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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

LYGIA MARIA LESSA BASTOS
publicado em: 29/01/2016 por: Netty Macedo

Foi num papo informal, carregado de sabedoria e de muita cultura, que Lygia Maria Lessa Bastos nos concedeu esta entrevista, enquanto saboreávamos um delicioso "Risoto a la Lygia Lessa Bastos", no Restaurante Lamas.

A tarde estava tão agradável, que combinamos continuar a nossa conversa, ao ar livre, curtindo a beleza do pôr-do-sol, no Parque do Palácio do Catete.
Ressalto a minha admiração e amizade por esta mulher extraordinária, que engrandeceu a história e a política de nosso país.
Hoje, ela concede uma especial entrevista para o nosso site.

LOU: Lygia, quando e onde você nasceu?
LYGIA: Nasci em 9 de setembro de 1919, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Sou Carioca, filha de José Lessa Bastos e Maria Flora Lessa Bastos. Já estou perto de fazer 84 anos.

LOU: Você foi professora?
LYGIA: Fui professora primária na Escola Abelard Feijó. Dei aulas na Paulo de Frontin e no Instituto de Educação, como professora de Educação Física.

LOU: Como foi que você entrou na política?
LYGIA: Nós fomos quatro vereadoras eleitas em 47, ainda pelo Distrito Federal. Quando houve a eleição para a Presidência da República, em 45, trabalhei para o Eduardo Gomes e fundei a UDN, com um grupo de pessoas idealistas querendo que o Brasil saísse da ditadura. Aconteceu o seguinte:
Eduardo Gomes perdeu para o General Dutra. Dona Santinha, esposa dele, para me prejudicar, me punir por ter trabalhado para Eduardo Gomes, mandou fazer a minha transferência dessas duas escolas para uma escola primária, a Abelard Feijó, lá na Ilha do Governador, em Cocotá. Não havia lancha e nem havia ponte. Naquela época, nós íamos numa barca que saía às 9 da manhã e voltávamos de bonde. Chegava em casa, na General Polidoro, quase que às 9 da noite.


Eu estava no Departamento Nacionalista. Naquela época participei, inclusive, da "Parada da Raça".

Você pode me ver na fotografia (sou a primeira da direita pra esquerda) com a minha antiga professora, Maria Lenk, que depois foi minha colega na Escola Nacional de Educação Física.
(Ela é a terceira na foto).
Em 1946, dirigentes da UDN, Amoacyr de Niemeyer, Luis Paes Leme e outros que fundaram a UDN foram pedir para incluir meu nome na chapa de vereador, porque souberam da perseguição que sofri.

Minha mãe foi contra, mas meu pai disse: "Ela pode ser candidata, mas não vai ser eleita, porque vai conseguir poucos votos. Os meus alunos, as colegas dela, que é uma líder, uma campeã de volley-ball, organizou o basket-ball, jogou no Pacaembu, joga tênis. Acho que uns dois mil e poucos votos nós vamos dar para legenda da UDN.

Vamos ser coerentes, trabalhamos com o Brigadeiro e vamos ficar no partido".
Assinei meu nome como candidata e fiquei esperando a eleição. Tive dois mil, seiscentos e poucos votos, mas fui eleita. Era o destino.

ACIDENTE E INCIDENTE

LOU: Isso em 1947,...
LYGIA: Tendo sido eleita com esses votos, fui a 5ª colocada e entraram nove. Fui ser vereadora, por acidente e incidente. Incidente porque eu fui prejudicada. Então eles foram procurar incluir o meu nome. E o tal acidente foi porque, com dois mil e seiscentos, fui eleita com Jorge de Lima, com Adauto Lúcio Cardoso, com Carlos Lacerda, com Eduardo Bartlet James, com Luiz Paes Leme e outros.

LOU: UDN era oposição.
LYGIA: UDN era oposição... Sendo que o Lacerda foi meu colega vereador só por um ano. Temperamental, se aborreceu com a rejeição de um veto e ameaçou que se o veto seguinte fosse rejeitado ele renunciaria. Os senadores fizeram exatamente o que o Carlos Lacerda não queria. Então, ele saiu. Ele já escrevia no Correio da Manhã;  era um forte opositor, às vezes, violento.

Sempre fiz uma oposição forte, mas era construtiva. Eu dizia: você está errado por isso, assim, assim... e o caminho é esse assim, assim...Tive essa formação. A gente fazia oposição aos atos do governo e havia muito material para se fazer a oposição. Éramos contra a ditadura Vargas.

LOU: Foram quase 10 anos de ditadura...
LYGIA: O Getúlio era popular. Ele ganharia a eleição. Até hoje, não entendi por que ele ficou ditador por tanto tempo, equilibrando-se com os comunistas e os da direita.
Esquerda e direita. Era o Plínio Salgado, à direita, que comandava o partido, e do outro lado, o Prestes, no partido de esquerda. Em 47, foram eleitos 17 comunistas. Quando o Dutra ganhou, o Dutra fechou o partido comunista e eles ficaram na ilegalidade. Preferia que eles continuassem no legislativo.

DIREITA & ESQUERDA

LOU: E como foi sua convivência com os comunistas?
LYGIA: Eles foram vereadores comigo, por um ano. Nós nos demos muito bem. Os comunistas eram 17. Foi um mal eles fecharem o PCB. E nessa legislatura, que foi a primeira, os comunistas indicaram Aparício Torelli, que era um intelectual, inteligente, e Otávio Brandão, com uma cultura invejável. Os dois fizeram parte da Comissão de Educação. Foi o melhor período da legislatura em relação aos debates e decisões. Eles colaboravam bastante.
Tive oportunidade de votar com eles, contra a vontade de minha bancada, em relação à merenda escolar. Nesse período, eles votaram também projetos meus.

LOU: Você conheceu bem os bastidores da Presidência da República, na época do Jânio Quadros...
LYGIA: Eu era admiradora do Jânio Quadros, desde quando eu era vereadora e ele vereador também, por São Paulo. Nós nos conhecemos quando ele veio ao Rio.

LOU: Você ficou quanto tempo como vereadora?
LYGIA: Fiquei de 47 até 60. Ganhei 10 mandatos seguidos. Fui sendo reeleita, sendo que fui eleita pelo Distrito Federal. Mas, depois, com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a Cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de 1960 a 1975. Aí, fui Constituinte da Guanabara e depois, a partir de março de 1975, com a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, fui Deputada do Rio de Janeiro. E, finalmente, acabei como Deputada Federal.
Nas duas últimas legislaturas de 75 a 82, fiquei na Câmara dos Deputados, em Brasília, na ARENA, pois os partidos haviam sido extintos e só restaram dois. O outro era o MDB.

LOU: Eram 300 e tantos homens e você a única mulher?
LYGIA: A única mulher na primeira legislatura, de 75 a 78. Em 78, viajei a quatro estados e consegui levar mais três eleitas. No meu último mandato, em 82, quando o abandonei, entraram oito. A coisa foi melhorando. Hoje em dia, é muito fácil ser candidato, embora se gaste muito dinheiro. Naquela época não. O que valia mais era o prestígio, eram os amigos, os parentes que trabalhavam. Hoje em dia, já entrou a corrupção. Estamos sentindo isso, acompanhando na televisão, vendo os históricos e as prestações de contas.

L0U: Como foi isso?,
LYGIA: Tudo veio um pouco antes, veio de 82, quando acabou o que eles chamam a ditadura militar. Que eu acho que não houve...Depois que saiu o Figueiredo, que foi o último militar que ocupou a Presidência da República, o que veio foi uma ditadura civil, que durou oito anos, pior do que todo o tempo da ditadura militar.

LOU: Mas, voltando aos bastidores do governo Jânio Quadros.
LYGIA: Fui honrada com um convite pra fazer um estudo da reforma política. Ele sabia o que eu pensava sobre a reforma e me disse: "Lygia, começa a pensar nisso". E nós ficávamos o fim de semana lá. Entã, eu ia procurar pessoas da comissão de economia e finanças para esclarecimentos necessários. Eu não era técnica nesse assunto. A minha especialidade é educacional. Mas a parte política eu entendia muito, porque fundei um partido, fui secretária e tesoureira do partido, nas piores horas das dificuldades partidárias. Naquela época, fui da direção. Depois, eu só fiz parte da comissão diretora e, naturalmente, da Federação toda. Em Brasília, fui a única mulher que pertenceu à comissão executiva. Enquanto eu estive lá, de 75 a 82, não houve torturas. Muito pelo contrário. Muita gente da oposição conseguiu realizar muitas obras e votar com o governo. Enquanto, numa ocasião, votei contra o governo, apesar de eles fazerem apelo na Reforma do Judiciário. E fui contra o caso dos cartórios e votei contra por convicção.

LOU: O caso dos cartórios era aquela pouca vergonha de serem hereditários?
LYGIA: Era. Os cartórios eram hereditários. E eu, aqui do Rio, na Constituição da Guanabara, votei a favor da emenda que acabava com esse privilégio. A mensagem do Governo da Arena, incluindo isso, me obrigou a votar contra e ser coerente.

JÂNIO NÃO RENUNCIOU

LOU: Você estava me dizendo que Jânio Quadros não renunciou, que foi deposto. Você acha que ele foi deposto, por causa da reforma política que ele queria fazer?
LYGIA: Está tudo no meu discurso. Está nos anais da época. Ninguém desmentiu. Ele foi deposto pelo General Cordeiro de Farias. Os dois ministros, Pedroso Horta e Afonso Arinos, entraram num acordo e ele, aí, teve que ir frente às câmeras e ler um documento.
O povo todo viu, quando ele foi levado para Cumbicas, com dois soldados, de fuzil em punho, ao lado do carro. Então, ele não saiu espontaneamente. Quando nós mandamos o trabalho da reforma pra ele, ele telefonou, dizendo: "magnífico!". Aí eu fiquei aguardando. Não sabia quando ele iria fazer a reforma. Acontece que o Carlos Lacerda precisou ir a Brasília. Ele era o Governador do Estado da Guanabara; ele foi eleito em 60.

A Tribuna da Imprensa começou a fracassar porque o Carlos Lacerda deixou a direção com o filho dele, um rapaz inteligente, mas não era experiente, não era um jornalista como era o Carlos.
Então, ele foi falar com o Jânio que a Tribuna estava falindo. E o Jânio disse a ele que isso era uma gota d'água no oceano, porque isso não era nada, perto do que ele tinha que fazer e não podia. Então, em dado momento, o Jânio disse para o Carlos: "A gente só pode legislar e fazer alguma coisa aqui se fechar o Congresso. Tem que haver uma mudança política pra se fazer essa reforma, caso contrário, não se consegue nada. Não se vota nada em benefício do povo".E, no fim da conversa, quando o Carlos perguntou "onde que eu vou dormir?" O Jânio disse assim:"O Hotel Nacional já está com reserva pra você".

Consta, eu não posso provar isto, que Carlos Lacerda não gostou de não permanecer no Palácio, de ter que ir pra um hotel. Mais tarde, o Ministro Pedroso Horta foi procurá-lo no hotel para dar uma satisfação. E o Carlos Lacerda falou para o Pedroso Horta, que não gostou de ser recebido assim e voltou para o Rio.

De madrugada, Carlos Lacerda entrou no ar, declarando que o Jânio ia fechar o Congresso. E, aí, então o General Cordeiro de Farias, naturalmente, foi acionado, eu calculo, também.
Não posso provar. Mas eu pergunto: como é que às 2 horas da madrugada, o General Cordeiro toma conhecimento e, no mesmo dia, logo, de manhã cedo, chega a Brasília de avião, reúne os três ministros militares do Jânio e vai ao Palácio e pergunta ao Jânio: "O senhor vai fechar o Congresso?"
E o Jânio: "General, o senhor está preso".
Aí o General Cordeiro de Farias virou-se para ele, na frente dos três ministros militares, e disse:
"E o senhor está deposto"!
Aí, o Jânio perguntou aos ministros:
"Eu estou deposto, ou ele está preso?"
E os ministros abaixaram a cabeça.

Para essa é a história que estou contando, não tenho prova. Mas conversei com o Jânio.
E fui dentro do navio, quando ele voltava, porque, na ida, eu não pude entrar. Conforme todo mundo sabe, o navio ficou em alto-mar.

Esperei. Mandei meu discurso, dizendo que ele foi deposto, mas não tive resposta. Quando eu soube que ele estava voltando, fui vê-lo. Entrei com um coronel e o meu primo, Decio Lessa Bastos.
Jânio me abraçou e disse :"Lygia Lessa Bastos, não adianta você dizer que eu fui deposto! Porque eu li na televisão, em frente às câmeras, que eu estava renunciando pra evitar um mal maior. Você assistiu tudo pela televisão. Eu li o seu discurso, mas não posso dizer nada."

NOIVADO DESFEITO

LOU: E, agora, falando de amor: você teve algum namorado, foi apaixonada por alguém?
LYGIA: Não, eu não fui apaixonada não. Mas, na minha juventude eu gostava de um rapaz, admirava, tinha muita afinidade com ele, mas não me apaixonei, porque isso eu pude ver com o tempo.

Quando a pessoa está apaixonada, fica um pouco cega no raciocínio. Ele, naturalmente, antes de me conhecer, mais moço, andou frequentando determinados lugares e acabou tendo uma filha. Quando a moça soube que eu ia me casar, que eu estava noiva, foi levar essa menina para eu criar. Ele estava no Paraná, organizando a casa para o nosso casamento e eu ia morar lá. Quando ele chegou, eu disse a ele que a moça tinha me procurado, com uma menina, e ele disse assim: "Ela é uma vagabunda!". Quando ele disse que era uma vagabunda, eu acho que, aí, foi o negócio da mulher, a defesa da mulher... ela é a vagabunda e ele é o homem. Quer dizer... aquilo me chocou de tal forma que eu acho que não era apaixonada. Entendeu? Ali, naquele instante, me decepcionei.

BRIZOLA E OS CIEPS

LOU: Você passou a ser Brizolista?
LYGIA: Eu também não gostava do Brizola. Acontece que no período que ele ganhou da Sandra, de 82 até a segunda eleição dele, ele criou os Cieps.
E é o seguinte: Quando o Lacerda foi governador, eu fui a ele e disse: "Lacerda, preciso que você faça os Cieps, não com esse nome, mas seriam escolas profissionais em que a criança ficaria 6 horas, no mínimo, pra ter continuidade e escolher uma profissão.".

O Carlos não pôde me atender. Ele disse:
"Não, Lygia, eu não posso fazer isso, porque isso vai levar 10, 15 anos pra consertar e eu quero ganhar essa eleição e fazer meu sucessor. Com a verba que eu tenho eu vou construir o Túnel Rebouças". Não ganhou a eleição. Não fez o sucessor.

No governo do Carlos Lacerda, o Flexa Ribeiro me convidou para ser Secretária de Educação. Não aceitei, porque era contra o regime de três turnos. O Carlos Lacerda, pra poder matricular o maior número de crianças e acabar com as filas, diminuiu o número de horas e criou os três turnos e eu condenava isso.
Fiquei coerente e fiz um discurso contra. E disse: "Eu não posso aceitar."
_ "Mas você merece sair com uma melhor aposentadoria." Ele argumentou
- "Mas eu não posso fazer isso, vou me desmoralizar perante as minhas colegas. E ão aceitei.

LOU: Você chegou a defender os Cieps...
LYGIA: O Brizola atendeu ao pedido do Darcy Ribeiro pra fazer os Cieps; eu fiquei admiradora dele. Eu vi um artigo de um deputado, em que ele falava mal dos Cieps, atacava uma porção de gente e, então, eu resolvi escrever uma carta para o jornal, dizendo que eu felicitava o Darcy e o Brizola e assinei. E saiu publicado.

Aí, o Brizola descobriu e mandou a secretária, Iracema, não sei o sobrenome, me telefonar. Ele me disse: "Dona Lygia, eu quero dizer que se fosse a Sandra Cavalcanti, eu não ligaria, mesmo ela tendo me defendido.
Mas para a senhora, estou ligando porque a senhora faz uma oposição construtiva, não ataca as pessoas por trás, a senhora luta de frente, e eu a admiro muito". E eu disse: "Obrigada, mas penso assim mesmo.

Tempos depois, tentei marcar uma audiência com ele, porque queria preveni-lo contra o Marcelo Alencar. Eu estava sentindo uma coisa esquisita pelo ar e quis avisar, porque o Brizola veio do exílio... ele não sabia o que tinha havido antes, aqui no Rio.

LOU: E o que tinha havido?
LYGIA: Houve um desfalque na Metropolitana, aqui no Rio. Essa firma faliu, teve um desfalque e iam em cima dos diretores. Aí, o Marcelo com os dois irmãos, Mário e o Maurício, fugiram para os Estados Unidos. E eu sabia de coisas também dos filhos dele. O que um filho estava fazendo no Banerj e outras coisas mais, por ai afora, e eu queria prevenir que ele iria trair o Brizola. Eu quis avisar, frente a frente, assim como estou com você. Não, por telefone, nem mandar recado.

Acontece que ele estava no Uruguai, nessa época, e os chefes dos gabinetes não deviam simpatizar comigo, possivelmente, porque, só depois de quatro meses, ligaram para mim, marcando. A í eu disse: "Não. Agora pode suspender. Eu agradeço muito, mas não vou. Não quero mais ir. Não há necessidade, nem para eu lhe agradecer pela ligação telefônica. O mal já estava feito.

LOU: O Lula ia ser vice do Brizola?
LYGIA: O Brizola era candidato e convidou o Lula pra vice-presidente. E se nessa eleição, que eu votei no Brizola, se o Lula tivesse aceitado, ele ganharia do Collor, e talvez o Brasil não estivesse nessa situação. Pode acreditar. Eu sei que muita gente discorda, mas, estou convencida de que ele é um nacionalista, ele é coerente, ele é respeitador e não é corrupto.

Nessa última eleição, eu anulei meu voto.
Votei, no primeiro turno, no Ciro Gomes e me arrependi, amargamente logo em seguida, porque o Ciro Gomes fazia propaganda dizendo "Querem atear fogo no país? Votem no Lula!". E, logo em seguida, quando o Serra e Lula ficaram no segundo turno, ele foi pra televisão pedir pra votarem no Lula.

LOU: Pra atear fogo no país?
LYGIA: Pois é, queria...E, agora, é ministro do Lula. Ele podia ter dito:"Agradeço os votos que recebi e que cada um agora faça o que quiser". Não! Ele pediu voto. Então isso é decepcionante, realmente foi até bom ele não ter sido eleito.

Entre o Lula e o Serra eu votaria no Serra. Não votei no Serra, porque seria um aval ao Fernando Henrique, que fez muito mal ao país. Ele enganou o povo,no primeiro governo, porque ele sabia que não ia aguentar.
O Brizola foi o único que dizia isso, que era o que eu pensava também, que aquilo era falso, que não ia vingar. Mas eles conseguiram tirar tanto dinheiro do americano e de outros lugares pra aguentar aquele equilíbrio do dólar com o real e que até hoje existe, porque o Lula não mudou nada. O Fernando Henrique até hoje é o presidente, com ironias e sarcasmo.

LOU: Você tá dizendo que o Fernando Henrique até hoje é o Presidente da República?
LYGIA: Pois é! O Presidente da República é ele, né? E tanto é que o programa todo, todos os projetos dele estão em tramitação. Não é verdade? E o aumento de 1%?

LOU: É uma continuidade?
LYGIA: É uma continuidade, porque se, ao menos, melhorassem um pouco, se tivessem projetos já prontos... Eles não tiveram tempo? Não acreditaram na vitória? A mídia preparou tudo. Foram 20 anos!...

LOU: Depois de tanto tempo dedicada à política, o que você está fazendo agora?
LYGIA: Maria de Lourdes, desde 82, quando eu saí, comecei a gravar as minhas memórias.
Eu vou gravando aos poucos. Eu pensei que tivesse terminado. Mas como eu estou vivendo, a cada acontecimento eu dou minha opinião, faço os meus registros. E, ontem mesmo, gravei um pouquinho da nossa conversa. Vou sempre ao "Westfalia" ver a Edwiges cantar, que é uma cantora da noite e que eu estou estimulando. Ela vai fazer agora o primeiro CD dela. Vou muito ao Antonino, onde a Neli Belo, organiza torneios. É uma cantoria. Se você for jantar no Antonino, recebe um papel pra você dar nota aos cantores que vão disputar o primeiro lugar. Aí, eles dizem quem é o primeiro colocado no show final.

LOU: Em que dia é o show?
LYGIA: Toda segunda-feira, lá no Antonino, na Lagoa. E vou muito a teatro e a show, porque a Gina Teixeira (eu chamo de Gygy, pois quando ela fazia Teatro de Revistas era Lady Gygy) é atriz. Ela recebe convites e me convida. É diretora de teatro e eu participei das oficinas de lazer que ela ministrou no Senac Copacabana, nos Encontros da Terceira Idade, em 2001 e 2002.
Foi pena que o "Projeto Envelhecendo com Qualidade de Vida" acabou.

Na foto, A Gygy é a de cabelo comprido, preto, no centro. Estou do lado, segurando umas flores e a Edith Corrêa, que tem 90 anos, é a que está de vestido vermelho.

A Gygy passa na minha casa, me apanha, depois vai me levar de volta. Você já a conhece pessoalmente. Vale a pena entrevistá-la; ela tem uma vida muito rica.

LOU: Ela é uma simpatia e nós conversamos muito. Vou combinar uma entrevista com ela.
LYGIA: A Edith vai ao Westfalia, vai ao Antonino, e vamos ao Panorama, que é um hotel, lá na João Lyra. Lá no último andar, tem a vista mais linda do Rio, da parte da Zona Sul. Ali também tem show. Todos os domingos, os amadores vão lá cantar.

LOU: Quer dizer que você não para. Você vive em atividade.
LYGIA: Eu também sou sócia do Salão de Poesia, ali na praia de Botafogo, que
a Lúcia Regina de Lucena é presidente .
E queria te dizer, também, que eu morei na Rua General Polidoro, em Botafogo, onde vivi 60 anos. Foi sempre o meu escritório eleitoral. Eu não tinha salas na época. Minha casa é que era meu escritório. Agora, o Leonardo Franco, que casou com a atriz Claudia Lyra, comprou a casa e eles vão transformar num teatro.

LOU: Pra mim é um prêmio estar conversando com você.
LYGIA: Pra mim é um prazer enorme, porque conheci a sua mãe, Magdalena Léa.
Eu já comecei a ler o romance dela. Ela conversava muito com a minha mãe e
com meu pai nas campanhas.
Quando vocês me viram pensaram até que eu tinha morrido, porque muita gente diz assim: "Ah! Eu acho que a LYGIA já morreu". Claro. Eu sou proibida de aparecer na mídia, por causa do Parque Lage. Você conhece essa história?

LOU: Não. Mas hoje eu vou sair daqui carregadinha de informações históricas.
LYGIA: O Roberto Marinho pediu ao Carlos Lacerda, quando era governador, em 1960, que ele cedesse o Parque Lage. Quando eu ouvi falar sobre isso na reunião, pedi a palavra e disse que não era possível ceder o Parque Laje, porque tinha que se construir ali uma escola.

Eu lembrei o caso do morro do Pão de Açúcar, do Bondinho, que foi um contrato que fizeram e que o Estado só perdia. Tinha que ser reajustado e muito. E a família não saía e aquilo era perpétuo. É feito a história dos cartórios... (risos).

Então, o Carlos foi ao Roberto Marinho e disse: "A Lygia vai falar na Tribuna, vai
denunciar..." e o Carlos queria ser Presidente da República e não queria um rompimento com o partido, alguém do partido, como eu, ou outro qualquer que fosse atacá-lo, mostrando que ele estaria errado.

O Carlos avisou que não podia ceder, porque eu estava com a razão. Eu não estava pedindo pra mim, nem pra nenhum conhecido meu. Era pra uma escola. E acabou sendo uma escola industrial.

VINGANÇA DA REDE GLOBO

LOU: O Roberto Marinho ficou com raiva de você?
LYGIA: Ele ficou com raiva e proibiu que meu nome saísse nos jornais. Porque eu fui escolhida entre as "10 Mulheres do Ano" que muito trabalharam pela integração da mulher no processo de desenvolvimento sóciopolítico do país. A Bibi era pra fazer a entrevista com as dez mulheres. "As Dez Mais". E eu fui a política escolhida.

LOU: Você veio de Brasília pra dar a entrevista?
LYGIA: Vim de Brasília! Fui para o atelier do Hugo Rocha, que era o meu costureiro, me vesti toda... Chegaram as máquinas da Tv Globo, aquela aparelhagem toda, porque dei o endereço de lá. E aí começaram a me fotografar de todo jeito. Eu mexendo num fichário, eu falando no telefone.
E depois disseram: "Bom, agora a senhora senta aqui neste sofá e faz de conta que a Bibi está lhe entrevistando, porque nós já filmamos a Bibi. E as perguntas eu vou fazer à senhora, lá atrás. A senhora responde, olhando, como se estivesse falando com a Bibi". Muito bem. Sentei. Aí ele começou: "O que a senhora acha da Sônia Braga?"
Achei aquilo esquisito, mas respondi : "Sônia Braga é uma atriz interessante, bonita, mas ela não é política! Não conheço a vida dela. E como atriz não é das minhas preferidas. Eu gosto mais da Fernanda Montenegro, da Nathália Timberg. Gostava mais da Cacilda Becker, que eu conheci antes, da Tônia Carrero"... Fui falando.

Ele continuou perguntando:
"O que a senhora acha: o homem é mais inteligente que a mulher?". Eu achei umas bobagens... Mas, de qualquer maneira, eu respondia tudo.
A entrevista durou não sei quanto tempo. Mas foram só quatro ou cinco perguntas. Sobre educação só me fizeram uma pergunta e mais nada! E eu era técnica nesse assunto.
Pois bem, no dia seguinte, eu sento pra assistir com o meu pessoal e apareceram oito mulheres.

Eu fui cortada e foi cortada também uma moça, pra não se pensar que tinham cortado só o meu nome, eles tiraram a outra também.
Faz de conta que nós duas não viemos de Brasília para o Rio pra dar a entrevista. Então, fiquei cismada e fiquei indagando, até que conheci um rapaz, amigo do Hugo Rocha, que me contou que foi ordem de cima pra me cortar.

LOU: E essa ordem foi dada por quem?
LYGIA: Bom, ordem de cima! Não posso dizer que era do Roberto, mas houve ordem de cima e coincidia com o caso...
Estou contando isso, para explicar porque o meu nome foi cortado dos jornais. Na hora do Brasil, ouvia-se todo dia que eu atuava, que eu trabalhava todos os dias. Mas só em Brasília que saía. No Correio Brasiliense, na Tribuna da Imprensa davam umas notas. Mas não saía no Globo nem naqueles ligados... A censura vinha por parte deles. A mídia, que já estava se formando, era cada vez mais forte.
E foi por causa do Parque Lage. Eu não tenho a menor dúvida, porque o Carlos era muito franco. Ele disse: "Ih, Lygia, ele ficou aborrecidíssimo comigo e já tem um mês que ele não me procura".
Depois eles fizeram as pazes. Mas comigo, ele me marcou. Porque fui eu a causa de não ceder aquele terreno enorme que seria uma beleza para Globo, já que eles haviam construído um prédio ao lado, aguardando a cessão.
E a Globo se expandiu cada vez mais...A Globo, fez o Extra, depois parece que tem 49% das ações do Jornal do Brasil, tem de "O Dia", só não tem da "Tribuna da Imprensa". Qualquer dia, quando o Hélio Fernandes não quiser mais, é bem capaz de a Globo tomar conta e ficar absoluta.

SEMPRE EM DEFESA DA MULHER

LOU: Você conseguiu vencer uma tremenda barreira pra a entrada da primeira mulher na Academia Brasileira de Letras, a Raquel de Queiroz. Conta como foi que você conseguiu desmontar aquele "Clube do Bolinha".
LYGIA: Eu já estava na Câmara dos Deputados e, quando eu cheguei lá, eu já tinha essa intenção, porque o Austregésilo determinava que mulher não entrava. Ele era o Presidente, e ele era perpétuo. Então eu fiz um projeto de lei, na qual a instituição que não permitisse o ingresso de mulher, ficasse proibida de receber subvenção ou auxílio do governo.

E logo após, ele permitiu a eleição. E a Raquel foi a primeira eleita. Depois, foi a Diná Silveira. Outras já entraram. E foi o que deu certo. Não que tivesse passado, que fosse lei.
Bastou que eu apresentasse o projeto e logo o texto fosse publicado no Jornal de Brasília e que desse na Hora do Brasil; aqui só saiu na Tribuna da Imprensa. O Globo acabou cedendo.

LOU: Quer dizer que a palavra mágica foi subvenção?
LYGIA: E auxílio, porque a Academia recebia as duas coisas.

LOU: Você também lutou e conseguiu fazer uma lei para que as mulheres professoras se aposentassem com 25 anos de magistério.
LYGIA: É porque eu acho que a mulher tem o trabalho duplo. Se é professora, ela está atendendo a uma classe de no mínimo 40 alunos, cada um de família diferente. Então, eu fiz a lei que assegurava aposentadoria aos membros do magistério que completassem 25 anos de serviço, porque antigamente era trinta pra mulher e 35 pra homem. Então, eu dava 25 anos para as que trabalhassem em turma, não àquelas que estivessem desviadas pra gabinete. Não queria legislar pra mim. Eu tinha sido desviada da turma de alunos para área de Educação Física.

Depois disso, eu estendi este benefício para as taquígrafas, porque quase todas estavam acabando no Pinel, depois de 25 anos de serviço. E, também, para as atendentes e enfermeiras que lidam com doentes durante 25 anos. É um desgaste muito grande, porque elas são também donas de casa.
É o tal negócio: a mulher é que é a responsável pelo lar. Então ela é sacrificada. Ela precisa de uma lei especial. Não é favor nenhum. Ela tem essa dupla jornada. O homem pode ajudar, sim! Ultimamente, eles estão compreendendo e muitos estão ajudando, mas não era assim. Antigamente, ele era o rei da casa.

PROFISSÃO: ARTISTA

LOU: Quando você fala sobre essas vitórias, seus olhos brilham como se tivesse vinte anos. Também o reconhecimento da profissão de artista foi você quem conseguiu?
LYGIA: Porque artista não tinha profissão. E quando elas viajavam, constava dona de casa ou prostituta. Isso era um absurdo.
A Wanda Lacerda, que era presidente do Sindicato dos Artistas, me procurou e falou: "Lygia, vamos ver se conseguimos uma entrevista com Arnaldo Prieto, o Ministro do Trabalho, naquela ocasião, porque a mensagem, dependia daquele setor .

Então a Wanda viajou pra lá, fomos juntas ao Ministro do Trabalho. E disse ao presidente Geisel que eu estava muito interessada nisso. O Geisel mandou fazer a mensagem na mesma hora. Eu levei em mão ao Presidente da Câmara. Foi aprovada e é lei. As artistas conseguiram isso, por intermédio da Wanda, que foi quem me pediu.

LOU: Você conseguiu aprovação de muitas leis resultantes de projetos seus, cite algumas.
LYGIA: Eu sempre defendi a mulher e abri caminho. A Lei que criou o "Banco do Leite Materno" é de minha autoria. As crianças estavam morrendo por falta de leite. No entanto eu sabia que várias internadas lá, que tinham crianças na Pró-Mater, nesses lugares todos, jogavam até fora o leite. Então, eu criei o Banco. Infelizmente ele nunca funcionou num prédio próprio, sempre foi emprestado.
E o Selo de Cooperação Popular de R$ 0,50, que você pagava antigamente para ir a um teatro, a um cinema, ao Jóquei Club, era para a construção do Hospital do Câncer, que foi construído.

O FIM - OS VEREADORES

LOU: E a sua reforma política, encomendada pelo Jânio Quadros?
LYGIA: É verdade, nem cheguei a lhe dizer o bem que ia fazer ao Brasil. Já existia o administrador regional, não precisavam de vereadores. Você sabe que a economia seria tão grande que, naquela época, em 5 anos, a dívida externa estaria paga?

LOU: Na sua Reforma Política você pretendia acabar com os vereadores?
LYGIA: É, em cada bairro, quem fosse escolhido, poderia ser um gari, um carteiro. Essa pessoa escolhida iria duas vezes por semana, debater o assunto com os moradores do bairro e faria um relatório que seria entregue ao prefeito.
Seriam funcionários que recebessem uma gratificação. Não devia ser por indicação de político. Hoje, são mais de 1500 municípios...

LOU: Seria mais representativo...
LYGIA: E econômico, porque uma Câmara de Vereadores, além de dar despesa com aquele número excessivo de vereadores, também gasta com funcionários e assessores.
No meu tempo, em 1947, não havia isso; eram os próprios funcionários da casa que serviam aos vereadores. Depois do "Trem da Alegria" é que começou esse negócio de ter assessores e etc.

LOU: Agora vai aumentar o número de vereadores. O que você acha disso?
LYGIA: Ué! É o sinal dos tempos. Eu não aguentava mais. De 75, pra cá, fiquei com vergonha de me chamarem de deputada. Então eu dizia: por favor, me chamem de professora, porque eu já tive que sair no escuro de um cinema. E quando aconteceu isso comigo, eu não esqueci e, nem na outra encarnação vou esquecer.

LOU: O que aconteceu?
LYGIA: Eu estava assistindo um filme da Sônia Braga com o Pereio, e lá aparece a Câmara dos Deputados e eles diziam "Ali Babá e os 40 ladrões"...
"E aqui tem um buraco cheio de... " Aquele palavrão de cinco letras, que todo mundo diz no teatro que dá sorte, mas eu não digo, não gosto, porque não fui habituada a ouvir. Então, eu disse: "Minha Nossa Senhora!". Não faziam nem exceção. O negócio era forte em cima da Câmara e dos políticos. Quando acendeu a luz, eu não me levantei, porque eu era muito conhecida e fiquei encabulada que alguém olhasse. Ou algum adversário jogasse uma piada e fiquei sentada. Quando apagou, eu saí.
Fui também uma vez ao teatro de gays, ali em Copacabana, que é um teatro da Brigite Blair, eu queria assistir a Rogéria. Era um musical. Não tinha mais musical. Quando o Walter Pinto acabou, não teve mais. E a Rogéria me viu na platéia, então, tinha um negócio de piada forte de "Ali Babá e os 40 ladrões". Mas ela disse: " Eu abro uma exceção à Lygia Lessa Bastos, aqui presente; essa eu não posso misturar". E eu gostei disso. Mas se ela não me reconhecesse, eu ia sair envergonhada.

LOU: Em 82, você se desligou.
LYGIA: Eu só entrei na eleição de 78 pra 82, pra bater o recorde mundial. Porque a revista "Visão" dizia que, se eu ganhasse a eleição de 78, bateria o recorde da Margareth Schimit, dos Estados Unidos, porque ela foi até a senadora, e tinha sido secretária por duas vezes, tinha se afastado algumas vezes do legislativo.
Mas eu ganharia por mais um mandato, se eu fosse eleita. Aconteceu que papai morreu em 77. Eu estava desanimada, aborrecida com isso tudo e não trabalhei pela minha eleição. Também não tinha cobertura, não era rica... deixei correr. E fui eleita e bati o recorde.

Depois, um americano, numa carta, disse que não entrei no livro, porque eles não consideram o político um profissional. Mas eu fiquei, com sacrifício, até a eleição de 82, quando terminava o meu mandato, no dia 1º de janeiro de 83.

Aí, fiz o seguinte. Fui à tribuna e disse que não ia me candidatar mais. Uma mulher era candidata contra quatro homens ao Governo do Estado do Rio e, como eu sempre abri caminho pra mulher, eu ia votar na Sandra Cavalcanti. Saí e não concorri. Eu não podia votar nela pra Governadora e em mim pra Deputada, porque, naquele tempo o voto era vinculado . Agora não é.
Depois que saí, o Presidente Figueiredo me convidou para ser ministra do Tribunal de Contas da União. Seria a primeira mulher, mas não aceitei.

LOU: Por quê!?
LYGIA: Eu não ia morar lá... minha família toda mora aqui. Eu sozinha lá, não quis. Depois, também, porque se eu não tinha me ajustado bem no Poder Legislativo, onde eu queria fazer as leis pra melhorar certas situações, não só na educação, como em outros setores, o que adiantaria eu estar lá, pra ganhar um dinheirão no Tribunal de Contas pra julgar as contas dos homens, quando eu ia perder, ia ser sempre a minoria? Ia me desgastar pra quê? Pra ser a ministra, pra receber bem? Não é o meu feitio. Estou fora e não sou de partido nenhum, estou afastada.

PERSEGUIÇÃO
E sou muito perseguida. Houve uma exposição no Catete sobre as mulheres que trabalharam e meu retrato não estava lá e nem meu nome constava. Parece que eu não existi na política. Havia lá uma pessoa da esquerda, que disse que eu era "gorila", que eu tinha mandado matar gente na revolução e mais uma série de coisas.
Ela era uma moça de esquerda, era uma comunista fichada, que teve que fugir do país e era alcoólatra, e eu não vou discutir com gente assim! Ameacei processá-la e ela recuou, porque sentiu que eu ia reagir.

LOU: Agora, me fala da sua vida esportiva.
LYGIA: Eu comecei como aluna do Instituto de Educação, jogando nos torneios colegiais. Nós fomos campeãs. Jogávamos contra o Lafayete, que era o mais forte nessa época.
Depois joguei pelo Tijuca Tênis Clube fomos campeãs. Também fui treinadora da equipe feminina do Vasco da Gama, quando meu pai foi diretor da seção masculina, a convite do presidente do Vasco da Gama.

LOU: Em que esporte?
LYGIA: Eu era de Voleibol. O meu pai ficou com o atletismo pra homens e, então, me ajudava na parte das mulheres. E acabamos ganhando do Fluminense. Pela primeira vez o Fluminense perdeu em atletismo. Fizemos, em meses, a seleção das atletas e ganhamos.
Depois eu joguei pela CURJ - Clube Universitário do Rio de Janeiro. Depois inaugurei o Pacaembu, no basquete.
Foi o primeiro time feminino que houve aqui no Rio, organizado pelo Léo Daltro dos Santos, no Tijuca.
Eu era capitã da equipe.
E depois disso, eu dei aulas de Educação Física.

LOU: Sua vida daria um livro...
LYGIA: Noutro dia, reli um livro que saiu das mulheres fluminenses. Meu nome vem pequenininho, não diz quase nada sobre eu ter sido deputada nem que eu fui vereadora; fala muito pouco.
E no esporte, cita outras de 50 e tantos pra cá como se antes nós não tivéssemos existido! Quer dizer, Maria Lenk não existiu? Adelaide Coutinho não existiu? Como é que é isso? Tem que ver! A própria Lígia Cordovil, tantas mulheres apareceram, tantas atletas. A Crisca, a Jane do Fluminense, tantas recordistas sul-americanas. E tênis de mesa, que eu fui campeã carioca? O Jornal dos Sports publicou, eu tenho os recortes. Fui campeã de lance livre em 6 jogos. Isso existiu, no torneio do Jornal dos Sports.

LOU: Memória curta, história curta.
LYGIA: Eu não sei como é que eles estão fazendo pesquisas... Por que não vão ao Jornal dos Sports, pelo menos de 30 pra cá? Como é que eles foram vasculhar as extremistas de esquerda, do ano de mil oitocentos e não sei quando, na história da Rússia e, aqui, do Brasil, não vão saber quem foi a Berta Lutz, a Carlota Queiroz, a Jerônima Mesquita?

LOU: E qual o nome do livro?
LYGIA: "Mulheres do Brasil". Mas, "Mulheres por baixo do pano" é como elas chamam.

HOMENAGEM MERECIDA

LOU: Mas tem uma pessoa que fez uma música pra você, em sua homenagem.
LYGIA: Foi uma das maiores homenagens que eu já recebi, porque eu não era mais deputada. Saí em 82. Essa homenagem foi em 87. A Carolina Cardoso de Menezes, pianista, compositora, fez a valsa, "Lygia". Ela escreveu que a música era em minha homenagem. E a Bidú Reis colocou a letra e depois mandou pra mim.
Então "Lygia" já foi gravada pela Rádio Nacional; Paulo Barcelos gravou, a Ana Carvalho gravou, a Marion Duarte, vários estão cantando. Se você for ao Antonino, você vai ouvir. Se você for à Edwiges, você vai ouvir, porque elas tocam "Lygia". Eu estando lá elas me homenageiam.

LOU: Dá um recado pro site "VelhosAmigos".
LYGIA: O recado é que você está de parabéns, porque você dedica a maior parte da sua vida a informar, a pedir informações. Por exemplo, você quer me divulgar, por quê? Você não tem vantagem alguma! Você é uma pessoa rica por dentro e por fora. A gente olha e vê que você é riquinha, e por dentro você é uma maravilha, porque é uma pessoa que se dedica. Quanto tempo, quantas horas você leva pra fazer uma série de coisas, inclusive com fotografias, e você faz isso! Acho que gosta de gente. Você gosta de servir. Você devia ser política.

LOU: Houve um tempo em que eu pensei nisso. Imaginei fazer uma verdadeira revolução nos costumes. Queria acabar com a hipocrisia, libertar as pessoas do sofrimento,das injustiças. Mas, com a maturidade e vendo toda essa barganha, eu concluí que não conseguiria abrir a boca. E se abrisse, iria aparecer morta na primeira esquina. Sei que não teria condições de mudar nada, a não ser que o Jânio tivesse feito, a tão sonhada "Reforma Política". (risos) Acho que posso ser mais útil, aqui neste Site, sem me meter em política.

Mas, mudando de assunto, quais as são as suas músicas preferidas?
LYGIA:"Bar da Noite", de Bidú Reis e todos os sambas de Marília Batista e
gosto muito de "Ainda Bem", de Fernando César.

LOU: Diz a letra "Ainda Bem" de pra nós?
LYGIA: "Ainda bem que aconteceu de ser você.
Mesmo porque com mais ninguém seria assim.
Eu era treva, você mandou um mundo novo
Somente para mim.
Ainda bem que aconteceu de ser assim.
Igual a Deus você mandou que houvesse luz
E a luz se fez iluminando o mundo meu.
Não leve nunca o seu amor de mim
Não poderia nunca mais amar!
Eu decorei amar você. Não sei mudar."
E tem ainda o samba canção "Amando Azul" que também é do Fernando César e que
você gostou muito. É assim:

Clique na seta pra escutar

"Estou amando azul suspensa no infinito
e tudo é tão bonito que custo a acreditar.
Às vezes passa uma estrela,
para que eu ponha os pés no chão.
Mas eu finjo não vê-la para não
Ter que dizer não.
Sou tão feliz agora vivendo novamente.
Não há comigo outrora,
nem houve antigamente.
As datas do calendário se aprendi, já esqueci.
O mundo só tem história depois de ti."

LOU: Que bonitas! São poesia pura!
Um beijo grande pra você! Muito obrigada! Os nossos "VelhosAmigos" vão ficar felizes de conhecer um pouco mais desta grande mulher, Lygia Maria Lessa Bastos.

Autor(a): Lou Micaldas

 

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