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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

MÁRIO SALADINI
publicado em: 04/02/2016 por: Netty Macedo

 

Matéria publicada em 27/04/2004

Nascimento: 16/05/1915
Falecimento: 09/09/2009

Filho de Raquel e Ercole Enrico Saladini, dois imigrantes italianos, viúvos, que se conheceram e se casaram em São Paulo, em 1914. Em 16 de maio de 1915, nasceu essa personalidade singular, dono de um bom humor contagiante, protagonista de uma vida que parece um filme recheado de lutas, vitórias, muita boemia e molecagem.

Está em "Foco" o famoso "cafajeste" Mario Saladini, que nos conta casos engraçados do "Clube dos Cafajestes", das festas do "Caju-amigo", alguns lances da vida política e passagens comoventes, ao mesmo tempo, hilárias da sua infância. LOU: Mário Saladini, conte-nos tudo sobre você.
MÁRIO: Já nasci boêmio, às duas e meia da madrugada do dia 16 de maio de 1915, em São Paulo. Porém, oficialmente, eu nasci em 1916. Por conta de um erro, consta na minha certidão o ano de 1916.
Fui uma criança muito, tão capeta que tive de ser batizado duas vezes. A primeira vez, foi na igreja Santa Cecília, meses depois de ter nascido, e a segunda, na de São Francisco de Paula. Meus pais disseram: - Este menino tem um capeta no corpo. O primeiro batismo não valeu porque aquela água não devia estar benta... ( risos)LOU: Fale um pouco dessa sua infância "encapetada".
MÁRIO: Minha mãe me batia com colher de pau de fazer polenta, quando eu aprontava alguma peraltice. Certo dia ela reconheceu ter me batido injustamente, mas afirmou categórica: - Você apanhou por conta do que ainda vai fazer! Mas era meiga e me contava histórias engraçadas, muitas inventadas por ela. Meu pai era muito carinhoso e me levava pra passear, pra correr pelos gramados; me levava ao "Circo Piolim" e ria mais do que eu... Meu pai era professor de grego e latim em São Paulo, isso nos idos de 20, e conseguiu com muita luta abrir o colégio, chamado Anita Garibaldi. Ele era Garibaldino. Felizmente tive o prazer de ver a estátua da Anita Garibaldi, na Itália, onde fui por várias vezes.
Comecei o curso primário no Colégio São Vicente de Paula. As freiras, depois de quebrarem muitas ponteiras nas minhas costas, acharam que além de dar muito prejuízo eu devia ser expulso "a bem da disciplina"....

LEMBRANÇA TRISTE

Quando tinha seis anos, vi meu pai sair de casa numa ambulância. Ele teve uma hérnia estrangulada. A porta da ambulância já estava fechada, mas ele pediu pra abrirem novamente: - Quero ver meu filho pela última vez! E me jogou um beijo de adeus. Tive uma vida atribulada por ter perdido meu pai; minha mãe vivia inconsolável com a perda do marido; minha irmã Olga trouxe a mamãe para o Rio, em busca de melhor atendimento médico, e eu tive que ser internado num orfanato.

LOU: Deve ter sido difícil para aquele menino tão levado se submeter ao regime rigoroso de um orfanato.
MÁRIO: Me sentia muito infeliz. Passei fome e frio. Os responsáveis pela disciplina eram maus; batiam na gente com vara de marmelo. Não me conformava com aquela vida, repleta de angústia, longe da minha mãe. Fugi. Fugi do orfanato e fui procurar uma amiga da família, a Dona Elvira, que me acolheu como filho e me devolveu a capacidade de sonhar e de voltar a rir. Foi assim que, aos 12 anos, consegui um emprego na chapelaria Fúlvia Norgante, no Arouche. Foi meu primeiro emprego. Depois fui convidado pra ser telefonista do ponto de táxi, ganhando vinte mil réis e mais as gorjetas. Juntei dinheiro, comprei roupas novas e aos 13 anos, viajei pro Rio de janeiro. Vim me encontrar com minha mãe e minha irmã Olga.
Aqui, fiz concurso pro Colégio Militar do Rio de Janeiro em 1929. Recebi o número 1136 e fiquei interno até 1934, me formando na turma do João Batista de Oliveira Figueiredo.

LOU: A disciplina no Colégio Militar era muito rígida...Você deve ter sofrido um bocado, além de ter dado muito trabalho...
MÁRIO: Eu aprontei muitas bandalheiras com meus colegas... Olha a minha cabeça: o pessoal vinha pro estudo da noite. Ao invés de eu ir também, eu desarrumava a cama dos caras (risos). O Bedel, que era o chefe de disciplina, perguntava quem tinha feito aquilo e eu me apresentava: - Fui eu. Aí pegava mais dez dias de cadeia. Todas as quintas-feiras eu escapava e me mandava para o Mangue. Fiquei sendo o queridinho das prostitutas, por ser um "bom freguês". Até conseguia abatimento! E não perdia o carnaval, porque fugia "escalando" a pedreira da Babilônia... Cheguei a ganhar o título de "comandante da sala de presos pela antigüidade".

LOU: (Risos) Eu adoro essas travessuras! Eu também fugia do Colégio, pelo simples prazer da aventura, pois ia direto pra casa...
MÁRIO: Eu comia feito um louco, hoje eu não como nada. Mas, eu era um glutão e, modéstia à parte, eu era engraçado; eu fazia muita piada, eu gozava muito. Um dia, o comandante Espiridião Rosa, do Colégio Militar, chegou pra mim, virou-se e disse: - Menino, vou te dar um conselho: não vá pra Realengo - a escola militar - porque lá não é circo. Você é muito engraçado, mas é melhor você ir pra outro lugar, porque não tem palhaço em Realengo (lugar onde se formavam os cadetes do exército). Eu disse: - O senhor tem razão, o senhor tem razão, o senhor tem razão ....risos. Eu realmente fazia coisas de louco. Eu era interno e me externaram a bem da disciplina.

LOU: Me fala da sua irmã, a Olga Navarro. Ela foi mesmo muito importante na sua educação, porque você ficou sem mãe e sem pai.
MÁRIO: Ela foi muito boa irmã; ela era minha irmã por parte de mãe. Porque meu pai era viúvo e minha mãe era viúva, e eles se casaram e aí nasci eu _ a perfeição (risos).

LOU: Ela era bem mais velha que você?
MÁRIO: Dez anos.

LOU: Ela te criou como se fosse sua mãe. Com 10 anos só de diferença.
MÁRIO: Era ela quem pagava meu colégio.

LOU: Ela trabalhava em quê?
MÁRIO: Ela era atriz. Primeira intérprete do Sartre Lapiten Respectein, de Jean Paul Sartre. Eu tenho uma admiração pela Olga tremenda. Ela foi casada com o Cabanas, um líder revolucionário da revolução de 1922.

LOU: Você não quis seguir carreira militar porque você se achava endiabrado?
MÁRIO: Não, porque eu sabia que eu só colava e não sabia nada. Era bom colador. Mas o fato de viver sempre preso foi muito útil pra mim, porque aprendi a gostar de ler. Li muitas obras literárias de reconhecido valor pra minha futura profissão de jornalista.
Quando saí, arranjei um emprego na Gazeta de Notícias. Eu era "Foca". Felizmente eu fiz amizade com todos que me ajudaram a fazer plantão. Naquela época se usava, e eu ganhava mais 20 mil réis por cada plantão. Comia no bar automático; era um bar aqui onde a comida, de vez em quando, tava meio azeda. Mas não fazia mal. Meu sonho era ser jornalista.

LOU: Quantos anos você tinha mais ou menos nessa época?
MÁRIO: Nessa época eu já tinha 19, 20 anos. Depois, eu fiz muito esporte. Eu remava de manhã pelo Clube de Regatas Flamengo; dormia lá, remava, ia trabalhar, voltava. Muitas vezes meu café com leite eram os bolinhos da baiana. Eu pedia até pra pagar depois e ela aceitava. O Alziro Zarur era meu colega na Gazeta e criou mais tarde a LBV (Legião da Boa Vontade), e me chamou, num canto e disse: - Mário, isso aqui é um covil. Eu perguntei: - Covil de quê, de cobras?

LOU: Mas onde era o tal covil?
MÁRIO: Na redação do jornal. Então ele disse que ia pedir demissão do jornal, mas que ia falar com o Vladimir Bernardes pra que eu o substituísse, que eu já tava preparado pra ficar no lugar de crítico de rádio e cronista social. O Vladimir era uma alma muito boa, ele era pai do Sérgio Bernardes. Aí me colocou e comecei a trabalhar no jornal. Depois fui pro Diário Carioca. Em função disso eu fiz amizades muito boas.

LOU: Você foi nomeado, aos 22 anos, Inspetor Chefe de Polícia. O que aconteceu que você ficou no cargo tão pouco tempo?
MÁRIO: Aconteceu uma coisa engraçada: tinha um colega meu do jornal que tomava os pileques dele e criticava o governador Amaral Peixoto, interventor. E quando passava o pileque, eu o soltava. Aí, naturalmente, o delegado Ramos de Freitas, que era um excelente delegado e um homem muito responsável, foi ao comandante, o Amaral Peixoto, falar que eu estava atrapalhando o trabalho dele. Aí o Amaral perguntou o que eu tinha contra o Ramos de Freitas.
Eu respondi:
- Nada. Sou admirador dele, excelente delegado.
- Mas ele me disse que prende um maluco e depois você solta.
Eu respondi:
- Comandante, eu tenho 22 anos; se eu não soltar esse jornalista, que é um louco, um débil mental, eu não tenho mais entrada em jornal nenhum. E vou ter a classe jornalística toda contra mim.
E ele: - É, você não dá pra ser polícia não. E me nomeou tesoureiro da Caixa Econômica Federal, em Niterói....

Carta da Casa Branca

LOU: Você foi embaixador também, né?
MÁRIO: Não, fui adido comercial. Embaixador eu fui do samba.

LOU: Ah, fala da Favela Amarela. Explica o que aconteceu com essa favela amarela, que até samba deu, quando você era o Diretor de Turismo e Certames do Antigo Estado da Guanabara.
MÁRIO: (cantando) "Favela amarela, alegria da vida, porque na favela a miséria é colorida..." Eu vinha de avião e parei em Maiketia, em Caracas, na Venezuela. E era véspera de Natal e eu tinha que chegar no Rio, por causa dos meus filhos que eram meninos. Aí o avião enguiçou e eu tava nervoso. Então resolveram que eu ia dar um passeio pela cidade e me colocaram num automóvel com um camarada muito educado; e fomos conhecer um bairro que só tinha Cadillac, BMW, essas coisas, e casas bonitas; era uma favela com casas bonitas e pintadas. Quando cheguei no meu gabinete, tava um colega meu do Diário Carioca, muito safado, muito meu amigo. E eu comentei com ele que tinha visto um negócio que me chamou atenção em Maitequila. Eram as favelas todas coloridas. No dia seguinte, ele publicou: "Saladini quer pintar as favelas".

LOU: Era seu "mui amigo"
MÁRIO: Mas foi bom porque eu me elegi deputado por causa disso. Aí o Dom Helder Câmara começou a me esculhambar e eu esculhambava ele. Eram 3 televisões. Ele ia nas 3; eu também ia. Me elegi 3 vezes nessa brincadeira.O CLUBE DOS "CAFAJESTES"

LOU: Você é do Clube dos "Cafajestes". Me conta esse babado.
MÁRIO: Eu sou um dos criadores. Era o instituto da boemia carioca. Foi criado no meu apartamento, na Av. Atlântica, esquina da República do Peru. Em cima do Alvear. E ali iam jovens da sociedade, aos sábados e domingos. Depois que saíam do Botafogo e do Fluminense, daquelas tardes dançantes, iam pra lá. E lá tava a juventude daquela época. Éramos um grupo de jovens entre 25 e 30 anos, alegres, de classe média ou ricos; éramos todos mulherengos e vivíamos cercados de mulheres deslumbrantes. O nosso esporte era rir, beber e, entre outras coisas, fazer as maiores estripulias por toda a cidade. Éramos unidos em uma amizade que perdura até hoje, despojada de preconceitos. O clube primava pelo espírito de gozação, esse espírito nosso bem carioca, embora nem todos tivessem nascido aqui no Rio.
LOU: Todos trabalhavam?
MÁRIO: Nós usávamos este título: "cafajestes'", mas não tínhamos nada de cafajestes. Quase todos tinham curso superior, trabalhavam e falavam línguas (nada a ver com os Pitboys de hoje). Eram profissionais do Banco do Brasil, da Aeronáutica, de vários matizes. Tínhamos um modo irreverente de debochar do cinismo de uma sociedade, que se importava mais com as aparências do que com a nossa verdadeira integridade moral. Até hoje, os que ainda estão vivos, três ou quatro são casados com a mesma namorada daquela época. Você vê que o amor dos cafajestes é eterno.

LOU: E quais eram os cafajestes? Você sabe o nome de todos?
MÁRIO: Eram vários: Mariozinho de Oliveira, Carlinhos Niemeyer, Edu (da Panair), Príncipe Dom João de Orleans e Bragança, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Heleno de Freitas, Ibrahim Sued, Léo Peteca, Jorginho Guinle, Baby Pignatari, Vadinho Dolabella, Celmar Padilha, Paulinho Soledade, Sérgio Pettezzoni, Cassio França, Oldar Fróes da Cruz, Darcy Fróes da Cruz, no meu livro, "Cafajestes" com Muita Honra!, tem o nome de todos.

LOU: Me conta. O que vocês aprontavam?
MÁRIO: Nós, naquela época, não tínhamos aquela facilidade que se tem hoje, de lugar pra dar festas. Então, nós alugávamos casas vazias, em Copacabana, condenadas à demolição e fazíamos as festas. Quando acabavam, quase não havia muito o que demolir. Tem até umas engraçadas. LOU: Conta as engraçadas.
MÁRIO: Nós alugamos uma casa e cismamos de arrumar uma decoração com um negócio de bambu. Mas acontece que um amigo, que ainda está vivo, graças a Deus, e uma namorada foram lá pra cima... Mexeram muito e aquilo caiu, desabou, foi uma gargalhada geral. Tudo era muito esportivo; adorávamos penetrar em festas, pulando o muro. Mas eram as nossas festas as mais disputadas da cidade, principalmente aquelas à fantasia, com muita bebida, boas orquestras e as mais brilhantes mulheres.O Mariozinho de Oliveira provocou uma famosa briga no Copacabana Palace, ao colocar um saco de gelo, dentro do biquini de uma corista, no Golden Room... Outra do Mariozinho: eram mais de 10 horas da noite, quando o telefone tocou no luxuoso apartamento dele. Lá do interior da Bahia, uma mulher com voz bem arrastada, que queria saber quanto custava um título pra ingressar no "Clube dos Cafajestes". Mariozinho respondeu:
- Quinze milhões, só que já estão esgotados... Mas se a senhora me der dois milhões por fora, posso dar aquele jeitinho...
_ Então me dê o endereço da sede.
_ Do lado ímpar da Avenida Atlântica...

LOU: Antigamente a bagunça era sadia.
MÁRIO: Aliás, agora mesmo no Jornal do Brasil, aquela menina, a Peltier, escreveu uma coisa, deve estar por aqui o recorte.

LOU: Ah! Muito legal.
MÁRIO: Isso foi em 14 de janeiro e eles fizeram uma molecagem comigo. Eu perguntei qual era o traje e disseram pra eu ir como quisesse. Cheguei lá e estava todo mundo de esporte fino e eu tava de short, que eu adoro andar de short. Foi aquela molecagem. Vim em casa, pus uma calça e voltei. Quando eu voltei, ah não! Estavam todos bem à vontade... Eles me pregaram uma peça. E saiu isso no jornal do Brasil.

LOU: Leio todo dia a Marcia Peltier. Mas conta outra dos "cafajestes". Que mais vocês aprontavam?
MÁRIO: Tem outra do Mariozinho: ele estava com o grupo em Teresópolis, quando soube que um morador vizinho ia ser enterrado à tarde. O "clube" arrumou um caixão e, com o Mariozinho dentro, saíram pela rua... Quando chegaram bem perto do verdadeiro cortejo fúnebre, o Mariozinho se levantou gritando: - estou vivo, estou vivo! Foi uma correria danada; e largaram o caixão com o verdadeiro defunto no chão...

LOU: E droga nem pensar, ainda não se conhecia né? Isso é coisa recente. E o álcool?
MÁRIO: Drogas? Absolutamente não. Quanto ao álcool, eu por exemplo, não bebia. A nossa base era Copacabana, mas as nossas molecagens percorriam toda a cidade. Andávamos sempre juntos, o ano todo. As Brigas, na grande maioria, eram provocadas por gente de fora, que ficavam com ciúme ou coisa assim... E tem mais: só se metia conosco quem não nos conhecia. Nossos punhos eram a nossa arma... Só quando a coisa ficava feia, apelava-se pra um caco de garrafa.

FESTAS DO "CAJU AMIGO"

LOU: E o "Caju Amigo?"
MÁRIO: Nós é que inventamos. Nós, não, o flamenguista e produtor do Canal 100, Carlinhos Niemeyer promovia uma festa, regada com muita batida de caju, dias antes do carnaval, que não tinha dia certo, nem hora pra começar e pra acabar. O segredo era bem matemático: convidar três mulheres pra cada homem... Nós tínhamos o prazer de quebrar com os preconceitos. Num dos desfiles do Caju Amigo, o Carlinhos levou 20 meninos do Morro do Cantagalo para um banho de piscina no luxuoso Copacabana Palace. LOU: Onde eram as festas do Caju Amigo?
MÁRIO: Começou na boate Vogue, no Leme, mas, em 1955, o Vogue pegou fogo e o Caju Amigo ficou itinerante ...
O "grupo" conseguia a casa de amigos solteiros, se cotizavam e todos levavam bebidas e belas mulheres. Nós fazíamos muito no Marimbás. No "Au Bom Gourmet" a atriz Jane Mansfield, uma atriz escultural, louríssima de seios enormes, dançou em cima da mesa, totalmente nua... efeito produzido pela famosa mistura do Caju Amigo....E fazíamos, no Copacabana Palace, o Baile da Champagne. Nós alugávamos o Marimbás e fazíamos muitas festas lá. Agora, de vez em quando, saía pancadaria porque os caras queriam invadir e nós não deixávamos. E outras vezes era por ciumeira. Isso aqui não foi mamãe que beijou não; foi um soco, porque eu também levei.

LOU: Mostrou uma marca na mão. Esse foi você quem deu, né?
MÁRIO: Esse foi. Mas eu também levei na testa. Lê o livro e vê. Eu pintei e bordei; não foi brincadeira. Até bem pouco tempo eu ainda fazia minhas loucuras de maio, mas agora eu tô mais calmo.

LOU: E os seus amores? Como é que você foi de amores?
MÁRIO: Ah, foi a única coisa em que eu fui bom mesmo. Eu namorava muito as meninas da Escola Normal. A gente ficava por ali e os meninos do Colégio Militar impressionavam... E aquele pessoal do Pedro II e de outros colégios ficavam com uma ciumeira danada. Namorei muito e na minha época... eu não me arrependo... fui feliz. Depois eu era metido a fazer acrósticos. Pegava o nome da pessoa e era uma brincadeira... E eu publicava na revista Inspiração. E fui internacional: amei francesas, portuguesas, inglesas, mexicanas... Mas o meu verdadeiro e único amor é brasileiro e se chama Nely.
LOU: Você casou quantas vezes?
MÁRIO: Casar, no duro? Casei a primeira vez com uma moça de Campos. Durou muito pouco. No Cassino da Urca, na véspera de Natal, um cara foi pedir pra dançar com a minha cunhada, linda, que ainda não era casada. Aí, a mãe dela, minha sogra disse: - Não, ao invés de você dançar com a Magali, dança com a Eli, que era a minha esposa. Aí, me virei e disse:
- Quer dizer a Eli, que é casada, pode dançar.
- É que o noivo dela não gosta que ela dance com ninguém.
- Aí eu disse: E o corno aqui deixa, né.
- Aí fiz um escarcéu danado, bati no cara e tive que sair; o Joaquim Rola veio atrás de mim, foi um salseiro. Passei a noite fora e, no dia seguinte, era Natal... E nos separamos. LOU: Você era muito brigão, né?
MÁRIO: Era sim.

LOU: Agora, o segundo casamento.
MÁRIO: O segundo não foi casamento. Foi a Miss Alagoas que viveu comigo 5 anos. Quase casamento, semicasado, muito boa moça, linda, linda, linda. O que eu briguei por causa dessa mulher... Eu tava no Bolero, aí aqueles caras vieram, os soldados americanos, e passaram a mão nela. Aí eu porrei os caras e rolamos no chão. Apanhei, bati. E por causa das constantes brigas, também rompemos.

LOU: Você tem foto da primeira mulher? Você só me deu o da alagoana.
MÁRIO: Da primeira eu não tenho. Nem atestado de óbito. Só tenho certidão de divórcio.

LOU: Ah, parabéns, já é uma grande coisa. Agora, a terceira.
MÁRIO: A terceira não, a segunda, porque não me casei com a alagoana. Foi a Heloísa, e ela é a mãe dos meus três filhos. Foram 18 anos de casados. E mantivemos a amizade mesmo depois de separados.

VERDADEIRO AMOR

Além do Caju Amigo, nós também fizemos sucesso com outras festas, como a do Baile do Popeye, no clube Marimbás, o baile da Amizade e o do Champanhe, na piscina do Copacabana Palace.Estou lembrando disso porque, em 1970, numa festa no Botafogo Futebol e Regatas, notei um grupo de belas mulheres, acompanhadas pelo jornalista Castro, diretor do Jornal de Turismo. Ele veio me comunicar que elas queriam participar do "Baile do Popeye". Eu disse:
_ Como presidente do Clube dos Cafajestes, posso realizar o desejo delas se aquela morena linda me solicitar pessoalmente. E graças a Deus ela veio me pedir e eu pedi pra ela ser minha companheira pra toda a vida. Estamos juntos até hoje e posso lhe dizer que descobri o verdadeiro amor.

LOU: Você ainda exerce alguma atividade?
MÁRIO: Graças a Deus eu tenho vários grupos e a gente se reúne uma vez por mês. Quer dizer, pelo menos quatro vezes eu tenho quatro grupos de outros setores da atividade normal. Depois, eu tenho meu escritório aqui em frente, na Pizzaria Guanabara, onde dou expediente, tomando chopinho. Aí a turma telefona e pergunta: - Quantos processos você já despachou hoje? Aí digo: - Perdi a conta; eu acho que uns cinco, seis, dez...

LOU: Você procura cultivar as antigas amizades e continua em plena atividade.
MÁRIO: Em total atividade. Você não pode renunciar a um direito que você tem, que é de graça, de poder usufruir dessa vida que Deus te deu, com esse sol brilhante, com essa alegria que o carioca esparge por aqui. Inclusive eu sou partidário de que a vida continua até quando Deus quiser. E enquanto eu tiver vivo, eu vou gozar a vida.

LOU: Agora, eu queria que você mandasse um recado, pras pessoas, porque você mostrou que a amizade te ajudou sempre a subir mais, ao contrário de outras pessoas que pra subirem pisam nos outros, gerando inimizades.
MÁRIO: Com meus quase 90 anos, eu vou dizer a você: em 1º lugar eu fui um jovem que nunca fumei, sempre pratiquei muito esporte, fui um dos camaradas mais fortes do Colégio Militar. Na minha época, só pensava nisso, remava pelo Flamengo, fazia meu esporte da praia, jogava peteca, eu era bom na peteca. Eu só fazia duas coisas: esporte e trabalhar para poder viver. Então, isso é a primeira mensagem que eu tenho pra dar. Depois, você não precisa praticar indignidade, querendo derrubar os outros pra vencer na vida. Porque eu sempre venci na vida fazendo amizades, e em cada amizade que eu fiz, sempre melhorei de vida. Sem pisar em ninguém e sem menosprezar aqueles que não tinham a mesma sorte que eu tive. Portanto, eu digo que sou um cara feliz por isso. Eu tenho amigos, muito bons amigos e de vez em quando aparece um pilantra e, dentro de um contexto, eu posso dizer que deve ter alguém que não gosta de mim.

LOU: Você não precisa se preocupar em agradar a todo mundo... Muito obrigada, Mário Saladini, um exemplo de "Velho Amigo"!

Autor(a): Maria de Lourdes Micaldas

 

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