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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

LINDALVA CRUZ
publicado em: 26/01/2016 por: Netty Macedo

O processo criativo é resultado daquilo que vemos, ouvimos ou sentimos"
Lindalva Cruz

Matéria publicada em 05/05/2002

Nasceu no dia 29 de novembro de 1908, em Manaus, a filha do casal Raimundo Rodrigues Cruz e Rosa Fontenelle da Silva Cruz. A criança recebeu o nome de Lindalva Cruz.
A partir dos 6 anos, a menina amazonense começou a lutar pela vida, trabalhando, desafiando o mundo machista e todos os preconceitos da sua época. Seu instrumento de lutas e vitórias foi, e ainda é, até hoje, aos 93 anos, o piano.
Compositora, pianista, poetisa e com o dom da palavra, Lindalva Cruz nos concedeu esta deliciosa entrevista, numa tarde inesquecível, pela riqueza de sua história e ainda pela audição de piano exclusiva para o "velhos amigos", em que tocou uma de suas composições "... E O Uirapuru Canta", que você vai poder ouvir no final da entrevista e mais "Rio Negro ao Luar ", músicas do seu CD, tocadas por ela ao piano.

Lou:De onde vem essa sua veia musical? Sua família era de músicos?
Lindalva:Minha família gostava muito de música.

O Teatro Amazonas foi inaugurado, com a apresentação de uma companhia de ópera italiana . E o tenor faleceu. A senhora dele era pianista da companhia e erradicou-se em Manaus. Mamãe foi uma das alunas dela, durante uns 4 ou 5 anos.
De modo que mamãe era uma das moças que tocava melhor em Manaus.

E eu era louca para mexer no piano. Me aproximava, olhava... e ela dizia: - Minha filhinha, piano não é brincadeira de criança. Então, comprou um desses pequeninos assim... Mas eu queria mexer no grande.

Lou:E quantos anos você tinha?
Lindalva:Tinha 4. Mamãe dizia: - Quando você completar 6, você vai sentar aqui nesse banco, e vai começar a aprender. E, todo dia, eu perguntava: Tá longe dos meus 6 anos?

Afinal, quando completei os 6 anos ela me chamou. E eu tive uma felicidade tão grande!
Eu tenho a impressão de que eu olhei pro piano e o piano estava todo iluminado. Na minha imaginação eu via luzes.

Sentei e ela começou a mostrar o teclado e eu achava que cada nota daquela era uma luzinha. E eu nunca esqueci isso! Eu ficava pensando que eram luzes as teclas do piano, o que não deixa de ser.... Luzes!

Então, minha mãe começou a me ensinar as notas no papel. As notas que correspondiam no teclado, e assim fui eu. Depois, passei a estudar com uma Senhora extraordinária. Além de muito boa, ela era uma grande artista.

Lou: Qual era o nome dela?
Lindalva:Maria Silvia Jardim de Oliveira. O apelido dela de solteira era Nini Jardim. E ela foi depois minha madrinha. Mas ela morreu muito cedo, faleceu aos 32 anos de idade. E quando ela faleceu, eu estava, mais ou menos, entre o sexto e sétimo ano e não havia mais professores na cidade.

Lou:Como você continuou seu estudo, você ainda era criança?
Lindalva: Era adolescente. Fiquei estudando sozinha. Até que um dia, quando eu já tinha uns 14 pra 15 anos, eu fui a um aniversário e uma das amigas começou a brincar de ler a mão. Depois olhou pra mim e disse: - Olha, eu não vou ler a tua, porque não acreditas. Eu disse: - Não é que eu não acredite, mas é que eu acho que meus ideais são tão difíceis que nem vale a pena. Ela disse: Não? Como, por exemplo! Eu disse: - Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro.

Ela riu, as colegas todas riram muito e tal e nessa reunião, tinha uma das minhas amigas, que era filha de um intendente. Hoje se chama vereador, naquela época era intendente.
E ela disse: - Não minha amiga, o difícil é difícil, mas não é impossível!

Então, conversou com o pai, e o pai lançou lá um projeto propondo uma bolsa de estudos para mim. Naquela ocasião os governadores não pagavam em dia. Havia muita dificuldade na cidade.

Lou: Você começou a trabalhar ainda criança?
Lindalva: Comecei com 8 anos. A cidade de Manaus não tinha café, manteiga, trigo para fazer pão, nada disso, porque vinha de fora.

E quando chegavam nos navios, só aquelas pessoas mais abastadas é que tinham recursos para isso. Nós não tínhamos. E meu avô já criava vários netos. Nós tomávamos chá de capim limão ou chá de erva cidreira, temperado com rapadura e junto com macaxeira cozida e batata doce cozida e era tudo muito gostoso.

Lou:E tudo muito saudável.
Lindalva: É, e as outras coisas não faziam tanta falta, né? Então, havendo essa dificuldade familiar, eu achei que devia arranjar um emprego.

Naquela época não havia negócio de Juiz de Menores. Meu avô era dentista e éramos conhecidos na cidade. A gente andava pela cidade livremente sozinhos. E eu saí e fui procurar um emprego (risos)

Lou:E seu pai morava com vocês?
Lindalva:Não, já tinha falecido, mas antes já tinha ido embora. Deixou-nos. E eu encontrei com o rapaz que tocava no cinema. O irmão dele era dono de uma casa de músicas. E como eu não podia comprar as músicas, aos sábados, eu ia lá, ele me emprestava as músicas, eu passava o domingo copiando. Segunda-feira eu ia devolver.

Lou: Sua luta começou aí...
Lindalva: Já era minha luta. E eu tocava música popular e essas coisas todas. E ele disse: O que você tem que está tão triste?
- Ah, eu vou procurar um emprego. Quando eu disse: eu vou procurar um emprego, ele deu uma gargalhada.
- Emprego? De quê?
- Eu não sei, mas eu tenho que ajudar, porque lá em casa a situação tá muito difícil e eu tenho que ajudar.
- Veja como são as coisas. Eu vou estudar medicina, meu sonho é ser médico. Ele tinha 18 anos e eu 8.
- E quem vai te substituir?
- Ah, não! Não vais me dizer que tu estás pensando?....
- É justamente isso que eu tô pensando. Aí ele ficou assim... - É, quem sabe? Vou te levar lá no padrinho.

O padrinho dele era justamente o dono da casa de música e o chefe dos tercetos do cinema. Porque o cinema era piano, violino e flauta. Então, chegamos lá. Eu era tão pequena, tão miudinha que o Seu João, padrinho dele, me botava no colo. Pegava as músicas e perguntava: qual é a música que você quer? Quando tinha mais de uma, ele me dava de presente. Não, essa você não precisa mais trazer...
E o Francisco então contou:
- Padrinho, imagina que ela quer me substituir!
E ele ficou assim... - E o que você tá tocando agora?
- Ah, tô tocando isso e isso.
- Vamos fazer um ensaio. Quando nós chegamos lá no cinema, o flautista e o violinista estavam aflitíssimos. - "Vão trazer essa menina para cá e vai atrapalhar e não sei o quê..."
E ele: - Não! Vamos experimentar. Se der bem, se não, paciência.

Eu confesso que nessa hora senti um friozinho aqui dentro: Ai meu Deus, o que vai ser? Mas saiu tudo uma beleza. Quando eu ouvi a voz do maestro dizer, ótimo! Eu disse, tô empregada.

E daí, eu fiquei uns 10 anos trabalhando com eles, sob a regência do Maestro João Donizetti Gondim e todos eram muito carinhosos comigo. Eram 3 cinemas e eu fiquei no Alcazar e depois no Cinema Odeon.

A ESTRÉIA

A estréia foi no Alcazar, num domingo, com a casa lotada. Deixei que meus dedos corressem, levados pela minha fé e pelo meu coração.
Minha mão não dava oitava e então o violinista Armando Teixeira e o flautista Jonathas Madeira colocavam mais um floriadozinho no instrumento deles para que não fosse notado que eu não dava oitava, não alcançava, né?

Aí, ouvi o maestro dizer: Bravo, menina, está ótima! Fiquei emocionada...
Meus avós e minha mãe não concordavam com meu trabalho no cinema, mas vibraram com o sucesso.

DESEMPREGADA AOS 18 ANOS

Dez anos depois, veio o cinema falado e eu perdi o emprego. Bom, o quê que eu vou fazer agora? Tinha um senhor numa livraria, um português, que gostava muito de mim. Dizia... Olha leva esse livrinho, quando você acabar de ler este, traga que eu lhe dou outro. E eu cheguei lá muito calada...
Ele disse: - O que é que tem minha florzinha, que está tão calada hoje?
- Ah, seu Joaquim, veio o cinema falado.
- Ah, veio o cinema falado, quer dizer que vocês vão perder o emprego?

Lou: Com o cinema falado eles suspenderam as audições de piano?
Lindalva: Suspenderam, porque já tinha a própria música. Os primeiros filmes, que eram só sincronizados, nós ainda fizemos. O meu avô ajudava, fazia aqueles sincronizados. Usava umas tábuas para fazer cavalos andando e aquela coisa toda.

Lou: A trilha sonora?
Lindalva: Justamente. Então seu Joaquim disse:
- Leva isso aqui para você se distrair. Eram umas paletas, com umas tintazinhas de reclame de tinta aquarela. E ele me deu aquilo. E eu cheguei em casa, tinha uma florzinha e eu comecei a fazer o desenho daquela florzinha ali.

LINDALVA PINTORA

Meu avô era dentista e o consultório era lá. Chegou uma senhora que era cliente dele, e perguntou:
- O que você tá fazendo aí? Você pinta?
- Não senhora, eu não sei pintar, é que Seu Joaquim, da Acadêmica, me fez presente disso e eu estou fazendo umas florzinhas.
- Quer ganhar dinheiro?
- Claro! Agora o cinema fechou.
- Então você vai me fazer uns desenhos, que tá perto do fim do ano e eu gosto sempre de fazer as provas das meninas e botar numa capinha.

Ora, não deu outra! Eu comecei a fazer umas florzinhas, uns riachos, uns negócios... Eu nunca tinha aprendido pintura, não sabe? Então, ela me pagava dez tostões por cada caderno daquele. E eu ficava até 1 hora, duas horas da manhã, porque tinha assim de encomenda. Todo colégio queria caderno da Lindalva. (risos)

A CORRERIA DA VIAGEM

Nessa época, eu queria estudar mais, voar mais alto. A Nini, minha professora, já havia falecido. O vereador arranjou a tal bolsa de estudos. A Prefeitura disse que ia dar a passagem, eu nem acreditava! Meu Deus, mas será possível? E prepara daqui e dali. Naquela época não tinha avião, quando o navio chegou, ele disse que não podia dar a passagem.

Os nossos amigos que poderiam emprestar, nenhum tinha dinheiro. Eram todos da mesma situação de empregados do governo. Então, uma grande amiga nossa, Ana, esposa de Júlio Verne disse: "não, isto não pode acontecer! Vamos fazer um recital pago."

Fizemos o programa. As filhas dela saíram passando os bilhetes pela cidade. O Ideal Clube ficou lotado para a festa e o prefeito meio encabulado, porque não tinha feito nada, disse: - Ah, mas fica ruim dessas meninas voltarem para receber o dinheiro, não sei o quê... vou mandar um funcionário buscar. O funcionário foi, recebeu o dinheiro. Nessa noite, deu um desfalque na Prefeitura e fugiu com o dinheiro da Prefeitura e o meu.

Lou: Perdeu o dinheiro?
Lindalva: Perdi. E ainda perdi mais.

Lou: Não acredito! Peraí, deixa eu mudar de posição (risos)
Lindalva: Telefonaram dizendo que eu fosse buscar o dinheiro. Cheguei lá, a praça tava cheia de gente e carro de polícia e aquela coisa toda.
- Mas, o que foi? Perguntei assustada
- Houve um roubo na Prefeitura. Olha, levaram o dinheiro do seu concerto.

O navio sairia naquela noite, se eu não viesse naquele navio, eu perderia o concurso que eu já estava inscrita.
Voltei para casa, com minhas pernas trocando e disse:
- Mamãe, não vou mais. Aconteceu isso assim, assim. A mamãe ficou tão desapontada, mas o que se ia fazer?

Mas, em frente a nossa casa tinha uma padaria e confeitaria. Quando meus avós construíram a nossa, eles construíram a deles.
Eles não conheciam ninguém em Manaus, e a minha avó fazia café e dizia... Chama os rapazes pra tomar café e tal. E eles ficaram assim muito amigos nossos. Já estavam idosos e um deles soube do roubo e decidiu: - Não! Ela vai! A passagem custava 500 mil réis. E ele atravessou a rua com os 500 mil réis na mão (risos).

Quando chegou... não foi do seu tempo, mas houve um filme que, quando a menina estava desanimada, sentava em cima do violão e ficava esperando que acontecesse alguma coisa ... Assim fui eu. Eu tinha uma malinha assim. Então fiquei sentada em cima da malinha esperando o que poderia acontecer.

Lou: Sempre com a sua fé e esperança...
Lindalva: Sempre! Quando entrou o português e disse: - Olha, parece que eu ainda ouço a voz dele.
- Lindinha, a que horas vais?
- Seu Joaquim, eu não vou mais.
- Ah! que vais, vais! Abriu minha mão, colocou a nota. Nessa altura, as lágrimas já estavam caindo, as dele e as minhas...

Ele disse: Não consideres dívida, me restituirás um dia, quando puderes e se quiseres, mas não é dívida. E saiu correndo. Chegou na padaria... chorava, chorava...
Aí a mamãe entra. Eu também estava estarrecida com aquele dinheiro na mão. Ela perguntou, o que é minha filha?
- Mamãe, Seu Joaquim Marques veio emprestar o dinheiro. Faltava meia hora para a saída do navio. E ela foi correndo tomar o bonde para ir buscar a passagem. Quando chegou em casa, eram dez para as 10. O navio saía às 10.

Naquele tempo, só havia dois automóveis na terra. Um era do obstetra e o outro era do governador. O mais era daqueles carros como apareceram na novela Terra Nostra, Mas eram muito caros e nós não podíamos pagar . Tomamos o bonde.Um homem com a minha malinha nas costas.

Quando nós chegamos no cais, que naquele tempo, era flutuante, o navio tava apitando e a escada subindo.
O que nós corremos! Eu e a mamãe e o homem com a minha malinha nas costas! (risos)

Quando chegamos gritaram: Olha, passageiro, passageiro! Baixa a escada aí, desce a escada! E eu subi.

Lou: Parece até filme de suspense...
Lindalva: Quando subi, uma das pessoas embaixo gritou: - Quando é que você volta? Aí um outro gaiato virou-se e disse: - Não volte não, foram muito ingratos com você, mande só o retrato (risos). Aí foi aquela gargalhada.

A "TARTARUGUINHA" CHEGA AO RIO

Bem, eu viajei 22 dias pra chegar aqui. No dia seguinte, fui ao Instituto conferir minha matrícula.

Na secretaria, tinha um senhor que era muito irônico e disse: Ô, aluna nova! Eu disse: - É eu cheguei ontem de Manaus... - Olha, chegou uma tartaruguinha! E me apelidaram de Tartaruguinha e eu atendia.

Disse: - Eu queria conhecer um professor. Porque eu não conheço ninguém no Rio de Janeiro (hoje já tem muita gente de Manaus morando aqui, mas naquela época não tinha não)
- Procure o Henrique Oswaldo, respondeu ele para brincar comigo, porque ele tinha certeza de que eu não ia ser recebida.

Lou: Esse professor era o papa da música?
Lindalva: Era e eu não sabia. E quando eu notei, as moças da secretaria, todas, assim, com ar de riso para mim, não me incomodei. Saí, perguntei como era, tomei o bonde e fui.
Lá chegando, era uma casa muito grande e apareceu uma governanta portuguesa:

- Menina você tem carta de recomendação?
- Não senhora.
- E você tem hora marcada?
- Não senhora.
- Então não posso deixar entrar. O maestro não está muito bem de saúde, está com 79 anos e já quase não está dando aula e não pode atender, você não tem recomendação.
- Ah, que pena!
- Por que?
- Porque eu cheguei ontem de Manaus, não conheço ninguém aqui e o seu Padilha da Escola de Música mandou que eu procurasse o maestro Henrique Oswaldo.

E o maestro estava no mirante fumando. Botou a cabeça de lá, me olhou. Sabia que esse tal desse fulano era muito irônico. Pensou logo. Ah, ele tá dando trote na menina. Olhou pra mim e simpatizou comigo e disse para a governanta: Deixa a menina subir.

E ela: - Mas maestro, tá na hora do seu repouso.
- Não! Deixa a menina subir. Eu subi. Quando eu olhei para ele fiquei encantada. Achei aquele homem com aquele olhar de bondade tão grande. E ele disse:
- Minha filha, em que posso ajudá-la?
- Eu vim com uma bolsa de estudos...
- O que você toca?
- A minha professora faleceu e eu estava estudando sozinha. Eu não sei nem qual a peça que vou apresentar.
- Então toque!
Aí a governanta veio, eu tava tocando. Ela olhou, fez assim como quem diz: tirou a sesta do maestro, né? E eu continuei tocando e ele disse: Olhe, esta não está boa. Toquei mais umas 3 ou 4, até que ele achasse uma boa.

Ele me ensinou como eu devia consertar umas coisinhas que estavam mal feitas e mandou que eu voltasse lá antes do concurso.
Na mesma hora, ele telefonou, para um outro professor. Enfim, me animou. Enfrentei um concurso de mais de mil candidatos.

Só passaram trezentos e noventa. Eram turmas de 50. Na turma que eu ingressei, só passaram 5 candidatos. E o primeiro lugar foi meu. Eu tirei 9,5 porque desafinei num si bemol.

O Maestro estava contentíssimo. Quando eu telefonei pra ele, foi logo dizendo - Já sei, porque falei com o secretário depois da prova, queria saber se você tinha passado. Venha amanhã aqui.

Eu morava numa casa de moças, num pensionatozinho modesto que tinha ali na Praia do Flamengo número 8. Tinha rato, barata, camundongo, centopéia, tinha tudo. Uma noite uma centopéia me ferrou no braço, foi uma confusão. (risos).

Bem, depois desta luta toda, quando eu consegui me matricular, que eu cheguei em casa, tinha um telegrama da minha mãe: "Volte, bolsa de estudos cortada."

Lou: Por que?
Lindalva: Porque mudou de prefeito e o prefeito disse que eu já tocava muito bem e que eu queria dinheiro para passear no Rio de Janeiro às custas da cidade de Manaus. E mandou cancelar a bolsa.

Lou: Já naquela época, um governante também não dava continuidade aos atos do antecessor!
Lindalva: Fiquei passada. Mas tinha que voltar. Eu não tinha dinheiro para ficar. Minha família não podia ajudar. Não tinha nenhum amigo que pudesse. E ainda ia lutar para conseguir um desconto na passagem.

Lou: E o maestro?
Lindalva: Aí, muito triste, fui me despedir do Maestro. Quando ele leu o telegrama, exclamou, Mas parece impossível! Como é que se faz uma coisa dessa com uma menina como você? E o que você pretende?
- Vou voltar. Não posso ficar.
- Não! Vou ajudá-la, você vai ficar.

Na mesma hora, foi pro telefone e me arranjou 6 alunas, pessoas que queriam estudar.

Lou: Uma indicação dele era muito importante.
Lindalva: Era a segunda vez que ele me via, e fez as contas junto comigo, quanto eu ia pagar de pensionato, quanto eu ia gastar de bonde, quanto, essas coisas todas, e depois, vem uma muito engraçada: no fim eu disse a ele: - Ah, maestro ainda tem mais uma despesa. E ele :
- Diga qual é a despesa que tem.
- Eu tenho que escrever pra a mamãe e a carta custa 200 réis (risos). Ele riu:
- E quantas cartas você faz?
- Uma por semana!

Eram 800 réis ele botou 2000 réis para as cartas.
- Você pode escrever mais para a sua mãe.
Mas as alunas não pagavam a mim, pagavam a ele. Então eu desconfio que ele naturalmente completava com mais algum.
E ele ainda mandou uma carta pro prefeito de Manaus:
"... seria lamentável que Lindalva Cruz interrompesse os estudos de piano que tão brilhantemente faz no Instituto de Música do Rio de Janeiro."

Quando chegou o fim do ano, os diplomas, que já estavam prontos, não serviam mais. Tinha mudado lá um decreto, uma coisa qualquer e esse tal do Sr. Padilha disse que os diplomas só sairiam em setembro.

VÁ SE QUEIXAR AO BISPO!

Eu pedi ao seu Padilha: - Ah não, com tanto sacrifício, eu vou voltar pra Manaus sem esse papelzinho?

- Então vá se queixar com o Bispo.

Eu saí. Era 1931, janeiro de 31. Eu pensei:

- Meu Deus, o Bispo... Mesmo que eu conseguisse falar com ele. Ele não poderia resolver! Pensei, mas quem é o Bispo dessa história? O Diretor da Imprensa Nacional!!! Vou lá (risos).

Lou: E a luta continua...
Lindalva: Bati pra lá. Falei com 8 pessoas para ver se conseguia chegar ao diretor. Afinal, ninguém podia. O diretor tava muito ocupado, Aí aparece um senhor crioulo, bem escuro mesmo, gordão que veio falar comigo:
- O que você quer menina?
- Eu sou do Amazonas eu tô com vontade...
- Você é do Amazonas?
- O que você quer? Vou arranjar pra você. Minha patroa é cabocla do Amazonas.

Lou: Ai! Que lindo!
Lindalva: Pois o homem me arranjou para eu entrar. Quando eu faço minhas orações, eu sempre oro por todos que têm me ajudado nesta vida. Está correto meu português?

Lou: correto, não se preocupe.
Lindalva: Aí, contei minha história. Aproveitei que tava com o uniforme da escola. Ele viu aquela garota com o uniforme da escola de Música. A saia verde, já muito ruça, a blusinha, a boina, sapato preto, meias pretas ...

E então o diretor disse que não estava fácil porque os diplomas, naquela ocasião eram colocados numas bandejas com água. Parecia aquela coisa de salinas. Eram colocados ali para serem fixadas as letras. E se fosse retirar um dali, talvez fosse ficar muito desmaiado, desbotado...Por isso eles tinham dado o prazo de 2 meses. Mas no meu caso, ele ia mandar retirar o meu do prelo.

Então, ele mandou buscar. Tava meio apagadinho, assim molhado. Ele mandou fazer um ofício. Chamou um contínuo para me acompanhar.

Era uma sexta-feira, no sábado, seria a entrega, eu viajaria no domingo de manhã.

Lou: Que sufoco, Ufa!
Lindalva: Enfim, o diploma saiu molhado, pingando mesmo. O diretor disse que se passasse a noite toda com o ventilador aberto, iria secar, abriu os ventiladores. Botamos lá e de manhã tava seco.

O diploma foi entregue na secretaria, porque as outras só iam receber na festa, daí a 3 meses e eu não podia ficar aqui no Rio. Qual não foi a minha surpresa quando o professor Luciano Gallet, um maestro, que era o diretor da Escola,

havia chamado o maestro Henrique Oswaldo para me entregar o diploma. Foi a maior emoção! A entrega, abraços, beijos e tudo. Recebi meu diploma, no dia 10 de janeiro de 1931, num sábado, véspera da minha viagem de volta pra Manaus.

Lou: Quanta emoção! E você conseguiu seu troféu!
Lindalva: Tem mais! O maestro Oswaldo preparou uma surpresa:
-"Eu e o Luciano, há muito tempo, temos um sonho de conseguir fazer em cada Capital brasileira um departamento do Instituto Nacional de Música e vamos começar pelo Amazonas. Fazemos questão que, pelo menos os primeiros diretores sejam da própria terra. Vamos começar pelo Amazonas. Aqui está o ofício para o governador do seu Estado. Um ofício da Escola Nacional de Música, fazendo essa proposta e outro nosso, meu e do Luciano indicando você para primeira diretora.
Eu disse: - Eu, maestro? Não!
E ele: -"Sei que você vai dizer que não tem capacidade para isso; capacidade você tem, você ainda não está bem preparada, mas com o tempo, você voará sozinha..."

Lou: Quantos anos você tinha?
Lindalva : Tinha 20, 21 anos . E ele continuou:
- "No início nós mandaremos todos os sábados, porque não tinha avião, era navio, todos os sábados mandaremos a orientação para você e você nos fará um relatório completo. Quando houver um aluno para exame final, o governo dará a passagem e ele virá fazer o exame final aqui. Assim, nós pretendemos fazer pelo Brasil, Instituto Amazonense de Música, Instituto Paraense de Música, Instituto Maranhense de Música, em todas aquelas capitais que os governadores aprovarem.

Eu parecia que nem estava pisando no chão. Mas eu maestro? Acabaram rindo e mandaram servir lá uns guaranás, umas coisas e tal. No dia seguinte, embarquei para Manaus.

UMA BELA RECEPÇÃO

Lou
: Como foi sua chegada?

Lindalva: Cheguei a Manaus feliz da vida. Foi o tempo mais feliz que eu passei naquela ilusão. No dia seguinte a minha chegada, eu fui ao Palácio Rio Negro. O governador me recebeu muito bem. Ele era um grande poeta, era da Academia de Letras, escrevia coisas muito bonitas. E numa vez, quando toquei, ele aplaudiu muito e disse: - Todo artista tem sua cruz, mas esta Cruz em Lindalva, é linda e alva..

DECEPÇÃO

Mas acontece que ele tinha uma protegida.
Mas, esta protegida não tinha condições de ocupar o lugar. Ele então ficou vendo como é que fazia. Me recebeu muito bem, prometeu e tal. Passou 1 mês, passaram 2 meses, não se sabia de nada.

Veio o Jornal da Manhã e eu vejo:
"Foi inaugurado, ontem, no Palácio Rio Negro, sob a presidência do governador Dr. Álvaro Botelho Maia, o Conservatório de Música do Estado do Amazonas. Presentes os professores, fulano, fulano, fulano, fulano e fulano. "
E eu era a ilustre ausente.

Lou:A protegida estava no seu lugar?

Lindalva: Não, só fez a inauguração e convidou todo mundo, menos a mim. Só que eu tinha dado os ofícios, mas não entreguei as instruções para que fosse instalado o referido Instituto.

Lou: Ainda bem.

Lindalva: Mas eu fiquei tão machucada com uma coisa dessas, porque eu tinha me esforçado tanto por tudo... E o amigos encheram a casa. "Mas Lindalva, o que é isso? " "O que foi que aconteceu? Você não quis ir?"
E eu respondia: - Não. Eu não sabia. Acabei de saber agora, pelo jornal.
- Mas como pode ser uma coisa dessas? Você é a nossa melhor pianista!

O tempo passou e o conservatório não apareceu, porque não tinha orientação nenhuma. Eu, então resolvi abrir o meu pequeno Instituto com este nome: "Instituto Amazonense de Música.

Mas antes disso, eu ia escrever pro Maestro Oswaldo, porque eu tinha que dar uma resposta. Eu peguei a caneta e sentei para fazer uma carta. Nisto, entra uma amiga minha chorando. Então, já viste o jornal da tarde?
- Não.
- "Morreu, ontem, aos 79 anos, o Maestro Henrique Oswaldo no Rio de Janeiro".
Você pode imaginar como eu fiquei?

Lou: Nem tenho palavras.

Lindalva: Mas eu procurei orar, procurei me orientar, ver o que é que eu podia fazer em homenagem a ele, à idéia dele.

Eu resolvi então abrir o meu, não tinha dinheiro. Foi o português da livraria que me deu...
- Lindinha, o que você precisa da livraria?
- Preciso de cadernos, essas coisas todas.

E ele tomou nota e mandou fazer até uns cadernos com a inscrição "Instituto Amazonense de Música sob a direção da professora Lindalva Cruz", livro de matrícula, livro de visitas e não sei mais o quê. Eu fiquei assombrada com aquilo. E outras pessoas das minhas relações cada uma foi ajudando um pouquinho. O governo sem tomar o menor conhecimento. Em 1 mês, eu estava com 30 alunos.

Lou: Você tem muitas alunas pianistas espalhadas pelo Brasil?

Lindalva:Tenho muitas. Aí abriram um concurso para livre docente da Escola Normal, cadeira teórica. Eu me inscrevi, eram 5 cadeiras, francês, inglês, português, geografia, não sei mais o quê lá... e música.
Mas, era preciso muito dinheiro, para mandarem buscar examinadores de fora. Então, eles resolveram fazer as nomeações pelos títulos e o meu era o mais importante pois era da Escola Nacional de Música.

Fizeram a reinauguração da Escola Normal. Fui convidada oficialmente, assinei naqueles livros grandes, sentei naquelas cadeiras muito altas, recebi todas aquelas homenagens e recebi o convite para a aula inaugural no dia seguinte.

Estava feliz por conseguir aquele emprego. Mas quando, no dia seguinte, me apresentei, o diretor disse que não tinha aberto matrícula para mim. Porque o catedrático de lá disse, "que se essa menina fosse para lá" - eu tinha 21 anos nessa ocasião - "Se essa menina fosse para lá, ia querer mandar nele. E ele não estava pra isso, ia pedir demissão." Fiquei só com a nomeação. Nunca me aceitaram como livre docente.

E O RIO RECEBE LINDALVA DE VOLTA
Aí voltei pro Rio de Janeiro, já estava com 32 anos.

Lou: E o Instituto Amazonense de Música acabou quando você veio embora?

Lindalva: Depois que eu vim embora, durou mais ou menos uns 2 anos. Comigo foram 12 anos. Depois, as duas ex-alunas, que tomavam conta, casaram e acabaram deixando. Terminou tudo.

VENCENDO AS DOENÇAS

Lou: Agora me conta sobre a sua vida, fora da música. Fala dos milagres que aconteceram com você.

Lindalva: Em 1964, eu morava no Leblon, numa rua muito estreita e era um campo de futebol. Então era um eterno Maracanã. Certo dia, eu fui para casa e levava umas compras, uns ovos, outras coisas. E o jogo tava muito forte e eu não podia entrar na minha casa, não podia atravessar. E eu pedi que eles parassem um pouquinho. E um deles, um rapaz de 17 anos, ao invés de dar o chute pro lado dos companheiros, deu em cima de mim. E a bola bateu no meu seio esquerdo. Daí trata, isso, aquilo, o médico dizia: - Não tem perigo não... Oito meses depois, mais ou menos, veio o resultado: Câncer, positivo mesmo.

Lou: E você tinha quantos anos?

Lindalva: Eu tinha cinqüenta e poucos, 54 ... 55 anos, por aí. Nessa ocasião, eu vinha trabalhando com a primeira esposa do Villa Lobos, uma pessoa maravilhosa. E ela queria fazer umas modificações. Quando aconteceu isso. Parou tudo.

Lou: Operou?

Lindalva: Operei, fiquei com o braço morto, sem movimento nenhum. Tirou tudo. Fiquei desenganada. Eu sou muito devota da Nhá Chica, Nossa Senhora da Conceição.

Lou: É em Baependi, no Sul de Minas.

Lindalva: É, pois é. A mamãe fazia toda noite, a oração da Nhá Chica. O único médico que não me desenganou foi o professor Alberto Coutinho que foi meu operador. E ele dizia: - Eu não sei, o estado dela é grave, mas ela não vai dessa. Ela pode morrer de qualquer coisa, menos disso. Ele não desanimava, mas os outros ... Veio um médico e disse: - Só 30 dias, só vai durar 30 dias.

E a mamãe fazendo a oração. Vinha algumas pessoas da família, umas vizinhas e tudo e eu, às vezes, ouvia longe e acompanhava a reza. Mas às vezes não, nem percebia que elas estavam rezando.

Naquele tempo, era Cobalto, agora o tratamento é muito melhor, porque o Cobalto queimava. Então eu fiquei queimada na frente e atrás. Era só feridas, uma coisa horrível. Dormia em cima deste braço, o resto foi inutilizado. Isso foi no fim de novembro.

No dia 8 de dezembro, eu estava deitada em cima das feridas. Minha mãe entra no quarto:

- Minha filha!
- Mamãe, hoje é dia de Nossa Senhora da Conceição e eu vou ficar boa. Nhá Chica pediu a ela esse milagre. Daí fui me recuperando, me recuperando...

Lou: Você sentiu esse aviso?

Lindalva: Eu senti que era isso. E depois quando eu melhorei, uns 6 meses depois, fui com muita dificuldade, mas fui lá a Baependi. Nesse tempo, tinha o túmulo dela com umas rosas plantadas. Eu olhei e disse: - Tão bonita estas rosas, se eu pudesse ter uma pétala... Mas eu não ia mexer. Pediam mesmo para não mexer.

Mamãe foi lá ao santuário pra comprar as orações. Todo mundo foi saindo e eu fiquei ali rezando, esquecida do tempo. Quando a irmã chegou e disse: - Minha filha, nós vamos fechar a igreja. - Ah! Irmã, me perdoe.

Quando eu olhei pro chão tinha 5 pétalas de rosas nos meu pés.
E eu fiquei assim... eu disse:
- Irmã, eu não mexi!
-Eu sei que você não mexeu. Se está aí foi porque ela lhe deu.

Eu tremia, tremia muito, quando apanhei aquelas pétalas. Bom, trouxe e botei num saquinho.

Três pessoas a quem eu levei escaparam, duas não, mas tiveram uma resignação, uma coisa, que a família nunca imaginou que elas tivessem. Compreenderam o estado, não se desesperaram, consolavam as pessoas, se alguém chorava. Não deixou de ser um milagre também. E as três ficaram boas. Uma morava aqui, nesse edifício, no segundo andar.

Dois anos depois, o outro seio começou a dar sinal. O médico achou que deveria tirar. Então, tirei o outro também. Mas esse já não deu assim tanto trabalho.

OUTRO MILAGRE

Lou: Quando você voltou pro Rio, veio com a sua mãe?

Lindalva: Vim com a mamãe. E a mamãe tinha criado as quatro sobrinhas como filha. E morreram as 4. Foi aí que eu tive a tal hemorragia intestinal em virtude de um pequeno caroço que tinha do lado do apêndice. Quando tiraram o apêndice, não consertaram bem esse negócio desse caroço. Um nódulo. Então, com esse desespero todo da perda das minhas primas, aquilo arrebentou e eu fui pro hospital.

Lou: Foi quando aconteceu a história da cama 2? O outro milagre?

Lindalva: Foi , eu estava no Iaserj e tinha duas camas no CTI, mas eu não reparei se tinha duas. Me botaram lá, estava desacordada. E numa noite, depois de 5 dias, e eu perdendo sangue, dia e noite, eu escutei uma voz dizendo assim: - Família da cama 2 pede notícias. E a enfermeira disse: - Infelizmente não vai amanhecer.

Eu... Eu escutei aquilo, mas eu não sabia se era eu ou a outra, mas para mim era a outra, porque naquela hora eu estava me sentindo tão bem...

Então orei: - Minha Imaculada Conceição, se esta pessoa da cama 2, já tiver cumprido a sua missão, levai-a sem sofrimento, mas se ela ainda tiver que fazer alguma coisa, em prol do seu semelhante, que ela melhore.

Ainda vi a enfermeira trocando o saquinho do sangue. De manhã, eu abri os olhos. Quando abri os olhos, de uma vez, ela disse: - Chama o Dr. Pimentel que ela abriu os olhos. Aí, chegou todo mundo e aquela coisa, lá tem muito estudante, tudo quanto era médico, porque tava todo mundo esperando que eu não amanhecesse. Mas eu ainda não sabia que a cama 2 era a minha.

Quando chega a nutricionista e diz: - Essa cama 2 ainda está em dieta zero? Aí eu disse: - A cama 2 sou eu? Disseram: - É. Ah, então era eu que não ia amanhecer?

E o médico zangado disse: - Tá vendo? É por isso que não gosto que fale perto dos doentes!

Eu custei a me recuperar, mas me recuperei, Ainda hoje eu tenho uma certa dieta.
Mas eu nunca fui de comer essas coisas gordurosas, presuntos camarão etc.

COMEÇAR DE NOVO

Fiquei 10 anos afastada do piano.
Quando eu melhorei um pouco, o Arnaldo Rebello, que tinha laços de parentescos comigo, freqüentava muito minha casa, dizia: - Ih, você vai voltar a tocar e tal...

Lou: Arnaldo Rebello era pianista?

Lindalva: Foi o nosso maior pianista do Amazonas.

Lindalva: Ele vinha muito aqui, tocava a 4 mãos comigo. Eu tocando uma coisinha bem pequenininha, do lado direito... Ele me incentivava muito.

  Aceitei a idéia de recomeçar. Voltar aos exercícios preliminares. Senti logo a melhora e, com a graça de Deus, pude retomar minha caminhada, voltar pra minha música, meu piano!

Lou: E como foi seu primeiro CD?

Lindalva: O único. Esse é o único. Eu tive umas fitas, mas feitas assim, gravadas em casa... Aliás, tem uma que eu vou até tirar uma cópia para dar a você.

E a idéia do CD foi de amigos de Manaus. O secretário da cultura, que a mãe dele foi minha amiga de infância, e mais uns outros lá, que se reuniram e então fizeram. Mas fizeram pouca quantidade. Foram só 2000. Mil ficaram lá para darem de presente. E me deram 1000 para eu vender. Mas, acontece que é difícil vender. Agora, é que está começando a ter uma pequena venda. Eu mesma estou vendendo, porque as casas de disco não aceitaram.

Lou: O problema é que só querem tocar pagode, funk, não abrem espaço pra outras músicas também...

Lindalva: É isso mesmo. Eu tenho um amigo que levou pro Paço Imperial. Eles disseram claramente que não interessava, mas ficaram com o CD. Não interessava, mas ficaram.

Lou: E você sobrevive como?

Lindalva: Eu tenho uma aposentadoria. O estado paga R$ 600,00. Eu tenho uma ex-aluna, lá de Manaus que tem um certo recurso, e, de vez em quando, ela manda R$ 200, R$ 300 reais pra gente. Aqui, minha família também ajuda um pouquinho. Uma coisinha daqui, outra dali, num aniversário, uma Páscoa... Mas eu tenho um modo de vida que eu acho que tudo está bem. Se eu tiver um pouco mais e puder fazer uma determinada coisa, eu faço. Mas, se eu não puder, eu não faço e não sofro porque eu não fiz.

A única coisa que eu sinto pena, não sofro, mas, eu gostaria de ter ido à uma cidade estrangeira. Eu nunca saí do Brasil.

Lou: Mas quem sabe você ainda vai?
Queria pedir a você pra mandar seu recado aos nossos "Velhos Amigos". Porque muita gente tem medo do envelhecimento e começa a se deprimir e a se entregar como se velhice fosse uma doença. E eu vejo que a sua vida, desde pequena, foi de luta, não só no trabalho, mas também pela vida! Venceu doenças graves e hoje, está aí, com 93 anos, trabalhando com entusiasmo, vendendo seus CDs e seus livros pra sobreviver. (Na foto, Lindalva autografa um livro pra mim)

Lindalva: Bom, a minha inteligência é fraca, e eu não tenho, assim, facilidade de me expressar. Mas eu acho que os momentos de vida que Deus nos dá, é um presente que cada um de nós recebe. E ai de nós se não soubermos dar valor a esse presente. Eu acho tão bonito quando acordo e vejo o sol.

Quando eu era criança, tinha uma mangueira defronte da nossa casa. E a casa era no terceiro andar, lá em Manaus e os galhos da mangueira entravam na nossa janela. E eu coloquei a minha cama bem pertinho da janela. E dormia com a janela aberta. Todas as manhãs eu conversava com a mangueira.

Eu procuro dar valor a algumas coisas inanimadas, eu procuro dar vida. Por exemplo, aquele busto de Beethoven, eu quero muito bem a ele, foi um presente das minhas alunas em 1929.

Eu dou valor ao dia, à noite, à chuva, às coisas todas, às coisas que eu como, as frutas, o sabor, como é que aquela fruta veio de uma terra, como aquilo floresceu. E o que é? É a graça de Deus.

Lou: Parabéns! Adorei sua entrevista, muito obrigada por você ter tocado piano especialmente pra mim e me proporcionado essa tarde maravilhosa. Sei que estou mais enriquecida e que o site "Velhos Amigos" vai oferecer toda essa riqueza a todos que conhecerem a sua história, um pouco da sua vida tão intensa de valores.

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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