Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

GETÚLIO MACEDO
publicado em: 20/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 1/04/2005

Nascimento: 13/11/1928
Falecimento:
23/10/2011

Getúlio Macedo, nascido em 1928, em Sabino Pessoa , no Espírito Santo, criado de pés no chão em Cachoeiro. Ele veio descalço, sem mala, nem cuia , pro Rio de Janeiro. É com ele a nossa comovedora entrevista.

LOU: Getúlio, você está com 77 anos e toda a sua postura, a sua voz, denotam uma jovialidade, um entusiasmo pela vida. Conta pra nós um pouco da sua história.
GETÚLIO: Eu nasci em 1928, numa cidadezinha que se chamava Sabino Pessoa e hoje em dia é Jerônimo Monteiro, Vale do Souza, no Espírito Santo, e fui criado de pé no chão, porque a minha família era extremamente pobre. Depois, fui morar em Cachoeiro, terra do Roberto Carlos, que eu conheci pequenininho, e, em 1940, vim pro Rio de Janeiro. Cheguei aqui com o pé machucado, descalço, sem cultura nenhuma, porque eu nunca tive estudo. E eu digo pra você que não tive o segundo ano primário, mas fiz essa onda toda no meio artístico brasileiro. Eu fui produtor de televisão por 30 anos. Tenho um repertório de música, numa base de 450 músicas gravadas, e trouxe algumas pra você escutar.

LOU: Você foi um compositor que ocupou por muito tempo as famosas “Paradas de Sucessos” e poucas pessoas sabem que você é o autor dessas músicas famosas e até hoje cantadas.
GETÚLIO: Dei sucesso à Ângela Maria, vários sucessos a Cauby Peixoto, à Marlene, Chiquinho e sua Orquestra; musiquei novelas, filmes, revistas teatrais. Eu já fiz tudo que você possa imaginar em matéria de música neste país. Fiz jingles, prefixos, vinhetas. Sou pioneiro nisso na Rádio Nacional. Eu fazia os prefixos dos programas do Paulo Gracindo. Fui o compositor favorito da Emilinha Borba pra quem compus muitos sucessos. Indiscutivelmente não houve no Brasil uma cantora tão famosa como ela.

LOU: Eu me lembro... Vivia com o rádio ligado. Até estudava ouvindo rádio..
GETÚLIO: Yara Sales e Heber de Bôscoli, todos os fins de semana , faziam na Rádio Nacional o programa "A Felicidade Bate À Sua Porta". Eles visitavam bairros e cidades vizinhas do Rio de Janeiro, distribuindo prêmios e apresentando números musicais. Emilinha, sobre um carro especial, cantava para uma multidão de fãs, nunca inferior a 20 mil pessoas .

LOU: Você chegou aqui no Rio de Janeiro, como você disse, sem estudo e pobre. Como foi que você alcançou esse ponto de sucesso?
GETÚLIO: Foi o seguinte: se correr o bicho pega, se ficar, o bicho come. Eu sou escorpiano. E tem uma coisa com o escorpião que ele nunca morre. Você pega o escorpião, bota um álcool nele, bota fogo e ele sai dali. Então, eu tive grandes amigos na minha vida, como o saudoso amigo Reinaldo Mossali , com quem comecei a compor. Ele não seguiu a carreira, foi ser policial. Mas eu continuei a compor. Eu tinha que seguir um caminho. Então, comecei a freqüentar programas de auditório, programa de Paulo Gracindo, às segundas-feiras, e às terças e quintas-feiras, o do Heber de Bóscoli.
Aos sábados, eu ia ao chamado "Trem da Alegria", de Heber de Bóscoli e Yara Sales. Então tomei gosto pelo meio artístico.

E foi no programa Paulo Gracindo que eu compus a minha primeira música, que era um jingle da “A Sedofeita”. Você deve ter conhecido aquela loja de sapatos caros. Foi a minha primeira música e ganhou em segundo lugar.

LOU: Você se lembra do jingle da "Sedofeita"?
GETÚLIO: “'A Sedofeita' é a princesa da cidade. Se cobra caro é sua especialidade. Lá tem sapatos pra milhares e pra milhões. Na Avenida Passos, esquina de Luís Camões. Lá tem sapatos pra milhares e pra milhões. Na Avenida Passos, esquina de Luís Camões".

LOU: Muito bom.
GETÚLIO: Eu tenho gravações aqui. Eu tentei ser cantor de orquestra, crooner , não consegui nada. Cantei em programas de calouros e levei pau de tudo quanto é jeito. Mas então eu comecei a compor sozinho, lutando, freqüentando a Rádio Nacional, conhecendo gente, etc e tal. Em 1952, eu morava em Ramos e vinha de bonde pra cidade, lendo a “Seleções”. E vi escrito que naquele ano, seria festejado no Brasil, pela primeira vez, o Dia das Mães, então eu falei: Êpa! É comigo mesmo! Eu tenho uma musiquinha que eu fiz em homenagem à minha mãe, que é "Mãezinha Querida".

LOU: Me fala de sua mãe.
GETÚLIO: Minha mãe, Jovina de Assis Moreira foi uma heroína. Criou oito filhos, fazendo e vendendo doces. Eu também vendia doces pra poder levar dinheiro pra casa. E aproveitei a oportunidade e compus a primeira música dedicada ao “Dia das Mães ” para ela. Foi um sucesso que me deu dois réis (Não sei mais o dinheiro daquela época...)

LOU: Recita pra nós.
GETÚLIO: A letra é assim:
"Minha mãezinha querida,
Mãezinha do coração.
Te adorarei toda vida,
com grande devoção.
É tua essa valsinha,
foste a inspiração!
Canto querida mãezinha
a sua canção." E vai por aí.
Tava muito difícil pra eu colocar esta música. Eu cheguei perto do Paulo Roberto, um dos maiores produtores da Rádio Nacional, que tinha o programa "Nada Além de Dois Minutos", muito famoso, aos domingos, e falei:
- Ô Paulo Roberto, eu tenho uma música que fala do "Dia das Mães"....
- Que isso, menino? Que dia das mães?
- Vai ser festejado aqui no Brasil, neste ano, Paulo Roberto. Esta festa nasceu na cidade de Boston, nos Estados Unidos e eu tenho uma música feita pela primeira vez no Brasil.
- E quem é que vai cantar? Eu disse:
- Carlos Galhardo.
- Diga ao Galhardo que eu topo.
E o Galhardo não sabia disso. Aí eu cheguei perto do Galhardo e disse que tinha uma música para o Dia das Mães, composta por mim e pelo Lourival Faissal e o Paulo Roberto queria que você cantasse no domingo. Diga ao Paulo Roberto e ao Lourival que eu aceito.

Mas o Lourival nem sabia que eu tinha dado a parceria pra ele... E foi assim que eu consegui colocar "Mãezinha Querida".

E, na véspera, no sábado, depois do programa "César de Alencar", em 1952, quando terminou o programa do César e ficou a grande orquestra da Rádio Nacional, eu gravei pela primeira vez uma música minha.

LOU: Estou toda arrepiada!
GETÚLIO: Eu também fiquei todo arrepiado. Foi uma emoção que você não pode imaginar, o Galhardo cantando "Mãezinha Querida".

O GRANDE DIA

A minha noiva Vitória já estava comigo. No domingo, o tema do programa era "Nada Além de Dois Minutos", mas durava uma hora e era líder de audiência aos domingos. Aí foi anunciado que “estava sendo comemorado pela primeira vez no Brasil, o Dia das Mães, e a dupla Getúlio Macedo e Lourival Faissal escreveu essa canção que o Carlos Galhardo vai cantar”. Aí entrou no ar, gravada pela primeira vez "Mãezinha Querida". Foi uma das maiores emoções que eu senti na minha vida.

LOU: E o Lourival Faissal também deve ter sentido emoção, porque ele nem sabia que havia feito nada.
GETÚLIO: Mas depois eu conversei com ele e ficou tudo legalizado. O Lourival foi um grande amigo meu. Eu gravei 100 músicas com ele. O Lourival Faissal era sonoplasta da Rádio Nacional, do departamento de novelas, e era considerado um gênio. Depois de terminar o serviço ele ficava compondo.

LOU: De verdade, ou foi como a "Mãezinha Querida"?
GETÚLIO: De verdade. Ele foi um grande letrista. Uma das grandes perdas que eu tive na minha vida. Mas voltando ao assunto da minha primeira música gravada: veio segunda-feira e aí eu fui pra Rádio Nacional, já de paletó e gravata, sendo homenageado. Todo o clima mostrava que eu tinha feito sucesso: o Galhardo me chamou pra ir à RCA Vítor pra assinar contrato. Aí eu tive outro arrepio. Assinar contrato com a minha primeira música? E então, eu fui pra gravadora de carro, com ar refrigerado e tal. Subimos pro andar do departamento artístico. O hoje saudoso Vitório Lattari foi logo dizendo:
- Getúlio, você não pode imaginar o que aconteceu. Há milhares de pedidos dessa música...
Lou, eu vi logo dinheiro, porque eu tava numa pindaíba que fazia gosto! Mas ele falou - Este ano não dá, nós vamos guardar pra gravar no ano que vem... Eu na pindaíba, você sabe o que é isso, né? Matando cachorro a grito.
- Só pro ano que vem? Então, tá bem... Resultado: esperei um ano. Quando foi em 1953 eu lancei . Estourou em todas as rádios. Essa música, contando tudo, o LP de 78 rotações, em 50 anos já vendeu cerca de 10 milhões de discos. Só a última gravação dela, feita com Agnaldo Timóteo e Ângela Maria, vendeu dois milhões e seiscentos mil CDs. E essa música vende até hoje.

Eu sou um dos autores, tenho a honra de te dizer que mais discos vendi no Brasil. Todas as músicas.... Ângela Maria, por exemplo, tem dois grandes sucessos meus cantados por ela.

LOU: Foi assim você saiu da pindaíba.
GETÚLIO: Depois que eu recebi dinheiro, comprei 6 ternos de uma vez, me mudei pra Praia do Flamengo! Foi uma beleza! Pedi logo a Vitória em casamento.
Mas eu queria dizer é o seguinte: se Deus me desse o poder de voltar atrás, que o tempo recuasse, eu voltaria a 1951, uma tarde bonita de sol num domingo, em que eu fui a uma festa no sindicato dos contabilistas, onde eu conheci a Vitória, a minha esposa, eu repetiria tudo de novo.

LOU: Que bonito! Muito lindo isso!
GETÚLIO: Repetiria porque eu não tenho nada que reclamar. Eu tenho cinqüenta e tantos anos de casado com ela. É a companheira que Deus me deu.

A Vitória era filha de um engraxate italiano e de dona Assunta, que falava ainda enrolado, com sotaque. Eu nunca encontrei uma terceira idade com a dignidade daquele pessoal. O velho era um homem digno e a velha também. Moravam na Ladeira do Barroso, na subida que vai pra favela. E eu namorei, noivei....

Ela tinha medo de se aproximar de mim, porque eu era dançarino . E ela conta: “o que ele quer? Ele está vindo na minha direção!” Eu fiz dela par constante, depois fui levá-la perto de casa, porque eu não ia subir àquela hora, 10 horas da noite. E finalmente namoramos e casamos. O homem sozinho sofre muita solidão. Então, ele precisa de uma companheira. Ela nunca me falou em casamento. Ela começou a costurar com 13 anos na Slopper, na Rua do Ouvidor.

Quando a conheci, ela já tinha 20 anos e uma situação invejável. Era costureira da Sloper e o dinheiro que ganhava era guardado na Caixa Econômica. Era econômica.

Então, nós tivemos 3 filhos e 6 netos. Sendo que o neto mais velho, André Luiz Raposo, era um vencedor, um atleta. Mas quis ser policial. Ele fez o CORE, fez a polícia civil, estava no 6º ano de advocacia e foi assassinado no dia de Natal. E você sabe que eu não acreditava que morria gente assassinada no dia de Natal? E foi acontecer logo com a gente.

LOU: E quando foi isso?
GETÚLIO: Foi no natal de 2003. Foi a maior tristeza que eu tive na minha vida. Então eu dedico essa entrevista, em que você vai falar da minha vida, à minha esposa, Maria Vitória Duilio Benício e ao meu saudoso neto André Luiz Raposo. A campanha que a polícia militar fez naquele ano, foi composta pelos heróis que deram a vida pelo povo do Rio de Janeiro. Ele era um dos primeiros da lista. Ele era um herói. Um soldado herói.

LOU: Agora, me explica como é que você fala tão corretamente? Até parece que teve estudo de alto nível. Você conseguiu estudar mais tarde?
GETÚLIO: Sabe onde eu aprendi a ler? No gibi, no Globo. Aprendi sozinho. Eu não tenho o segundo ano primário.

LOU: E a fazer conta? Você aprendeu sozinho também?
GETÚLIO: Também. Adquiri uma cultura de rua. Cultura popular. Eu sempre vi muitos filmes, li grandes revistas, jornais e sempre procurei me informar. Eu tenho TVA e gosto mais de documentários, de programas culturais. E a cada dia, eu fico sabendo mais. Eu conheço a história do mundo todo. Uma vez um amigo do meu filho imigrou pra França e montou lá uma academia de ginástica e veio passear no Rio . E aí, a gente conversando sobre a Europa, ele disse: - Seu Getúlio o senhor já foi à Europa? Conhece aquela zona toda, Paris? Eu falei que não. - O senhor conhece tudo, conhece os rios tudo. Como é que o senhor sabe?

LOU: Mas vamos continuar a falar da sua carreira de sucesso.
GETÚLIO: Eu dei a música "Mambo Caçula" pro “Chiquinho e sua Orquestra”
"O mambo lá em Cuba tem tradição. E todo mundo dança com... gravada pela “Discos Continental”. Vendeu naquela época mais de 600 mil discos e foi sucesso de execução em todo o Brasil. Emilinha também cantava, mas não gravou. Então, nesse meio tempo, veio Ângela Maria e eu dei muitos sucessos pra ela.

LOU: Fala pra gente relembrar.
GETÚLIO: "Ontem, quando eu chorava, tu sorrias, martirizando os meus dias, me recusando o teu amor. Ontem, o teu orgulho exagerado foi o que me fez ficar gelado, como um objeto sem valor". Esse disco vendeu dois milhões de cópias. O primeiro foi este: "Com outra que ele encontrou, pretende agora esquecer o que entre nós se passou, meu amor, meu viver..." Deus nos dá talento. Isso não se aprende na escola, não basta ser tecladista, musicista que não adianta. O que é bom já nasce feito. Tenho a impressão de que Deus me deu o espírito de musicista . E tem outro detalhe: tem música bonita que não faz sucesso. Como esta: "Aonde a Vaca Vai, o Boi Vai Atrás" e o povo gosta. É o povo que consagra. E consagrou este samba que eu gravei com o Altemar Dutra que é assim: "Chuva, venha molhar essa saudade para trazer tranqüilidade para o meu coração. Chuva eu preciso de calma e de esperança em minh'alma..... e ela passa a voltar. Ô chuva, entrega a ela esse recado, que o seu lugar é ao meu lado, deixando a vida passar. Aqueles dias risonhos, voltarão a ser nossos sonhos, venha pra mim desta vez para ficar. Oh! chuva!". Agora, quem me deu tudo isso? Eu aprendi na escola? Não, Deus me deu essa inspiração. A letra e a música são minhas.

Eu sempre fiz temas diferentes: a do cara tímido que tinha medo de declarar amor à mulher . Eu fiz "Covarde, eu sei que sou covarde em não fazer alarde, desse amor que sinto por ti" e assim vai. A letra é do Lourival e foi gravada pelo Cauby e pelo Fernando Barreto. Essa música já vendeu mais de 5 milhões de discos.

Eu tenho um samba, que ninguém tomou conhecimento mas eu adoro que é "Presença Viva do Amor".

LOU: Você não gravou?
GETÚLIO: Não. "Pensei que Deus, o meu bom Deus se esqueceu de mim. E o meu sofrer, por te perder, minha bateria por fim teve que deixar de te querer depois de tanto te amar, ter que fingir, ter que mentir e demonstrar que nada mais senti. Porque eu te dei não acharás com outro que te encontrar. No que eu guardei, sempre estará presença viva do amor. Para nós dois somente a saudade será irmã, será companheira. Assim como eu irás fingir a vida inteira...."

LOU: E música de carnaval?
GETÚLIO: Eu gravei "Palhaço", com a Linda Batista. "Palhaço, você me fez de palhaço pelos caminhos que eu passo, todo mundo ri de mim". Essa música foi um sucesso. Esteve num festival, tirou o segundo lugar em samba, e eu ganhei muito dinheiro com ela. Outra música que eu ganhei dinheiro no carnaval foi: "O que é que você faz com ela? Dá um beijo nela. Dá um beijo nela."

LOU: A Emilinha cantava muita música de carnaval.
GETÚLIO: Emilinha lançou inúmeros sucessos musicais. A Emilinha lançou em 1955: "Quem passar pelo sertão vai ouvir alguém....". Ela foi a primeira cantora a gravar comercialmente uma música tema de Novela: "Jerônimo, O Herói do Sertão". Novela transmitida pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro e, anos mais tarde, foi adaptada pra TV Tupi do Rio de Janeiro. A novela foi líder de audiência na Rádio Nacional. Tinha gente que ia lá pra ver ao vivo. Você não pode imaginar um lugar com 20 mil pessoas, cantando o "Jerônimo".

Como é que um garoto de dois anos, sem educação, sem cultura musical, poderia mais tarde ser um compositor como eu sou? Minhas músicas saem com todos os detalhes e efeitos. Eu vou lhe mostrar "Cigana", que é meu orgulho. É muito bonita, tem solo de violino. Eu vou lhe contar a história: Eu sempre tive uma mágoa pela canção "Cigana", porque ela não fez sucesso. E eu caprichei. Foi num período que eu estava inspirado pra chuchu.

A Dalva de Andrade era a cantora. Uma excelente cantora por sinal. E essa música não estourou, porque a Dalva de Andrade abandonou a carreira e foi embora. Mais tarde, mas muito mais tarde, há pouco tempo, num Centro Espírita, perguntei ao médium que estava com a Cigana baixada:

-"Escuta, você sabe que eu fiz uma canção em sua homenagem e não fez sucesso? Ela falou assim:
-Você não sabe por que não fez sucesso? Eu disse:
- Não. O que eu sei é que a música conta a história de amor de uma pessoa de quem uma cigana leu a mão e essa pessoa acabou sendo infeliz. E o médium disse:
- Acertou tudo: É que toda cigana só sabe mentir...

Eu entrei de gaiato (risos). Uma música linda dessas e ninguém tomou conhecimento. Depois diz que não existe. Existe...

LOU: Fala do disco do Parque Shangai.
GETÚLIO: Eu conheci o Parque Shangai, quando eu morava em São Cristóvão, na Rua São Luís Gonzaga. Você era mocinha naquele tempo. E levava meus filhos lá pra brincar no Parque e tinha um rapaz que eu conheci, que sempre era gentil, me dava tíquetes pra brincar nos brinquedos e eu achei que tinha que retribuir a gentileza dele. Afinal, ele me recebia muito bem. Ele era relações públicas de lá e mais tarde eu vim saber que era o Hamilton Sbarra, filho do dono que você deve ter conhecido bem, né? Rsrsrs. Então eu cheguei perto dele e falei:
- Hamilton eu vou compor um LP com o Carequinha em homenagem ao Parque Shangai.
- Mas como vai ser?
- Você vai fazer os versos. Mas eu não sei fazer. Vai fazer! Eu o obriguei a fazer no peito e na raça, e acabou escrevendo as letras e produzindo o LP "Carequinha no Parque Shangai". É a única produção do mundo! Nem o Walt Disney fez isso: ter uma música pra cada brinquedo, num parque de diversões. Porque não tem mesmo não. Eu sempre tive muito conhecimento do que se passa no mundo inteiro na área musical, principalmente cinema. Então, nós produzimos o "Carequinha no Parque Shangai", que era o maior vendedor de discos daquela época e isso veio atingir você. Porque afinal de contas, em pleno lançamento do LP em São Paulo, eu atrapalhei a lua de mel de vocês, toda hora ligando Hamilton, pra informar em que rádios estava tocando o disco...(risos).

LOU: Fala do Roberto Carlos.
GETÚLIO: Eu ajudei muito o Roberto Carlos no início da carreira. Eu era produtor de televisão. Produzia o programa "Espetáculos Tonelux", que era um programa líder de audiência na Tv Tupi. A estrela era a famosa vedete número um do Brasil, Virgínia Lane. Mais tarde, eu era diretor musical, e programava o Roberto Carlos, que estava iniciando a carreira e me pedia pra programar. – Ô bicho, me programa lá pra ganhar um dinheirinho. Eram 5 mil réis naquela época. E eu programava o Roberto, que é da cidade onde morei. Eu considero o Roberto e o Erasmo a maior dupla de compositores do Brasil, talvez da América Latina.. Eu sou fã de uma música chamada "Emoções". "Quando eu estou aqui e vivo este momento lindo..." Eu danço com a minha mulher essa música.

LOU: Vocês dois têm um casamento maravilhoso, vocês dançam desde que você se conheceram. Você já era dançarino. Foi você que a ensinou a “dança de salão”?
GETÚLIO: Ela aprendeu normalmente. Porque tinha que aprender. Eu não sou dançarino normal. Eu danço fazendo as firulas todas. E só ventania me derruba. Eu considero a dança o maior esporte, a melhor diversão. Foi assim que eu me aproximei da Vitória: dançando.

LOU: E continuam tão próximos.
GETÚLIO: Eu parei um tempo, mas depois reiniciei. Eu disse: - por que não vamos dançar? Aí comecei a freqüentar churrascarias, os clubes. O Clube Municipal, na Haddock Lobo, faz uma tarde dançante todos os domingos, das 15 às 19h. A comida é barata, o restaurante bom. Vai um comercial pro Clube Municipal. Eu parei porque tava com problema no coração. Eu tive um AVC e tive que parar um pouco. Mas quando eu posso, eu danço.

LOU: Você está proibido de fazer esporte?
GETÚLIO: Não é muito esforço naturalmente. O pessoal da terceira bota pra quebrar. Vai num baile da terceira idade pra ver.

LOU: Eu vou sempre, né?
GETÚLIO: Aquelas senhoras não querem saber não. Joga prá lá, pra cá.

LOU: Vocês já fizeram bodas de...?
GETÚLIO: Ouro. Em 1953 , eu me casei com ela. E já temos 52 anos de casados.

LOU: E qual o segredo da felicidade dessa união?
GETÚLIO: Nós todos temos defeitos, nós todos temos falhas . O grande segredo é respeitar o limite de seu parceiro. E não é brigar! É conviver com a situação, adaptar-se ao sistema, porque a vida é essa. Porque se começar a brigar, a quebrar o pau, não se cria a família. E tem outro detalhe: a vida é feita de bons e maus momentos, que você tem que enfrentar. Eu poderia pensar que, depois de cinqüenta e tantos anos, eu iria perder o meu querido neto? Figura que eu mais amava? Eu poderia imaginar que dia de Natal é dia de matar alguém? Comigo aconteceu essa tragédia e isso tá no meu coração, essa mágoa incrível. Eu tenho lágrimas nos olhos. Lá em casa, quando ouço uma música bonita, me lembro dele, tem fotografia dele na sala, quando era pequenininho... Era o meu primeiro neto, filho da minha filha.

LOU: Mas você deve pensar também que ele agora está num outro mundo e que a vida continua pra ele. E ele está muito feliz de você estar aqui, empolgado, falando dos seus sucessos. E ele vai ficar mais feliz se você parar de chorar por ele.

Você tem que festejar a vida, porque você é um vitorioso. Quantos anos você tem?
GETÚLIO: Eu tenho 77 anos.

LOU: 77 anos , com esse vigor e ainda superando tantas dificuldades, batalhando na sua carreira. Ele lá de cima está aplaudindo você.
GETÚLIO: Uma vez a minha senhora me disse: - Getúlio, o Kalil nunca levou a Zizilda num cinema e nunca saiu pra jantar com ela. O quê? Casado há dez anos e nunca levou a mulher a um restaurante?

LOU: Quem é Kalil?
GETÚLIO: É um parente da Vitória. Aí , eu escrevi "Mulher Governanta" – cantando – Amigo, como você está errado. Deixando sempre de lado sua fiel companheira. Não queira você comparar a mulher do seu lar com a mulher arruaceira. Amigo, se o meu conselho adianta. Ela é a sua esposa, não é a sua governanta." Muito bem! Vendeu milhões de discos com o Silvinho, esse tema que defende as mulheres de casa". Aliás a dona-de-casa não recebe diploma nem aposentadoria, né?

Aí a Elza Soares, que tinha começado a sair com o Garrincha, chegou da copa do mundo, e veio reclamar comigo:

- Você focalizou a minha vida com o Garrincha no samba "Mulher Governanta". Você mexeu comigo!
- Eu mexi com você, Elza? Você acha que eu ia fazer isso com você? Eu tenho amizade pelo Garrincha, gosto de vocês. Não é nada disso. Essa música foi feita em homenagem à prima da minha esposa; o marido tratava ela como se fosse empregada. Então, eu fiz em homenagem à dona-de-casa! A mulher dona-de-casa é tudo, é companheira, amante, tudo. É preciso valorizar o trabalho dela.

Eu queria deixar gravado os grandes sucessos da minha carreira: Primeiro, "Mãezinha Querida", com Carlos Galhardo, Ângela Maria, Agnaldo Timóteo, que gravei em 53 e até hoje já se vendeu, no Brasil, 10 milhões de discos. Muito bem . Depois veio o "Mambo Caçula", com Chiquinho e sua Orquestra e Hebe Camargo. A Hebe regravou "Mambo Caçula" e vendeu 1 milhão de discos naquela época. Depois veio Ângela Maria com "Intenção", 500 mil discos. Ângela Maria com "Ontem e Hoje", 1 milhão de discos. O Silvinho, com "Mulher Governanta", dois milhões discos.

LOU: Muito obrigada pela sua entrevista.
GETÚLIO: Eu queria que você ouvisse sobre o negócio do Apolinho. Será uma pena se você não puder ouvir.

LOU: Claro que posso!
GETÚLIO: É que o Apolinho faz o papel do Robertão, na Rádio .... Eu cheguei perto do Apolinho e falei: - Eu gostaria de mostrar pra você uma música , pra você botar o Robertão pra cantar no "Dia dos Pais".
- Mas como? O Robertão cantando?
- É. Aí mostrei a música pra ele. Ele aprovou logo. Aí eu produzi uma gravação do Robertão, cantando o "Dia do Papai" e "Gatinha", que são minhas últimas composições.

LOU: Eu posso botar isso no meu site?
GETÚLIO: Pode. Eu lancei com o Robertão , cantando "Meu Papai", em homenagem ao Dia dos Pais, e "Gatinha". E foi um tremendo sucesso . E o Robertão recebeu pilhas e mais pilhas de pedidos de discos. Mas não houve tempo de produzir. Neste ano eu vou recomeçar a produzir. Talvez faça uma produção do Robertão, cantando as minhas músicas, e talvez eu inclua os maiores sucessos do Apolinho, um grande rubro negro. Nós somos da “Falange Rubro Negra”, amigos há 45 anos. E essa idéia do Robertão cantar as músicas do parque de diversões, já foi aprovada. Eu cantei e ele gostou muito e vamos fazer isso.

LOU: Getúlio, a sua vida sempre foi de muita luta. Um menino pobre, sem estudo, que chegou onde você chegou, com tantas músicas de sucesso, e ainda hoje, com 77 anos, está aí, cheio de vigor, lutando pelo ideal de voltar a gravar...
GETÚLIO: A pessoa tem que correr atrás. Não pode nem olhar pra trás. Vamos em frente que atrás vem gente; se descuidar, o bicho pega. É só isso.

LOU: Parabéns! Muito obrigada pela lição!

Autor(a): Lou Micaldas

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA