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INFORMAÇÃO / GENTE EM FOCO

NELSON SARGENTO, UM ARTISTA QUE, AOS 93 ANOS, QUER MUITO MAIS
publicado em: 02/02/2018 por: Lou Micaldas

Carnaval 2015, desfile da Mangueira na Marquês de Sapucaí, Sambódromo
Foto: Fábio Rossi

Compositor, pintor, intérprete, ator, escritor... As múltiplas facetas do mangueirense que diz não estar ainda realizado e que, em breve, lançará canal no YouTube   

RIO — Nelson Sargento gosta de repetir que não é um sujeito realizado. E mais: que ainda tem muito o que aprimorar. “Sou um artista quase completo”, diz o mangueirense, de 93 anos, que conta com uma ficha de respeito — compositor, intérprete, artista plástico, ator, autor de trilha sonora, pesquisador e escritor, como mesmo explica (na lista, ele só se esqueceu de incluir piadista...). Seria surpreendente se a idade não pesasse mais. Mas o fato é que, somente há um mês, foi obrigado a adotar a companhia de uma bengala, que espera ser a primeira e última com as sessões de fisioterapia para os joelhos, castigados pela artrose. Ele bate de leve com a mão direita no coração e avisa: 12 por 8.

— E parafusos ajustados — completa seu Nelson, um poço de criatividade que mantém uma agenda de atividades de fazer inveja a muitos baluartes.

Presidente de honra da Mangueira, ele se prepara para lançar seu canal de entrevistas e uma animação infantil no YouTube, tem três sambas em construção com parceiros diferentes e mais três telas sendo finalizadas, tudo ao mesmo tempo. A agenda de projetos e shows é cheia, e, em breve, seu Nelson volta a dar pinta de ator, numa participação em “A força do querer”, de Glória Perez. Produtora e nora, casada com o filho caçula do sambista, Ronaldo, Lívea Mattos está proibida de marcar qualquer compromisso na hora da novela. Ele, inclusive, vez ou outra procura a novelista para saber de antemão os próximos capítulos — geralmente via WhatsApp, mas já falou com Glória pelo Twitter. Lívea é a porta-voz nas redes do mestre, que tem sua definição particular sobre a internet:

— É a maior delatora do universo! Bateu lá, o mundo inteiro sabe. Mas o delator é muito importante para a história. Todo mundo tem raiva do delator; claro, é um safado. Mas graças a ele a história continua — opina o artista, rindo e dando como exemplo o caso de Tiradentes.

De volta às origens, na Tijuca

Ele chega para a entrevista — no edifício Seresta, dentro de um condomínio em Vila Isabel, onde moram Ronaldo e Lívea — de calça e camisa social impecáveis, assim como os sapatos, que brilham. Uma jaquetinha Pierre Cardin finaliza o visual elegante num dia de chuva. O encontro era para ter ocorrido na sua casa, mas Nelson está de mudança: acabou de trocar o apartamento alugado há cerca de 20 anos na Rua Francisco Sá, em Copacabana, por outro, igualmente alugado, na Rua Maria Amália, na Tijuca. É um retorno às origens. Nelson recorda que nasceu na Santa Casa de Misericórdia e que passou a infância no Morro do Salgueiro com a mãe, Rosa Maria da Conceição, empregada doméstica, antes de subir a Mangueira. O pai, nessa época, estava “extraviado”: diz que só foi conhecê-lo quando tinha de 10 para 11 anos.

Os herdeiros do imóvel de Copacabana resolveram colocá-lo à venda, e Nelson está naquela fase complicada de adaptação ao novo endereço. Diz que vai levar um tempo para fazer novos amigos. E está no aguardo para ver remontado seu ateliê, onde pinta seus quadros, identificados com a arte naïf (há poucos dias, entregou a Caetano Veloso um passista colorido que o próprio aniversariante pediu, numa campanha entre amigos, de presente). O trabalho de criação acontece ao som de música clássica e jazz.

— A casa está toda embarafustada! Chamaram uma firma que encaixota tudo de qualquer forma e maneira. Numa caixa, está escrito cozinha, mas quando você abre está cheia de roupa — reclama, com o típico bom humor, e citando uma das palavras que adora (embarafustado).

Ele escutou o verbo pela primeira vez numa canção antiga (“Num galho de acácias”). Aquilo ficou martelando, e ele fez a letra do inédito samba “Embarafustado”, musicado por Agenor de Oliveira, seu parceiro hoje mais recorrente. “Me embarafustei completamente no seu olhar ardente/ pontilhado de emoção/na volúpia do desejo o que eu mais almejo/ é possuir seu coração”.

Aos 12 anos, o menino Nelson Mattos saiu do Salgueiro com a mãe, que foi viver com Alfredo Português na Mangueira. O padrasto trabalhava na construção civil, mas sua casa era frequentada por bambas como Carlos Cachaça, Cartola, Aluísio Dias e Geraldo Pereira. Com ele (de quem imita o sotaque português), o futuro autor do clássico “Agoniza mas não morre” —“Samba,/agoniza mas não morre,/alguém sempre te socorre,/antes do suspiro derradeiro”) —, deu seus primeiros passos no mundo do samba após deixar o Exército, obviamente, como sargento.

— Quando saí do Exército, só sabia fazer duas coisas: cantar samba e pintar parede. Então, me entreguei de corpo e alma a isso (na verdade, às duas aptidões). Alfredo me ensinou a fazer violão e me deu umas aulas de samba — lembra, complementando. — Porque samba não se ensina, disse o Noel. Mas cheguei à conclusão de que você, quando quer fazer alguma coisa, tem que ter um princípio. E eu vi que nas letras de samba há uma mensagem, uma história. Baseado nisso, cheguei à conclusão de que você tem que ter, principalmente em matéria de poesia, uma palavra para começar. Como a palavra estupefato! Aí, você achou o assunto para desbaratar.

Para registrar suas ideias, ele faz uso de um gravador. De fita cassete.

— Ele adora escrever, ouvir música, pintar. Agora mesmo está na sala compondo. Não sabia e entrei falando. E ele: “outra vez sua voz no meu gravador!” — relata Evonete Belizário, sua mulher, de 67 anos, imitando a fala sempre doce do marido, enquanto conversa por telefone.

Nelson, além de piadista compulsivo — do tipo que liga para parentes e amigos para perguntar “quando o leite vira música? É uma música que Chopin faz...” —, é um frasista reconhecido. Agenor de Oliveira já editou um livro, chamado “Pensamentos”, em que reúne tiradas do compositor.

— Ele tem frases ótimas. Eu, preocupado, querendo colocar na rua logo um projeto nosso de inéditas com orquestra, num momento em que os recursos são escassos, e ele fala para mim: “parcerinho, não se afobe não que nada é para já, como diria o Chico. Mas a vida só é boa para quem pode esperar” — conta Agenor, com quem Sargento fez, entre muitas, “Sinfonia imortal”. — Eu digo que o Nelson é um sargento com fôlego de recruta. Tem um dinamismo impressionante para a idade e vida que teve. As dificuldades não afetaram o seu humor. Não é uma pessoa resignada, nem magoada com a vida. O preconceito, às vezes velado, às vezes explícito, ele conseguiu superar. E, sobre a idade, ele diz que tem nove ponto três.

O artista não gosta de contar tempo. Pai de sete filhos, com mais de 30 netos e 20 bisnetos, ele é um elo entre o passado e o presente da Mangueira.

— Ele é a última grande referência da Mangueira viva — comenta o pesquisador André Diniz, autor, com Diogo Cunha, do livro “Nelson Sargento — O samba da mais alta patente”.

Crítico, mas com leveza

Sargento não foge à responsabilidade:

— Todo mundo inventa um sobrenome para o samba. Samba pop, samba reggae, sambanejo... Tô aí para conservar o samba que vem da época de 20. Esse batizaram de samba de raiz. É o que ouso fazer. No meu samba, tem um pouco de Alfredo, de Carlos Cachaça, de Ismael, de Cartola, Noel...

Na política, Nelson brinca que fica em cima do muro, ora olhando para direita, ora para a esquerda, sem se decidir. Quando o assunto cai para o lado do samba, é crítico à sua medida:

— Quando se quer acabar com alguma sociedade, algo de coletividade, você não bota polícia em cima: você entra nela e vai minando. Depois, aquela atividade está na sua mão. Aconteceu com o samba isso. Alguém descobriu que existia um lugar com espetáculo bom e de graça: eram os ensaios de escolas de samba. E foi para lá que eles foram, minando, minando... Hoje as escolas de samba são um produto dessa invasão — analisa o sambista e pesquisador, para concluir em seguida. — Eu respeito todas as escolas de samba por um simples detalhe: cada uma defende o samba à sua maneira. Todas elas brigam e trabalham em prol de um cara que se chama samba.

Vascaíno e “católico-apostólico-brasileiro-sambista”, reza três vezes ao dia. Antigamente, bebia cachaça antes e depois dos shows. Hoje, prefere, com muita moderação, cerveja Caracu e uns goles de vinho. É com leveza que ele leva a vida, atesta Lívea, sua escudeira:

— Ele tem a lucidez de um jovem e o entusiasmo de uma criança. E tem a experiência de não criar expectativas, principalmente com relação às pessoas. As dores para ele, então, são mais leves, mais passageiras.

A entrevista acaba não sem antes ele pregar uma peça:

— A Mangueira fez uma falsidade comigo — começa, para espanto da repórter. — Foi fundada em 1928, e eu nasci em 24. Não tiveram coragem de me chamar para a fundação! — termina, às gargalhadas de si próprio.

AGONIZA MAS NÃO MORRE

EU SOU O SAMBA

Autor(a): Jornal O Globo
Colaborador(a): Carmen Rodrigues Oliveira

 

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