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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

JOSÉ KOSINSKI
publicado em: 26/01/2016 por: Netty Macedo

"Há um escritor famoso que escreveu que sexo depois dos 65 é sem-vergonhice. É um escritor badalado. E no texto a Regina o cita e contrapõe: "E, no entanto, eu sou casada com um homem de 68 anos, que é o maior", e me botou no céu!"

Ele é filho de Gilberto de Araújo Cavalcante e de Êda Kosinski de Cavalcante. Nasceu em Copacabana, no dia 10 de novembro, do ano de 1924. Agora, aos 79 anos, juntou seus pertences e mudou-se de mala e cuia pra Dignus, um delicioso abrigo de idosos, onde tem um quarto só pra ele. Mas pediu e ganhou mais uma cama.
_ "É pra mulher que estou querendo que venha morar comigo; ainda nem sei quem é, mas já sei que está pra chegar..."

KOSINSKI: Nasci em Copacabana, na Rua Paula Freitas, esquina da Av. Atlântica. É o bairro onde morei mais.
Porque meu pai era oficial de artilharia e estava servindo lá em Curitiba, e foi forçado pela minha mãe a vir para o Rio, porque ela estava grávida e fazia questão de ter o filho nas mãos do Dr. José da Rocha Maia. E ele, como gostava muito dela, fez a sua vontade e providenciou a transferência dele pra o Forte de Copacabana.

Ele era obrigado a fazer patrulhas pela praia porque a Marinha tava lutando contra o Exército. Uma confusão! E tinha gente de terra, que era a favor da Marinha, e cortava os cabos de ligação entre os dois Fortes , o de Copacabana e o do Leme , e ele foi pegando uma gripe atrás de outra até começar a botar sangue, pois tava tuberculoso. E nos treze anos seguintes ele foi um tuberculoso. Naquele tempo não tinha cura. E aí eu fui filho de um tuberculoso, à beira da morte, durante 13 anos. E então fomos pra Teresópolis. Lá eu morei a maior parte da minha infância. Meu pai era considerado santo pelas religiosas evangélicas de um colégio defronte a casa. Ele se converteu ao catolicismo em função da doença e tornou-se piedosíssimo. Era uma pessoa admirável pelo lado da religião. O contato que eu tive com ele é que não foi grande coisa. Quando ele morreu, eu tinha 13 ou 14 anos. E ele morreu aqui no Rio, no Lins do Vasconcelos. A gente morava numa casa modesta, que tinha um aspecto que a mim deprimia, no número 69, da Rua Ernestina, nome prosaico...

LOU: Aí, você continuou morando no Lins e foi seguindo a sua...
KOSINSKI: Quando ele morreu, em 1939, surgiu a minha vocação sacerdotal e aí eu me empenhei. Havia perto de casa um convento de Carmelitas. Elas não saíam, mas sabiam notícias, através do capelão, de que meu pai era santo e festejavam. Pra todos os efeitos ele era santo e pra todos os efeitos eu caminhei pra santidade. Veja só! (risos)

LOU: Você era o filho mais velho?
KOSINSKI: Não. Eu tenho uma irmã mais velha, que está com 83 anos. Aquela que eu te mostrei na foto. E a outra nasceu bem depois, em 32. Eu consegui uma bolsa, por intermédio das Carmelitas, pra estudar em Belo Horizonte. Então, fui pro seminário de Belo Horizonte dentro de um espírito de piedade religiosa muito grande, com certeza, proveniente da vocação. Fiz lá o primeiro ano e pertencia à divisão dos médios, porque já era crescido. Cada divisão tinha um regente que é um seminarista de seminário maior. E o regente da minha divisão era um carioca que insistiu muito para que eu o visitasse durante as férias, pra conhecer a mãe dele, que cozinhava maravilhosamente bem. E eu aceitei o convite. Quando tava de férias no Rio, fui à casa dele, ainda em plena piedade. De repente, olha como se evapora uma vocação; a mãe dele me socava de comida, não tinha outro filho, o filho dela já estava grandão, e ela me botava depois do almoço, na cadeira de balanço pra eu repousar. Ela tinha duas filhas, que eram duas morenas, que além de serem uma graça, pra mim foi um prêmio, pois eu não conhecia mulher ainda. Elas eram muito sapecas, ficavam me provocando. Eu fechava os olhos, fingia que tava cochilando e elas diziam: - vamos dar um beijo nessa boca dele, olha os lábios dele. E eu comecei a torcer pra que elas dessem o beijo. Mas não tinha coragem de ficar o suficiente de olhos fechados. Nem sei se elas dariam, ou não dariam.

LOU: Não chegaram a beijar?
KOSINSKI: Não. Mas elas sugaram minha vocação sacerdotal. Eu vi que não era a minha. Aí já mudou o rumo da minha vida. Naquelas férias eu já não voltei pra lá. Fui pra me despedir, mas continuei muito religioso, católico, até o final do meu primeiro casamento, que durou 22 anos.

LOU: Conta como foi o seu primeiro casamento?
KOSINSKI: A Estela de Souza Barros era colega de turma da minha irmã mais velha, Maria Helena. Aí houve a aproximação e aquele envolvimento. Muito respeitoso, muito tranqüilo, tudo dentro dos trâmites. E a família dela era muito bem posta, o pai era diretor do Laboratório Silva Araújo, que havia um só; era médico e diretor desse laboratório.

LOU: Como acabou o seu casamento com a Estela?
KOSINSKI: Eu encontrei uma outra. Chamava-se Vera e ela era um encanto. Nós nos apaixonamos. Eu já trabalhava no O Globo. Eu já tinha passado pela fase de locutor de rádio, fui locutor da rádio Vera Cruz, era uma emissora católica e fui até da Eldorado, uma rádio metida a fina, boa de música.
Eu saí de casa. Fui morar com ela. E ficamos 15 anos juntos.
Mas, nos últimos 6 anos, eu cometi a falha. Eu conheci uma Yolanda, uma judiazinha, que é um encanto de pessoa. Aí, nós tivemos uma relação tranqüila, normal; ela sabia que eu era casado e que morava a duas ou três casas adiante, num edifício.

LOU: Quer dizer era mais uma aventura, mas que não atrapalhava o seu amor pela Vera.
KOSINSKI: Pois é. Dava até um sabor especial à sexualidade, ao sexo. Eu sempre fui muito devotado ao sexo. Tanto que tive onze filhos e não foi à toa. Não foi pelo desejo de ter onze filhos. Foi porque não podia parar. E ela agüentava. Ela era boa para parir. E eu tive todos os meus filhos, segurando a mão dela. E ela segurando a minha, como preferir. E eles estão, os onze, aí.

LOU: Quando você diz que cometeu uma falha é porque você achava que a Yolanda era só uma coisa que apimentava o seu amor pela Vera?
KOSINSKI: Eu não achava, eu sentia. Era uma coisa que eu analisava a posteriori ... a gente analisa e percebe.

LOU: Então, a Vera não perdoou isso.
KOSINSKI: Ela não aceitou a traição. Já a Estela, a primeira, nem se incomodava. Ela soube dos meus romances na Suécia. Eu tenho até, por escrito, dela: "Eu sei como você é..."

LOU: Antigamente as mulheres eram mais tolerantes. Elas recalcavam suas mágoas e não queriam perder o status.
KOSINSKI: Porque ela tinha tudo que queria.

LOU: Elas se conformavam porque eram dependentes: - Desde que me dê de um tudo...

MUITAS PAIXÕES E CONFUSÕES

KOSINSKI: Eu tenho aqui uma coisa pra te mostrar. Essa mulher aqui é uma negra brasileira que, se ela pudesse, me matava.

LOU: Por que?
KOSINSKI: Porque quando eu fui pra França, fui fugido da revolução. Porque aí foi outra circunstância. Eu tive que me esconder, porque soube que ia ser preso quando trabalhava no O Globo.

LOU: Na Revolução de 64.
KOSINSKI: É. Lá dentro o pessoal foi informado. E me chamaram e disseram: você está pra ser preso e tem que ir embora do Brasil. E me ajudaram muito. E eu fui pra França, com um pedido pra que eles me aceitassem, pra que eu pudesse fazer uma bolsa de estudos e fazer alguma e pra me ajudar lá na Sorbonne. Mas o dinheiro acabou e eu estava num sufoco tremendo. E eu conheci essa mulata, essa preta, Maria Dapi, que é cantora lírica, medalha de ouro, Orfeu de Ouro.

LOU: Era brasileira?
KOSINSKI: Brasileira. Nunca tomaram conhecimento dela aqui. Prevenção contra o negro, racismo, preconceito. Eu tenho até uma gravação dela aí, cantando música popular. Mas ela brilhou lá. E tinha um corpo maravilhoso. Labis, você sabe quem foi? Foi um pintor francês. Pintou-a, fez o nu dela e de um brasileiro também, que não lembro agora quem foi.

LOU: E você namorou a famosa cantora Maria Dapi ?
KOSINSKI: Namorei e fui morar no apartamento dela.

LOU: E por que ela tem raiva de você?
KOSINSKI: Porque quando - ela achava que aquilo era definitivo - eu recebo um telegrama de casa, avisando que meu filho mais velho tava pra ser preso, e a Estela então me pedia pelo amor de Deus que eu fosse, porque ela não tinha iniciativa pra nada. Então eu tinha que voltar pro Brasil, mas estava sem dinheiro. Aí, ela pegou do bolso dela e disse: - vá ao Brasil. Ela tinha muito dinheiro. Eu disse: - mas eu não vou aceitar o dinheiro de uma mulher. Aí discutimos e ela acabou dizendo que era um empréstimo: - você paga como e quando puder. Só que eu usei e depois nunca tive condição de devolver a ela os U$ 4.000. É muito dinheiro. Mas não foi por causa do dinheiro; é porque eu não voltei pra ela. Ela passou a ter uma raiva, um ódio de mim. Ela escrevia cartas pra minha mãe, cartas pra Estela, minha ex-mulher, cartas para o Jornal O Globo, que até publicou uma coisa: não deu meu nome, mas deu o caso. Ela tava escrevendo um livro chamado "Irmão Rima com Ladrão". Então o "irmão" dela era eu, "irmão" inclusive na cama. Mas ela fez o diabo pra tentar me derrubar e não conseguiu.

LOU: Mas e aí? Você conseguiu proteger o seu filho pra ele não ser preso?
KOSINSKI: Consegui. Acompanhei-o até o quartel, tomei a iniciativa e aí consegui salvá-lo.

LOU: Qual era a profissão dele?
KOSINSKI: Ele ainda era estudante.

LOU: Mas você era um fugitivo! Como é que você conseguiu libertar seu filho?
KOSINSKI: Eles não souberam porque as informações eram muito precárias.

LOU: Aí, depois da Estela você conheceu outra.
KOSINSKI: Conheci a Vera e fui morar com ela. Ficamos juntos 15 anos.

LOU: Aí você conheceu uma outra.
KOSINSKI: A Yolanda, uma jornalista, colega que veio até morar mais perto pra poder facilitar as coisas. Nós ficamos 6 anos. Fiquei com as duas. Isso é loucura! A Yolanda, meu Deus do céu, primeiro ficou magoada, mas depois veio a fúria, porque eu não fiquei com ela, depois que a Vera me deixou. Fiquei sozinho e pus meu apartamento pra alugar. Aí me telefonou uma senhora, chamada Regina, querendo conversar, tratar do apartamento, e eu combinei com ela, porque eu trabalhava muito, eu sempre trabalhei muito, e combinei com ela de encontrar com ela no Luna Bar. No fim do encontro, fiz uma contra proposta pra ela. Escuta, ao invés de alugar o meu apartamento, você quer casar comigo? Ela pediu 3 dias pra pensar. E aproveitando que era quase no final do ano, enquanto você pensa, vai passar o Reveillon na granja do meu filho Gilberto, lá em Juiz de Fora. Eu tinha carro e fomos de carro, etc. E lá no meio da festa, no meio das celebrações, em certo momento, a Regina me disse: - Olha, eu topo casar. E aconteceu um episódio que teria graves conseqüências. Lá às tantas, até me encabulo um pouco de contar, meu filho tinha se separado da primeira mulher, com quem tinha um casal de filhos e estava engatinhando numa nova relação, com uma médica pediatra. Essa médica, num determinado momento, quando a casa estava totalmente vazia e só eu estava lá dentro, porque eu tinha ido ao banheiro, ela me agarra e me dá o maior beijo na boca. Ninguém viu, só a Regina, aquela que eu pedi em casamento. Mas ela não disse nada.
E se casou oficialmente comigo, fez questão, pra ficar com o sobrenome. É dela que eu quero mandar uns textos que eu acho maravilhosos sobre educação, sobre relação com filhos e sobre relação sexual.

O PRAZER DO SEXO NA VELHICE

LOU: E você ficou certinho com a Regina?
KOSINSKI: Fiquei. Esqueci a Vera um pouco. A Regina diz que descobriu o sexo comigo. Ela era ciumenta, incrivelmente ciumenta, armou cada banzé! Queimou carta da Vera, cortou fotos da Vera. Você vai ver umas fotos aí cortadas.
Foi a segunda mulher que disse que descobriu o sexo comigo. Tem uma outra mais recente que escreveu: "Você me tornou mulher".
Ah! Sim, tenho que explicar minha relação com o taoísmo. Eu já falei alguma coisa.

LOU: Já. Você me mandou um texto que já publiquei na página "Vovô Ama Vovó".
KOSINSKI: É maravilhoso porque, fundamentalmente, o pênis não é necessário pro prazer sexual. O prazer sexual está no corpo inteiro. E a Regina partilhou disso.

LOU: Desse estudo?
KOSINSKI: Não ela partilhou na prática, dos resultados.
Há um escritor famoso que escreveu que sexo depois dos 65 é sem-vergonhice. É um escritor badalado. E no texto a Regina o cita e contrapõe: "E, no entanto, eu sou casada com um homem de 68 anos, que é o maior", e me botou no céu!

LOU: Mas é um absurdo dizer e escrever que o sexo é uma sem-vergonhice. O sexo é uma coisa natural! Só pensa assim quem foi mal informado, mal educado pra vida e pro envelhecimento.
KOSINSKI: Exatamente! Não me sinto velho e acho que podemos sentir prazer sexual na velhice. A idade não muda nada. Quando você pensa que muda, aí pode mudar se você se deixar abater.

E aí, continuando, fiquei com a Regina até ela ir lá pra Maringá. Ela, de repente, começou a re-analisar a vida dela, o futuro, fez o doutorado e ficou empolgada com a Pedagogia, que ela tinha se afastado um pouco. Eu tenho milhões de cartas da Regina. Ela viajava muito pelo Brasil, porque era funcionária do SESC e tava sempre me telefonando, sempre me mandando cartas lindas. Até que um dia chegou à conclusão de que tinha que se separar mesmo. E pela primeira vez, fiquei sozinho. Eu poderia dispor daquela judiazinha, da Yolanda, mas fiquei sozinho.

Aí, eu fiquei sem mulher. Tem um dado interessante sobre aquela sueca que eu te mostrei a foto: é que ela nunca foi pra cama comigo. Beijava, fazia tudo, mas o dia em que eu toquei no seio dela, ela me pediu pelo amor de Deus, não faz isso.

LOU: Por que?
KOSINSKI: Aí eu vou ter um filho seu e depois você vai embora e eu vou ficar na Suécia sozinha. Você tem 11 filhos... Porque eu nunca escondi nada de ninguém. Ela tinha pais e tudo, mas tinha medo de ficar sozinha sem um companheiro, pra criar o filho.

LOU: E não poderia evitar o filho, ao invés de evitar o sexo?
KOSINSKI: Ela não tava interessada em sexo. Quem queria era eu. Ela estava servindo num Conselho Mundial de Igrejas, que estava se realizando na cidade de Upsala, e ela era uma das voluntárias que estava lá ajudando na parte bancária.

E aí começou a ligação mental com a Lúcia. E quando ela veio pro Rio de Janeiro, nem foi pra um hotel. Nós fomos jantar no Luna, como sempre, e de lá fomos direto pro meu apartamento. Este é um caso que dura até hoje. E a gente só se viu em 98 e em 99. E esse tempo todo eu fiquei sem nada.

LOU: E esse tempo todo? Então é um amor intelectual.
KOSINSKI: Intelectual, mas que deu margem à experiência sexual, que foi um negócio, ela deu gritos na cama.
Aí fiquei nesse romance com a Lúcia.
A Lúcia teve relação sexual comigo e depois dela eu parei num voto de aparente fidelidade. Ela até me disse uma vez: - Meu amor, eu sei como você é. Eu não vou me sentir traída se você se relacionar sexualmente com uma pessoa. Mas eu fui arrastando, arrastando, até porque a vida aqui na Dignus não me propicia oportunidade pra arranjar um relacionamento amoroso: por causa da crise econômica que me impede de fazer os programas que eu fazia antigamente, que era ir lá no bar do Beto, onde eu conheci de uma maneira muito curiosa a Julieta, uma poetisa. E sabe como a conheci? Ela estava do lado de fora, na varanda e me perguntou se o que eu estava comendo estava bom. Eu disse que estava bem gostoso. No que ela perguntou, me estendeu um guardanapo de papel com o nome e o telefone dela. Aí começou um caso, não foi um grande caso e ela até hoje me telefona. Mas eu não tenho entusiasmo por ela, porque ela não me seduz. Ela me levou até, pagou. Foi ela quem me fez conhecer, talvez, um dos melhores motéis que existe no Rio, que é ali na rua Bambina. Foi ela quem pagou porque eu estava sem dinheiro.

LOU: Eu tô vendo que na sua história você era mais atacado do que atacava. Já começou quando você era seminarista, estava dormindo e as moças queriam beijar sua boca. A sua nora te beijou lá na granja e agora a Julieta foi outra que atacou. E depois da Julieta, você não teve mais ninguém?
KOSINSKI: É, não tenho saído porque tô com as finanças abaixo da crítica. E a minha filha tá tirando o meu pé da lama. Porque eu tenho duas aposentadorias. Uma do serviço público federal, onde eu fui técnico em comunicação social pelo Colégio Pedro II, e outra como jornalista pelo INSS, que é muito mais baixa. Agora, estou reivindicando uma revisão com direito à aposentadoria de anistiado, e tem um mês e pouco que eu mandei um requerimento pro chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, com protocolo. Se sair esse negócio não só vou receber aumento como os atrasados e vou me sentir rico e não só da graça de Deus.

LOU: E como foi que você veio morar aqui na Dignus?
KOSINSKI: Ah, eu estava morando com minha filha, a quem agora entreguei toda a administração das minhas finanças. Essa filha é também formada em enfermeira pela Ana Néri e é uma dedicação fora do comum. Ela se dá muito bem comigo. Tem um filho só, meu neto, que não se dá comigo.

LOU: Seu neto não se dá com você?
KOSINSKI: Não se dá. Tem verdadeiro ódio de mim. Minha nora tentou me matar Rsrsrsrsrs. Você se lembra, daquela médica, namorada do meu filho mais velho, Gilberto que me beijou, naquele Reveillon na granja, lá em Juiz de Fora? Ela, depois, se casou com ele.

LOU: Acabou casando? Seu filho aceitou?
KOSINSKI: Ele não soube de nada.

LOU: Você preferiu não falar com ele que ela que te agarrou?
KOSINSKI: Eu fiquei inteiramente sem graça.

LOU: E o que aconteceu, pro seu neto ficar com ódio de você?
KOSINSKI: Foi o seguinte: dois anos depois, eu tive que fazer uma cirurgia na carótida pra tirar um alteroma. E aí ela, a médica, já casada, foi me visitar com meu filho. E Regina não permitiu que ela entrasse. Ela não me perdoou, porque atribuiu a mim a iniciativa da proibição. Acho que foi loucura dela.
Logo depois que eu fiquei sozinho, eu fui convidado pelo filho, Gilberto, que mora em Manaus a ir morar lá. Mas num dia qualquer, ela, de repente, na hora do jantar disse: - Vou te matar e vai ser esta noite. Tirou a faca e partiu pra mim.

LOU: Aquela que te beijou, agora queria te matar?!!.
KOSINSKI: É (risos)

LOU: Mas por quê?
KOSINSKI: E eu sei? Meu filho passou a noite deitado, porque ele é forte, deitado na porta pra ela não passar pra me matar. E, no dia seguinte, ele me pôs no avião pra voltar. Aí, eu fui morar com a minha filha mais velha.

LOU: E o seu neto ficou sabendo disso?
KOSINSKI: Não, não ele não soube disso. Ele soube, não sei como, de uma história absolutamente falsa, possivelmente que ela inventou que eu teria tentado violar a filha dela e por isso ela tentou me matar. Essa história foi pra se justificar. Então, não dava pra meu neto ter tanta raiva de mim, porque todo mundo desmentiu. Mas de qualquer forma, ficou inviável a convivência. Aí eu resolvi morar sozinho. Comecei a procurar um canto pra mim, estive lá na Vila do Sol, mas não me agradou muito não. Até que eu descobri na propaganda a Dignus. E eu vim ver, me dei bem com a Marina, que é a diretora daqui.

LOU: Tudo novinho.
KOSINSKI: Tudo novinho. E tem uma senhora que de vez em quando passa por mim e diz: - Seu cabelo é lindo. Mas não dá nem pra pensar em sexo com ela.... E eu sou o único homem.

LOU: Você fica muito sozinho? A solidão é grande?
KOSINSKI: E como!

LOU: A sorte sua é que você tem um computador, né?
KOSINSKI: E descobri uma tal de Lou Micaldas. Meu Deus do céu! Não me ponha maus pensamentos na cabeça.
E, por coincidência, você ser filha do Micaldas, meu professor de português. Eu gostava muito dele, apreciava muito, admirava. Aí, quando você falou Micaldas, eu me senti em família.

LOU: E minha mãe era a escritora Magdalena Léa. Ela escreveu o livro "Quem Tem Medo de Envelhecer?".
KOSINSKI: Não conheci.

LOU: O livro dela é uma beleza. Vou te mandar um então.
KOSINSKI: Quero sim.

LOU: Ela ensinou a muita gente a romper com os tabus do envelhecimento. Você depois vai ler. Me fala agora do seu dom de escrever, desse seu lado de escritor.
KOSINSKI: Ah, sim. Passada a fase jornalística, porque eu trabalhei em vários jornais por muitos anos, trabalhei no Jornal do Brasil, no O Globo e comecei a escrever a torto e a direito. Aí eu entrei no jogo de fazer também, entre outras coisas, críticas à igreja, porque, depois do Papa João XXIII, houve praticamente uma cisão dentro da Igreja: Igreja Conservadora e Igreja Progressista. E eu malhava a igreja conservadora e que era a que estava no poder. E isso foi um dos motivos pelos quais os militares pensaram que eu era subversivo. Quem era favorável à Igreja Progressista era esquerdista; então eu passei a ser esquerdista para eles. E eu entrei na literatura praticamente depois que comecei a escrever minhas memórias. E em 98, eu terminei o meu livro de memórias que é este "Deus Não Mora Mais Aqui", que mostra justamente esse percurso. Quando acabo, não é que eu negue Deus, nem afirmo. Antes, pelo contrário, eu não sei, realmente não sou capaz de negar nem de afirmar, é uma interrogação. Então, termina o livro com essa cena, porque eu faço todo o livro na 3ª pessoa: o filho do Tenente - meu pai era Tenente. O filho do tenente evidentemente supõe-se que ele morre e chega lá no espaço, onde quer que seja, não está definido e ele pergunta por Deus e uma voz lhe responde: - Deus? Você procura Deus? Entendi bem? Deus não mora mais aqui. Então, quer dizer, todo o jogo da vida dele, era a esperança do céu, inferno purgatório. E ele pergunta: - Mas onde está Deus? Aí a personagem põe a mão na cabeça dele e diz: - Tá aqui!

LOU: Antes de publicar seu livro no site, eu dei uma lida e achei muito interessante. E cada página que eu lia, dava vontade de não parar, de ler mais adiante.
KOSINSKI: Eu quero falar, aproveitando que tô bem perto de você, olhando bem você, é que várias pessoas leram e enviei para várias editoras. O que eu tenho de elogio! Você chegou a ver?

LOU: Alguns eu li e até publiquei na página de comentários do nosso site.
KOSINSKI: Exatamente. Élio Gaspari, etc. Tem do Marcos Santa Rita e a coordenadora da Paz e Terra, Cristini Horig, me escreveu uma carta dizendo que a editora não iria publicar. Sempre me apresentavam um motivo e na verdade é medo. Brincar com a Igreja não pode. Então, o livro malha a Igreja. Mas ela escreveu um elogio que talvez seja o maior elogio que o livro tem.

LOU: Você tem quantos anos agora?
KOSINSKI: 79

LOU: Parabéns, você é super jovem, um garotão mesmo cheio de entusiasmo! Qual o recado que você manda pros VelhosAmigos, agora que você também já é um "VelhoAmigo"?
KOSINSKI: Eu tenho que me render. Conheçam a Lou Micaldas. Eu já recomendei esse site pra muita gente. Eu tenho feito bastante propaganda de você.

LOU: Este foi um recado direto pra mim! Mande um recado pras pessoas que, com apenas 40 anos, já se sentem velhas!
KOSINSKI: Você é velho quando se sente velho. Isso depende um pouco da mente de cada um, mas eu acho que o sexo tem muita importância nisso. Eu não sei se a pessoa que é insensível ao sexo tem a possibilidade de levar a juventude adiante...

LOU: E quem mantém você aqui?
KOSINSKI: Eu. Além de eu me manter aqui, eu mantenho parcialmente a minha filha Regina que é excepcional. Pago a escola e condução pra ela.

LOU: Eu agradeço muito a sua entrevista!
KOSINSKI: Eu é que agradeço!

Revisão: Anna Elisa Fürich

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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