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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

LUCINHA ARAÚJO
publicado em: 28/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 31/10/2002

Ela é a filha do meio. Nasceu no dia 2 de agosto de 1946 e declara com modéstia: "Sou uma mulher como outra qualquer". Mas ninguém pode concordar com isso.

Lucinha Araújo sempre foi muito especial, desde criança, quando lutou pra se fazer notar, pra ter o reconhecimento da mãe. Segundo sua avaliação, "a filha do meio é aquela que não é tão esperada quanto a primeira e, também, não é o bebezinho da casa, como o caçula.

É preciso se virar ao avesso para que prestem atenção em você..." E ela se virava . Queria ser perfeita. Na escola era a primeira da classe com nota dez, do princípio ao fim.

A vida tem sido difícil, mas esta mulher, ao lado do seu marido João, vem conseguindo superar os maiores sofrimentos. Hoje está aqui nos dando uma lição de vida nesta entrevista.

Lou - Qual o seu nome completo?

Lucinha- Maria Lúcia da Silva Araújo

Lou - Quando você nasceu?

Lucinha - 2 de agosto de 1946

Lou - Que tipo de criança você foi?

Lucinha - Acima de tudo, uma criança feliz, classe média, filha do meio, muito esperta, excelente aluna.

Lou - E na adolescência?

Lucinha - Passei minha adolescência nos anos 40 e fui criada à imagem e semelhança de meus pais. Foi nessa época que comecei a dar trabalho, mas, ao contrário de meu filho, vivi outros tempos. Casei com o primeiro namorado e toda aquela rebeldia transformou-se com a felicidade de me casar e ser mãe.
Como estudava em colégio de freiras, a rigidez de casa se estendia à escola. Penso que na minha família (somos três mulheres e eu sou a do meio), fui a única que deu um relativo trabalho.

Lou - Conte da sua paixão e como você conquistou o João, seu marido.

Lucinha - Conheci João passando férias na pacata cidade de Vassouras, Estado do Rio. Desde sempre fui uma amante do belo e ele era muito bonito. Paixão à primeira vista. Namoramos quase cinco anos e, contrariando as expectativas da minha mãe de que homem bonito dá muito trabalho, nos casamos com 20 e 21 anos.

João e eu seguimos nossas vidas juntos, há 50 anos. Nem sempre vivemos num mar de rosas, mas o saldo é positivo. Temos um ao outro, mas não temos mais sonhos. Nossa grande parceria foi o orgulho de termos gerado um filho especial. Vamos seguindo o tempo que resta, porque foi uma vida dramaticamente rica em sentimentos.

Lou - Seu filho era um menino muito especial. Vivia acima de todas as regras e das falsas moralidades. Tão jovem e já estava muitos anos à frente dessa sociedade cheia de rótulos e preconceitos. Tinha coragem pra enfrentar e lutar pelas suas convicções. Você também, sem nenhum exagero, nem bajulação, demonstrou uma força sobre-humana. Qual a mensagem que você manda para aqueles que ainda se encontram aprisionados aos perniciosos tabus sexuais?

Lucinha - Eu vivi uma geração de grandes tabus, inclusive sexuais, coisa que a geração de hoje jogou por terra. Acho que, quando a gente luta contra rótulos e preconceitos, a gente é mais feliz e, também, as pessoas que nos cercam. Foi assim que procurei fazer no relacionamento com meu filho.

Lou - E para os liberados idosos que descobriram que fazer sexo é saudável, prolonga a vida e não é mais pecado, mas se negam a usar camisinha?

Lucinha - Aids não tem idade e hoje, no Brasil, vemos um aumento de casos de Aids, substancial, entre pessoas da terceira idade, portanto camisinha neles!

Lou - Como surgiu esta sua força interior para superar a fase da descoberta da doença do Cazuza?

Lucinha - Por mais que pareça incrível, a força interior surgiu de Cazuza, de tão valente que foi. E eu, como sua mãe, não poderia ser diferente.

Lou - Hoje a nossa sociedade está mais evoluída e as pessoas menos preconceituosas. Você sempre foi assim, acima dos tabus, ou superou nossa triste herança cultural pra ficar ao lado do seu filho, no relacionamento dele com o Ney Matogrosso?

Lucinha - Eu já fui preconceituosa e cheia de tabus. Aprendi muito mais com meu filho do que ensinei a ele. E assim sempre fiquei ao lado dele, seja de que lado fosse. Nunca admiti comentários de qualquer natureza.

Lou - Como foi enfrentar a homossexualidade, a descoberta da doença e a mídia?

Lucinha - Opção sexual, a própria palavra explica sua natureza. Não importa o objetivo do desejo. O importante é ser feliz. A descoberta da doença foi como se uma bomba caísse sobre nossas cabeças. Em seguida, foram quase quatro anos de sofrimento, tristeza, mas também de muito amor entre nós três.

A mídia: meu filho lutou para ser famoso. Conseguiu. É reconhecido até hoje e pouco temos a nos queixar da mídia que sempre o respeitou. Quanto à imprensa marrom, existe em todos os países do mundo e é o preço que se paga pela fama.

Lou - Logo após a morte do Cazuza, você foi muito requisitada a dar entrevistas e aparecia sempre muito bem arrumada, bem penteada, pintada. Nunca se apresentando como "mater dolorosa". Você sofreu críticas pela sua postura, contrariando a expectativa da mídia, que dá ênfase aos dramalhões?

Lucinha - Procurei fazer tudo como Cazuza pediu e tenho a certeza de que não fui mater dolorosa em público. Apesar da mídia dar ênfase aos dramalhões, nunca senti isso em relação a mim. Sinto muita simpatia, principalmente, porque sou mãe do maior ídolo do rock brasileiro de todos os tempos. Quando preciso chorar, procuro fazer debaixo do chuveiro. Depois enxugo as lágrimas e vou viver, porque, afinal de contas, ainda tenho meu marido e minha casa.

Lou - Quem é Maria Lucia Araújo? Fale um pouco de você.

Lucinha - Sou uma mulher como outra qualquer, talvez com a diferença de que a vida tenha maltratado um pouco mais. Como se não bastasse, há três meses, tirei um câncer da mama. Às vezes fico pensando nas várias provas pelas quais a vida me fez passar. Mas, acima de tudo, tenho a sorte de ser otimista.

Lou - Você afirma que todo o seu trabalho é desenvolvido pro seu próprio bem. Que não é porque você é boazinha. Acontece que todas as pessoas, que se dedicam a fazer o bem, sentem esta necessidade e se sentem auto-recompensadas, realizadas em fazer algo em prol dos necessitados. Não existe gente boazinha? Seria esse desejo de ser útil uma forma de egoísmo?

Lucinha - Nem forma de egoísmo, nem necessidade de auto-recompensa. Encaro o trabalho como uma necessidade para o ser humano. Quanto ao que faço é um recarregar de baterias de ambos os lados. Ajudo as crianças e elas me ajudam a continuar vivendo.

Lou - Como você encontrou forças pra voltar a enfrentar todo o sofrimento da aids, criando a Sociedade Viva Cazuza ?

Lucinha - Depois de tudo que passamos, seria impossível deitar a cabeça no travesseiro e dormir a noite toda, tranqüilamente, sabendo que milhares de pessoas estavam passando pelo que passamos, sem ter as condições financeiras que tivemos para tratar nosso filho. Foi com esse espírito que criamos a Sociedade Viva Cazuza, que se sustenta basicamente de seus direitos autorais.

Lou - Você fez análise, recorreu a alguma ajuda terapêutica?

Lucinha - A minha análise é meu trabalho. Volto a afirmar que o trabalho é a prática que mais dignifica o ser humano.

Lou - Qual a importância da sua família e dos seus amigos para vencer esta luta diária?

Lucinha - Já diz o ditado que uma andorinha só não faz verão. Sozinha eu não poderia ter feito nada e, graças a Deus, sempre contei com a solidariedade dos que me cercam.

Lou - Geralmente, nós, pais e mães, queremos "criar" nossos filhos como nós idealizamos, "dentro das convenções inúteis". No seu livro, você dá uma bela lição sobre este assunto. Fale-nos um pouquinho sobre isso.

Lucinha - Tentamos criar nossos filhos à nossa imagem e semelhança, e dentro das convenções inúteis, por comodismo, como foi o meu caso. Mas, quando nos deparamos com seres humanos especialíssimos, como foi meu filho, temos que parar para pensar e reformular nossos conceitos. Quando temos a sorte de fazer isso a tempo, a vida fica muito mais fácil.

Lou - Como você aproveita o tempo nas horas livres?

Lucinha - Como ainda tenho um marido em casa e vivemos um para o outro, passeamos com nossos amigos, passamos fins de semana em Petrópolis ou Angra (onde temos casas), ou fazemos viagens pelo Brasil ou ao exterior. Gosto muito de sair com todas as crianças para churrascarias, que é o programa predileto delas, e me divirto vendo-as se divertirem, procurando nelas encontrar sempre um pouquinho do meu filho.

Lou - Você pode mandar um recado para os nossos "velhos amigos"?

Lucinha - Como dizia Cazuza: "quem tem um sonho não dança". Mesmo pensando que seja tarde, vá em busca de seus sonhos para ser feliz. Mesmo que isso lhe faça sofrer.

Lou - Lucinha, muito obrigada pela sua entrevista. O Site "Velhos Amigos" se sente enriquecido com sua participação. Ela, certamente, irá ajudar àqueles que pensam, muitas vezes, em desistir no meio do caminho. Foi muito bom você ter sido a filha do meio. Por causa disso, a sua potencialidade se desenvolveu e eis que você se tornou uma pessoa notável. Sua vida, sua garra, sua obra são louvadas por todo mundo.

Revisão: Anna Eliza Führich
E-mail: anneliza@vr.microlink.com.br

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UM POUCO DA SOCIEDADE VIVA CAZUZA

A Sociedade Viva Cazuza é uma instituição filantrópica, sem fins lucrativos, fundada em 1990, logo após a morte do cantor e compositor Cazuza.

Maria Lúcia Araújo e João Araújo, pais de Cazuza, amigos e médicos decidiram dar continuidade à sua luta contra o HIV/aids.

Lucinha iniciou seus trabalhos ajudando o Hospital Universitário Gaffrée-Guinle, onde, em dois anos de atividades, reformou o berçário e enfermarias, aumentou o número de leitos para pacientes HIV, forneceu medicações e cestas básicas, e possibilitou a realização de exames específicos que o hospital ainda não oferecia.

Desvinculada daquela instituição desde 1992, a S.V.C. recebeu da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, a cessão de uso de um imóvel, onde, depois de angariar verbas para reforma, inaugurou a primeira Casa de Apoio Pediátrico do Município do Rio de Janeiro, dedicada a crianças carentes portadoras do vírus da aidas.

Além de oferecer treinamento para profissionais que trabalham com portadores do HIV/aids, a S.V.C. realiza palestras de prevenção à aids, em escolas e empresas, e acaba de publicar uma cartilha, 'UMA BABÁ MAIS QUE PERFEITA", destinada não só à orientação de seus funcionários, mas a todos aqueles que trabalham com crianças HIV, em instituições da rede pública ou ONG's/aids.

A Sociedade Viva Cazuza aceita doações de remédios, alimentos não perecíveis, produtos de limpeza, roupas infantis e brinquedos. As doações em espécie podem ser abatidas no Imposto de Renda.

Sociedade Viva Cazuza
Rua Pinheiro Machado 39, Laranjeiras - Rio de Janeiro - Brasil
BRADESCO - Agência 0887-7 c/c 26901-8 Maiores informações: Tel: (5521) 2551.5368 fax: (5521) 2553-0444
E-mail: vivacazuza@vivacazuza.org.br

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Comentários dos "Velhos Amigos"

Nome: Anna Regina
E-mail: arcondeixa@uol.com.br
Cidade: Rio de Janeiro
Estado: RJ
Mensagem: Sobre a entrevista da Lucinha Araujo, gostaria de saber porque ela não continuou a cantar, pois ela tem uma voz muito bonita, harmoniosa e afinada.
Lembro-me de tê-la ouvido algumas vezes, há muitos anos. Se não me engano, naquela época, Cazuza ainda era uma criança e ela tentava a carreira solo. Por que não foi em frente? Não era um sonho a ser perseguido?

Resposta da Lucinha

Infelizmente para cantar e fazer sucesso, é necessário muito mais do que uma voz afinada e a vontade de vencer. Este algo mais que Cazuza e muitos da MPB possuem, este brilho, este talento, nem sempre é comum a todos os que tentam esta carreira. Voltei a cantar em roda de amigos de onde nunca deveria ter saído.
E afinal ser mãe de Cazuza não é honra para qualquer cantora, não!
Um abraço da,
Lucinha

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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