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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

JOÃO ROBERTO KELLY
publicado em: 21/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 26/04/2003

LOU: Estou tendo a honra de receber em minha casa, João Roberto Kelly, que veio conceder uma entrevista ao "VelhosAmigos".

João Roberto, você é um dos últimos, ou talvez o último compositor de marchinhas de carnaval; porque depois de você, ninguém mais compôs nada para o carnaval. Me conta sobre isso. Quando a sua vida de músico começou? Que eu saiba, desde criança, você já tocava piano; já era uma pessoa voltada à música. Então, me conta aí da sua vida.

JOÃO: Sim, claro. Eu muito garoto ainda descobri, em mim mesmo, essa coisa da música. Ainda pequeno, com 4, 5 anos, junto com meu irmão, cantávamos aquelas músicas da época... "Anjo do Inferno", "Quatro Ases e um Curinga", eu tocava um tamborzinho e ele tocava também um instrumento de ritmo. Então, foi a nossa primeira manifestação musical né... Cantávamos em festinhas de família e tal, e a minha família do lado de minha mãe, é toda ela formada por gente que tocava piano - minha mãe, minha avó. E eu comecei também a me interessar pelo piano muito cedo, com 6, 7 anos, vendo minha mãe, vendo minha avó, e outras parentes tocando.

Comecei também a experimentar o piano e cheguei até a tocar de ouvido. Minha mãe começou a me dar umas noções e eu, com 11, 12 anos, já tocava piano de ouvido. Aí minha família me colocou no Conservatório Brasileiro de Música, pra estudar com uma professora, mas o meu forte sempre foi a criatividade, sempre foi a coisa espontânea, brotando de dentro de mim. E graças a Deus e aos ensinamentos da minha família, pude conjugar essa coisa que vinha muito forte dentro mim, com alguma cultura também, com algum entendimento melhor de música.

Cheguei a me formar em teoria, a fazer um curso de piano; não todo, porque a minha maneira de tocar era muito exuberante e, de vez em quando, conflitava um pouquinho com os grandes clássicos, com aquelas partituras, mas enfim, eu tive um universo de música muito bonito, muito saudável e daí redundou o meu piano; daí redundou a minha maneira de ver a música e, principalmente, de dar vazão à minha paixão - a composição.

LOU: Quando você nasceu?
JOÃO: Em 1939. Eu já sou sessentão, né...
Nasci no dia 24 de junho, dia de São João, por isso que eu me chamo João. Dizia a minha mãe que meu nome ia ser Roberto, mas ela começou a sentir as dores do parto, naquela noite, véspera de São João, quando havia balões no céu. Eu acho que até os balões eram mais inocentes naquela época e não incendiavam nada... Hoje, você solta um balão, pega fogo; antigamente soltava, dizem que não acontecia nada né... Naquela noite bonita, estrelada, eu nasci, e aí, invés de ser Roberto, eu passei a ser João Roberto, por causa do dia do nosso São João Batista. Que bom, né, pra mim!

LOU: E quais são os nomes de seus pais?
JOÃO: O nome de solteira da minha mãe é Luzia Esteves. O nome de meu pai é Celso Kelly e o meu é João Roberto Esteves Kelly.

LOU: É. Naquela época, quase todo mundo tinha nome composto, tinha dois nomes...
JOÃO: É verdade... Embora o meu irmão, que era uma pessoa que eu adorava, que já nos deixou há..., Meu irmão morreu muito cedo tivesse um nome só, Fernando... (risos)

LOU: Seu pai faz parte da história cultural do nosso país...
JOÃO: O meu pai, Celso Kelly, um homem muito conhecido na cultura, foi presidente da ABI; foi um jornalista, um professor muito querido, Secretário de Educação aqui no Rio de Janeiro muitas vezes...

LOU: Foi diretor do Departamento de Cultura... JOÃO: Foi também... Pois é... O meu pai foi um exemplo pra mim, não só pela sua retidão mas, principalmente, pela intelectualidade, né, pelas curiosidades que ele tinha, de saber, de ensinar, principalmente...

UM ETERNO APAIXONADO...

LOU: E aí... Me conta como foi que você começou a compor essas marchinhas, esse tipo de música?
JOÃO: Eu tive influência das marchinhas, porque eu e meu irmão cantávamos muitas coisas de carnaval principalmente. Cantávamos mais o repertório dos Anjos do Inferno - "O cordão dos Puxa-sacos", (cantarola) "Lá vem o cordão dos puxa-sacos" (risos); cantávamos "Nós os Carecas", (cantarola) "Ah! Nós os carecas, com as mulheres somos os maiorais. Pois, na hora do aperto, é dos carecas que elas gostam mais". Íamos cantando essas coisas todas e sambinha, né... (cantarola) "Ontem cheguei em casa, Helena, te procurei e não encontrei. Fiquei tristonho a chorar. Passei o resto da noite a chamar: Helena, Helena, vem me consolar!" E muitas coisinhas, assim bonitinhas. Eu acho que o Carnaval brotou em mim muito cedo, e eu, tocando piano um pouquinho depois, porque essas coisas eu cantava, ainda não era pianista, não tocava, não era estudante.

Quando eu comecei a tocar, aí eu me interessei pelo repertório internacional, que coisa bonita... Eu comecei a entrar pelo mundo da música, harmonicamente falando, porque o piano lhe abre uma série de caminhos, você começa a conviver com a melodia internacional, que é muito rica também, e eu ali no meu ouvido e ao mesmo tempo estudando, eu tinha aquilo tudo na cabeça e sei lá... Fui tocando, fui tocando, fui evoluindo e comecei a agradar muito.

LOU: Você tocava em festinhas?
JOÃO: Tocava em festinhas, assim do colégio. Estudei no Colégio Padre Antônio Vieira, depois fiz o curso de direito na Faculdade do Rio de Janeiro, me formei em Direito, mas nunca advoguei porque, graças a Deus, não que eu não gostasse de direito, eu gostava muito, mas a minha vida artística começou cedo e eu tive sucesso cedo. Não dava pra conjugar muito as duas coisas, né? Então eu comecei a trilhar o caminho da música, as festinhas... e todo mundo me chamava: "Roberto, vem tocar aqui!", "Ô Kelly, vem tocar aqui"! E tal... E com isso também, sabe Lourdes, eu arrumava uma porção de namoradas... Íííí... Como eu era namorador, meu Deus... Como eu era namorador. Eu sou namorador até hoje.

LOU: Ah é?
JOÃO: Ah sou! Gosto... (risos), você já imaginou um pianista que não namora, não sai mais nada quando ele senta ali, fica ruim...

LOU: Aí não tem a inspiração... Mas também a fossa dá inspiração...
JOÃO: Será que dá? Mas aí é em função do namoro. A base é...é o amor.

LOU: Qual foi a primeira música que você gravou?
JOÃO: A minha primeira oportunidade, como compositor, foi quando eu gravei o "Samba do Telecoteco"...

"Samba que não tem telecoteco, lá no morro é xaveco, não é samba não, a turma bate o som...", e daí vai por aí em diante, mas antes...

LOU: Eu vou gravar isso...
JOÃO: Vai?... Esse "Samba do Telecoteco"? A minha primeira oportunidade foi no Teatro de Revista, Teatrinho Jardel, ali na Rua Bolívar. Meu pai era muito amigo do Geisa Abouch, que era o diretor do Teatro Jardel e eles vinham tocar por aí. E aí o Geisa disse: "Ah Celso! Traz o seu filho pra cá, que eu quero que ele musique uma peça". Eu era aluno do primeiro ano de Direito na Faculdade e eu fui musicar e musiquei logo uma peça: "Sputnik no Morro", que foi um sucesso absoluto...

LOU: Como foi? Você lembra dessa música? JOÃO: Não, foram várias músicas, não foi uma só e esse "Samba do Telecoteco" fazia parte já da trilha sonora. Tinha muita música no "Sputnik no Morro". Eu comecei ali, porque aquilo foi o balão de ensaio pra quando, na televisão, eu musiquei aqueles grandes musicais: "Times Square", "My Fair Show", "Praça Onze", "Noites Cariocas", todos, praticamente todos...

LOU: Era TV Tupi na época?
JOÃO: TV Excelsior, TV Rio.
A Tupi já existia, mas não investia tanto nesse tipo assim de show, com muita gente cantando, dançando. E essas músicas todas, Lourdes, eram minhas, "Samba de Branco", aqueles quadros maravilhosos com Grande Otelo, com a Aizita, com a Dorinha Durval, com Daniel Filho. Eu, hoje, tenho uma mídia muito voltada pro Carnaval, mas essa parte toda aí de musicar shows de televisão...

LOU: E é isso que faz falta hoje na televisão... tenho certeza...
JOÃO: Eu tenho a impressão que é, porque fui até convidado, agora, recentemente, a rever uma partitura minha, de uma peça que musiquei... Isso é uma novidade que eu tô te dando em primeira mão... ninguém ainda sabe que aquela menina, que fez o papel da Carmem Miranda, a Estela Miranda, que, hoje, é a Diretora da Sala Baden Powell, escolheu uma peça, musicada por mim, chamada "Vamos Brincar de Amor em Cabo Frio" para ser remontada agora.

LOU: De quem é o texto?
JOÃO: Do Sérgio Viotti. E já tá escolhido o elenco e tudo mais... Ontem mesmo, falei com ela e eu estou fazendo uma revisão de todas as músicas que eu fiz pra essa peça, que vai ter um elenco muito bom. Talvez a Marília Pêra, aquela Cláudia Neto e me parece, o Eduardo Dusek também. Então, eu vou voltar agora, porque esse lado da minha vida é muito importante. Eu acho tão importante quanto o Carnaval. Eu, musicando esses shows todos. O "Times Square".... você lembra do "Times Square"?

LOU: Claro era um programa imperdível...
JOÃO: Programa espetacular; musicado por mim, o "My Fair Show". Depois fui pra Tv Rio, enfim, e esse lado agora. Eu tenho certeza que vai ser comentado, porque essa peça "Vamos Brincar de Amor em Cabo Frio", eu musiquei exatamente nesse período dos grandes musicais da televisão. Então, legal pra mim e legal pro gênero; como você disse, faz falta e eu acho que não faz falta só na televisão. Eu acho que faz falta na música, no meio musical nosso, porque isso é uma forma de você mostrar uma música mais aberta, mais internacional que pode viajar pelo mundo e tudo mais.

EGUINHA POCOTÓ

LOU: E me diz uma coisa, você acha que essa febre dessas músicas tipo "Eguinha Pocotó", foi uma febre, uma virose que já está passando?
JOÃO: Não... Você sabe que eu vou até surpreender você com uma resposta que eu vou te dar... Eu não tenho nada contra essas músicas (risos)... Porque eu tenho pessoas, colegas que têm um desdém por essas músicas... Não, eu não vou ter desdém por nada. Porque tudo que se conclui, tudo que se faz em termos de música, tem o seu valor... Porque "Eguinha Pocotó", por exemplo, eu não vou gostar, claro que eu não gosto da "Eguinha Pocotó", acho aquilo primário. Acho que isso aí é... Mas essas Eguinhas Pocotós, já existiram muito... Eu lembro que quando era garoto, eu não gosto de falar em coisas que eu não gosto, assim, e tudo mais, eu falo com ressalva porque mesmo não gostando, se fez sucesso, é porque algum valor tinha. Eu lembro, por exemplo, do Teixeirinha que tinha um negócio chamado "O Churrasquinho de Mãe". Em todas as épocas, sempre houve coisas assim...

LOU: Mas o sucesso na mídia, é mais pelo escândalo... É mais pelo choque...
JOÃO: Então é o choque. Eu me lembro de outras coisas mais que surgiram. Havia boleros assim, muito melosos, brasileiros e tal, não gosto muito de citar....

LOU: Agora a "Eguinha Pocotó", por exemplo, na nossa festa quando tocou, foi uma animação enorme, porque eu acho que as pessoas nem prestam a atenção na letra, mas gostam do ritmo...
JOÃO: Então... O ritmo, o balanço, algum valor tem. Eu acho que isso vai passar, mas você pode estar certa (risos) de que em algum tempo vai surgir alguma outra "Eguinha Pocotó". Talvez não nesse ritmo, mas num outro ritmo, numa outra coisa. Esses fenômenos assim, nessas músicas essencialmente fabricadas e comerciais, não são só no Brasil, acontece no mundo inteiro...

LOU: E eu acho também que é pra chocar... E passa a ser o assunto: "Ah! Você já ouviu uma coisa dessas?" Aí vai e pede pra tocar de novo... resultado: vira sucesso...
JOÃO: E a mídia apóia, aí a coisa vai em frente, mas eu acho que foram parando. São modismos, que aconteceram aqui, aconteceram ali. Agora a música boa fica sempre.

LOU: Mas é necessário que volte esse tipo de música. Todo mundo sente falta!
JOÃO: Eu acho!

LOU: Eu sou testemunha de que, agora, as pessoas tão precisando tanto deste tipo de música, que quando aparece um Roberto Kelly de novo, as casas ficam cheias.
JOÃO: Realmente ficam e eu tenho encontrado, aí, um público de pessoas que me conhecia, e outras tantas novas que vêm me conhecer, e eu fico muito satisfeito.

LOU: E pessoal jovem adora suas músicas..
JOÃO: Adoram sim. E eu tenho a dar a elas, principalmente a minha verdade, porque eu não mudei nada, minha coisa é igual. Agora, evidentemente, que a música da gente vai evoluindo, mas dentro de um sentido que a gente sabe qual é, meio fora do modismo excessivo, e tal. Você tem que fazer umas concessões, de vez em quando, mas não demais.

LOU: Tudo muda e a gente tem que acompanhar.
JOÃO: Tudo, mas não demais. Eu sou uma pessoa que gosta da evolução, mas não gosto da alienação. O cara ficar fora daquilo que ele é pra ser um negócio que veio... Não!

LOU: Quais são os seus planos, além dessa maravilha desse musical?
JOÃO: São vários. Esse é um musical que vai ser relançado e eu estou compondo, quer dizer, tinha muitas músicas que foram feitas pra esse musical que já esteve em cartaz no Teatro Dulcina, acho que no ano do "Time Square", 65, 64 e com um elenco espetacular. Era a Companhia Jardel Filho & Márcia de Windsor. Eles eram até casados naquela época. Teve a Dulcina, a grande Dulcina, teve o Cláudio Cavalcante, teve aquela Zeni Pereira, aquela moça de grande valor, tinha o João Paulo Adour, tinha a Sônia Clara e agora vem com um elenco novo, tantos anos depois. Que bonito isso! E eu estou fazendo uma revisão nas músicas, que eu posso fazer um pouco mais dentro do hoje. Eu tô fazendo, sem muita concessão, claro, mas bonito e a Estela Miranda, que é a diretora lá da Sala Baden Powell, é uma pessoa de muito valor e uma atriz de sucesso. Ela fez a Carmem Miranda, recentemente. Estou muito contente em estar me relacionando com ela e tudo mais. E o Sérgio Viotti, que é o autor do texto, deve estar contente também; não tenho falado com ele, mas qualquer dia eu vou lá bater um papo com ele. Aquele é um velhinho muito gente boa. Gosto dele.

NOVO CD

LOU: E você tem algum CD, aí, pintando?
JOÃO: Vai ser lançado. Vou fazer daqui a uns dias...

LOU: Você tá selecionando músicas?
JOÃO: Tô.

LOU: São de sua autoria, né?
JOÃO: A maioria. Mas é um CD tocando, não é cantado. Esse vai ser um Cd tocando. Tocando pros corações apaixonados. Eu gosto muito de tocar pros corações apaixonados. Você é apaixonada?

LOU: Sempre.
JOÃO: Todos nós, né? A paixão que a gente tem principalmente é pela vida. Nós gostamos de viver. Essa é a paixão maior. E as outras paixões a vida é que nos dá.

LOU: Acho que se a gente não tiver paixão pela vida, perde a razão. E são músicas tocadas só piano? Ou você vai ter acompanhamento?
JOÃO: Ah não. Tem sempre lá o pessoal, bateria, o baixo, um violãozinho, e tal. Eu quero manter um clima bem assim de fim de tarde.

LOU: Happy Hour
JOÃO: Happy Hour.

LOU: "Fim de tarde". Vamos falar em português porque devemos evitar falar em inglês...(risos). Nessa época, a gente não pode falar americano. Inglaterra não dá não... (risos).
JOÃO: Pois é! Realmente concordo plenamente. (risos) Mas a coisa está... em termos de composição tem muitas músicas novas. Eu vou lançar, com cantores, uma música chamada "Hoje eu Acordei" que é bonita.

LOU: Cantarola aí.
JOÃO: "Hoje eu acordei naquela de sentir saudade de você. Peguei meu telefone e liguei. Ouvi a sua voz e não falei. O amor que eu jurei pros amigos, que tinha esquecido, que ia descartar. Amanheceu colada hoje comigo. Precisei seu abrigo quem souber vai sorrir. E me gozar. Hoje eu acordei, naquela de querer gritar na sua boca a frase mais sentida e mais louca que o amor disser pra mim. Bolas, pra minha vaidade e pra sua. Bolas pra quem me gozar na rua eu voltei a querer você e fim".

LOU: Que lindo! Quer dizer, vem cá, você tá botando em primeira mão isso no nosso site?
JOÃO: Primeiríssima.

LOU: Que honra!
JOÃO: Ninguém nunca gravou isso. Algumas pessoas conhecem, porque eu toco assim em shows, e tal, mas...

LOU: Isso vai ficar gravado no site.
JOÃO: Que bom pra mim. Fico contente.

LOU: A letra e a música são suas?
JOÃO: São minhas. Chama-se "Hoje eu Acordei" e o subtítulo "Bolas". É um título. É uma coisa que você diz "Bolas". Bolas pra mim é vaidade... quer dizer, o cara quando volta a gostar de uma pessoa. Dane-se o mundo.

LOU: E também a opinião dos outros.
JOÃO: E a opinião dos outros. Eu voltei a querer você e fim! (risos)

LOU: Você parece ser uma pessoa muito apaixonada. Você casou cedo?
JOÃO: Não. Uma coisa interessante isso. Todo mundo pensa que eu fui casado mil vezes. Eu nunca me casei.

LOU: Ah, não!? Você só "ficou"... você já era avançado...
JOÃO: Eu adiantei (risos). Eu tive alguns relacionamentos mais longos na minha vida...

LOU: Mas você "ficava"!
JOÃO: Eu também ficava um pouco mais.

LOU: Morou junto?
JOÃO: Morei. Mas casar assim... eu sou solteiro. Meu estado civil solteiro.

LOU: Mas chegou a ter filhos?
JOÃO: Tenho, uma filha. Uma só. Muito legal, bacana, tudo bem.

LOU: E hoje você tá sozinho?
JOÃO: Tô solteiro.

LOU: Mas solteiro sem ficar com ninguém, ou tá morando junto?
JOÃO: Não. Antes do Carnaval, pra cá, tô solteiro, coração descansando um pouco. Fiquei quietinho no meu canto. Embora eu tenha trabalhado muito. Fiz a música tema do baile do Copacabana Palace.

LOU: Neste ano?
JOÃO: É! A Eliana Pittman gravou. "Baile do Copacabana! Internacional! Vou sambar com a Hildezinha. É o carnaval em alto astral." (risos).

LOU: Que legal!
JOÃO: "Tem Linda Conde, tem Saraíba. É luz daqui, é luz de lá, e a assinatura do sucesso, só pode ser Zeka com KKKK... o baile do Copacabana..."

LOU: Zeca com quê?
JOÃO: Zeka com k. É o Zeka Marques. Ele que me encomendou essa música, porque ele é o dono do baile: é o cara que faz a decoração toda e eu disse isso pra ele: "Como que eu vou falar em você na música?", e ele disse: "Zeca com K. Eu gosto muito". E aí Carnaval é essa brincadeira gostosa.

LOU: E isso tocava no baile?
JOÃO: Demais...

LOU: E tocou antes, com certeza, como chamada... Tocou onde? No rádio, na televisão?
JOÃO: Rádio, Tv e ficou sendo tema do baile. Essa música eu já dediquei ao Copacabana e é deles. Eu sou o autor, mas o dono da música é o Copacabana.

LOU: Ah! Que bárbaro. Muito legal. E você tá com quantos anos agora?
JOÃO: Atualmente 63 para 64. Sexagenário convicto.

LOU: Beleza.
JOÃO: E em forma, hein?!

LOU: Em forma e cheio de vida.
JOÃO: Graças a Deus!

LOU: E cheio de planos...
JOÃO: Cheio de planos!

LOU: Quais foram as músicas de maior sucesso que você compôs?
JOÃO: Vou dizer. Bom, vou lhe dizer, difícil (risos). São vários gêneros.

LOU: Cabeleira do Zezé...
JOÃO: Carnaval. "Cabeleira do Zezé", "Mulata Bossa Nova", chamada "Mulata Iê, Iê" também, "Joga a chave meu amor", "Colombina aonde vai você", eu acho essa música muito gostosa, "Paz e amor", "Israel"!

LOU: "Máscara Negra".
JOÃO: Não, essa não é minha não.

LOU: Não! Não é sua?
JOÃO: Não, não, não. "Máscara Negra" não é minha não. Meu rancho do Carnaval, "Rancho da Praça Onze", (cantarola) "Esta é a Praça Onze tão querida...". Nessa música, o Chico Anysio é meu parceiro. E em tantas outras. Todas do Chacrinha. Muita sátira, "Bota camisinha", aquela... "Maria sapatão, sapatão, sapatão..." risos. E tantas, e tantas, e tantas. De mediano "Boato", (cantarola) "Você já foi um boato, só agora eu sei", "Mormaço", (cantarola) "Você chegou na minha vida lentamente...". Essa é pros corações apaixonados. E "Ana Lúcia", e coisa e muitas outras... e as trilhas todas, dos programas de televisão, que eu volto a dizer: é um ponto forte na minha produção. Essas trilhas de televisão são importantíssimas. Você quer ver que coisa interessante? (ele abre uma sacola e tira suas relíquias). Você se lembra do "Times Square"? Esse disco aqui é um disco antológico. Porque tem aquela famosa abertura, que eu fiz que escrevi com muito carinho e com muito gosto. "Quadros transviados", com Valdir Maia, Emma D'Àvila, o Balé, Aeromoças, era Annick Mallville, Miriam Pérsia, Lílian Fernandes e no final a própria Emma D'Ávila, que se revezava com a Dercy Gonçalves, gangsters, Castrinho, aquela rapaziada toda. "Garotas do Pensionato" eram as garotas mais lindas que tinham na Excelsior, as atrizes. Não vou citar nenhuma pras outras não ficarem com ciúme. (risos). Caubois. "Samba de Branco". Esse quadro aqui eu acho que foi o maior quadro que eu fiz em televisão. Eram vários casais e depois o desfecho era no Grande Otelo e na Izita. Gosto muito desse quadro. Depois, aqui nesse disco, a idéia lá do produtor do disco eu não me lembro quem foi "Para você dançar". São esses temas todos aqui tocados, pra gente dançar. Um dia nós vamos tocar, aqui, e nós vamos dançar. (risos).

LOU: Qual o outro disco que você trouxe pra eu poder gravar no nosso site?
JOÃO: Trouxe "Mormaço" com a Ângela Maria. Ah! Trouxe um meu sim, um disco de piano que eu gosto muito dele, que eu gravei com o Luís Reis. Lembra-se do Luis Reis?

LOU: Demais.
JOÃO: Um grande compositor, um dos meus maiores amigos. E nós fizemos um disco tocando piano a quatro mãos.

LOU: Essa eu vou colocar no site?
JOÃO: Eu gostaria muito. É uma homenagem minha ao Luís.

LOU: Grande Luís Reis!
JOÃO: De quem eu sempre gostei muito. Um grande amigo, por quem sempre tive muita admiração.

LOU: Quando você era criança muito peralta?
JOÃO: Eu era muito esperto, gostava de jogar futebol, gostava de tudo. Sempre fui um garoto levado.

RECORDAÇÃO DA INFÂNCIA

LOU: E me conta uma travessura sua na qual você tenha levado um bom castigo. Porque estudar no Padre Antônio Vieira não devia ser fácil não, né!?
JOÃO: Não, não, não. No Padre Antônio Vieira, um dia eu fiz um buraco... um dia eu tinha um professor, que eu não gostava muito dele, e um dia eu fiz um buraco atrás da baliza que tinha no campo de futebol lá em cima. Eu fiz um buraco. Aí eu espalhei no colégio que aquele buraco era pra enterrar um professor (risos), ali sabe? Os professores ficaram assustados. "O que é esse negócio aí desse buraco?". Aí o diretor veio falar comigo, Dr. Décio Werneck. "Ô João Roberto! Que é esse buraco aí que você tá fazendo, e tal, e coisa..." e eu disse: "Ah não! Isso é uma brincadeira, e tal..." e ele disse: "Não, mas isso tá correndo aqui no colégio, de sala em sala, que você fez um buraco pra enterrar um professor". Eu disse: "É realmente eu fiz um buraco pra enterrar um professor..." e ele disse: "Quem é o professor?" e eu disse: "O professor Villas-Boas de Matemática". Pronto. Aí ele falou com o professor Villas-Boas e o professor veio falar comigo: "Mas que negócio é esse que você vai me enterrar num buraco?" e eu disse: "É que o senhor é um homem estranho, esquisito...", e eu já gostava do meu pianinho, minhas coisas. "Eu não vejo nada no senhor que me agrade (risos). Eu vou te dar um conselho. Não passa ali pelo campo de futebol não, porque se o senhor passar, eu vou dar um empurrãozinho no senhor e o senhor vai cair naquele buraco"."E o que que você vai fazer depois?" "Eu vou lhe tirar do buraco. É só pra eu rir um pouquinho. Eu nunca fui mal (risos)."

LOU: Você ficou de castigo?
JOÃO: Fiquei. Quase fui expulso do colégio. Aí foi o velho Dr. Professor Celso Kelly, lá. Dr. Décio falando: "Professor, o Roberto tá com umas idéias diferentes". Aí o professor falou assim: "O senhor já viu as músicas dele? Já viu como ele é musical, como ele é artista?" E no colégio eu era um excelente aluno. Eu era sempre segundo, terceiro aluno da turma na classificação. Aí o Dr. Décio chegou e disse: "Chama o João Roberto, chama!". Aí eu cheguei na sala. Dr Décio, eu e papai. "Vamos parar com esse negócio do buraco?" E eu disse "Vamos! Acabou! Vou mandar tapar o buraco". Aí o Dr. Décio falou assim pra mim: "Agora canta um samba teu aí..." Pronto! Acabou tudo! Todo mundo cantando... Eu cantando, Dr. Décio cantando, papai cantando, aí acabou e não se falou mais nisso.

LOU: Depois disso, você aprontou mais alguma?
JOÃO: Houve um outro caso, também estranho, com negócio de direção. Era na Faculdade de Direito, ali no Catete, no Rio de Janeiro.
Eu estudava ali. E eu fazia as músicas do teatrinho Jardel e tinha aquelas mulheres todas lá, mulheres maravilhosas, Eloína, Sônia Mamede. Os meus colegas tinham uma inveja de mim danada, e eu magrinho, assim, novinho, mas com cada avião que... Aí, um dia, um deles me perguntou: "Você dá conta disso?" e eu disse: "Não sei. Isso é problema meu, não é de vocês". E eu, às vezes, terminadas as noitadas que eu fazia, eu chegava de manhã na faculdade com uma mulher daquelas, uma pequena daquelas. É bom que dá um certo realismo à nossa entrevista. E os colegas ficavam todos doidos. Tinha o Lamas que era ali perto, era no Largo do Machado. O Lamas, hoje em dia, nem sei onde é mas, naquele tempo era no Largo do Machado. Saía dali eu ia pro Lamas. Eu fazia um auê ali generalizado. E o negócio chegou aos ouvidos do Reitor, que era o Ary Franco, e ele me chamou: "Ô rapaz o que tá havendo? Você tá trazendo mulheres aqui pra faculdade?" Eu disse "Não... são colegas minhas de trabalho. Eu gosto muito e fazem peças comigo". Aí o Ary Franco disse: "Não. Você não vai mais fazer isso". E eu disse: "Vou. Porque eu não posso ter liberdade? Que isso? Não posso trazer uma colega?" E ele: "Não. Você não deve trazer". Aí eu comecei a espalhar que o Dr. Ary Franco era um sujeito que castrava um pouco a minha liberdade. E a faculdade começou a ficar contra o Ary Franco e eu tinha um colega que se chamava Geraldo Vandré. Quando eu disse que tava... Ah! O Ary Franco me pediu pelo amor de Deus: "Pára com essa onda contra mim aí!" Por causa das minhas vedetes. Tá vendo? (risos)

LOU: Isso, em que ano mais ou menos?
JOÃO: Antes de 60 devia ser. Mais ou menos ali 59, 60.

LOU: Foi a geração que começou a modificar. A gente começou a acabar com os tabus.
JOÃO: O Geraldo me adorava. Ele dizia pra mim assim: "Ah! João Roberto! Faz isso sim. Faz isso sim, porque quanto mais a gente protesta,..." e eu disse: "Eu não protesto muito na política, mas eu protesto nos costumes".

LOU: É isso mesmo, porque se a gente não fizesse isso, o mundo continuaria igual. Acho que foi a nossa geração mesmo que fez as grandes mudanças dos costumes...
JOÃO: Foi. Eu tinha muitos colegas na faculdade. Por exemplo, tinha o Geraldo, esse era de turma, né? Tinha o Carlos José, seresteiro que hoje é presidente da Socimpro, tinha a Suely Franco, que é uma grande atriz, das melhores que nós temos, e outros artistas que eu não me lembro bem. Mas esses três eu me lembro muito. Com quem eu conversava muito, trocava idéias.

LOU: Me fala do "Monobloco".
JOÃO: O "Monobloco" até, Lourdes, foi uma coisa interessante isso, porque eu já apreciava esse conjunto e aí um dia o meu editor disse pra mim: "Tem um pedido de uma gravação de um conjunto "Monobloco" ".Mas aí eu disse: "Eu gosto muito dessas caras". "Pra gravar duas músicas suas". E eu disse: "Quais são?" "Mulata iê iê iê" e "Cabeleira do Zezé" e eu disse: "Que maravilha!". Eles então incorporaram ao repertório deles sem eu nem os conhecer. "A Mulata iê iê iê" e a "Cabeleira do Zezé". Quando, dias depois, eu fui convidado a ouvir esse CD e eu fiquei maravilhado. Aí fiquei tão maravilhado que sei lá. Fui vê-los na Fundição Progresso na Lapa. Uma loucura! O povo todo cantando as minhas músicas em ritmo de funk. Eu disse: "Meu Deus! Eu voltei aos meus 20 anos. Eu estou de novo aí..." (risos).

LOU: Que bárbaro! Então qual é o recado que você dá pros Velhos Amigos?
JOÃO: Muito simples. Os "VelhosAmigos" são a razão de ser de todo o artista. Porque o artista quando ele atinge desde os novos, aqueles que estão começando, até os velhos, ele é notável. Atingir os novos é mais fácil; ficar no coração dos velhos é que é a glória. Eu sou um homem gratificado porque realmente eu sei que eu atinjo o coração dos nossos "VelhosAmigos" e, a eles, o meu respeito e o meu melhor carinho e um brinde!

LOU: Onde as pessoas poderão comprar essas músicas que gravamos aqui no nosso site?
JOÃO: Pelos telefones: 2252-8020 ou 2251-2113

LOU: Muito obrigada. Nós ficamos emocionados com a sua entrevista.
JOÃO: Muito obrigado.

Revisão: Anna Eliza Fürich

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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