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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

FERREIRA GULLAR, O POETA DO ESPANTO
publicado em: 14/12/2016 por: Lou Micaldas

Aos 86 anos, vítima de pneumonia, um dos maiores nomes da literatura brasileira pediu para ser levado à Ipanema: “Quero entrar no mar e ir embora”

RIO — “Se hoje, o arcanjo, uma ameaça detrás das estrelas, desse um passo apenas em direção a nós, nosso coração, sobressaltado, explodiria”.

Foi esse verso, exatamente esse, dentro do livro “Elegias de duíno”, do poeta tcheco Rainer Maria Rilke, o primeiro a assombrar o maranhense José Ribamar Ferreira Gullar. Ele tinha 19 anos e ganhou o livro de presente de um amigo, que enviara o exemplar do Rio de Janeiro a São Luís com a recomendação de leitura urgente.

— É um verso assombroso. Assim que eu comecei a ler, pensei: então a poesia é isso! A poesia não era o que eu, antes de ler Rilke, pensava que ela fosse — contou Ferreira Gullar ao GLOBO, em 2010, desprezando o seu primeiro livro, “Um pouco acima do chão”.

O arcanjo certamente foi correndo de encontro ao coração explodido do jovem escritor: além de descobrir a poesia, Ferreira Gullar tomou-a para si, tornando-se um dos maiores poetas brasileiros em toda a história literária nacional.

Rilke abriu caminho para leituras de T.S. Elliot, Paul Válery (principalmente “O cemitério marinho”), Rimbaud, Drummond e outros que o influenciariam. E para a certeza de que a poesia estava “na coisa sórdida, no pus, nos insetos, no desprezível” e “no espanto”, como gostava de listar. E na própria linguagem.
 
Em 1954, aos 24 anos, já vivendo no Rio de Janeiro, casado com a atriz Thereza Aragão, Gullar trava em seu próprio caminho “A luta corporal”, livro que cai como uma bomba na cena literária brasileira com seus versos vanguardistas (o poeta Armando Freitas Filho lembra de tê-lo copiado inteiro, à mão, para melhor entendê-lo; o escritor Silviano Santiago conta que até hoje sabe seus versos de cor).

Era a luta com a própria linguagem, diria Gullar repetidamente anos depois, ao explicar a obra que de certa forma anunciava o movimento neoconcreto.

— Concluí que a poesia não podia ser apenas versos bem feitos. Comecei, então, a pensar que a linguagem era velha. Que eu mesmo, com vinte e poucos anos, era velho. Eu tive uma formação parnasiana rigorosa. Eu precisava mudar também. Se a linguagem é velha, ela envelhece o poema. Então, resolvi chegar a uma linguagem tão nova quanto o poema que ia escrever — detalhou Gullar ao crítico José Castello.

A luta começava em versos lineares, como os do poema “O mar intacto”: “O girassol/ vê com assombro/ que só a sua precariedade floresce. Mas esse/ assombro é que é ele, em verdade. / Saber-se/ fonte única de si/ alucina”. E terminava enfurecida, como nos últimos versos do poema “Roçzeiral”, já totalmente visual.

MOVIMENTO NEOCONCRETO
Com os amigos Lygia Clark, Helio Oiticica e Amílcar de Castro, começou a elaborar poemas de profunda sintaxe visual. Dois textos publicados por Gullar no “Jornal do Brasil”, no entanto, estabelecem as diferenças entre o que ele próprio fazia no Rio e o que faziam os poetas concretos de São Paulo, como Haroldo e Augusto de Campos: “Manifesto neoconcreto” e “Teoria do não-objeto”. Nos textos, defende a experimentação nas artes e a importância da intuição na criação, em contraposição ao racionalismo do movimento paulistano.

Veio o nascimento de Brasília e um maior envolvimento do poeta com o Brasil e os movimentos sociais. Gullar presidiu o CPC da UNE, escreveu cordel, poesia política. Filiou-se ao Partido Comunista no dia do golpe militar de 1964 e foi um dos fundadores do Grupo Opinião, para o qual colaborou com textos de teatro. Em 1968, Gullar foi preso, ficando na mesma cela que Gilberto Gil. Em 1971, parte para o exílio em Moscou, passando ainda por Santiago, Lima e Buenos Aires. A imprensa alternativa ganha seu nome na lista de peso dos seus colaboradores.

Em 1975, embrenha-se “Dentro da noite veloz”, livro que vinha escrevendo desde 1962 e que traz outra safra de poemas brasileiros para sempre. Foi quando Vinicius de Moraes trouxe uma fitinha cassete de Buenos Aires, e cópias da gravação correram de mão em mão. Nela, Gullar lia um poema que tinha acabado de escrever no exílio. Como a ditadura Argentina endurecia, ele escreveu o texto como se fosse “a última coisa da sua vida”: era o “Poema sujo”.

Foi o sucesso do “Poema sujo” que trouxe Gullar de volta ao Brasil. Foi interrogado durante 72 horas ininterruptamente pelos militares, mas acabou solto. Livre, retomou o “assombro” pela poesia, palavra que prezava tanto. Depois, ele a substituiu por “espanto” sempre que lhe perguntavam sobre inspiração. Como escreveu em “Traduzir-se”, de “Na vertigem do dia” (1975-1980): “Uma parte de mim/almoça e janta:/ a outra parte/ se espanta”.

Entre muitos outros prêmios, Gullar foi laureado com o Jabuti por “Muitas vozes” (1999), com o Prêmio Machado de Assis, da ABL (2005), e com o Prêmio Camões (2010). Fez livros infantis, ensaios literários, crítica de arte, fez ele mesmo arte visual: suas colagens ganharam uma exposição individual em Copacabana em 2014. Envolveu-se em polêmicas vívidas: em 2010, criticou a obra “Bandeira branca”, de Nuno Ramos, em discussão que ocupou os jornais por alguns dias (“Não há Jesus Cristo que me convença que colocar um urubu dentro de uma gaiola é fazer arte”, acusou ele sobre a obra exposta na Bienal de São Paulo). A mais recente aconteceu este ano, quando ele e o poeta Augusto de Campos, trocaram farpas publicamente por posições políticas e artísticas.

“ME LEVA PRA IPANEMA”
Há exatos dois anos, depois de manifestar-se contrariamente à sua indicação, Ferreira Gullar foi empossado imortal na Academia Brasileira de Letras. Num discurso sobre seu amor à poesia, que levou os colegas às lágrimas, encerrou dizendo, simplesmente: “Estou feliz da vida”.

O poeta, ensaísta, crítico, dramaturgo, tradutor e memorialista Ferreira Gullar morreu ontem, às 11h, aos 86 anos. Internado há 20 dias no Copa D’Or, na Zona Sul do Rio, por complicações pulmonares, o escritor desenvolveu um pneumotórax que se agravou com uma pneumonia.

Segundo o escritor Zuenir Ventura, que o acompanhou internado, suas últimas palavras foram à filha Luciana (Gullar teve outros dois filhos, Paulo e Marcos, este, morto em 1990), pedindo para não prolongarem sua vida com aparelhos: “Me leva para Ipanema. Quero entrar no mar e ir embora”.

POEMA SUJO

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
(Trecho de Poema Sujo, de Ferreira Gullar).

NÃO HÁ VAGAS

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

NO CORPO

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.

POEMAS NEOCONCRETOS I

mar azul
mar azul marco azul
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul

 

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