Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

JOSÉ INÁCIO PARENTE
publicado em: 26/01/2016 por: Netty Macedo

Por sugestão da "Velha Amiga" Rosy, procuramos o psicanalista e artista José Inácio Parente, que é o penúltimo dos onze filhos de José Parente e Maria Isaura Parente, nascidos em Fortaleza.
Ele veio para o Rio de Janeiro com 18 anos e aqui se formou. Fomos muito bem recebidas no seu escritório, em sua casa na Gávea, onde nos concedeu esta entrevista.

Matéria publicada em 19/05/2005

LOU: Qual a diferença entre psicanalista e psiquiatra?
JOSÉ INÁCIO: Pra ser um psicanalista, você deve cursar medicina, pois a psicanálise é um doutorado, uma especialização. Ao fazer medicina, caso escolha a psiquiatria, deverá fazer uma especialização psicanalítica. São 4 anos de curso, mais análise individual, mais inspeção de casos de 500 horas supervisionadas para receber o diploma. Ou, ainda, você pode fazer um mestrado de psicologia, depois você entra com especialização de psicanalista. Assim como procede o médico, fazendo 4 anos de curso, 4 anos de análise e mais supervisão de 500 horas e conseguindo o diploma. Então, você pode escolher um dos dois caminhos: de psicanalista ou de psiquiatra. Alguns psiquiatras se conjugam ser psicanalistas.

LOU: Basicamente, quais seriam as diferenças entre o psicólogo e o psiquiatra?
JOSÉ INÁCIO: O psiquiatra trabalha basicamente com medicação, faz internação e trabalha com hospitais. O psicólogo trabalha basicamente com a fala, o diálogo, a compreensão e orientação. O psicólogo normalmente não dá medicação, não é médico; desenvolveu mais a aptidão da palavra.

LOU: Agora podemos falar de você, da sua vida.
JOSÉ INÁCIO: Deixa eu me apresentar geral: sou José Inácio Parente, nasci em Fortaleza, Ceará, vim pra cá pra fazer psicologia quando fiz 18 anos, e me formei aqui no Rio de Janeiro.
Uma irmã e um irmão já moravam aqui com o meu avô, que teve 29 filhos. Meu avô com a primeira mulher teve 16; com a segunda teve 13. E o meu pai teve 11 filhos, e eu sou o penúltimo filho.

LOU: Quando você nasceu?
JOSÉ INÁCIO: Nasci em 1942. Mas eu vim pra cá pra fazer psicologia, mas, na verdade, sempre tive muita divisão dentro de mim, entre a arte e a psicologia. Meu pai tinha uma loja em Fortaleza. Era uma loja que tinha uma parte de fotografia e eu sempre fiquei querendo trabalhar com fotografia. Então eu me formei em Psicologia, mas sempre tive uma dedicação à arte e isso foi o que me caracterizou desde o começo. Eu sou psicanalista, sou didata, porque o maior do psicanalista é ser didata. Você pode analisar psicanalista e dar formação também. Eu nunca mexi muito com essa história de hierarquia, sempre fiquei a um passo da arte. Aí eu me tornei fotógrafo e sou um fotógrafo conhecido. Tenho seis livros de fotografia publicados. No ano passado fiz a exposição de fotografias de Portugal. E, neste ano, volto a Portugal para fazer novas fotografias e uma exposição aqui sobre Portugal. Eu fiz um livro chamado "Guia Amoroso do Rio", que é um guia do Rio de Janeiro com fotografias minhas, que foi traduzido pro inglês. Rodei todo o Estado do Rio, quase 14.000 km, com meu filho fotografando, e vai sair a versão em inglês agora.

LOU: Você também é cineasta?
JOSÉ INÁCIO: Fiz vários filmes. Tenho um filme muito conhecido que passou na televisão, chamado "Rio de Memórias", sobre a história do Rio de Janeiro de 1840 até 1930. Tudo coisa antiga. Esse filme ganhou dois prêmios internacionais.
Esse filme é sobre o Rio antigo, como os fotógrafos trabalhavam antigamente, documentando o Rio de Janeiro. Então, mostra o Rio pelo lado mais poético. Fiz vários filmes. Tenho 20 prêmios em festivais, 3 ou 4 prêmios internacionais em cinema: Festival de Berlim e coisas assim.

LOU: Como você conseguiu se dedicar à psicanálise, ao cinema e à fotografia?
JOSÉ INÁCIO: Sempre foi uma atividade paralela à psicanálise. Ao contrário do que as pessoas pensam, eu sempre achei que isso não compete com a psicanálise. Eu acho o contrário. Eu acho que isso enriquece a gente e faz a gente se sentir mais gente. Eu nunca esqueço de um paciente muito esperto. Quando eu trabalhava numa casa que eu alugava em Ipanema, e eu tinha uma sala para o grupo e uma sala para o individual. Porque eu trabalhava muito com grupos naquela época. E comecei com o meu primeiro computador, um laptop, e aí um paciente, indo pro banheiro, passou por mim e me viu no laptop e disse: - É, você precisa ter seus sonhos também. E eu acho fundamental o analista ter seus próprios sonhos. É uma pena que muitos analistas se dediquem somente ao consultório e trabalhem 40, 50 horas por semana, atendendo. Eu acho isso enlouquecedor e estressante. O psicanalista não pode viver só do sonho dos outros. Ele tem que realizar seus próprios sonhos. E também fica isolado do mundo, não conhece nada. Pra mim, por exemplo, pegar o carro com o meu filho dirigindo pelo interior do Estado do Rio, com camisa Hering, fotografando. Entrar num barzinho, conversar com as pessoas, conviver com o show, pra mim é importante.

LOU: Quantos anos tem o seu filho?
JOSÉ INÁCIO: Tem 25. Eu tenho uma filha que tem 28, que é designer. Sou casado duas vezes. Do meu segundo casamento, eu tenho um filho que tem 16 anos, e do primeiro casamento, eu tenho dois filhos. Uma coisa curiosa é essa dedicação que eu vim a ter com a paternidade. Vem de quando eu me separei do meu primeiro casamento. Os meus filhos ficaram comigo. Na época era um escândalo isso. Isso faz uns vinte e poucos anos, e eu não conseguia nenhum advogado pra defender essa idéia que a minha ex-mulher tinha. Ela dizia que eu tinha mais condições que ela, adorava que eles ficassem comigo, desde que tivesse liberdade de ficar com ela.
E eles ficavam comigo um mês, com ela um mês. E no primeiro ano quiseram morar comigo. E começaram a morar comigo. E aí eu tomei esse gosto pela paternidade. Depois fiz esse site da paternidade chamado pai.com.br.

LOU: Aí você casou a segunda vez.
JOSÉ INÁCIO: Casei com a Patrícia e tive outro filho, que mora comigo, e tem 16 anos.

LOU: E quando você viaja, vai com seu filho.
JOSÉ INÁCIO: Porque ele gosta muito de dirigir carro e, pra fazer fotografia, eu prefiro que ele vá dirigindo, porque eu vejo as coisas, mando parar e fotografo tudo. Isso é importante pra mim, minha relação com o meu filho. Eu gosto muito de fotografar. Eu tô fazendo um livro que tem a ver com a paternidade também. Eu tô fotografando situações de pai e filho ou filha. Eu tenho fotografia de vários pais. Eu tenho uma de um pai que tem sessenta e poucos anos e teve um filhinho agora, o Jair de Souza, que é um designer importante, meu vizinho. Eu fotografei o meu caseiro, que é um negro bonito, com o filho dele de 6 anos. Eu quero fotografar em circunstâncias de mostrar que o pai não é aquele que assiste a mãe cuidar dos filhos, mas aquele que participa junto, se interessa, inclusive deixa o seu corpo disponível para o filho também. Até pouco tempo a família era isso: o filho, num contato com a mãe, tinha acesso ao corpo da mãe e o pai ficava por trás, como numa relação indireta. Hoje em dia, o pai saiu de trás da mãe e entrou em cena de verdade, deixando o corpo dele mais disponível pro filho abraçar e ter contato físico. A própria sexualidade do filho futuramente vai se desenvolver melhor.

LOU: Como você está vendo a evolução sexual?
JOSÉ INÁCIO: Antigamente a mulher, que era só objeto do desejo do homem, passou a ser sujeito do desejo. Então, o homem tem que se arrumar e se fazer capaz de ser gostado também. A mulher é sujeito, não é mais objeto só. E isso tem muito a ver também no sentido que a mulher não é só objeto de desejo do filho; o pai também é objeto de desejo do filho. E isso gera toda uma sexualidade diferente, que não é mais freudiana como antigamente, e o complexo de Édipo, a mãe pode ser desejada, e o pai também pode ser desejado. O pai é desejado pela mulher e vira sujeito. Então, essa coisa desse meu livro tem a ver com essa ideologia de que o pai, quando se casa, tem um sonho de fazer uma coisa coletiva. Aos poucos a mulher vai tomando conta da casa, e o marido vai ficando cada vez mais alijado com pequeníssimo espaço. Às vezes, uma caixinha de ferramenta é tudo que ele tem. Por isso, em alguns casamentos, ele vai se realizar fora de casa, seja sexualmente, seja com amigos, gerando divisões enormes.

LOU: Além de se dedicar ao cinema e à fotografia, você também cultiva a arte da culinária, né?
JOSÉ INÁCIO: Eu defendia, que os homens têm na culinária uma forma boa de "entrar de volta" na família. Ter um espaço próprio pra ele, não ter que se realizar só fora de casa, e partilhar e transformar essa ideologia antiga de que: a mãe nutre os filhos e o pai protege; que o pai é o grande provedor, e que a mãe provê amor e carinho, e o pai providencia dinheiro. O pai hoje faz comida. Ele participa também, ele promove prazer e alimenta os filhos de carinho. Não fica essa coisa assim: a mãe dá afeto e pai dá as normas. Essa lei do carrasco. Não tem nada a ver esse negócio de que se a mãe gerou, ela é que seja a provedora de carinho. E porque o pai tem o corpo de outra forma, que ele seja encarregado da lei. Não é a arquitetura do corpo que define o espírito. O espírito tem liberdade que compactua com aquilo que a gente deseja, e não o que o corpo nosso define.

LOU: Agora falando sobre sexualidade, uma curiosidade que eu tenho, é uma observação minha, ainda não fiz qualquer estudo sobre isso. Eu reparo que os transexuais têm uma verdadeira fixação pela mãe. Se ele tivesse um pai como você, talvez isso não tivesse acontecido?
JOSÉ INÁCIO: Eu diria o seguinte, se você nutre um menino desde que nasce com hormônios femininos, ele vai ser homossexual.

LOU: Como nutrir com hormônios femininos?
JOSÉ INÁCIO: Se você injetasse hormônios (risos), ou se ele nasce com uma deficiência hormonal, ele pode tornar-se uma pessoa feminina. Tem muitas causas; existem causas biológicas também. Você pode nascer com deficiências hormonais, ou produzir uma deficiência hormonal por uma questão emocional. Quer dizer, você pode se fazer mulher por problemas emocionais. Existem muitas formas de homossexualidade e fica muito difícil. A gente trabalhou muito essa questão, que é a seguinte: quando a mulher, segundo Freud, tem o complexo de castração, quer dizer, ela achou que não tinha órgão sexual, só quem tinha era o homem. Ela tem apenas um buraco onde vai ter o filho. A menina pequenininha, quando vê o irmão com pênis, fica com aquela inveja dele ter um pênis que ela não tem, ela se sente castrada. Aí um dia ela tem um filho e isto demonstra que ela não era um buraco vazio, ela tinha órgão sexual. Mas aí muitas mulheres acham que o filho é produto dela. É como se o filho fosse o pênis dela. É uma extensão dela. Aí ela põe o filho pra dormir na cama dela com o marido. E fica o tempo inteiro grudada nele. E o pai, por conveniências próprias ou outras coisas emocionais dele, não cumpre a função fundamental do pai, que é cortar esse vínculo. Como dizer assim: ele não é o seu pênis, ele não é o seu peru, ele não é a extensão do seu corpo; ele é o seu filho e o seu marido sou eu, eu sou o objeto do seu desejo; o seu filho não pode ser objeto do seu desejo, eu sou esse objeto. Ele vai dormir na cama dele, no quarto dele! Tem que permitir a autonomia dele. Ele tem que ter amigos homens, tem que ter a sexualidade dele, as namoradas dele. Dizer isso à mulher é a função do pai. E alguns pais entram numa falência paterna e não afirmam isso, não cortam esse cordão umbilical, e o filho fica sendo a extensão da mãe. É como se falássemos: o filho sendo peru da mãe, ele não pode ter peru. Ele é mulher, ele é a mãe.

LOU: Agora, pode acontecer o contrário também quando mãe se agarra muito à filha e acha que é posse dela?
JOSÉ INÁCIO: É difícil afirmar essas coisas de causa e efeito porque é muito complicado. Quase sempre a homossexualidade, seja masculina ou feminina, tem a ver com a falência paterna. Alguns dizem, por exemplo, que a menina tem o anseio do contato com o pai, de ter intimidade com pai, de ter o amor do pai. Mas, muitas vezes, o pai não consegue permitir isso e ela desiste, e vai procurar uma substituta da mãe e procura uma mulher. E quase sempre é uma mulher mais velha que ela. Mas isso é muito complicado, porque todas essas coisas que geram problemas emocionais fazem parte da evolução da humanidade. Porque a gente tem que se abrir pra evolução da humanidade.
Por exemplo, na Grécia, o amor é entre homens. Quando você falava do amor, pensava em dois homens. As mulheres eram apenas representantes de um outro aspecto do homem que gerava filhos. Mulher não é cidadão, o amor é entre dois homens. Todo o amor da Grécia era homossexual. E a mulher produzia filhos. O homem amava outro homem, transava com outro homem e isso era normal, eram cidadãos assim. Quando queriam ter filhos, chamavam uma mulher e tinham filhos com ela. Às vezes tinham duas, três mulheres...

LOU: Eu li em algum lugar que na antiguidade o sexo era grupal, não tinha nada de porta fechada, todo mundo na sala se relacionando sexualmente, homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher. E o sexo era puro. Até criança se misturava ali, sem haver censura.
JOSÉ INÁCIO: Eu não posso afirmar nada porque eu não tenho esse conhecimento. Mas eu passei uma vez um mês e meio morando com os índios no Xingu. Fui convidado como fotógrafo pra acompanhar uma expedição do Noel Nutels. Fiquei um mês e meio na floresta com eles e eu ficava impressionado com isso lá. A sexualidade era assim: eu via uma menina tirando piolho do saco do pai, tudo junto, naturalmente. Um dia, eu conversei com dois meninos, tipo de 12 a 15 anos, e aí eu perguntei se eles sabiam como se relacionar com mulher. Eles falaram que sabiam, pois o irmão mais velho havia mostrado ele próprio se relacionando com a mulher.

LOU: E o relacionamento de adulto com criança lá não é considerado pedofilia?
JOSÉ INÁCIO: É tudo muito natural nos índios. São tão puros quanto os animais.
Então não tem porque ter esse pudor e eu nunca assisti. Mas eles moravam numa oca grande e todos dormiam juntos. E todos transavam na frente dos outros e as crianças viam também. Se o garoto falou que o irmão chamou pra ele ver, é porque é uma coisa mais ou menos socializada. Outra coisa também que não tem sentimento de posse. O índio se casa com uma mulher e é muito fiel. Mas depois que ela fica velha, ele se separa e casa às vezes com a irmã da mulher, e a primeira mulher fica sendo uma espécie de avó que cuida dos filhos dos dois. Lá é toda uma vida diferente.

LOU: Mas voltando à versatilidade dos seus trabalhos.
JOSÉ INÁCIO: Agora, uma das coisas que me caracterizou realmente foi que eu sempre trabalhei muito. Às vezes trabalhava 40, 50 horas por semana, e quando foi um dia, eu resolvi não trabalhar tanto. E resolvi abrir uma produtora que pudesse fazer filme e trabalhar com fotografia. E reduzi à metade meu trabalho. Acho que isso foi uma opção que eu fiz há 15 anos atrás, de suma importância. Reduzi o atendimento no consultório, que me deixava muito trancado. E aí eu passei a produzir mais fotografia. Fiz vários filmes com essa produtora, que se chama Interior Produções, em que eu mexia mais com cinema, com fotografia e tudo, e isso me deu mais liberdade também. Porque isso me deu um outro ganho. E eu só atendo quem eu gosto mesmo. Não fico atendendo todo mundo que chega. Atendo uma clientela mais restrita, melhor, que me procura. E só atendo quando eu sei que participo, que posso ajudar, não porque tenho que atender. Aí me dedico a um tipo de clientela. Teve uma época em que eu trabalhei bastante com a terceira idade.

LOU: Fale um pouco sobre as suas palestras.
JOSÉ INÁCIO: Fiz várias palestras e criei na época, e isso faz uns dez anos, uma coisa chamada PPA, que é um programa de Preparação Para a Aposentadoria. Isso é importante. Eu dava aula inaugural, e fazia supervisão. A gente tinha um grupinho de trabalho. A gente fez pra Petrobrás, pra Vale do Rio Doce e pra uma siderúrgica do interior de Minas Gerais, a Acesita. A pessoa, dois anos antes de se aposentar, recebia uma carta oferecendo algum trabalho de grupo pra prepará-la pra aposentadoria. Muitos tomavam um susto enorme, porque não queriam se aposentar e rasgavam a carta. Então a gente fazia grupos dessas pessoas, trabalhava essas ansiedades ligadas à aposentadoria, e também pra pessoa ter uma outra fase produtiva. Mas depois tinha que viajar de avião pro interior e voltar. E foi ficando complicado na família e preferi parar. E aí me aventurei em outras áreas. Mas, de vez em quando, aparecem pessoas da terceira idade. Há pouco eu atendi uma pessoa de 78 anos, um senhor, que estava perdendo a memória e que era puramente emocional. E acho que na terceira idade, que eu digo que é a melhor idade, as pessoas fazem negação disso.

LOU: Algumas pessoas quando percebem que estão envelhecendo, têm medo de se tornar desnecessárias, imprestáveis...
JOSÉ INÁCIO: É uma idade complicada. Por exemplo, a aposentadoria é muito complicada. As mulheres se aposentam melhor do que os homens. Os homens apresentam mais problemas. O homem, como se preparou pouco pro lazer, se envolveu muito com o trabalho fora de casa. E a potência do homem é muito ligada ao trabalho: se ele reduz o trabalho, aparecem problemas emocionais graves.

LOU: Quando eles se sentem inúteis, a auto-estima fica lá em baixo.
JOSÉ INÁCIO: Inútil e sem a potência dele. E muitas vezes se reflete na potência sexual dele, porque perdeu a potência física. Aí fica numa depressão terrível, porque você se relaciona no campo de produção. Se você tira a produção, não tem mais relacionamento. E as mulheres têm mais aptidão pra isso do que os homens. Elas já fazem isso quando se aposentam. Elas continuam, participam de vários grupos sociais, naturais.

LOU: Agora, quanto àquele que perdeu a memória, você fez um trabalho de exercício mental com ele, pra desenvolver a memória?
JOSÉ INÁCIO: Tem um exercício ótimo pra memória que é palavra cruzada. É excelente pra memória. Ele mesmo descobriu isso. Ele fez um curso na PUC, de memória pra terceira idade. É até interessante anunciar. Na PUC tem um grupo que trabalha sobre memória e tem muita gente da terceira idade. Lá recomendavam palavras cruzadas, mas com ele havia comprometimentos emocionais, perdas familiares, que ele abafava esquecendo de tudo. Ele era engenheiro, forte como pessoa, e foi importante pra ele retomar a memória.

LOU: E continua fazendo palavra cruzada.
JOSÉ INÁCIO: É, não esquece (risos) de fazer palavra cruzada. Agora, essa questão da paternidade é um outro interesse meu que eu gosto muito. Outro interesse meu é coisa de culinária.

LOU: Você foi entrevistado no programa Gema Brasil, do Rodolfo Botino na TVE.
JOSÉ INÁCIO: Ele chama uma pessoa pra conversar enquanto ele cozinha. Como coincidentemente ele gosta muito de psicanálise, culinária e fotografia, a entrevista que ia ser uma virou duas, porque ele começou a se entusiasmar e fez duas entrevistas. Porque ele sentou em cima dos meus livros, da fotografia, do significado da fotografia pra mim.
Culinária é uma coisa muito importante, é uma arte muito curiosa. Um dia eu apresentei num congresso de psicanálise um artigo sobre culinária na vida familiar, que a princípio não foi aceito, porque apresentar na psicanálise uma coisa sobre arte culinária..., mas, depois, havia uma pessoa que tinha sido minha paciente, que era do congresso, e aí fez passar. O pessoal gostou muito. É que todo mundo valoriza uma série de coisas, menos aquilo que está mais próximo, a importância da roupa, do cotidiano, da culinária, da família se encontrar na hora da comida, na verdade. Como isso não seria importante do ponto de vista de uma família? A arte culinária é uma arte curiosa, é uma arte que não tem museu, porque o museu da arte culinária é a nossa memória. Todo mundo tem uma lembrança tipo vovó fazia aquele purê, aquele pudim da titia, são nossos museus, são as tradições que se aprendem. Se tem uma coisa interessante na arte culinária é que ela é o centro da casa, na verdade. A palavra fogão vem de focus, que é o lugar que era a lareira, o centro da casa. A arte culinária não tem no museu. O foco, a lareira, é onde fazia o lare, da palavra lar, família, vem de lareira, local onde se fazia o fogo, era o foco da família. O fogão é o grande foco onde todo mundo se reunia em torno pra fazer a comida. A família nasceu com a parte da culinária, onde todo mundo tem que se alimentar junto. E, entre os povos primitivos, a arte culinária era mais dos homens do que das mulheres. A mulher dava peito, cuidava das crianças. Os homens caçavam, assavam a caça ou pescavam. Depois, a economia foi mudando. O homem passou a trabalhar fora e a mulher ficou em casa. E, aí, a culinária passou pra elas.

LOU: Havia um preconceito: homem que gostava de culinária era homossexual...
JOSÉ INÁCIO: Isso mesmo. A cozinha, pra mulher, é uma submissão; pro homem, uma criação. E isso gera grandes diferenças no prazer. Então, a arte culinária é uma arte curiosa, porque na pintura, por exemplo, ou em quase todas as artes, valoriza-se o mais novo, a vanguarda, e a culinária valoriza o mais velho, valoriza a memória. É aquele foco na família, nas tradições. Por exemplo, nas famílias portuguesas, ela sabe fazer o barreado porque tem um bisavô, não sei de onde, que fazia o barreado, que passou pro avô, pro pai. E o filho agora acha que faz igualzinho ao bisavô de Portugal. Tem uma arte muito voltada pra aquele que valoriza muito o mais velho. E acho que se eu pudesse dar um conselho, eu diria que a culinária pode ser um espaço não só pro homem entrar na família, mas pros avós entrarem na família, e fazer daquilo um foco de atração, não pra eles serem os guardiões da moral. Muitos dos mais velhos se inclinam para serem os guardiões da moral e dizem o que é certo e o que é errado, ao invés de produzirem na sua casa um espaço de prazer. E esse espaço de prazer pode ser em volta do fogão, da culinária, da novidade. Eu acho que o museu de arte culinária é a memória, o afeto da gente e tudo, né? Outra coisa curiosa é que, ao contrário das outras artes, os objetos da arte ficam em museus, nas paredes, têm que ser preservados; já a arte culinária tem que destruir o objeto dela e quanto mais for destruído, melhor é o objeto. É um objeto curioso que você tem que comê-lo pra destruí-lo, senão ele não tem sentido. Outra coisa distintiva da arte culinária é que o objeto se transforma em você mesmo. Quando você come uma coisa, ela vai se transformar no seu próprio corpo. Então é uma coisa muito generosa, muito dadivosa. Se você faz uma comida e seus filhos não querem comer, você fica magoada. Porque antes de tudo o fazer uma comida é um gesto amoroso seu. Na verdade é uma arte familiar, amorosa, generosa, diferente de outras artes, nas quais você faz uma pintura pra ficar famoso. É uma arte que vai ser consumida e isso premia toda a história da gente. A gente tem o céu da boca, a língua, aquela coisa que fala, aquela que separa os alimentos. É o único órgão do corpo que tem duas funções totalmente diferentes: a fala e o paladar.

LOU: Você é bem eclético no que diz respeito às artes. E a psicologia exige muita arte... a de ouvir, perceber, intuir...
JOSÉ INÁCIO: Acho que isso é importantíssimo. A gente trabalha com a linguagem, com a fala. Tem que ter uma arte de sensibilidade pra ouvir e pra falar também. É uma arte de curar, cuidar. Mas, se você desenvolve uma outra arte, as coisas se interagem, te auxiliam também. O Milton Nascimento tem uma música que diz assim: "o artista tem que estar onde o povo está". Acho que o analista tem que estar onde o povo está e não só dentro do consultório, recebendo os sons dos outros e interpretando como se fosse um lugar de sabedoria, acho que um lugar de encontro. Quando me perguntam qual é a minha linha de trabalho, eu digo que trabalho há 25 anos, e acho que tenho uma linha direta, uma linha mais pessoal de ser, e trabalho com o que sou e não simplesmente pelo que sei. E aí você vai desenvolvendo um trabalho que se adequa, porque cada paciente é diferente um do outro.

LOU: Então você não segue a linha freudiana?
JOSÉ INÁCIO: Antigamente até fazia, mas você vai criando a própria linha de trabalho também, né? Quando você é recém-formado, você trabalha com o que você sabe. Quando você está mais maduro, você trabalha com o que você é. É diferente, né?

LOU: E qual o recado que você manda pros "VelhosAmigos", que quando começam a se sentir envelhecendo, entram em pânico, caem em depressão...
JOSÉ INÁCIO: Quando as pessoas estão ficando mais velhas, começam a receber uma porção de mensagens negativas da sociedade.
A sociedade vai podando a sexualidade do mais velho. E tem uma porção de mitos, sobre a sexualidade do cara idoso que não transa mais, da mulher que não tem mais desejo; sobre a menopausa, por exemplo, que a menopausa tira o desejo da mulher e que não volta nunca mais; que a mulher mais velha não tem atrativo sexual para o homem. Tudo isso são mitos criados pra dizer: "- não tem saída, vovô! Vai pra igreja, preparar a aposentadoria no céu, porque aqui não tem jeito. Tem uma série de mitos, historinhas, piadas, que vão formando na cabeça dos mais velhos que eles não têm mais chance. Então, se você chega pra uma pessoa mais velha e diz: "não faz isso que você pode ter um problema cardíaco", "não pode andar na praia...", "não pode jogar tênis, você passou da idade", "esse negócio de transar depois de 80 anos, vovô não pode, a pipa do vovô não sobe mais", esse tipo de brincadeira, "o lugar da vovó é na igreja com as amigas". "A vovó não pode dançar, não pode ter vida sexual, nem afetiva." Mas pode ter amor pra dar pros netos.... Querer fazer faculdade? Isso é pros seus netos, seus filhos. Não pode ter sonhos. Não pode pensar em fazer alguma coisa que seja produtiva. Você corta os sonhos, a vida sexual, a vida afetiva e corta atividade física, o que vai acontecer? Vai se acostumar. Então o adulto que vai ficando mais velho, vai introjetando esses valores e mitos.

LOU: Mas isso agora está mudando.
JOSÉ INÁCIO: Isso. Um site como o seu é fundamental pra mudar essa perspectiva.

LOU: Você chegou a entrar no site?
JOSÉ INÁCIO: Entrei. Naveguei um pouco nele. Achei legal. No meu guia "Amoroso do Rio", e o do Estado também, eu cito alguns sites de encontros da terceira idade. Eu ainda não conhecia o de vocês e citei outros. Mas acho fundamental que o site seja um encontro.
Você me pediu uma mensagem. Vou te dar uma que vem da sabedoria budista, do zen. Diz que chegou um discípulo pro mestre zen e disse: - Mestre, o que eu posso tomar pra ter uma longa vida? Você vai tomar um chá. No primeiro dia, você sai na floresta e vai catar uma dúzia de flor de Lótus; na segunda semana você vai de novo na floresta e cata duas dúzias de flor de Lótus; na terceira, você vai e cata 3 dúzias de flor de Lótus pra fazer o chá, e assim foi. Quando estava na décima, o discípulo, meio inquieto, veio e disse: - Mestre, como eu tomo o chá? Ele disse: - Se você fizer tudo isso, não precisa tomar o chá".

LOU: Muito legal! Botou o cara pra andar.
JOSÉ INÁCIO: Eu acho que a terceira idade fica buscando chá, ao invés de buscar a floresta. Eu acho legal esse tipo de mensagem zen. Outra coisa que eu diria é que a informática é fundamental pra terceira idade. Uma das coisas que salvou aquele cara da perda da memória foi que ele comprou um computador e começou a entrar no site, a fazer amigos, grupos de discussão, entrar na era da informática e navegar pelo mundo afora e crescer em sabedoria. E tudo isso sem precisar sair de casa, porque nem sempre a mobilidade é fácil pra terceira idade; poder andar, sair, vencer os preconceitos que se tem em relação isso.

LOU: O idoso que aprende a lidar com computador e a entrar na Internet, ganha uma vida nova, porque descobre um mundo novo, cheio de atrações...
JOSÉ INÁCIO: Além disso, a terceira idade aprende muito com os mais jovens e acho que se a culinária é dos mais velhos, a informática é dos mais jovens. Então, às vezes, um netinho de 10, 11 anos, que tem idade de aprender a mexer no computador e acha muito fácil, dá aula pro avô de 80.

LOU: E isso é excelente pra unir essas duas gerações que passam a falar a mesma linguagem, movidos por interesses comuns, tornando possível um diálogo. É uma chance de tirar o idoso do isolamento, da depressão, né?
JOSÉ INÁCIO: Eu fui ensinar a meu tio a mexer no computador e mandei que ele olhasse pra tela e mexesse no mouse e ele não conseguia dissociar e ficava olhando pra mão dele. É difícil dissociar. Na informática é fundamental pra expandir o espaço criativo, de relacionamento.
Sempre fui ligado à tecnologia. Logo que chegou o computador, eu aprendi a usar. Faz mais de 25 anos que eu tenho computador. Meus filhos todos mexem. Eu não consigo ver um mundo sem e-mail, informática, sites como o de vocês que mexem com a gente.

LOU: Eu comecei a usar o computador com 59 anos. E também custei a controlar o mouse.
JOSÉ INÁCIO: Muitas vezes diziam que você não tinha idade pra isso, né? Se cortam seus sonhos, sua vida sexual, afetiva, atividade física, em 5 anos você morre. Eu gosto muito de uma frase de Freud que diz assim: "Nós temos a idade dos nossos sonhos". É fundamental isso. Eu tinha uma cliente que já me procurou idosa e acabou se convertendo numa pessoa dedicada ao trabalho com idosos. Helena Bert era o nome dela. Fez programas de aposentadoria, ficou muito conhecida. Acho que a pessoa que vai se aposentar tem que procurar um apoio psicológico e mudar a qualidade da sua produção. Trocar de instrumento e não parar de tocar a música.

LOU: Que delícia de papo. Valeu, doutor! Muito obrigada pela sua entrevista e pelos seus valiosos ensinamentos.

Revisão: Anna Eliza Fürich
aefuhrich@gmail.com

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA