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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

MARIA LENK
publicado em: 04/02/2016 por: Netty Macedo

A MAIOR NADADORA DO BRASIL

Matéria publicada em 27/02/2002

Ela abriu a porta do seu apartamento e nos recebeu de bermuda com um maiô por baixo. Pele bronzeada, olhos azuis brilhantes e um sorriso acolhedor. Com voz firme, falou de suas conquistas e medallhas, na maior simplicidade.

Quando encerramos a gravação da entrevista, ela sugeriu tirar as fotos na Praia do Leblon, bem ali, em frente de sua casa.
É ali que ela também gosta de nadar.

Ela tirou as bermudas, descalçou os sapatos, pegou a touca vermelha e, só de maiô, descalça, saiu porta afora. "Pés descalços, braços nus..." atravessou a rua, com o asfalto escaldante, passos firmes, pisou na areia, que queimava meus pés, apesar de protegida pela sola da sandália. Nem piei. Parou num determinado ponto, onde a vista é mais bonita, e pousou para nossas lentes.
Quando terminamos as fotos, debaixo de um sol de meio-dia, ela tomou o rumo do mar.

Assim é Maria Emma Lenk Zigler, nascida em 15 de janeiro de 1915, filha de Paulo Lenk e de Rosa Lenk, imigrantes alemães que vieram pro Brasil antes da 1ª Guerra Mundial.

Eis a entrevista:

Lou: Onde vocês ficaram morando quando chegaram?
Maria Lenk: Nasci em São Paulo, na Capital.

Lou: Você começou a nadar por um motivo especial. Qual foi?
Maria Lenk: Eu havia crescido rapidamente, tive pneumonia. Uma série de coisas, dessas doenças infantis da época. Enfraquecida e crescido muito rapidamente, meu pai, que era ginasta e desportista, resolveu que eu deveria fazer algum esporte e me levou para a ginástica, mas eu não gostava muito da ginástica. Então, ele me levou para o rio Tietê, para me ensinar a nadar, porque na época não havia piscinas.

Lou: Você parava o trânsito? Não deveria ser comum uma menina pular no Rio Tietê.
Maria Lenk: As pessoas não percebiam isso. Naturalmente meu pai me ensinando a nadar era uma coisa fora do comum, mas isso não quer dizer que chamava muito a atenção das pessoas.

Lou: Seu pai era ginasta. Que tipo de ginástica ele fazia?
Maria Lenk: Ginástica de aparelhos, mas isso era como esporte, porque a profissão dele era funcionário de banco.

Lou: Já havia ginástica de aparelhos naquela época?
Maria Lenk: A ginástica nasceu na Alemanha com Friedrich Jahn, naquela época em que a Alemanha estava em guerra. Jahn usou a ginástica para fortalecer os jovens a serem capazes de enfrentar uma guerra. É uma história muito antiga do século XVIII, que deu início à ginástica, e que eventualmente se pratica até hoje nos jogos olímpicos.

Lou: E eles construíram os aparelhos para isso?
Maria Lenk: Pra tudo isso.

Lou: Foi ele o inventor destes aparelhos?
Maria Lenk: Ele inventou a ginástica que hoje nos jogos olímpicos se usa como ginástica de aparelhos.

Lou: Qual foi e onde foi sua primeira competição?
Maria Lenk: Naquela época, fazia-se competições de natação no Rio Tietê, em São Paulo, e havia pequenas entradas, uma espécie de escavações, feitas nestas reservas, para se praticar natação, imitando uma piscina. A água era limpa, não havia a poluição. E ali aconteciam essas competições, das quais eu participei. Mas a competição mais importante em São Paulo, naquela época, era organizada pela Gazeta Desportista e se chamava "Travessia de São Paulo a Nado". Ia-se para o início do percurso, que era de 7 quilômetros, rio acima, e nadava-se com a correnteza até a Ponte Grande, onde estavam todos aqueles clubes. Essa travessia se realizava, todos os anos, no próprio Rio Tietê.

Lou: Em que ano foi isso?
Maria Lenk: Na década de 30 a 40. Aí, terminou. A gazeta fazia a prova terrestre de São Silvestre, que continua até hoje, e fazia a prova aquática, a "Travessia de São Paulo a Nado", que terminou por causa da poluição do rio.

Lou: Onde ficava a Ponte Grande?
Maria Lenk: Em Santana. No caminho para o centro da cidade, onde passava o rio.

Lou: Você conquistou sete medalhas de ouro em Munique e bateu doze recordes?
Maria Lenk: Você agora está se referindo à Natação de Masters. E a Natação de Masters é uma instituição nova, mas já incluída na Federação Internacional de Natação Amadora, a "FINA", que organiza de dois em dois anos um campeonato mundial de masters. Que vem a ser agrupamentos por faixas etárias das diversas categorias. A partir dos 25 anos, pode ser master, mudando de faixa de cinco em cinco anos. E eu alcancei a faixa de 85, exatamente há dois anos atrás, em Munique. Entrei na nova faixa, e tive a felicidade de vencer sete provas no total. E naquele mesmo ano, eu nadei nas diversas competições anteriores, no total de 20 Recordes Mundiais. Mas é bom dizer que foi na minha faixa etária.

Lou: E antes disso, você já havia conquistado outros prêmios?
Maria Lenk: Quando jovem, eu me destaquei sendo a primeira mulher sul-americana a participar de jogos olímpicos. Isso foi em Los Angeles, em 1932; depois, se realizaram os jogos olímpicos de 1936. Que acontecem de quatro em quatro anos. Em 36 foi em Berlim, onde, então, eu já não era a única mulher brasileira. Aí já havia mais seis outras participando também.

Lou: Você foi a primeira brasileira a quebrar um recorde mundial, nos 200 metros de peito?
Maria LenK: Isto foi em 1939, na expectativa dos próximos jogos olímpicos, que seriam em 1940. Eu quebrei 2 recordes mundiais dos 200 e 400 metros peito, com grandes chances de vencer a prova em 1940. Mas com a 2ª grande Guerra Mundial, estes jogos foram cancelados.

Lou: Quantos anos você tinha nessa época?
Maria Lenk: Eu nasci em 1915, tinha 24 anos.

Lou: É verdade que, quando você foi concorrer em Los Angeles, os atletas tiveram que vender café ou carregar sacos de café no porão do navio e que, entre os atletas, você era a única mulher? Houve isso mesmo?
Maria Lenk: O que aconteceu foi que, na ocasião, havia a Confederação Brasileira do Desporto que queria levar uma equipe brasileira aos Jogos Olímpicos em Los Angeles. Coincidiu também com a grande depressão mundial em que o café perdeu todo o seu valor aquisitivo e era queimado no Brasil. O Presidente era o Getúlio Vargas. Então, quando a Confederação Brasileira do Desporto, se dirigiu ao presidente, pedindo ajuda para mandar a equipe aos jogos olímpicos, ele disse: "Bem, eu posso conseguir um navio para vocês". Era o navio Itaquecê, da Costeira, da Marinha Mercante. É preciso lembrar que não havia outra forma de transporte, não havia avião. E, para que se pudesse pagar as despesas, lá em Los Angeles, o presidente deu o café, que foi colocado no porão do navio, para ser vendido nos Estados Unidos, em vez de queimá-lo.
E o navio levou os atletas, inclusive a mim, a única mulher atleta, mas havia outros passageiros, que também faziam a viagem. E havia outras mulheres também, as mulheres dos próprios atletas, etc. O navio estava cheio de gente. E no porão o tal café.

Lou: Qual a sua rotina de vida, pra você manter essa forma?
Maria Lenk: Eu tenho que agradecer a Deus de gozar saúde naturalmente. Mas eu ajustei o ritmo de minhas atividades diárias, em que pela manhã, eu vou treinar, depois, na volta, eu me dedico à leitura, ou até escrever alguma coisa. Estou tentando escrever um livro sobre envelhecimento, que é o assunto que eu convivo todos os dias. E naturalmente a natureza pede um certo cuidado com a alimentação, com o sono, etc. Procuro atender a natureza como ela pede.

Lou: Qual o seu tipo de alimentação?
Maria Lenk: Alimentação comum. Mais saudável, sem insistir muito em gordura, ou açúcar. Carboidratos fazem parte, mas não vou muito atrás de bolos e doces, naturalmente.

Lou: Quantas horas você costuma ter de sono?
Maria Lenk: Eu durmo o normal de 8 horas de sono. Há pessoas que conseguem viver com menos e outras precisam de mais. Eu estou dentro da grande média de 8 horas.

Lou: Qual vai ser o nome do seu livro, já tem um nome?
Maria Lenk: Eu pretendo dar o título de "Missão Cumprida". Quer dizer que uma pessoa depois de velha, aposentada já cumpriu suas obrigações, "Missão Cumprida". É o momento de aproveitar o nosso tempo.

Lou: Você aproveita sua vida como?
Maria Lenk: Bem, a pessoa tem que se ajustar às circunstâncias, e usar um pouquinho de raciocínio para aproveitar bem o que possui.

Lou: No âmbito familiar, você casou e teve quantos filhos?
Maria Lenk: Dois filhos.

Lou: Eles moram no Brasil?
Maria Lenk: Não. Eles, depois de terminada a adolescência, foram aos Estados Unidos para estudar lá, porque meu marido era americano e insistiu que eles estudassem na América. Acabaram ficando por lá, morando nos Estados Unidos. Os meus dois filhos agora são cinqüentões, tenho uma mulher e um homem.
E o meu filho tem dois filhos que naturalmente passam a ser meus netos e que recém se casaram. Meus netos também foram nadadores, meus filhos também e, agora, depois dos netos casados, eles estão a caminho de terem filhos também.

Lou: Quer dizer que você vai ser bisavó?
Maria Lenk: Se Deus quiser.

Lou: E eles costumam vir ao Brasil?
Maria Lenk: Eles vêm uma vez ou outra. Eu é que em geral, vou lá. Fica mais fácil, eu me locomover do que todo mundo vir de lá para cá.

Lou: E como é essa avó, Maria Lenk , fica derretida com os netos?
Maria Lenk: Naturalmente a gente tem a reação normal perante os filhos e os netos, como todo mundo.

Lou: E o seu marido?
Maria Lenk: Ele faleceu, faz algum tempo.

Lou: Você não quis casar de novo?
Maria Lenk: Ah! Não.

Lou: Você também é professora e fundou uma Universidade?
Maria Lenk: Eu fui professora de educação física, da 1ª turma feminina que se formou no Brasil em educação física. E, por conseguinte, fui convidada, já que eu era um expoente no esporte, a co-fundar a Escola de Educação Física da então Universidade do Brasil, hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E, depois de 32 anos de Magistério, me deram o título de Professora Emérita. Eu era diretora da escola e aposentei-me para gozar a minha velhice.

Lou: Dois brasileiros receberam a maior comenda esportiva do planeta. Que comenda foi essa?
Maria Lenk: Essa é a comenda do Comitê Internacional Olímpico, que no ano passado, me concedeu, juntamente com o famoso Ademar Ferreira dos Santos, que foi o campeão de triplo salto. Nós dois recebemos juntos essa comenda.

Lou: E você é presidente honorária da Associação Brasileira de Master de Natação?
Maria Lenk: Sim, da qual sou co-fundadora, também junto com o Silvio Kelly, o famoso nadador e presidente do Fluminense e, no decorrer dos anos, nós trabalhamos em favor da natação de Master e acabaram me dando o título de presidente honorária.

Lou: E o seu time é?
Maria Lenk: Flamengo. Na juventude, nadei em São Paulo, pelo Clube de Regatas Tietê. Depois que vim para o Rio, a convite do governo para fundar a escola aqui, ingressei no Guanabara, porque o Guanabara era o único clube com piscina olímpica, que me interessava para os jogos olímpicos, e, eventualmente, eu nadei uma temporada também pelo Fluminense, porque eu e o Silvio Kelly fundamos os Nadadores Master que levou todos os masters para o Fluminense. Mas, como eu moro aqui no Leblon, perto do Flamengo, e sou sócia proprietária do Flamengo há muitos e muitos anos, era natural que eu fosse para o Flamengo. E na natação de Master eu defendo as cores do Flamengo. Mas é preciso dizer que eu não sou fanática de clubes; todos os clubes têm o seu valor. A gente pode ter assim uma torcidazinha, mas o futebol não é lá dos esportes que me atrai demais, porque eu vejo algumas coisas que não condizem com meu espírito desportista.

Lou: Antigamente o futebol era uma paixão nacional. Os jogadores faziam esporte por amor à camisa.
Maria Lenk: É, sou da época em que se fazia esporte por puro amadorismo, imposto pelas leis da época . Todos os desportistas eram amadores, praticavam o esporte, sem nenhum patrocínio. Eu disputei em Los Angeles, com um uniforme emprestado, que tive de devolver no final das olimpíadas. Hoje, é tudo profissionalizado, então, é muito diferente do que eu imagino e também, por isso mesmo, esse fanatismo de clubes não me atrai.

Lou: Há quantos anos você freqüenta o Flamengo?
Maria Lenk: Eu entrei nos anos 30, mas nunca tive oportunidade de competir pelo Flamengo.

Lou: Você diariamente vai ao Flamengo?
Maria Lenk: Atualmente sim, vou todos os dias para treinar.

Lou: Que horas você acorda?
Maria Lenk: Às 06:00 h. Nado entre 7:30 e 9:00h, todos os dias.

Lou: Uma hora e meia nadando?
Maria Lenk: Mais ou menos.

Lou: Mas antes você faz alongamento?
Maria Lenk: Eu faço um pouco de ginástica, naturalmente o aquecimento e, depois, os meus treinos habituais que demoram um pouco mais, ou um pouco menos, dependendo da circunstância.

Lou: Você já escreveu outros livros?
Maria Lenk: Escrevi vários. Eles, de uma maneira geral, tratam da natação em si. O primeiro foi o livro chamado "Natação" , em 1942, e curiosamente eu só pude publicar depois de me retirar da competição. Porque naquela época as leis amadoristas eram tão rigorosas que até escrevendo um livro tornaria o atleta profissional e perderia a sua habilidade de competir. Esse livro ficou na história porque foi o primeiro livro em português sobre natação e muitas coisas, estão perfeitamente válidas porque fala de uma generalidade, da parte histórica da natação, salvamento e ensino da natação ao principiante e depois, a análise dos vários estilos, que eram um pouco diferente da época, mas válidos até hoje.

Lou: Você que lançou o estilo borboleta?
Maria Lenk: Exato. Eu fui a 1ª mulher do mundo a nadar o nado borboleta e sou recordista mundial dos 50 metros borboleta, na categoria até 80 anos.

Lou: Foi você que inventou este estilo?
Maria Lenk: Não. Foi um homem americano que nadou em primeiro lugar, e eu soube através de leitura de revistas especializadas e experimentei também aquele novo estilo.
Nós nos encontramos nos jogos olímpicos de Berlim em 1936, ele sendo o único homem nadando borboleta e eu a única mulher.

Lou: Eu queria que você mandasse um recado. Porque nosso site é para pessoas maduras, e o amadurecimento para cada um começa numa faixa de idade. Muita gente quando começa a envelhecer, sente depressão, medo da velhice, achando que o mundo vai acabar, que velhice é sinônimo de doença. E você é uma prova de que nada disso é verdade. Então, quando eu tenho a sorte de entrevistar uma pessoa como você, geralmente eu termino minha entrevista, pedindo que mande um recado.
Maria Lenk: O recado é o de enfrentar a velhice com otimismo, como eu disse é missão cumprida. Agora, a gente pode receber a volta do esforço, é aquele momento de descansar e não ter obrigações prementes, com horas marcadas, aproveitar bem isto! Mas deve-se evitar a preguiça, porque entregando-se à preguiça sem atividade física, naturalmente há uma decadência muito mais rápida, portanto é preciso, dentro dos limites relativamente restritos da velhice, sempre tratar de fazer exercícios, de levar uma vida saudável para procurar prolongar a independência que a gente quer. É possível que a gente chegue a um ponto, que vá precisar dos outros, mas podendo postergar esse ponto é melhor, tanto para os familiares que terão que cuidar da pessoa envelhecida, como a própria pessoa que gosta de ter suas atividades independentes.

Lou: Muito obrigada pela sua entrevista. Parabéns pra você, pelos seus 87 anos, tão ricos de vitórias e tão simples na sua maneira de contá-las, característa marcante das grandes personalidades; aquelas que ficam pra sempre na história.

Maria Lenk - 1915/2007

Com a colaboração de Eurico Dubeux

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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