Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

LUIZ VIEIRA
publicado em: 29/01/2016 por: Netty Macedo

"Minha vida sempre foi pautada por estar no lugar certo, na hora certa.
A oportunidade está sempre de porta fechada, mas um dia qualquer, que nunca se sabe,
ela vai abrir e pra você ter encontro com ela, tem que estar ali, de plantão, pra que haja este encontro."


Matéria publicada em 1999

No dia 12 de outubro de 1928, nasceu em Caruaru, cidade de Pernambuco, o filho de D. Anita Alves Mendonça Vieira e Luiz Rattes Vieira. O neném, como era de praxe, recebeu o nome do pai: Luiz Rattes Vieira Filho e também, como era de praxe, deveria seguir a mesma profissão: ser Jornalista e Advogado.

D. Anita era cantora lírica, e cantava nas igrejas, em cerimônias religiosas. O pai declarou:
- "Esse menino vai ser Advogado e Jornalista como eu."

O que o pai não podia adivinhar era que "esse menino" havia herdado a veia artística da mãe e nascido com vocação para o sucesso no mundo da arte, da poesia. "Esse menino" viria a se tornar o grande compositor, poeta e cantor, conhecido pelo nome de LUIZ VIEIRA.

Luiz Vieira ficou órfão de mãe, quando tinha 3 anos. Eles moravam em Alcântara, distrito de São Gonçalo, Rio de Janeiro, que naquele tempo, era uma roça.

O pai, por força do ofício e da boemia, vivia viajando e deixou o filho aos cuidados do avô, Luiz José Vieira, mais conhecido, naquela região, como Seu Luiz Vieira.

Foi ali, pegando no pesado desde pequenino, que aprendeu com o avô a trabalhar pra sobreviver: foi guia de cego, engraxate, pescador, lapidário, ajudante de caminhão, vendedor, cortador de árvore, etc.

- "Não escolhia trabalho, fazia de tudo, eram serviços temporários, pegava qualquer biscate pra ganhar alguns trocados, até sapo de macumba eu vendia, quando pintava alguém querendo comprar", lembra.

A PRIMEIRA MÚSICA

Aos 8 anos, inspirado no poema do Professor Ulisses de Vasconcellos, compôs a primeira música e ainda escreveu a letra da segunda parte do poema:

1a. parte
"O vento tem carta branca ele faz tudo que quer.
O vento gosta de saia, persegue toda mulher.
Faz tempestade e faz graça.
Em tudo mete o nariz,
Em toda parte se acha,
É prazenteiro e feliz."

2a. parte (esta parte foi a "colaboração" do menino poeta):
"Outro dia eu vi o vento
Ventando lá na avenida,
Entrando no apartamento,
Procurando uma menina."

Até os 16 anos, quando conseguia arranjar tempo, ia assistir as aulas numa escola pública. Luiz Vieira pertenceu ao mundo da infância sem infância, das crianças que são forçadas pela necessidade a trocar o livro pela enxada.

Ele se lembra com carinho da primeira professora, Dona Dolores, e da Dona Aidée de Azeredo Coutinho que está viva até hoje.

Dona Aidée foi a fundadora do Grêmio Literário e Artístico de Alcântara, nome pomposo para um simples barraco que abrigava os grandes sonhos da garotada do bairro e que ainda estão marcadas na lembrança de Luiz Vieira.

O VELHO BOI COM NOME DE PASSARINHO

Mudou-se mais tarde para a fazenda do Seu Oswaldo Corrêa, num lugarejo chamado Guapi ou Guapimirim, hoje, Município, situado na Raiz da Serra de Teresópolis, onde começou a trabalhar, sempre junto com o avô, cortando árvores, toras, lidando com bois e ordenhando vacas.

- "A gente dava o nome aos bois. Me lembro da junta guia, que eram dois bois que ficavam à frente de outros seis.
Eu batizei um com o nome de Canário, era um boi velho, lindo, muito forte, muito doce e obediente. O outro era o Baiano, teimoso, nem sempre me obedecia, mas o Canário, me ajudava e botava o boi Baiano na linha..."

- "Os bois eram os nossos passaportes, eram os guias para trazer as toras de árvores, que cortávamos, para a beira da estrada de ferro. Lá ficávamos esperando o trem chegar para vender as toras encomendadas."

Mesmo morando em Guapi, e apesar da distância, não deixou de freqüentar, de participar do Grêmio, onde representou pequenas peças.

De 15 em 15 dias Luiz Vieira saía de Guapi, às 4 horas da tarde, montado numa mula chamada Campolina, para chegar, às 8 da noite, aos ensaios das peças do Grêmio.

- "Às vezes vovô me acompanhava, ele ia montado numa égua chamada Briebinha. Depois do ensaio, voltávamos pra Guapi. Cavalgávamos sempre à noite, porque era mais fresquinho. Parávamos por uma hora, pra dar milho e descansar os animais. Só chegávamos em casa lá pras oito, nove horas da manhã do dia seguinte."

O PRIMEIRO "BEIJO DE LÍNGUA"

- "Me lembro que representei, lá no Grêmio, uma pequena peça intitulada "Talento e Formosura". Era uma canção de autoria de Catulo da Paixão Cearense sobre uma história verdadeira que aconteceu com ele num baile: Catulo foi tirar uma moça bonita pra dançar e a moça recusou porque ele era feio. A peça foi uma adaptação desta história.
Eu fiz o papel do Talento, e a menina que interpretava a Formosura se chamava Yeda. Ela era muito bonita, a própria formosura. Foi com ela que senti a primeira emoção do beijo de língua."

O Grêmio acabou. Derrubaram o barraco e construíram uma grande indústria de suco de laranja.

O VELHO CAMINHÃO

No período que trabalharam com o corte e a venda de madeira, Luiz Vieira e o avô foram melhorando de vida. Compraram bois e até compraram um velho caminhão.

- "Nós trazíamos os bois lá da fazenda, carregados de madeira, até a estradinha e colocávamos as toras no caminhão e levávamos até a margem da estrada. Nesta época eu já tinha 15 anos e já dirigia o caminhão..."

... "Era no tempo da guerra e o caminhão andava movido a gasogênio porque a gasolina era racionada. Com o peso das toras, o velho caminhão enguiçava. E aí nós tínhamos que apelar para os bois. A gente amarrava o caminhão carregado de madeira aos bois, com uma corrente, e eles, então, puxavam aquela carga dupla" conta rindo.

Luiz Vieira, trabalhava duro mas não descuidava do seu sonho de ser cantor de rádio, e cantava em tudo que era programa de calouro, ou em qualquer outra oportunidade que surgisse.

Havia sempre apresentação de circo e de números musicais no parquinho de Alcântara e ele não perdia nenhum. Onde havia uma chance de se apresentar ele estava presente esperando a oportunidade.

- "Numa tarde de 1946, vovô Luiz recebeu a visita do cantor e compositor Zé do Norte, o famoso autor de "Mulher Rendeira" que tinha um programa chamado "Manhã na Roça", na Rádio Clube do Brasil. Zé do Norte foi lá pra paquerar uma das minhas primas."

Com o intuito de agradar e ganhar a simpatia da família, convidou o rapazola Luiz Vieira, pra cantar no seu programa.

Naquela noite, ele nem dormiu direito. Cedinho, com o coração aos pulos, levantou da cama cheio de esperança. Era o seu dia. Iria estrear numa Rádio. Quando chegou lá, ficou sabendo que não tinha lugar pra ele cantar.

Luiz Vieira não se deu por vencido.

Todo dia, durante um ano, acordava às 3 horas da manhã, em Guapi, pra estar lá em Alcântara, na Rádio, às 7 horas. Lá ficava ele, esperando uma brecha. Teimoso, não desistia.

- "Minha vida sempre foi pautada por estar no lugar certo, na hora certa. A oportunidade está sempre de porta fechada, mas um dia qualquer, que nunca se sabe, ela vai abrir e pra você ter encontro com ela, tem que estar ali, de plantão, pra que haja este encontro."

O DIA DO ENCONTRO

Houve uma greve geral dos cantores contratados. Não apareceu ninguém pra trabalhar. Só um sanfoneiro e Luiz Vieira. Ele estava lá como sempre, de plantão, esperando.

- "Você foi o único que compareceu. Você sabe o que quer e você vai vencer, menino!" - Sentenciou Zé do Norte.

A partir daí, foi contratado pra ser secretário. Passou a ter direito a cantar três números por dia. Como secretário era ele quem fazia a programação da Rádio. Eram três números pra ele e três pro Zé. O tempo que sobrava era repartido com os outros. Ficou feliz. Era só o começo.
A porta se abriu pra ele. Deu-se o primeiro encontro...

Seus maiores ídolos eram Vicente Celestino e Augusto Calheiros.

- "Numa certa manhã, Augusto Calheiros apareceu na Rádio. Queria cantar. Zé do Norte havia brigado com ele e negou, avisando-o que a agenda do programa já estava completa e não havia vaga, que se ele quisesse poderia pedir a alguém pra lhe ceder a vez."

- "Achei a situação muito constrangedora. O grande Augusto Calheiros, a Patativa do Nordeste, não poderia sofrer aquela humilhação. Ter que pedir aos novatos pra cantar? Essa não!"

Foi falar com ele:

- "Quero ouvir você cantar, tenho três números, você deixa eu cantar um?" propôs Luiz Vieira.

O famoso artista aceitou cantar dois números e ficou comovido com o gesto de Luiz Vieira, um novato, naquele mundo de competição, rivalidade e luta por um espaço, agindo assim tão desprendido.

Calheiros todo dia cantava dois números e Luiz Vieira cantava só um.

- "Ele era uma escola pra mim, eu ficava admirando o meu ídolo cantar e ainda por cima, aumentando o índice de audiência da Rádio" relembra emocionado, e completa:

- "Foi ele, Augusto Calheiros, o primeiro a cantar o Baião de autoria de Jararaca, pra sociedade carioca, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com a Orquestra Filarmônica do Teatro, em 13 de junho de 1928". Registra, com toda a empolgação de um fiel tiete.

- "Mais tarde vovô vendeu tudo e comprou um pequeno armazém de beira de estrada, bem ali, na Parada Modelo, ao lado do lugar onde guardávamos as toras, até que elas foram todas vendidas. Começamos, então, a trabalhar no armazém. Foi ali, que vovô morreu e foi enterrado".

MAIS UM ENCONTRO

Luiz Vieira partiu para os cabarés da Lapa, no Rio de Janeiro. Toda noite estava lá no Cabaré Novo México, de plantão, aguardando uma chance, um novo encontro com a oportunidade.

E, mais uma vez, a sua persistência foi recompensada. O cantor da noite faltou e lá estava ele, de plantão, pronto pra cantar.

Gostava de todos os estilos de música, cantava e compunha toadas, baião, guarânia, samba e, por isso, na década de 40 a 50, conseguia se manter sempre no topo, requisitado pra todos os programas.

E MAIS OUTRO

Toda a sua carreira foi marcada, desde o início, pelo improviso, pela coragem, sabendo aproveitar as oportunidades.

Assim foi em Mato Grosso, na cidade de Corumbá. A cidade estava em festa, aguardando a entrada no palco de Luiz Gonzaga, "O Rei do Baião". Algum erro de produção deve ter acontecido, pois Luiz Gonzaga não apareceu. Eis que surge no palco, Luiz Vieira com a cara, a coragem e o talento. Na falta do "Rei", apresentou-se como "O Príncipe do Baião".

Deu um verdadeiro espetáculo, levantando a platéia e sendo consagrado pelo público como o "Príncipe do Baião".

Virou gente grande no meio dos grandes: Ataulfo Alves, Geraldo Pereira, Wilson Batista e outras figuras ilustres do nosso cancioneiro.

VOCAÇÃO x COMPROMISSO

No período de 46 e 47, enquanto freqüentava a Lapa, começou a estudar Direito por correspondência.

- "Foi pra mostrar pro meu pai. Só cumpri o compromisso. Nunca exerci a profissão. Comprei o anel, dei de presente pra ele e mandei ele buscar o diploma. Mas meu pai nunca foi buscar, nem eu. Aquele papel não era importante pra minha vida. Importante era a minha vocação. O anel que dei a ele foi parar no prego, e acabou sendo leiloado", conclui.

SUCESSO NA TV TUPI

A estrela continuava a brilhar. Luiz Vieira assinou contrato na Rádio Tamoio e Tupi - emissoras associadas. No contrato já rezava que iria fazer parte da TV Tupi, que foi ao ar pela primeira vez, em 1950. Passou a ganhar nessa ocasião, ao todo, dois contos e quinhentos.

Estreou na TV Tupi, com Virgínia Lane, a maior vedete do Brasil, no show intitulado Atrações Tonelux. Foi Virgína Lane quem lançou o famoso jargão "tooo-neee-lux!" mais tarde copiado por Neide Aparecida.

Saiu do Cabaré na Lapa, deixando lá grandes amigos e muitas recordações, muitos amores.

Em 1953, estourou o primeiro de seus grandes sucessos, a toada "O Menino de Braçanã". Daí pra frente, muitos outros sucessos foram tomando conta das cidades de todo o Brasil. Onde houvesse uma rádio, escutavam-se as músicas de Luiz Vieira.

"O Prelúdio Para Ninar Gente Grande", ou "Menino Passarinho", canção lançada em 1963, foi considerada a sua obra prima. A canção ultrapassou os tempos e os modismos, sendo aplaudida e cantada até hoje em qualquer roda de boa música.

Entre os últimos CDs, destacam-se: "Vinte Super ", uma coletânea de sucessos, e "Se Eu Pudesse Falar", uma regravação de seus primeiros lançamentos e onde consta o poema que dá título ao disco.

"Se Eu Pudesse Falar" é um poema-protesto contra o descaso das autoridades em relação à seca do Nordeste.

Foi uma época difícil para Luiz Vieira. Cada vez que ele declamava o poema era preso. No dia seguinte, saía da prisão e voltava a fazer o protesto. Lá ia ele de novo pro xadrez. Por diversas vezes, ele enfrentou as autoridades recitando o seu poema-protesto.

- "Foram momentos de comunicação difícil, tinha que soltar meu verbo..." simplifica.

A luta contra a seca lhe rendeu mais um título - o de "Advogado do Nordeste".

Na época da ditadura, teve sua casa invadida e totalmente revirada.

- "Fui parar nas grotas do meu País, enquanto outros foram para Paris..." fala, na sua maneira espirituosa de encarar os fatos.

A ESTRELA BRILHA HÁ 55 ANOS

Luiz Vieira, o Príncipe do Baião, o Advogado do Nordeste, o Menino Passarinho, tem mais de 500 músicas editadas e gravadas por ele e pelos maiores intérpretes da Música Popular Brasileira.

Um grande show, ao lado de grande nomes como Sérgio Reis, Benito di Paula, Carmélia Alves, Maria Creusa, Marcelo Guimarães e muitos outros, marcou o início das comemorações dos 55 anos da carreira de Luiz Vieira, no Teatro João Caetano.

O espetáculo começou no dia 29 de janeiro deste ano, indo até o dia dois de fevereiro, com a casa sempre cheia e o público cantando junto, revivendo os anos de ouro da música popular.

Luiz Vieira está com 72 anos e comanda o programa diário "Minha Terra, Nossa Gente" na Rádio Rio de Janeiro AM-1400KHz, das 6 às 10 horas da manhã. O programa, há 5 anos no ar, vem sendo o líder de audiência dentro da programação da rádio e o quinto colocado, segundo o IBOPE, no confronto com as outras emissoras.

Comandar um programa diário pra ele não seria o desafio, mas conseguir levantar a audiência alcançando os parâmetros atuais tem o sabor da conquista, e aí sim, de estar vencendo mais um desafio.

MOVIDO PELO AMOR

O bonitão Luiz Vieira é o retrato da felicidade. E o segredo para se apresentar assim bem disposto, cheio de entusiasmo, feliz, é que sempre foi movido e inspirado pelo amor.

Ama a música, a profissão, os amigos, a vida. Ele ama o amor.

Perdeu a conta do número de casamentos vividos: "Não queria viver sozinho" - explica.

Está amando de novo. Sua atual mulher, Eurídice Pereira, tem 26 anos, é sua maior fã, companheira, e sua produtora. Sabe tudo da vida de Luiz Vieira e se comove quando conta as lutas e vitórias de seu ídolo e marido, contagiando quem a escuta.

O menino passarinho com vontade de voar, voa alto, consegue se manter nas alturas, porque nunca deixou de sonhar, de lutar pelos seus sonhos, de amar, de sentir prazer pela vida e por tudo que ela oferece.

- "Estou sempre na minha melhor fase, porque pra mim, a melhor fase é sempre o agora", ensina.

Vamos recordar os seus maiores sucessos:

PRELÚDIO PRA NINAR GENTE GRANDE
ou
(MENINO PASSARINHO)

Quando estou
nos braços teus,
sinto o mundo
bocejar...
Quando estás nos braços meus,
sinto a vida descansar.
No calor do teu carinho
sou menino-passarinho
com vontade de voar...
Sou menino-passarinho
com vontade de voar!

===============

PAZ DO MEU AMOR

uma beleza imensa,
toda a recompensa
de um amor sem fim...
Você é isso:
uma nuvem calma
no céu de minh'alma,
é ternura em mim...

Você é isso:
estrela matutina,
luz que descortina
um mundo encantador...
Você é isso:
parto de ternura
lágrima que é pura,
paz do meu amor!

===============

O MENINO DE BRAÇANÃ

É tarde eu já vou indo
Preciso ir-me embora
Té manhã.
Mamãe quando eu saí
Disse moleque não demore
Em Braçanã.
Se eu demoro mamãezinha
Tá a me esperar
Prá me castigar.
Tá doido moço,
Não faço isso não
Vou me embora
Vou sem medo
Da escuridão.
Quem anda com Deus
Não tem medo
De assombração
Eu ando com Jesus Cristo
No meu coração.

===============

Autor(a): Lou Micaldas

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA