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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

GETÚLIO CORTES
publicado em: 15/01/2016 por: Netty Macedo

Compositor, cantor, instrumentista. Embora nascido e criado no bairro de Madureira, tradicionalmente vinculado ao samba, no fim dos anos 50 tornou-se admirador do rock norte-americano, principalmente Elvis Presley e Little Richard. Começou as atividades artísticas dublando astros norte-americanos. No início da década de 60 passou a atuar como violonista amador nas rádios Mayrink Veiga, Tupi e Mundial. Mas ele mesmo vai contar essas e outras histórias da sua vida. Com você, o "Nego Gato", Getúlio Cortês!

LOU: Qual é o seu nome completo?
GETÚLIO: Getúlio Francisco Cortes

LOU: Em que dia, mês e ano você nasceu?
GETÚLIO: 22 de março de 1938

LOU: E o nome dos seus pais?
GETÚLIO: Jovelino Francisco Cortes e Maria Rodrigues Cortes.

LOU: Que tipo de criança você foi?
GETÚLIO: Fui uma criança muito travessa. Do tipo de subir em árvores para pegar frutas. Eu morava em Osvaldo Cruz e minha primeira escola foi a Pinheiro Dias, em Madureira. Lembro-me, vagamente, de dois fatos marcantes. O primeiro foi na escola pública, onde eu cursava a terceira-série primária e tinha 10 anos. Houve um concurso para escolher a melhor frase alusiva ao 1º de Maio, Dia do Trabalhador. Pensei...pensei.. e mandei: "O braço do trabalhador é a alavanca que move o mundo!", causei espanto geral, ganhei o 1º lugar e a admiração de todos. O segundo fato ocorreu um ano depois, às vésperas do Natal. Os filhos dos militares (meu pai era sargento da PM) ganhavam presentes no Quartel Central da PM, na Rua Evaristo da Veiga e, de repente, depois da banda tocar, gritos e palmas esfuziantes! No varandão, no alto, surgiu um homem de branco, com chapéu igualmente branco, fez uma breve saudação a todos e, no fim do discurso, perguntou:"quem se chamar Getúlio, levante o braço". Eu era o único Getúlio presente e fui ao seu encontro. Ele me abraçou afetuosamente. Fiquei feliz, mas assustado com tanta gritaria. O nome do homem de branco? Getúlio Vargas.

LOU: Como foi a sua adolescência? Você passou por dificuldades? E as namoradas?
GETÚLIO: Passei por muitas dificuldades, principalmente no que se refere a trabalho e alimentação. A primeira namorada? Não me lembro.

LOU: Embora nascido e criado no bairro de Madureira, tradicionalmente vinculado ao samba, no fim dos anos 1950, você se tornou admirador do rock norte-americano, principalmente dos roqueiros Elvis Presley e Little Richard. Qual foi a reação da sua família e de todos que esperavam de você uma veia de sambista?
GETÚLIO: A reação da minha família foi adversa, queriam que eu fosse mecânico e não me envolvesse com música. A oposição maior partiu do meu pai. Ele achava que cantor ou compositor era sinônimo de boêmio, vagabundo, etc. Ele só cedeu, quando um vizinho que era músico, me ensinou a tocar bateria, mas não era bem isso que eu queria. Gostava mais de compor musiquinhas ingênuas.

LOU: Conta pra mim da sua paixão pela música, das suas composições e parcerias musicais.
GETÚLIO: Tudo começou quando eu assistia aos musicais da Metro, na década de 50. Vizinho a minha casa, havia um cinema de 3ª categoria (poeira, como era chamado). Eu pulava o muro e assistia toda semana a um filme de graça. Filmes maravilhosos como "Um Dia em Nova York", "Cantando na Chuva", "A Roda da Fortuna", "Picolino", "Agora Seremos Felizes", "Uma Noite no Rio". Me deslumbrava com a dança e a exuberância de Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly, Cid Charisse, Judy Garland, Debbie Reynolds, Donald O'Connor e muitos outros. Mesmo sendo o sujeito mais duro de Madureira (risos), resolvi me envolver no mundo artístico. Primeiro comecei fazendo dublagem de Sammy Davis Jr; depois resolvi participar de um conjunto vocal. Ganhei alguns prêmios, mas com o tempo, vi que não era essa a minha praia. Começando por baixo,
(era carregador de instrumentos ), conheci e fiz amizade com muita gente que estava começando a carreira: Roberto Carlos, Erasmo, Wanderléa, Simonal, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, Jorge Ben, Carlos Imperial, enfim, muita gente.

Na foto: Getúlio e Wanderley Cardoso

LOU: Qual foi o seu primeiro e maior sucesso como compositor?
GETÚLIO: Foi "Negro Gato", gravado por Renato e Seus Blue Caps, em 1963. A canção foi gravada por Roberto Carlos três anos depois.

LOU: É também a música mais gravada, merecendo versões de Erasmo Carlos, Marisa Monte e Luís Melodia, entre outros.Você sempre recebeu cachê por seu trabalho pelo ECAD?
GETÚLIO: Sim. Infelizmente é muito difícil viver só de música, além da concorrência ser desleal, existem por aí algumas editoras (não são todas) que manejam inescrupulosamente as obras de incautos compositores que querem um lugar ao sol. Sei de casos de editoras que pegam músicas inéditas, roubam o tema e colocam em nome de outras pessoas que nunca foram compositores, mas aí já são outros quinhentos, nem gosto de me lembrar desse assunto. Em compensação, me esqueço de tudo isso no palco, vendo as pessoas cantarem comigo as canções em que extravasei minhas alegrias e tristezas.

LOU: Agora conta pra mim sobre a sua família, filhos, esposa e amores.
GETÚLIO: Me casei com 39 anos, formei minha família e tenho 3 filhos. Amores? Tive alguns. Porém continuo com a mesma mulher há 26 anos. Nos conhecemos numa festa. Meus filhos, graças a Deus, por enquanto, não me causam grandes problemas. Estudam e trabalham regularmente. A mais velha é bacharel em Letras; os outros dois estão cursando Direito e Educação Física.

LOU: Agora, aos 69 anos, você volta a fazer shows. Como você foi recebido pela mídia?
GETÚLIO: Muito bem, em 2003 tive uma homenagem que me deixou feliz. Foi no Teatro Rival, com a presença de vários artistas consagrados, no lançamento de um CD em minha homenagem, com o título: "O Pulo do Negro Gato" (tributo a Getúlio Côrtes). Foi um momento emocionante, onde pude avaliar o carinho e a admiração dos meus amigos: Luís Melodia, Fagner, Jerry Adriani, Leno, Renato e Seus Blue Caps, Hildom, Adriana, etc. Os amigos que participaram do CD foram: Erasmo Carlos, Wanderléa, Eduardo Dusek, Fagner, Léo Jaime, The Fevers, Golden Boys, Renato e Seus Blue Caps, Leno.

LOU: Qual a sua opinião sobre a nossa MPB atual?
GETÚLIO: Falando francamente, não gosto do que anda rolando por aí musicalmente. Apelações, mesmices, apologia à violência, enfim, um modismo que não acrescenta nada à cultura musical. Não perco meu tempo com baboseiras.

LOU: Quais os seus artistas preferidos?
GETÚLIO: Antes de falar dos músicos, quero falar de meus compositores prediletos nacionais e internacionais, a saber: Jerome Kern, Gershwin, Cole Porter, Richard Rodgers, Hammerstein, Sigmund Romberg e vários outros. Os nacionais: Lupicínio, Tom, Carlos Lyra, Marcos Valle. Músicos e orquestras: Count Basie, Benny Goodman, Glenn Miller, George Benson, Nelson Freire, Tabajara. Na música clássica: Concerto Para Piano, Grieg, Pompa e Circunstância, Elgar, Sinfonia nº 22 Mozart.

LOU: Quem é Getúlio Côrtes? Fale um pouco de você.
GETÚLIO: Uma pessoa simples, que sempre está de bem com a vida. O que me faz ficar de bem com a vida? É o carinho das pessoas que gostam das minhas canções, do fato de ainda ter forças para prosseguir, de morar no Rio de Janeiro. No meu modo de ser, sou um misto de palhaço e melancólico, mas gosto de pessoas dinâmicas, busco sempre novos horizontes. Já fiz um pouco de tudo em minha vida: fui assistente de Carlos Manga, na TV Rio, já fui diretor musical de um filme chamado "Jovens pra Frente", dirigido por Alcino Diniz da extinta Tv Tupi, sendo que o fato que muito me honra é que este foi o último filme de Oscarito, meu ídolo, a quem tive o imenso prazer de dar uma carona no meu modesto Aero-Willis-63 até sua casa, em Copacabana. Agora, me cuido muito, principalmente na alimentação. Devo dizer que gosto do trivial: carne seca com abóbora, ensopadinhos caseiros e evito frituras.

LOU: Você pode mandar um recado para os nossos “velhos amigos?”
GETÚLIO: Nunca desista de seus ideais, lute pelo que você deseja ardentemente. A noite pode ser triste, mas a alegria sempre virá pela manhã. Encerrando, amiga Lou, quero lhe agradecer muuuuiiito pela sua paciência. Beijos no seu coração e nos corações dos velhos amigos.

 

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