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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

GERALDO CASÉ
publicado em: 15/01/2016 por: Netty Macedo

Por Lou Micaldas
Matéria publicada em 26/05/2003
Reeditada em julho/2008

Filho de Graziela e de Ademar, nascido em 7 de junho de 1928 – Geraldo Casé, um homem empolgado, exuberante, uma das mais ilustres figuras da comunicação escrita e falada e peça chave da TV Globo. Ele nos recebeu no seu escritório da TV Globo e nos concedeu esta entrevista, cheia de reflexões e de fatos curiosos. Nesta entrevista, contei com a colaboração da minha irmã Zeca. Ela é "VelhaAmiga" de Casé há mais de 40 anos.

CASÉ: Eu não consigo escrever no computador para as pessoas, fazer literatura ou até mesmo escrever minha crônica para o jornal, todo domingo. Eu, primeiro, tenho que fazer, pelo menos, a estrutura do esboço à mão. Poesia é, praticamente, impossível escrever diretamente no computador. Não há hipótese porque não se tem direito a rabisco.

LOU: Você tem o delete pra ficar tudo limpinho...
CASÉ: Tem direito a delete, você tem direito a uma porção de coisas que não ficaram marcadas. As marcas que você não escreve são, às vezes, melhores ou essenciais na sua maneira de se expressar. No momento que você não tem isso, perde um fator muito importante. Uma coisa que fica bem patente pra mim é que a correspondência que existia antigamente, cartas ou o que fosse, tinha-se possibilidade de manchá-las, às vezes com uma lágrima, coisa que você não consegue fazer com o computador...

LOU: Como você é sentimental!
CASÉ: Eu lembrei que conheci uma menina numa estação de água. Puxa! (risos) Hoje ninguém fala em Estação de Águas, né?! Agora é Hidromineral... Então nós íamos pra lá e as meninas e os meninos ficavam reunidos numa espécie de namorico. A coisa mais ingênua possível. E muita coisa ficava praticamente escamoteada, enrustida, algum afeto ficava não muito delineado.

Então o que acontecia? As pessoas trocavam endereços. E depois é que vinha a correspondência ou não. Você, antigamente, combinava ter correspondência... E teve uma menina que se transformou numa amiga e numa das minhas primeiras namoradas, durante quase dois anos. Como não tinha possibilidade de se encontrar comigo porque era judia (na época, ser judia e namorar um não judeu era um absurdo), então nós mandávamos carta um pro outro. E era um negócio fantástico, porque pelas entrelinhas entre as letras, você encontra uma série de intenções...na maneira que você escreve.

LOU: Onde ela morava?
CASÉ: Ela morava em São Paulo e passamos a nos corresponder durante alguns meses; até que um dia, eu recebi uma carta dela num envelope cor-de-rosa e dentro tinha uma carta, a mais formal possível, destas de: Como está sua mãe? Como é que foi isso? Eu estive em tal lugar... Talvez, quem sabe a gente ainda vá se encontrar novamente no ano que vem, quando chegarem as férias... Assim, essas coisas .... Tudo bem formal.

Mas, tinha uma coisa muito singular. O envelope...O envelope estava fechado e eu vi que, no fechamento do envelope, tinha uma marca de batom. Então isso era uma sinalização. Era uma sinalização tão fantástica, que a emoção vinha transferida até no envelope. Você não precisava escrever, que você já tava mandando uma mensagem.

No computador, você não pode mandar nem marca de batom, nem lágrima no papel. Eu não tenho ódio do computador, mas não gosto do computador nesse aspecto. Eu tenho pessoas de quem eu gosto muito e com elas me correspondo por e-mails. Mas, você não pode rasgar uma mensagem. Você vai botar num disquete uma mensagem? Que coisa mais nojenta!!! Principalmente se for uma mensagem de uma pessoa que você gosta.... Então faz essa coisa horrível que é deletar. Acho que deletar é jogar pro espaço; você não sabe pra onde foi isso, se foi pra algum lugar... Eu queria ver isso, mas você não vê porque você já deletou. E você vai deletando as emoções de uma tal maneira...

LOU: Mas as mensagens vêm carregadas de emoção.
CASÉ: É um outro tipo de emoção...

LOU: Você até chora quando lê uma mensagem. Eu me emociono...
CASÉ: Eu acabei de ler uma crônica aqui muito bonita. Li. Tudo bem. Mas ela não tem a consistência emocional de uma correspondência entre pessoas. Eu acho que as pessoas ficam disfarçadas como quando usam óculos escuros.

LOU: Você não gosta de usar? (risos)
CASÉ: Eu não uso óculos escuros. Às vezes, quando alguém vem me cumprimentar com óculos escuros, Lou, eu tenho vontade de falar, - por favor, tira, porque eu só reconheço as pessoas quando eu as estou olhando nos olhos; porque os olhos é que são as primeiras relações.

A expressão dos olhos e, assim, todo esse processo de comunicação necessariamente... A voz no telefone... É difícil uma pessoa falsear alguma coisa; sempre ela vai se denunciar pela voz, pelo olhar. E o computador não tem olhos; o computador não tem mãos!

LOU: Isto tudo é válido quando podemos estar perto da pessoa; mas o computador, a Internet, tem os recursos "milagrosos" de trazerem quem está longe, pra perto de quem está sozinho... ou com saudade de alguém...
ZECA: Agora, tem uma boquinha jogando beijinho assim pra você... É uma figura... uma imagem que inserimos....
CASÉ: É uma figura, entende? Hoje, o computador ficou infestado de coisas que tinham sido esquecidas, que são essas "correntes". Então eu recebo correntes esotéricas. São mensagens de Buda, que talvez nem Buda tenha escrito e nem tenha pensado... Li uma crônica do Luis Fernando Veríssimo, que eu respondi pra pessoa que a me mandou:
- Por favor, não me passe isso adiante, porque o Luis Fernando Veríssimo seria incapaz de escrever uma estupidez dessa, que não é dele. O Millôr me falou que as pessoas colocam na internet frases e coisas dele, que nunca escreveu.

LOU: Hoje, todo mundo se comunica em tempo real.
CASÉ: Hoje, você vai tomando conhecimento de tudo: que determinado edifício queimou, sabe que uma bomba explodiu, você começa a tomar conhecimento de tudo numa velocidade muito grande, através das redes de comunicação... porque cada vez elas são mais aperfeiçoadas. Porque existe tecnologia não significa que você se aperfeiçoou, né?

O PROGRESSO E A DEPENDÊNCIA

LOU: Como é isso?
CASÉ: Progresso é uma fábrica de aleijões... Você vai se aleijando das coisas. Você cada vez mais é absorvido pela tecnologia. Então, se você chegar e disser: - Olha, o meu carro amassou! Aí você tem que botá-lo na oficina e você diz: - Meu Deus, vou ficar sem carro. Como é que eu vou fazer as minhas coisas?
Eu acho que você perdeu a noção do tempo, e não pode fugir do tempo; e isso é complicado também. Quanto mais você vai criando o progresso, mais vai criando aleijões, não é isso?

LOU: Dependente de toda a tecnologia, e ainda temos o recurso do controle remoto pra ninguém precisar se levantar da poltrona...
CASÉ: Você não tem nem a convivência e a interdependência, interação dos seres humanos nos veículos. Você, andando de ônibus... Você conhecia várias pessoas nos ônibus. Eu conheci um monte de gente quando ia pra cidade, e todos pegavam ônibus na mesma hora e mesmo dia. Então você começava a criar uma espécie de solidariedade no transporte; você se conhecia e conhecia pessoas diferentes. Hoje, você pega o carro solitário; sua mulher pega o carro solitária; seu filho pega o seu carro solitário.

LOU: Mas a finalidade do site é, justamente, utilizar a tecnologia moderna em nosso benefício, buscando esse elo... O "VelhosAmigos" cobre essa lacuna que as pessoas...
CASÉ: Não! Eu não tô falando que o computador e a tecnologia não sejam importantes dentro da sociedade. Adolph Huxley, do livro "Admirável Mundo Novo"... Ele já escreveu duas utopias. Numa, ele conta a história de um sujeito que é feito em laboratório e condicionado a exercer a sua função dentro da sociedade, até que um cientista, em um momento, erra a poção. Então surge um sujeito especial. Ele é tão especial que se rebela contra toda aquela sociedade que é pré-construída.

O que acontece? Ele vai acabar sendo crucificado, como Cristo no novo México, por ser uma pessoa diferenciada dentro daquela tecnologia. Huxley escreveu uma utopia, criando uma sociedade perfeita com homens perfeitos. É uma utopia você ter uma sociedade perfeita, fabricando homens cada um com a sua predestinação: de ser chofer de ônibus, de ser trocador (risos), cada um teria a sua função.

É interessante porque é a história de que o mundo não pode ser globalizado. Um indivíduo, por mais que você o globalize, por mais que você una todos eles, são, cada um, um ser especial; senão nós não teríamos digitais diferentes, né? Nós somos pessoas especiais. Nós somos tão especiais, mesmo na religião "Mater" da civilização moderna, que ainda continua a ser o cristianismo...
Veja o decálogo. O decálogo o que é? São 10 leis. Mas ele começa como? Começa com o próprio Criador...

ZECA: É o primeiro Mandamento: diz "Amar a Deus sobre todas as coisas."
CASÉ: Você vê, é o máximo do egoísmo. Amar a mim, mais do que todas essas coisas. Então o homem aprendeu a ser egoísta porque seu próprio Deus é o maior egoísta.
E depois vem assim: "Amar ao próximo como a si mesmo". Você tem que amar a você mais... Amar os outros como você ama a você mesmo. É a condição do egoísmo máximo.

Então, os dois primeiros mandamentos dizem assim: seja indivíduo, seja egoísta e consiga amar os outros... Realmente, eu acho que ninguém pode conseguir amar ninguém sem amar a si próprio. Se não amar a si próprio, não consegue amar ninguém. Tem que gostar de si mesmo, pra poder ter valores os quais você possa passar...

LOU: Se ele não tiver amor dentro dele, não pode dar amor . Ninguém pode oferecer o que não tem.
CASÉ: Exato. São os valores que você possa trocar. Como é que você vai amar sem você dar? Significa isso um código de relação afetiva. Então, todas as sinalizações do computador são maravilhosas, toda tecnologia fantástica. Você não pode negar nada disso. Mas isso não significa que você não possa refletir, ter sua reflexão a respeito...

O PRAZER É A PAZ

LOU: E por falar em reflexão, como você vê este mundo que usa a tecnologia pra se autodestruir? O que você me diz dos homens-bomba?
CASÉ: Eu fico admirado, pasmo, com determinadas coisas que acontecem na guerra. Você, quando fala nessas guerras, no terrorismo. A que ponto a pessoa está obcecada pelo prazer e pela glória! Chegar a se suicidar com o corpo cheio de bombas? Você fica pensando: - Por que o sujeito tá fazendo isso? Porque essa fé que a pessoa tem não é só fé na religião. É pensar que essa pessoa também está imaginando a existência do prosseguimento de sua vida em outro estágio... Que vai encontrar rios de leite, mulheres lindas....

Então, porque procura uma medida tão drástica? Porque imagina, naquele momento, que tem outra vida adiante. Ele diz: - Agora eu descanso e ninguém enche mais meu saco, me desligo. Desligo como se desliga um aparelho e aí eu não vou mais sofrer. Ele tá querendo exatamente ter o contrário, que é o prazer.
O prazer de você não sofrer é a paz.
Vejo, desde o Cristianismo, que todas as pessoas que se sacrificaram em benefício próprio..., estavam procurando o prazer. Quando você lê no Novo Testamento que vai acontecer isso... Mas você vai ficar junto do Pai... No céu comigo! Está oferecendo o quê? Um prazer muito grande.

Quando você fala: - O Vinícius morreu e agora vai encontrar com o Pixinguinha. Quer dizer que se está criando um clima de que tudo aquilo é uma grande farra e todo mundo está por lá, fazendo uma bela bagunça.

É uma coisa terrível obedecer a um ditame de uma religião. Mas você vai ver que, em toda a história da humanidade, isso sempre aconteceu. Você já reparou numa coisa interessante? Em toda a história da humanidade, os grupos que vão para a guerra têm sempre seu Deus. - Deus vai nos ajudar a combater!

ZECA: Aí vira uma guerra entre os deuses.
CASÉ: É como o São Judas Tadeu para o Flamengo. São Judas Tadeu vai ajudar o Flamengo a ganhar. Coitado do São Judas Tadeu. E se o povo botafoguense pedir também. Ele tá perdido. Não sabe como atender...

LOU: E na suposta guerra entre os deuses. Quem perdeu? Quem ganhou? Quem perdeu mesmo foi toda a humanidade.
CASÉ: Acho que a sabedoria da Igreja, em determinado momento, é muito importante ao criar muitas Nossas Senhoras. Cada um vai buscar sua Nossa Senhora porque existem muitas. Tanto pedido para a mãe de Jesus... Se ela tivesse que atender a tudo... Não teria tempo pra atender a tanta gente. Todo mundo pedindo coisa a ela (risos). Eu não tenho madrinha, vamos dizer assim, humana.
Eu fui consagrado a Nossa Senhora da Conceição. A minha madrinha é Nossa Senhora da Conceição. Então, com a religiosidade vinda da minha mãe, muito beata, e da maneira como fui criado, tenho uma religiosidade e um misticismo muito grande em relação a isso... em adotar minha madrinha. Se eu não tenho minha madrinha humana, ela, a Nossa Senhora, tem um compromisso comigo. E vai ter até o final da vida. Tanto é que no meu livro tenho um poema dedicado a ela.

A Bethânia, inclusive, o recitou na minha noite de autógrafos. Foi gravado. Na noite de autógrafos, havia uns televisores com vários artistas recitando poemas meus: Regina, Renata Sorrah e Bethânia. E Bethânia o recitou porque gostou muito dele.

É um poema pequeno que estava na porta do meu apartamento, lá na Rua Toneleros. Lá na entrada, tinha uma imagem de Nossa Senhora e o poema, que eu escrevi e que estava pendurado na parede, falando de Nossa Senhora.

LOU: Os povos fazendo passeata, levantando a bandeira da paz, e os governantes continuando a investir na guerra, visando interesses comerciais....
CASÉ: Nós queremos paz, paz. Não adianta fazer mil passeatas, com mil cartazes escrito paz, paz, se você não está agindo.

Você simplesmente tá chorando num canto, tá levantando uma porção de bandeiras que não leva a coisa nenhuma. Porque a única maneira de você poder resolver problemas, é você agindo para solucioná-los. Agora calcula: você chegar e acreditar que o Chirac era realmente contra a Guerra no Iraque? Você sabe que isso não é verdade. Existem interesses lá no Iraque. Sempre existiram.... Com o petróleo, todos eles... Porque a Síria tem um oleoduto que passava pelo Iraque...
Se você for ver, tudo não passa de uma conjuntura... E tudo fica muito claro... Nada escapa aos meios de comunicação.

A PESQUISA OFERECE SURPRESAS

LOU: Você tem, em tempo real, todo tipo de informação e os veículos que trabalham com isso não deixam passar nada. É uma corrida louca, uma competição danada... E nós, correndo atrás, pesquisando, buscando...
CASÉ: E o computador funciona, principalmente assim, como veículo de pesquisa e de conhecimento; nos oferece esse processo de busca. E eu vou mostrar agora um site, que você vai ficar maravilhada com um fato e de como esse site surgiu.

LOU: Como foi?
CASÉ: Uma menina estava fazendo um trabalho na cidade de Belo Jardim, no interior de Pernambuco. Todos estavam fazendo vários trabalhos na Universidade. Ela, pesquisando, descobriu um nome. De uma pessoa nascida na sua cidade e viu que essa pessoa era muito importante e que ninguém sabia, nem na própria cidade; pouca gente sabia da existência dessa pessoa no resto da região e que ela era muito importante no resto do Brasil.

Agora existe esse site maravilhoso, pra mostrar e informar tudo a respeito da vida deste homem... Esta menina de 20 e poucos anos, começou a pesquisar, pesquisar e pesquisar...e... seu trabalho acabou ganhando todos os prêmios.

LOU: Maravilha isso. Como é o nome dessa menina?
CASÉ: O nome dela é Michele Wadja.


Ademar Casé

LOU: Ah! Que bárbaro... Qual é o nome do seu pai?
CASÉ: Ademar Casé. É um negócio louco! Ele foi pioneiro do rádio no Brasil. Agora todo mundo pode saber. Mas, ninguém, nem mesmo na cidade que nasceu, tinha conhecimento disso.

Meu sobrinho, o Rafael, escreveu um livro sobre o Programa Casé de meu papai. E o marido de Regina, junto com ela, tá fazendo um documentário. E eu tô ajudando no levantamento.... Eu tenho uma história muito rica sobre ele. Trabalhei com o meu pai desde garoto.

Então o que acontece? Isso tudo despertou outros interesses a ponto de uma escola de samba, querer fazer um enredo, com a vida do velho Casé.

LOU: E, além disso, também tem o lado da pessoa que é muito solitária, que vive sozinha, não tem com quem dialogar; quando aprende a usar o computador, ela tem uma ligação, uma conexão direta com muita gente. E também esta facilidade de se atualizar, descobrindo essas coisas..
CASÉ: Tem, tem... Tô dizendo dentro da realidade da sociedade atual, ele é muito importante por causa disso. Mas ele passou a ser imprescindível e as coisas que passam a ser imprescindíveis estão aleijando as pessoas.

Aqui na Globo, se parar o computador, pára a TV Globo. Se no banco, pára o banco. É uma dependência. Você não vai encontrar nem a máquina de escrever. Eu tenho uma que não é elétrica, porque se for elétrica e faltar eletricidade, aí eu não vou ter máquina... Você vê que houve um avanço que, de repente, cria pra você um....

LOU: Atraso.
CASÉ: Atraso. Você fica aleijado, porque você tem uma necessidade tão grande.

Quando a pessoa diz: - Detesto televisão! Eu não gosto desse programa! Uma b..... de programa! - Mas é mesmo? Por que você não trocou de canal ou desligou? Você não é obrigado a ficar vendo esse diabo desse troço, dessa tela!

A minha profissão me obriga a que eu esteja o dia inteiro ligado. Eu tenho que ficar vendo televisão. Mas isso não significa que eu seja obrigado...

Até mesmo, se eu quiser, eu desligo a televisão e acabou. Você pode desligar. Ué! Você pode sair no meio de um filme. Você pode sair no meio de uma peça de teatro. Você não vai criar pra você nenhum aleijão.

RECURSO PRA FUGIR DA SOLIDÃO

LOU: Mas as pessoas solitárias criam isso pra se sentirem acompanhadas, elas fazem parte daquela história e até se identificam com pessoas de determinados núcleos daquela novela.
CASÉ: A solidão realmente... a televisão passou a ser uma coisa que disfarça a solidão; cria um aparente diálogo entre a pessoa solitária dentro de um apartamento.

LOU: É, mas a televisão não cria o diálogo. É unilateral. Ela só escuta. Agora, no computador, a pessoa conversa em tempo real, através das salas de bate-papo, com gente de todas as idades e depois se correspondem, conseguem fazer amigos e trocam confidências. Considero isso uma verdadeira terapia.
CASÉ: Isso aí não se nega. Tô dizendo que o meio de comunicação falada suprimiu, ou melhor, amainou a solidão das pessoas... Por exemplo, minha tia. Ela acordava, estava morando sozinha. O que ela fazia? Ligava o rádio. E trabalhava o dia todo dentro da casa, fazia tudo, e o rádio era o companheiro; ela sabia das coisas.

A televisão veio... Você vê quantas pessoas ou em quantas casas você entra, a televisão tá ligada e não tem ninguém vendo; porque ela faz parte da própria pintura das paredes. Ela tá ali. É um elemento.

ZECA: E tem gente que entra em casa, liga a televisão e vai adiante.
CASÉ: E vai embora, porque de repente ela vai ouvir um grito ou alguma coisa e corre pra poder saber o que tá acontecendo. Eu tava escrevendo uma crônica. Ainda tô pensando se eu vou escrever ou não. Quando eu era garoto, pela manhã, acordava e ouvia uma coisa maravilhosa.

É uma coisa nostálgica: ouvia o cacarejo das galinhas. Que vinha de um galinheiro grande (imita o cacarejo) e ficava aquele negócio assim... criava pra você uma condição de que estava vivo. Que coisa maravilhosa! A vida estava ali fora e era como se fosse um alarido pra você começar o dia.

Hoje eu tava comparando... e acho que é uma coisa muito boa de acontecer, ouvir a risada da Ana Maria Braga. Aquela risada, o tempo todo na TV, parece uma galinha cacarejando, (imita o cacarejo) (risos). Lembra as galinhas do meu galinheiro, no quintal. O bom humor dela cria pra você uma predisposição ao humor. Não interessa o que ela esteja fazendo; se ela tá fazendo um pudim errado, isso pouco importa... Mas só a risada dela e a alegria que demonstra, mesmo que fosse falsificada - mas não é - por ser realmente uma coisa solta e feliz, é tão importante como o cacarejo das minhas galinhas no quintal e que me dá prazer.

LOU: Maravilhosa essa sua crônica.
CASÉ: Eu vou ver se eu encontro uma crônica que eu vou te dar. É sobre a Tia Julinha: "Cerzindo, Chuleando e Bordando". Porque elas, as tias, tinham a possibilidade de ter o desprendimento de amar outra pessoa; demonstravam essa dádiva do amor a outra pessoa com as coisas que faziam. Elas não eram empregadas; elas estavam agregadas às famílias. Elas eram solteiras e estavam preocupadas em demonstrar esse afeto através do quê? Do seu próprio trabalho...

zeca: A tia Julinha era solteira ou casada?
CASÉ: Solteira. Então ela dizia: servindo, chuleando e bordando. Entende? As pessoas, elas chuleavam, faziam doces, cuidavam. A tia Julinha foi morar conosco, quando a madrinha dela faleceu. Por que antigamente existiam madrinhas e as madrinhas eram a segunda mãe mesmo; assumiam a responsabilidade. Embora não estivéssemos tão bem economicamente, ela foi morar conosco.

ZECA: Vocês reagiram como a jovem na novela das oito, que repudia os velhos?
CASÉ: Mas antigamente ninguém fazia isso não. A não ser as pessoas abastadas. Botavam os velhos nos asilos. As pessoas que não eram abastadas ficavam com os seus velhinhos até morrer.

SOLIDARIEDADE

LOU: E a solidariedade do pobre é muito grande. Se uma criança fica sozinha porque a mãe morreu, a vizinha bota dentro de casa e bota mais água no feijão e cria a criança órfã.
CASÉ: Quando vejo uma pessoa que tem pouco recurso, ou que tá com um grande problema, me lembro de Júlia Lopes de Almeida. Ela tinha um conto na Antologia da Língua Portuguesa no qual eu estudava.

Ela conta uma história de um sujeito que saía todo o dia pro campo, um camponês, e passava por um arbusto onde tinham dois ninhos de passarinhos, no momento em que as passarinhas estavam dando de comer pros filhotinhos; ele parava um pouco, se encantava e depois ia trabalhar.

Quando voltava à noite, era a hora de elas estarem dando de comer novamente. E ele todo dia, por ali passava, até que um dia, viu que só uma passarinha tava dando de comer pros seus filhotes; mas os filhotes, de cima, estavam com o bico aberto, piando, piando e não havia passarinha. Ele ficou preocupado e quando ele voltou ao trabalho, viu que tava acontecendo a mesma coisa e foi dormir meio atordoado com isso, com pena dos passarinhos que não tinham passarinha.

Porém no outro dia, quando ele foi trabalhar, viu que a passarinha de baixo tava dando de comer, também, pra passarinha de cima. Isso ficou como uma lição pra mim. A solidariedade está nisso.

Eu acho que as pessoas que têm menos praticam mais a solidariedade do que as pessoas que têm mais. Evidentemente, que em todos os povos, toda pessoa que recebe não gosta daquela que dá. Isso você não tenha dúvida. A esmola é uma coisa terrível, massacrante, humilhante.

LOU: Existe até uma frase que diz: "Eu não sei porque essa pessoa me odeia, se eu nunca fiz nada por ela."...(risos)
CASÉ: William Saroyan tem um livro com uma série de contos e um deles é uma lenda árabe que é exatamente igual. É sobre um sacerdote que vai por um caminho deserto, quando sai de uma moita um bandido e mata o sacerdote. Este, antes de morrer, diz:
- Ué, meu filho! Por que tá me matando se eu nunca lhe fiz bem nenhum? ...

BATE-PAPO E CONVITE

LOU: Conversar com você é um prêmio!
CASÉ: Que isso!!! (risos)

LOU: Sério!
ZECA: Uma entrevista inesperada.

LOU: Não é uma entrevista... Eu quero te pedir uma coisa. Você vai ver que temos no nosso site uma página assim: "Autores em Destaque". Tem vários autores importantes. Então eu quero abrir uma página sua, com uma foto sua, com esses textos seus. Tá bom? Você é meu convidado, meu mais novo colaborador (risos). Posso já divulgar isso no site?
CASÉ: Só se você cortar essa parte aí de cima...

ZECA: Você vai gostar do site velhosamigos. A Seção "Mande seu Recado" são pras pessoas contarem seus problemas...
CASÉ: E essa correspondência vem sempre ligada a esses processos. Porque as pessoas de quem você gosta ou que gostam de você, o normal é procurar você com um problema.

DOIS MUNDOS DIFERENTES

LOU: Mas, como uma "VelhaAmiga", abro um horizonte! São pessoas que se abrem, contam intimidades. Justamente porque não me conhecem pessoalmente e se sentem mais à vontade.
CASÉ: Eu hoje tava vendo... A minha empregada chegou assim e disse: - Eu queria - falou pra Janete, minha mulher, hoje de manhã: - A senhora tem que me aconselhar, tem que me orientar, uma coisa aconteceu comigo. E aí contou o seu problema.

Aí você fica pensando: a cabeça dela não encontra solução porque tudo dela é tão simplificado que é, pra você, complicado dizer:
- Faz assim...

Ela tem uma perspectiva de vida completamente diferente. Você não sabe. Essa pessoa vive num casebre, numa favela, é faxineira, tem dois filhos, um filho de um homem com quem ela vive e tem um outro filho que ela criou de um sujeito de quem ela tá separada, há cinco anos. Ela foi viver com outro cara que aceitou o filho. O sujeito é um pobre coitado, um operário, rude, grosseiro... depois de 5 anos vem reclamar .... Isso se tornou para ela um problema insolúvel.

Nem eu, nem Janete, temos maneira de solucionar e não sabemos como aconselhá-la.
A Janete disse: - Você vai pro seu marido e diz a verdade. Aí ela disse: - Ele me mata. Ele tem ciúmes. O cara vai me matar.
E disse uma frase que achei deliciosa:
- Como é que eu vou fazer se me matarem?
Eu disse: - Você vai morrer (risos).

LOU: Parece com as piadas do Casseta & Planeta, com aquele humor negro.
CASÉ: - O que eu vou fazer se me matarem?
Você vai morrer, minha nega!

CASÉ & JANETE

LOU: Tá chegando o seu aniversário. Você é de Gêmeos?
CASÉ: Gêmeos, totalmente Gêmeos. E você sabe que Janete é Gêmeos também? O curioso é que ela nasceu no mesmo dia que eu. O engraçado disso é que quando começamos a namorar, ela pensou que tinha sido uma maneira, uma cantada...
Ela disse: - Eu nasci no dia tal, dia 07 de junho; e eu disse: puxa que coincidência eu também nasci nesse dia. Claro que ela pensou que fosse uma cantada.


Janete e Casé

Tive que pegar minha carteira de identidade e mostrar.

ZECA: Há quantos anos você tá casado com a Janete?
CASÉ: Vivendo com ela mais de 30 anos - 30 e poucos anos.

LOU: Eu sou Gêmeos também. Gêmeos tem dois lados. Quando os lados de vocês não se combinam, como é que vocês fazem?
CASÉ: Um sujeito muito interessante, que trabalhou comigo e fazia um programa em São Paulo, veio depois fazer o programa aqui, chamado Omar Cardoso, ficou muito meu amigo. Ele fazia horóscopos. Ele era esotérico. E era uma pessoa interessantíssima. Ele dizia que os Gêmeos só podem conviver, principalmente, se forem da mesma data, quando tiverem características completamente diferentes um do outro, embora continuem sendo muito Gêmeos.
Ou seja, eu sou um Gêmeo passivo e ela um Gêmeo ativo. Ela tem um grau de efervescência ou de agressividade que eu não tenho. Então, eu consigo absorver feito um jogador de boxe que tem um fígado que pode levar cacetada e continuar de pé.

LOU: É como se fosse um colchete pra abotoar.
CASÉ: A convivência não precisa ser de Gêmeos, nem ser de Áries, nem de coisa nenhuma. A convivência é um grau de amorosidade. Você tem que compensar uma coisa e outra. É muito complicado. Depois que você vive um tempo com uma pessoa, não existe maneira de viver sem ter segredos. Se você revelar todos os seus segredos, você não existe, você acabou. Sua vida é compensada pelas coisas que você guarda, que tem secretas, né? Se não você não teria persona e nem ego, não é? Você tem que ser o que as outras pessoas imaginam que você seja. Quando você falou: - Você é uma maravilha! É por que minha persona foi absolutamente bem passada para você.

LOU: O interessante da relação é ainda ter muita coisa que descobrir do outro. Porque do momento que não tiver mais nada... Eu falo isso na seção do "Vovô Ama Vovó".
CASÉ: É muito complicado. Se você não tiver segredos, segredos mesmo até mesquinhos, você não tem possibilidades de sustentar nenhuma relação. Se a pessoa ficou límpida e transparente pra você, tipo "a minha vida é um livro aberto", está errado. O livro tem orelha, tem prefácio e tudo mais; um monte de coisas no meio. Aquelas marcas que você faz, tem cupim, tem tudo.

ZECA: Mas Omar Cardoso falava exatamente isso, que você tinha que ser transparente.
CASÉ: Eu acho que não era bem isso não. É porque como a Janete é muito mais moça que eu, eu tenho mais capacidade de absorver do que ela.

LOU: A pessoa na maturidade tem mais tolerância.
CASÉ: Claro, apanhou mais... então você tem possibilidade. Evidentemente isso é um problema que você tem sempre que estar avaliando, né? Porque as pessoas ficam, muito tempo, espremidas, feito bola que você aperta; ou ela explode, ou ela joga a pessoa pra cima. Você tem que saber até que ponto você vai levando isso.

LOU: Até que ponto vai ceder...
CASÉ: Qualquer convivência é complicada. Mesmo entre amigos você sabe que é complicado, entre pai e mãe é complicado.

SÍTIO DO PICAPAU

LOU: O que você tá fazendo agora e quais são os seus projetos?
CASÉ: No momento eu tô com um livro entregue à Rocco, que é um livro de contos meus. Também estou fazendo um livro para a Expressão e Cultura, que eu tô terminando agora, que é a história do Sítio do Pica-Pau, da primeira versão que eu fiz para TV, contando tudo como foi construído, como foi feito.

LOU: São os bastidores.
CASÉ: Não só os bastidores, mas a maneira como foi levantado com uma seriedade muito grande, com adequação lingüística, com um grupo pedagógico trabalhando comigo.


Zilka Salaberry, Dona Benta, dirigida por Casé, no" Sítio do Picapau" na TV.

Não foi feito para ser só um programa de entretenimento, mas, ainda, com todos os elementos de entretenimento.

Não era didático, mas tinha que ter uma base explicando toda a linha do Lobato e feito por pessoas de alto nível.

Desde a parte musical.
Era uma trilha cantada e composta por gente de alta qualidade.

LOU: Maravilha!
CASÉ: Ele foi estudado, em todos os detalhes, para que fosse uma obra para durar dois anos e acabou durando 10 anos. E duraria até mais. E o programa foi muito menos mercantil, ainda que tenha sido produzido dentro da Globo. Agora está no ar novamente, como entretenimento.

LOU: E o de agora, também é seu?
CASÉ: Não, não tenho nada a ver com esse. Mas eu acho que o programa alcançou a sua finalidade. Um entretenimento pra criança com uma obra brasileira importante. Melhor do que qualquer desenho japonês. Ou de qualquer programa feito por apresentadoras sem nenhum estofo, sem nada. É um programa brasileiro, feito com artistas brasileiros. Ele tem todas as coisas necessárias para cumprir sua finalidade, que é de entreter usando a cultura brasileira.

Fizemos um trabalho, muito cuidadoso, que levou 2 anos pra começar e durou 10 anos no ar.

LOU: Fiel ao Monteiro Lobato...
CASÉ: Tinha que ter um conhecimento de Lobato. Por sorte eu, desde garoto, fui Lobatiano. Não fiquei preso a 4 livros dele. Li toda obra dele, e todas as pessoas que trabalhavam conheciam Lobato profundamente. Então, nada foi feito de maneira açodada.

Mas é dificílimo escrever este livro sobre o Sítio porque você não pode esquecer pessoas, não pode esquecer nada. O programa durou dez anos! O número de pessoas, de atores, de fatos curiosos... E a idéia nossa - porque eu tô escrevendo com um dos escritores que é o Wilson Rocha - é de que seja um livro de consulta para profissionais do meio, pra universitários. Um livro sobre um programa infantil responsável, por seu formato e por suas intenções.

LOU: Você tá fazendo isso com a ajuda de quem?
CASÉ: Do Wilson Rocha. Ele foi um dos roteiristas e ficou até o final do programa. Desde o primeiro, durante dez anos ele trabalhou.

E agora ele está escrevendo comigo. Cada um assina um capítulo. Nós tentamos fazer juntos cada capitulo. Pensei que não haveria importância, que seria um pedaço dele e um pedaço meu, num mesmo capítulo... Mas o Wilson disse: Mas eu sinto que você escreve de uma maneira e eu de outra. E eu disse: Eu sei, mas também tem concerto pra dois pianos. A obra é a mesma, só que fica diferenciada.

Afinal chegamos à conclusão de que cada um tem que assinar seu capítulo porque realmente existe uma diferença muito grande. Ele é muito mais conciso .

LOU: E teve algumas substituições porque a Narizinho cresceu...


Casé pedindo silêncio/
com Jacira Sampaio,
Tia Anastácia e
Rozana Garcia, Narizinho

CASÉ: Isso é outra coisa. Tínhamos vários autores que, no decorrer da série, escreveram episódios pro Sítio. O elenco também mudou; tinha que mudar. Durante 10 anos as crianças cresciam... Mudamos algumas Emílias por outros problemas.

Então, tudo isso está sendo escrito, mostrando como é que foi tratada a parte pedagógica, qual foi o cuidado, qual foi a adequação, quais foram as universidades que deram embasamento pra produzir... e tudo mais. Foi um programa feito de uma maneira muito especial, muito particular.

LOU: Você tá voltado a escrever contos, artigos pra jornal e livros. E dentro da TV o que você tá fazendo?

CASÉ E A TV GLOBO

CASÉ: Dentro da TV sou diretor artístico da Divisão Internacional. Eu analiso a programação que vai pro exterior, pra poder mandar pro departamento de vendas e dizer: - Essa é adequada; isso aqui a gente vai ter que mexer; isso aqui não é adequado sob o aspecto de ser muito regional; essa novela não vai ter capacidade, não vai ter feed-back, ela possivelmente não vai ser aceita nos mercados, tais e tais.

LOU: O que eu tenho lido é que os nossos programas, as nossas novelas têm feito um sucesso imenso no exterior. E isso passou pela sua seleção, não é?
CASÉ: Desde o início o nosso produto é muito analisado.. Ele é adaptado pro mercado externo, porque é feito pro mercado interno. Onde a Globo ganha dinheiro, onde? Fazendo pro mercado interno. Porque o mercado interno é que é o forte. O mercado internacional é bem complementar, é segundo plano, não tem a força financeira, não é economicamente... Ele tem, evidentemente, rentabilidade; tem resposta financeira, mas não chega nem ... é mínima diante do nosso mercado interno. Nós vendemos e cada vez mais existe uma integração das produções.


Casé Dirigindo um comercial com a bela Luiza Brunet

A Globo não é só uma emissora;ela é, antes de tudo, uma grande produtora; talvez a maior produtora de televisão do mundo hoje.

E ela produz praticamente toda a sua programação pro mercado brasileiro. Se você for colocar o que é da Globo e o que não é produzido pela Globo, é mínimo. Umas películas, alguns programas que foram comprados o formato, o mais é produzido pela Globo.

LOU: Essas produções independentes também são finalizadas na Globo?
CASÉ: São. Muitas são, ou então analisadas, a ponto de você poder... ou então são feitas por elementos que pertencem à Globo. Isso é raro e pouco, muito pouco diante do volume... uma minissérie... Quando você fala em co-produção, a produção é toda regida pela Globo. Não existe outra. Ela é a maior produtora. Nem a NBC, nem CBS, nem nenhuma tem um núcleo de produção que tem a Globo.

O Projac hoje é o que seria a Universal, na época do cinema feito pelos grandes produtores. As coisas hoje tão de tal maneira fundidas que você não sabe se é Times, Warner, Tristar... Você, de repente, vai ver quando abre uma película, como as co-produções estão; cada uma cuida de um pedaço, mas no fundo há uma tendência - só a de globalizar. E os produtores... você pega o Spielberg. O Spielberg trabalha com várias produtoras, embora ele tenha a produtora dele. Porque, pra variar, ele tem o dinheiro na mão. E a Globo não; ela empenha seu próprio dinheiro, na sua própria produção, para ela ser emitida pelos veículos da TV Globo.

A Divisão Internacional negocia o quê? O que a Globo transmite, o produto nosso, feito por nós e o que é adequado pra você vender pro exterior. Então você tem que analisar. Você pega uma novela e essa novela pode não ter possibilidade de ser aceita, forma de ser absorvida pela audiência externa ou pela maneira de assistir televisão de outros países. Cada país tem a sua cultura de assistir televisão.

Os da América Latina assistem de uma maneira; o europeu, de uma certa região da Europa, assiste de outra forma. O alemão assiste na parte da tarde a novela, considerada dramaturgia menor e depois assiste aos games shows, depois talk shows, depois no final da noite, as películas.

LOU: E você, além dessa atividade, você escreve pra jornal também. Qual o jornal que você escreve?
CASÉ: É só para os financistas (risos), Jornal do Commercio, na página de Artes, que aliás, é muito bem feita. Eu escrevo há muitos anos lá. Em princípio escrevia sobre gastronomia, mas depois...


Jaete e Casé, ladeados pelos amigos Lúcia e Paulo Portela no seu restaurante "Mes Amis"

LOU: Você entende também de gastronomia? Deus do céu!...
CASÉ: Cozinha pra mim é essencial. Eu tive durante 10 anos um restaurante lá em Araras. Era o Mes Amis. Eu ia todo final de semana. Eu era o chef.

EM PLENA ATIVIDADE

LOU: Além do seu trabalho aqui na Globo, escrever e cozinhar são essenciais pra você! Quer dizer, você vive em constante atividade.
CASÉ: Escrevendo sim. Sem escrever e sem desenhar eu não posso viver.

LOU: Sem escrever e sem desenhar. Você também pinta?
CASÉ: Eu faço os desenhos dos meus livros e da minha coluna.

LOU: E como é o nome do livro?
CASÉ: "Um Dia Fui Pássaro". Na Argumento eles ainda têm o livro. Na Travessa, na cidade, eu sei que eles têm.

LOU: O livro tem que estar exposto. A pessoa passa e compra. Ou então a pessoa passa pra comprar, vê outro e acaba comprando.
CASÉ: Nem todo mundo é Luís Fernando Veríssimo, que tem 30 mil títulos repetidamente. O Antônio Maria, um cronista extraordinário, só agora você encontra livros dele e se você vai a algumas livrarias, ele vai estar num lugar difícil de encontrar. Você tem que perguntar: - Tem o livro do Antônio Maria? Que são crônicas deslumbrantes. O diário dele é maravilhoso também. Essas pessoas são notórias e poesia é tipo ação entre amigos, é uma coisa restrita, embora a poesia seja inata. A poesia está dentro de cada ser humano. Por mais rude que seja o homem, ele tem poesia dentro de si... é porque não explora. Não pelo fato de não ler poesia, mas porque não desenvolve essa aptidão que está dentro dele. Todos têm um grau de poesia dentro de si. A poesia interage com o sonho. Você pega o Manoel de Barros, e ela é de tal maneira tocante que toca as pessoas. Quanto mais sensíveis elas são, mais fácil de se respirar com o que o Manoel escreve.

LOU: Você tem o dom da palavra, de fazer palestras, de dar aula. Você é professor? Porque você tem muito ensinamento pra dar e não pode ficar tudo guardado aí.
CASÉ: Eu fui professor durante um tempo. Palestra eu faço muito: sobre educação, televisão.

LOU: Eu tô assim muito emocionada e felicíssima por todo esse tempo que você dispensou pra nós, dos Velhos Amigos. Então eu queria que você mandasse um recado para os nossos VelhosAmigos.
CASÉ: Às vezes eles chegam a um ponto...Você falou neste negócio de falar em poucas palavras alguma coisa. Fica-se muito perto de falarmos uma coisa calhorda... tá muito perto.

LOU: Eu adoro gente assim.
CASÉ: É verdade. Vou ter que fazer uma coisa tão bonita, tão bem dita... Achei ela maravilhosa pra todo mundo! E vou me sentir tão bem! Olha que coisa linda que eu disse. Não é bem por aí, né?

A Beatriz de Assis que estava me entrevistando na Multi Rio me perguntou exatamente qual era o meu conselho sobre pedagogia, o ensino o que era? Nenhuma maneira há de se ensinar que não seja com amor. Sem amor não há maneira de ensinar coisa nenhuma. Eu acho que o professor sábio é o que tem amor pelo aluno e pelo que ele tá fazendo.

Depois de dizer isto, eu já estava muito convencido porque já tinha dito uma coisa muito bonita. Aí, depois, disse: - Olha, a coisa que eu acho importante para um professor é ele distinguir o mau aluno, não para dizer que ele é mau aluno, mas para fazê-lo um bom aluno. E só através do amor que ele vai conseguir fazer isso.

LOU: Agora eu estou com ciúme.
CASÉ: (risos) Porque se ele amar o bom aluno ele não tem nenhuma vantagem, mas se você amar o mau e tentar fazê-lo um bom aluno...aí sim. Isto você só vai conseguir fazer com afeto, com amor. Porque algum problema ele tem, quando não absorve o que você está falando. Ou, então, você é muito ruim e só os bons percebem que você é ótimo! Você será bastante bom se chegar e resolver os problemas dessa pessoa que não está conseguindo, ou não se interessando em aprender. Ou você é um chato de galocha, que tá dizendo uma porção de besteira e a pessoa não consegue. Vai ver você tem uma cara desagradável, ou usa um óculos, ou lembra uma pessoa, uma megera qualquer na vida dele... e você vai ter que descobrir....

EXCEPCIONAL É FORA DE SÉRIE

LOU: Você já trabalhou com crianças excepcionais?
CASÉ: Durante algum tempo trabalhei com crianças excepcionais na Sociedade Pestalozzi, eu e Heleida, minha primeira mulher.
A palavra excepcional tem que ser levada no bom sentido. Porque o excepcional é realmente fora da série; não é o que a gente chama de uma criança normal. É uma criança que não é anormal, é excepcional. Ele é anormal dentro do que você considera normalidade, num ser humano que aprende sem dificuldades. Eles têm dificuldades, mas sabem que essas dificuldades podem ser superadas e eles tentarão superar. Você já pensou não ter a mão e conseguir escrever com o toco do seu braço? Essa pessoa é excepcional, é mais que uma pessoa normal. Então o excepcional tá exatamente nessa faixa, da pessoa que não tem possibilidades. E você tem que dar possibilidades a ele, como se tivesse dando essas possibilidades a uma pessoa que, pseudamente, você chama de normal. Quer dizer você tem que dar o mesmo tratamento ao excepcional que você dá a uma pessoa normal.

NOSTALGIA

LOU: Então você deu esse recado que não teve nenhuma calhordice. Duas coisas: uma, sua autocrítica é muito severa e dois, agora eu tô com ciúme que eu não te perguntei nada de pedagogia, embora eu vá aproveitar e tô achando o máximo. Agora eu quero um recado especial pros Velhos Amigos. Pode falar esse tipo de calhordice que eu amei (risos). Porque as pessoas sempre esperam alguma coisa de uma pessoa como você, elas tão ali do outro lado. Querem saber da sua sensibilidade. Elas estão ali justamente buscando um contato maior com o ser humano Geraldo Casé, ouvir uma coisa que você diga e que ela vai gravar por muito tempo.
CASÉ: Acho que primeiramente eu gosto da palavra VelhosAmigos. Eu acho que a palavra velho é preconceituosa, mas também colocar Antigos Amigos, seria uma coisa horrorosa porque o antigo já tá no museu e o velho ainda tá vivo. Eu acho muito difícil lidar com a palavra velho, mas VelhosAmigos tem um tom de nostalgia, do que aconteceu com uma amizade que se imagina ser uma amizade sólida. Acho que toda coisa que se pleiteia manter vínculos de afeto é importante e VelhosAmigos me leva a pensar nesse processo. Então, a velhice não significa que você estagnou o Velho Amigo, não pode ser a estagnação da amizade, tem que ser a evolução da amizade constante. Tem que ser a troca dos prazeres, não só dos antigos, mas dos prazeres novos e discutir coisas que estão acontecendo. Porque se você se ligar só a coisas que já aconteceram, você parou de viver.

ZECA: Você se acha saudosista?
CASÉ: Dentro do meu grau de saudosismo de nostalgia, eu acho que gosto muito do velho Posto 6, gosto muito da velha Copacabana, dessas coisas que seriam velhas, mas que para mim continuam sendo novidade. Acho que a velhice é uma novidade, mas às vezes não percebe que é uma novidade, por que acha que a velhice é uma coisa que passou e com isto só a ela se atém. Não é isso; a velhice traz possibilidades de ver as coisas de maneiras diferentes.
Acho que toda pessoa que renega a juventude não se detém no jovem; perde a percepção do novo e assim a possibilidade de envelhecer melhor. A juventude traz coisas de tal maneira surpreendentes, que você vai alimentá-la e fazer de um velho uma pessoa ainda mais madura, com maior capacidade em receber ensinamentos. Então, tudo que eu escrevo hoje, tipo cerzir, chulear... a pessoa não sabe se são palavras que estão no meu vocabulário, como uma coisa que não é velha.

Têm pessoas que não codificam essa palavra; hoje é muito mais fácil, ao invés de dizer meus companheiros, é dizer a galera. Você modifica porque a língua é dinâmica e vai mudando muito.

Todo mundo fala "a galera" e não percebe que "a galera" é um termo que hoje se usa muito e que "a galera" era um termo carinhoso, para pessoas que tinham pouco poder aquisitivo pra assistir a um jogo de futebol e ficavam na galera, ou seja, na geral. Hoje a galera é...

O AMOR A COPACABANA

LOU: É tudo vai mudando e nós temos que acompanhar... Eu sei que você quando se mudou pra Copacabana ali era um grande areal e você acompanhou e "sofreu" toda a transformação daquele paraíso...
CASÉ: Você pára de viver se ficar só pensando: "Era linda Copacabana!" Não, eu gosto de Copacabana daquela época e isso não quer dizer que eu não ache muito bonita agora. Que, quando eu passe por lá pelo Posto 6, eu continue a gostar. Obviamente eu vou ter sempre na cabeça a primeira vez que eu fui pra Copacabana, quando vi a praia.

Quando eu conheci Copacabana, ela era um lugar até distante na cidade, a tal ponto de que uma pessoa como o Maurício, meu irmão, que tinha problemas respiratórios e estava enfermo, e o médico disse: " ele tem que mudar de ares, não pode continuar aqui na Tijuca. Tem que procurar um lugar de melhor clima e ambiente, e o melhor seria uma beira de praia. Naquela época, era Copacabana. E nós fomos para Copacabana .

E era uma Copacabana que eu tenho sempre que comparar com a Copacabana que eu estou vivendo agora.

Porque quando eu cheguei no Ed. La Porte, que tinha 4 andares, nós ficamos no térreo. Nós éramos bem garotos e o meu pai comprou uma barraca de praia imensa, colorida, enfiou na Praia, em frente à nossa casa e ela ficou lá.Não tirava nem de noite porque era o quintal da nossa casa.

Então, essa era a Copacabana que eu conheci. Isso não significa que hoje eu não ache Copacabana com as suas amplas vias, não é mais Copacabana. E quando eu vou pra lá não fico botando a Copacabana com uma avenida de pista só. Eu não vou fazer isso, eu acho idiota. Acho que a velhice é isso.

E o VelhosAmigos eu acho que não pode ser uma coisa estagnada tem quer ser uma troca constante de novidades até dizer meu calo está muito mais vermelho, quer dizer tem uma coisa nova no calo, que você viu e vamos discutir o nosso calo.

LOU: E é por isso que eu tô aqui; porque eu acho que você já é uma grande novidade no nosso site, vai trazer muita coisa nova. E vamos ter muito assunto pra discutir os nossos calos... Muito obrigada, um beijo.
CASÉ: De nada, queridas, foi um grande prazer, muito obrigado.

Junho/1928 - Julho/2008

Maria de Lourdes Micaldas
Zeca Micaldas
Revisão: Anna Eliza Fürich

 

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