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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

GOULART DE ANDRADE
publicado em: 21/01/2016 por: Netty Macedo

“Vem comigo”. Mais do que uma instrução óbvia de um repórter ao seu cinegrafista, a frase virou um jargão que carrega consigo um dos estilos de reportagem mais copiado da TV. Esse repórter, ou contador de histórias, vestiu inúmeras vezes “a pele do lobo” e, em vez da imparcialidade e distanciamento dos temas, optou pela imersão e entrega ao assunto, submetendo-se ao que sua pauta – ou ausência dela – propunha.

Aos 79 anos de idade, Goulart de Andrade, eterno dono do Comando da Madrugada segue ativo na televisão, agora com o Vem Comigo, da TV Gazeta (exibido segundas às 23h30).

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Depois de visitar a redação do Terra, o lendário jornalista deu uma carona para nossa reportagem até a TV Gazeta, na Avenida Paulista, onde ele gravaria mais uma edição de seu novo programa. Após uma hora de trânsito e muitas lembranças pessoais que se confundem com a própria história da televisão brasileira, Goulart de Andrade falou sobre seu novo projeto, a parceria com Boni na TV Globo, o início de carreira e sua paixão pela reportagem.

O repórter que já se vestiu de palhaço, filmou sua própria cirurgia, auxiliou no parto de seu neto em frente às câmeras e chegou a se vestir de travesti na madrugada paulistana, esteve inúmeras vezes por baixo da “pele do lobo”, mas nunca abandona a pele de jornalista. Curioso por natureza, Goulart de Andrade não resiste ao ser questionado por tantas vezes pela reportagem.

Retruca, pergunta, provoca, questiona e se confunde entre papel de entrevistado e entrevistador. “Mas o que você faz no Terra? Em qual área? A redação é 24h?”. Essa ambição e anseio por tantos materiais exclusivos também lhe trouxeram críticas e levantaram polêmicas. Em 1996, após o assassinato de PC Farias, Goulart de Andrade exibiu cenas da necrópsia do tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello. As fortes imagens levantaram o questionamento sobre os limites da TV. O repórter rebate: "Eu fui lá mostrar como era uma necrópsia. Sabe como é necrópsia? "Já ouvi falar". Já viu uma? "Não". Então vai ver agora porque eu vou te mostrar. "Ah, era o PC Farias. Como você entrou com a câmera lá?". Entrei com a câmera não. Dei um jeito para botar uma câmera lá dentro e me reservei ao direito de defender os técnicos que estavam lá dentro. Eu não podia estar junto com câmeras. O cinegrafista do IML me deu e eu botei no ar. Depois fui lá e mostrei como funciona o Instituto Médico Legal". 

Já nos estúdios da TV Gazeta, Goulart de Andrade caminha e cumprimenta a todos os olhares que cruza. Sua simpatia característica que o levou a reunir 15 mil horas de entrevistas se repete com taxistas, recepcionistas e estudantes. Qualquer indivíduo se torna assunto. Em apenas três andares, o ascensorista da emissora já responde duas ou três perguntas. Uma breve piada e uma brincadeira ao compará-lo com um jogador de futebol e pronto. A empatia instantânea está feita. Em poucos segundos, Goulart quebra qualquer barreira com seus personagens, e se pudesse, certamente voltaria ali com uma câmera para tirar alguma história curiosa daquele funcionário.

Em frente às câmeras, gravando o Vem Comigo, age com a naturalidade e conversa com o telespectador como um velho conhecido. Após o anúncio de “gravando” não existe dificuldade, não existe titubeio e tampouco roteiro. O que há é simplicidade no discurso e naturalidade no improviso de encarar a câmera, algo espontâneo para alguém com este ofício há quase 60 anos.

Terra – Com foi o primeiro programa? O que vê na nova geração de jornalistas?
Goulart de Andrade – Vejo muito interesse e alguma ingenuidade, o que é natural.

Terra – Ingenuidade pode ser boa também, não?
Goulart de Andrade – É ótimo. Representa a falta de engessamento. Sou um profissional muito liberal em relação à maneira de se fazer as coisas. É o olhar e sensibilidade deles em cima daquela matéria. Eu não dou aula. Não sou professor. O que dou a eles é o exemplo do que fiz e espero. Fico esperando eles trazerem de volta. No primeiro programa já trouxeram algo bem sucedido. Ainda são iniciantes, mas isso vai dar samba.  À medida que isso vai sendo exibido na TV, isso entra em um processo de amadurecimento cada vez maior.

Terra – É uma oportunidade de extinguir os vícios que jornalistas criam ao trabalhar com rotina.
Goulart de Andrade – Exatamente. Eles olharam meu plano-sequência e tentaram imitar. Achei muito interessante porque havia certa ingenuidade do cameraman. Ninguém se compara ao *Capeta.

*Capeta foi cinegrafista de Goulart de Andrade durante muitos anos. O jornalista brinca ao lembrar que o cameraman “morreu de 801”, soma entre 750 (moto de 750cc que possuía) e 51 (lembrando a marcada da cachaça brasileira).

Terra – Como funciona o instinto do cinegrafista nessa hora?
Goulart de Andrade - O cameraman tem que ter o olhar do repórter também. Foi aí que nasceu o repórter cinematográfico. Hoje é um título que tem nas redações. Antes era o cameraman, agora é o repórter cinematográfico. É a valorização do olhar do repórter e não do técnico que só aperta o botão.

Terra – Quando começou a pensar no jornalismo como ofício?
Goulart de Andrade – Sou filho de uma cantora de rádio que é filha de uma grande jornalista. Minha avó teria hoje uns 110 anos. Ela foi responsável pelo “O Jornal”, uma publicação do Assis Chateaubriand, no Rio de Janeiro. Eu convivi não só com teatro, arte e rádio, convivi desde criança com esse mundo. Minha vó era minha tutora porque meus pais se separaram. Eu ia ao hotel em que ela morava na Rua do Catete em frente ao Palácio do Catete. Me lembro que no dia que o Getúlio (Vargas) se suicidou, eu fui lá. Porque eu queria ver. E não deixaram. Falei para ela: “não me deixaram entrar lá”. Ela respondeu: “mas isso tem um lado bom. Percebo em você uma veia jornalística. Curiosidade faz parte do repórter”. Nasceu dentro de mim uma ideia: “será que posso mesmo ser isso?”. Alguns anos depois eu morava em Copacabana e escrevi uma crônica para o jornal “Beira-Mar”. Era um jornal só de Copacabana. E levei para ela ver o jornal impresso. Ela se emocionou e me falou a mesma coisa que falei ao meu neto quando eu fiz a cesariana dele (em uma de suas matérias, Goulart de Andrade acompanhou o parto de seu próprio neto): “tenho continuidade”. Foi assim que nasci como repórter.

Terra – Depois dessa publicação, como foi para entrar nesse mundo?
Goulart de Andrade – Fiz minha primeira incursão em cinema. Era sócio do Joaquim Pedro de Andrade, cineasta famoso. Nós fizemos um documentário sobre a construção de Brasília em seus últimos anos. Foi meu primeiro impulso na arte do jornalismo filmado, como documento. Voltei ao Rio e o Fernando Barbosa Lima, que era um jornalista importante na época, tinha um programa na TV Tupi que chamava “Preto no Branco” e me chamou: “quer fazer parte da equipe?”. Disse: “quero”. Comecei minha carreira sendo assistente de direção de um programa entre as maiores audiências do País. Já tive sorte no começo.

Terra – Tem que ter sorte.
Goulart de Andrade – Goleiro e repórter têm que ter sorte. O que você faz no Terra?

Terra – Sou editor-assistente.
Goulart de Andrade – Em qual área? A redação é 24h?

Terra – Sim. Meu foco maior é Música, mas eu pedi para fazer essa entrevista. Por sinal, preciso lembra-lo que você é o entrevistado.
Goulart de Andrade – Vamos lá. (risos)

Terra - E a TV? Como se imaginava trabalhando do lado de lá da câmera.
Goulart de Andrade – Eu já namorava a ideia. Eu precisava fazer algo em um veículo de imagem e som. Eu já fazia cinema. Quando surgiu a televisão, eu percebi que aquela era meu veículo. Mas eu tinha que entrar e não conseguia.  Andava o tempo todo com os meus roteiros debaixo do braço Tinham três emissoras só. Até que o Fernando me deu essa oportunidade. Aí não parei nunca mais. Depois do Preto no Branco, dirigi o Noite de Gala, depois fui para a TV Continental lá no Rio de Janeiro ainda. Depois fiz um programa ousadíssimo. Eu ia às embaixadas, entrava na cinemateca e via os documentários que tinham e escolhia um. Lembro que o primeiro foi da Holanda, que tinha um documentário chamado O Mar Já Não Era, sobre a saída deles para o mar. O que eu fazia? Assistia ao vídeo exaustivamente, pegava todo o texto dele, levava o documentário para a televisão com um sonoplasta, um locutor e botava o texto para ele narrar. Fazia uma trilha sonora e locução ao vivo daquele material que geralmente saia daquele acervo com um ranço. Fiz isso em 1960. Chamava-se Europa 60. Fazia isso no Rio ao vivo, não tinha videotape na época. Não contente, eu pegava um trem que saía do Rio de noite e chegava em São Paulo de manhã e repetia tudo isso na Record. Me descobriram aqui também e deram um programa para dirigir chamado Três Leões Apresentam um Cartaz. Nada mais que uma entrevista com um artista célebre. Depois me deram o Fantástico da época para dirigir, que era o programa de domingo das 19h da TV Tupi. Chamava Grandes Atrações Pirelli.

Terra – Depois disso assumiu atrações na Globo?
Goulart de Andrade – Entrei para fazer o Globo Repórter, Fantástico e fiz isso durante muito tempo. Aí fui entrevistar o cardiologista Euryclídes de Jesus Zerbini e tive um problema na frente dele. Ele me pediu para fazer uma cinecoronariografia e eu perguntei: “topa deixar eu gravar?”. “Topo”, respondeu. Gravei não só o exame, mas também a minha cirurgia. Fiz o Globo Repórter sobre o coração em cima da minha operação de ponte de safena.

Terra – O Comando da Madrugada surgiu pouco depois disso?
Goulart de Andrade –
Fiz o Comando da Madrugada baseado em um programa de rádio que eu tinha. Depois da cirurgia eu não queria mais o estresse do Globo Repórter. Era muito pesado. Ansiedade. Horários. Prazos. Isso me castigava. Operei o coração por causa disso. Aí falei com o Boni.

Terra – Como mostrou a ideia?
Goulart de Andrade – Falei com o Boni. Ele queria que eu voltasse para o Globo Repórter, mas eu disse “não, não volto”. “Se quiser eu faço um programa aí. Mostro São Paulo de madrugada. Mostro como essa cidade vive de madrugada”, eu disse. Ele topou. Entre os filmes de sexta para sábado e de sábado para o domingo eu enfiava uma matéria minha nos intervalos. Mas as matérias iam crescendo. O cara parava o filme para um intervalo comercial e era eu que entrava com uma matéria de 15 minutos. Aí tiraram o filme e me deixaram sozinho. Foi assim que o Comando da Madrugada  durou 32 anos. Passei por todas as emissoras e fui modificando.

Terra – E depois do ‘Comando’?
Goulart de Andrade – Parei o Comando na Bandeirantes. Fui para o SBT fazer o SBT Repórter, que eu tinha inventado. Onde eu passei eu coloquei um “Globo Repórter” de pé lá: Repórter Record, SBT Repórter... Agora me chamaram para fazer o Vem Comigo – Linha do Tempo, na TV Gazeta. São sempre quatro jovens estudantes de Jornalismo que montam um grupo e fazem essa equipe. Cada tema de alguma reportagem minha vai para esse grupo. Eu mostro para eles a matéria, conversamos e na semana seguinte eles mostram para mim o que fizeram. Cada tema tem duas semanas.

Terra – Como foi trabalhar com o Boni e quebrar formatos dentro da Globo?
Goulart de Andrade – Ele foi muito leal comigo e muito generoso. O Armando Nogueira, que era diretor de Jornalismo, queria que eu fosse para o Departamento de Jornalismo porque ele queria me engessar. Aí o Boni me ligou e me disse isso: “nós vamos fazer um jogo duplo. De vez em quando eu ligo pra você com o Armando do lado e vou te dar uma bronca”. E não teve outra. Segunda-feira ele ligava para mim e falava: “você está louco? Quebrou o padrão da Globo novamente. Que história é essa?”. E eu dizia do lado de cá da linha: “o homem está aí do seu lado né? Então pode xingar à vontade”.  Dois anos assim. Depois ele não aguentou mais a pressão do Armando e eu falei em parar. “Está ruim para você e desgastante pra mim. Me dá as fitas que estão aí, meu acervo, e eu vou embora para Gazeta. Para não incomodar indo para um concorrente, vou para o último lugar de audiência”, eu disse na época. Estreei na Gazeta e ganhei da Globo (risos). Ele me ligou e disse: “seu filho da p***. Você deu mais Ibope que a Globo”. “Tenho talento, Boni”, respondi. (risos)

Terra – E você acompanha programa de TV atuais?
Goulart de Andrade – Não. De vez em quando eu vejo a Regina Casé, num revival também. Eu acho ela sensacional. Ela é quase minha sobrinha. Fui muito amigo do pai dela, o Geraldo. Vejo alguma coisa do que o Caco Barcellos faz também.

Terra – Sobre o Profissão Repórter e programas similares, como A Liga, da banda Bandeirantes, você enxerga um pouco de sua influência em reportagens que trazem matérias onde os repórteres se envolvem com o tema apresentado?
Goulart de Andrade – Não é cópia, é um estilo que brotou através de mim. Não critico e nada, é só uma influência. O que eu criei é o plano-sequência, que nada mais é ter um olhar instantâneo sobre o que está vendo. Em vez de ficar picotando, fazer off e depois levar pra edição. Dá um trabalho desgraçado. Faz aquilo tudo na rua. Você está conversando com os caras.

Terra – O seu plano-sequência em reportagens surgiu por necessidade ou instinto?
Goulart de Andrade – Tive influência de grandes cineastas, como Akira Kurosawa, que fez um plano-sequência fantástico em Os Sete Samurais, Luiz Buñuel, Alfred Hitchcock, Orson Welles também, que tem em Cidadão Kane. Por outro lado, eu só tinha equipamento livre 1h30 da manhã, quando voltava a última câmera do jornalismo da Globo. Entregavam pro Capeta e íamos para a rua. Como sabiam que eu sou fértil e iria entregar bastante material, eu não queria dar trabalho para a edição. O mais próximo que eu pudesse fazer para levar editado já da rua eu levava. Esse é o plano-sequência.

Terra - E como funcionavam essas saídas no meio da madrugada? Como era sair sem pauta?
Goulart de Andrade – Você tem que saber tirar leite de pedra. Você tem um olho eletrônico – a câmera -, ouvidos eletrônicos – o microfone -  e saio olhando e ouvindo. O que? Qualquer coisa. Qualquer coisa é notícia. Eu fiz uma matéria sobre um parafuso. Peguei um parafuso, mostrei ele direitinho como ele era, depois fui em uma fábrica de parafuso, mostrei como ele era feito e fiz uma matéria. Esse moço que tá dirigindo o carro é uma reportagem. Pra mim. Saber como ele vive e como é a vida dele. Esse é o meu feitio de fazer reportagens.

Terra – Lembra de alguma reportagem que surgiu assim?
Goulart de Andrade – O primeiro dia que a gente saiu com a câmera, um olhou pro outro com aquela cara: “onde nós vamos 1h30?”. Aí passou um carro do IML e fomos seguindo os caras. Não deu outra. Uma grande matéria. O cara tinha morrido sozinho no apartamento. Solitário. Entramos lá e tinha um pratinho de macarrão em cima da cama, ele caído. No canto uma vitrola...você sabe o que é uma vitrola não é? Rodando um disco da Elis Regina. Eu adivinhei a história desse cara. Contei a história de um cara que estava ali: “olha, era um cara sozinho, que estava comendo, ouvindo Elis Regina. Que bom gosto”. Essa foi a primeira matéria. Eu precisava de pauta pra isso?  Quem iria me dar essa pauta? Ninguém.

Terra – O plano era não ter um plano.
Goulart de Andrade – E agora? Onde vamos?  Vamos em um jornal. O que funciona na madrugada? Essa era nossa percepção. Jornal funciona, boate funciona, restaurantes funcionam, a rua funciona. A rua por si só já conta uma história.

Terra – Qual é o papel da expectativa na hora de ir atrás de uma história. Você prefere ir formando uma ideia na cabeça ou prefere ser surpreendido?
Goulart de Andrade – Eu prefiro ser surpreendido. Eu sou um contador de história. Minha tendência é ser surpreendido sempre. Por exemplo. Estava na porta da casa de detenção quando fizeram a demolição. Bem no meio da rua. Aí vem vindo um cara com um carrinho desses de catar papelão. Ele passou perto de mim e olhei que o carrinho estava cheio de telas e pinturas. Perguntei: “onde você achou isso?”. “Achei nada. Eu que pinto”, respondeu. Bati um papo com ele. Fiquei sabendo que ele estava morando com uma mulher da classe média alta que largou tudo para ficar com ele na rua. Ele falava da “princesa” e eu perguntei onde estava a “princesa”. Ele explicou que ela estava no bar fazendo xixi, que era onde eles paravam para fazer suas necessidades. E aí vem ela, com suas feições finas, e eu perguntei: “você largou tudo para morar na rua com ele?”. E ela disse: “é. Ele é meu amor”. Quer história melhor que essa? Como você vai sair da redação com uma pauta dessas? Não tem como adivinhar isso.

Terra – O seu acervo é absurdamente grande. Consegue escolher uma matéria como preferida?
Goulart de Andrade – Isso é impossível. São 15 mil horas. A minha dedicação é idêntica. Eu não saberia. É minha vida isso aí. Eu nunca tirei férias. Cada lugar que eu ia levava uma câmera.

Terra – Nunca pensou em fazer uma pausa?
Goulart de Andrade – Eu fiquei um pouco abalado porque fiquei parado depois que saí do SBT. Fiquei uns três meses antes de ir para a Gazeta. Eu não sabia o que fazer. Eu ia para a cozinha, porque cozinho todos os dias, e ficava doze ou catorze horas lá. Eu queria voltar a trabalhar naquilo que é meu ofício.

Terra – Você falou anteriormente sobre expectativa de ir a uma pauta, que gosta de ser surpreendido. Para o repórter, qual é a importância do receio, de ser ter medo?
Goulart de Andrade – Depende muito do material. Por exemplo, fui mergulhar com uma baleia franca com o c* na mão. O bicho é do tamanho desse auditório (da TV Gazeta). Eu mergulhei junto, e cada rabada que elas davam me deixavam com mais medo. Mas, naquele momento, era menos importante eu ter medo do que fazer a matéria. Quando você entra em um jogo desses, você se entrega mesmo. Não chega a ser suicídio, mas é uma coisa parecida com abnegação. Você tem que fazer aquilo lá. E vai. Assim que é comigo. Outra vez, por exemplo, eu fiz um treinamento com os bombeiros na Avenida Paulista. Eu tinha que passar de um prédio de um lado da avenida para o outro lado. Mas você olhava para baixo e a rua estava cheia de gente. Eles estavam querendo me ver atravessar? Não! Eles queriam me ver cair. O exercício da tragédia é maior que a cultura do aplauso. Outro caso foi na Ilha das Cobras que andei com mato na cintura em um lugar onde tem o maior número de jararacas. Eu no escuro. Não me deram botas. Você tem "medos". Para cada coisa você tem uma intenção de medo diferente. O que vence esse medo é o ofício. Tenho que mostrar isso aí. Eu escolhi isso.

Terra - Você já recebeu algumas críticas por "extrapolar" em algumas matérias, como foi o caso da exibição da necrópsia do PC Farias. Como as críticas chegavam em você? Alguma chegou a te deixar abatido?
Goulart de Andrade - Nunca. Eu saio com a consciência de que eu estou fazendo eticamente aquela coisa. Eu posso não estar coincidindo com a interpretação e o olhar de outras pessoas. Mas isso vale para tudo. Vale pro futebol, para o padeiro da padaria que faz a broa diferente do outro. E sou assim, me comporto assim e acho que não estou desviando de nada. Nunca chegou a mim alguma crítica dessa natureza. O negócio do PC Farias. Eu fui lá mostrar como era uma necrópsia. Sabe como é necrópsia? "Já ouvi falar". Já viu uma? "Não". Então vai ver agora porque eu vou te mostrar. "Ah, era o PC Farias. Como você entrou com a câmera lá?". Entrei com a câmera não. Dei um jeito para botar uma câmera lá dentro e me reservei ao direito de defender os técnicos que estavam lá dentro. Eu não podia estar junto com câmeras. O cinegrafista do IML me deu e eu botei no ar. Depois fui lá e mostrei como funciona o Instituto Médico Legal. 

Terra - Chegaram a dizer que você foi longe demais?
Goulart de Andrade - Nunca disseram. As pessoas não tinham coragem. Eu não vou longe demais. Eu faço muita coisa, mas não vou longe demais, na minha interpretação. Eu sou honesto. Não sou hipócrita.

Fonte: Site Terra

 

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