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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

JOSÉ LUIZ TEJON
publicado em: 26/01/2017 por: Lou Micaldas

Matéria publicada em 13/02/2007

José é o nome de um menino, filho de mãe solteira pobre, que foi adotado por um casal de imigrantes europeus. Ele foi vítima de um incêndio que deformou o seu rosto, quando tinha quatro anos. E o menino cresceu e se tornou gente grande! E bota grande nisso! Ele alcançou sucesso internacional na sua profissão e nas diversas atividades para as quais se dedicou. José nos relata como foi sua vida e ensina como se pode superar tanto sofrimento, vencer tantos obstáculos e se tornar um grande homem!

Lou: Qual o seu nome todo? Quando e onde nasceu?
Tejon: José Luiz Tejon Megido, nasci em Santos, 1952.

Lou: Você ama seus pais adotivos. Que sentimento bom! Qual o nome deles?
Tejon: Amo intensamente meus pais adotivos: Rosa Hoffmann e Antonio Alves, dois imigrantes europeus já falecidos. Ela alemã e ele português. Algo curioso dessa relação é que eles não se davam nada bem como um casal.
Porém, individualmente, me amavam extraordinariamente. Ficaram juntos a vida toda. E para felicidade ou infelicidade deles, a razão pela qual não se separaram foi a minha existência.

Lou: Quando e por que você foi adotado?
Tejon: Desde cedo, já no primeiro ano de vida, fui adotado porque minha mãe biológica era solteira, imigrante, espanhola, trabalhava como empregada doméstica em Santos e não tinha como me sustentar. Fui ficando na casa da Rosa e Antonio, enquanto ela ia trabalhar fora.
Um dia ela decidiu, junto com outros espanhóis imigrantes, tentar melhor sorte na Argentina. Combinou que iria e, quando as coisas melhorassem, ela voltaria para me pegar. Infelizmente faleceu algum tempo depois, em Buenos Aires. O nome dela era Benigna.

Lou: Qual foi a sua reação ao saber que era adotado?
Tejon: Fiquei sabendo da história, quando tinha uns 12 anos. Meu pai adotivo me contou tudo, passou-me o endereço que tinha de parentes que moravam na Espanha e disse que dali pra frente, se eu quisesse, poderia conhecê-los, etc.
Não houve revolta alguma da minha parte. Na verdade, o amor que tínhamos era tão grande que o que eu menos queria era saber de qualquer possibilidade de me afastar deles. Fiquei, sim, preocupadíssimo em esconder da minha mãe adotiva que eu já sabia da história. Só fui conversar com ela sobre isso quando eu já tinha mais de 30 anos e de maneira muito informal, casual, quando não havia mais nenhum risco de despedidas, pois nossas vidas já estavam definidas. De verdade mesmo, quando eu soube, toda a preocupação foi minha de jamais tocar no assunto para que minha mãe adotiva não sofresse com uma conversa desse tipo.
Fui conhecer esses parentes na Espanha e alguns que estão na Argentina só quando já estava adulto, com mais de 30 anos. Tenho com eles, hoje, uma relação normal.

Lou: Como aconteceu o acidente que causou a queimadura do seu rosto?
Tejon: O acidente foi caseiro. Minha mãe derretia um resto da cera de uma lata de cera, para aproveitamento. A lata pegou fogo... uma chama alta... Para não queimar a casa, ela arremessou a lata para o quintal... Nesse momento eu vinha correndo em direção à cozinha. Então, houve o choque do meu rosto com o líquido fervente da cera derretida com gasolina.

Eu tinha cerca de 4 anos. Quem salvou minha vida foi uma vizinha, a dona Helena, que era professora de violão. Anos depois, ela me ensinou a tocar violão e salvou minha vida pela segunda vez. A dona Helena viu o acidente do quintal dela, pulou o muro com uma manta molhada e conseguiu extinguir o fogo.
Minha mãe adotiva, desesperada, se queimava nos braços e não conseguia apagar o fogo.

Lou: Fale da sua infância.
Tejon: Minha infância foi toda no bairro da Vila Belmiro com o Marapé, na cidade de Santos. Uma população de imigrantes, filhos de imigrantes, trabalhadores, pequenos comerciantes. Uma diversidade humana sensacional. Vivíamos nas casas uns dos outros. A criação na rua, com os amigos da rua, os campos de futebol, o Santos Futebol Clube da áurea época do Pelé.

Isso tudo foi extraordinário para mim no meu pós-acidente e no convívio com a queimadura.
A comunidade da cidade de Santos do meu bairro, da escola primária, do colegial da época, aquela sociedade foi fundamental na minha superação. Os vizinhos!

Lou: Como você lidou com essa tragédia.
Tejon: Lidei com essa tragédia de viver a realidade da minha rua, do meu bairro, da minha escola primária. Minha mãe e meu pai me levavam para todo canto.
Como desenvolveram um amor imenso por mim, parece que, ao invés de desfilarem com um menino que tinha o rosto desfigurado, saiam para passear com um “galã “ (como se dizia na época) do cinema. Fui colocado na realidade e aprendi com isso a enfrentar o mundo real, a compreender as coisas boas, as negativas, a encarar os problemas de um grave defeito na face exposta para todo mundo. Aprendi a ler as pessoas, conhecer suas índoles, seus interiores, dependendo da maneira com a qual me olhavam, se relacionavam comigo, e se viam a si mesmas, a partir do olhar sobre a minha pessoa.

Lou: Como você superou as dificuldades da adolescência, fase tão difícil pra todos? Acredito que deva ter sido mais complicada pra você, que teve o rosto deformado e o quanto isso deve ter abalado a sua auto-estima.
Tejon: Essa minha família adotiva é a razão de ser da minha superação, que envolvia tios que moravam aqui em São Paulo e outros parentes por parte da minha mãe, que eram do Rio Grande do Sul. E, além deles, como disse, as famílias dos vizinhos e a estrutura da comunidade da Cidade de Santos, naquela época dos anos 50 e 60.
A música, o violão formaram um encontro vital na minha vida, na minha história de superação. Meu pai um dia me deu um simples e pobre violão. Éramos pobres. Com esse violãozinho, comecei a aprender a tocar com a dona Helena, a mesma vizinha que havia salvo a minha vida, anos antes. Com a música conquistei muita auto-estima. Logo vi que tocava bem, cantava bem e comecei a fazer músicas próprias, empolgado pelos Beatles, Jovem Guarda, a Tropicália. Foi graças à música que venci esse período dos 14 aos 18 anos.

Lou: Conte como foi arranjar a primeira namorada.
Tejon: A minha primeira namorada é um anjo, um ser de uma importância sagrada na minha existência. Claro que na época eu não a via com essa magnitude. Só depois , passados muitos anos. E, agora, eu tenho essa consciência clara sobre ela.

Por coincidência, ela também era uma moça que havia sido adotada pelos meus tios de São Paulo. Ela era filha de uma das irmãs da minha mãe que morava no Rio Grande do Sul e havia falecido. Convivemos juntos a partir dos meus 13 para 14 anos e nos apaixonamos. Com ela eu conheci a imensidão de uma bela paixão juvenil, bem ao modelo Romeu e Julieta, onde eu era a Fera e ela a Bela. Porém, com o passar de alguns anos, fui me intelectualizando.
Criei músicas, virei compositor, ganhei prêmios de músicas para os movimentos de teatro da época - final dos anos 60. Ela não estudava, tinha outros valores. Já nos meus 16 anos nos distanciamos. Mas ela foi simplesmente um oxigênio de vida na minha existência. Pois, além de tudo, era uma moça belíssima. Sair com ela para os lugares era para mim um verdadeiro tormento. Sentia-me como a própria fera de a "Bela e a Fera". Porém, vi com ela o poder do amor e como o conceito de beleza é estupidamente relativo.

Lou: Muitos jovens e até crianças nos embates dos primeiros interesses amorosos, me pedem conselhos pra superar a timidez e os complexos (espinhas, altura, etc.).
O que você tem a ensinar a eles?
Tejon: Logo aprendi que amor é uma energia superior que, muito mais do que a sua aparência pessoal, tem ligações com valores, com energias interiores. Aprendi que quando você tem orgulho e tesão por você mesmo, você atrai um monte de gente.
Comigo, na minha vida inteira, sempre foi assim. Pode ter certeza: a aparência física pode ser uma seleção para muitas pessoas. Porém, existem muitas pessoas que selecionam por outro critério. E, mesmo as belas e os belos, com o passar do tempo, quando ultrapassam a fase inicial da primeira juventude, já começam a perceber que existem coisas maiores nos relacionamentos do que a aparência, ou melhor, a aparência revela um poder oculto, que você não consegue descobrir, se ficar só preocupado com espinhas, altura, gordo, magro, manchas, etc. No meu caso, como não tinha jeito, não dava pra resolver, precisei aceitar isso. Então, sou uma prova viva de que existem muitas chances de ser feliz no amor, além das aparências. E os rapazes podem ficar ligados: com a minha cara feia e queimada, sempre tive belíssimas namoradas, considerando o padrão da beleza idealizado. Depois da minha primeira namorada, tive outras, não muitas, pois sempre vivi relacionamentos profundos com as pessoas. Jamais tive relacionamentos superficiais. E de todas elas tenho e guardo uma admiração, respeito e muito amor, depois de todo esse tempo.

Lou: Quando você deu a volta por cima?
Tejon: Dei a volta por cima na música e quando decidi acabar com a história de ficar fazendo cirurgias plásticas intermináveis. Quando aceitei a minha cara, esqueci disso e fui pra vida, pronto. E tudo começou a acontecer: o trabalho, a vida, tudo enfim, ou seja, é questão de foco.

Lou: Passada a fase difícil, você se casou. Ainda está casado com a mesma, ou faz parte da grande maioria que partiu pra outra tentativa de ser feliz no casamento?
Tejon: Casei-me a primeira vez com uma adorável e maravilhosa mulher. Éramos companheiros no mesmo grupo de teatro: Ela atriz e eu o músico e compositor do grupo. Tivemos três filhos. Depois de muitos anos, casei-me com uma segunda pessoa, fantástica, doce, sensacional Tivemos uma filha juntos. Tenho quatro filhos. Três mulheres e um homem, que vive hoje na Itália, onde estudou e trabalha.

Lou: Comente sobre as cirurgias reparadoras a que você se submeteu. Você acha que os recursos atuais trariam resultados melhores e mais rápidos?
Tejon: Fiz mais de uma centena de cirurgias plásticas ao longo de 12 anos, desde os quatro até os 16 anos. Hoje os resultados seriam muito melhores, sem dúvida. Fora isso, naquela época, tomei muita anestesia geral, pois as cirurgias todas eram com anestésicos fortes. Isso oferecia também um risco para minha saúde futura. E, naquele tempo, tudo doía mais. As injeções, curativos, tudo.

Lou: E o que você acha da enorme procura pela cirurgia plástica? Os jovens em busca da beleza, a qualquer custo, e os mais velhos na luta contra os estragos do tempo?
Tejon: Acho que se você usar a cirurgia plástica estética para se sentir melhor, não há problema. O problema é este: virar uma obsessão e você ficar achando que não consegue as coisas na vida por causa da sua beleza. Ou do exagero da beleza, um detalhe no nariz, outro na sobrancelha, outro nos lábios... isto tira o foco da realidade e faz com que a pessoa viva uma série de ilusões com brutais frustrações posteriores.

O exagero dessa preocupação tem um efeito tão negativo quanto o de se viciar na droga. E costuma virar uma boa desculpa para a infelicidade, para não trabalhar mais, estudar mais, para não conseguir namorados, namoradas. Pode ter certeza: isso não define o jogo. A beleza pode ajudar, abrir portas, atrair. Mas se você não souber o que faz depois, a beleza pode ser um enorme mal para quem não souber usar. Nada de mais terrível poderá existir do que você virar um produto de consumo descartável, numa prateleira de qualquer balada. Aos 20 anos pode ser legal, aos 25
curioso, depois dos 33, uma desgraça absoluta.

Lou: Fale de sua banda "Dinossauros Rock Band" e sobre o seu talento de compositor. Como surgiu?
Tejon: Desde a época da infância toco violão, fiz músicas, tive a sorte imensa de participar do maior e melhor movimento de teatro do país no final dos anos 60, na Cidade de Santos. Depois vim para São Paulo. Naqueles anos, 67/68/69/70, em Santos, época dura da repressão militar, íamos tocar Rock nas boates do Cais do Porto de Santos. Era a zona mais famosa do Brasil. O Rock entrava no país pelo porto. Os marinheiros traziam os últimos lançamentos. Então, sempre curti uma boa banda de Rock em paralelo as minhas músicas próprias. Depois que entrei para a publicidade e marketing, sempre mantive uma atividade musical.

Lou: Onde vocês se apresentam? (espaço pro seu comercial... risos)
Tejon: Há uns 6 anos, temos a Dinossauro Rock Band que se apresenta uma vez por mês no "Dinossauros Rock Bar", nosso bar, um Pub de Rock, na Rua dos Pinheiros, 518 em São Paulo.
Você pode procurar no site: www.dinossaurosrockbar.com.br e verá a data do mês, quando nos apresentaremos. Geralmente, uma vez por mês. Fazemos Rock antigo dos anos 60 e 70.

Lou: Você foi eleito um dos seis melhores palestrantes do Brasil pelo 9º Prêmio Top of Mind de Profissionais de Recursos Humanos. Fale sobre mais essa conquista vitoriosa.
Tejon: Fui eleito um dos seis melhores palestrantes do ano. Isto é uma loucura absoluta. Se você imaginar que eu não tinha coragem para sair na rua, que tinha vergonha de falar com as pessoas, que jamais fazia perguntas em público para não ser visto e, hoje, olhar para uma multidão de milhares de pessoas e fazer palestras é, de fato, uma tremenda superação.

Lou: Como foi que você conseguiu?
Tejon: Simples! Parando de dar importância ao preconceito que você mesmo sente de você. Tudo no mundo é a gente com a nossa cabeça, tudo. A minha carreira profissional também ajudou muito. Fui para a propaganda, para o marketing, virei diretor de empresas, fui dar aula na ESPM e agora na FGV. Desde sempre, aprendi que precisava fazer muitas coisas ao mesmo tempo, muitas! Isso não permitia pensar em muita bobagem.

Lou: Então o trabalho ajudou muito na sua superação...
Tejon: A obra, o trabalho da gente vai nos realizando e nos dando orgulho, confiança e mais auto-estima. Nas minhas palestras, quando falo de motivação e superação, falo com a minha experiência própria. E isso fica muito forte. Quando falo de marketing, vendas, liderança, falo também com experiência própria e isso fica também verdadeiro e forte. Creio que esse meu ângulo existencialista de viver para falar do que se viveu é uma diferença importante na minha carreira de palestrante. E sempre estudei muito e estudo.

Lou: E sobre seus livros. Quais são os principais temas abordados? Gostaria de publicar alguns textos seus no nosso Site.
Tejon: Dos meus livros? Eu tenho sete. Quatro são de marketing e vendas. E os últimos três, pela editora Gente: "O Vôo do Cisne"; "O Beijo" e "Realidade e Liderança para Fazer Acontecer". Fui muito estimulado pelo querido amigo Roberto Shinyashiki, que foi meu amigo de infância e juventude lá em Santos, para escrever esses últimos livros e começar a dar palestras. Devo isso ao estímulo e amizade querida do Roberto. Hoje, também, faço comentários na Rede Transamérica de Rádio, com Irineu Toledo, no Transnotícias – segundas, quartas e sextas, em torno das 7h da manhã. E na Rádio Mundial de São Paulo, às terças-feiras, 10h da manhã, ao lado do Roberto Shinyashiki.

Lou: Costumo terminar minhas entrevistas, pedindo que o entrevistado mande uma mensagem de incentivo. Você pode mandar um recado para os nossos “Velhos Amigos”?
Tejon: A minha mensagem para o “Velhos Amigos“ é: somos resultado da comunidade que nos cerca e daquilo que conseguimos
desenvolver dentro das nossas cabeças. A partir de uma certa idade, somos os únicos responsáveis por tudo o que realizamos ou não realizamos. Na vida não tem desculpa. Tem o que você faz com o que a vida faz com você. O resto é anestesia ou droga pra fugir da vida.
Lou: Fiquei impressionada com sua maneira de enfrentar tanto sofrimento em grande parte da sua infância e juventude. Sua vida sofrida, sua superação, culminando no seu sucesso profissional e amoroso são uma tremenda injeção de ânimo para tantas pessoas que se sentem abatidas com situações até menos graves, mas nem por isso, menos sofridas. Comovida, agradeço sua entrevista. Muito obrigada!

Autor(a): Lou Micaldas

 

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