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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

IRMA PASTORINI NÓRO
publicado em: 21/01/2016 por: Netty Macedo

 
"Mas eu há muito tempo queria fazer alguma coisa diferente assim que me aposentasse. A primeira coisa que fiz foi ler pra cego. Olha, eu ajudei um cego a fazer prova de história. Passou."

Matéria publicada em 2/10/2004

Aos noventa anos, ela começou a aprender a usar o computador e começou a escrever seu livro de memórias. Essa mulher vibrante, que viveu intensamente muitas tristezas e alegrias, nasceu na Suíça e veio pro Brasil com quatro anos. Com sua maneira jovial de falar ela nos ensina como chegar aos 93 anos, cheia de entusiasmo e de planos.

LOU: Qual o seu nome todo e onde você nasceu?
IRMA: Irma Pastorini Nóro Pastorini do meu pai e Nóro do meu marido. Eu nasci na Suíça, em 6 de setembro de 1911, por acaso, pois a mamãe não esperava mais filhos com 46 anos de idade, mas teve a felicidade de ter uma menina que era o que ela sonhava. Desde que se casou, ela só teve filhos homens.

LOU: Ela era suíça?
IRMA: Não, ela era italiana. Meus pais eram italianos de Veneza.
Eu nasci na Suíça, porque meu pai era nômade. Era uma coisa! Ele fazia assim: ia na frente e a mamãe é que ia com o bando todo atrás. Eles nasceram em Veneza, na cidade de Santa Maria de Sala, e lá tiveram 4 filhos, sendo que dois morreram pequenos. Primeiro, tiveram 4; depois, nasceram mais dois. E aí, como a situação lá era difícil e eles viviam numa fazenda enorme, eu acredito até que este nome Pastorini tenha vindo de pastores, porque eles tinham bois e carneiros. Só entre filhos e pais, que seriam meus avós, eram 40 pessoas que viviam naquela fazenda.

LOU: Por que eles vieram pro Brasil?
IRMA: A situação não ficou muito boa na Itália, já em crise, pouco antes de começar a guerra de 14. Assim, eles resolveram vir pra América, porque naquele tempo todas as pessoas que nasceram no exterior queriam vir fazer a vida na América. Vieram num navio, viajando 28 dias, só com dois filhos, e quando chegaram no Rio, foram pra Minas Gerais, pra uma fazenda em Leopoldina. Mas o papai não trabalhava na lavoura; ele era barbeiro. Então, ele vivia nas fazendas cortando cabelo, e a mamãe é quem ficava na casa que lhe deram. Não tinha muito conforto, só os livrava das intempéries. Mamãe achava tudo horrível, não conhecia a língua, os costumes, nem certos alimentos.

SUSTO COM UM NEGRO

Numa tarde, enquanto dois dos meninos estavam brincando do lado de fora, minha mãe chegou na janela e viu um negro, do qual só se via o branco dos olhos e dos dentes. Ela nunca tinha visto um negro. Levou o maior susto, deu o maior grito e botou as duas crianças pra dentro, fechou a porta, a janela, apavorada e o negro dizia assim: - Dona, eu não sou bicho, eu sou gente! E ela não entendia e ficou o dia inteiro lá, nervosa, e os meninos também.

Quando meu pai chegou e já estava conseguindo falar um pouco o português, explicou que, de onde eles vieram não existia negro, e ela nunca havia visto um e era natural que se assustasse com isso. Acabou que ele ficou muito amigo das crianças e cortava lenha pro fogão da mamãe. Esse foi o primeiro susto.

LOU: Você ainda não tinha nascido.
IRMA: Não.

LOU: Mas vamos conversar da sua vida.
IRMA: Meu pai não podia dar assistência à família, pois vivia andando pelas fazendas, cortando cabelos e muitas vezes nem voltava pra dormir em casa e com isso mamãe se sentia muito só. Já estavam com mais 4 filhos que haviam nascido aqui e ela ficava desesperada com a responsabilidade de cuidar de todos. Então, como papai não conseguia se fixar noutro trabalho, eles resolveram voltar para a Itália. Quando chegaram lá na cidade deles, Veneza, a situação era a mesma: muito difícil de viver, muito caro. Disseram que na Suíça era melhor e eles foram pra Suíça.

E foi lá, quando meu irmão mais novo já tinha 4 anos e minha mãe não esperava mais, estava com 46 anos, dez filhos, que ela se deu conta de que estava grávida e nove meses depois eu nasci. E ela me contava que foi a maior alegria na vida dela, quando ela soube na realidade que eu era uma menina! Desde solteira ela já tinha o meu nome escolhido e guardado...

LOU: Como foi a vida na Suíça?
IRMA: A vida social lá era muito adiantada. Quando eles chegaram, veio uma pessoa do distrito para onde eles foram e os encaminhou para o trabalho, os mais novos pra escola, e a mamãe foi trabalhar numa fábrica de tecidos. E eu ficava com uma alemã, que me pegava de manhã e deixava à tarde. Eu já tinha uns três anos e disse pra mamãe que eu não entendia nada do que a alemã falava, e minha mãe ficava triste. E ela dizia: - Eu não vou ficar aqui, eu não vou criar minha filha aqui porque eu não entendo essa língua. É horrível. Só me falam frau Pastorini. Frau é senhora. Então, ela disse que não queria.

O meu irmão mais velho já tinha se casado com uma italiana e já tinha uma filha da minha idade. Eu fui tia com dois meses de idade, porque ele era mais velho 25 anos que eu. E quando papai e a mamãe resolveram voltar pro Brasil, ele queria vir junto. Mas o dinheiro não dava pra comprar as passagens pra todo mundo. E a mamãe disse: - Você fica aí, que assim que eu tiver condições, eu mando o dinheiro e você vai ter conosco. E voltou para o Brasil. Nós chegamos aqui em 1914 e eu tinha 3 anos pra 4. Foi quando se instalou a Primeira Grande Guerra. E aquilo foi uma coisa. Mamãe, coitada, vivia muito nervosa, arrependida de não ter trazido o filho porque ele foi regimentado pela Itália pra combater. Lá ele foi ferido diversas vezes. Quando chegamos aqui fomos pra Cascatinha, Petrópolis, porque tinha boas fábricas de tecidos e a mamãe e os irmãos também foram trabalhar e o papai montou uma barbearia. Ele foi barbeiro do Mussolini, antes de rebentar a guerra. E assim começou a vida da gente. Fui crescendo. Aos 7 anos fui alfabetizada. Naquele tempo, só aos 7 anos se freqüentava escola. Hoje é que tem Jardim de Infância. Ia pra escola, junto com meu irmão de 11 anos, e eu era goleira dele, jogava futebol com ele, com os amigos dele, e daí eu fiquei mocinha, fui pro Colégio Normal.

LOU: Lá em Petrópolis?
IRMA: É. Eu ia de bonde até determinada parte e o motorneiro, eu lembro dele até hoje, era um italiano, o Gallardi. Ele esperava todo mundo, era muito bom, cuidava das crianças e o bonde era como os trens de hoje, que têm aquele corredor no meio e bancos de um lado e do outro. E aí, fui pro Santa Isabel, estudei lá, depois saí, fiz um outro curso e conheci um rapaz, que foi meu primeiro namoradinho. Ele era mais velho que eu e estudava no colégio onde hoje é o Museu de Petrópolis, o Colégio São Vicente de Paula. Mas nós nem podíamos sentar perto de um rapaz. Então, ele sentava na frente, virava pra trás e foi um namorinho gostoso. Ele terminou, os pais mandaram ele pros EUA.

LOU: E qual era o nome dele?
IRMA: Heitel. Era filho de alemães e eu nunca recebi uma cartinha dele. Depois eu descobri que ele mandava as cartas pra mãe dele e ela não mandava pra mim.

LOU: Que sogrinha, hein? Livrou-se de boa!
IRMA: Livrei-me de boa. E daí, quando eu fiz 16 anos, conheci o rapaz que seria meu marido: José Augusto Nóro. Foi muito interessante, meu Deus do Céu! Você sabe que eu namorava no portão de casa e o meu irmão mais velho, o Virgílio, que estava viajando, chegou e eu o apresentei a ele.

Mas ele foi lá pra dentro e reclamou com a mamãe. Ele falou que ninguém tinha juízo... Como podiam deixar uma menina namorar no portão, se eles nem conheciam o rapaz... Sabem quem é? Pode ser até casado, ele tinha 7 anos mais que eu. Aí ele disse que nem o papai tinha juízo, nem os irmãos, que eles não tomavam conta de mim. Aí, quando eu entrei, a mamãe me contou. Quando o José Augusto chegou à noite, eu disse pra ele: - Olha, meu irmão chegou de fora, aquele que eu apresentei a você, e ele acha que eu sou muito criança pra namorar. E tem uma coisa: se os outros aderirem nós vamos fugir.

LOU: Ah, que lindo! Como você era impulsiva!
IRMA: Porque era hábito lá, quando os namoros eram contrariados, o casal fugir e casar logo, no dia seguinte.
Ele muito sério, pegou na minha mão e disse: -Meu amor, quero ver-te na capela, ao meu lado, muito bela. Nós não vamos fazer isso. Depois, ele ficou queridíssimo dos meus irmãos. Era muito bom com a mamãe. Nós fomos para um sítio que o papai arrendou, perto de Três Rios, e ele só ia aos sábados e voltava domingo. Eu já estava noiva. Então, vinha num cavalo e trazia outro pela rédea pra ele. E aí, a gente parava no meio do caminho pros amassos, que faziam parte. A saudade era tão grande que quase nos sufocávamos com os nossos beijos. E no domingo eu o trazia de volta. E voltava sempre chorando, aquele negócio todo. Até que ele disse que nós íamos nos casar, não íamos continuar naquela vida. Eu ia fazer 18 anos no dia 6 de setembro e ele pediu ao papai pra tratar dos papéis pra nos casarmos no dia do meu aniversário, mas os papéis atrasaram e nos casamos no dia 12.

Meu irmão Angelo, mais velho, era louco por mim, o primeiro sapatinho de salto foi ele quem me deu.

LOU: Era paparicada.
IRMA: Era. O reloginho, também foi ele quem me deu, aquela coisa toda. Ele estava namorando uma moça há 13 anos e não resolvia casar, quando eu disse que ia casar dia 12, ele arranjou os papéis e casou antes, no dia 9, pois não se conformava de casar depois de mim.

CASAMENTO INTERESSANTE

IRMA: O meu casamento foi muito engraçado também. Eu vim lá do sítio, vestida de noiva, num carro de bois, até a estrada, onde estavam os irmãos, de carro, e minha madrinha de casamento. Deixei o carro de bois, tomei o carro e fui pra Três Rios, me casando lá. E na volta foi a mesma coisa. Voltamos até certo ponto e depois fomos de carro de bois. Não tive um bolo de casamento, mas muitos doces caseiros de frutas em calda. Todos estavam felizes.
E ficamos lá a primeira noite. E tem também uma coisa interessante: tinha um pé de carambola e fomos sentar embaixo da árvore, na qual namorávamos. E depois foram todos dormir e nós também. E foi lá mesmo no sítio que eu tive a minha primeira noite.

LOU: No seu próprio quarto de solteira.
IRMA: Foi. E aí, no dia seguinte, nós viemos pra Petrópolis e fomos morar em Cascatinha. Ele já tinha alugado a casa e minha madrinha foi lá e arrumou tudo, pôs flores e arrumou um lanche pra gente, só vendo. Até que aconteceu uma coisa nesta noite que nós nos deitamos e de repente eu senti um negócio pular em cima da cama, levei aquele susto, acendemos a luz, procuramos, daqui e dali, até que achamos uma perereca, no canto do quarto. Rimos muito, mas estragou a nossa segunda noite... E ele depois me chamava de perereca. Depois de casados, quando eu me aborrecia com ele, alguma coisa, dizia: - Ela gosta de mim, ela quis fugir comigo, eu que não quis. Mas tivemos uma vida muito boa, mesmo com as dificuldades todas com as crianças.
Os três primeiros meses do nosso casamento foram maravilhosos, muito carinho, muito amor. Eu esperava ansiosa que chegasse as seis horas pra que ele chegasse no ônibus e eu o abraçasse...

LEMBRANÇAS TRISTES

Mas depois veio a notícia de que minha mãe padecia de uma infecção renal. Ela faleceu quando eu estava grávida de sete meses da minha primeira filha, Norma.

O nascimento da minha filha foi pra mim um lenitivo, era sadia, normal... Engravidei do segundo filho, José Augusto Filho e resolvemos vir morar no Rio, porque o trabalho do meu marido estava escasseando.
A vida corria com dificuldades, mas com muito amor e com esperanças de dias melhores. Veio a terceira gravidez. Fiquei muito nervosa e propus ao meu marido fazer aborto, mas ele disse que não aceitava de maneira alguma que Deus nos ajudaria. Mas nós nem podíamos imaginar o quanto!

Minha filha Norma completou seis anos e parecia muito bem de saúde, esperta. Prestava atenção a tudo, a ponto de se auto alfabetizar.
De repente, ao acordar pela manhã, reclamou de falta de ar. Ela teve uma convulsão. Foi o primeiro sintoma de uma doença que durou três anos. Era um tumor na sela túrsica, inoperável. Os ataques de convulsão se repetiam mais de dez vezes por dia. Aos nove anos ela faleceu.

Essa doença da Norma levou 3 anos. Nós dois éramos a metade um do outro. Foi assim e daí vivíamos bem até que ele começou a ter um cansaço, chegava em casa, tinha que deitar primeiro pra depois tomar banho, jantar, não comia quase, estava emagrecendo e eu insistia com ele pra ir ao médico e ele dizia que não sentia nada, só cansaço. E o médico dizia que era só descansar. Foi num dia 24 de junho que eu consegui levá-lo à Beneficiência Portuguesa, e o nosso médico, mandou fazer uns exames, e disse que teríamos que ver o Dr. Pedro Teixeira, que era cirurgião. Achava que ele tinha qualquer coisa no estômago. Era câncer, violentíssimo, que lhe tomou o intestino todo. E no dia 25 de julho ele foi enterrado. A Nina fez 13 anos, no dia 13, antes dele morrer. Ela tinha dito pra mim: - Mamãe eu queria vestir tudo cor-de-rosa e eu fiz a roupa dela. Tanto que ela até hoje não suporta fazer aniversário, nunca quer nada, porque ele tinha loucura por ela. Era uma coisa com ela e com o menino também; ela estava com 13 e o menino não tinha 15 ainda. Mas ele também, muito ajuizado, estudava em Ramos. Nós morávamos na Penha e ele passou pro turno da noite.
E, em 1953, eu perdi esse filho, foi a Norma em 1936 e o pai em 1946.

LOU: Aí você ficou só com uma filha.
IRMA: Foi, fiquei com a Nina. Ela é uma benção do céu. Eu vou te dizer: eu estou com essa idade e a chamo de Xerife, às vezes, porque ela insiste que eu tenho que tomar os remédios. Ela não deixa passar nada. E eu acho que é por isso que eu estou conseguindo viver depois de todas essas cirurgias. Eu já fiz 19 cirurgias,

LOU: Me conta da Nina, porque eu soube que você queria interromper a gravidez dela.
IRMA: Pois é. Eu não queria ter mais filhos porque eu morava com uma senhora aqui no Rio. De meu, eu tinha um quarto e não tinha onde botar nada. O quarto não era muito grande e eu não tinha onde colocar um berço. Mas ele disse: - Nós vamos dar um jeito. Tanto que ainda fiquei um ano com ela lá, e eu dormia de porta aberta. Mas a gente se dava bem, era uma coisa. Então, depois quando mudamos pra Penha, já foi uma casa com 2 quartos.

LOU: Aí as coisas começaram a melhorar...
IRMA: Ah, sim. Quando engravidei da Nina, eu não tinha dinheiro, dependia do dinheiro dele. Talvez se eu tivesse trabalhando, eu teria feito aborto e o que seria de mim agora? Teria ficado sem essa filha que é uma preciosidade.

LOU: Quando você perdeu seu marido, começou a trabalhar?
IRMA: É, comecei. Primeiro eu fui convidada pra trabalhar no colégio que eles estudavam em Ramos, o Colégio Cardeal Leme, e as diretoras de lá gostavam muito do meu filho e dela também. E me ofereceram um lugar na secretaria, porque elas queriam tirar umas férias e não podiam. Não tinham uma pessoa de confiança pra ficar e eu fiquei na secretaria e fazia as matrículas. Nunca tinha trabalhado com máquina de escrever e catava milho, mas fazia tudo direitinho e consegui ficar de setembro até dezembro. Mas aí trabalhava muito e eu estava morando com uma pessoa amiga, num quarto. As minhas coisas ficaram num lugar que eles tinham no quintal e tomaram chuva. E acabei perdendo muita coisa, mas mesmo assim eu fiquei com essa senhora, D. Hermínia e o marido Sr. Rafard. E a Nina estudava, ia pra casa fazer a nossa refeição e o meu filho trabalhava, vinha tarde e eu ficava sempre esperando, porque todas as noites ele tomava um prato de mingau de aveia antes de dormir. E daí eu comecei a trabalhar lá no Senai e em casa costurava. Tem uma passagem na qual a Nina estudava, alfabetizada por uma senhora, amiga nossa, e não tinha uniforme. Não tinha nem saia. Andava com umas roupinhas muito bonitinhas que eu fazia pra ela. A professora, D. Alvina, perguntou-lhe assim... - Você compra essa roupa feita? - Não, mamãe é quem faz. - E ela cose pra fora? - Cose pra fora e pra dentro. E daí, consegui outra vez organizar a vida direito. Nina estudava na parte da manhã e cuidava das compras e das refeições na parte da tarde.

LOU: E o Zezinho também estudava?
IRMA: Meu filho trabalhava na Companhia, onde os tios também trabalhavam e estudava à noite, no Colégio Cardeal Leme.
Eu ganhava dois mil e duzentos e ele, o Zezinho, quinhentos e cinqüenta.

O SONHO DE TIRAR O BREVÊ

Ele era louco pra andar de avião. Então, ele disse pra mim: - Mamãe, se eu for brevetado, não vou precisar fazer o serviço militar e isso vai me ajudar pra quando eu for pra faculdade. Porque ele ia fazer a faculdade de noite, como ele começou a fazer. Os vôos ficavam caros e eu comecei assim: eu tinha os envelopes que eu botava o nosso dinheiro pra alimentação, pras passagens, e tinha um que era pras sobras. E, quando sobrava, era pras horas de vôo dele.

Até que eles fizeram um concurso no aeroclube e ele tirou em 1º lugar . O prêmio foi uma viagem pra Argentina. Mas ele queria que aquilo se transformasse em horas de vôo pra ele ser brevetado mais rápido possível. Mas ele não conseguiu. E foi fazer a viagem pra Argentina, com tudo pago por eles, nos melhores hotéis e chegou numa alegria, magro de tanto dançar, porque ele gostava muito de dançar. E veio muito feliz com um presentinho pra cada uma de nós.
Os irmãos se davam muito bem.
A vida continuou pra ele assim apertada, trabalhava de dia, cursava o científico à noite, e ia completando suas horas de vôo até conseguir ser brevetado no aeroclube, com a presença do Ministro da Aviação Salgado Filho.
Foi passar as férias em Barbacena, na casa de um dos meus irmãos.

Ele me telefona e diz que vinha pra casa, no dia 20 de dezembro, trazendo uns tomates da horta do tio, pra botar na salada e tudo, avisou que viria no ônibus de meio-dia, que levava nove horas naquele tempo e hoje, em três horas e meia, se faz esse trajeto. E me disse: - Me espera pra jantar. Fiquei esperando até que o telefone toca e..... - É da casa do José Augusto Nóro Filho? Quem está falando? É a mãe dele. Eu queria falar com ele. Ele vai chegar ainda hoje. Não quer dar o recado? Não, depois eu telefono. Era o delegado de lá, que não teve coragem. Telefonou pra Barbacena, pro meu irmão, que era vice-prefeito de lá, e falou com a Nina.

LOU: Mas foi o quê? De avião?
IRMA: Foi.

LOU: Mas ele não disse que vinha de ônibus?
IRMA: Sim, mas daí um colega ia trazer um avião pra cá e o chamou. Eu fiquei assim... porque o outro se salvou. E ainda fiquei com esse rapaz lá em casa e a mãe dele. Ele teve que operar, botar platina. E eu pensava assim: ele era forte, perdi meu filho por causa dele. Mas ele era casado e tinha dois filhos e deveria viver pra poder criá-los. Pelo menos isso. Depois a mulher dele ainda teve mais filhos, então foi assim uma coisa muito triste, muito triste mesmo. Porque eu já tinha perdido a Norma, mas Norma estava sofrendo há 3 anos. E ele saiu bom, cheio de planos pro futuro. Ele não queria que eu trabalhasse os dois turnos. Ele queria que eu trabalhasse um só. Ele já ia fazer táxi aéreo em Mato Grosso....

LOU: Mas aí, me conta, vamos lembrar das coisas boas da sua vida. Porque a vida é assim: tem coisas ruins... respira, relaxa... Me conta como foi que você voltou pro Rio de Janeiro e retomou sua arte de costurar... porque uma costureira é uma artista.
IRMA: Mas eu há muito tempo queria fazer alguma coisa diferente assim que me aposentasse. A primeira coisa que fiz foi ler pra cego. Olha, eu ajudei um cego a fazer prova de história. Passou. Até foi muito engraçado também, porque um dia ele disse pra mim:
- Dona Irma, eu vou dizer a idade que eu sinto que a senhora tem.
- Tá bem, pode dizer.
-Mas se eu disser muito a senhora me desculpe, mas é o que eu sinto. - E quanto você acha?
- Quarenta e cinco.
- - Quarenta e cinco? Por que você acha isso?
- Pelo seu modo de pisar, quando a senhora cumprimenta a gente, a sua voz... e a senhora está sempre alegre. Se a senhora tiver menos, me desculpe.

- Eu disse: - Não, meu filho, eu tenho 62. E cheguei em casa e contei toda feliz pra Nina. Ela disse que só podia ter sido um dos meus cegos.

LOU: Mas até hoje a sua voz é muito jovem.
IRMA: Então eu tive que deixá-los, não pude mais ir lá pra ler pra eles, porque os elevadores estavam quebrados e o pé direito era muito grande, e pra chegar lá em cima, já tendo problemas cardíacos. Fiquei com muita pena.

LOU: Depois você fez o quê?
IRMA: Depois, foi quando o meu irmão, o Angelo, me disse que o Senai estava admitindo e fui saber como era. Tive que fazer uma prova e, graças a Deus, passei bem e fui dar aula de Corte e Costura lá. Tinha um diploma pelo MEC, registrado. Cheguei lá e as máquinas eram industriais. Eu nunca tinha visto na vida e aquela coisa, meu Deus do céu, como vou dar conta disso? Fui observando, tinha mais três colegas e eu consegui, graças a Deus. No final, eles terminaram com o curso e eu fui dar a teoria. Primeiro fui pra seção de calçados pra costurar gáspeas de calçado. Você vê como foi minha vida.

LOU: Uma beleza, riquíssima sua vida. Com mais de 60 anos, você foi aprender um ofício. A costurar o sapato.
IRMA: Com 62 eu me aposentei. Ninguém queria que eu me aposentasse lá, nem os diretores, nem nada. Mas a Claudia já estava com 8 anos e eu ia em casa almoçar e voltava, e ainda podia vê-la e ela não gostava de comer.

LOU: Claudia, sua neta.
IRMA: É, minha neta. Hoje ela é médica. Aí, por causa dela, eu me aposentei com 62 anos. Mas eu fui à Europa, antes de me aposentar. Nas férias, eu resolvi ir visitar meu irmão, que já não estava muito bem. Foi uma viagem muito boa, gostei demais. Quando voltei, voando aqui em cima, eu disse: - Meu Deus, eu tive muita coragem, muito peito mesmo, porque visitei 5 países.

LOU: Sozinha
IRMA: Sozinha. E na Espanha é que eu encontrei um casal, que logo nos demos muito bem, e ficamos juntos, saíamos juntos, voltávamos juntos e eles vieram também no mesmo avião que eu.

LOU: Mas como foi que você começou a escrever o livro?
IRMA: Agora. O livro foi lançado em 4 de julho de 2003.

LOU: Onde?
IRMA: No Clube Naval.

LOU: Você levou quanto tempo escrevendo esse livro?
IRMA: Levei um ano e pouco.

LOU: O que te levou a escrever o livro?
IRMA: Relembrar as coisas que mamãe me contava...

LOU: É um livro de memórias?
IRMA: É. O título do livro é "Memórias". Então, eu me lembrei de tudo que ela conversava, me contava, das viagens loucas pra lá e pra cá, da família toda. Da minha vida, falando sobre o que acontecia comigo e com eles. Eles foram muito bons quando souberam que eu estava escrevendo. Meu sobrinho me mandou um computador.

LOU: Com quantos anos você aprendeu a usar o computador?
IRMA: Com 90 anos.

LOU: Que maravilha! Você é uma lição, viu? Um exemplo! E você já escreveu outros?
IRMA: Fiquei só nesse. É complicado. A falta de verba também. Tanto que o meu editor publica umas antologias lá e queria que eu... mas era 500 reais que eu tinha que dar.... eu gasto muito em remédio também e aposentadoria de professora, você sabe como é. A minha não foi muito ruim, porque eu fui do Senai, porque as minhas amigas e colegas do Município e do Estado ganham uma vergonha. Você sabe que eu tinha uma vizinha, que já faleceu, que o porteiro ganhava mais do que ela?

LOU: Quase todo mundo ganha mais do que uma professora primária do Município e do Estado.
IRMA: Olha esses dois quadrinhos. Eu pintei agora.

LOU: Agora me conta como é que você descobriu que queria pintar.
IRMA: Depois disso tudo eu queria fazer uma coisa diferente. E eu tinha uma amiga que morou lá no meu edifício, a Jandira, que era esposa do pediatra da Claudia... as crianças viviam juntas, eu tinha dois filhos, ela três. Quando ela tinha qualquer coisa pra fazer, eu levava os meninos dela pra escola, porque tinha carro, era mais fácil e nos tornamos muito amigas. Então, ela faz pintura há mais de 15 anos, com essa perfeição. Ela dizia pra eu fazer porque eu desenho e esse curso é mesmo interessante, porque começava pelo desenho geométrico. Quando eu entrei, eu disse que já estava muito velha pra fazer o curso todo, e disse que queria logo fazer uma tela. Ela disse que tudo bem. Mais tarde, eu resolvi fazer o curso de desenho que eu senti estava fazendo falta. Aí, então, estou com ela e acontece que eu quebrei a perna, fazendo uma mala pra ir pra Salvador, pra visitar Claudia, quando encostei na cama, caí e não levantei mais, fui pro hospital, minha operação durou mais de 8 horas, e o médico nem achava que eu ia conseguir andar outra vez. Mas ele arrumou um fisioterapeuta que foi aquela criatura maravilhosa que me fez andar. Comecei com andador, depois com as duas muletas canadenses, depois com uma só, e acabei na bengala até hoje.

LOU: E tá andando muito firme sem bengala pela casa toda.
IRMA: Pela casa, eu ando. Não preciso. Só na rua que é um esteio, porque tenho medo de cair. Estou convivendo com isso muito bem.

LOU: Mas você interrompeu a aula de pintura porque caiu?
IRMA: Ah, sim. Eu caí e levei um ano sem pintar nada, não podia, não tinha condições. O médico achava que eu não ia conseguir andar, mas o fisioterapeuta foi maravilhoso e ele disse: - ela vai nadar, tem muita garra realmente. Quando ele mandou eu levantar a perna, eu fui lá em cima com ela. Ele disse que eu ia andar. Um dia eu encontrei com o médico no restaurante e ele disse: - Graças a Deus!

LOU: Aí você voltou pra pintura.
IRMA: Voltei e estou até hoje. Já ganhei muitos prêmios.

LOU: Você ia falando - e eu interrompi - que você leva tudo na calma, na esperança.
IRMA: É. Eu só peço muito a Deus que eu não sofra quando eu tiver que fazer a 'grande viagem'. Tenho minha roupa toda guardadinha pra ir. Está guardada e o mais engraçado é que essa roupa é toda de nylon, calça comprida. Eu já guardei de propósito, porque naquilo o bichinho não entra. (risos) E eu pedi a Nina uma meia calça pro bichinho não entrar, de soutien, toda arrumadinha.

LOU: Mas você leva sua vida sempre bem. Por isso você tem 93 anos.
IRMA: Às vezes eu me surpreendo, planejando qualquer coisa.

LOU: O que você tá planejando?
IRMA: As minhas meninas, Nina e Claudia, fazem muita tapeçaria e eu também fiz uma bem grande. E pensei que podia fazer pra vender. (risos)

LOU: Você tem sempre alguns planos em mente.
IRMA: É isso que me ajuda a prolongar a vida que nos dá entusiasmo.

LOU: E qual o recado que você dá pros "VelhosAmigos"?
IRMA: Eu sempre digo pras minhas amigas que eu não gosto que me chamem de velha. Eu me sinto idosa, não me sinto velha e não reclamo de nada. E esses jovens vivem reclamando se está ventando, se está chovendo. Eu não! Aceito tudo e procuro me adaptar a tudo. Aqui, esse conflito de gerações é uma coisa. As duas brigam muito.

LOU: Suas netas moram aqui?
IRMA: Não. Elas estão aqui porque a mãe foi estar com o pai e amanhã elas já vão embora. Elas vêm aqui mais de visita. Mas assim mesmo tem que conviver com isso. Então, eu procuro me aclimatar e às vezes não consigo muito não, tenho que fazer força. Mas é essa força que a gente faz, que ajuda a viver.

LOU: Você tem uma vida tão cheia! Você não sofre de solidão...
IRMA: Não sofro porque ao ficar sozinha, tenho um livro, uma leitura que me prenda a atenção, não estou só, não me sinto só.

LOU: É uma lição de vida.
IRMA: Não me sinto só.

LOU: Porque a pessoa pode estar sozinha, sem ter solidão.
IRMA: Pode, perfeitamente. E esse negócio de stress, TPM, que eu nunca tive, nem sabia o que era, eu me lembro que uma vez um dos meus irmãos disse pra mim assim: - o que aconteceu com você, quando deixou de ser menstruada? Eu disse: - Nada, por quê? Porque eu não agüento a minha mulher! Por causa da menopausa, eu disse que tive mais pausa do que menos pausa. (risos)

LOU: Foi bom, foi um conforto, né? Um incômodo a menos... só isso.
IRMA: E o meu foi cirúrgico. Eu tinha apenas 40 anos quando aconteceu. Eu tirei um ovário e as trompas, e o útero ficou, mas não precisava ter ficado. Mas é a vida.

LOU: Muito bem. A sua vida foi uma grande vida. Muito rica e eu tenho o maior orgulho de te conhecer. Porque você agora faz parte do meu site que se chama VelhosAmigos.
IRMA: E eu gostei muito de você. Você é muito simpática e agradável. A gente sente que você é uma pessoa amiga e amizade é muito forte pra gente viver bem.

LOU: E eu também sinto que você é amorosa. A gente tá conversando e você fica segurando a minha mão, parece até que eu já te conheço há muitos anos. E agora somos mesmo "VelhasAmigas".
IRMA: Se Deus quiser e ele vai querer!

Maria de Lourdes Micaldas
Revisão: Anna Elisa Fürich

 

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