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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

JOSÉ DE PONTES
publicado em: 22/01/2016 por: Netty Macedo

O Az de Ouro do conjunto "4 Azes e 1 Coringa".

 

Ele é filho de José de Pontes Medeiros, que tocava violão, e Giselda Miranda de Pontes Medeiros, que tocava piano. Os filhos foram chegando e entrando no ritmo.... Foi nessa família de músicos que nasceu em Fortaleza, Ceará, José de Pontes Medeiros Filho, o remanescente do conjunto musical "Quatro Azes e Um Coringa". Ele festejou, com muito entusiasmo e cheio de planos, 84 anos no dia 20 de janeiro de 2005.

JOSÉ: Sempre gostei de música e quase que eu ingressava pelo piano. O meu irmão mais velho, o Evenor, também do conjunto, tocava cavaquinho, arranhava. Depois deixava o cavaquinho no chão e ia fazer alguma coisa; eu pegava o cavaquinho e começava a tirar umas musiquinhas. E foi ali que papai me perguntou se eu queria aprender violão. Aí arranjamos um professor. No princípio, só solava. Depois passei a fazer acompanhamentos.

LOU: Você tinha que idade?
JOSÉ: Mais ou menos 14 anos. Nasci em Fortaleza, Ceará, na Rua 24 de maio, 272. E, os meus irmãos vieram para o Rio. O Evenor veio em 1935. Em 1937, chegou mais um irmão aqui no Rio. Veio o Permínio.
Eu ainda estava terminando o ginásio. Mas em 1939, quem veio pra cá?

LOU: Acho que adivinho: você! (risos)
JOSÉ: O José de Pontes Medeiros Filho. Cheguei ao Rio e fui morar em Copacabana direto. Moramos juntos num quarto de residência familiar em Copacabana que tinha um sobrado e eles alugavam para estudantes.

LOU: Seus pais ficaram lá?
JOSÉ: Eles vinham aqui vez por outra. Depois que eu casei, eles ficaram por lá e nós por aqui, estudando. E todo fim de ano nós íamos pra lá. No final de 39 para 40, reuníamos lá no sobrado os estudantes. E o filho do dono da casa tocava violão também. Sendo assim, nós ficávamos tranqüilos, tocando música. O Permínio, que era o cantor, ficou de crooner ou vocalista. Nesse ínterim, veio se juntar a nós outro cearense que já estava no Rio. Ele tocava pandeiro e ficou sendo o Coringa do grupo.

Naquela época ele era chamado de Melé. Melé, aqui, queria dizer Coringa, no baralho. E tinha um gaúcho que também ia pra lá brincar conosco, tocando uma flautinha de flandre, flauta doce. É que a outra é amarga (risos). Nós fazíamos aquela brincadeira. Chegamos a nos apresentar no Colégio Santo Amaro, no Catete.

LOU: Então, vocês começaram se apresentando em colégios.
JOSÉ: É. Fazíamos brincadeiras. Nessa época, já nos convidaram para ir no Renato Murce, na Rádio Clube. Nós fizemos o programa, mas não resultou em nada. Ainda não era um conjunto vocal. Fazíamos também festinhas. E todo fim de ano, como em 39 para 40, fomos pro Ceará para passar as férias. Mas nessa jogada já veio a idéia de formar um vocal, pois nós ouvíamos muito "Bando da Lua", "Anjos do Inferno", "Os Trigêmeos Vocalistas", "Os Quatro Diabos", "Os Trovadores". E nós gostávamos de vocal. E tivemos a idéia de incrementar isso. Lá onde morávamos em Copacabana, tinha uma geladeira azul e um rádio em cima, e eu ficava com o rádio ligado, ouvindo as músicas dos conjuntos, captando tudo que era deles. Procurava ouvir a melodia, a letra e os arranjos. E foi assim que eu fui me preparando pra fazer o nosso grupo virar um vocal. Nós éramos só quatro: eu, Evenor, Permínio e o Melé.

Fomos para Fortaleza com o grupo já mais ou menos cantando alguma coisa de vocal. Fomos para o tombadilho, porque naquela época íamos de navio, ficamos lá tocando o violão e juntou gente. Então, começamos a cantar as músicas: "Eu ontem cheguei em casa te procurei, e não te encontrei...." Cantamos essa e mais outras. Chegamos a Fortaleza com a intenção de achar mais um e fazer um conjunto de 5 homens com um vocal de 4, porque o Coringa não fazia voz.

LOU: O Coringa só tocava pandeiro.
JOSÉ: Só pandeiro. Aliás, nosso atual Coringa é a mesma coisa. Chegamos lá com a idéia de convidar um elemento que estudava com o Melé, no conjunto inicial de Fortaleza, e ele aceitou. Então fomos com o grupo já de 5 elementos ensaiar na Rádio Clube do Ceará, do diretor João Dumma.

LOU: E qual era o nome do grupo?
JOSÉ: Ainda não tinha nome. Já existia "O Bando da Lua", "Anjos do Inferno" e nós pensamos em "Anjos do Céu". E depois pensamos em "Bando Cearense". O diretor da Rádio Clube do Ceará estava ficando noivo da filha do Demócrito Rocha, dono do jornal de Fortaleza, "O Povo". Ele nos ouviu e nos convidou para animar a festa de noivado do João Dumma.

LOU: Que sorte!
JOSÉ: João Dumma foi nos conhecer lá na festa do diretor do "O Povo". Cantamos e ele ficou maravilhado. Na mesma hora nos contratou para passar o final das férias, no período de dezembro pra janeiro. A partir daí, nós fizemos os programas até a nossa volta pro Rio, já como profissionais e com a intenção de arrumar colocação aqui no Rio.

LOU: O grupo afinal ficou com que nome?
JOSÉ: Os antigos componentes não se lembravam disso. Mas me lembro de ter comentado, no meio da rua, sobre a minha intenção da mudança do nome do grupo. Dizem que foi o Demócrito Rocha. Mas eu me lembro que fui eu que falei: "Temos o Melé, somos 4 mais 1. Então, porque não põe 4 Azes e 1 Melé? Mas dizem que foi o Demócrito da Rocha. Vamos deixar assim. O conjunto passou a se chamar "4 Azes e 1 Melé". Quando nós chegamos aqui no Rio, fizemos duas apresentações em duas rádios que não me lembro dos nomes. Mas não deu certo.

Então, fomos fazer a tentativa de procurar o nosso ilustre Cezar Ladeira, na Rádio Mayrink Veiga. Ele nos ouviu e gostou. Como havia uma vaga no horário nobre de Olga Paga Coelho, ele resolveu nos colocar nesse horário nobre.
Quando chegou a hora da gente entrar, ele perguntou: - Qual o nome do conjunto? Nós dissemos: "4 Azes e 1 Melé". Ele disse:
- Melé? Que é isso?
- Ô Cezar, o Melé, no Norte, é o Coringa de vocês aqui no Rio.
- Ah é? Então porque não põe "4 Azes e 1 Coringa"?
- Podemos!
Aí entramos com esse nome de "4 Azes e 1 Coringa". Só que ele pediu pra aguardarmos a nossa colocação, que viria depois de cantarmos no programa. Mas nunca que vinha a tal colocação.

Nesse ínterim me chega ao Rio João Dumma, que era amigo do Teófilo de Barros, diretor da Rádio Tupi. Quando ele soube que ainda não tínhamos conseguido nada, foi falar com o Teófilo de Barros e disse pra gente: - Pode ir lá na Rádio Tupi que ele vai ouvir vocês. O Teófilo disse que ia contratar a gente. Só que nós não iríamos nos apresentar sozinhos. Deveríamos fazer parte de um grupo no programa, "Noites do Sertão", do Mauro Mayer. Naquela época, cantava nesse programa Cleido Botelho, um grande tenor da época. E nós ficamos fazendo o programa às quartas-feiras. Quando estávamos ensaiando pra terceira semana, o Teófilo de Barros abriu a porta e disse: - Olha, rapaziada, a partir do próximo programa, vocês vão passar a fazer o programa sozinhos.

LOU: Aí, as coisas já começaram a mudar, né?
JOSÉ: Eles decidiram nos colocar sozinhos porque as cartas choveram nesse programa, "Noites do Sertão". Mas só que tinha um particular: as rádios antigamente começavam às 6 horas da manhã e terminavam às 11. Nós abriríamos a estação e depois fecharíamos. Era de 6 às 6:15 e de 10:45 às 11. Aí choveu carta também nesse novo programa. Mas tinha um concorrente nosso no meio: um concorrente pequeno... (risos) Chamava-se "Anjos do Inferno". Era a época da música "Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor...", "Você já foi à Bahia, nêgo?..." Eles estavam com esses sucessos na rua, mas estavam preocupados com o nosso sucesso e começaram a fazer fofoca. Mas nós não ligamos e fomos em frente. O resultado foi que o nosso conjunto pegou e, no final do ano de 41, o autor de uma das músicas de sucesso dos "Anjos do Inferno", do ano anterior, "Helena, Helena", procurou a gente pra mostrar uma música e disse que era do tipo do "Helena, Helena". Nós ouvimos e gostamos.

LOU: Qual era?
JOSÉ: Era "Dora, Meu Amor". Conhece?

LOU: É aquela que diz: Dorinha, meu amor, por que me fazes chorar..?
JOSÉ: Não, é outra. Nós pegamos a música e gravamos: "Depois de tanta felicidade Dorinha me abandonou. Chorei, chorei com saudade, confesso que quis esconder a dor. Mas, dormindo, sem querer chamava Dora, meu bem, meu amor. Fiz tudo pra lhe dar felicidade e um dia por maldade a malvada me abandonou...". Só que o outro lado do disco é que foi um sucesso.


Clique aqui para ouvir "Dora" e "Dois Errados"

LOU: Qual foi?
JOSÉ: É uma música que tem um título interessante: "Dois Errados". "Vi um pato e um marreco na lagoa estudando. O pato lendo baixo e o marreco gritando. Quatro mais quatro são quatro (bis). O pato ficou indignado a falar: está errado, você não sabe somar. E o marreco começou a chorar porque o pato quis lhe reprovar. O pato então gritou: eu sou de fato quatro mais quatro são quarenta e quatro". E isso mexeu com a criançada e toda criança obrigava os pais a comprar o disco por causa dessa música.

LOU: E a criançada já comandava.
JOSÉ: Então, dominou... Fez muito sucesso. Depois disso vieram outros que você conhece, inclusive até uma música do Ary Barroso que era "Coisa de Carnaval": "Eu encontrei uma baiana branca de braço dado com um palhaço lá na galeria... mas o que me fez vir água na boca foi essa coisa louca que passo a contar. Eu vi um morenão ali no Serrador lutar por um amor, a tal morena era um desacato. Alta ali era mato, pulava, sambava, gingava e desacatava. Quando eu falei com ela, meu Deus, que decepção! A tal morena se denominava... o quê? Quincas Peroba Chisto da Assunção! Que bruta confusão! (risos)

LOU: Muito engraçada. Amei.
JOSÉ: O Ary Barroso, ao invés de dar essa música pro Sylvio Caldas, nos deu. A Eliana Pitman também canta essa música.

LOU: Vocês também são compositores?
JOSÉ: Eu compunha e o Coringa também. A Elis gravou uma música que você conhece bem e o filho dela vai regravar: "É Com Esse Que Eu Vou" de 1948. (Cantando) "É com esse que eu vou sambar até cair no chão." Só que a Elis gravou com outra cadência.
Nessa época da Rádio Tupi, nós éramos sucesso. Aí veio o interesse da maior rádio do Brasil, que era a Rádio Nacional. Isso foi em 1944, finalzinho. Eles nos chamaram pra começar em janeiro de 1945. Começamos com um programa que dizia "As Aventuras do Quatro Azes e 1 Coringa", onde nós conversávamos, fazíamos papéis de atores. Logo fomos chamados para o César de Alencar. Tinha o Paulo Gracindo, o Manoel Barcelos e o César de Alencar, que era o maior. Esse programa dominou a Rádio Nacional completamente e, logo no princípio, quando nós chegamos lá, o César de Alencar veio nos procurar para que gravássemos o prefixo dele.

COMPONENTE ATUAL

LOU: Aqui está o cantor Luiz César, que faz parte do conjunto. Ele mesmo vai se apresentar pros "Velhos Amigos.
LUIZ CÉSAR: Eu sou o integrante mais recente do "4 Azes e 1 Coringa". Sou um cantor da noite, canto como crooner de conjunto há muito tempo no Rio de Janeiro. E fui convocado pelo José para participar do grupo. E com muita alegria faço parte desse grupo que tem um repertório maravilhoso e espero que a gente consiga aparecer e seja resgatado o sucesso e a fama do passado.

LOU: O Luiz César trouxe o José e está auxiliando na seleção das fotos. O que você estava querendo falar?
LUIZ CÉSAR: Da música de abertura do programa César de Alencar, que todo mundo deve se lembrar. Vamos cantá-la agora, José?
JOSÉ e LUIZ CÉSAR:
                                       (Prefixo da Rádio Nacional)
"Esta canção nasceu pra quem quiser cantar. Canta você, cantamos nós até cansar. É só bater (palmas) e decorar (palmas). Pra recordar vou repetir o seu refrão. Prepare a mão (palmas) Bate outra vez (palmas). Este programa pertence a vocês. "Esta canção nasceu pra quem quiser cantar. Canta você, cantamos nós até cansar. É só bater (palmas) e decorar (palmas). Pra recordar vou repetir o seu refrão. Prepare a mão (palmas) Bate outra vez (palmas). Este programa pertence a vocês!

LOU: Bárbaro! Nós publicamos aqui no site, a história da Rádio Nacional, com o nosso "Velho Amigo", radialista Osmar Frazão. E ele nos mandou todos os prefixos inclusive este do programa do César de Alencar.
JOSÉ: Mas tem uma coisa que você não observou. A Rádio Nacional fez várias homenagens nas comemorações da reabertura do auditório e não citou nem "4 Azes e 1 Coringa" e nem César de Alencar. Eles têm mágoa de certos artistas. Eles acharam que o César de Alencar fez isso, aquilo, mas não fez. O César inclusive faleceu mais cedo por desgosto, por causa das fofocas criadas em torno do nome dele, naquela época.

LOU: E com vocês, o que houve?
JOSÉ: A Rádio Nacional era ótima estação, mas tinha um problema. O Victor Costa, que era diretor, explorava todos os artistas lá dentro, porque eles faziam programas pra fazer propaganda dele, Victor Costa. E eles escalavam os artistas pra irem fazer os shows. E nós estávamos em todos eles. Você sabe qual era a nossa posição lá? Eles variavam de artista. Mas nós estávamos, em todos os shows, em primeiro lugar. Começava a lista com "4 Azes e 1 Coringa", depois vinham os outros. Então, nós achamos que já era abuso demais.

LOU: Mas isso não era bom pra vocês? Vocês não recebiam por isso?
JOSÉ: Nada. Aí é que é a história. Eles exploravam. Se pagassem, tava tudo bem. Mas acontece que chegou a tal ponto o abuso, o desaforo, que resolvemos cortar. Combinamos que, cada dia, um ia ficar doente. No primeiro show, dissemos que um caiu doente e, assim, ficamos dois, três, quatro programas sem comparecer. Então Victor Costa, que antes nos cumprimentava muito bem, vinha abraçar, passou a virar a cara e não falar mais conosco. E resolveu nos dar o bilhete azul, justamente depois de um sucesso pequeno que nós fizemos. Foi em 1953, que foi: "Domingo é dia de pescaria. Lá vou eu de caniço e samburá. Maré tá cheia, fico na areia, porque na areia dá mais peixe que no mar."

LOU: E depois?
JOSÉ: Depois disso deu bilhete azul. Deixou terminar o carnaval e nos chamou e disse que nós estávamos dispensados.

LOU: Mas o sucesso de vocês se manteve...
JOSÉ: Continuava, não tinha problema não. Mas o pior é que depois, ele estava na Rádio Mayrink e ele tinha uma produtora lá. E veio nos contratar.

LOU: Ah, eles queriam manter a audiência com o sucesso de vocês! E o que houve com o César de Alencar na Rádio Nacional?
JOSÉ: Disseram que ele dedurou muita gente de lá, na época da revolução.

LOU: Deixa pra lá. Isso é coisa de um passado cheio de contradições. Só não entendo não citar na história da Rádio Nacional, o homem que foi o símbolo do sucesso, do maior e mais popular programa de rádio?
JOSÉ: Ele foi o maior da Rádio Nacional.
LUIZ CÉSAR: Ele inspirou o Silvio Santos.

LOU: Mas vamos continuar com a sua história... Vocês cantaram nos Cassinos?
JOSÉ: No da Urca, nunca cantamos. Porque já cantavam "Os Anjos do Inferno", o "Bando da Lua" e a Carmem Miranda. Nós cantamos no Cassino Atlântico e depois no Copacabana Palace. Nós cantamos também no Cassino da Ilha Porchat, em Santos.

LOU: Muito chique.
JOSÉ: E foi nessa época que os cassinos fecharam. Então, acabou o ambiente para se fazer dinheiro, e o valor que o artista tinha no exterior caiu tremendamente, porque não tinha concorrência aqui. Resultado: nós tivemos que apelar pra fazer show no estrangeiro. Em 1946, nós fomos contratados por dois empresários: um brasileiro e um argentino, o Serra e o Miguelito, que se juntaram pra contratar os artistas. Mas contratavam já roubando. Então nós partimos em junho de 46. Nós íamos fazer primeiro a Argentina, depois Santiago no Chile, passando por Montevidéu, no Uruguai, e depois até, quem sabe, Estados Unidos. Quando nós fomos pra lá houve um problema: uma guerra dos músicos em Buenos Aires. Não podíamos parar em Buenos Aires e tivemos que passar direto. Pegamos o trem pelos Andes e fomos pra Santiago do Chile, e ficamos esperando terminar essa greve. Fizemos show na rádio de lá, na Boate Casa Nova, e fomos obrigados a fazer até cabaré pra fazer hora. Depois fomos pra Buenos Aires. E passamos a fazer clubes. Nesse período, os dois empresários começaram a falar mal do conjunto. Primeiro, quando nós fomos cantar na Rádio Esplendid, de Buenos Aires. Eles tinham um patrocínio, El Jabon, não sei o quê, não lembro, e vinha o contrato. Quando o Evenor pegou o contrato pra ler, estava lá escrito: "Contratado com valor de tanto..." Só que em algarismo estava um valor e, por extenso, outro. Eles apagaram os algarismos e se esqueceram de apagar o extenso. E deu um valor completamente diferente. Meu irmão disse que havia dois valores e não podia ficar assim. Nem fomos aos empresários, fomos ao diretor que nos contratou, o El Ramon. Ele disse que estava pagando a eles o valor por extenso: - Pode deixar que eu resolvo isso. Na hora de pagar, ele deu o dinheiro na mão do meu irmão Evenor.

LOU: Eles iam roubar vocês!
JOSÉ: Eles ficaram com ódio e passaram a falar mal do conjunto. Inclusive, não falaram lá, falaram no Rio. Começaram a telefonar pros parentes que queriam saber porque nós estávamos demorando, e eles diziam que nós estávamos fazendo farra. "Tão cheio do dinheiro..." A sorte é que nessa viagem meu irmão levou a esposa. E como a despesa estava grande, ela veio na frente. Nós pagamos a passagem dela, pra depois conseguir dinheiro pra pagar a nossa.

LOU: E depois? O que aconteceu quando vocês voltaram?
JOSÉ: Aí, os jornais disseram que nós havíamos voltado com sucesso absoluto, cheio de dinheiro.

LOU: Este tipo de notícia promovia o artista. Quando começou a mudar os componentes?
JOSÉ: Foi justamente quando fomos dispensados da Rádio Nacional, que houve a primeira mudança. Foi em 1953, quando o pai do André, o Coringa, faleceu em Fortaleza. E ele tinha que ir tratar da herança do pai. Ele foi e decidiu não voltar mais.

LOU: E quem entrou?
JOSÉ: Aí veio o elemento que não é muito conhecido, mas trabalha num conjunto grande daqui do Rio. Não é vocal; é instrumental. É o Jorginho do Pandeiro, o irmão do Erundino Silva, o Boi, que tocava o violão 7 cordas. Participava do Regional do Dany Santoro, da Rádio Nacional, e foi o maior pandeirista que nós tivemos, fora o Miltinho. Depois, o Miltinho saiu e foi fazer solo e entrou um parente do Melé. Miltinho estava conosco na gravação do LP pela Odeon, quando fizemos um vocal de 5 vozes, porque o Miltinho cantava bem.

LOU: Foi antes ou depois dele cantar "Mulher de 30?"
JOSÉ: Foi antes. Depois do Miltinho, vieram muitos. Hoje nós estamos com o Robertinho.

LOU: E o Luiz César?
JOSÉ: O Luiz César nos chegou ao conhecimento através do Robertinho Bezerra, lá em Teresópolis.

LOU: Vocês estavam um pouco parados não é?
JOSÉ: Exatamente.

LOU: E agora vocês voltaram com força total.
JOSÉ: Nós estamos aí fazendo shows, mas ainda não conseguimos penetrar. Fizemos no Cotton Club, em Copacabana, fizemos no Sabor de Ipanema, no Vinícius Bar, no Centro Cultural Carioca, no João Caetano.

LOU: E agora?
LUIZ CÉSAR: Agora a Riotur nos contratou pra fazer o sábado de carnaval, dia 5, à meia-noite, na Cinelândia. Quem quiser matar a saudade das grandes marchinhas de carnaval dos "4 Azes" vai nos assistir ao vivo e de graça, patrocinados pela Prefeitura do Rio e pela Riotur.

LOU: E você tem o CD do carnaval?
JOSÉ: Já vamos deixar com você.
Quero aproveitar pra contar uma história sobre a música de Assis Valente, "Boneca de Pano". Esta música foi conseguida da seguinte maneira: o Assis Valente já tinha gravação conosco. Nós já tínhamos gravado umas músicas dele e ele foi na Rádio pra nos mostrar mais uma pra ver se tinha alguma coisa boa pra gente gravar. Nós ficamos reunidos no estúdio, ouvindo ele cantar. E ele cantou uma, cantou duas, três, quatro, cinco, oito, nove, não sei se chegou em dez. E quando chegou nesse ponto, nós dissemos:
- Assis, até agora não deu. Você não tem mais nada? - Olha eu só tenho aqui uma de resto, que eu mostrei pra todo mundo, mas ninguém gostou.

- Então, mostra pra nós. Porque questão de gosto não se discute. Aí ele começou...
JOSÉ E LUIZ CÉSAR:
                                           (Boneca de Pano)
"Boneca de pano, gingando num cabaré. Poderia ser bonequinha de louça, tão moça, mas não é. Poderia ser bonequinha de louça, tão moça, mas não é. Um dia alguém a chamou de boneca e ela sendo mulher, acreditou. O tempo foi se passando e ela se desmanchando e hoje quem olha pra ela não diz quem é. Em vez de boneca de louça, hoje é boneca de pano de um sombrio cabaré".

LOU: Que sorte pra vocês ninguém ter gostado! E agora vamos falar do...
JOSÉ: "Cabelos Brancos".

LOU: De quem é?
JOSÉ: De Herivelto Martins e Marino Pinto. Essa música veio por um acaso. Nós estávamos ensaiando lá no Copacabana Palace, e Herivelto fazia parte do show. Aí ele entrou no camarim e disse: - Eu vou mostrar uma música pra vocês, que eu vou dar pro Sylvio Caldas.
JOSÉ E LUIZ CÉSAR:
                                     ("Cabelos Brancos")
"Não fale dessa mulher perto de mim, não fale pra não lembrar a minha dor. Já fui moço, já gozei a mocidade. Se me lembro dela, me dá saudade. Por ela vivo aos trancos e barrancos. Respeite ao menos meus cabelos brancos. Ninguém viveu a vida que eu vivi, ninguém sofreu na vida o que eu sofri. As lágrimas sentidas, o meu sorriso franco refletem-se hoje em dia nos meus cabelos brancos. Agora em homenagem ao meu fim. Não falem dessa mulher perto de mim."

JOSÉ: Temos uma música inédita: "De Braços Abertos", de João Duarte, que vamos cantar agora:
JOSÉ E LUIZ CÉSAR:
                                                                         (De Braços Abertos)
"Para os braços meus, volta meu amor. Já não suporto mais viver assim sem o teu calor. Já não suporto mais viver assim sem o teu calor. E a dor da solidão (solidão) está me matando. Volta meu amor que de braços abertos estou te esperando. (Agora!) Volta meu amor que a saudade é demais, quem vive sem amor não pode viver em paz. Volta meu amor que a saudade é demais, quem vive sem amor não pode viver em paz!"

LUIZ CÉSAR: O CD de carnaval será lançado na Rádio Nacional através do Programa "Onde Canta o Sabiá", do nosso amigo Gerdal dos Santos.
LOU: O Gerdal está comandando um programa de TV às segundas-feiras. O programa dele é muito bom. O público gosta de escutar os clássicos da MPB.

LOU: O que você quer falar mais? Qual é o recado que vocês querem dar pro VelhosAmigos?
JOSÉ: Minha querida, nós queremos fazer, mas acontece que não temos os meios de gravar um CD com os sucessos do conjunto.

LOU: Não dá pra fazer como fez o Aguinaldo Timóteo?
JOSÉ: Mas ele vai ter que vender na rua. E nós queríamos um CD, de gravadora mesmo, e que fosse colocado, divulgado e vendido.

LOU: Eu acho que o que deu mais divulgação pro Agnaldo Timóteo foi ele estar na rua. Porque, quando ele foi pra rua, vender os discos, passou a ser notícia.
LUIZ CÉSAR: De repente é um caminho.

LOU: Vai ser cansativo pro José ficar na rua, vocês podiam revezar. Cada um ficava num canto com os CDs, um dia na Cinelândia, outro dia na Central. E nunca se esquecendo que todo o dinheiro arrecadado nas vendas vai direto pra vocês, sem intermediários...
JOSÉ: Pode até ser vendido em shows.

LOU: Estou preparando a festa do VelhosAmigos que será em abril. Se vocês tiverem um disco pronto, vamos colocar lá pra vender.
JOSÉ: De repente...

LOU: O que eu puder fazer pra divulgar você, pra vê-los lá no topo, vou fazer, porque vocês merecem.
JOSÉ: Eu agradeço e fico satisfeitíssimo em tê-la como entrevistadora e interessada no grupo. É inteligente e tem capacidade de sobra pra divulgar.

LOU: Você sabe que o site nem é mais exclusivo pra terceira idade. Os jovens maduros começaram a se interessar por essas coisas que as pessoas pensam que só a terceira idade gosta. Por exemplo, a boa música de vocês, não faz sucesso entre todas as gerações? Os shows do Altamiro Carrilho ficam lotados de jovens. Você vê o Bob Nelson aplaudido. Pediram bis no programa do Faustão. Ele foi ao Faustão por nosso intermédio. A produção da Globo me mandou e-mail, pedindo o contato com o Bob Nelson. Quando eu olhei aquela galera, cantando com o Bob Nelson, aplaudindo, fiquei vibrando. O nosso site não discrimina, não separa, por isso eu mudei pra site da maturidade, porque tem lugar pra todos.
JOSÉ: Então é o site da feliz idade!

LOU: Ah! Que lindo! José, você é bom demais! Possui essa capacidade de criar título e tem os olhos brilhando cheios de entusiasmo.
LUIZ CÉSAR: A criatividade aparece em qualquer idade. Você vê que, com 84 anos, ele tem essa capacidade.
JOSÉ: Concentração, interesse, amor e...

LOU: Felicidade! Você é a imagem de um homem feliz.
JOSÉ: Eu amo muito a minha mulher. Adoro ela.

LOU: Que beleza! Isso sim é ser feliz no amor!
Como é o nome da sua mulher?
JOSÉ: Hercília Macedo de Pontes Medeiros.

LOU: Quantos anos vocês têm de casados?
JOSÉ: De unidos, nós temos pouco tempo; foi em 58 que nos unimos. E nos casamos em 1982. Nós já fizemos as nossas bodas e tudo mais. E temos um filho que quase não vejo, por causa da mãe que faleceu, tenho uma enteada e duas netas pela enteada.

LOU: Você tem uma família muito bem estruturada. E a ciência já provou que as pessoas, que vivem cercadas de afeto, têm a vida prolongada.
JOSÉ: Graças a Deus. E a minha mulher é uma coisa que você não pode nem pensar quem ela é.
LUIZ CÉSAR: É uma jóia de pessoa, carinhosa.
JOSÉ: Carinhosa, dinâmica. Ela tem um dinamismo fora do comum.

LOU: Quantos anos ela tem?
JOSÉ: Ela é nova. Vai fazer 80 anos agora.
LUIZ CÉSAR: Tem uma habilidade na cozinha que é um espetáculo. Toda semana, quando vamos ensaiar com o grupo, ela oferece sempre um lanche.
JOSÉ: Ela adora!

LOU: Eu também tenho uma habilidade enorme. Comprei o bolo pronto.
JOSÉ: Comprou o bolo e pronto!

LOU: (risos) Ele é o máximo! Adorei vocês. O que você faz com a sua voz pra mantê-la assim? Você não fuma?
JOSÉ: Já fumei. Mas deixei há pouco tempo... (risos) Foi em 1946. Nunca mais fumei.

LOU: Parabéns. E você não bebe gelado?
JOSÉ: Bebo.
LUIZ CÉSAR: Chopinho ele não dispensa.

LOU: Você faz exercício com a voz como Elizeth Cardoso fazia?
JOSÉ: Ele faz. Nós temos a marcha que diz - do Bob Nelson - "Quando eu monto em meu cavalo e jogo o laço, prendo logo, prendo logo o coração. Sou cowboy, gosto muito de um abraço. Mãos ao alto e não vai dizer que não. Sou vaqueiro, capataz de uma fazenda; nas horas vagas também toco um violão. O meu cavalo é ensinado leva bilhetes para a filha do patrão. Oleriiiiiiiiiiiiich!"
Isso é um exercício pra voz.

LUIZ CÉSAR: Quero deixar uma mensagem pro maravilhoso site da maturidade. Eu, cantor Luiz César, quando chego em casa tarde da noite, que perco o sono e entro pela madrugada, faço como a maioria dos brasileiros inteligentes faz quando têm computador. Entro no site "VelhosAmigos" pra apreciar as notícias, reportagens, dicas, piadas, músicas, os jogos. Tem diversão pra passar uma madrugada tranqüila, pra relaxar e esperar o sono. É uma beleza.

LOU: Obrigada! Mas que propaganda boa!
LUIZ CÉSAR: Não é propaganda não. É pura verdade! É o que eu sinto!
LOU: Deixe os seus telefones. Tenho certeza de que muita gente vai querer seus discos e contratar o conjunto 4 Azes e um Coringa.
LUIZ CÉSAR: Telefone de contato para shows:
Luiz Cesar: (21) 2513-0895

José de Pontes faleceu em novembro e 2006

Autor(a): Lou Micaldas

 

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