Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

JOÃO AMÉRICO PERET
publicado em: 21/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 08/12/2005

Marília: Onde e quando nasceu?
Peret: Quando o Dr. Achylles Peret, engenheiro agrônomo e ex-oficial militar chegou ao Acre, em 1901, o Brasil estava em plena guerra com a Bolívia. Ele se envolveu na luta e se tornou herói. Em 1916, traçou a vila de XAPURI, onde conheceu a adolescente Luzia Bandeira, viúva aos 13 anos, com uma filha de colo. Eles se casaram e, como não havia rádio, cinema ou novela, eles ficavam escutando o cricri dos grilos, o coaxar de sapos e rãs, à noite. Então, tiveram nove filhos. Eu nasci no dia 14 de setembro de 1926. Fui o sétimo filho dele e o oitavo dela, numa fila de dez irmãos.

Marília: Estão todos vivos?
Peret: A Cyra, filha do primeiro casamento da mamãe, já faleceu. Depois vieram: Archelau, Achylas, Amílcar, Alfredo, Armando, já falecido, Arnaldo, eu, João, Alberto e Luiza.

Marília: O que o seu pai fazia?
Peret: Meu pai, Dr. Achylles Peret, foi engenheiro agrônomo e músico: ele tocava clarinete, saxofone, oboé, trombone e clarim. Organizou a Polícia Militar, a Civil, órgãos administrativos, construiu prédios públicos, abriu ruas e avenidas, construiu cidades. Criou o Aprendizado Agrícola, na capital, Rio Branco. Ensinava cursos letivos e profissionalizantes, disciplina, escotismo. Pregava o amor à Natureza, tanto para meninos carentes quanto para famílias abastadas.

Marília: Como foi a infância de vocês?
Peret: Morávamos no Aprendizado Agrícola e a disciplina de lá era a mesma de nossa casa: só faltava tocar o sino ou a corneta... Plantávamos horta e pomar nas horas de folga. Os mais velhos estudaram naquele estabelecimento e completaram os estudos em Manaus. Nossa mãe ficava mais tempo com eles em Manaus. Até os sete anos, meu apelido era Bolinha. Eu comia às escondidas leite condensado com gema de ovos e farinha grossa, rapadura, bebia chibé (jacuba) a toda hora... Aprendi a tocar violão. Na adolescência, era mais capeta do que anjo, fazendo pirraça para a amante do meu pai, que foi morar conosco. Nas férias, eu viajava de navio a vapor para Manaus. Eram uns 20 dias parando nos portos, onde ficávamos até 12 horas esperando os carregadores embarcando lenha; então, descíamos para namorar as caboclinhas em cada porto. Na volta, repetíamos tudo. Era gostoso ver os lenços brancos acenando o adeus. Para me distrair, durante a viagem, eu fazia folhetins, concurso de beleza, de dança, poesia, mexericos, reclamava da comida...

Marília: E os namoros sérios?
Peret: Eu era romântico, mas tímido. Sofri ao perder a namoradinha que muito amei, para um boêmio sedutor que chegou da cidade grande.

Marília: Qual é a sua formação profissional?
Peret: Sou técnico em várias profissões. Fiz curso de piloto aviador, mas não completei. Fiz Jornalismo e estagiei no jornal "A Crítica" e nos "Diários Associados", em Manaus. Cursei Arqueologia em Manaus, estagiei no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e no Museu Frederico Barata, em Belém. Estudei Etnografia no Rio de Janeiro e estagiei no Conselho Nacional de Proteção aos Índios - CNPI. Finalmente, ingressei no SPI - Serviço de Proteção aos Índios.

Marília: Como constituiu a sua família?
Peret: Eu namorei a Marly Neves aos bocadinhos, entre minhas idas e vindas das aldeias para a cidade. Eu queria uma companheira para não me envolver com as belas índias, pois a ética proibia os funcionários de casar com as índias. A Marly era adulta e a família não fazia objeção ao namoro. Ficamos noivos, formei um grupo de amigos para conhecer o rio Araguaia e os índios Karajá. Na volta, entreguei meus documentos para a Marly marcar o casamento e me avisar a data três meses antes, para que eu pudesse chegar a tempo. Isso aconteceu em 1958. A lua-de-mel aconteceu nas praias a céu aberto, com o sol, a lua e as estrelas.

Marília: Vocês tiveram filhos na selva?
Peret: Não. Nossos três filhos são cariocas. Seria uma temeridade ter filhos naquele lugar sem recursos e ambiente hostil, pelas doenças tropicais desconhecidas. Eu contraí malária por umas trinta vezes. Fui socorrido, por duas vezes, por um avião teco-teco que o `Papai Noel´ mandou... A Marly esteve a ponto de morrer ou perder a filha que estava gerando. Saímos a tempo para um hospital. Foi o que me salvou.

Marília: Fale um pouco sobre seus filhos e netos.
Peret: Denise, a primogênita, tem 47 anos e duas filhas. Tornou-se funcionária pública por concurso. A filha dela, Débora, é formada em História da Arte. A Patrícia está tentando o vestibular. Meu filho Sérgio (44) é funcionário do Estado por concurso, pai do Rafael e da Adriana, e adotou a Jéssica. O caçula Luis Eduardo (38) é professor universitário da UERJ. É poliglota, decidiu não casar nem fazer filhos.

Marília: Você tem algum hobby?
Peret: Quando jovem, eu praticava voleibol, boxe, natação, tiro ao alvo, pescaria e caçada nos acampamentos. Adoro ler clássicos, romances de capa e espada, aventuras com índios... Leio relatórios de naturalistas, missionários, comissão Rondon, antropólogos e indigenistas. Gosto de ler escritores indígenas. Sou membro da Academia Pan-Americana de Letras e Artes (patronímico de José de Alencar). Tenho cerca de 500 títulos de escritores sobre a Amazônia. Gosto de ler crônicas, fábulas, contos e poesias. Adoro conversar ou contar histórias para os jovens.

Marília: Então, conte algumas histórias de sua vida profissional.
Peret: Como indigenista do governo durante 20 anos, recuperei comunidades indígenas que sofreram embates da civilização e quase desapareceram com os vícios adquiridos. Promovi os primeiros contatos com índios isolados que estavam sendo dizimados. Indiquei áreas indígenas para garantir a posse ancestral. Localizei uma expedição que os índios massacraram no Amazonas, por incompetência do missionário.

Marília: Você publicou o resultado das suas pesquisas?
Peret: Sobre as expedições fiz relatórios, sobre as pesquisas culturais publiquei séries de reportagens nos jornais O Globo e Correio da Manhã, nas revistas O Cruzeiro, Geográfica Universal, Manchete, e outras. Publiquei os seguintes livros: "Amazonas, História, Gente e Costumes", adotado no segundo grau (AM). O livro "Frutas da Amazônia", de minha autoria, foi publicado em português, inglês e francês. Tenho outros. Fiz roteiros para filmes documentais, como "Xingu - Terra Sem Males", lançado nos Estados Unidos e na Europa; e, este ano, lançado no Centro Cultural Banco do Brasil.

Marília: A essa altura da vida, como avalia o seu trabalho com os índios?
Peret: Com eles ganhei razão de sobra para viver por uma causa justa. Eles me domaram e educaram com carinho e amor.
E desenvolveram meu potencial ético. Aprendi a valorizar o direito individual, porque na cultura indígena, ninguém manda, o bem comum é a solidariedade. As regras básicas da sociedade são a tolerância, a lógica e a sabedoria de viver em harmonia com a natureza.

Marília: Você pode dar um exemplo?
Peret: Perguntei a Didiué Karajá: por que os pássaros de vocês voam longe, se misturam com os selvagens, e voltam ao por do sol? Ele respondeu: você não aprende. Eles não são nossa propriedade, são parentes... Quando são bebês, damos de mamar no peito ou mastigamos os alimentos e passamos com a boca para o bico deles. Eles fazem parte da família. Por isso, voltam e às vezes trazem seus novos amigos para nos visitar. Outra vez, falei a Lauaxiro Karajá: minha amiga, como você envelheceu rápido! O que houve? Ela me olhou calmamente e me disse: espera aí. Apanhou um espelho e disse: olha a sua cara! Nós nos abraçamos e rimos às gargalhadas.

Marília: Você avaliou positivamente o seu trabalho. E em termos financeiros? Você conseguiu juntar dinheiro?
Peret: Não fiquei rico nem pobre. Mas tenho o suficiente para pagar as minhas contas e viver com dignidade. A satisfação supera qualquer coisa.

Marília: Você fez amigos com os mesmos ideais que você?
Peret: É claro. Tive amigos ilustres, de muita visibilidade. Os irmãos Villas Boas e Francisco Meirelles, por exemplo. Entrei para o Serviço de Proteção aos Índios, uma instituição fundada em 1912. Para torná-la um órgão mais ágil e menos burocrático, o SPI foi transformado na FUNAI. Infelizmente, em pouco tempo, o novo órgão já tinha vícios que o antigo Serviço não havia tido, em 50 anos de existência - corrupção, desleixo e desrespeito aos índios. Sabe como é, o lema é "o índio tem que dar lucro", uma visão totalmente diferente dos nossos ideais antigos. Dá a impressão de que ninguém quer nada com o índio, querem simplesmente o que o índio tem para dar.

Marília: Você ainda vai às aldeias na Amazônia?
Peret: Vivo tecendo o saber - escrevendo, fazendo exposições fotográficas e etnográficas, aqui e fora do Brasil. Sempre que posso, divulgo a cultura e a causa indígenas. Quando os índios se apresentam aqui, eu participo. Eles fizeram rituais de passagem no Museu da República. Lá, o índio Koxinin Karajá me pediu para ser o orientador da sua tese de mestrado, na Universidade de Goiás. Acho que me consideram memória da tribo. Ainda vou às aldeias e à Amazônia para dar consultas para produções culturais, com cineastas brasileiros, franceses, americanos e finlandeses.

Marília: Então, você continua na ativa...
Peret: É claro. Participei das comemorações dos 500 anos do Brasil, com uma exposição fotográfica em Muba, na Suíça. Minha fotografia de um casal de índios ilustra a cédula de plástico de R$10,00 reais. Também cunharam uma moeda de prata, de R$5,00 reais, com a imagem de um guerreiro kamayurá, baseado numa foto minha. Ajudo os índios a estruturar e fundar as suas ONG's. E estou sempre disponível para eles. Tenho milhares de fotografias da Amazônia, índios e outros motivos. Eu estava escrevendo lendas indígenas para o ritual do Boi Bumbá, de Parintins. O Boi Garantido (vermelho) ganhou três anos seguidos. Mas não me pagaram e, aí, parei de ajudá-los.

Marília: Você teve muitas surpresas no convívio com os índios?
Peret: Tive muitas, mas para não me estender muito, vou contar uma que me emocionou e outra que me decepcionou. A primeira foi quando fiz a pacificação dos índios beiços de pau - os suyá. Após um ano de "namoro", é como nós chamamos o período de aproximação com os índios, o mais bravo da tribo, o que tivemos maior dificuldade de nos chegarmos, sentou ao meu lado, num tronco de árvore, colocou a mão no meu ombro e disse: eu achava que não ia conseguir amansar você! Mas consegui! Aí, ele retirou o seu disco labial e me deu de presente. Eu é que era considerado o "branco bravo", imagina! Mas adorei a confissão e guardo até hoje o disco como lembrança de um momento engraçado, mas emocionante.

Marília: E a surpresa desagradável?
Peret: Por razões pessoais, não vou citar o ano em que isso aconteceu. Uma vez, o presidente da FUNAI me ofereceu uma parceria, que nos daria a oportunidade de ganhar 100 milhões de cruzeiros (a moeda corrente na época) de investidores da Amazônia, em troca de terras dos índios, que ele mesmo se encarregaria de lhes tirar e colocar em local sem minérios e recursos naturais - o motivo de cobiça dos investidores. Eu fiquei muito decepcionado. Pensei:eu aqui, remando com meia dúzia de gatos pingados contra a maré, e uma corja tramando contra os índios, ao invés de cumprir a missão para a qual são pagos. Mas resolvi denunciar a proposta indecente às autoridades. E, como sempre acontece por aqui, eu é que fui demitido. Mas há males que vêm para bem. Com a experiência profissional que adquiri, consegui ótimos trabalhos e consultorias, que me renderam muito mais do que eu ganhava na FUNAI.

Marília: A sua família participa da sua vida literária?
Peret: Este ano fui eleito "Pai do Ano", pela Associação Cultural e Social Casa do Acre. Meus filhos foram lá e apresentaram uma paródia sobre a minha vida. Foi a primeira vez que fui aplaudido pelo meu currículo. Quando eu estava redigindo o livro "Inã-Son-Wera - Mitos e Lendas Karajá", meu filho Luis Eduardo, com oito anos, me ajudou na linguagem. Ao ler os originais e não entender uma expressão, indagava. Eu sugeria sinônimos até ele dizer: ah! É isso? Eu substituía a palavra pela que ele havia entendido. Minha filha Denise e minha mulher Marly lêem sempre os meus originais e fazem sugestões. O Luis Eduardo verte meus textos para o inglês.

Marília: Viver na Amazônia deve ser uma experiência mágica. Você acha que ocorreram mudanças em você, em função de sua opção de vida?
Peret: Em 1994, uma jovem veio à minha casa, falando castelhano e perguntou: aqui mora o ancião sábio e sacerdote indígena João Américo Peret? Eu respondi: nem tão ancião, nem tão sábio. Aí, ela disse: bem, nós não sabemos. Mas o meu mestre Chamalú, da comunidade Janajpacha, que fica nas Cordilheiras dos Andes, na Bolívia, sabe. Ele me mandou aqui para te convidar para o Encontro Mundial de Anciãos Sábios e Sacerdotes Indígenas das Américas. Aqui estão o convite, a passagem e o dinheiro para a viagem. O encontro será daqui a três meses e sua presença é imprescindível. Fui. Foi outro momento muito emocionante da minha vida. Afinal, ser reconhecido como um ancião sábio, como os grandes chefes e sacerdotes de tribos indígenas, para mim, é uma honra. A mudança foi nesse sentido. Fiquei impregnado, de corpo e alma, de toda a cultura indígena. Dirigi minha vida baseado em seus valores e crenças. Tanto é que fui reconhecido como tal pelos próprios índios. Desde então, participo dos encontros em alguns países e me sinto muito à vontade junto aos "meus pares"...

Marília: Você gostaria de deixar uma mensagem para os "Velhos Amigos"?
Peret: Olha, eu tive algumas decepções nessa minha missão. É, porque considero minha atividade como uma missão, um ideal de vida.
Mas os tombos não conseguiram me derrubar. Lutei e acho que a satisfação e a realização, como eu já disse, superaram as dificuldades. Por isso, como mensagem, vou recitar um trecho do poema indianista "I-Juca Pirama", do grande escritor brasileiro nativista, Gonçalves Dias: "Não chores, meu filho, não chores que a vida é luta renhida: viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravos só pode exaltar". Esta é a minha mensagem.

Marília: Que lindo! Bravo! E muito obrigada pela entrevista.
Peret: - Eu também agradeço.

Setembro/1926 - Março/2011

Autor(a): Marília Bellizzi Jaccoud

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA