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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

MARTINHO DA VILA FAZ 81 ANOS!
publicado em: 25/02/2019 por: Lou Micaldas

Martinho da Vila | Marcos Ramos

Martinho da Vila: 'Estou cansado de cantar que a vida vai melhorar'

Faz mais de 40 anos que Martinho da Vila canta que “a vida vai melhorar”.

Aos 81, feitos dia 12/02, o sambista segue encarando a vida com olhos generosos, sem se deixar derrotar pelos reveses, mas... “É difícil imaginar que vá mesmo melhorar”, diz ele à coluna, durante entrevista em casa, na Barra.

Entre cigarros, cafés e muitas risadas, Martinho — descalço e jogado no sofá — fala do desânimo com o governo Bolsonaro, lamenta a permanência de Lula na prisão e faz críticas às escolas de samba e à produção musical brasileira. Tudo sem perder a ternura, como manda o manual do boa praça — o qual poderia ter escrito.

(Por Roberta Pennafort)

O jeito 'devagar, devagarinho' prolonga a vida?

Com certeza. Os infartos têm a ver com a vida agitada. Se já tive problemas de saúde, não me lembro. Deleto as dores da minha cabeça.

Sempre foi tranquilão assim?

Desde criança... Sempre andei devagar. Quando jogava bola na Boca do Mato, só entrava no segundo time, não passava pro primeiro. Eu não corria, jogava pra me divertir, não pra ganhar. Nunca suei a camisa. Vejo esse pessoal que até na pelada briga. Não tem lógica!

Sua mulher costuma reclamar do seu ritmo?

Ninguém pode reclamar, dizer dizer “ah, o Martinho é muito relaxado”. Olha tudo o que fiz (são mais de 50 anos de samba, 46 discos e 15 livros lançados, afora os feitos na Vila Isabel)!

Nem os anos de LPs campeões de vendagem foram agitados?

Minha vida nunca foi acelerada. Outro dia eu vi na TV um cara que fazia três shows no mesmo dia, em três estados diferentes do Nordeste. Comigo, se dissessem “Martinho, quer fazer dois shows?” Eu, não! Nunca fiquei correndo muito atrás...

O sucesso veio fácil então?

Pode-se dizer que sim. Fiz discos achando que não venderiam, mas venderam. “O canto das lavadeiras" (1989), que tem “Madalena do Jucú”, era um álbum com músicas folclóricas. Quem está interessado? Fui fazer um disco sobre a Vila Isabel, a gravadora reclamou: “Tem que fazer um disco pro Brasil inteiro!” Pois estourou. Tinha aquela “Na aba do meu chapéu...”

A idade o assusta?

Nunca pensei muito nisso. Fazer 80 é gozado, é festa. Mas quando você faz 81... é uma idade! Devo ter mais uns 15 anos. Dá pra escrever 15 livros, 15 sambas-enredo, gravar 15 discos... Minha mãe morreu com 96. Não tenho medo da morte. É uma coisa certa.

Não tenta parar de fumar?

Não fumo muito, são uns cinco cigarros por dia. Eu fumo, coloco no cinzeiro, vai queimando sozinho... Eu me habituei assim. Fumo há 77 anos, desde os quatro.

Desde os quatro anos de idade? Como assim?

Antigamente havia crianças que tinham mania de comer terra. Eu engatinhava e comia, aí me habituei. Hoje não tem mais isso, porque não tem mais terra pra comer. Minha avó dizia: “Dá um cigarrinho quando ele comer”. Era tipo um castigo. Naquele tempo não tinha isso de “cigarro mata”. Aí eu, pequenininho, parei de comer terra e gostei do cigarro. Mas nunca traguei, é como quem fuma charuto. Dá nervoso ver quem traga! Meu pulmão é limpinho. Hoje o fumante é visto como um subversivo no tempo da ditadura.

Você já foi de beber muito também, não?

Já fui muito viciado. Se não fui alcoólatra, cheguei bem próximo. Tinha muitos problemas. A gente saía pra tomar cerveja por aí e eu gostava de fechar botequim. Os caras varrendo, virando as cadeiras, e eu pedia: “Bota mais uma!” Hoje, não. As pessoas dizem que é porque fiquei velho. Mas é porque já fiz demais.

São oito filhos, dez netos e três bisnetos. Senta para brincar?

Não... Criança é bom dormindo, no parque ou na foto! Se você brinca com a criança, ela quer a vida toda: “De novo!”

Ouve música em meio digital?

O que gosto de ouvir tá difícil. Pegar um disco de um bom cantor ou compositor, acompanhar as letras. De Jorge Ben a Mart’Nália. Mas a música atual não é pra se prestar atenção, ninguém prima pela riqueza poética nem melódica. Quando vou pra roça (sua cidade natal, Duas Barrras, no interior do Rio) ouço no carro, mas a Cléo (sua mulher há 25 anos) comprou um que não tem lugar pro CD! Eu falei: “Mas num carro moderno desse?” Continuo lançando CDs porque ali tem uma conceito.

Falando em Mart’Nália, quando soube que ela era lésbica?

Não teve um papo sério, nada disso. Quando vi, ela tava noutra, achei normal...

Está acompanhando o debate no STF sobre a criminalização da homofobia?

Tem que criminalizar. A natureza fez o gay, tem que entender. O discurso do Bolsonaro estimula a violência. Até a forma de ele falar. Você ouve a discussão com o ministro, não parece um presidente, mas dois caras discutindo na rua.

O que acha das denúncias de racismo que têm sido continuamente reverberadas por meio das redes sociais?

Antes, muita coisa era por baixo do pano, as pessoas não tinham espaço para falar. Quem faz piada racista diz que não é racista, mas é. A mesma coisa o homofóbico. Acho incrível, no tempo de hoje, esse assunto ainda existir.

Como vê o futuro do Lula?

É uma injustiça muito grande. Não precisa ser lulista para lembrar que com ele o Brasil tava lá em cima, era outro país. Uma pessoa dessa estar presa por um fato miúdo, e sem prova... Acho que ele não vai sair tão cedo. O Bolsonaro falou, ele vai mofar na cadeia.

O carnaval está aí. Vê solução para o imbróglio do financiamento dos desfiles?

O estado tem que dar dinheiro, porque as escolas revertem em turismo. Mas com o que se arrecada no Grupo Especial, com a Liesa e a TV, uns R$ 4 milhões, dá pra ser campeão. Não precisa ter drone, gastar R$ 10 milhões. É fora da realidade brasileira. Dá dois apartamentos desse aqui. Um carro alegórico custar vários carros de passeio...

A vida vai mesmo melhorar?

Vai nada! Agora eu canto: “Estou cansado de cantar que a vida vai melhorar”. Mas o pessimista já perdeu a guerra. Se dizem que o Vasco tá fraco, não tem estrela, já perdeu. Mas se fala “acho que dá”, pode ganhar, como ganhamos.

Autor(a): Roberta Pennafort
Fonte: blogs.oglobo.globo.com/marina-caruso/post/martinho-da-vila-estou-cansado-de-cartar-que-vida-vai-melhorar.html

 

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