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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

JORGE DÓRIA
publicado em: 22/01/2016 por: Netty Macedo

 

Não sei se foi num livro de Domingos de Oliveira ou do Claudio Cavalcanti que li uma definição supimpa de teatro:
"O teatro é a brincadeira mais séria de se brincar a vida."

Dória: Quer que eu comece dizendo onde nasci, quando, esses babados?

Simão: Como quiser.

Dória:Nasci em 12 de dezembro de 1920, no Rio. Sou Sagitariano.

Simon: Você gostaria que existisse outra vida?

Dória: Eu acho que o ser humano é pequeno demais para se repetir... Nasci no Rio, em São Francisco Xavier, na Rua Visconde Itamaraty, que é uma daquelas que vai sair num dos portões do Maracanã. Depois, morei muito tempo na Rua Teodoro da Silva, onde morreu o Noel Rosa. Passei minha infância e minha adolescência ali, pela Avenida 28 de Setembro.

Simão: Houve algum arrependimento em ter abandonado a carreira militar?

Dória: Não, porque eu seria um péssimo militar.

Simon: Enquanto seu pai vivia, você não ousou entrar para o teatro, não é?

Dória: Papai morreu quando eu tinha 14 anos, e nem ao longe me passava pela cabeça que eu tinha alguma tendência artística. Até os 21 anos, jamais entrei num teatro. Quando fui trabalhar pela primeira vez em teatro, nem sabia quem era Eva Tudor, a dona da companhia onde eu ia representar. Quando fiz minha primeira peça, eu já era casado.

Simon: A fusão de um amazonense com uma gaúcha tinha que gerar coisa boa?

Dória: No dia em que nasci, faltou luz no Bairro, Vila Isabel, Rua Visconde de Itamaraty, e nasci numa casa enorme, com dezoito quartos, quatro salões, sendo um deles o lugar onde recebíamos visitas e fazíamos saraus... e nossa sala de visitas era toda decorada com estátuas gigantescas de mármore preto, de figuras mitológicas.

Elas eram o meu pavor: quando fazia alguma traquinagem, era posto de castigo na sala e trancado, o que me deixava em pânico. Eu ficava chorando baixinho aos pés da Estátua de Euterpe, Deusa da música e da poesia, que era a única com uma expressão doce.

Na hora em que eu ia nascer, e mamãe começou a sentir as dores... o bairro ficou às escuras e eu nasci à luz de velas e candeeiros, à sombra, silhuetas de algumas pessoas. E assim tem sido a minha vida, sempre iluminado por refletores. Eu nasci para viver embaixo de refletores.

Simon: É óbvio que você vai dizer que seu pai era muito inteligente e severo.

Dória: E era. Já não posso dizer o mesmo de mamãe, que era uma mulher simples, boa mãe, mas que vivia agarrada a dinheiro e preconceitos. Muito ciumenta e nada brilhante. Agora, papai era luminoso!

Simon: Seu pai era carinhoso?

Dória: Não me beijava nem me cheirava, gostava mesmo era de machucar. Machucar com abraços apertados, másculos. Papai tocava violino e bandolim. Ao violino, ele interpretava canções que muito me emocionavam.

Papai morreu aos 41 anos de idade. Papai me influenciou, não por sua disciplina rígida, mas pelo seu brilho pessoal, sua alegria seus casos, seus improvisos.

Devo ter puxado a ele, parte do meu talento devo a ele... Numa reunião, papai era como um sol. Se ele tivesse vivido mais tempo, provavelmente eu não teria sido ator. Sua personalidade exercia forte ação sobre mim, era meu ídolo. O máximo que eu poderia ser hoje, era um general muito engraçado.

Simon: Há muita gente que divide os atores em comediantes, humoristas, dramáticos… Como você já fez de tudo, seria só um ator?

Dória: Dizem que sou um comediante. Eu não sei, meu filho, não sei… Quando alguém está em cima daquelas tábuas que se chamam palco, sob as luzes de refletores e várias pessoas pagaram para vê-lo, pousaram suas bundas nas cadeiras e viram aquele cara lá em cima fazendo eles rirem, chorarem, meditarem, falando sobre traição, revolução, desprezo, ira, sexo, paixão ou vingança, esse homem é simplesmente um ator. O ator é um indivíduo que representa.

INÍCIO DE CARREIRA

Simon: Seu primeiro arroubo como artista foi mesmo o teatro?

Dória: Cinema, comecei fazendo "Mãe" que era uma rádio-novela do Ghiaroni que fez muito sucesso na Rádio Nacional e no cinema foi dirigida pelo Theóphilo de Barros Filho, que fez uma bela carreira dirigindo novelas na TV Tupi.

Simon: Mas por que assim, de repente cismaram que você era ator?

Dória: ...Fui escolhido porque, modéstia a parte, eu era um garoto bonito e na época não havia muitos galãs...

Simon: Como a Eva te fisgou?

Dória: Eu era bonito e engraçado, que é uma vantagem para você iniciar uma carreira artística. Eu conheci o Walter Pinto. O Walter tinha um grande amigo, Leoni Dória Machado que acabou sendo um grande amigo meu, tanto assim, que meu nome é Jorge Pires Ferreira e em homenagem ao Leoni, passei a ser Jorge Dória.

Como eu não tinha nada para fazer, o Leoni teve a idéia de escrever uma peça, e em cima do seu esboço, escrevemos uma comédia "As pernas da herdeira".

Nossa peça foi feita num teatrinho que existia no Leblon e a direção foi da famosa Esther Leão e a companhia foi a da vedete Zaquia Jorge. Eva, Luiz Iglesias, seu marido, e um diretor alemão, Willy Keller foram assistir a peça, gostaram do meu desempenho e me convidaram para participar de "Amigo da onça" (eu devia estar com o que? Uns vinte e sete, vinte e oito anos…) e fiquei na companhia da Eva cinco anos, dirigido por grandes diretores, inclusive Henriette Morineau e aprendendo com a própria Eva que foi colega e professora.

Simon: Mas seu primeiro emprego foi o de jornalista. Você chegou a trabalhar em "A Sombra" ou "Sombra" que era uma revista sofisticada…

Dória: Trabalhei lá com o Ibrahim Sued, que era fotógrafo, e eu ia com ele para entrevistarmos pessoas de alta-sociedade, cobrir casamentos, batizados, festas, saraus, eu não dizia besteira, não.

Simon: Como foi sua passagem pela companhia de Eva Todor?

Dória: Além de dramaturgo, o marido de Eva também fazia música, letra de música. "Boneca de pixe" é um clássico que ele compôs com o Ary Barroso…

Simon: Eva Todor, sendo primeira atriz e dona da companhia ao escolher a peça não selecionava sempre os melhores papéis para ela? A maior fatia do bolo não seria ela quem iria comer?

Dória: Eva sempre foi uma grande colega em cena. É claro que quando o seu marido escrevia, fazia o personagem mais rico para ela. Luiz Iglesias, marido dela, numa peça americana, ao fazer a tradução, os momentos mais engraçados, nas cenas mais divertidas, ele com muita habilidade, mudava tudo e presenteava a esposa.

Ela provavelmente não sabia de nada. O Iglesias mudava situações inteiras, chegava mesmo a descaracterizar uma peça, para que a esposa brilhasse ao infinito.

E eu tinha que me virar. Aos poucos, ia inventando coisas para mim. E quando o público reagia com gargalhadas de um caco que eu bolava, Eva ficava contente e pedia que continuasse a fazer. Foram até importantes essas atitudes do Iglesias, porque sem querer me obrigou a criar e a exercitar meu talento de improvisador.

Simon: Em que momento você achou que poderia ser primeiro ator? Quando foi que deixou de ser ator de suporte?

Dória: Sem que eu esperasse. Foi de repente, às pressas, tive que substituir o André Villon - não sei bem se ele ficou doente ou viajou para a Europa - e fiquei sendo o galã de Eva. Com um papel maior, eu ficava em cena quase o tempo todo...

O Luiz Iglesias, que era um tarado sexual resolveu cantar minha mulher, a Leda. Fiquei aporrinhado com essa história e resolvi sair da companhia.

PROCURA-SE UMA ROSA

Dória: Fui convidado pelo diretor Leo Jusi para substituir Jece Valadão em "Procura-se uma rosa", de Vinícius de Morais. Ele saiu para fazer um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos: "Os cafajestes", direção de Ruy Guerra.

A peça estava fazendo muito sucesso no Teatro Santa Rosa em Ipanema. E eu fui chamado correndo, tinha que entrar de qualquer maneira, porque os produtores não queriam perder as duas sessões de sábado. Eu aceitei, com a condição de que não queria ser dirigido, e Leo Jusi concordou. Eu não teria tempo para seguir as indicações do diretor numa situação daquelas.

Não houve nenhum ensaio geral… Decorei rapidamente o papel e entrei de improviso.

Mesmo sendo uma peça séria, matei os meus colegas e o público de tanto rir.

Nesse espetáculo, mesmo sendo numa situação insólita, adquiri uma coisa fundamental para o ator: coragem! A coragem de assumir-se, a coragem de dizer, fazer, de determinar, a coragem de existir em cena!

Uma outra coisa aconteceu nessa minha estréia que foi muito importante para mim. Quando acabou o espetáculo, Vinícius de Morais, que tinha ido assistir, falou assim pra mim: "Muito obrigado, Jorge. Nunca pensei que esse personagem fosse tão grande como é!".

Desse momento em diante senti que era realmente um ator. E dessa estréia em diante também tive a certeza de que um diretor de uma peça deve existir apenas para ajudar o ator, nunca para o atrapalhar.

Simon: Foi com pistolão que você conseguiu um emprego público?

Dória: Um belo dia, resolvi escrever uma carta para Getúlio Vargas, pois havia uma vaga para tesoureiro do Ministério da Fazenda e era um emprego que qualquer filho de ministro gostaria de ter. Um amigo meu, João Frederico de Mello Castro Menezes, que trabalhava no Ministério da Fazenda, me disse: "Por que você não pede o emprego a esse novo chefe da Casa Militar do Getúlio, o Firmo Freire, já que ele foi tão amigo do seu pai?"

Eu, então, escrevi essa carta ao Getúlio Vargas, que na certa deveria receber centenas de cartas por dia, e pedi ao Firmo Freire para entregar pessoalmente a carta ao presidente. O Firmo me falou: "Fique tranqüilo que já volto com uma resposta". E subiu para despachar. Voltou depois de uma hora e me disse alegremente: "Estás nomeado", e me perguntou: "Quanto é que você vai ganhar?". E eu, feliz, falei: "Quarenta mil cruzeiros". Deveria ser, em nossa moeda de hoje...

Ele berrou: "Porra, como sou burro! Fui pedir um emprego maravilhoso para um cara que eu nem conhecia, quando poderia dar essa mamata para o noivo da minha filha!" (risos). Mas já era tarde, Getúlio já me nomeara. Sou aposentado e fiquei nesse trabalho vinte e cinco anos.

REAÇÃO DO PÚBLICO

Simon: Quando o público reage na hora errada, como você faz?

Dória: Isso não existe, não é possível o riso coletivo errado! Às vezes, numa platéia normal pode haver algumas pessoas mais cultas, inteligentes, que percebem uma piada sutil e reagem, outras vezes a gente pega um público que na porta do teatro combinou: "Olha pessoal, hoje ninguém ri! (risos)"

E também acontece dos atores não estarem inspirados e o espetáculo correr frouxo. Outra coisa: o público pode rir de algo que aconteceu no palco e que a gente não sabe o que foi.

Fiz uma peça com a Suzy Arruda e que no momento em que ela descia uma sacada, dando uma risada, dois dentes postiços dela saíram voando em direção a platéia, e o público caiu na gargalhada. Eu que estava no palco não vi nada, e fiquei sem entender. Isso aconteceu em "A gaiola das loucas" e ela passou o resto da peça representando com as mãos cobrindo a boca.

Uma ocasião, nessa mesma peça, como ficamos muitos anos em cartaz, o elenco de apoio mudava constantemente, e o papel da Suzy, que era o da mulher do senador, pai da menina que ia se casar com o meu filho, era feito pela Nélia Paula, aquela vedete que deixou muita gente de pau duro, super desejada e que hoje vive na Casa dos Artistas.

A Nélia ria em cena de tudo o que eu fazia e improvisava. Uma noite, no momento em que o senador e sua esposa entram na minha casa para jantar e estávamos nos apresentando, pois não nos conhecíamos, tinha um retrato no cenário de um homem barbudo e gordo. Apontei o dedo na direção do retrato e disse: "Este aqui é o meu pai, grande homem que morreu e para quem eu peço um minuto de silêncio." Bolei esse caco.

A Nélia começou a rir, foi ficando roxa virou de costas para a platéia, se agachou e começou a mijar no palco. Não estou falando em sentido figurado não. A Nélia mijou no palco mesmo!

"O REI DOS CACOS"

Simon: Jorge Dória, se o caco não existisse você seria hoje um general-de-brigada?

Dória: ...Quando participei de "Os sete gatinhos", de Nelson Rodrigues e fiz "Fausto da Silva", de Paulo Pontes, não coloquei um caco sequer. Só ponho cacos em peças leves, em peças estrangeiras, mal traduzidas para o português.

Se vou fazer uma peça argentina, traduzida por um cearense, adaptado por um gaúcho e dirigida por um italiano, aí, meu filho, sai da frente, porque vou fazer miséria. Faço monólogos que não existem, jogo os fatos do dia em cena, pinto e bordo, faço o público gargalhar, e a peça que era uma merda, fica um ano em cartaz.

Essa peça, "Classe média, televisão quebrada", tinha sido feita no Teatro Serrador com outro nome, o autor é um argentino, e era uma baboseira só. Mudei tudo, orientei e praticamente fui co-autor, resultado: fiz o espetáculo, viajei com ele e, em alguns meses, faturei limpinho só para mim, um milhão de cruzeiros, dinheiro da época.

Simon: E qual foi aquele caco que você fez e ficou até surpreendido com a reação do público?

Dória: Fazendo "Sodoma e Gomorra" estava contracenando com Iris Bruzzi e Suely Franco, e como a peça falava em políticos desastrados, desonestos, ladrões - a peça é de 1977 e está atualizadíssima - fazia o papel de secretário de cultura, e saí-me com esta bomba: "Coisa desagradável, a gente acorda de manhã neste Palácio e os pombos já na janela ficam me enchendo o saco, fazendo "corrupto, corrupto, corrupto". O teatro veio abaixo, Teatro Mesbla. Achava o caco legal mas não achei que era tão bom.

Simon: Como você tem o pseudônimo de "O Rei dos cacos" volta e meia temos que falar nele… e é realmente um tema fascinante. Dória, alguma peça que você fez a Censura conseguiu tirar de cartaz?

Dória: Ué, "Sodoma e Gomorra, o último a sair apaga a luz", este é o nome completo da peça do João Bethencourt. Na cena da festa, eu estava alegre porque tinha conseguido vender a Catedral do Rio de Janeiro e o Pão de Açúcar, e eu estava tentando vender o Rio de Janeiro todo… eu não me lembro se era Secretário de Cultura ou de Estado, e vinha o Procópio Mariano, aquele crioulo gordo, canastrão como ele só, com uma bandeja imensa de doces e servindo os convidados, peguei um dos doces, olhei fixo para "ele" e disse: "É, hoje eu vou comer um brigadeiro." E foi um estouro na platéia...

Era o Dia da Aeronáutica e na platéia tinha uma porção de oficiais com suas esposas... Quando acabou o espetáculo, subiu um brigadeiro até o palco e com o dedo em riste na minha cara, disse: "Olha, brigadeiro não se come não, se come é um doce que se chama brigadeiro!"

Meio sem graça respondi que não tinha falado aquilo, e o oficial mais nervoso ainda, bradou: "Disse sim senhor: É, hoje eu vou comer um brigadeiro! E o senhor vai pagar caro por essa afronta." Me desculpei e ele virou as costas e mexeu lá os seus pauzinhos e tirou a peça de cartaz por quinze dias, coisa ridícula, não?

Simon: Foi seu prestígio pessoal junto aos militares que fez com que a peça do Poiret," "A gaiola das loucas", fosse liberada pela Censura?

Dória: A Censura é uma imbecilidade em qualquer sistema de qualquer país! Eu fui vítima dela quando fui fazer "A gaiola das loucas". A Censura não queria liberá-la alegando que a peça era amoral. Estávamos vivendo uma época difícil no país e era necessário que o povo risse bastante... ...foi o Egon Frank que conhecendo pessoas influentes e que tinha acesso ao presidente Geisel, chegou até ele e conseguiu liberar a peça, que, por quase seis anos, fez o Brasil rir às gargalhadas.

Simon: Você tratava o Presidente João Figueiredo por João, Joãozinho, Jojo, Fifi ou Guigui?

Dória: Você está me fazendo lembrar… (ri). O presidente Jânio Quadros teve uma aventura com uma atriz muito conhecida - você me permite, oh Simon, não declinar o nome dessa hoje senhora, que é casada, com filhos e beata - e enquanto estavam fazendo sexo, ficou constrangida sem saber como deveria chamá-lo e disse na hora do vamos ver: "Estou sensibilizada, achando nosso encontro muito agradável, mas não sei como tratá-lo." E o Jânio olhou tranqüilamente para ela e respondeu: "De Presidente, claro!"

Então, quando fui pela primeira vez jantar com o Presidente João Figueiredo, fiz a mesma pergunta e o homem esbravejou: "Vá à merda e me chame de João." Então eu pouco ligava para o que diziam de mim pois o homem era meu amigo.

Simon: Tendo um modo peculiar de representar, você prefere trabalhar com atores que sejam seus amigos, isso é indiferente, ou acha que contracenando com gente que não gosta de você pode ser até mais estimulante?

Dória: Quando entro em cena, baixa o santo! Vou em frente, pois a meta principal é divertir o público. Em cena não sou o Jorge Dória, sou o personagem, e esse personagem tem vida própria, não posso detê-lo.

Às vezes, faço um monólogo que tem três minutos e no dia seguinte faço o mesmo monólogo em doze minutos. Nunca sei o que vai acontecer.

Isso é favorável ao meu desempenho e poderá ser favorável ao desempenho de quem está em cena, se esse alguém gostar de mim e aprovar o que estou fazendo.

Fiz Plaza Suíte com Fernanda Montenegro, éramos praticamente só nós dois no palco, porque tinha um ator, um tal de Procópio Mariano - um sujeito horroroso, gordo, a própria concentração da burrice, de uma estupidez fora de série - e tinha também uma atriz que fui eu que lancei: Sandra Bréa… Foi até engraçado quando ela me pediu uma oportunidade falando assim, ingenuazinha: "Olha não tenho experiência, mas tudo que ensinam eu faço muito bem" (risos.)

Bem, mas como estava dizendo, nessa peça era só eu e a Fernanda. E o Oswaldo Loureiro me disse: "Jorge, cuidado! Fernanda Montenegro é uma atriz que não tem teto. Se você sobe, ela sobe, se você sobe mais, e se você parar, ela continua subindo, porque ela não tem teto, é uma atriz incrível".

E realmente isso aconteceu. Eram três peças distintas que compunham um único espetáculo. Na primeira peça, Fernanda e eu fazíamos um casal completando vinte e cinco anos de casamento, e ela me estraçalhou em cena. Na segunda peça, idem. Mas na terceira, Neli Simon havia escrito mesmo a peça para um grande ator.
O papel que Fernanda fazia era bom, mas era escada e eu botei pra quebrar! Várias vezes parávamos o espetáculo, pois a Fernanda morria de rir em cena, e quando acabou a temporada ganhei um dos presentes mais significativos da minha vida. Fernanda me deu uma linda rosa de prata e escreveu assim no bilhete: "Jorge Dória, acredite você ou não, aprendi muito trabalhando com você".

Simon: Quando representa com um ator inexperiente, você o orienta?

Dória: Nunca segui nem dei conselhos.

Simon: Você não faz teatro só por amor? Faria por um ideal?

Dória: Faço teatro apenas para sobreviver. Gosto de divertir os outros, mas tenho que ser pago para fazer isso. Esse papo de fazer teatro por amor ou ideal não existe. Faço teatro por dinheiro.

Simon: Para você, quais foram os seus trabalhos mais importantes?

Dória: O trabalho mais importante que fiz foi Walter Burns, o personagem de "Chicago 1930". Depois foi o homossexual de "A gaiola das loucas".

Ah! "História proibida", "Tributo", "A morte do caixeiro viajante" e "Escola de Mulheres" onde, pela primeira vez, fiquei frente a frente com um clássico.

O resultado foi tão positivo que o Sergio Brito me animou a fazer uma outra peça do Moliére, "O avarento" que, no ano de 2000, atraiu muita gente ao teatro do Leblon, fez muito sucesso no "Teatro dos Grandes Atores" e agora, está lotando o teatro SESI. "O avarento" foi escrita em 1660, quando não existia máquina de escrever e o João Bethencourt fez um trabalho maravilhoso. Sigo os passos do mestre. Preciso e tenho que divertir o público.

Simon: Quem fazia antes o que você faz hoje como ator?

Dória: Jaime Costa e Zeloni.

Simon: Quem seria, hoje, o Jorge Dória de saias?

Dória: Dercy Gonçalves, se ela obedecesse às marcações e decorasse os textos.

Simon: Você teria coragem de contracenar com Dercy?

Dória: Claro, só que ela está de saco cheio de fazer teatro.

Simon: É voz geral que fazer chorar é muito mais fácil que fazer rir. Sendo cômico por excelência, você não encontrou obstáculos em trabalhar num drama como "A morte do caixeiro viajante"?

Dória: "Tributo" e "A morte do caixeiro viajante" me deram muito orgulho pois me deram oportunidades de mostrar ao público uma faceta do Jorge Dória que ele desconhecia.

Simon: A peça "A gaiola das loucas" lhe trouxe algum dissabor?

Dória: Foi terrível! Um casalzinho muito simpático, sentado na primeira fila, ria tanto que um acabou fazendo xixi na mão do outro (risos.) O homem riu mais ainda e saiu correndo em direção ao hall do teatro e caiu fulminado. Morreu! Chamaram a ambulância e eu, atônito, fiquei sem saber o que fazer. Voltei ao palco, mandei abrir a cortina, pois o espetáculo tinha sido interrompido, e falei para os espectadores: "Pessoal, aconteceu uma coisa muito desagradável, um cidadão perdeu a vida assistindo ao nosso espetáculo. Vocês acham melhor parar a peça agora?".

E todos, em coro, pediram: "Continua, continua!". E nós continuamos pois o espetáculo não podia parar.

Simon: Qual foi a atitude inesperada que algum amigo, parente ou colega, teve em relação a você?

Dória: Escuta só essa: eu tinha sido convidado pelo diretor João Loredo - ele é irmão de Zé Bonitinho, para participar de um "Chico Anysio especial" e sempre fui profissional, topei ser escada para o Chico.

Agora mesmo, na Globo, estou participando de um quadro num programa humorístico "Zorra Total". Bom, a situação era a seguinte: o diretor mandou eu me encontrar com o Chico na beira de uma piscina, durante uma festa, todo mundo vestido de paletó e gravata.

Eu deveria cumprimentar o Chico e ele me atiraria com roupa e tudo para dentro da piscina, porque estava achando que estava de olho na namorada dele. Estranhei um pouco e perguntei ao diretor se realmente era para eu ser jogado dentro da piscina.

Antipaticamente ele disse que sim, e fez aquela expressão: "Não está gostando?" Dei um pequeno sorriso e disse baixinho: "Ainda bem que sei nadar." Naquele momento eu era um personagem, não era o Jorge Dória, um primeiro nome no teatro fazendo uma ponta num programa humorístico.

Quando começamos a ensaiar, o Chico chiou e disse para o Loredo que não tinha coragem de me atirar na piscina.
O Loredo argumentou que se eu não caísse n'água o quadro ia ficar sem graça e não teria um fim legal.

O Chico continuou se recusando: - "Porra, o Dória é um ator, não é um figurante. Qualquer ator principiante poderá fazer essa bobagem."

E houve o impasse, os dois começaram a discutir e o Chico querendo ficar do meu lado, sem querer, estava me humilhando.

Resolvi ser o mediador: "Chico, sou profissional, estou recebendo um cachê e se o Loredo acha que você tem que me atirar na piscina para a história ficar engraçada e ter um final legal, não tem importância. Pode me jogar."

Sabe o que o Chico fez? Me atirou na piscina e em seguida se jogou lá junto comigo.

Simon: Bonita essa atitude.

Dória: É o que eu chamo de solidariedade.

NOITE INESQUECÍVEL

"Conheci Iris Bruzzi, que foi uma das mulheres mais belas, e de corpo perfeito que este país já teve, na peça "Sodoma e Gomorra…" Quem sugeriu meu nome para a peça foi justamente a Iris…

E nessa ocasião, meu casamento com a Leda estava chegando ao fim. Estávamos no fim da linha… Trinta e dois anos de casado, não fazíamos mais sexo, não havia motivação… eu achava até que já estava impotente: "Será frigidez precoce?", pensava.

E a Iris percebeu isso… e ficamos amigos, mais que amigos, começamos a sentir tesão um pelo outro. Fiquei com medo de transar com a Iris porque sabia que ela era um vulcão, um tigre real de Bengala, uma deusa, e dormindo com ela uma vez, eu teria que largar a minha mulher.

E foi a mulher mais barata que tive. Durante um longo relacionamento, só me custou um telefone. E essa minha mulher agora, já me custou vários telefones... Já me custou os olhos da cara!

Você me perguntou sobre minha primeira noite com minhas três mulheres… pois bem: Minha primeira vez com a Iris foi a noite mais estranha que já passei na vida. O apartamento dela ficava perto da TV Globo. Eu estava gravando lá, e do teatro fui com ela para o apartamento dela.

Quando íamos para o apartamento dela, ficamos numa agarração, fiquei alucinado, voltei a ser homem. "Eu não estava broxa, Aleluia!" Subimos no elevador e eu já querendo possuí-la ali dentro mesmo… Enquanto ela tirava a roupa na sala mesmo estávamos pegando fogo. E foi uma loucura, foi a noite mais feliz de toda minha vida.

Simon: Gostaria que você me dissesse três músicas, cada uma que marcou o seu relacionamento com Leda, Iris e Cristina.

Dória: "Carinhoso" (Pixinguinha-João de Barro) com a primeira, "Fim de caso" (Dolores Duran) para a segunda, e "Detalhes" (Roberto e Erasmo Carlos) para a minha estrela atual e definitiva. Particularmente gosto de quase todas as canções de Dolores Duran, "Por causa de você" e "A noite de meu bem" são duas obras primas, e da fase romântica de Roberto Carlos.

Simon: Em algum momento de sua carreira chegou a ter medo do ridículo?

Dória: Eu tive medo era dos acidentes de percurso, só isso. O ator medíocre ou canastrão é que tem medo do ridículo. Por exemplo, fazendo o homossexual de "A gaiola das loucas" eu não poderia me sentir pouco à vontade e nem ficar criticando a personagem como se estivesse avisando ao público: "Olha aí, gente boa, eu não sou bicha não. Meu negócio é mulher."

Sou um homem generoso e represento o Arpagão, sujeito unha de fome, pão duro, avarento. E daí? Quanto mais o personagem for diferente de mim, tanto melhor. Fui beijar o primeiro e único homem na boca já com quase oitenta anos, quando fiz "Tributo".

Simon: Na televisão você perde naturalmente muito da sua liberdade, criatividade, não?

Dória: Claro, cinema e televisão faço esporadicamente e tenho que ser regiamente pago, já o teatro é tudo para mim e se eu me deparar com um Ibsen, Tchekhov, Tennessee Williams, faço a peça por apenas cinqüenta por cento do que peço normalmente.

Foi ele que me deu grana e prestígio. Agora, acredito na televisão, inclusive devo a ela ter conduzido muita gente ao teatro para me ver, impulsionada pelas brincadeiras que faço nas novelas da Globo.

No início eu torcia o nariz para a televisão, e ela foi me conquistando... O "Grande Teatro" liderado pelo Sergio Brito e mais tarde, a Globo produzindo adaptações de clássicos de Jorge Amado, Zelia Gattai, Érico Veríssimo, José Ubaldo, assim como contando vidas ilustres como Aleijadinho, Castro Alves, Getúlio Vargas, Chiquinha Gonzaga.

Filho, não é fácil fazer televisão. Decorar um texto de uma hora pra outra , ter aquelas luzes todas em cima de você e aparentar naturalidade. Não é mole não. E na televisão o mais importante é ser natural.

Simon: Quais as novelas que você achou seu trabalho legal?

Dória: Em 1989, fazendo mais um sujeito mau caráter, safado, cachorro, o conselheiro Vanolle na novela de Cassiano Gabus Mendes "Que rei sou eu?", e dois anos depois, do mesmo Cassiano, "Meu bem meu mal" , onde eu e Zilda Cardoso tiramos boas gargalhadas.

Em 1992, "Em Deus nos acuda", escrita por Sílvio de Abreu, que tem um senso de humor incrível, fiz um malandro pé de chinelo, golpista, meio ingênuo... Participei também de "Zazá" e "Vira-lata". Fiz também mais um cafajeste bem engraçado em "Suave veneno", em 1999, e pude constatar de perto que o Diogo Vilela é uma grande esperança para o teatro brasileiro. A mãe dele era a Eva Todor. Voltar a representar com Eva foi um grande presente que recebi.

CINEMA

Simon: Você nunca pensou duas vezes antes de participar de filmes classe B, pornochandas, bobagens coloridas?

Dória: Durante algum tempo eu me achava meio prostituto em fazer aquilo que mais gostava e ainda por cima ganhar dinheiro. Não achava correto... até o dia em que li um livro sobre a vida de Charles Chaplin e o gênio do cinema declarava que tudo que ele fez na vida foi só pra ganhar dinheiro. É claro que me sinto mais pleno, mais ligado e vivo em cima de um palco.

O teatro é muito mais vibrante que o cinema e a televisão... Não fiz no cinema só filmes leves e eróticos. "O assalto ao trem pagador", "A Dama do lotação", "A dama do cine Xangai", "Pedro Mico", "O beijo", "O beijo no Asfalto"... Fiz também minhas estrepolias em pornochanchadas como um "Varão entre as mulheres", "Eu transo...ela transa", "Como é boa a nossa empregada", que eu digo que eram pornochanchadas ingênuas.

Meu primeiro papel de destaque aconteceu em 1962, com o filme dirigido pelo Roberto Farias "Assalto ao trem pagador", onde todos os atores deram um banho de interpretação.

Simon: Por que você demorou a fazer cinema?

Dória: Diziam que eu tinha o rosto redondo e por isso não fotografava bem. Não sei porque, eu me conformei com esse preconceito imbecil e fiquei na minha, durante muitos anos, até que o Roberto Farias cismou comigo e me convidou para fazer o detetive que tinha prendido o negão Tião Medonho e modéstia à parte, fiz o papel muito bem.

O Jô Soares ligou para minha casa às três horas e meia da manhã, me acordou e disse, entusiasmado: "Jorge, vi seu filme hoje, fiquei tão impressionado com seu desempenho que não posso dormir sem antes te dizer isso. Você não fez aqueles detetives convencionais de paletó e gravata e com lencinho limpando o suor. Fez um cara casca grossa com terno amassado em cima do pijama e com o revólver escondido. Você fez realmente um policial carioca, suburbano... Tô impressionado..."

Simon: Tenho a impressão de que você faz cinema teatro e televisão por diletantismo.

Dória: Realmente nunca precisei da arte para poder comer, me agasalhar ou viver num apartamento como este, enorme, com vista para o mar... quer dizer, eu necessito da arte pra viver, e não para sobreviver...

Simon: Você recebe muito bem como alto funcionário público, claro...

Dória: Fui tesoureiro do Ministério da Fazenda e hoje, sou controlador da Receita Federal aposentado, evidentemente.

ATAQUE DE RISO

Simon: Já aconteceu alguma vez você ter um ataque de riso e não conseguir se controlar num momento ou situação que rir era a última coisa que podia fazer?

Dória: ...Curioso, eu acho enterro um negócio surrealista e quase sempre rio mais do que choro. Uma vez fui com Milton Moraes ao enterro do pai do Aurimar Rocha, homem que nunca tinha visto antes, aliás o Milton já estava na Capela do cemitério.

Quando ele me viu entrar no recinto, fingindo estar compungido e com um buquê de cravos nas mãos, começou a ficar com os olhos brilhantes, com vontade de rir. Eu tinha decorado algumas frases de efeito pra consolar os parentes, e como na hora não saiu nada, resolvi cobrir os pés do defunto.

No que fiz isso, o Milton começou a rir desbragadamente e me contagiou. Foi uma vergonha. Tivemos que sair correndo e nos trancar no banheiro, sem coragem de voltar para perto do morto. E o próprio Aurimar riu também. Ele ria e chorava ao mesmo tempo. Combinei com o Milton que nunca mais iríamos a um enterro juntos.

Simon: Mas você foi ao enterro dele...

Dória: E não achei graça em nada.

Simon: Diga um ator e uma atriz com os quais você gostaria de cruzar armas.

Dória: Durante muitos anos meu sonho era o de trabalhar com Fernanda Montenegro e eu o realizei no teatro (Plaza Suíte), na Televisão (Zazá) e no cinema (Minha namorada).

Agora, eu teria imenso prazer em enfrentar o Paulo Autran no palco. Ele é inteligente, de bom gosto, adora se divertir em cena e aceita sugestões que tenham conteúdo. Em cena ele é um malandrão. A gente sente o imenso prazer que ele sente em representar. Das atrizes, Irene Ravache é minha opção.

Simon: Não falamos ainda de uma peça sua de muito sucesso: "A presidenta".

Dória: Foi uma comediazinha que me deu muito prazer… eu fazia dois irmãos, um homem e uma mulher. Não posso dizer mais nada dessa peça a não ser que faturei muito bem e me diverti um bocado, não tinha muitas elucubrações.

Meus cacos em "A presidenta", somando todos, dava quase o dobro do texto. Não eram nem cacos, eram histórias que eu ia inventando na hora.

Não sei se foi num livro de Domingos de Oliveira ou do Claudio Cavalcanti que li uma definição supimpa de teatro: "O teatro é a brincadeira mais séria de se brincar a vida".

Em "A presidenta" eu agi como faço em todas as comédias... e o público morre de rir quando disserto sobre a banda podre da polícia e todos os acontecimentos, principalmente políticos, que são sempre os mais risíveis.

Eu os levo para o teatro e vou enxertando com sutileza, discernimento, sem forçar a barra; eu, como todo o povo brasileiro, não uso de violência para mostrar minha indignação, mas lanço mão da ironia, da gozação, e no palco tripudio em cima deles todos.

Como cada semana acontece uma nova roubalheira no país e eu levo as novidades para meu teatro, a peça fica sempre atual e efervescente.

Simon: Então pra sobreviver como ator você necessita que continue havendo corrupção...

Dória: Se eu fosse um suíço, dinamarquês, alemão, eu seria um ator desempregado. Lá ninguém ridiculariza os políticos porque o negócio é sério. O cara pisou na bola,
vai pra cadeia.

Simon: Como você imagina o teatro no futuro?

Dória: Eu vejo o teatro do ano 2500 dum modo bem diferente do que se faz hoje em dia. Porque vai haver saturação das imagens e dos textos. O público vai querer ver em cena pessoas excepcionais, pessoas e acontecimentos reais, terá que ter personalidades, terá que ter o ser humano no palco! Vai ser imprescindível se ver essa coisa maravilhosa, que é o ser humano, se expondo totalmente.

Simon: Se você tivesse que escolher numa peça entre fazer o papel de satanás e o de Deus, qual seria sua escolha?

Dória: Entre o algoz e a vítima, entre Sansão e Dalila, entre Judas e Jesus, escolheria o algoz, Dalila, e Judas, porque os personagens negativos oferecem maiores chances e nuances de interpretação. E quanto mais longe de mim estiver o personagem, um homem totalmente distinto de mim, tanto melhor.

Simon: Então entre o Diabo e Deus você faria o Diabo, claro, porque você se considera um Deus.

Dória: (rindo) Você é quem está dizendo.

Entrevista de autoria de Simon Khoury concedida ao Velhos Amigos
Resumida e adaptada por Maria de Lourdes Micaldas
A íntegra desta entrevista será publicada no próximo
livro BASTIDORES
a ser publicado pela editora Letras e Expressões,
de autoria de Simon Khoury,
radialista, jornalista, produtor e Diretor de Shows.

Autor(a): Simon Khoury

 

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