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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

MARINA QUINTANILHA MARTINEZ
publicado em: 04/02/2016 por: Netty Macedo

Marina Quintanilha e seu
aluno Lázaro dos Santos

"Nós temos a marca da transcendência,
nós queremos além,
nós queremos transgredir, sair dos limites, ir atrás
do arco-íris buscar o
pote de moedas de ouro"...

Tocamos a campainha. É ela quem abre a porta, prontamente, usando um confortável vestidinho de listras azuis. Os pés descalços, bem à vontade. No som da sala ouve-se Gershwin, que ela adora.

A mesa de jantar está posta para três. Mal chegamos e ela dispara setecentas e quarenta e sete informações por minuto. Fala sobre a virada de ano com o Léo, a namorada dele e mais quatro amigos, fala sobre o livro do Nelsinho Motta que a acompanhou - deixando-a apaixonada! - no último final de semana que passou na casa da amiga Mariza, em Búzios...

Enquanto isso, beberica uma cervejinha bem gelada. A moça em questão, é formada em Pedagogia e Jornalismo, mãe de dois filhos, e mais: é avó do Léo citado acima e de mais seis netos! Ela tem 72 anos e uma vitalidade invejável.

É uma mulher sem data na certidão de nascimento, atemporal, capaz de se relacionar com qualquer pessoa de qualquer idade e ser compreendida, respeitada e amada logo de cara.

Sua formação escolar se deu no Instituto de Educação, numa época em que a Instituição representava o plano de amostra de uma educação nacional. Entrou aos quatro anos de idade e saiu professora:

- "Até hoje, acho que não se pensou no Brasil, num projeto como o que eu vivi na escola, que era chamada "escola nova", de Anísio Teixeira, pois quem fala em educação brasileira, fala em Anísio. Eu fui uma cobaia da "escola nova". Minha escola primária foi da melhor qualidade, com uma excelente biblioteca, e eu sinto, que o que eu sou hoje, a minha matriz, foi realmente aquele grande começo".

Com 18 anos incompletos, começou a dar aulas. Acredita ter nascido para ser educadora, pra lidar com o público, e se orgulha de estar ainda com a "mão na massa". Formou-se pedagoga, e voltou ao Instituto, desta vez, para dar aula. Foi professora do Jardim de Infância, depois primário, até o curso Normal.

Foram 28 anos naquela "casa", como ela mesma carinhosamente se refere. Entristece-se ao passar por lá, e constatar que a escola se transformou no retrato vivo da degradação da educação brasileira.

Em 68, as meninas, aliás, os adolescentes em geral, eram muito politizados, e o Instituto, com uma formação muito direitista, conservadora, a colocava entre um fogo cruzado, porque a cabeça pendia muito mais para o lado das meninas do que para o lado da própria Instituição.

Apresentava-se uma ideologia vigente com a qual Marina discordava.

- "Minhas alunas queriam pular o muro para ir às passeatas, e eu tinha que puxar o freio, mas eu sabia que se fosse uma delas, estaria fazendo a mesma coisa. O que a gente advertia era o fato de não se deixar ser "bucha pra canhão", que elas se defendessem."

Deu aula até 1970, e em 71 resolveu tirar licença prêmio:

- "Não! Eu vou tomar outro rumo na minha vida!"

Marina decide procurar o curso da Escolinha de Arte do Brasil. Logo no primeiro dia, quando o Professor Augusto Rodrigues perguntou por que cada um estava ali, respondeu que estava "de mal com a educação", que estava em conflito, em busca de novos caminhos.

O tempo foi passando, eles ficando muito amigos e um dia ele perguntou:

- "Como é? Fez as pazes com a educação?"

Marina respondeu:

- "Aquele modelito eu não quero nunca mais!"

- "A Escolinha de Arte do Brasil e o convívio com Augusto, foram um marco. Era realmente a hora em que eu precisava reajustar as ferramentas pra trabalhar. Esse modelito docente, exigindo o respeito de um currículo, uma rotina de notas, avaliações, não combina comigo. Acho fantástico dar aula cada hora para um público, cada hora num lugar, porque me sinto incrivelmente enriquecida".

Foi trabalhar na Biblioteca de Copacabana, exatamente com a área infantil. Aposentou-se em 76, e curtiu um pouco do seu "ócio burguês".

"As pessoas perguntavam: - E aí? Está trabalhando em quê?

E eu respondia: - No projeto Marina.

- Onde é?

O "projeto Marina" era ficar na minha, fazer o que desse na telha, mas evidentemente que isso não durou muito tempo porque a gente tem que encontrar o sentido na vida".

Em uma ligação para a amiga Laura Sandroni ofereceu-se como contadora de histórias... Como voluntária, coordenou as atividades da Biblioteca, sempre trabalhando com crianças e livros. Essa acabou sendo sua área de atuação: promoção de livros, leitura.

Adora ler. A leitura é a atividade intelectual que mais admira. Faz parte de uma comissão julgadora que recebe os melhores livros da safra anual. Recebe aproximadamente 600 livros por ano.

Quando menina teve uma poesia publicada em uma revista, mas ficou muito invocada, porque seu pai só faltava pisar no pé das pessoas na rua pra dizer: - "Tá vendo? Minha filha faz poesia".

Tomou horror e parou de escrever, mas sem nunca abandonar os livros.

Nos anos 70, fez terapia. Tanto remexeu em seus "acervos pessoais", que toda sua capacidade criativa aflorou. Voltou a produzir.

Atualmente, planeja relatar sua experiência de promoção da leitura e dinâmica de bibliotecas, dizendo ser uma "dívida" consigo mesma.

Ela se relaciona com todas as pessoas por pura afinidade. Não importa a idade. Tem amigos dos 6 anos aos 90 anos. Seus alunos vão desde o Jardim de Infância até o Instituto de Gerontologia da Faculdade Cândido Mendes, onde fez algumas Oficinas e alguns grandes amigos entre seus alunos.

Procura estimular a leitura e incentivar a expressão de cada um em suas Oficinas. Alguns deles freqüentam a Oficina que Marina ministra em casa. Alguns estão há bastante tempo, mas o quadro de alunos sempre se renova.

Reúnem-se sem nenhuma preocupação acadêmica ou teórica, pelo contrário, apenas pelo simples prazer de convívio com o livro e com as pessoas.

Lêem, cada um leva sua emoção, fala sobre o que o livro proporcionou, discutem juntos, e assim fazem viagens de todo tipo: às "As Mil e Uma Noites", à Clarice Lispector, Machado de Assis, Monteiro Lobato, em contos, etc..

Marina propõe um estímulo à expressão escrita como uma atividade voluntária, quem quer escrever, escreve, quem não quer ouve. O encontro é sempre tão gostoso, que a Oficina recebeu carinhosamente de Nely - uma das pioneiras - o nome de "Delícias Matinais" ou "Delícias Vespertinas", porque embora o encontro seja uma vez por semana, os horários são sempre acertados pelo grupo, podendo acontecer de manhã ou a tarde.

O grande projeto de sua vida, era criar uma biblioteca. Marina recebia livros e tinha vontade de fazer alguma coisa com eles. Eram muitos!

Os sócios do Lions Clube, amigos de seu marido, Hugo Martinez Filho, convidaram-na a realizar uma Feira de Livros no Campo de Santana. Recusou.

Marina vislumbrava uma atividade duradoura.
E sem titubear arriscou: "Quero fazer uma Biblioteca! Vocês topam?"

Toparam. Eles ajudavam uma Instituição, dirigida por irmãs de caridade, no centro da cidade, e lá havia uma sala vazia, que lhe foi cedida, por comodato, por quase oito anos.
Aquela sala vazia ficou cheia de livros, virou biblioteca, a Biblioteca Infantil Manoel Lino Costa. Funcionava numa área pobre, de prostituição, com crianças morando em cortiços, estudando em escola pública, alguns até sem escola, meninos de rua, crianças que iam por conta própria. Seus estagiários eram alunos da PUC, gente terminando o segundo grau.

A Biblioteca era uma plataforma de vôo.

As pessoas sensíveis tiveram liberdade e oportunidade para encontrar seus caminhos, sempre conduzidas pelos olhos maternais e incentivadores de Marina.

O sucesso deste trabalho voluntário, levou-a a participar de um projeto na França chamado "Caminhos Alternativos de Promoção da Leitura em Países em Desenvolvimento". indicado pela autora premiadíssima Ana Maria Machado.

A Biblioteca Infantil Manoel Lino Costa teve que ser fechada porque as irmãs resolveram não renovar o comodato.

O acervo da Biblioteca permaneceu guardado em caixas, enquanto Marina acalentava o sonho de que fosse reaberta.

Recebeu a cessão, por dez anos, de uma casa na Avenida Mem de Sá, próxima aos Arcos da Lapa, mas, a casa estava em ruínas. Cem mil dólares seriam necessários para reerguê-la. Sem arranjar os recursos, foi obrigada a devolver a casa e, ainda, a pagar um valor pela devolução.

Neste dia Marina viu todo o seu trabalho se desmoronar. Mas nunca deixou de sonhar, de fazer planos e os livros permaneceram guardados numa Biblioteca do MEC, a espera de uma entidade que merecesse a doação de todo aquele acervo.

Foi então que conheceu a Entidade Santa Clara, dirigida por Eliete e Cícero Rosas, um casal que abandonou suas atividades remuneradas em troca do projeto de gerir uma família na Paraíba do Sul, de 70 membros, formada por crianças carentes de 4 a 20 anos. Eliete Rosas trabalhava na ONG Fundação Nacional do Livro Infantil.

Tempos depois, na medida em que o acaso pode ser considerado acaso, Marina viu Eliete num programa de TV falando sobre o trabalho que vinha sendo realizado na Entidade Santa Clara, já funcionando em Vargem Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Imediatamente pegou o telefone e lhe ofereceu o acervo da Biblioteca Manoel Lino Costa. Eliete aceitou na hora.

O espaço onde funcionaria a nova Biblioteca foi reformado para receber a valiosa doação.

Em 9 de outubro de 2000, foi realizada a inauguração, recebendo carinhosamente o nome de "Sala Marina Quintanilha Martinez".

- "Quando a Biblioteca abre, aparecem meninos de todos os lados, brota menino! Eles são muito ávidos, curiosos".

A Biblioteca foi para o lugar certo. Hoje ela faz parte da vida daquelas crianças que estão descobrindo o prazer da viagem que a leitura proporciona.

Marina é uma mulher extremamente feliz com as realizações de sua vida. É uma guerreira incansável. Quem a conhece afirma nunca tê-la visto com os olhos de desânimo. A imagem de Marina é um olhar cheio de vida, de entusiasmo e um sorriso doce, transmitindo coisas boas.

- "Esse é o grande prazer da minha existência, porque por conta disso, fiz vários amigos. Os chineses dizem que a gente tem mais de mil vidas e mortes. Eu sou sagitariana com ascendente em escorpião, então tenho mudança de "peles", estou sempre me renovando. É preciso ir além! Como diz Leonardo Boff: "o homem é um ser incompleto e desejante". Nós temos a marca da transcendência, nós queremos além, nós queremos transgredir, sair dos limites, ir atrás do arco-íris buscar o pote de moedas de ouro. O consumo não dá isso segundo as pessoas pensam. Todos os dias devemos descobrir prazeres nas coisas que o dinheiro não compra. Isso é ser feliz".

Marina convida:

Se você tem interesse em participar das reuniões literárias "Delícias Matinais", também chamadas "Delícias Vespertinas", ou receber informações sobre outras atividades ligadas à leitura, ligue para Marina: (0xx21)294-3806 (tel/fax). Será uma delícia!

Livros da autora:

"Por uma Questão de Saudade" - Ed. Nova Fronteira
"Casa de Vó é Sempre Domingo" - Ed. Nova Fronteira
"Qualquer Coisa" - Ed. Melhoramentos
"Do Tamanho do Mundo" - Ed. Melhoramentos
"Silvinha Pinta no Tempo" - Ed. LÊ

Autor(a): Vanessa Veiga

 

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