas o prazer de ver um espetáculo, aquelas pessoas são tocadas por uma consciência de presença política. O teatro é extraordinário nisso.

Como foi fazer a "A vida invisível"?

Faço a heroína velha. Procurei ver como a Carol Duarte (que vive a heroína jovem ) jogava sua personagem. Notei que ela olhava isenta o horror no qual vivia e trabalhei isso. É uma história corajosa sobre o feminino não demagógico. É íntimo, vaginal, a mulher nas entranhas e não histriônica ou didática.

Como é a avó Fernandona? Comete transgressões, estraga os netos?

Tenho pouco tempo para eles. Mas respeito muito os meus filhos. À minha frente estão eles com os filhos deles, depois venho eu. Uma história engraçada é que quando os filhos da Fernanda ( conhecida por ser disciplinada com a alimentação ) iam a um restaurante na Zona Sul e, na saída, roubavam balas de um pacotaço que ficava ali. Ela deve estar sabendo disso, porque escondiam debaixo da cama...

Você deixou seu apartamento em Ipanema, onde viveu tanto anos, rumo à Lagoa para ficar mais perto da sua filha. Já se adaptou?

No início foi meio solitário não ter quintal ( se refere à vida de bairro ). Tem uma bela ( vista da ) Lagoa, mas não há nenhuma vida fora da natureza. Mas já incorporei, porque se precisar de alguma coisa, há uma passagem entre os dois terrenos de nossos prédios ( o dela e de Fernandinha ).

Pensa em parar de trabalhar?

Não sei como é a vida sem trabalho , me daria a sensação de um desgaste físico, psíquico, não sei como é que é ficar parada. Nem quero.

Como encara a perspectiva da morte? Tem medo?

Eu tenho muita saudade. O dia em que eu me for, vou ter uma brutal saudade de tudo, dos anos que eu vivi aqui. Como é que é lá? Tem o famoso trecho de "Ser ou não ser", do nosso bardo maior... "E se lá for pior do que aqui? Ou se lá não tiver nada?". As religiões dizem que lá é melhor, então, a gente espera algo. Mas, a princípio, o que a gente tem na hora de ir embora? A memória dessa vida. Dá pena. É interessante. Não sei, de alguma maneira virá. Eu vivo já num adeus, sem demagogia, que é para me habituar. A gente precisa ensaiar o personagem, não precisa? Eu ensaio a personagem que se chama despedida. Mas não estou ainda no ensaio geral.

Trechos do livro

Nome artístico.

“Arlete (inspirada na atriz francesa Arlette Marchal) era meu nome de loucura e radioatriz. Como redatora passei a assinar Fernanda Montenegro - com certo humor. Eu achava que Fernanda tinha um clima de romance do século XX. Havia muitos Raymondes e Fernandes naquelas histórias”.

Ofício.

“Esse legado cênico de ator-empresário sobreviveu através de empenhos bancários ou raras dotações governamentais. A corrupção atual não tem nada a ver com o teatro(...). Vejo hoje que troquei de pele pela vida afora. Nunca tive realmente o meu próprio rosto, o meu cabelo, a minha postura”.

Fernando Torres.

“Vivemos 60 anos, nos buscando, nos sublimando, nos conciliando, nos amando. Compartilhamos lutas, alegrias, realizações e surpresas de uma vocação. Que outro homem, mesmo me amando, teria me alicerçado e me projetado tão sadiamente, longe de machismos, de disputas de poder?”

Censura.

“A batalha desse texto (‘A volta ao lar’) se iniciou com d. Solange, a censora oficial. Quais palavrões suportaria? Um dos primeiros a ser cortados foi ‘olho do cu’. Ziembinski, com lágrima nos olhos, suplicou: D. Solange, não corte o meu ‘olho do cu’, que a senhora acaba com o meu personagem’”.

Drogas.

“Nos belos e inquietantes anos da contracultura, a ordem era experimentar e seguir em frente. Um grande amigo, homem de teatro, me propôs: ‘Fernanda, eu te amo, mas para trabalhar comigo você tem que passar pelo LSD’. Respondi que, neste caso, não ia trabalhar com ele nunca”.

Polarização.

“‘O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, estreou numa época de polarização ideológica (1961). Parte do público gritando ‘tarado’, ‘protesto em nome da família brasileira’. Jamais alguém chamou o autor de reacionário, entreguista ou traidor da pátria. Os protestos eram de cunho moral”.

Despedida.

“Aos meus 90 anos, ainda dou conta do meu ofício. Fora o ofício, já passei o cetro materno para Nanda e a consultoria da família para Claudio (...). Tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável. O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um sopro. Mas acordo e canto”.

Autor(a): Maria Fortuna
Fonte: Jornal O Globo

 

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