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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

ITAMAR FRANCO
publicado em: 21/01/2016 por: Netty Macedo

1930-2011

UM GRANDE SILÊNCIO. UMA BELA HISTÓRIA

Quando o deputado Ulysses Guimarães fez sua última viagem, eu disse: “Há um grande silêncio neste plenário. Há uma grande ausência nestas salas e corredores. Não obstante o silêncio e a ausência, silêncio que perturba os nossos ouvidos, ausência que fere os nossos olhos, a voz forte de Ulysses Guimarães ecoa na consciência moral deste Parlamento, de nosso povo e do nosso tempo”.

Não encontro outra frase minha que possa definir melhor o que estou sentindo agora, com a partida do nosso presidente Itamar Franco. Nunca é “ex-presidente” alguém que, como ele, fez tantas coisas que ainda estão tão presentes no cotidiano brasileiro. Nunca é “ex-presidente” quem governa acreditando que a política é “a arte de bem governar os povos”, como definiu o mestre Aurélio. O presidente Itamar trouxe estabilidade à economia. Foi o verdadeiro mentor dos programas de fundamentação bíblica do “dar de comer a quem tem fome”. Defendeu como ninguém a soberania nacional. E fez tudo isso sem um arranhão ético. Para ele, o dinheiro público era sagrado; e o exercício da função pública, um sacerdócio.

Há, portanto, outro grande silêncio no plenário do Senado Federal. Nas salas e nos corredores. Um silêncio que atravessa todas as casas deste país de tantos e tamanhos contrastes, que Itamar soube compreender como ninguém.

Não obstante esse mesmo silêncio, Itamar deixa um legado cujo reconhecimento virá, quae sera tamen. Ainda que tardio. Em seu primeiro ato de governo, como sempre, ele surpreendeu. Reuniu os presidentes de todos os partidos e o conjunto de seu ministério. Disse o que ninguém imaginava ouvir naquele momento: se houvesse consenso de que o melhor para o país seria convocar novas eleições para substituir Fernando Collor, o presidente da República afastado pelo Congresso, ele o faria imediatamente, renunciando ao cargo que assumira na condição de vice-presidente. Era assim, o Itamar. Ele não tinha apego a cargos, nem mesmo ao de presidente da República.

Em seu curto período de governo, o país cresceu e viveu um tempo de ousadia e inovação. Graças a sua coragem pessoal e fé inabalável nos brasileiros, foi possível o Plano Real, que permitiu ao Brasil entrar na “idade de ouro” da República, como classificou o cineasta Cacá Diegues. O país avançou do ponto de vista da economia e das políticas sociais, da estabilidade monetária, do respeito aos princípios democráticos e da distribuição de renda.

Aprovado no Congresso Nacional numa época em que era impensável trocar votos por favores, como a nomeação de apadrinhados ou a liberação de emendas, o Plano Real teve ainda, como consequência, a retomada da confiança do brasileiro em seu país e em seus governantes.

No Senado, o presidente Itamar não parecia um homem de 80 anos. Seu dinamismo era notável, especialmente nas intervenções de plenário, nas quais cobrava da Presidência da Casa o estrito cumprimento das regras de funcionamento do Senado. Itamar andava preocupado com o desprestígio da Casa, uma instituição tornada politicamente frágil e quase impotente.

Não conheci um político brasileiro com a seriedade, a dignidade, a correção, a decência de Itamar Franco. Apesar do convite para integrar seu ministério, preferi ser o líder de seu governo no Senado. Líder no sentido formal dos regimentos, porque, na realidade, eu é que sempre fui liderado por ele. Mais que um líder, ele foi meu irmão, companheiro de todas as horas.

É por isso que ainda tenho fé de que a imprensa produza, passado o tempo, a biografia exata de quem foi o presidente Itamar Franco e do que foi seu governo. E saiba compreender a importância de seu temperamento forte, de sua conduta muitas vezes exageradamente rígida e inflexível. Muitas vezes folclorizado. Em alguns momentos ridicularizado, quando, na verdade, para a boa política, ele deveria ser, sempre, imitado.

Há um grande silêncio neste país. O Brasil perdeu mais uma de suas melhores referências políticas. Mas o exemplo do Itamar continuará a atravessar o túnel do nosso tempo. Não apenas o túnel que liga os gabinetes ao Plenário, como no Senado que o Itamar tanto honrou, mas o que traz o povo a seus nobres destinos.

Autor(a): Pedro Simon
Fonte: Revista ÉPOCA

 

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