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LUCY LÚPIA PINEL BALTHAZAR
publicado em: 28/01/2016 por: Netty Macedo

Matéria publicada em 30/08/2003

Lucy Lúpia Pinel Balthazar, carioca do Grajaú, foi educada em um colégio de freiras e vivia cercada por quatro irmãos. Filha de Edmundo Pereira Balthazar e Martinha Pinel Balthazar, família da classe média, a jovem tinha toda uma situação propícia pra ser mais uma menina mimada.
Mas, contrariando, com bravura o destino ela travou uma verdadeira guerra e alçou vôo literalmente, tornando-se mundialmente conhecida como mulher pioneira da Aviação Comercial Brasileira.

LOU: Estou aqui com uma pessoa muito especial que vai falar sobre a sua luta, como mulher, para se tornar uma piloto profissional.
LUCY: Idade, não digo não.

LOU: Por quê? Você tem mais é que dizer! A idade ....
LUCY: Você sabe que eu nunca disse? Adianto uma coisa: eu já passei dos 60, é óbvio.

LOU: Por isso mesmo que você deveria dizer. Você aparenta muito menos!
LUCY: Há 36 anos comecei a voar; então, você vê que eu já tô bem...

LOU: Mas você tem algum preconceito sobre dizer a idade?
LUCY: Sempre tive. Desde que eu tinha vinte e poucos anos, já não gostava de dizer a idade. É mais uma mania. Nunca disse em matéria nenhuma.

LOU: Mas seria bom você se libertar disso. Aqui no nosso site, chamado "VelhosAmigos", há uma valorização da idade das pessoas. Todos sentem orgulho em dizer: "eu tenho 80 anos; eu tenho 60; eu digo que tenho 63 anos".
LUCY: Mas eu não digo porque existe muita curiosidade. Meus colegas ficam fazendo contas. E existe ainda um certo preconceito sobre isso, dentro do meio onde circulo. Então, eu me defendo. Deixa fazerem as contas.

LOU: E você rompeu o maior preconceito que foi trabalhar como piloto...
LUCY: Rompi o preconceito pra trabalhar como piloto profissional, sim! Existiram algumas mulheres, mas que foram piloto amador.

LOU: Como você venceu isso?
LUCY: Venci, mas debaixo de muita luta. A aviação é um mercado muito elitista e, no Brasil, se não tiver QI - "Quem Indicou" - você sofre muito. Precisa ser filha do Comandante Fulano, do Brigadeiro Sicrano, ser alguém ligado ao meio da aviação.

LOU: Como foi sua infância?
LUCY: Fiz do primário ao científico em colégio religioso. Depois do vestibular, cursei a Faculdade Federal de Farmácia e Bioquímica da UFRJ; trabalhei alguns anos como farmacêutica no HSE (Hospital dos Servidores do Estado). Mas aí, comecei a freqüentar o Aeroclube de Nova Iguaçu com o rapaz com quem eu tinha me casado, quer dizer, casado entre aspas. Porque ele era separado judicialmente e ainda estavam naquele negócio de fazerem divórcio e tudo. Nós fizemos só um casamento simbólico lá na cidade dele, Joinville. Quando ele foi tirar o brevê, eu fui junto com ele. Aí ele disse:
- Você não quer tirar também?
- Quero, mas será que iriam deixar? Ele disse que como esporte não tinha problema não. Só que eu comecei a voar e achei tão bom que decidi que não iria ficar só nisso não.

LOU: Você precisou fazer algum curso?
LUCY: Fui fazer o curso no Aeroclube com ele. Aí, tive que fazer um exame de saúde no Ministério da Aeronáutica. Primeiro, a gente faz uma série de exames de saúde em todas as clínicas, pra saber se você tem capacidade física e psicológica pra ser piloto. Depois de aprovada, fiz a matrícula pra fazer os vôos de instrução no aeroclube e, à noite, na EAPAC, cursei cinco matérias. E tinha dia marcado para as provas no Ministério da Aeronáutica.

Depois de aprovada, é que você se submete ao exame prático e, enquanto isso, vai fazendo a parte prática no aeroclube, que é o que a gente mais gostava. Eu fazia as horas de treinamento no aeroclube de Nova Iguaçu, que era o único que funcionava no Rio, porque Manguinhos já não existia mais e Jacarepaguá ainda não possuía. O pessoal de Manguinhos, anos depois, foi para Jacarepaguá.

LOU: Quando foi que você começou a voar?
LUCY: Em 1967. Em três meses, tirei o meu brevê. Foi um tempo recorde, porque eu ia todos os dias.

LOU: Aí, você largou o trabalho de farmacêutica no Hospital dos Servidores?
LUCY: Não. Eu era funcionária pública do quadro efetivo. Trabalhava de manhã no hospital e, de tarde, dava as minhas fugidas pro aeroclube. Pegava o carro...

LOU: Você tinha quantos anos nessa época?
LUCY: Ah, eu tinha menos 36 anos do que eu tenho hoje... (risos). Ah, danada! Querendo me dar um golpe pra descobrir minha idade...

LOU: Não; só queria saber se você era muito jovem pra acumular essas responsabilidades. E, mesmo que eu descobrisse, jamais publicaria qualquer coisa que você não quisesse.
LUCY: Era jovem, mas isso não era problema não. Eu saía dos Servidores, que fica ali perto da Praça Mauá, pegava o carro e depois pegava a Av. Brasil e, pra Nova Iguaçu, era um pulinho. Em meia hora eu tava lá.

LOU: Você saía de um serviço e ia correndo pro seu treinamento e ainda estudava de noite, pra lutar por uma nova profissão, enfrentando obstáculos e arbitrariedades...
LUCY: Mas eu não tava ainda, encarando como profissão. Porque você tinha que fazer 45 horas de vôo pra se preparar para o exame prático. Com 40 horas, mais ou menos, você já podia se apresentar pro exame prático. Aí, se você já passou no teórico, você então é marcada pro Ministério da Aeronáutica e vai ao examinador.

Mas, antes disso, bem antes de você estar pronta, você tem que solar. Solar quer dizer voar sozinha, que é a coisa mais importante pro aviador. E o dia inesquecível é o dia em que você voa sozinha pela primeira vez. Porque as primeiras horas você voa com o instrutor, 15 horas, 20 horas, depende de cada um. Então, no momento que ele achar que você já está capacitada, ele chega e diz pra você: - Agora você pode ir. Aí, você vai sozinho, faz um vôo, ele fica te esperando embaixo; quando você volta, ele fala como é que foi seu pouso. Então, você decola de novo e faz três vezes aquilo. É nesse dia que ele te dá as avaliações dele. Quer dizer é um dia inesquecível.

LOU: E quando foi o seu primeiro vôo solo?
LUCY: Dia 25 de setembro de 1967. Foi a maior alegria! Depois você comemora isso, sempre com uma bebidinha, um chopinho e o banho de óleo tradicional. Eles dizem ser fundamental....

LOU: Eles jogaram óleo em você?
LUCY: Jogaram aquele óleo preto de aviação.

LOU: E custa muito pra sair?
LUCY: Levei um mês pra sentir que tinha saído aquilo tudo. Passei álcool, porque é um óleo grosso, queimado que sai do motor do avião, óleo 40, 80, dependendo da densidade. A roupa ficou inutilizada. Eu usava o cabelo comprido, botei uma touca e disse: - "Olha, gente, não vai fazer como nos rapazes. A única exigência que eu faço é essa. Eu tomo banho de óleo, mas pelo amor de Deus, meus cabelos não". Prendi o cabelo e coloquei uma touca. Tem até a fotografia pra documentar. Comemorei. Porque tem gente que não toma banho de óleo pra não se sujar. Eu digo não, não me importo. Misturaram tudo quanto é porcaria, como cocô de cavalo; só escutava as risadas deles preparando a lata com o óleo. Eu pensava: "Meu Deus, imagino o que eles tão botando ali dentro". Eles botaram tudo que eu tinha direito. Aí, puxaram a gola aqui assim e jogaram por dentro. Fiquei imunda, preta, mas fiquei feliz com a comemoração. Porque este é o dia em que você se sente aviador ao voar sozinho. Depois disso, você continua fazendo as horas: 1 hora com o instrutor, 1 hora sozinho e aí você vai até completar as horas pra solicitar o exame prático. Sendo aprovado, você recebe seu brevê, que hoje a gente chama de licença de piloto privado.

LOU: Que emoção!
LUCY: Voltei pra casa no meu fusca, com a alegria de um filhote de passarinho quando voa pela primeira vez, sem auxílio materno...

LOU: Como você descobriu que queria ser piloto profissional?
LUCY: Eu gostei tanto que eu falei que não ia ficar gastando tudo o que eu ganhava no hospital, no Aeroclube. Porque pra viajar, às vezes, gastava 3, 4 horas e saía caro. Então, decidi trabalhar como piloto pra unir o útil ao agradável. Aí, começou todo mundo a falar que eu era louca, que nunca ninguém ia me dar emprego, que mulher nenhuma tinha sido profissional. Eu dizia: - Eu já ouvi falar que na Rússia tem, nos Estados Unidos tem. Eles diziam: - Mas aqui não tem e ninguém vai concordar. Aí eu falei: - Alguém tem que ser a primeira.
Só que não imaginei que fosse aquela guerra de foice. Desde o momento em que eu falei que queria ser profissional, narizes tortos apareceram pra todo lado.

LOU: E você precisou recorrer à justiça?
LUCY: Não, não tive que recorrer. Tive que continuar como os rapazes. Continuei fazendo as horas até completar as 200 horas, que é o exigido para piloto comercial tirar o brevê, a licença comercial. E fui fazendo as horas... Aí, eu falei: - Eu vou procurar dar instrução em Aeroclube também, porque
é mais um campo de trabalho. Falaram que ninguém ia me dar emprego, mas eu disse que ia tentar. E pra ser instrutor tinha que ter um pouquinho mais de experiência: 40 horas de viagem sozinha. Fui fazendo as horas e as viagens e um novo exame de saúde, desta vez para a categoria de piloto comercial, pelo Ministério da Aeronáutica. Você faz check-up de tudo, passa uma manhã inteira em laboratório, raio X, dentes, ouvido, garganta, nariz, exame clínico de modo geral, prova de esforço, tudo. É um exame completo e mais exigente do que pra piloto de turismo. Passei no comercial, continuei fazendo as horas e fiz o exame teórico.

Mas, aí, são outros 500; as matérias são mais puxadas, 5 matérias da categoria com média 7. E eu fui aprovada em 1969. Depois fiz o de instrutor, voei mais um pouquinho e fiz outras provas com duas matérias diferentes que eram a prática de instrução e regulamentos. Fiz novamente um outro tipo de check, porque, pra ser instrutor, você tinha que possuir conhecimentos de manobras e a didática de como dar instrução. E eu consegui sair instrutora também.

LOU: Foi aí que você começou a ganhar dinheiro?
LUCY: Bem, de posse disso, eu comecei a ir pro Aeroporto Santos Dumont, onde comecei a me enturmar. Já tinha alguns conhecidos que eram colegas do Aeroclube e que haviam ido pra lá. Só que pra mim não era a mesma coisa. As pessoas olhavam assim de banda. Essa mulher é louca, ninguém vai dar emprego pra ela. Alguns diziam assim: - Por que você não ficou lá naquele hospital? Agora é mais um pra concorrer aqui. Eu dizia: - Mas tem lugar pra todo mundo. Quem é bom, se garante. Não será o fato de competir com uma mulher que estragará o mercado de trabalho!
Muitos daqueles que eram meus amiguinhos no Aeroclube, passaram a me esnobar. Foi uma guerra, sabotagem de todo o jeito; nunca pensei que fosse assim. Eu não tinha pistolão.

LOU: E sua vida sentimental sofreu algum abalo quando você assumiu a profissão?
LUCY: O meu marido também não via com bons olhos. Ele não queria que eu fosse profissional.

Nessa altura eu já tinha alguns problemas com o Sigi, apelido do meu marido, cujo nome era Sieghardt Rudolf Arnold Lerche. Ele, tão brasileiro quanto eu, era bisneto de suíço, como eu também. Era vice-presidente de uma grande multinacional, da Eternit do Brasil, em franca evolução naquela época. Aí, eu sei que houve muitos problemas ... Ele teve que ser transferido pra São Paulo. A gente ficou morando lá e cá, durante 3 anos. As coisas já não estavam muito bem e acabaram por se desintegrar. Mas nós continuamos amigos porque já éramos antes. Éramos alpinistas do mesmo grupo de excursão. Então, o amor acabou, mas o entendimento e a amizade continuaram até ele morrer.

Ele faleceu há uns 5 anos. Havia estado com ele 1 ano antes, em São Paulo, porque ele tinha tido um enfarto e teve que colocar safena. Morreu assim de repente, num táxi, lá em Porto Alegre. Trabalhando... Ele ainda estava trabalhando.

LOU: Mas você ia me contar como entrou na aviação comercial.
LUCY: Eu descobri aquela semente que devia ter dentro de mim, que despertou naturalmente. Aí, eu comecei aquela coisa de procurar emprego. Às vezes, tinha um vôo avulso que precisava de um piloto pra completar. Porque pra voar por instrumento tinha que ter dois pilotos a bordo. Um comandante mais experiente e um piloto auxiliar que tinha que possuir certificado de vôo por instrumento. Era o co-piloto.

LOU: Você fazia vôos para empresas privadas?
LUCY: Isso, particular, o que a gente chamava de indústria e comércio. Era, por exemplo, um banco que tinha seu avião, uma indústria que tinha seu avião. E tinha muito disso.

LOU: Quando você conseguiu pegar esse tipo de vôo?
LUCY: Foi difícil pegar o primeiro! Mas no dia 8 de julho de 1970, o Comandante Dornelles me chamou, avisando que eu teria de pernoitar em BH. Nós saímos do Santos Dumont, à noite, e precisava ter o co-piloto junto. Meu coração saltava de alegria, mas eu não falei pra ele que nunca tinha voado de co-piloto. Fiz o vôo com ele levando os passageiros que eram da diretoria da Empresa Construtora Brasil, de Belo Horizonte. Quando chegou lá, na hora do cafezinho, é que eu contei pra ele.

LOU: Como foi que você contou?
LUCY: Ele me perguntou: "quantas horas você já voou aqui na aviação comercial?" Eu disse:
- Só uma hora e meia... foi o que voamos.
- Foi a 1ª vez?!?
Eu disse que como profissional foi.
- Meu Deus!
Eu disse: - Agora tá feito.
Aí ele riu. Pedi a ele para tirarmos umas fotos pra que ficasse documentado o primeiro vôo profissional com ele, ao lado do PT- AZG, um belo bimotor da Breechcraft, tipo Twinn Bonanza.

Aí, pedi a certidão da hora de vôo, porque pra mim era uma comprovação. E foi, aí, que eu comecei. Voava também na Pluma Táxi Aéreo, já tinha feito a minha fichinha lá, pra quando precisassem de co-piloto. E sempre me chamavam. Eu dizia: - Já voei com o Cmte. Dornelles pra Belo Horizonte. Aí, fazia um vôo aqui, outro acolá.

LOU: Estava em franca ascensão a sua carreira de aviadora.
LUCY: Foram muito difíceis os meses que se seguiram. As empresas de táxi aéreo diziam que, uma das razões pra não me admitir, era que eu encarecia pela necessidade de pagar apartamento separado pra mim. Outro motivo era que a minha presença no avião causava ciúmes nas esposas dos meus colegas. Às vezes, eu ia pra São Paulo, ficava uma semana em Congonhas de free-lancer. Lá tinha um mercado maior, porque havia muitas empresas de táxi aéreo.
Naquela época, permitiam ter um piloto só, aí quando precisassem de outro, chamavam na hora. Quer dizer, quando fossem voar com mau tempo ou de noite, tinha que ter dois pilotos. Mas só que cada vôo desses era uma história, porque acontecia de tudo e foram essas coisas que fui colocando no meu livro
"Eu Quero Voar - o retrato do preconceito".

LOU: Conta uma pra nós.
LUCY: Não foi assim muito agradável, mas uma aconteceu num vôo que eu fiz pra São Paulo. É o que eu digo pras pessoas: o livro não é água com açúcar, porque a minha vida não foi água com açúcar. Mas eu tinha que ser autêntica, pois foi uma abertura. E eu aproveitei e escrevi algumas dessas passagens. Uma delas foi a seguinte: precisavam de um piloto pra ir a uma cidade do interior de São Paulo pra levar um pessoal de uma empresa. O rapaz da empresa TAM, naquela época era TAM - Táxi Aéreo Marília, veio e falou comigo: - Você pode ir? Estamos precisando de um co-piloto pra fazer esse vôo com o comandante fulano. Então, fui falar com o Comandante: - Escuta, o fulano lá me perguntou se eu podia fazer esse vôo, se você está de acordo. Ele falou:
- Ué, e você é piloto?
- Sou.
- Então vai lá fazer o plano de vôo.
- Pra onde é?
- Pra tal lugar.
- Sim, mas eu queria saber qual o nível que o senhor quer, a que horas vamos sair.
Ele respondeu assim pra mim: - Você se vira.

Um comandante antigo, que estava do lado, escutou tudo aquilo e notou a prevenção do comandante, que não me viu com bons olhos. Sempre tinha uma alma boa, sabe?
Aí, ele falou pra mim:
- Vamos lá, Lucy, que eu vou na sala de tráfego com você. Eu tô acostumado a ir pra lá e te dou a dica toda.
E ele me disse: - Daqui até lá, a gente leva uns 40 minutos, o prefixo, porque cada localidade tem um prefixo, por exemplo, o Rio é SBRJ, São Paulo é SBSP e quando não tinha controle era SS. Aí a gente sabia que não tinha DAC, não tinha aquela casa onde a gente fazia ficha, não era controlado, não tinha serviço de rádio e tudo, né.
Mas aí, ele me ajudou, fiz o plano de vôo, voltei, dei a cópia pro comandante. Ele olhou, dobrou a cópia e botou no bolso e nós fomos pro avião. Eu tinha todas as minhas fichas preparadas pro Brasil inteiro, que a gente chamava de navegação, porque eu tinha um colega aqui no Rio que fazia e eu comprava dele aquelas fichas prontas.

Eu dizia: - Este defeito ninguém vai poder me botar! Porque eu levava tudo mastigadinho, com as freqüências do rádio, das estações, tudo.

LOU: E como foi a viagem?
LUCY: Os passageiros chegaram e fomos com esse comandante pra uma cidade do interior de São Paulo. Quando chegamos lá, ficamos num lugar pitoresco, tinha um restaurante bonito e eu fiquei, ali, com ele.
Os passageiros foram pra cidade e nós ficamos ali pra almoçar e aguardar a volta deles. Bem, eu fui ao toalete pra lavar as mãos, me pintar, pentear o cabelo e coisa e tal.

Só que os toaletes de homem e mulher eram separados por uma parede que não chegava até em cima, essas coisas de interior. Enquanto estava lavando as mãos, escutei aquela voz e pensei: "uai, parece a voz do comandante, o toalete deve ser um do lado do outro". Aí eu o escutei falando pro passageiro, sem saber que um deles tinha voltado: - "O senhor desculpe viu, mas a gente voar com esses co-pilotos que não têm experiência nenhuma, que a gente pega no aeroporto a laço, o senhor desculpe se o vôo não foi bom e tal, porque essa moça não tem experiência nenhuma, não sabe nada e a gente, às vezes, fica numa situação..."

LOU: Mas aconteceu algum problema no vôo?
LUCY: Não teve nada. E o passageiro não falou nada. Eu falei pra mim mesmo, - que danado!
É preconceito, implicância, machismo. Lá fora, o rapaz reuniu os passageiros e o comandante voltou. Eu tava sentada embaixo da árvore e ele chegou e se sentou ali. Então, eu falei pra ele: - Escuta aqui comandante, sabe que os banheiros possuem uma parede contígua, não é? Eu escutei o que senhor falou pro passageiro e achei muito deselegante aquilo que o senhor disse. Primeiro, porque eu fiz a minha obrigação, eu fiz a fonia, dei as posições todas certas e, no entanto, o senhor dizer...
Ele interrompeu: - você não se preocupe com isso não.
Mas continuei - Eu achei muito deselegante, porque eu fiz o que estava dentro da minha obrigação e acho que o senhor nunca devia ter feito um comentário daquele tipo com o passageiro.

Ele ficou sem graça; não sabia nem onde enfiar cara. Na volta, eu cruzei os braços e não fiz nada. Não fiz nada, nada. Quando chegamos, eu chamei o despachante da TAM e disse: - Olha, aconteceu isso, isso, isso. Você chama o gerente que eu quero falar com ele. Isso não é direito, porque os passageiros vão achar que foi pouco caso da empresa pegar qualquer um no aeroporto pra ser co-piloto. Quer dizer, isso desvalorizou até a empresa, parece que a empresa só visava o dinheiro e não a qualificação dos profissionais, colocando em risco o vôo. E eu tô tão habilitada quanto ele. Eu achei falta de ética e muito desagradável o que ele fez.
Ele disse:
- Meu Deus, mas que absurdo! Mas foi exatamente isso que aconteceu; se quiser, pode chamá-lo na minha frente, que eu confirmo. Depois eu soube que ele não foi mais chamado pela TAM.

LOU: Você já passou por algum sufoco pilotando?
LUCY: Ah! Muitas vezes! Já tive acidente muito grave em Bauru. Mas a gente é preparada pra isso. Porque aviação também não é assim! O avião não cai por qualquer coisa, não despenca. Você tá preparada pras emergências, você aprende. Ninguém entra no avião pra morrer. Nós todos queremos voltar pras nossas casas, pra continuar nossas vidas. Ainda mais sendo mulher, você é mais espremida ainda: te dão o mínimo e exigem o máximo. Porque às vezes, ainda tinham aqueles que não te dão o "pulo do gato", porque aquele piloto mais experiente passa pro colega: "faz assim, que é mais rápido, ou faz assim que fica mais fácil..." Pra mim não. Eles colocavam a mão na frente, várias vezes, pra eu não ver como eles faziam. Nem todos! Também, encontrava colega legal, bacana, que me tratava bem. Mas, infelizmente, na época eram exceções.

LOU: E apesar desses golpes baixos, você conseguiu se firmar como profissional?
LUCY: Eu fui botando propostas em vários lugares e consegui ser chamada na Líder Táxi Aéreo, na época, a melhor empresa de Táxi Aéreo da América do Sul. O Comandante Guedes me disse:
- Você quer apostar comigo como você entra lá. Você já botou proposta?
- Eu disse:
- Já botei, mas o pessoal da companhia diz que não tem vaga e que não sei o quê, depois mulher... o passageiro vai ficar com medo. Aí eu argumentei que não tinha disso não, que o passageiro de táxi aéreo sabia que se a pessoa está ali, é porque está habilitada de todas as formas. Se os homens estão capacitados, mulher então tá mais checada ainda do que eles. Eles ficaram de me dar a resposta.
- Então o Comandante Guedes disse que ia conversar com o comandante José Afonso, dono da empresa, que era piloto também:
- Tenho certeza que ele vai te chamar!
Realmente dali a uns dias, fui chamada e foi aquele rebu todo.... E fui pra Líder.

LOU: E pra imprensa foi um prato cheio.
LUCY: Se foi! Porque eu estive 24 vezes na televisão. Eu fui muito badalada porque era uma curiosidade. E muitos perguntavam quanto eu tinha pago pra ir pra televisão. Eu dizia: - Quando você precisa ir pra televisão por conta própria, você nunca vai! Pra seu governo, você só vai quando é do interesse deles. Deixam recados com vizinhos, te acham em qualquer lugar. Mas, eu nunca pedi pra ir a lugar nenhum; eles é que iam atrás, porque achavam uma coisa interessante. Então, desde o Aeroclube que eu estava sempre sendo assediada, porque era uma coisa diferente. Eu até não gostava, porque gerava inveja, disse-me-disse, e eu preferia passar desapercebida pra ir conseguindo mais coisa. E as empresas também queriam explorar esse lado. "Nós temos a primeira mulher voando conosco" e assim foi na Líder. Depois, eu fui pra Top, que virou Rio Sul e, aí, a Varig comprou.

Antes disso, eu já tinha voado algum tempo no Aeroclube, antes de ir pra Líder, como instrutora, mas sempre debaixo de guerra e polêmica. E isso tudo foi me dando material pra eu, mais tarde, escrever o livro. Porque se a minha vida tivesse sido tranqüila, cor-de-rosa, não tinha nada pra contar.

LOU: Você tem filhos?
LUCY: Não, nunca tive. Primeiro, eu fui alpinista, minha vida sempre foi muito turbulenta.

LOU: Não cabia criança no seu roteiro de vida?
LUCY: Não, não cabia. Eu digo: meus filhos são esses aqui (mostrando os 3 livros).

SEUS "FILHOS"

LOU: Quais os nomes dos seus "filhos"?
LUCY: "Eu Quero Voar - O Retrato de Um Preconceito", foi o primeiro; "Vôo Proibido - Os Apuros de Uma Pioneira" e "Sobrevivente - A Saga da Primeira Piloto de Linha Aérea".

LOU: E seus pais, como eles reagiram diante da sua profissão, fora dos modelos pré-concebidos?
LUCY: No princípio, ficaram muito assustados. Eu só contei quando já estava tudo programado, com a licença na mão. Foi aquele choque inicial. Depois, todo mundo começou a aceitar. Acharam que se eu estivesse preparada como os homens, não teria porquê não continuar. Mamãe rezava muito, ficava com medo.

LOU: Medo de avião é uma coisa muito comum.
LUCY: É natural, mas é porque é um tabu. Você, por exemplo, pega o seu carro, entra e dá a partida. Você costuma dar uma volta em torno do seu carro? Você, antes, examina a calibragem, se tá tudo em ordem?

LOU: Quase nunca, só quando vou fazer uma viagem.
LUCY: Quase ninguém faz isso. Em aviação, antes de sair com o avião, você faz o check externo e o interno, verifica tudo, principalmente na aviação pequena, que você faz tudo. Na aviação maior a tarefa é dividida. Mas na pequena você tem que checar o óleo, os pneus; mete o pé pra ver se a calibragem não tá baixa, porque isso interfere no pouso, na segurança. Você examina todos os cabos, examina os tirantes, tudo você examina pra ver se os parafusos estão no lugar. A inspeção externa e interna é fundamental em matéria de segurança. E dificilmente fazemos isso num carro e acidentes com carros são mais freqüentes.

LOU: Na aviação, por exemplo, se eu tomar um avião desses grandes daqui pra São Paulo, tanto faz que chova ou não chova o avião vai. E o táxi aéreo pode sofrer as mesmas conseqüências do outro avião?
LUCY: Pode. E assim mesmo alguns monomotores, os que têm um motor só, às vezes, estão preparados pra vôos por instrumento, que aí depende da legislação da época. Às vezes, eles ficam liberados pra vôo por instrumento e o piloto também tem que ser habilitado pra voar por instrumento. É o que chamamos de vôo cego. Mas não é um "vôo cego", o nome é até meio incorreto, porque voa sabendo onde você está, você voa por meio de instrumentos que estão ligados virtualmente a outros aparelhos aqui no solo.

LOU: Mas, por exemplo, cai um raio ou uma coisa assim, o avião não corre perigo?
LUCY: Dificilmente acontece. Pode acontecer, mas raio só tem dentro de nuvem de trovoada que a gente sempre evita entrar. Você tem radar meteorológico e sempre procura fugir das formações. E você procura sempre os níveis antes de sair. Quando é aviação profissional, tem os boletins meteorológicos, você sempre vê como está o tempo na rota, como é que está o tempo na cidade pra onde você vai; quais as alternativas, porque você sempre que vai pra um destino; se chegar lá, estiver fechado, até por instrumento, você tem que ter um outro aeroporto para você ir como alternativa. Quantas vezes o Santos Dumont tá fechado, mas o Galeão tá aberto, porque tem uma pista maior, mais recurso? Por isso que sempre tem que ter um plano de vôo. A aviação é cercada de muita segurança. Você sai com o avião super checado por várias pessoas. Na aviação grande tem um despachante de operação de vôo que entrega o documento e ali está tudo anotado, o abastecimento, como é que foi, etc.

LOU: Você era alpinista, então essa sua vida de aventura já era uma coisa antiga?
LUCY: É. Acho que isso já estava um pouco em mim. Nós tínhamos um grupo de alpinistas em Santa Tereza, com quem fazíamos excursões. As consideradas perfumarias, eram os acampamentos nas praias como Muriqui, Ibicuí, Angra dos Reis. Mas a gente ia pra tudo quanto é lugar e acampava. Naquela época se podia fazer isso. Hoje não pode mais. Nunca houve assalto, nunca aconteceu nada. A gente fazia excursão pra outros Estados.

LOU: Mochila nas costas e pé na estrada.
LUCY: Mochila nas costas, saco de dormir, aqueles que a gente entra dentro dele. Ainda tenho até hoje saco de dormir. Era uma vida assim: todo mundo trabalhava, mas chegava sexta-feira à noite, a gente já partia e voltava domingo à noite. E às vezes, quando chegávamos no domingo à noite, ainda tinha alguma festinha pra ir. Era aquele pique de juventude. Era alpinismo, excursionismo e foi lá que eu conheci Sigi. Ele também era alpinista.

LOU: Foi seu único amor ou você depois teve outros?
LUCY: Não, não. Sigi foi uma pessoa muito especial na minha vida. Éramos muito amigos. Acho que o que é muito importante no casamento não é só o amor; acho que o sentimento mais seguro, estável é a amizade, porque amizade não acaba, a gente pode passar por várias coisas, às vezes, até amigos brigam e tudo, mas a amizade não está sujeita a choques. O amor é mais egoísta, possessivo, sensível; tem umas arestas que a amizade não tem. Porque como amigo ele aceitava certas coisas, mas como marido já não aceitava. Quando não deu certo como marido e mulher, sob este aspecto, a gente continuou a se querer bem. Tanto que nós continuamos amigos até ele morrer.

LOU: E você teve outros amores?
LUCY: Ah! Sim, mas depois que me separei dele, fiquei muito anos sem querer alguém. Passei a me dedicar só à profissão, porque achei que Sigi tinha sido uma pessoa insubstituível. Mas depois de alguns anos, eu conheci esse meu marido e já estou casada há 22 anos com ele. Então, este é um outro amor, é diferente.

LOU: E como é o nome de seu marido?
LUCY: Nelson. Ele é um pouco mais jovem que eu, mas tem um temperamento totalmente diferente de Sigi. Nossa vida é completamente diferente, porque ele não gosta de acampar, ele prefere caminhar, prefere praticar outros esportes.

LOU: Foi por isso que você parou de voar?
LUCY: Não, eu parei de voar porque eu já estava fora da aviação, só fazendo um vôo ou outro, por causa dos problemas. Eu voei como piloto comercial alguns anos. Quando eu ainda estava na Líder Táxi Aéreo, onde eu voei por dois anos, eu prestei a prova pra piloto de linha aérea que é a posição mais alta dentro da aviação civil. E pra ser piloto de linha aérea você tem que ter muito mais experiência, muito mais horas de vôo; é como se fosse o Brigadeiro na aviação militar. Eu tinha horas e tudo e, quando eu tava na Líder, prestei prova pra piloto de linha aérea e fui fazer novo exame de saúde, que era bem mais puxado que o comercial; prestei outra vez as provas, que também exigia média sete, e depois fui fazer o check. Só que, quando você fazia a prova teórica e era aprovada, recebia um cartão provisório que te dava o direito por dois anos pra prestar o exame prático, no avião. Porque, às vezes, você está voando numa empresa e não tá na hora, na tua vez de fazer check, porque tem outros mais antigos que estão na tua frente. E não estava na minha vez, ainda faltavam outros colegas.

Naquele período de alguns meses, que eu ainda voei na Líder, fiquei com o cartão. Mas não chegou a minha vez. Aí, fui pra Top Táxi Aéreo e lá, quando eu entrei, me foi prometido que, quando chegasse a minha vez, eu faria o check, como qualquer piloto. Só que neste intervalo, eles mudaram a legislação no caminho entre aquele período de dois anos.
Uns e outros não queriam que eu fosse a primeira piloto de linha aérea, porque eu não era uma pessoa da corriola, eu não era filha de ninguém dali, eu não era da igrejinha. Precisava ser ligada a alguém da aviação. Eu tinha primos que eram da FAB, mas eu nunca procurei falar nada com eles, porque essa briga era minha. Que história é essa? Por que agora vão querer me brecar? Mudaram até a legislação!

LOU: Como você se saiu dessa?
LUCY: Eu ainda não era advogada - me formei em 1984. Fui estudar por causa da briga dessa licença. Eles fizeram a legislação retroagir e me deram uma licença de categoria inferior, que era a de piloto comercial sênior. Eu fui a 1ª piloto comercial sênior, que era uma licença de comando, mas era uma licença intermediária, entre o comercial e a linha aérea. Eles criaram essa espécie de licença naquela época, alegando que nos Estados Unidos era assim, que o FAA tinha determinado.

LOU: FAA, o que é isso?
LUCY: É a Federação de Aviação Americana. Normalmente elas davam as regras que eram seguidas pelos países, que eram ligados com a OACI, Organização Internacional de Aviação Civil. Isso já existia há alguns anos, mas eles nunca seguiram; foram seguir justamente na minha hora? E eu não recebi a licença do piloto de linha aérea. Seria a 1ª piloto de linha aérea e eles não aceitaram. E, aí, começou a minha briga, porque eu não me conformei. Eu disse: "não! É um direito meu, eu vou lutar até morrer!" Não tinha mulher nenhuma naquela época. Mas, com aquela badalação de jornal e revista, começaram a aparecer mulheres interessadas. Eu digo que, se eu fui a primeira que tive a idéia, que paguei esse preço todo, enfrentei essa guerra, que abri o caminho, por que eu não vou ter direito a ser piloto de linha aérea? É uma questão até de auto-estima; não é vaidade, poderia até ser, mas fui eu a primeira, a que abriu o caminho.

LOU: Como foi essa briga? O que você fez?
LUCY: Comecei a reclamar nos jornais. Eu estava sempre requerendo no DAC. Acontece que todas as empresas precisam do Departamento de Aviação Civil, todas precisam de um bom diálogo e eles não gostaram, porque acham que a gente tem que aceitar tudo. E eu comecei a reclamar, continuei usando a licença de sênior, mas aquilo ali foi me fazendo entrar num funil. E, logo fui mandada embora da Rio Sul, já era comandante e tudo, e ainda voei pela Cia. de Usina do Outeiro.

LOU: Você chegou a ser comandante de vôo?
LUCY: Cheguei. Voei como comandante e com a carteira de piloto comercial sênior, que era uma carteira de comando, de comandante, mas não podia voar avião acima de 20 toneladas, era uma carteira limitada. Quer dizer, eles não me deram de linha aérea, que eu tinha direito, como todos os outros meus colegas. Como eles mudaram a legislação na minha vez e eu comecei a reclamar e a exigir, as portas começaram a se fechar mais ainda. Aliás, nunca tinham ficado muito abertas...

LOU: Você já estava com esse segundo marido?
LUCY: Ainda não. Tava sozinha. Então resolvi estudar Direito. Eu ia pro aeroporto e ficava lá à tarde; de noite, eu ia pra faculdade. Eu disse: "Vou fazer Direito porque preciso me armar pra briga". Uma coisa é você lutar sozinha, sem amparo legal; outra coisa é você chegar como advogada. Aí, me formei em 1984. Fiz a metade do curso na Cândido Mendes e a metade no Bennet. E continuei requerendo, todo ano eu requeria. Mudava o diretor no Departamento de Aviação Civil, tava lá a Lucy, requerendo licença de linha aérea, baseada no artigo tal e tal do Código Civil.

LOU: Aí, foi mais rápido?
LUCY: Não, sempre diziam que eu não tinha direito e foi assim que levei 24 anos, brigando pela licença de linha aérea.

LOU: E venceu!
LUCY: Venci. No ano de 2000, um amigo meu, que era meio ligado com o diretor do DAC, conversou com ele e disse que era uma discriminação e um absurdo. Nesse ínterim, já tinham dado pra uma paraguaia que não tinha direito, que fez tudo assim portas travessas. Mas ela pulou de piloto privado pra piloto de linha aérea, entrou muita coisa na jogada. Nessa altura eu já tinha denunciado e lancei o livro "Eu Quero Voar".

LOU: E esse foi seu primeiro livro?
LUCY: Foi, depois veio "Vôo Proibido" e o último foi "Sobrevivente - A Saga da Primeira Piloto de Linha Aérea", contando como que eu consegui receber. Mesmo assim, com esse colega falando e tudo, eu tive que requerer e ainda levou 7 meses tramitando, entre o departamento jurídico, mais isso, mais aquilo. Fui entrevistada pelo Brigadeiro e eu sempre com a promessa de que não entraria na justiça contra o DAC. Eu falei: - Tudo bem, eu concordo, eu não vou entrar na justiça, mas eu quero a minha licença, que é um direito meu, já sei que chance na aviação eu não vou ter mais, porque eu fiquei desatualizada; passaram-se muitos anos.

Pra ficar com as carteiras em dia, durante anos, eu paguei do meu bolso. O exame de saúde não, esse eu sempre fiz, de seis em seis meses, embora fosse pago, em torno de
R$ 200,00.

Em janeiro de 2000, eu recebi a minha licença pelo correio. Muita gente achou que foi muita falta de consideração. Até saiu publicado numa revista, um artigo dizendo que eu deveria ter recebido minha licença numa cerimônia. Pra você ver como nosso país é injusto! E depois, também nesse ínterim, eu comprei a briga de uma mulher que foi a primeira mulher a voar no Brasil como piloto amador e eles apagaram o nome dela da história, pra colocar uma outra que era empistolada e que todo mundo conhecia como sendo a primeira.

LOU: Mas a primeira não foi você?
LUCY: Não. Eu fui a primeira a trabalhar como profissional. Eu sou a primeira piloto de linha aérea. A outra podia voar assim, no aeroclube e tudo. Isso foi em 1922.

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

LOU: E quem foi ela?
LUCY: Thereza de Marzo Roesler, primeira piloto amador. Uns dois anos antes dela morrer, ela disse que tinha uma mágoa muito grande por ter sido apagada da história e terem colocado a outra. E eu prometi a ela comprar a briga e contar toda a verdade no meu livro. Com o tempo eu me aprofundei na história de Thereza, que me passou os documentos.

O Ministério sempre dizendo que a outra, a Anésia, era a primeira aviadora brasileira, porque ela era apadrinhada com os caras e vivia com um Brigadeiro. Ela se aproveitou dele pra freqüentar a cúpula, tava sempre junto dele, circulando pelos gabinetes.

A Thereza tinha uma história muito bonita, quando eu lancei "Vôo Proibido" eu contei a história dela também. E eu já estava do lado de fora e mesmo que eu estivesse lá dentro, eu não ia deixar de falar, porque não tenho compromisso com ninguém. Meu compromisso é com a história.
Então, quando eu escrevi o "Vôo Proibido", mandei pra 67 países. Mandei, junto uma cartinha em inglês, uma em francês e outra em espanhol, de acordo com o país, dizendo que, por uma questão de justiça, uma retificação deveria ser feita: a primeira aviadora brasileira foi Thereza de Marzo e citei as páginas do livro. Mandei lá pra Washington onde tem o maior museu do mundo.

LOU: Qual foi a repercussão?
LUCY: Vieram telegramas, cartas de vários lugares. Mandei levar o livro na casa da "madame mentirosa", Anésia Pinheiro Machado, que também não era Pinheiro Machado, pra ela ver que eu não tava fazendo nada escondido. Ela viveu ainda sete anos após a publicação do livro; não reclamou, não protestou, porque não podia. Ela se passou como Pinheiro Machado e não era. Eu fui descobrir na Biblioteca Nacional. Fiz o levantamento da genealogia paulistana desde mil oitocentos e pouco e não constava.

A Thereza não era uma invenção. Ela não era biônica, que foi nomeada piloto. Ela era realmente piloto. Então, ali está tudo contado, documentado, até anexei a xerox da relação dois mil primeiros pilotos brevetados no Brasil, retirada de um livrinho, que ninguém tem, só eu.
Cumpri minha jura a Thereza de que lutaria pelo seu direito de ser reconhecida. Agora, todo mundo já sabe, não só no nosso meio. Até a TV Globo. Eu acho que isso é fazer justiça.

MENSAGEM FINAL

LOU: Você é uma vitoriosa de muitas guerras.
LUCY: Eu não sei. De uma certa forma sim, porque eles queriam que eu já tivesse desaparecido do mapa e eu não desapareci. Eu continuei, sabe Deus como! E escrevi os livros que estão espalhados no Brasil e no mundo.

LOU: Só isso já é uma vitória, quantas pessoas desejariam escrever um livro? E você escreveu três.
LUCY: E eu fiz uma coisa que muita gente não teve coragem de fazer escrever durante a revolução. Ainda havia alguns atos institucionais em vigor e o pessoal tinha medo. Eu não tive medo não. Quando fiz o primeiro, eu fui lá em cima no DAC, de seção em seção, falando que tinha saído o meu livro, a minha versão: "se alguém quisesse contestar, tô lá embaixo, tô lá no banco. O livro custa dez reais..." (naquela época, não era real não...) risos.

LOU: Eu queria saber seu telefone pra quem quiser comprar seus livros poder telefonar direto pra você.
LUCY: Pode telefonar, eu tenho fax também lá em casa. O telefone é 2265-5802 e o tel fax que é 2205-6835.

LOU: Manda um recado pros "VelhosAmigos". Você, como uma mulher vitoriosa, que venceu tantos preconceitos e conseguiu chegar literalmente lá nas alturas.
LUCY: Eu acho o seguinte: que o importante na vida é a gente ter uma determinação, não se intimidar com os obstáculos, porque obstáculos a gente vai encontrar sempre. Agora, uns aceitam e não procuram ultrapassar; eu procurei ultrapassar, eu não sou de aceitar as coisas fáceis assim. Eu lutei muito e derramei muitas lágrimas, mas eu não me intimidei, fui em frente, fui escrevendo minhas memórias, pra não ficar amarga, nem de mal com a vida, e foi como eu zerei. E eu procurei trabalhar nas outras profissões que eu tinha, pra sobreviver e pra poder contar nos meus livros.

LOU: Quando a gente escreve, faz uma catarse.
LUCY: Porque você põe pra fora todas as suas mágoas, suas tristezas. Então, você zera.

LOU: É por isso que você tem esse aspecto jovial.
LUCY: Quando quiser fazer alguma coisa, vá em frente. Muitos diziam que eu nunca seria co-piloto e eu fui; eu jamais seria comandante, e fui comandante, piloto comercial, comercial sênior. E fui a primeira piloto de linha aérea também. Então, apesar de todas as dificuldades, mesmo levando 24 anos, eu não vou morrer sem ter feito aquilo que queria. Claro que eu não realizei tudo que eu queria; mas eu acho que, mesmo com todas as dificuldades da época, eu recebi o que eu tinha direito, mesmo 24 anos depois, eu recebi, tô viva!
Ainda pude comemorar, tomar chopp, várias vezes em cima disso. Então, eu fico feliz porque sou uma pessoa saudável, posso fazer tudo que eu quero. E acho que ter saúde já é um grande dom. Posso fazer meus livros e, mesmo com muita dificuldade, ainda trabalho como farmacêutica, pra poder financiar meus livros, porque não é fácil fazer livros por conta própria.

A Faculdade de Direito foi só pra eu provar com a carteirinha vermelha na mão, que impõe muito mais respeito os meus direitos e poder ajudar à família e a muitas pessoas. Eu acho que dentro daquilo que Deus me permitiu, consegui fazer alguma coisa.

LOU: Lucy você é uma mulher corajosa, idealista, vitoriosa que vai ficar na História do Brasil, como a primeira mulher da aviação comercial brasileira, numa comovente trajetória que daria um filme. Ninguém conseguiu cortar suas asas! Parabéns! O Site "velhosamigos" agradece a entrevista e a sua visita a nossa casa.

Para encerrar, destaco um trecho do seu livro, "Eu Quero Voar - O Retrato de Um Preconceito"

"Não importa o que já tive, nem o que deixarei de ter...
Lutei como uma leoa que tenta proteger a sua cria.
Idealismo é coisa que pouca gente entende. Os inimigos foram muitos e me derrubaram.
Sim, mas não me venceram, porque a vitória é interior e moral.
E se tiver efetuado meu derradeiro pouso, tudo bem! Ele terá sido feito com as mãos limpas e a consciência tranqüila...
E permanecerei para sempre erguida, assim como as árvores que morrem de pé!..."
(Lucy Lúpia Pinel Balthazar)

Telefone: 2265-5802
Telefax: 2205-6835
E-mails: cmte.lucy.l.@uol.com.br
cmtelucyl@ig.com.br
Site: www.captain.lucyl.nom.br

Revisão: Anna Eliza Fürich - anneliza@jato.com.br

Autor(a): Lou Micaldas

 

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