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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

IVETE BASTOS BUCKER
publicado em: 21/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 21/01/2002

Com 74 anos, ela começou a usar o computador e a Internet pra poder escrever seu primeiro livro, "Nas Pegadas de Rondon". Atualmente, aos 82 anos, está finalizando o de poesias que terá o título "Porque Choro". A nossa entrevistada é Ivete Bastos Bucker, filha de Carmem Estrela Bastos e de Mario Américo da Cunha Bastos. Nasceu em Campo Grande, no Rio de Janeiro, em 9 de fevereiro de 1923. Ela conta para o "Velhos Amigos" como aquela menina magrela, órfã, tímida e sofrida ganhou auto-estima, ao ser percebida pela professora. E daí pra frente, sua vida foi uma série de conquistas e vitórias.

LOU: Como foi a sua infância?
IVETE: Fui muito arteira, muito magrinha e por isso recebia muitos apelidos de meus irmãos "mosquito elétrico", "pau de virar tripa", "Genoveva", "abelhuda", etc.. Sou a caçula de 11 irmãos.
Fiquei muito manhosa depois que fiquei sem mãe, aos 3 anos de idade. Havia uma tia de meu pai, já muito idosa, que atendia pelo apelido de “Tia Cotinha” e que muito me protegeu. Às vezes, eu chorava sem que ninguém desconfiasse o motivo. Um dia a Tia Cotinha chegou no momento em que eu estava numa enorme choradeira.
- Mas porque essa menina está chorando dessa maneira?
- AH! Não sabemos...Ela chora sem motivo e por mais que perguntemos, não responde nada.
-Coitadinha!... é saudade da mãe. Vou levá-la comigo.
Daí em diante, tia Cotinha foi a melhor amiga que tive em toda a minha vida. Peregrinei com ela pelas casas de seus filhos e irmãos, pois ela não tinha casa e vivia passando tempos em casa dos filhos e de duas irmãs. Só deixou essa atitude quando precisei freqüentar a escola. No período de férias escolares, ela me buscava para acompanhá-la em suas andanças.

LOU: E como foi a sua adolescência?
IVETE: Fui uma menina introvertida, calada e muito diferente daquela de minha infância. Achava que ninguém, a não ser a tia Cotinha, se importava comigo. Dos dez aos doze anos, moramos na Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro. Minhas notas escolares eram regulares. Aos treze anos, nos mudamos para Nilópolis, quando meu pai arrendou uma chácara de plantação de laranja que ele cuidava e vendia para exportação. Freqüentava uma escola em Nova Iguaçú, andava a pé quase um quilômetro para apanhar o trem na estação de Anchieta e descer em Nova Iguaçú. Às vezes, uma prima, que morava em Nilópolis, fazia-me companhia. Ela estava mais adiantada do que eu, pois cursava o quinto ano e eu o quarto ano primário. Um dia, ao caminharmos juntas, trocamos o seguinte diálogo:
- Ivete, a sua professora me chamou e pediu que eu entregasse um bilhete para o Tio Mário. Ela disse que você não vai passar de ano, você está muito bem em matemática e português, mas em história e conhecimentos gerais está muito mal.
Fiquei espantada... Então a professora se importava comigo? Sentava-me no último banco. Ficava quieta e só prestava muita atenção na aula. Ela nunca havia me dirigido uma pergunta sequer. Mas nas provas, de fato, sempre tirava nota baixa naquelas matérias.
- Dalva, é verdade, mas prometo que vou estudar. Não precisa entregar este bilhete para o papai.
- Bem... vou confiar em você... vamos ver suas notas nas próximas provas.
Passei a estudar com afinco. Tirei notas máximas em todas as provas. A professora ficou admirada e passou a me chamar para respostas no quadro. Fui convidada para declamar e brilhei. Nunca mais deixei de ser a primeira da classe.

No fim do ano, fui premiada com uma caderneta de poupança do Banco do Brasil, com cinqüenta mil reis em depósito, como a melhor aluna da quarta série em todo o colégio. No ano seguinte, fui novamente premiada com outra caderneta de poupança como a melhor aluna de todo o colégio, mas como já possuía uma caderneta, ofereci o prêmio para a que ficou em segundo lugar.

LOU: Fale-me de seus amores.
IVETE: Comecei a namorar aos 15 anos e não parei mais. Apaixonei-me aos 17 anos por um primo de segundo grau, chamado Hélio que, quando tinha 18 anos, morreu num acidente em Niterói. Desde então, não achava encanto suficiente em mais rapaz algum, apesar de ser muito requisitada e procurar me interessar, mas em vão. Quando falavam em casamento, eu logo procurava acabar com o namoro, que, diga-se de passagem, não era como hoje. Era um namoro ingênuo e, no máximo, chegávamos a alguns beijinhos.

Quando conheci meu marido eu estava na estação de trem de Cascadura, no Rio de Janeiro, sentada no banco, quando vejo aproximar-se um rapaz alto, todo de branco, uma simpatia, e muito parecido com o meu finado primo. Ao bater os olhos nele, senti um arrepio:
- Meu Deus! Que coisa estranha! O que se passa comigo? Não consigo desviar os olhos desse rapaz! E ele nem percebe a minha presença!... Ele continuou a passear de lá pra cá, como se eu nem existisse. No entanto, se me pedisse em casamento naquela hora eu aceitaria!

Entramos e, no trem, nossos olhares se cruzaram. Por uma incrível coincidência ele também se chamava Hélio. Começamos a namorar. Ele era expedicionário e estava proibido de casar. Ele fez uma procuração para o meu irmão Armando representá-lo no casamento, que foi no dia 19 de setembro de 1944, e eu fiquei esperando ele voltar da guerra na Itália, em 17 de setembro de 1945. Para mim este foi o dia do nosso verdadeiro casamento.

LOU: Qual o nome do seu marido?
IVETE: Hélio Jorge Bucker, faleceu no dia 10 de fevereiro de 1996.

LOU: Tem filhos, netos, bisnetos? Quantos?
IVETE: 4 filhos homens, 10 netos, 5 bisnetos.

LOU: Fale-me sobre a sua convivência com os índios.
IVETE: Foi maravilhosa. Um aprendizado ímpar.

LOU: Com que idade você começou a escrever suas poesias e seu livro?
IVETE: Com 74 anos.

LOU: Qual o nome do seu livro?
IVETE: "Nas Pegadas de Rondon". O de poesias ainda está sendo organizado e terá o título: “Porque Choro”.

LOU: Com que idade começou a usar o computador e a Internet?
IVETE: 74 anos

LOU: Mande um recado para os "Velhos Amigos".
IVETE: Às vezes, a mulher sente o chamamento interior para realizações neste ou naquele setor da atividade humana. Privá-la de responder a esse chamado interior será, mais uma vez, restringir-lhe a liberdade, considerando-a um ser incapaz de tomar decisões, de gerir a própria vida e, sobre tudo, será impedi-la de conhecer-se e de crescer espiritualmente. As que se reconhecerem chamadas ao labor doméstico, realizem seu trabalho sem inibições, sem se sentirem marginalizadas pelo contexto social, conscientes da importância da função que abraçaram. As que identificarem o chamamento para a contribuição profissional, exerçam suas atividades com honestidade e retidão, usando sua sensibilidade na criação de um ambiente de amizade e respeito. As que receberem o apelo íntimo para as realizações no plano político, saibam adoçar sua atuação com as características femininas, buscando a resolução dos conflitos no diálogo equilibrado e fraterno. Aquelas que acumularem funções, porque, não obstante terem constituído um núcleo familiar, sentem forte apelo para realizações que extrapolam as paredes do lar, saibam estabelecer prioridades, não comprometendo a formação dos filhos, utilizando sua criatividade na geração de um novo estilo de vida.
É da médium espírita famosa Batuíra a mensagem que repasso aos "Velhos Amigos":

“A mulher é sempre mãe- não só dos próprios filhos, mas também dos grandes ideais, das abençoadas realizações da vida, dos estímulos ao progresso e, sobretudo, das boas obras”.

LOU: Estou encantada com sua bondade, sua sabedoria, com você!
A cada dia me sinto mais realizada por ter criado este nosso Site, porque através dele, tenho a oportunidade de conhecer e me tornar amiga de pessoas tão brilhantes como você. Muito obrigada!

IVETE: Lou, esta foto registra o meu encontro com os índios no "Museu da Casa do Índio". E aproveito pra lhe apresentar uma das minhas poesias. Espero que goste.

SOU MULHER

Sensibilizo-me ante mágoa qualquer
Que atinja corações em sofrimento
E vivam sem o menor alento,
Porque sou mulher!

Olho com ternura e carinho
Aos que vivem sobre espinhos
E que na solidão estiver,
Porque sou mulher!

Mãos estendo a quem tiver
Na expressão o sofrimento
E ao meu seio acalento,
Porque sou mulher!

À criança triste, abandonada,
Que se alimenta de quase nada,
Aconchego a mim onde estiver,
Porque sou mulher!

Ofereço prontamente meu regaço
Aos que se quebrantam no cansaço
Sem um canto qualquer,
Porque sou mulher!

Luto pela real paz alcançar,
Não quero meus filhos entregar
À sanha da guerra onde houver,
Porque sou mulher!

Ivete Bastos Bucker 1/4/2001

 

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